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Romy

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MensagemAssunto: Uma ajuda que os Media não devem procurar   Ter Fev 10, 2009 11:41 pm

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UMA AJUDA QUE OS MEDIA NÃO DEVEM PROCURAR

João Miguel Tavares
Jornalista - jmtavares@dn.pt

Num dos curtos intervalos da sua laboriosa actividade enquanto inquisidor- -mor do reino socialista, Augusto Santos Silva disse uma coisa acertada, por mais estranho que possa parecer. "Na actual conjuntura", afirmou o ministro na sexta-feira, não deve ser dado "nenhum apoio específico" ao sector dos media.

Esta recusa por parte do Governo de um tratamento de favor para os grupos de comunicação social surge na sequência de uma série de propostas que defendem a atribuição de incentivos fiscais às empresas que investirem em publicidade. Santos Silva disse não - e bem.

É certo que para um meio que já andava mal de saúde esta gigantesca crise é como ser atropelado por um autocarro quando se acabou de cair do comboio. Do comboio da História, mais precisamente: a indústria dos media ainda não encontrou uma solução economicamente viável para fazer face ao avanço da Net e de toda a informação que ela disponibiliza de forma gratuita. Esta erosão ininterrupta no número de leitores é uma situação preocupante, com certeza, mas a resposta não pode passar por ir bater à porta do Estado, como é costume indígena. Para cruzamentos duvidosos entre poderes já temos a política e a justiça, e não há nada mais deprimente do que ver estatutos editoriais cheios de belas palavras e notícias cheias de tristes favores. Quem recebe mesada do papá segue as regras da casa, e qualquer forma de dependência da comunicação social de beneplácitos alheios só pode acabar mal e a pagar juros em papel impresso. Seja ao anunciante todo- -poderoso, seja ao ministro voluntarioso.

Deter um meio de comunicação social ou ser um jornalista foi durante anos uma medalha para exibir na lapela. Muitos patrões olharam para os media com complacência (mais para dar prestígio do que dinheiro) e muitos jornalistas nunca perceberam o significado da palavra "empresa" (e muito menos se acharam co-responsáveis pelo seu desempenho). Só que esse tempo acabou. A crise? Os postos de trabalho? Isto eu sei: eles não podem ser protegidos com a mão estendida à frente do Palácio de São Bento. O que não falta são exemplos na História a demonstrar que mais vale um jornal morto do que um jornal refém do poder. O morto, pelo menos, não faz propaganda. Só que em Portugal, infelizmente, a cultura que durante muito tempo dominou os media nunca percebeu bem a íntima ligação entre independência financeira e liberdade de escrita. Nem que pode ser mais livre, mais irreverente e por isso mais corajoso um tablóide de títulos garrafais que pague as suas contas no final de cada mês do que um muito pomposo jornal de referência que dê prejuízo ano após ano. Algum dia se tem de acordar do sonho. |

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Embarassed
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Romy

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MensagemAssunto: Capitalismo "versus" socialismo   Ter Fev 10, 2009 11:49 pm

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[size=150]CAPITALISMO 'VERSUS' SOCIALISMO [/size]

Mário Soares

A grande crise em que o mundo parece ter mergulhado aprofunda-se todos os dias e atinge todos os continentes. É uma crise verdadeiramente global cujo remédio não surge claro, para ninguém.

Durante os anos de esperança que se viveram nas décadas "gloriosas", após a hecatombe da Segunda Guerra Mundial, os comunistas anunciavam a crise geral do capitalismo que não deixaria de aí vir, segundo as análises marxistas. Houve, de facto, pequenas crises, mas nada que se comparasse com a grande crise de 1929, que parecia ser a máxima referência maligna.

O capitalismo reformulou-se. Surgiram as sociedades de bem-estar, a segurança social para todos, o New Deal de Roosevelt, o trabalhismo inglês e as nacionalizações do pós-guerra e o socialismo democrático dos nórdicos, e a pouco e pouco, com nuances, do resto dos países europeus que pareciam assegurar a paz, o bem-estar e uma certa harmonia social. Tanto mais que se generalizaram a quase toda a Europa Ocidental, com as excepções negras - até à Revolução dos Cravos de 1974 - da Península Ibérica e da Grécia, as únicas três ditaduras fascistóides que sobreviveram na Europa dita Ocidental, à vitória dos Aliados.

O comunismo soviético consolidou-se, influenciou, com crises várias, as Repúblicas Populares do Leste Europeu, comunicou-se à China - que em breve se tornaria um comunismo rival da URSS -, à Coreia do Norte, ao Vietname e, com algumas outras pequenas experiências frustradas, a Cuba.

Contudo, o capitalismo ocidental manteve-se, próspero, superou as chamadas "crises do petróleo" e, entretanto, deu-se a magnífica surpresa, totalmente inesperada, da implosão pacífica do universo comunista, com a queda do Muro de Berlim, da Cortina de Ferro, da URSS, transformada em Confederação Russa, da integração das Repúblicas Populares na União Europeia e a grande transformação da China, com Deng Xiao Ping, que tentou conciliar o regime comunista de partido único com a economia de mercado e o pior dos capitalismos, o mais selvagem...

O chamado Ocidente - e, em especial, a América do Norte - exultaram com a implosão do universo comunista e cometeram o erro fatal de se considerar "donos do mundo", com Bush tentando marginalizar as Nações Unidas, procurando generalizar a chamada "democracia liberal", a globalização sem regras éticas, o "capitalismo de casino", o unilateralismo ao universo inteiro, caindo com a sua sobranceria de "vencedores" - sem remédio - nos atoleiros das guerras do Afeganistão e do Iraque, verdadeiros sorvedouros de recursos, e dando luz verde a Israel para atacar o Líbano e a Faixa de Gaza, dois outros erros imperdoáveis.

Veio a crise financeira e económica global - com os subprime, as roubalheiras em larguíssima escala, feitas secretamente em offshores, as falências escandalosas de bancos, companhias seguradoras, grandes empresas e de especuladores criminosos, como Madoff, que foi um exemplo maior. O neoliberalismo como sistema económico afundou-se, com o mesmo espanto público e rapidez com que se tinha afundado, quase 20 anos antes, o universo comunista. E, as pessoas perguntam-se, legítima e angustiosamente: e agora?

A crise - note-se - não foi uma novidade. Tinha sido anunciada por politólogos, economistas, sociólogos e alguns comentadores mais avisados. Mas ninguém ligou. Tanto que chegou com pés de lã e começou por ser um espanto - uma enorme surpresa - para os banqueiros, gestores, políticos, economistas, empresários e especuladores envolvidos.

Apesar dos múltiplos avisos, nunca lhes passou pela cabeça que lhes pudesse acontecer, ou melhor: que lhes caísse em cima da cabeça, com a brutalidade que tem acontecido...

E agora, repito? O Presidente Obama disse que "é preciso mudar o modelo económico". É evidente! Claro, o capitalismo financeiro especulativo faliu, como o neoliberalismo, que o tornou possível. Quanto a isso não há qualquer dúvida.

Embora as mentalidades de políticos, economistas, empresários e especuladores, na maior parte dos casos, ainda não tenham mudado. Por mais paradoxal que seja, as mesmas ideias e comportamentos persistem.

E, por isso, insisto: mas mudar, como? Respondo: buscando gente jovem, novos rostos de políticos, economistas e empresários, novas ideias, novos comportamentos. Sobretudo, com respeito pelos valores éticos, sociais e ambientais e habituando-se a uma estrita moralidade pública.

Passar do capitalismo para o socialismo? Como alguns sugerem, regressando às velhas utopias do século XX, em que tantas pessoas excelentes persistem em acreditar, neste início conturbado do século XXI?

Contudo, o socialismo totalitário - não o esqueçamos - faliu, tanto o de tipo soviético como o maoísta ou de Deng Xiao Ping, para não falar do fidelismo. Sem mercado não há cidadãos livres: há funcionários e escravos de um outro tipo, aprendemos isso com o colapso do universo comunista e, alguns de nós, em décadas antes, quando conhecemos a realidade dos goulags e os crimes de Estaline, através do relatório de Kruschev ao XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, que fica então?

Uma economia de mercado, mas com regras éticas e políticas estritas. Estados de direito capazes de controlar os mercados e de assegurar sociedades de cidadãos livres, pluralistas e participantes, democracias não oligárquicas como era o caso, mas sociais, preocupadas com o bem-estar de todos, com uma justiça independente, acima dos media, e com a defesa do ambiente, indispensável à sobrevivência da humanidade e da biodiversidade.

Claro que isso, nas suas grandes linhas, é o que, durante décadas, se chamou na Europa social-democracia ou socialismo democrático. Ou, se quiserem, um capitalismo avançado ou progressista onde o superior valor são as pessoas e não o dinheiro ou a pura especulação financeira...

Não creio que, de momento, se possa inventar nada de melhor, para conseguirmos sair da crise e conceder à humanidade uns anos de paz e de bem-estar, sob a égide da lei e dos grandes valores universais.

Um modo de conciliar dois valores antinómicos da Grande Revolução Francesa: a liberdade com a igualdade possível e também com a fraternidade, dado que, como humanos, pertencemos todos à mesma casa comum.

Contudo, é importante, direi mesmo, indispensável, regulamentar a globalização, sem o que, também, não venceremos a crise. Ora se a globalização económica é um facto irreversível e global, como está à vista, importa que se estabeleça uma regularização política global, mediante a reforma das instituições financeiras internacionais (Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional) e a sua integração nas Nações Unidas, reformuladas segundo os objectivos do milénio.

O que implica uma nova ordem mundial, com um esquema de governação mundial, que não seja um directório de países ricos, mas a consequência multilateral e democrática do mundo de hoje, com os países emergentes e blocos regionais que representam todos os continentes. Não vai ser fácil. Mas é o caminho que teremos de percorrer, abolindo as guerras e construindo um mundo melhor e mais humano.|

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Rolling Eyes
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Romy

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MensagemAssunto: As perguntas no Parlamento   Sab Fev 14, 2009 9:40 pm

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AS PERGUNTAS NO PARLAMENTO

João Marcelino
Director

1 Um primeiro-ministro vai ao Parlamento para defender as suas políticas, e é normal que use adjectivos. Os líderes da oposição estão lá para o questionarem, e ao Governo, e ganhavam em ser substantivos. Mas não. Como também julgam ser o seu destino "brilharem", para consumo externo e interno, os diversos líderes deixam, sistematicamente, José Sócrates passar pelos intervalos das perguntas com a habilidade política que se lhe reconhece.

Esta semana, depois de muitas e muitas polémicas estéreis, apenas Francisco Louçã conseguiu arrancar algo de importante ao primeiro-ministro, fazê-lo reconhecer aquilo que todos nós já percebemos: muito dificilmente o dinheiro dos contribuintes não será chamado a financiar o escândalo do BPN (que foi bem nacionalizado, mas isso é outra história).

De resto, pela vontade de arrancarem os aplausos das respectivas bancadas, e os dichotes indignados que fazem parte do chamado parlamentarismo, quem devia questionar acaba por se diminuir, e à pergunta.

No dia em que um qualquer líder parlamentar se centrar nas questões e as repetir tantas vezes quanto as necessárias, objectivamente, sem se desfocar nem querer "brilhar", os cidadãos vão ficar mais bem servidos - e, aí sim, esse político dará nas vistas.

2 Marcelo Rebelo de Sousa só faz a Manuela Ferreira Leite aquilo que sempre fez no PSD: servir as suas estratégias e os seus interesses. Não há nada de novo. As coisas piorarão bastante mais para a líder se algum dia, nos próximos meses, por um milagre não previsível face a tanto erro, as sondagens mostrarem a mais pequena possibilidade de o PS perder. Aí, sim, Pacheco Pereira, o D. Quixote desta história, verá que o perigo para a sua Dulcineia, escolhida e recomendada ao Povo, sempre ingrato e mal-agradecido, não é apenas Passos Coelho. A conjura tem mais moinhos.

3 Os processos vão sendo sucessivamente arquivados contra Pinto da Costa. Só avançará o "caso do envelope" ao árbitro Augusto Duarte, alegadamente recebido em casa do presidente do FC Porto na véspera de um jogo com o Beira-Mar, na época 2003/04. Tudo isto significa pelo menos duas coisas: a primeira, e essencial, que convém o Ministério Público arranjar provas antes de acusar alguém; segundo, que os julgamentos públicos são apenas uma parte da nova sociedade que construímos - e ainda bem que assim é. Mesmo quem, como eu, vê personificados no dirigente desportivo Pinto da Costa (e Valentim Loureiro, e Pimenta Machado) muitos dos males do futebol português não pode deixar de perceber que houve aqui uma tentativa de claro linchamento do ser humano.

Sejamos justos: a senhora Carolina Salgado, testemunha credível para acusar Pinto da Costa, o homem com quem viveu durante quase seis anos, não foi sequer processada quando no seu livro diz muito claramente que foi ela quem fez os contactos para mandar sovar um vereador de Gondomar, de seu nome Bexiga. O homem acabou, certamente por sorte, vivo, apesar de barbaramente agredido, mas a senhora ficou impune e tornou- -se numa estrela do jornalismo-benfiquista militante. Diz agora um juiz que o testemunho não é credível. Ou seja, afinal a justiça tem lógica.|

Vi ontem, pela terceira vez (sim, confesso), um Jornal Nacional da TVI de sexta-feira e fiquei estarrecido: os 30 minutos iniciais foram um conjunto inacreditável de "peças" de ódio e perseguição, um delírio justiceiro que abrangeu toda a semana, a propósito e a despropósito. Depois houve um intervalo e o delírio voltou, repetido, como se fosse um qualquer programa de humor. Sei que não é politicamente correcto dizê-lo, e a TVI é muito mais do que "aquilo", felizmente, mas "aquilo" é a desonestidade intelectual elevada a um nível sem precedentes. Coragem é outra coisa e não precisa de ser proclamada. Já agora: na ERC e na Comissão da Carteira não há ecrãs para ver este crime de lesa-jornalismo permanente à sexta-feira?

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MensagemAssunto: Sem retorno   Sex Fev 20, 2009 6:13 pm

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SEM RETORNO

António Vitorino
Jurista

Submergidos pela crise, tendemos a perder a visão do médio prazo e a reconduzir tudo às agruras da conjuntura. O que, sendo compreensível, não nos pode dispensar de tentar ver um pouco mais além e antecipar a sociedade que seremos quando finalmente emergirmos das dificuldades presentes.

Parece evidente que não voltaremos ao ponto onde estávamos antes da crise. A criatividade financeira que alimentou para os países, para as empresas, para as famílias e para as pessoas a ilusão de viver a crédito para sempre, vai conhecer fortes restrições durante bastantes anos. A seguir à crise teremos todos a sensação de estarmos mais pobres, no cômputo entre perdas reais e perdas virtuais ou meramente contabilísticas.

A intensidade da crise, sem precedentes nas últimas décadas, acentuará também o efeito predador do emprego que todas as anteriores crises cíclicas tiveram. O que exigirá um esforço adicional de imaginação e de concertação social para recuperar, na próxima retoma, ainda que apenas parcialmente, o emprego destruído pela crise em curso.

Os modelos de desenvolvimento ocidentais geraram uma retórica da contínua ascensão na escala social, como consequência do crescimento económico, do acesso universal aos sistemas de ensino e da correspondente melhoria das condições de vida. Esta aspiração a tomar o "elevador social" alastrou à escala planetária e, nos últimos anos, conheceu casos de sucesso na China, na Índia e no Brasil, quer em termos de luta contra a pobreza quer em termos de constituição de classes médias dotadas de aspirações próprias. Quando vemos que a crise, nos últimos seis meses, destruiu todos os progressos registados na Ásia nos últimos quatro anos em termos de luta contra a pobreza e quando tomamos conhecimento de que cerca de 30 milhões de chineses tiveram que abandonar as periferias suburbanas das grandes cidades para voltarem para as suas zonas rurais de origem por não terem mais emprego, do que estamos a falar é de seriíssimos retrocessos sociais de consequências ainda imprevisíveis.

Por tudo isto compreende-se que os decisores políticos estejam sobretudo preocupados com a reacção aos impactos imediatos da crise, no sentido de minorar os seus efeitos e de a tornar tão curta quanto possível. Mas isso não nos dispensa de reflectir sobre os grandes problemas económicos e sociais que teremos que enfrentar mesmo para além da crise e que tipo de vida colectiva vamos ter na próxima década. Essa reflexão poderá, em parte, iluminar as medidas de combate à crise, distinguindo entre as que antecipam o futuro e aquelas que apenas visam camuflar a pesada conta do passado. |

Nota final: A este propósito, na semana em que foi divulgado que, em 2008, mais de 35 mil imigrantes pediram a nacionalidade portuguesa, o presidente do Governo Regional da Madeira veio fixar em 20 o número de imigrantes extracomunitários a admitir na região... Para além de saber se o pode fazer, eis um bom exemplo de quem ainda não percebeu a sociedade em que terá que viver nos próximos anos (e eventualmente até... continuar a governar a Madeira!).

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MensagemAssunto: Três anos de Cavaco em Belém   Sab Mar 07, 2009 6:06 pm

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TRÊS ANOS DE CAVACO EM BELÉM

João Marcelino
Director

1 . Na próxima segunda-feira, cumprem-se três anos sobre o dia exacto em que Aníbal Cavaco Silva, acompanhado da sua família mais chegada, franqueou o portão principal do Palácio de Belém como 18.º Presidente da República Portuguesa - o primeiro eleito na área não socialista (com 50,59% dos votos), a contrapor à primeira maioria absoluta do PS, conquistada por José Sócrates meses antes.

Olhando retrospectivamente para este período, pode dizer- -se que a relação pessoal entre os dois homens teve, claramente, dois períodos.

No primeiro, que se estendeu até ao Verão passado, até ao momento da primeira intervenção presidencial sobre o então projecto de Estatuto Político-Administrativo dos Açores, Cavaco levou ao limite a "cooperação estratégica" com a maioria legislativa e o seu Governo.

Se alguma crítica se fez nesse tempo, e o PR ouviu-a e leu-a, foi a de que Belém estava demasiado em sintonia com São Bento, e não era, ou não estava a ser, tão fiscalizador em relação à actividade legislativa da maioria quanto o eleitorado tinha desejado que ele fosse ao dar corpo a duas claras maiorias em curto intervalo de tempo.

O segundo período começou precisamente a partir desse acalorado e surpreendente momento proporcionado pelo Estatuto dos Açores.

2 . Por oito vezes, Cavaco colocou o seu veto em diplomas vindos do Parlamento.

Na sequência temporal, relembro: Lei da Paridade (2 Junho/06), Estatuto do Jornalista (4 Agosto/07), Regime da Responsabilidade Civil Extracontratual do Estado e demais Entidades Públicas (24 Agosto/07), Lei Orgânica da GNR (29 Agosto/07), Lei do Divórcio (20 Agosto/08), Estatuto Político-Administrativo dos Açores (27 Outubro/08), Voto dos Imigrantes (4 Fevereiro/09), e, agora, a Lei do Pluralismo e da não Concentração dos Meios de Comunicação Social (2 Março/09).

Esta actividade só por má-fé pode dizer-se que é consequência do choque frontal entre Cavaco Silva e a maioria de José Sócrates.

Se virmos com rigor, o Presidente já exercera o seu veto por quatro vezes antes da polémica açoriana.

Se pessoalmente pode ter havido um antes e um depois "dos Açores", politicamente a coerência de acção manteve-se.

Pretender o contrário seria afirmar que o PR teria sido desleixado nos seus deveres durante dois anos e teria depois, por despeito político, exagerado no escrutínio da actividade parlamentar da maioria. Esse insulto nem sequer é respaldado por uma fortuita coincidência de factos.

3. A questão de fundo está em saber se o País ganha ou não em ter homens de diferentes famílias políticas nestes dois cargos.

Claramente ganha, e os portugueses têm sabido entender as vantagens desse equilíbrio, opção apenas quebrada no tempo em que António Guterres coexistiu com Jorge Sampaio.

Um PR atento, especialmente crítico, capaz de chamar a atenção para os problemas da sociedade nacional, exercendo sem fronteiras de cumplicidade partidária os seus poderes, é uma mais- -valia para o País. E é o que acontecerá de novo já na segunda-feira, quando Cavaco voltar ao Norte, aos concelhos de Barcelos, Braga e Porto, para realizar a quinta jornada do Roteiro para a Inclusão, dedicada ao desemprego e aos novos riscos de pobreza.

Além do mais, um PR de cor diferente da maioria executiva até tem muito mais peso quando utiliza a força da sua palavra para patrocinar importantes medidas do Governo; ou quando relembra o País a um partido, o PS, que pode ter tendência a preocupar-se de forma excessiva nos próximos meses com os seus equilíbrios internos...

No dia em que Cavaco Silva foi eleito, a 22 de Janeiro de 2006, fui cear a um restaurante de Lisboa. Numa mesa estava Marques Mendes, então líder do PSD, com os seus mais fiéis. Numa outra parte da sala, Ribeiro e Castro, na altura presidente do CDS/PP, também comia acompanhado de parte da sua direcção. Os comensais, separados por escassos metros, não escondiam alguma melancolia, apesar da vitória das respectivas famílias políticas. Tudo porque o novel Presidente da República levava ao limite do rigor a sua demarcação em relação aos dois partidos que oficialmente o haviam apoiado - e nem na hora da festa deixava que PSD e PP se colassem à sua vitória, que quis solitária. Três anos depois, este Presidente, obstinadamente geométrico, continua a fazer o seu caminho, não se importando sequer de ficar sozinho quando for caso disso. Sozinho entre os políticos, porque o País é outra coisa.

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Fantômas

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MensagemAssunto: Dias contados   Dom Mar 08, 2009 6:21 pm

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DIAS CONTADOS

Alberto Gonçalves
Sociólogo albertog@netcabo.pt
Terça-feira, 3 de Março

A CEGUEIRA DO HOMEM BRANCO

O dr. Gomes Cravinho, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, pediu aos militares guineenses para não serem "mesquinhos" e à Guiné-Bissau o "pleno respeito pela normalidade institucional".

A pertinência dos apelos percebe-se melhor se levarmos em conta que foram proferidos horas depois do assassínio de Nino Vieira. Parece que após demolirem à bomba a residência do presidente, e de este ter emergido dos destroços, os soldados insurgentes aproveitaram para o espancar, o furar com rajadas de metralhadora, o cortar à catanada e o decapitar. A ordem dos correctivos varia de acordo com as fontes, mas é inegável o propósito mesquinho, quase maldoso, do exercício. Na mesma linha geopolítica, presumo que o dr. Gomes Cravinho classifique os massacres no Ruanda de "irritantes" e o genocídio no Darfur de "aborrecido".

Não será o único a fazê-lo. O Ocidente em geral tem por hábito cobrir de eufemismos uma região em que, como a ascensão do próprio Nino Vieira e de inúmeros déspotas regularmente mostram, a "normalidade institucional" se constrói a sangue. Por recorrente que seja, o facto é sempre novidade para os media daqui, que destroçados pela mesquinhez de alguns indígenas começaram anteontem a desconfiar (com mágoa) de que a Guiné é um "Estado falhado".

No mínimo, é uma intuição tardia. A ONG Fund for Peace desenvolveu um índice que justamente mede o grau de falhanço dos estados e a sua tendência para a desagregação. Assim, cada país é pontuado e integrado numa de quatro categorias de risco: alarme, alerta, moderado, estável. Em 2008, nenhuma das nações africanas pertence ao restrito grupo dos "estáveis", nenhuma, com a excepção das ilhas Maurícias, pertence ao grupo dos "moderados", todas se encontram nos grupos de "alerta" e de "alarme", onde aliás a Guiné-Bissau se situa atrás de outros dezoito países africanos ainda mais dados a transformar a chacina num modo de vida. Em suma, falhada é a África inteira.

A dificuldade dos ocidentais em reconhecer uma mera evidência prova que o paternalismo pós-colonial se alheou mais da realidade que o racismo colonialista. Se este nunca se maçou com uma tragédia para a qual contribuiu directamente, o paternalismo só vê a tragédia a custo, preferindo manter a risonha ficção de um continente normal, dividido em estados normais liderados por governos normais, afinal o inevitável resultado dos encantadores processos de independência.

O delírio teria graça se, à sua revelia, em África não vivessem, ou morressem, centenas de milhões de infelizes, no fundo irrelevantes para os criminosos que mandam por lá e inexistentes para os optimistas que pairam por cá.

Quarta-feira, 4 de Março

CORRER COM ELES

O eng. Sócrates fechou o congresso do PS com uma condenação: a das crianças de cinco anos aos "jardins-de-infância", eufemismo para os barracões onde se guardam os petizes da sociedade e da indisponibilidade familiar. Note-se que o primeiro-ministro não prometeu facultar o "pré-escolar" a quem pretender beneficiar do dito. Tudo o que seja facultativo não é com ele. A ideia é recolher os petizes à força, mesmo que os pais não queiram e não necessitem da recolha. O eng. Sócrates justifica: "É assim que se prepara o futuro. É assim que se reduz a desigualdade social." É assim, acrescento, que o Estado se intromete nas vidas alheias muito além do recomendável em democracia.

No caso, não se intromete na minha, que escolhi - enquanto o Governo me permitir - não procriar. Se, porém, escapei de um particular abuso (e sem consequências: a diferença entre não ter filhos e tê-los entregues a instituições compulsivas dos cinco aos dezoito anos roça o imperceptível), não escapo dos abusos restantes, os quais, nestes perigosos tempos, são inúmeros.

Ainda agora, um portento chamado Laurentino Dias, que tutela o desporto ou lá o que é, decidiu "fazer o que for preciso para que Portugal passe a ser um país que faça marcha e corrida de forma organizada". Note-se que o dr. Laurentino não limita ao corpo dele as piruetas que entende vitais. Decerto à imagem do respectivo chefe, cujo jogging deslumbra a Terra, o homem quer pôr os portugueses em peso, e juro que cito, "a andar na rua com vestes desportivas". Francamente, começo a não saber até que ponto esta gente fala a sério. Sei que em Portugal abundam sujeitos em fato de treino, embora geralmente estejam sentados em esplanadas a deglutir tremoços e imperiais. Aparentemente, levantá-los das cadeiras e levá-los a escorrer suor é um factor de progresso.

As cabeças dos senhores que nos pastoreiam são um mistério insondável. De qualquer modo, não nos compete sondá-las: de acordo com a lei, compete-nos obedecer-lhes. Claro que, por enquanto, o dr. Laurentino anuncia as marchas e as corridas (organizadas) como uma opção, para a qual o Governo criará as "condições". Mas o Governo, repleto de objectivos, também já provou que das "condições" à compulsão vai um pequeno passo, em marcha ou corrido. Modestamente, eu tenho um objectivo: daqui a uns meses, gostava de aplicar as palavras "Governo" e "corrido" noutra frase.

Sexta-feira, 6 de Março

UM VENTO QUE NÃO PASSA

Poetas convencionais falam da morte, do sexo, do amor ou de Deus. Manuel Alegre prefere temas mais prosaicos. O homem que já nos brindou com 852 elegias à revolução de Abril (incluindo "Abril com 'r'": "r até de porra r vezes dois") e uma ao futebolista Figo ("e em cada rua é um menino/de camisola número sete") alinhavou agora uns versos sobre contentores. Leram bem: contentores. Pelos vistos, o fascinante assunto não se esgotara na cantiga alusiva de uma banda pop (os Xutos & Pontapés). Não, senhor. Portugal carecia de nova abordagem lírica a essas caixas metálicas que enfeitam, ou mancham, as zonas portuárias.

Alegre acha que mancham, e por isso o Fado dos Contentores, publicado no seu site pessoal (www.manuelalegre.com), bate com vigor nos ditos que se empilham junto ao Tejo e impedem ao bardo o usufruto da paisagem: "Por mais que busques defronte/Nem ilhas praias ou flores/Não há mar nem horizonte/ /Só contentores contentores." Ilhas? É evidente que se trata de uma liberdade criativa, já que depois de Alcântara está Cacilhas, cuja superioridade estética face aos contentores será talvez polémica.

Polémica também é a qualidade do texto, como aliás é típico de qualquer poema que rime "contentores" com "flores", "bojadores", "navegadores", "cores", "dores" e, no singular, "vapor". Sem me querer alongar no comentário, digamos que há alguma urgência em que o PS sossegue a dissidência eternamente adiada de Alegre. Caso contrário, corremos o risco de levar em breve com a Trova da Banca (palpite: "Só um cego é que não vê/a perfídia que se esconde/por detrás da CGD"), a Valsa das Taxas Moderadoras ("Tiraram-te pedra do rim/e cinco euros por dia/ /a pedra saiu assim/o conto de reis doía/fora os dois da cirurgia") e, Deus nos livre, a Balada do Augusto ("Dizias-te resistente/ao domínio da canalha/Hoje a canalha é diferente/E ao lado dessa gente/Ergues malho, dizes malha.")

Se é sabido que custa calar o poeta, é importante que o eng. Sócrates, sempre desejoso de silenciar meio mundo, ao menos tente. É que Alegre é de facto uma voz incómoda - para o eng. Sócrates e, mesmo quando tem certa razão, para todos nós.

Sábado, 7 de Março

CRONOLOGIA DE UM RESGATE

A 21 de Dezembro, o dr. Pinho anunciou o plano de salvamento da Qimonda, mediante um empréstimo de cem milhões (via CGD).

A 15 de Janeiro, o dr. Pinho jurou que o Estado não concederá empréstimos à Qimonda e que esta não recebeu nenhuns cem milhões.

A 21 de Janeiro, o dr. Pinho disse que a Qimonda "tem todas as condições" para manter a laboração.

A 23 de Janeiro, o eng. Sócrates prometeu que o Governo "tudo fará para ajudar a Qimonda".

A 27 de Janeiro, o dr. Pinho afirmou ainda acreditar na salvação da Qimonda.

A 28 de Janeiro, o eng. Sócrates concordou que a salvação da Qimonda não depende do Governo.

A 2 de Fevereiro, o dr. Pinho afiançou a existência de compradores para a Qimonda.

A 3 de Fevereiro, o dr. Pinho admitiu que a falência da Qimonda pode ser positiva.

A 17 de Fevereiro, o dr. Pinho acusou o Governo alemão de nada fazer para salvar a Qimonda.

A 19 de Fevereiro, o dr. Pinho notou no congénere alemão "abertura" para salvar a Qimonda.

A 2 de Março, o dr. Pinho garantiu desconhecer interessados na compra da Qimonda.

A 4 de Março, na Alemanha em comitiva presidencial, o dr. Pinho evitou falar da Qimonda.

Também a 4 de Março, após encontro com Angela Merkel, Cavaco Silva mostrou-se pessimista quanto ao futuro da Qimonda.

A 5 de Março, o ministro Luís Amado revelou que o encontro com Merkel trouxe "desenvolvimentos optimistas" para o problema da Qimonda.

Também a 5 de Março, o dr. Pinho disse que o Governo está disposto a financiar a Qimonda no que for necessário.

Ainda a 5 de Março, Cavaco Silva recebeu "sinais positivos" do ministro da Baviera sobre a Qimonda.

(continua)

Se não explica o empenho em preservar uma empresa inviável e dada a prejuízos monumentais, a novela da Qimonda demonstra o estilo do Governo, uma coisa a oscilar entre o voluntarismo, a intrujice e o desnorte. Convinha que o estilo não contaminasse o prof. Cavaco, apesar de tudo um resguardo de sensatez num tempo em que, ao contrário das memórias RAM produzidas na Qimonda, semelhante bem é escasso.

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MensagemAssunto: A viagem de Hillary   Ter Mar 10, 2009 11:11 pm

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A VIAGEM DE HILLARY CLINTON

Mário Soares

1.A tournée da senhora Clinton foi um êxito mediático e, espero, também diplomático. Começou, significativamente, pela Ásia, o continente emergente, por sinal também gravemente contagiado pela crise global. Tratava-se de mostrar a abertura do Presidente Obama com vista a uma nova geostratégia global, baseada nas negociações - e não na força - e no respeito pelos direitos humanos, pelo multilateralismo, pelas Nações Unidas, pelo ambiente global, em defesa do planeta ameaçado, em suma, pela paz.

Com efeito, é importante que a paz passe a ser uma das preocupações maiores dos Estados, numa época de crise financeira e económica global grave, quando temos a experiência do pós-crise de 1929, que conduziu à ascensão do nazismo, à guerra internacionalizada de Espanha e ao horror da II Guerra Mundial...

Hillary Clinton começou pelo Japão e pela China - dois Estados fortes que estão a ser, inesperadamente, muito atingidos pela crise -, interessou-se, como era inevitável, pelo Próximo Oriente - e pela agressividade de Israel relativamente à Faixa de Gaza -, falou com os russos sobre as relações russas, europeias, americanas e também sobre o Afeganistão e o Irão, e com a Turquia, país- -chave da região, sobre a Síria, onde tinha estado uma delegação dos Estados Unidos, e o Próximo Oriente, onde o conflito israelo-palestiniano continua a ser a causa principal das maiores preocupações.

A viagem da senhora Hillary não podia ser mais rica em contactos nem mais auspiciosa. Por toda a parte, foi recebida com grande curiosidade, cortesia e atenção. Barack Obama, antes da partida da senhora Clinton, tinha dito o suficiente sobre a sua política externa para abrir todas as portas. Não perdeu tempo. Da proposta à Rússia sobre a redução dos armamentos nucleares - que interessa vitalmente às duas partes - à retirada das tropas americanas do Iraque e às manifestas preocupações com o Afeganistão, transformado no maior produtor de droga (ópio) mundial.

A China tem como sempre a sua política, centrada neste momento sobre a crise e os seus efeitos dramáticos num país como a China. Grande credora dos Estados Unidos, não quererá, nesta fase, criar-lhe mais problemas do que aqueles que já existem. Até as relações entre a China e Taiwan melhoraram sensivelmente, o que é um sinal dos tempos.

Quanto à Rússia, um potentado económico com alguns pés de barro, as declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, na Conferência do Desarmamento, em Genebra, não podiam ser mais animadoras. Propôs um Tratado Start II, dado que o Start I expira em 5 de Dezembro do ano em curso e é urgente, como disse, citando as palavras do Presidente Dmitri Medvedev, "olhar em frente", devendo limitar não apenas o número de ogivas nucleares mas também o de sistemas estratégicos de disparo dessas mesmas armas (mísseis balísticos intercontinentais, mísseis balísticos submarinos e bombardeiros pesados).

Por seu lado, o Irão, há poucos meses ainda um dos países do "eixo do mal", parece disposto a conversar com os Estados Unidos, para o restabelecimento de relações normais, e a intervir, em parceria com os Estados Unidos e a Rússia, em conversações sobre o Afeganistão, país altamente problemático, como se sabe, dada a fragilidade em que se encontra, vizinho do Paquistão, país detentor da bomba atómica, na fronteira dos quais estão alojadas, ao que se diz, as bases dos talibãs e, porventura também, da Al-Qaeda.

Hillary Clinton e o ministro russo Serguei Lavrov encontraram-se em Genebra, no passado dia 6, para dar um novo impulso às relações russo-americanas e preparar o encontro entre os seus dois Presidentes, Barack Obama e Dmitri Medvedev, que se deve realizar em Londres, em 2 de Abril próximo, à margem da Cimeira dos Países do G20 sobre a crise financeira e económica. O que representa uma nova prova do desejo dos dois grandes rivais do tempo da Guerra Fria em voltar a página e entrar numa nova era geostratégica global...

2.A União Europeia, enquanto tudo isto se passa, permanece debruçada sobre o seu próprio umbigo sem ser capaz de definir uma estratégia concertada sobe a crise, que toca todos os países membros da União, a começar pelos maiores e também pelos países do Leste, recém- -entrados para a União. É um péssimo sintoma para o futuro. A paralisia institucional da União agrava seriamente a situação e o facto de se fazer representar nas reuniões internacionais - como na Cimeira de Londres de 2 de Abril próximo - pelos países chamados do "Directório dos Grandes" não augura nada de bom para o reforço do futuro da União, quer no plano económico quer político.

Vai haver dentro de três meses eleições para o Parlamento Europeu, que nunca foram muito concorridas relativamente às nacionais, legislativas ou autárquicas. Porquê? Porque nunca se quis fomentar a cidadania europeia, fazendo participar todos os eleitores europeus nas decisões da União. Daí, em grande parte, o desinteresse das populações europeias pelo que se passa no Parlamento Europeu e na Comissão, uma vez que lhes falta informação que suscite o seu interesse sobre as decisões tão importantes dos deputados, dos membros políticos da Comissão e de toda a imensa burocracia que para eles trabalha e faz andar a máquina comunitária.

Espero que nas próximas eleições para o Parlamento Europeu se possa finalmente realizar um debate sério, entre os países membros, sobre o futuro da União, não só de modo a tornar inevitável uma estratégia concertada, para vencer a crise, como é indispensável, mas também para que se defina uma estratégia política institucional que impeça a desagregação da Comunidade (uma ameaça que pesa sobre as nossas cabeças) e para que se criem instituições políticas capazes de fazer da União um agente global, com um papel decisivo num mundo em profunda mudança.

Se assim não for - e os países que não quiserem seguir esse rumo, como o Reino Unido ou outros, que fiquem para trás, sem impedir os outros de caminhar em frente -, a União e todos os países que a constituem, a começar pelos maiores, entrarão em inevitável decadência. Nesse aspecto, o eixo franco-alemão tem grandes responsabilidades, que não poderá enjeitar...

3.Palestina e Israel, cujo conflito parece eterno com as modificações geostratégicas que se preparam no Próximo Oriente, terão necessariamente de entrar numa nova fase, apesar de o Governo de Israel ser talvez o mais à direita dos últimos anos. Mas as coisas têm em si mesmas uma lógica que muitas vezes transcende a vontade dos dirigentes.

A demissão anunciada do primeiro-ministro Salam Fayad, apresentada ao Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, pode ter a ver com isso. Tanto mais que Fayad se encontrou com a secretária de Estado Hillary Clinton na passada semana e passa por ser um amigo próximo dos Estados Unidos, relações que foram criadas quando foi funcionário superior do Banco Mundial. Na sua versão, a demissão visa favorecer as negociações para a formação de um governo de unidade nacional entre o Hamas e a Fatah e a divisão entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia.

Contudo, na extremamente complexa política da Palestina e de Israel, há sempre segundas intenções que não resultam claras, à primeira vista. Poderá ser esse o caso. No entanto, parece óbvio que, dado todo o arranjo geopolítico em curso na região, tanto à Palestina como a Israel só lhes resta um caminho a seguir: o das negociações e da paz.|

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MensagemAssunto: Reuniões históricas   Sex Abr 03, 2009 10:57 pm

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Reuniões históricas

por António VitorinoHojeComentar



Já não me lembro que personagem confessava nas suas memórias que, tendo participado em várias cimeiras internacionais, nunca sabia no fim de cada uma delas se teria estado numa das tais reuniões históricas que como tal seriam recordadas por muitos anos.

Também nós não sabemos se nestes próximos dias iremos assistir a alguma reunião histórica, mas sim o que sabemos é que o estado do mundo aconselharia a que em Londres, em Estrasburgo e em Praga ocorressem reuniões que pudessem merecer tal qualificativo durante muitos anos.

Naturalmente as atenções estão centradas na Cimeira do G20, em Londres, tal o peso determinante da crise económica global no nosso quotidiano. Mas a economia não pode fazer esquecer as outras dimensões da vida internacional, a começar pela segurança internacional e a luta antiterrorista, para o que será necessário encontrar um novo rumo no âmbito da Cimeira da NATO em Estrasburgo, numa altura em que a Administração americana apresenta uma proposta de abordagem conjunta da situação no Afeganistão e em que simbolicamente a França faz a sua reentrada na estrutura militar da Aliança Atlântica.

Logo a seguir, na capital checa, ocorrerá um encontro destinado a relançar a parceria euro-atlântica, numa reunião que reunirá o novo Presidente americano com os chefes de Estado e de governo da União Europeia.

As conclusões de cada um destes encontros vão ter distintos matizes, sendo que naturalmente a grande expectativa rodeia a primeira delas, quanto ao grau de ambição no relançamento da economia global e na definição dos princípios fundamentais de uma nova arquitectura financeira.

Mas o capital de esperança que resultou da eleição do novo Presidente americano será igualmente posto à prova nas reuniões da NATO e com a União Europeia, na precisa medida em que as questões da paz e da segurança internacionais continuam a ser cruciais e não desaparecem da cena global por efeito da crise económica e financeira.

Espera-se que todos os parceiros tenham feito o respectivo trabalho de casa, sem o que estas várias reuniões não passarão de "oportunidades para a fotografia" que acabariam por não criar um novo alento quanto aos rumos a seguir nos próximos tempos no plano global.

A realização destas cimeiras constitui provavelmente o impulso mais relevante para aqueles que acreditam (e sempre acreditaram) em soluções multilaterais para os problemas globais. E se a reunião de Praga é uma reunião de parceiros privilegiados e a de Estrasburgo entre aliados, já a Cimeira de Londres expõe um "animal" mais estranho: o chamado G20, o grupo das vinte (e poucas…) economias mais desenvolvidas e mais pujantemente emergentes à escala global.

Em bom rigor esta formação do G20 permanece uma incógnita como instância de debate político e de decisão. A sua composição revela uma preocupação salutar de soluções mais inclusivas e abrangentes, para além do já consagrado grupo dos sete países mais ricos do mundo e da Rússia (o G8). Mas o seu equilíbrio interno é muito questionável (bastando pensar que de todo o continente africano nele apenas figura a África do Sul…). Por isso, se o G20 pode aparecer como um instrumento com inegável potencial no actual momento de crise económica e financeira global, convém ter presente que a efectiva aplicação daquilo que ele decidir vai depender também do protagonismo e da mobilização de outras instâncias internacionais, desde logo as organizações regionais como a União Europeia, o Mercosur, a ASEM ou a União Africana.

As conclusões da Cimeira de Londres permitirão aferir melhor o potencial fu- turo do G20, sabendo-se já, contudo, que ela será apenas um começo de um longo caminho a percorrer tendo em vista relançar a economia global e definir um novo quadro regulatório do sistema financeiro internacional. As acções concretas a empreender na sua senda e os resultados que elas produzirem permitirão saber, daqui a alguns anos, se se tratou de uma reunião histórica ou apenas de uma oportunidade perdida ainda que bem encenada…

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MensagemAssunto: O caminho de Cavaco   Seg Abr 27, 2009 9:37 pm

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O caminho de Cavaco

por Fernanda Câncio
24 Abril 2009



O presidente não resiste à vontade de ser "o homem do leme". De "apontar caminhos". De preferência o que leva a ele.

Pedro Marques Lopes escreveu ontem no DN que Cavaco Silva é um homem previsível e como presidente fez o que se esperava dele. Difícil não concordar. Cavaco é tão fiel à ideologia hiperconservadora que o enforma em termos de costumes que um mês após a entrada em vigor de uma lei que vetou, a do divórcio, foi a Fátima fazer um discurso em que atribuía ao efeito da lei um aumento dos casos de pobreza. "Dizem-me que", disse o presidente no meio de uma assembleia de prelados, sem cuidar de dizer quem lho tinha dito e muito menos como seria possível, num mês, medir tais consequências de uma lei.

Na altura, estas afirmações do Presidente foram lidas como evidência da sua irritação com a resistência do Parlamento à alteração de uma lei que tinha desaprovado. Não houve quem sublinhasse nelas "uma relação difícil com a verdade" - para usar uma expressão cara ao seu apoiante Pacheco Pereira - ou, para usar uma palavra mais gasta, a demagogia.

Demagogia é, sabe-se, um vício da política. Mas estamos habituados a associá-la ao - e a aceitá-la no - combate partidário. A existência de um pendor demagógico - o que despreza a verdade e/ou a instrumentaliza para obter um determinado efeito - no discurso de um Presidente, e ainda por cima num presidente que passa a vida a reiterar a necessidade de rigor e de contenção no seu próprio discurso, só pode significar que este aceitou ser parte no combate político-partidário.

Tinha havido disso alertas anteriores: o pesado silêncio face às repetidas ofensivas madeirenses "ao regular funcionamento das instituições" - desde a resistência anunciada ao cumprimento da lei do aborto ao barrar da entrada de um deputado na Assembleia Regional, passando pela acabrunhante visita presidencial ao arquipélago e pelo facto de ter aceitado que o Governo Regional o impedisse de ir à Assembleia "por se tratar de um bando de loucos" -, silêncio que contrastou com a fúria contra o Estatuto dos Açores (independentemente das razões que lhe poderiam assistir) e que demonstrou ao País a clara existência de dois pesos e duas medidas, pesos e medidas que renegam a ideia (algo lírica, é certo) de um Presidente como vértice vigilante e sem pendor partidário.

Mas também isso estava previsto: Entre as objecções à sua eleição, em 2006, contou-se a de que seria incapaz de se ater às funções presidenciais estatuídas na Constituição. A ideia, fundamentada numa avaliação psicológica de Cavaco como alguém que acha que só ele sabe o que é bom e certo, era a de que não resistiria à vontade de ser "o homem do leme". O prefácio do livro Roteiros III, em que anuncia não se poder limitar a "fazer diagnósticos" mas achar ser sua obrigação "apontar caminhos", como os termos do seu último discurso, repetindo quase palavra por palavra a doutrina da líder do PSD e estrategicamente pronunciado quando já não pode dissolver o Parlamento, vieram apenas confirmar que está em campanha - e, portanto, na campanha. Desenganem-se, porém, os que crêem que o faz pelo PSD. O caminho que aponta é só um: Cavaco, Cavaco, Cavaco.

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MensagemAssunto: Uma nova Aliança Democrática   Qui Jun 11, 2009 11:16 pm

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Uma nova Aliança Democrática

por Pedro Marques Lopes
Ontem



Uma nova AD é, em bom rigor, a única alternativa possível e credível a um quadro de ingovernabilidade

Perante o cenário político que as sondagens desenhavam antes da consulta real ao eleitorado, era legítimo pensar que o PS ainda poderia atingir a maioria absoluta. Esses estudos de opinião indicavam que os socialistas estariam a três, quatro por cento dessa fasquia.

Nessa circunstância, um forte apelo à estabilidade e à solidez governativa teria como alvo o eleitorado de direita, tradicionalmente mais preocupado com a instabilidade e apreciador de um governo forte.

A verdade dos votos expressos afastou completamente esta leitura e voltou a trazer à política portuguesa uma clivagem ideológica, desejável e saudável, entre esquerda (provavelmente, uma esquerda diferente, mas que não deixa de o ser) e direita.

A configuração que estas eleições trazem mostra os dois blocos mais próximos das suas habituais votações do que a perspectiva que as sondagens, falsamente, nos vendiam. Acabou a ilusão socrática de ocupar o centro da vida político-partidária e a sua táctica de, com medidas pontuais, ir agradando às vezes à esquerda e outras à direita. No fundo, tudo volta a ser como dantes: as maiorias far-se-ão com aquela franja ao centro que vai variando o seu voto entre o centro-esquerda e o centro-direita.

Para o PSD, a estratégia voltaria ao normal. A luta seria a de sempre: conquistar as franjas ao centro e tentar que as fugas de votos para o CDS não fossem significativas.

Porém, convém lembrar que, apesar de ter ganho as eleições, o PSD teve dos piores resultados da sua história e está muito longe de, sequer, poder sonhar com as maiorias absolutas de Cavaco Silva.

Surge, assim, uma realidade sempre presente, mas que estava, por assim dizer, adormecida: a possibilidade de uma nova Aliança Democrática.

O que está em causa nas próximas eleições é sabermos se queremos viver num cenário de instabilidade profunda ou se é possível criar uma solução sólida de governabilidade.

Uma nova AD (PSD e CDS juntos tiveram cerca de quarenta por cento) permitiria passar a mensagem ao eleitorado de que havia uma possibilidade de estabilidade e de governabilidade. A dinâmica provocada pelos bons resultados das europeias está criada. Não será por clivagens ideológicas graves que esta coligação não se poderá fazer: o PSD e o CDS estão neste momento mais próximos em termos políticos do que estavam, por exemplo, no tempo da liderança de Durão Barroso e Santana Lopes. Por outro lado, a perspectiva duma inflexão esquerdista no discurso dos socialistas deixará o eleitorado do centro muito receptivo a esta solução.

Seria também clarificador da verdadeira vontade do CDS. Se este partido está interessado em fazer parte de uma solução à direita ou se quer esperar pelas eleições para poder, eventualmente, negociar com o PS um acordo de governo.
É fundamental que, a existir, essa aliança fosse feita antes das eleições. O povo português está cansado de passar cheques em branco e de ver as suas decisões distorcidas por acordos pós-eleitorais entre as forças partidárias. Os dois partidos teriam de construir uma proposta eleitoral comum, clara e bem definida.
Uma nova AD é, em bom rigor, a única alternativa possível e credível a um quadro de ingovernabilidade.

Ninguém imaginará um acordo à esquerda entre o PS e o BE, pelo menos enquanto Sócrates for o líder dos socialistas. Nem parece, também, que o BE esteja disposto a abandonar o discurso desbragadamente populista em função de uma solução de governo. Louçã sabe que a existência do Bloco está directamente ligada à irresponsabilidade das suas propostas: o dia em que tiver de responder por elas é o dia em que o BE acaba. A crise que atravessamos, e que está longe do fim, exige a responsabilização dos actores políticos. O País não aguentaria uma crise política a somar à económica. É fundamental que sejam deixados para trás os calculismos conjunturais e exista uma vontade real de resolver os problemas que enfrentamos. É preciso que a direita mostre essa vontade. (Os eleitores europeus não quiseram passar por estúpidos. Explicaram aos políticos de esquerda o que pensavam sobre a colagem que estes tentaram fazer da direita europeia a uma imaginária política neoliberal que nunca foi avistada na Europa.)

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MensagemAssunto: O evangelho segundo Saramago   Dom Jun 14, 2009 3:47 pm

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O evangelho segundo Saramago

por Alberto Gonçalves



A ilusão evaporou-se, com o primeiro-ministro abandonada pela exacta realidade de que vem guardando distância

As fotografias de Berlusconi junto de umas jovens em trajes reduzidos e um senhor em pelota, divulgadas pelo seríssimo El País, inspiraram José Saramago a publicar, também no El País, uma prosa amarga ("A coisa Berlusconi") em que chama ao primeiro-ministro italiano "vírus", "doença", "delinquente", um traidor da herança de Verdi que, o que pelos vistos é ainda pior, "organiza orgias" e "acompanha menores".

Se é dúbia a referência a Verdi, cujas óperas mais célebres denunciam justamente a dissimulação com que a sociedade condena as relações amorosas entre os poderosos e os simples, percebe-se perfeitamente a origem do moralismo que transborda da prosa. Não se passa uma vida a venerar Estaline e a militar no PCP em vão. Subsidiária dos mandamentos soviéticos, a filial caseira aplicou aos respectivos fiéis um código de conduta "familiar" profundamente conservador, capaz de traduzir na intimidade a "superioridade moral" que possuíam na vida pública. Não importa aqui a hipocrisia e a falibilidade do exercício, nem as liberdades sexuais dos anos sessenta, que contaminaram a pureza dos camaradas jovens: o mundo teórico de Saramago (o prático ignoro) sedimentou-se nas décadas anteriores, e desde então ele dedica à "decadência burguesa" o horror das almas castas.

Há nisto muito de bíblico, embora em interpretação literal e tom de sacristia. O sermão do Nobel em nada se distingue da ira "regeneradora" de evangélicos cristãos e mullahs islâmicos, na medida em que exemplifica um padrão de pensamento totalitário e relembra de que modo os beatos se apropriaram da dimensão religiosa do marxismo. Para os beatos, a observância da fé é o único critério que define um indivíduo e o distingue das hordas de pecadores sem tino que se entregam às tentações terrenas. Obviamente, não é Berlusconi a "coisa", e se o processo de desumanização comunista, que Saramago exibe como um museu exibiria, hoje tem a sua graça, houve tempos em que não tinha nenhuma.

Sexta-feira, 12 de Junho

As eleições

1. Eu pensava que Portugal tinha decidido imitar a Itália, onde é impossível encontrar um sujeito que confesse gostar de Berlusconi e onde Berlusconi ganha sempre. Por cá, há muito que não me cruzo com ninguém que, à simples menção do nome do eng. Sócrates, não dispare cerca de 87% dos insultos disponibilizados pela língua de Camões e das vendedoras do Bolhão. Apesar disso, também há muito que fontes diversas sugeriam a invencibilidade do homem. A princípio, estranhei. Depois, convenci-me de que o defeito era meu, que ando a sair pouco. Não era: os resultados das "europeias" provam que, afinal, os portugueses se cansaram do eng. Sócrates tanto quanto a minha pequeníssima amostra me indicava. E provam que só a propaganda, directa ou difundida por sondagens e imprensa amiga, criou a ilusão contrária.

A ilusão evaporou-se no domingo, com o primeiro-ministro abandonado pela exacta realidade de que vem guardando crescente distância. As cadeiras vazias na cave do Altis, a fuga de Mário Lino, a ministra da Educação a abrir caminho aos empurrões e o ar de Santos Silva na RTP, entre o humilde e o atarantado, foram, mais do que metáforas, as exéquias de um tempo. Hoje, a lendária "capacidade mobilizadora" do eng. Sócrates viu-se enfim reduzida à lenda. Portugal, de facto, não é a Itália: Berlusconi ganhou outra vez.

2. Vai fazer um ano que estive, em reportagem para a revista Sábado, no congresso do PSD em Guimarães, aquele que marcou a chegada de Manuela Ferreira Leite à liderança do partido. Paulo Rangel, então pré-anunciado chefe do grupo parlamentar, também andava por lá. E andava de facto, no exterior do recinto e de um lado para o outro, com telemóvel, sem telemóvel, sempre sozinho. Literalmente: não vi ninguém dirigir-lhe a palavra.

Foi mais ou menos assim, sozinho, que Rangel passou a campanha. À semelhança do posto no parlamento, o seu lugar na lista às "europeias" resultou de uma escolha pessoal de Ferreira Leite e por isso mereceu o desprezo das parcelas do PSD que aguardavam, como costumam aguardar, a derrocada fatal e próxima. Contra todas as expectativas e desejos, não houve derrocada. Façam-se as contas que se fizerem, Rangel e Ferreira Leite ganharam as "europeias" e imprevistos amigos. O PSD, o PSD dos amigos recentes e futuros, das "bases", dos "notáveis", das conspirações, das reflexões, de Menezes e da inacreditável esperança chamada Pedro Passos Coelho, nem por isso

3. De repente, desceu-me ao coração uma inesperada ternura por Vital Moreira. É verdade que o sujeito realizou uma campanha infeliz e um nadinha perigosa para os padrões democráticos, mesmo que os nacionais. Mas, no fundo, fez o que pôde e o que lhe pediram, pelo que a pressa de algum PS em culpar o professor doutor de Coimbra pela derrota revela um estilo pouco louvável, para não dizer aberrante. Nem Vital é politicamente relevante nem o eleitorado avaliou especificamente o desempenho dele ou, diga-se, das curiosas senhoras que o seguiam na "lista" e que, em diversos casos, vão a Bruxelas "dar o nome". Goste-se ou não, o que foi avaliado foi uma prática governativa, cujo real responsável, que há um mês considerava as "europeias" um teste ao Governo e à oposição, já afirmou não pretender inverter até às "legislativas". O estilo pouco louvável, para não dizer aberrante, reflecte-se em tudo.

4. A reacção dos nossos media aos resultados das "europeias" foi pródiga em comentários preocupados perante o crescimento dos partidos extremistas em vários países da União. Vá-se lá saber porquê, os nossos media não parecem tão preocupados com o crescimento dos partidos extremistas em Portugal, que partilham com aqueles o discurso "anti-sistema", a aversão à globalização, ao capitalismo e ao mercado livre, a retórica proteccionista, o recurso ao medo e ao conflito social, o anti-semitismo, a repulsa tradicional face aos EUA e, aqui e ali, as tácticas de insurgência através da "rua". Os skinheads britânicos elegeram um eurodeputado? Penteados à parte, os skinheads indígenas elegeram cinco.

5. Embora embarace um país que se desejaria civilizado, o crescimento caseiro da extrema-esquerda que se viu arrasada na Europa, não é o principal resultado da noite de domingo. A direita, isto é, o PSD e o CDS, cresceu o mesmo que o Bloco e o PCP. É evidente que se somarmos a percentagem do PS à da extrema-esquerda, a esquerda ainda é maioritária no país. Mas essa vantagem caiu imenso quando comparada com as "europeias" de 2004 (e com as "legislativas" de 2005). Também em Portugal, então, o avanço (e a vitória nominal) do conservadorismo possível foi a grande marca destas eleições. De resto à imagem da União, onde os filiados no PPE ou as forças similares venceram em quase toda a parte. É, sem dúvida, uma resposta interessante ao estertor do capitalismo, que tantos anunciaram sem se rir. Afinal, o cadáver, ou pelo menos o moribundo, é outro.

6. A emoção que 8,37% dos votos emprestaram ao Largo do Caldas mostrou um CDS nitidamente comovido, e eventualmente surpreendido, com a notícia da respectiva sobrevivência. É claro que o resultado permite a Paulo Portas sonhar com uma coligação governamental, seja com o PSD, seja com o PS. Em simultâneo, demonstra que fora dos sonhos e da vacuidade programática que vem de longe, a ambição do partido limita-se a vencer as sondagens. E essas qualquer um vence.

7. Mal se conheceram os resultados, os especialistas em sondagens vieram explicar as razões de as sondagens em eleições "europeias" serem tradicionalmente falíveis. Era um nadinha tarde. Teria sido útil anexar as explicações às sondagens aquando da divulgação destas. Bastava acrescentar à ficha técnica: "Graças ao seu carácter peculiar, os actos eleitorais para o Parlamento Europeu estão propensos a desvios insusceptíveis de controlo estatístico. Por isso, onde o nosso inquérito sugere uma vitória do PS com 38%, é favor presumir que o PS talvez não passe dos 26%. Mas o ideal é não nos ligar nenhuma."

A alternativa, aliás já sugerida pelo CDS, seria não realizar qualquer estudo de opinião, ou, melhor ainda, levar a coisa na brincadeira e parodiar o conceito como fez a SIC, que celebrou o fim da credibilidade das sondagens com a apresentação, em plena noite eleitoral, de uma nova sondagem, agora a propósito das "legislativas" e a cargo da empresa do imparcial socialista Rui Oliveira e Costa. Mais uma vez, o PS ganhou. Muito nos rimos.

8. Última hora: consta que a derrota socialista não se deve apenas a Vital Moreira. Num dos inúmeros blogues patrocinados, no mínimo espiritualmente, pelo eng. Sócrates, culpa-se os abstencionistas, aí rotulados de parasitas, anti-sociais e, em termos gerais, criminosos. Os insultos não me servem. Após longos anos dedicados ao abstencionismo, desta vez deixei-me invadir pelo civismo e votei. A fúria apatetada que, talvez sem querer, o primeiro-ministro inspira a alguns dos seus apoiantes pesou na decisão.


Ordens e progresso

Por lúcidos que tenham sido os discursos de Cavaco Silva e António Barreto no 10 de Junho, os seus efeitos práticos são discutíveis. O que não se discute é a irrelevância do restante entulho cerimonial, um festival de comendas que anualmente premeia, aos pacotes, um punhado de criaturas respeitáveis e resmas de nulidades com idêntica pompa. Excepto o ego das nulidades, o espectáculo não serve ninguém mas, como é próprio dos espectáculos, continua eternamente sem interrupções. Apesar da altíssima taxa de condecorações e da baixíssima taxa de natalidade, parece nunca faltar gente em quem pendurar medalhas. Quando falta, recorre-se aos mortos. Este ano, pretendeu-se disfarçar o mofo dessa inadvertida paródia através do seu alargamento ao Second Life, que é uma coisa na Internet com bonecos. Uma boa ideia, caso limitasse a paródia à dimensão virtual.


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MensagemAssunto: O menino de ouro da SIC   Seg Jun 22, 2009 5:04 pm

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O menino de ouro da SIC

por Alberto Gonçalves
Ontem



E, ao décimo dia após a derrota nas "europeias", o "animal feroz" transformou-se num cachorrinho alimentado a Xanax.

O eng. Sócrates surgiu na SIC a conversar docemente com uma jornalista da casa, tão doce como ele. O exercício, que durou espantosos cinquenta minutos, pretendia ser uma demonstração de modéstia, ou a prova de que o primeiro-ministro, à semelhança da lua, possui uma face oculta, e que, à semelhança de Guterres, a face é meiga. Na verdade, a "entrevista" constituiu uma das páginas mais embaraçosas da nossa já não excessivamente solene democracia. Não tanto para o espectador, que com risinhos e sonolência lá sobreviveu àquilo: para o eng. Sócrates, que pode não ter sobrevivido.

Modéstia, afinal, não houve nenhuma. Salvo pormenores "formais" (a "burocracia" na avaliação dos professores, por exemplo), o eng. Sócrates reconheceu um único "erro": o parco apoio à "cultura", na presunção convicta ou simulada de que um punhado de filmes e peças por subsidiar é fonte de angústia colectiva. De resto, desfiou a propaganda do costume: reformas (?), progresso científico (?), redenção do ensino (?), crescimento económico (?), criação de emprego (?), controlo das contas públicas (toldado pela malvada "crise internacional", a maior dos últimos cem, mil ou dez mil anos, não me lembro), benefícios do investimento estatal, energias "renováveis", Magalhães, etc.

No final, confessou-se assaz contente consigo e com a sua "mundividência". Para o futuro, conta com o "país moderno", que "quer andar para a frente" e que "não se deixa abater". Não conta, presume-se, com a chusma de pessimistas retrógrados que não apreciam as maravilhas que o Governo faz por eles.

Embora embrulhada no tom intimista dos programas nocturnos de rádio, trata-se da lengalenga de sempre e do eng. Sócrates de sempre, um homem curiosamente obcecado com ele mesmo e curiosamente convencido da própria importância. Convém moderar as comparações com Guterres. O assustadiço Guterres fugiu ao perceber que percebêramos o buraco em que nos meteu. O eng. Sócrates nunca abdicaria voluntariamente do poder. No máximo, abdica da imagem com que o desempenhou durante quatro anos, trocando a velha arrogância (ou "firmeza") pela dissimulação (ou "humildade").

O pressuposto é o de que a governação se define através das aparências, ou do "estilo", e que um novo "estilo" fatalmente conduzirá os eleitores a uma nova avaliação da governação. Pelo menos é isto o que vai nas cabeças dos estrategas e conselheiros do eng. Sócrates. A propósito, quanto ganha essa gente? Seja o que for, é demasiado.

Se o eng. Sócrates não o enxerga sozinho, era aconselhável rodear-se por quem o alertasse para o perigoso ridículo da manobra. Não foi só a inépcia do seu Governo que custou ao PS as "europeias", sobretudo contra um PSD vago nas propostas e insondável enquanto alternativa. A derrota socialista deveu-se principalmente ao carácter "plástico" do líder, um holograma ruidoso que cansou os cidadãos e contrasta com a discrição quase patológica mas "humana" de Manuela Ferreira Leite. Supondo que alguém a viu, a plástica "entrevista" à SIC apenas terá aumentado o cansaço e o contraste.

Dividido entre não poder ser quem é e não conseguir ser quem não é, o eng. Sócrates encontra-se num aperto. Excepto se os portugueses acreditarem de facto nas proezas da cosmética, e os abstencionistas que o primeiro-ministro procura seduzir corresponderem à definição que o dr. César dos Açores lhes aplicou: uma multidão de estúpidos.

Quinta-feira, 18 de Junho

999 800

O eterno desígnio dos dissidentes é a dissensão. Por isso não surpreende que 200 apoiantes de Manuel Alegre tenham ficado aborrecidos com a permanência deste no PS e decidido fundar um novo partido. Desde que haja tempo livre, hobbies não faltam. O chefe dos amotinados, um Alexandre Azevedo Pinto, explica que a Nova Esquerda (é verdade, já há nome) deseja "ocupar o espaço sociológico que foi criado pela candidatura presidencial de Alegre".

Engraçado. Nunca me ocorrera que o famoso milhão de votos que Alegre arrasta por aí há anos, resultado do momentâneo voto de "protesto" e do peculiar ódio de certos socialistas ao dr. Soares, correspondesse a um "espaço sociológico". Já a outra definição usada pelo tal Alexandre Azevedo Pinto, "um buraco negro que não está preenchido", parece-me acertadíssima: a matéria que os buracos negros atraem nunca mais volta a ser vista. Os "alegristas" desiludidos não saberão muito de política, mas são peritos em astronomia. Adeus, e paz às suas almas.

Sexta-feira, 19 de Junho

A arte de bem receber

Ahmed Ghailani, o primeiro transferido de Guantánamo para os EUA, chegou há dias a Nova Iorque a fim de ser julgado. O sr. Ghailani, que possui nacionalidade tanzaniana, que enfrenta trezentas acusações e que é suspeito da morte de 224 pessoas em diversos atentados no continente africano, é representativo de muitos dos duzentos e tal detidos que permanecem na prisão americana em Cuba. Mas não de todos.

Abdallah Saleh al-Ajmi, natural do Koweit, foi um exemplo dos detidos em Guantánamo sob acusações menores, no caso a pertença aos talibãs. Após interrogatórios militares puxarem para um lado e advogados para o outro, acabou libertado em finais de 2005 e enviado para o país natal. Em Março de 2008, após gravar o tradicional vídeo em que glorificava Alá e ameaçava os apóstatas, Abdallah Saleh al-Ajmi conduziu um camião armadilhado contra uma base do exército iraquiano nos arredores de Mosul. Matou apenas 13 soldados e feriu apenas 42.

Não vale a pena discutir a ideia de Guantánamo, a névoa jurídica que a envolveu ou a autêntica escola corânica que ali se permitiu. As discussões, hoje, estão em fase mais adiantada e visam a extradição dos respectivos ex--prisioneiros para países aliados dos EUA. Observante da hospitalidade da casa, o nosso MNE já se dispôs a aceitar um "pequeno número" deles. Óptimo, mas, pequeno que seja, qualquer número retirado dos eventuais fanáticos que ainda sobram parece-me altamente susceptível de jackpot. Talvez nos saiam assassinos em grande escola género Ghailani, talvez nos saiam assassinos moderados género al-Ajmi, talvez nos saiam infelizes capturados por engano e decididos a levar uma vida decente. É esperar o resultado da rifa. Se houver festa, será com certeza explosiva.

Sábado, 20 de Junho

Prioridades

Há dias, celebrou-se a "semana gay" numa nação do Médio Oriente. Houve seminários internacionais, palestras, debates e, para os extrovertidos, desfiles recreativos em diversas cidades. O acontecimento, invulgar naquela área geográfica, é uma trivialidade na referida nação, e só foi possível porque, também de modo extraordinário para os padrões da região, essa nação, Israel, é um estado democrático.

Perante isto, seria de esperar dos activistas dos direitos civis relativa simpatia pelo que Israel significa. Inesperadamente, por exemplo em Portugal, a simpatia é escassa. Face a Israel, o único sentimento que muitos dos activistas revelam é aversão. Face à liberdade israelita, os activistas limitam-se a lembrar que o judaísmo ortodoxo condena a homossexualidade, embora não lembrem que uma condenação simbólica não é bem o mesmo que condenar homossexuais à morte, prática corrente no exacto Irão que inspira aos tais activistas a solidariedade que hoje se vê.

Recapitulemos. Uma paródia eleitoral, com candidatos fantoche e tudo, convenceu os ocidentais das "causas" de que o Irão é uma democracia. A seguir, os resultados da paródia convenceram-nos de que a democracia iraniana corre perigo e que é urgente apoiar, nem que seja pela Internet, o candidato "reformista". Não havendo nenhum, inventaram o sr. Mousavi, fundamentalista célebre, ex-primeiro-ministro, favorito de Khomeni e um possesso cujo currículo inclui, além do sangue de 30 mil dissidentes políticos, a perseguição de gays e minorias em geral.

Contas feitas, temos, nos blogues e nas colunas de opinião a que alguns ascenderam, imensos combatentes pela igualdade cívica dos homossexuais a aplaudir um dos homens que, no mundo e nas últimas décadas, mais contribuiu para a situação desgraçada em que tantos homossexuais vivem ou, com maior probabilidade, morrem. Sábado de tarde, os combatentes marcham em Lisboa contra a discriminação e a evocar os 40 anos dos confrontos de Stonewall, um bar gay nova-iorquino onde a polícia andou à bulha com umas dúzias de frequentadores. Sábado à noite, voltam aos blogues a exaltar Mousavi, o "reformista" que ajudou a tornar a discriminação lei e que, directa ou indirectamente, presidiu à prisão, tortura e execução de inúmeros homossexuais que escaparam à fúria das famílias.

Se calhar, as posições do "reformista" acerca do programa nuclear iraniano e da sonhada obliteração de Israel explicam o aparente paradoxo: a defesa dos gays tem prioridades, e os gays, coitados, não são uma delas.

Gestores em cofre alheio

Deus sabe que não tenho o mais vago interesse pela carreira do futebolista Cristiano Ronaldo. Bem, pelo menos os meus amigos sabem. Ao contrário do que acontece com milhões de pessoas, não me importa se o indivíduo joga muito, onde joga e por quem joga. Devo dizer que também não me importa quanto o indivíduo ganha. Se um clube da bola deseja pagar-lhe 18 euros por minuto, tudo bem: podia pagar-lhe o dobro ou o triplo e eu continuaria indiferente. À primeira vista, é sinal de que o clube tem dinheiro e que o investimento vale a pena. Mas ainda que o clube vá à falência ou o investimento não compense, por mim tudo bem na mesma. Em suma, o assunto não me diz respeito. Em compensação, parece dizê-lo a uma imensa quantidade de portugueses, que não evitam opiniões favoráveis ou desfavoráveis sobre a matéria como se o dinheiro do Real Madrid fosse deles. O mistério é que quando, no futebol ou no "interesse público" que calha, o Estado gasta o dinheiro que é de facto deles, muitos portugueses não têm opinião nenhuma. Nem, consequentemente, dinheiro nenhum.

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MensagemAssunto: A grande reforma financeira   Ter Jun 23, 2009 11:53 pm

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A grande reforma financeira

por Mário Soares
Ontem



Obama declarou-se um firme partidário da economia de mercado, mas com regras que impeçam a cascata de erros


1. Barack Obama, na semana passada, apresentou ao Congresso a maior reforma financeira feita nos Estados Unidos desde a grande depressão dos anos 30 do passado século. Trata-se de um Livro Branco de 85 páginas onde se propõe um conjunto de regras para regular o sistema financeiro, de modo a impedir que se repitam os erros clamorosos de um passado recente, cuja memória começa a esvair-se - os maiores cegos são os que não querem ver - do que chamou, e bem, "uma cultura da irresponsabilidade".

Trata-se, no fundo, de um conjunto de regras que implicam mais intervenção do Estado, mais regulação e maior protecção para os que depositam o seu dinheiro e não o querem, naturalmente, perder... O que trará, obviamente, menores benefícios para o sistema financeiro. Medidas, portanto, de regulação do sistema financeiro, conferindo à Reserva Federal - que corresponde ao Banco Central Europeu - maiores e mais estritos poderes de intervenção sobre os bancos e o sistema financeiro em geral, de forma a evitar os riscos, as especulações desenfreadas e as fraudes, que também as houve (e de que volume!), e ainda os abusos com os cartões de crédito, créditos de hipotecas sobre hipotecas, etc.

Ficam, portanto, sob o controlo da Reserva Federal, presidida por Ben Bernanke, "todas as entidades financeiras cuja saúde seja vital para o conjunto do sistema", de modo a que não possam contaminar, no futuro, a economia real com uma recessão planetária, como sucedeu com a crise global que nos afecta e que - diga-se - está longe de ter sido ultrapassada. Casos como os de Bear Stearns, Lehman Brothers, a AIG (grande seguradora), entre outros, não poderão repetir-se, declarou Obama, com o objectivo de recuperar a confiança perdida. Mas também insistindo - para ir ao encontro de algum criticismo que começa a manifestar-se contra o "intervencionismo excessivo do Estado" (há algumas semanas esses mesmos banqueiros estavam ainda de mãos estendidas para o Estado e chegaram a pedir que os bancos fossem nacionalizados!) -, o Presidente Obama declarou-se "um firme partidário da economia de mercado, como motor de prosperidade, mas com regras que impeçam a cascata de erros e a cultura do dinheiro fácil que teve as suas raízes em Wall Street e, por extensão, em Main Street (os cidadãos), com o consentimento de Washington" do tempo de George W. Bush, claro.

Além dos novos poderes atribuídos à Reserva Federal, a reforma de Obama cria um conselho de reguladores, presidido pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner, uma Agência de Protecção aos Consumidores, um supervisor bancário nacional e uma atenção especial para os fundos de risco e derivados e para as agências de avaliação.

Este conjunto de importantes medidas vai agora ser examinado à lupa pelo Congresso e melhorado ou não, como se verá. Representa um passo em frente no cumprimento das promessas de Barack Obama, no plano interno. Tem opositores que acham, agora, "Estado a mais" e partidários que entendem ser pouco. Dois deles são dois prémios Nobel de Economia: Paul Krugman, num artigo no New York Times intitulado (traduzo) "Sair das sombras"; e Joseph E. Stiglitz, num artigo transcrito no El País: "O socialismo para ricos nos Estados Unidos", em que é mais crítico e radical. Escreve, em conclusão: "Os ricos e poderosos pedem ao Governo para que os ajude, sempre que precisam, e as pessoas necessitadas recebem pouca protecção social." Aí joga, penso eu, o bom senso e a habilidade de um profundo conhecedor da relação de forças, no plano interno e global, de um político de excepção como Barack Obama. Haja confiança.

2. Curiosamente, a imprensa europeia - e a portuguesa ainda menos - não deu suficiente relevo ao plano de reforma financeira apresentado pelo Presidente americano. A Europa parece ainda estar noutra. Mais ou menos parada à espera que passe a crise para que tudo fique na mesma. Não é possível.

Há ténues sinais de que a crise pode estar a bater no fundo. A segunda vice-presidente do Governo de Espanha, Elena Salgado, por exemplo, deu uma entrevista ao El País em que diz "que a crise está a tocar no fundo", mas acrescenta "que o emprego tardará mais em crescer". Mais de 17% para a legislatura! "Penso - disse ela - que em 2010 ainda haverá pontos de incerteza, mas que as suas previsões são menos pessimistas do que as dos analistas internacionais..."

A verdade é que a União Europeia sofre uma nunca antes vista crise de lideranças. Sarkozy, confortado com o resultado das eleições europeias - menos pelo seu mérito do que pela derrota da esquerda -, quer agora "uma Europa mais reactiva". Mas como? O Tratado de Lisboa, apesar de todas as promessas feitas à Irlanda, que o paralisou, não se vê que haja condições, a breve prazo, para o repor em marcha. E, mesmo que houvesse, parece francamente desactualizado em relação às mudanças provocadas pela crise global. Ou será isso o que querem as lideranças europeias para que tudo continue na mesma? Olhe-se para o Japão que já deixou de ser a segunda economia mundial, situação em que esteve por várias décadas, ultrapassado pela economia chinesa. Será o exemplo que quer seguir a União Europeia?

Gordon Brown, em fim de carreira, luta pela sua sobrevivência sem querer ouvir falar de medidas concertadas, entre os Estados europeus, para ultrapassar a crise. Curiosa situação a que está a ser conduzido o Reino Unido, que sempre sonhou "em ter um pé na América e outro na União" e que por força das circunstâncias está a afastar-se tanto da América de Barack Obama como da União, que visa encontrar uma solução concertada para a crise.

A Itália, apesar de as eleições terem dado uma vitória inesperada a Berlusconi, está a entrar numa crise moral e de valores, que pode ser muito perigosa nas suas consequências. O caso das "meninas", que de início parecia um fait divers, a que Silvio Berlusconi nos habituou, está a tomar proporções de um verdadeiro escândalo nacional inaceitável num país com o prestígio da Itália: uma espécie sofisticada de ballets rose, pagos e organizados pelo primeiro-ministro, na sua própria residência, para diversão dos seus convidados, ministros estrangeiros, políticos e empresários... O que pensará o Vaticano - e a Igreja italiana -, que sempre apoiou, discretamente, Berlusconi, de um tão grande desaforo moral?

Assim vai a União Europeia, num momento bem difícil da sua história. Falta democracia, escasseiam os valores, falta um projecto europeu que possa dinamizar os cidadãos europeus, como aconteceu no passado. Estarão os actuais dirigentes dos 27 tão afastados da opinião europeia que não tenham a consciência de que estão a caminhar para a desagregação do projecto político de paz, desenvolvimento e bem- -estar, mais original e fecundo do século passado?...

3. Carlos Candal. Foi com grande tristeza que tive conhecimento do falecimento de Carlos Candal, homem frontal, de uma probidade à prova de bala, socialista desde os tempos da Acção Socialista e, depois, fundador do PS e grande promotor do partido em Aveiro, de que sempre foi, até à sua morte, uma referência incontornável.

Conheci Carlos Candal quando foi presidente da Associação Académica de Coimbra e conservámos, desde então, uma grande amizade, que nunca teve falhas, apesar de algumas divergências tácticas, não ideológicas. Sempre o admirei. Era humanamente também uma grande figura moral e política. Cabeça de lista do PS por Aveiro, em todas as legislaturas, fomos também camaradas, como deputados ao Parlamento Europeu, entre 1999 e 2004.

Fumador inveterado de charutos, foi também um bon vivant, divertido, excelente companheiro, ao mesmo tempo que grande advogado e político. Deixou só um filho, também ele socialista e deputado. Era o seu grande e merecido orgulho. A sua esposa, há muito tempo doente e sua grande preocupação, sobreviveu-lhe. Apresento-lhe - e ao filho - as minhas muito sentidas condolências. A morte de Carlos Candal representa uma grande perda para o Partido Socialista e faz muita falta a Aveiro, onde sempre viveu.C

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MensagemAssunto: Cavaco, Sócrates e Ferreira Leite estão irreconhecíveis   Sab Jun 27, 2009 3:49 pm

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Cavaco, Sócrates e Ferreira Leite estão irreconhecíveis

por Rui Hortelão
Hoje



As eleições europeias transformaram por completo os três principais protagonistas da vida política nacional. Pelo que se viu esta semana, qualquer semelhança entre o que eram Cavaco Silva, José Sócrates e Manuela Ferreira Leite antes das eleições e o que são hoje é pura coincidência. Mas, como todos sabemos, em política não há coincidências.

Cavaco Silva

Não comentava questões de política nacional fora do País, mas agora, a propósito das datas das eleições legislativas e das autárquicas, não só o fez - solidarizando-se com o (seu) isolado PSD - como se pronunciou sobre um assunto de Estado, baseando-se em sondagens que não têm credibilidade ou, simplesmente, nem existem.

Depois, decidiu abrir uma excepção. E, em vez dos silêncios ou comunicados com que reagiu ao envolvimento do seu nome no caso BPN ou às suspeições sobre Dias Loureiro, Cavaco Silva intrometeu-se no negócio PT/Prisa. E não falou como economista, falou à político - daqueles de quem tantas vezes se demarca, exigindo explicações aos responsáveis de uma empresa privada cotada nas bolsas de Lisboa e Nova Iorque.

Ambas as intervenções contrariam tudo aquilo que tem feito enquanto Presidente da República. Uma pena. Até porque, como ambas foram tão excepcionais e tão favoráveis ao PSD, é fácil perceber os que o acusam de oposição ao Governo.

José Sócrates

Era o mestre da imagem. O político hábil que fabricava a realidade, que controlava a informação e a justiça. O estratego que se mantinha firme no topo das sondagens à custa de teorias da cabala e propaganda sofisticada. Mas, de repente, tudo mudou. À primeira casca de banana da oposição, escorregou. Reagiu descontrolado a uma pergunta previsível e, mais do que o tom, traiu-se pela abordagem que escolheu, ao falar da mudança da linha editorial da TVI.

A seguir, negou conhecer o negócio. Se não sabia (o que custa a acreditar) teria de ter exigido saber, ainda mais quando ele próprio, em 2004, defendeu que o Estado deveria sair dos media. Se sabia, errou em larga escala - primeiro por ter tentado controlar a TVI; depois por não antever que o negócio seria sempre usado contra o Governo e nem sequer ia a tempo das eleições; e, finalmente, por ter tentado esconder algo que, sabendo ou não sabendo, era impossível fazer acreditar os outros.

Resumindo: nem Sócrates é o papão que querem fazer dele, nem o ingénuo que ele próprio tentou parecer ser neste processo. Já se percebeu que tem um pouco de ambos. E que nunca esteve, nem com as suspeitas da licenciatura ou do Freeport, tão fragilizado como agora. Talvez por isso o discurso duro deu lugar a um tom compreensivo, a avaliação dos professores já pode ser adiada e até a redução de funcionários públicos deixou ser prioridade.

Manuela Ferreira Leite

O cultivo do silêncio já era. Esta semana, nenhum microfone ou câmara foi para casa órfão de Ferreira Leite. Esteve bem na Grande Entrevista: não apresentou propostas concretas, mas atacou as políticas do Gover-no; não comentou Dias Loureiro, mas criticou a nacionalização do BPN. Escapou sem gafes e ainda deu um toque de modernidade, prometendo um programa eleitoral curto. Pelo meio, reafirmou a grande preocupação com o endividamento do Estado provocado pelo TGV e o aeroporto. Irreconhecível, para alguém que em 2003, enquanto ministra das Finanças, cedeu créditos fiscais e da Segurança Social ao Citigroup no valor de 15,2 mil milhões de euros, amarrando o país a um compromisso que o Tribunal de Contas logo criticou.

Por fim, acusou Sócrates de mentir sem apresentar provas e saiu em defesa de José Eduardo Moniz e da TVI, sem qualquer referência às pressões do ex-ministro do PSD Rui Gomes da Silva sobre Marcelo Rebelo de Sousa, que culminaram com a saída do comentador da TVI.

A Zona

Zeinal Bava, um gestor de provas dadas e como há poucos em Portugal, foi apanhado num turbilhão político. Custa acreditar que um profissional com o seu currículo - eleito três vezes o melhor CFO (director financeiro) da Europa pela Institucional Investor - faça fretes a políticos. Pelo menos, tão denunciados. Mas custa igualmente a perceber como é que Zeinal Bava foi ingénuo ao ponto de achar que podia comprar 30% da Media Capital sem ser visto como o braço armado da instrumentalização governamental.

Sem provas, prefiro acreditar na segunda hipótese. A primeira é má de mais, além de uma profunda injustiça para um profissional reconhecido e que todos, mesmo os que agora lhe pedem explicações e transparência, sempre elogiaram.

Do ponto de vista empresarial, o movimento de Bava está mais do que justificado. De qualquer forma, ter dito que queria a PT longe dos conteúdos e ter avançado para a Prisa sem ao menos fazer uma inflexão de discurso não ajudou. Além disso, se como defendeu na entrevista à RTP, os conteúdos da TVI são tão vitais para o desenvolvimento da PT, então deveria ter avaliado melhor os riscos colaterais do negócio, para evitar passar por joguete político, ser repreendido pelo Presidente da República, reprovado pelo Governo ou perder as condições para fechar um acordo, nas suas palavras, tão importante.

Não foi à toa que, à saída da RTP, Zeinal Bava citou Warren Buffet: "Quando olhamos pelo retrovisor vemos as coisas de forma mais fácil e mais clara."

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MensagemAssunto: Referência ao facto da abstenção ter realmente diminuído   Sex Jul 03, 2009 3:30 pm

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Abstenção Eleitoral
Parlamento




Referência ao facto da abstenção ter realmente diminuído

Decidi escrever este artigo de opinião pelo facto de estar cansado e saturado de ler, ver e ouvir tanta asneira relativamente «à elevada abstenção»… nestas eleições europeias. Desde o cabeça de lista do PS ao Presidente da República, todos dizem o mesmo. Será que todas estas figuras públicas e com responsabilidades de Estado estão cegas? Ou convém este dramatismo todo a propósito da abstenção?

Convido o leitor a espreitar nos sites oficiais, nomeadamente no da Comissão Nacional de Eleições e da Direcção Geral da Administração Interna (cujos dados não coincidem com os da CNE, quem terá razão?...) e vão verificar que o número de pessoas que votou nas eleições europeias de 2009 é superior às de 2004. Irão verificar que em 2004 votaram 3.404.782 pessoas e que em 2009 votaram 3.568.943 pessoas, ou seja, os portugueses participaram mais, votaram mais 164.161 pessoas agora do que em 2004. Mas porque razão a percentagem de abstenção aumentou? São vários os motivos:

1. A razão principal é porque com a alteração recente da lei do recenseamento, pessoas que não se interessam pela política e que têm 20, 30 ou 40 anos de idade, nunca se recensearam e agora fazem parte dos cadernos eleitorais, da mesma maneira que fazem parte jovens com 17 anos que ainda não têm idade para votar, ou seja, com este “golpe” os cadernos eleitorais têm mais cerca de 700.000 pessoas, ou seja, 9.704.559 eleitores. Num país com pouco mais de dez milhões de habitantes, alguém acredita que temos tantos eleitores? E menos de um milhão de crianças e jovens com idade inferior a 17 anos?!

2. O elevado número de eleitores fantasma, sobretudo pessoas que já morreram e continuam há muitos anos a fazerem parte dos cadernos eleitorais. Segundo um estudo que fiz com um amigo em 2007 e que podem consultar no meu site www.jose-bourdain.com, demonstramos cientificamente e com estimativas “por baixo” que o nº de eleitores fantasma em 2005 era cerca de 9%, isto é, 785.111 eleitores. Isto acontece porque as freguesias não têm interesse em limpar os cadernos eleitorais, nomeadamente de pessoas que já morreram, pois as dotações orçamentais que recebem são em função do número de eleitores recenseados; aliás, os salários dos responsáveis autárquicos também dependem do nº de eleitores.

3. No caso português, tal como na maioria dos países democráticos, existe uma maior participação nas eleições de primeira ordem - legislativas (pois está em causa a formação do Governo, pelo que são consideradas mais importantes) do que nas eleições de segunda ordem – Autárquicas e Presidenciais, e os dados da abstenção comprovam isso mesmo. No entanto, nos círculos mais pequenos acontece precisamente o contrário, as pessoas votam mais nas autárquicas do que nas legislativas, provavelmente pelo facto do seu voto ser desperdiçado nas legislativas – pois ir votar em partidos de média dimensão é o mesmo que ficar em casa, situação que resulta da imperfeição do nosso sistema eleitoral. Pelo contrário, os votos nas autárquicas contam e as pessoas votam mais (embora esta situação mereça estudo mais aprofundado). Podem também no meu site consultar este estudo. Se nas eleições “caseiras” isto é assim, percebe-se o porquê da baixa afluência às urnas nas europeias – são quase como “eleições de terceira ordem” pelas quais pouca gente se interessa e o voto normalmente é de protesto e para penalizar os governos em funções.

Termino convidando a leitura de um artigo que fiz neste mesmo jornal, onde alerto para o caso de empate técnico entre PS e PSD, o qual pode levar a que o PS possa ter mais votos mas perder as eleições. Os resultados das europeias estão aí e prevê-se uma votação próxima entre estes dois partidos nas legislativas. A acompanhar…

José Bourdain, Politólogo, 2009-07-02
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MensagemAssunto: [img]http://ecodanoticia.net/phpBB3/images/smilies/smilie34.gif[/img]   Dom Jul 05, 2009 11:48 am

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Um par e os pares

por Pedro Marques Lopes
Hoje



Os excessos de linguagem, oral ou gestual no Parlamento não são um fenómeno recente. A perda de tempo em questiúnculas estéreis, os insultos e as piadolas eram, até há relativamente pouco tempo, do conhecimento de poucos e devidamente filtrados - muitas vezes de forma benigna - pelos meios de comunicação social.

A acontecer nessa altura, a incontinência gestual de Manuel Pinho não teria a relevância que teve e quase seguramente não o levaria à demissão. O gesto, sem a presença das televisões, morreria nas suas múltiplas versões e interpretações.

As novas regras parlamentares que impuseram a presença quinzenal do primeiro-ministro no hemiciclo - recorda- -se que se podem contar pelos dedos as vezes em que, por exemplo, Cavaco Silva foi ao Parlamento em quase dez anos como líder do Governo -, o maior espaço dado à oposição, as novas possibilidades de agendamento, trouxeram, de facto, a Assembleia da República para o centro da vida política nacional - e consequentemente para os media - e permitiram um maior escrutínio popular dos mais importantes actores políticos.

Foi um desafio lançado aos partidos, deputados e membros do Governo: mostrar aos portugueses, de forma aberta, clara e com o mínimo de mediação, que as discussões no Parlamento eram realmente importantes para o País; que os deputados estudavam com cuidado os dossiers; que os deputados e membros do Governo estavam mais preocupados em discutir soluções do que em fazer valer os seus pontos de vista; que, em suma, os seus representantes se mostravam à altura das suas responsabilidades.

Seria até uma maneira de, provavelmente de forma ingénua ou inconsciente, tentar contrariar a ideia de muitos portugueses de que o pessoal político é mau e mal preparado.

Nada disto aconteceu. Assistiu-se a uma degradação no nível de debate na Assembleia da República.

O gesto de Manuel Pinho foi o culminar de uma legislatura em que se usou e abusou do insulto e dos apartes em pleno hemiciclo e que contribuiu para um maior descrédito dos políticos. Situação muito grave que, no limite, põe em causa a própria democracia.

Mas a comunicação tem sempre pelo menos dois lados. Feliz ou infelizmente, um gesto obsceno, um insulto ou uma piada de maior ou menor bom gosto chega mais depressa às pessoas que uma qualquer medida que ajude os agricultores. Uma graçola do primeiro-ministro sobre os hábitos linguísticos do dr. Paulo Portas consegue ser mais efectiva que a explicação da execução dos apoios à agricultura.

Somos também nós, cidadãos, os culpados deste estado de coisas, quando damos mais importância à capacidade de dizer meia dúzia de insignificâncias e a gestos impensados do que à substância da discussão. Somos nós que validamos este tipo de comportamentos quando avaliamos melhor um político por uma boa piada do que pela importância das medidas que propõe ou critica.

Mais, o baixo nível do debate acarreta não só a fuga dos mais bem preparados da actividade política como afasta os que teriam gosto e vontade de exercer a mais nobre das actividades: servir os seus concidadãos.

O que levará alguém bem remunerado numa empresa privada ou universidade a ir para o serviço público quando vai ganhar muito menos dinheiro, vai estar sujeito a uma constante devassa da sua vida privada, a ser alvo de injúrias e difamações e, ainda para mais, sofrer insultos e comentários pouco próprios dos seus pares?

O espaço político corre o sério risco de ficar preenchido por gente que está na política apenas porque não consegue outro emprego e que não conhece outra realidade que não seja a da guerra pelos lugares no aparelho do respectivo partido e, depois, se lhes correr bem, no Estado.

A actividade política é para ser exercida pelos melhores de nós e não pelos que não conseguiriam sobreviver fora da política.

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MensagemAssunto: Pinho "matou o arranque do PS" para as próximas eleições   Dom Jul 05, 2009 5:08 pm

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Pinho "matou o arranque do PS" para as próximas eleições

por SUSETE FRANCISCO
Hoje



Especialistas em ciência política são unânimes: o gesto de Manuel Pinho na Assembleia da República deitou por terra o que seria o momento de relançamento do PS para as próximas eleições legislativas, depois do desaire nas europeias e de quatro semanas em que tudo correu mal ao Executivo de José Sócrates. E as consequências podem não ficar por aqui

Uma "turbulência" que rapidamente passará à história ou uma tempestade política com efeitos eleitorais? O gesto de Manuel Pinho no Parlamento, levantando os dedos indicadores num sinal de chifres, deixou o PS tão incrédulo quanto receoso dos efeitos de mais este caso sobre um eleitorado que já mostrou não estar contente com os socialistas. Especialistas em ciência política apontam danos à imagem do Governo. E são unânimes na apreciação - Pinho arrasou com o que seria o momento simbólico de relançamento do PS.

O politólogo Manuel Meirinho não tem dúvidas: "Em política nenhum episódio individual fica circunscrito. Não há efeitos circunscritos, há sempre efeitos colaterais". E o primeiro efeito deste episódio, defende, é uma "fragilização do primeiro-ministro", que viu anulada a estratégia traçada para o debate sobre o Estado da Nação. "Era um momento cardeal para relançar o PS e o Governo depois das eleições europeias. Manuel Pinho anulou isso por completo, matou um arranque que até estava a correr bem" aos socialistas, defende o docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). O que implica agora que o Governo "reequacione um pouco a estratégia".

André Freire sustenta que os principais danos vão sobretudo para a imagem da classe política juntos dos portugueses. Acrescenta que a rapidez com que o caso foi resolvido, com o anúncio da demissão de Manuel Pinho ainda durante a tarde de quinta-feira, ajudou a "conter os danos". Falta saber - e isso dificilmente se pode antever - que percepção ficará na opinião pública do incidente. "Sendo um episódio isolado, pode somar-se a uma imagem de arrogância do Governo. Se passar a mensagem de que isto traduz uma certa atitude do Governo, de uma crispação muito forte, até uma certa agressividade, aí pode fazer mais estragos", afirma o docente do ISCTE.

"Este episódio acabará por ser esquecido, o problema é a confiança pública num sentido global", dado que este episódio representa uma "alteração nas circunstâncias da imagem do PS", defende José Adelino Maltês. Depois do mau resultado nas europeias, com o PS à "procura do seu rumo", o gesto protagonizado por Pinho representa um "abalo na recuperação de uma ideia de confiança". Maltês defende que o sucedido no debate do Estado da Nação é "uma ironia do destino" para um primeiro-ministro que se esforçava por aparecer como pioneiro na comunicação através das novas tecnologias. Acabou por ser a primeira vítima", diz o politólogo. Que destaca outro ponto de todo este processo : "O Presidente da República alinhou no coro de críticas. Não precisava de o fazer, a Assembleia da República já tinha condenado e resolvido o caso". O que significa, acrescenta, que o PS e o Governo "estão rigorosamente vigiados por Cavaco Silva

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MensagemAssunto: Pinho, o anão de Sócrates   Seg Jul 06, 2009 4:23 pm

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Pinho, o anão de Sócrates

por Filomena Martins0
4 Julho 2009



"Pô, se tivesse circo, até o anão crescia."

A frase é uma das muitas de Marinho Peres, o treinador de futebol brasileiro que orientou várias equipas em Portugal, famoso pelo seu bom humor e bonomia, e foi dita numa das fases de azar do Sporting quando ele o treinava. Sócrates está como Marinho Peres, nada lhe corre bem. E Manuel Pinho é o seu anão.

Depois de muitas gaffes, umas realmente menores, outras desvalorizadas por um primeiro- -ministro respaldado primeiro numa maioria absoluta e depois na confiança de que esse unanimismo global se mantinha, Pinho não deixou desta vez alternativa a José Sócrates. Só a demissão salvava politicamente a face do Governo depois do gesto impensado do ministro da Economia: pelas regras da democracia e, sobretudo, porque qualquer outra atitude seria fatal durante as campanhas que se aproximam.

Ferreira Leite é a mesma, o País é que mudou

Em contraciclo a José Sócrates segue Ferreira Leite. Há um ano, se tivesse afirmado que a crise tinha provocado um "abalozinho" ao País, seria politicamente trucidada, até dentro do partido. Há um ano, se tivesse levantado a questão da governamentalização da PT e o presidente da empresa a tivesse recordado do negócio ruinoso em que envolveu o grupo de telecomunicações, entre outras instrumentalizações, teria sido levada numa onda de críticas e acusações. A Manuela que agora anuncia o rasgar de todos os acordos do actual Governo se ganhar as legislativas é a mesma que justificou com um acordo do anterior executivo que não poderia rasgar o seu aval como ministra à compra da rede fixa pela PT que só penalizou os accionistas. É a mesma cujo humor sobre uma interrupção semestral da democracia foi considerado um atentado nacional. O País é que já não é o mesmo. O demérito é de Sócrates.

Sócrates, sabe-se, é avesso a remodelações e defende até à exaustão os seus homens de confiança, aqueles com quem mantém relações pessoais. Foram essas características que seguraram no Governo a dupla que o inqualificável Hugo Chávez ridicularizou: o Pinho do fim da crise e da mão-de-obra barata para atrair investimento chinês (foi em casa do ministro, sublinhe-se, que o primeiro-ministro reuniu há uma semana alguns notáveis da vida pública, muitos deles independentes do PSD, para o aconselharem no programa eleitoral); e o Lino do jamais e do deserto da Margem Sul.

Só que a saída de Pinho agora deixa Sócrates - visivelmente desgastado e em desnorte com a, pelos vistos inesperada, derrota nas europeias - a braços com uma crise grave, no pior momento quando ele tenta o tudo por tudo para não perder a eleição a três meses das legislativas.

Entre os recuos no TGV, no aeroporto e na avaliação dos professores e o caso PT/Media Capital a sair-lhe completamente pela culatra, nada parece realmente correr bem a José Sócrates. Curiosamente, Santana Lopes, provavelmente lembrando- -se do anão de Marinho Peres no Sporting, foi o primeiro a alertar para esta realidade.

Cavaco só está a ser igual aos seus antecessores

Factos: Cavaco Silva, nos últimos meses, pronuncia-se sobre todo o tipo de matérias; as suas declarações dão cobertura, a priori ou a posteriori, a posições tomadas pela líder do PSD; essa cobertura política ao partido de que é oriundo tem um peso terrível na actual campanha eleitoral em que o País mergulhou; o Presidente está nitidamente ao lado de Ferreira Leite e a ser um dos rostos da oposição ao Governo. Críticas? Muitas, tendo em conta o papel reservado ao Presidente no sistema político nacional. Novidades? Nenhuma. O que Cavaco está a fazer agora já fez Eanes, Soares e até mesmo Sampaio. Quando Presidência e Governo têm cores políticas diferentes e há eleições de premeio, sucedem-se vetos, discursos e actos que cortam com a independência e o equilíbrio que era suposto existir em Belém. É assim e assim continuará a ser. Chama-se política.

Entre a espada e a parede Vieira fez bem

Entre a espada e a parede, preferiu a espada. Fez bem. Sem nada seguro sobre a embrulhada jurídica em que se transformaram as eleições do Benfica de ontem (é inqualificável que os líderes do clube não se tenham munido de todos os pareceres necessários antes de terem decidido demitir-se em bloco para anteciparem as eleições de Outubro para Julho para evitar concorrência indesejável e alguns desaires desportivos comprometedores), a única via que o presidente do Benfica tinha foi a que escolheu e à qual o juiz daria razão a meio da tarde. Depois de eleito com o voto dos sócios, seja qual for a decisão final dos tribunais, entre recursos, impugnações e outros artifícios da justiça, passarão meses ou anos. E terá sempre o respaldo de quem o elegeu, os sócios.

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MensagemAssunto: A inquisição 2009   Seg Jul 20, 2009 10:15 pm

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A inquisição 2009

por Alberto Gonçalves
Ontem



Segunda-feira, 13 de Julho

Curioso. Os mesmos que às segundas, quartas e sextas acusam o Vaticano de genocídio a propósito da condenação dos contraceptivos, às terças e quintas correm a exaltar a Santa Sé. Desde que nestes dias haja uma mensagem papal aparentemente avessa ao capitalismo.

Escrevo "aparentemente" porque a terceira encíclica de Bento XVI, "Caridade na Verdade", ou "Amor na Verdade", foi lida com certos abusos interpretativos. Nela, ao contrário do que se fez constar, nem por uma vez o Papa rejeita o mercado livre ou a globalização, e explicitamente refere que não pretende sugerir modelos de organização política ou alternativas ideológicas, aliás áreas incompatíveis com a religiosidade e a moral individuais e privadas de que o teólogo Ratzinger trata. Por azar, a subtileza do tratamento é excessiva para os que imaginaram nas suas palavras um apelo à "reinvenção" do sistema económico e, claro, um ataque à "ganância".

Embora a "ganância" não apareça na encíclica, apareceu de imediato nas cabecinhas dos que vêem na crise actual uma "oportunidade" para alterar a "estrutura" das sociedades ocidentais. A bem dizer, já antes da crise actual as cabecinhas em causa viam diariamente outras crises e outras oportunidades de espatifar o comparativo bem-estar de que dispomos, mas esse é um assunto diferente. Prefiro sublinhar o carácter expiatório de um termo que, se bem percebo, é sinónimo de apetite pelo lucro, materialismo ou, mais prosaicamente, do desejo de cada indivíduo em ver o seu trabalho recompensado. Querer ganhar mais dinheiro, em suma, é tão deplorável quanto as trafulhices de Madoff, que os inimigos do capitalismo não distinguem do enriquecimento lícito: tudo é ganância.

A "opção", claro, passa pelo Estado. Quando os cidadãos ambicionam aumentar ou no mínimo proteger os seus rendimentos, isso é ganância. Quando o Estado assalta os cidadãos para torrar os respectivos impostos em clientelas e "benesses" de utilidade discutível, isso é justiça social. Se um sujeito vive (confortavelmente) à custa de trabalho, incorre em pecado; se vive (confortavelmente) à custa do trabalho alheio é exemplo ou objecto de solidariedade.

Em última instância, a finalidade da inversão de valores é óbvia: critica-se o capitalismo porque a prosperidade (e a consequente liberdade) que só o capitalismo veicula retira audiência aos seus críticos, cujo desígnio é regulamentar vidas alheias. Uma existência desafogada é menos sensível à pregação de ociosos acerca da economia, dos hábitos sexuais ou do que calha. E ver as pessoas no fundo a fazerem o que lhes apetece suscita nos anticapitalistas uma irritaçãozinha com que a Igreja contemporânea nem se atreve a sonhar.

Terça-feira, 14 de Julho

ASAE, uma elegia

A ASAE nasceu em finais de 2005, espécie de braço armado de um Governo com maioria parlamentar e sem intimações de mortalidade. Logo a abrir, adoptou a sobranceria reformista dos seus criadores e, de capuz e metralhadora, passeou o estilo por feiras, restaurantes, fábricas e negócios em geral, nuns casos no cumprimento da lei, noutros no cumprimento da prepotência de que começou a ser sinónimo. As televisões mostravam o lado "eficaz" da organização. Em privado, pessoas reais relatavam o lado burlesco, suscitado por inspectores zelosos, inexperientes e ignorantes daquilo que inspeccionavam. Habitualmente, o método de "inspecção" consistia numa lista de normas e imposições a que os inspectores, formados em cursos mais ou menos universitários, submetiam as empresas. A arrogância do pequeno poder e a legitimação "comunitária" faziam o resto.

E faziam o quê, no final de contas? Removido o folclore bélico, o que sobrou? Quais são os efeitos da ASAE no número de intoxicações alimentares? E na contrafacção de produtos? Quantas empresas beneficiaram da sua acção? Quantas faliram? O que ganharam os consumidores com tamanho vendaval? E os contribuintes? Quanto perdeu o país? Quanto nos custou?

Convinha que estas perguntas arranjassem respostas, e o eng. António Nunes, que uma ocasião amavelmente me ofereceu uma visita guiada à sede da organização (impedida por incompatibilidade de datas), não terá problemas em fornecê-las. Resta saber se terá tempo. A detenção de uma senhora que vendia "raspadinhas" gerou um processo judicial que aponta para a eventual inconstitucionalidade da ASAE. Afinal, os ilegais serão eles. Nenhuma surpresa: por regra, a caça às bruxas, ou às bolas de Berlim, ou às colheres de pau, termina com os caçadores em apuros. Mas o importante é que termine.

Quarta-feira, 15 de Julho

Claque inteligente

O apoio de "personalidades públicas" à candidatura de um político é sempre um processo engraçado. Primeiro, na expectativa de benesse ou mera notoriedade, a "personalidade" X declara o seu entusiasmo pelo político Y. Depois, na expectativa de que a "personalidade" X contagie anónimos (os pelintras que não são "personalidades"), o político Y agita-a em público género penduricalho. Consequências? O anónimo ignora o assunto, o político julga-se estimado, a "personalidade" arrisca uma tença e eu divirto-me à grande.

Confesso, porém, que raras vezes o potencial de diversão atingiu o nível verificado na actual campanha de António Costa. Nem falo da simpatia de José Saramago, comprada à custa do património municipal. Falo do CLAC, Cidadãos Lisboetas Apoiam António Costa, que conheci através de notícia no "Público", onde se descreve o movimento subscrito por "120 intelectuais".

O título da notícia já é um prodígio cómico: "Costa tem 'a intelligentsia do lado dele'", citação colhida num Eduardo Pitta, a que o jornal chama "escritor" e que parece ter ganho um "t" por troca com o "a" que falta ao CLAC. Mas não sei o que tem mais piada, se a candura com que o sr. Pitta, cuja obra talvez seja familiar a 0,006% dos portugueses, se coloca a ele próprio na "intelligentsia", ou se a "intelligentsia" propriamente dita.

Vejamos a lista dos "120 intelectuais": actores de telenovela, fadistas e cançonetistas ligeiros (incluindo o fatal Represas), sindicalistas, "artistas plásticos", a activista "palestiniana" Maria do Céu Guerra, aquela senhora da "Abraço", o capitão/coronel/marechal de "Abril" Vasco Lourenço, incontáveis funcionários da autarquia (pudera) e puros desconhecidos (para mim). E o sr. Pitta.

Escusado dizer que, salvo duas ou três excepções (Eduardo Lourenço, por exemplo), as criaturas da lista não são a elite cultural lisboeta. Mas o simples facto de poderem ser seriamente apresentadas como tal (e com direito a debate sobre a acepção histórica de "intelectual") trai uma certa rusticidade, um certo arzinho a menino da lágrima e "marquise" de subúrbio que não destoaria em Kinshasa ou Bogotá. Ou em Gaza, com que, não por acaso, querem "geminar" a capital. Em si, a presumida "intelligentsia" em prol de António Costa vale zero, ou menos. Enquanto sintoma, é o retrato nítido do nosso lugar no mundo e do nosso atraso. 120 intelectuais? O sr. Represas? Não encontraram o pequenito Saul (com o devido respeito por este)? Se não rirmos disto, a alternativa será um pranto interminável.

Sexta-feira, 17 de Julho

Ninguém diga que está bem

Além das (belíssimas) inovações na grafia que o Acordo Ortográfico promete, há novidades lexicais imprevistas no próprio Acordo. Uma delas, já em pleno uso institucional, mediático e popular, é "Tar". Em inglês, é substantivo e significa "alcatrão". Aqui é verbo e, se bem entendo, veio fazer as vezes do velho "Estar", o qual levou sumiço da oralidade.

Veja-se, salvo seja, a televisão. Não se passam dez segundos em frente a um canal nacional sem deparar com uma senhora que "tará" disposta a mudar a sua vida, um cavalheiro que "teve" dois anos desempregado e uma instituição que "tá" a apostar em novas valências. Nos noticiários é ainda melhor: o Governo conta que a retoma "teja" próxima; os colegas do Real Madrid não "tariam" à espera do profissionalismo de Ronaldo; os 40 anos da alunagem "tarão" aí.

Julgo que o propósito, compreensível na sociedade de informação alucinante em que vivemos, é poupar nas letras. Pelos vistos, e por exemplo, a abolição dos "cc" e dos "pp" não articulados explícita no Acordo não é o bastante. A ideia é alargar a abolição aos caracteres que pudermos, até atingirmos o objectivo de falar exclusivamente por monossílabos e grunhidos, proeza que as novas gerações, as que brilham nos exames de Português e que tanto orgulham a sra. ministra da Educação, já cometem com brio. Daqui ao silêncio e aos sinais de fumo é um passo evolutivo que não tardará em chegar. Por mim, tou mortinho que chegue. Você não tá?

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MensagemAssunto: O tudo ou nada de Ferreira Leite   Qui Ago 27, 2009 11:24 am

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O tudo ou nada de Ferreira Leite

por Rui Hortelão



Não havia espaço para equilíbrios. Chegara o momento de todas as definições, do tudo ou nada para Manuela Ferreira Leite.

Sentindo que pode ganhar o País e sabendo que não seria por incluir os críticos nas listas que a pouparão em caso de derrota, a decisão afigurou-se quase óbvia. Ponderadas as vantagens e as desvantagens de manter ou excluir os opositores internos, a balança tombou para a segunda opção. Mantê-los evitaria as críticas de prepotência, mas acarretaria a certeza de inevitáveis problemas mais à frente, ganhe ou perca o PSD as legislativas. Afastá-los legitima as queixas dos opositores, por um lado, mas por outro força-os a assumirem--se se quiserem continuar a promover a contestação interna. E ainda com a vantagem vital de, em caso de derrota nas eleições, assegurar uma bancada parlamentar unida e evitar os duelos destrutivos que atingiram o PSD nesta legislatura. Ferreira Leite sabe também que, com o PSD bem colocado, como está, nas sondagens, ninguém arriscará demarcar-se demasiado da sua liderança até Setembro. Depois disso, os cenários também são previsíveis: a vitória congelará a contestação interna; a derrota inflamá--la-á provavelmente muito para lá do que a líder do PSD conseguirá aguentar. Da análise política das listas, há ainda outros aspectos que ficam evidentes. A reunião de competências e especializações essenciais à governação é positiva, mas peca por cingir-se à vertente técnica, pois a maioria destes profissionais tem pouca ou nenhuma experiência política. Uma lacuna que Ferreira Leite tentou compensar com o renascimento de Couto dos Santos, a continuidade de Fernando Negrão e a aposta em Maria José Nogueira Pinto, mas que não esconde as notórias dificuldades em fomentar a renovação do partido.

Moniz, Vasconcellos e a nova era da TV

Quando as relações entre José Eduardo Moniz e a administração da Prisa azedaram, ainda Nuno Vasconcellos estava a despertar para o mercado dos media (a participação na SIC é herança familiar). Os dois souberam esperar. Moniz usou os feitos conseguidos à frente da TVI para resistir às pressões que se abatiam sobre ele e a mulher, Manuela Moura Guedes. Vasconcellos entrou em força na imprensa económica, em Portugal e em Angola, e, num ano, ganhou a confiança necessária para alargar horizontes. O descontentamento de Moniz na TVI, e a disponibilidade que este mostrou para sair aquando das eleições do Benfica, facilitou a estratégia que o patrão da Ongoing há muito adoptou como profissão: escolher os melhores e desenvolver empresas. Só a falta de visão poderia ser obstáculo a juntar à sua equipa o mais rentável e eficaz gestor da televisão portuguesa. Ainda no dia da sua saída, Moniz fez questão de dar uma lição de fazer audiências: mandou abrir o Jornal da Noite com a sua demissão, passou uma hora a promover a notícia e só depois entrou em directo, para 16 minutos de recados sobre o passado e promoção sobre o futuro. Mais requintado era difícil. Por fim, uma referência aos conspiradores, que insistem em teorizar sobre o acessório, negligenciando o que realmente interessa. E, neste caso, será sempre mais importante o projecto de Vasconcellos e Moniz do que a especulada entrada minoritária da PT na Media Capital.

A hipocrisia do Bloco Central

À sucessão de casos judiciais envolvendo políticos, reagiram PS e PSD com declarações públicas de interesse em afastar as ovelhas negras do seu rebanho. O actual Governo chegou inclusive a prometer, em 2007, a alteração da Lei da Tutela Administrativa para prever a suspensão dos mandatos de autarcas arguidos. Mas, durante dois anos, o silêncio foi regra de ouro sobre o assunto. Os socialistas nada fizeram e a oposição, do PSD ao Bloco de Esquerda, condescendeu. Interessadamente, claro. É por isso que, em matéria de políticos suspeitos ou acusados, nenhum partido tem já moral para se querer distinguir dos restantes. O Governo deixou cair a alteração na lei e Ferreira Leite não só disse (e mais uma vez, como exige Pacheco Pereira, ter-se-á de lhe dar uma "interpretação especial" às suas palavras) que matérias importantes não são para ser discutidas em vésperas de eleições como incluiu nas suas listas dois deputados arguidos. O assunto é delicado e, sabendo PS e PSD as manipulações a que sujeitam a justiça sempre que são poder, compreende-se algumas reservas em legislar sobre a matéria. Mas, já que é assim, pelo menos podiam poupar os portugueses à demagogia.

Tramados por elas!

John Dillinger celebrizou-se a assaltar bancos na década de 30, nos EUA. Isaltino Morais destacou-se como animal político no PSD, chegou a ministro e, mesmo acusado de corrupção, ganhou a Câmara de Oeiras. O primeiro acabou condenado e preso. O segundo também foi condenado, mas pagou cem mil euros e, por enquanto, continua em liberdade. Quis o destino que Isaltino e Dillinger fossem notícia de primeira página na mesma semana. Mas antes já os dois tinham algo muito mais significativo em comum: ambos foram denunciados por mulheres. O gangster americano foi traído por uma amiga da namorada e acabou preso à saída do cinema depois de assistir a um filme... de gangsters. Isaltino Morais deixou-se encantar por uma jovem de 19 anos que entrou na Câmara de Oeiras como temporária e acabou como sua chefe de gabinete, e a quem terá chegado até a propor casamento. Quando se zangaram, ela denunciou-lhe as contas na Suíça e abriu a caixa de Pandora, arruinando-lhe a carreira política e deixando-lhe sobre a cabeça a nuvem negra da prisão.

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MensagemAssunto: Uniões de facto: o que se pretende?   Qui Ago 27, 2009 4:12 pm

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Uniões de facto: o que se pretende?

por MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO
Hoje



A questão fulcral assenta na opção do legislador de aproximar o regime jurídico das uniões de facto do regime do casamento.

O veto do Presidente suscitou as mais diversas teses conspiratórias e as interpretações distorcidas a que uma certa esquerda nos tem habituado. Na primeira linha estão os que inscrevem este veto num quadro valorativo ideológico e (ou) religioso, ou que vêem nele um sinal implícito de apoio à "direita reaccionária"; na segunda, os que num discurso de luto lamurioso fazem tábua rasa do conteúdo da nota presidencial que exprime não só o reconhecimento da necessidade de aperfeiçoamento do regime jurídico das uniões de facto, como pressupõe que o próximo legislador - qualquer que ele seja - recuperará, em melhores condições, o processo de revisão da actual lei no quadro de uma discussão aprofundada.

A questão fulcral, como todos entenderam, assenta na opção do legislador de aproximar o regime jurídico das uniões de facto do regime jurídico do casamento. Ora esta opção pode, por si só, comprometer as opções individuais daqueles que, não querendo contrair matrimónio, optam por uma união de facto e que, por isso mesmo, não podem ter interesse ou ver vantagem em serem espartilhados por um regime jurídico que não corresponde ao seu animus nem à sua intenção. O que está em causa não é de somenos já que se trata de preservar a liberdade de escolha no âmbito da esfera privada de cada um. Pode o Estado sobrepor-se a isso?

A questão não é nova e convém lembrar que, quando por iniciativa do PS o Parlamento se confrontou pela primeira vez com a "contratualização" das uniões de facto, o debate girou em torno do mesmo ponto. Não faltou quem, à esquerda, quisesse fazer desta contratualização uma espécie de subcasamento assente num falso princípio da igualdade. Uma igualdade que é conseguida diminuindo ou preterindo o estatuto dos que se casam e, simultaneamente, criando de forma artificial e voluntarista um estatuto semelhante para os que apenas querem viver juntos.

Podia evocar aqui Sartre e Beauvoir que com tanto desvelo elencaram o argumentário contra o aburguesamento das relações sentimentais, mas duvido que a nossa esquerda doméstica se lembre deles. Certamente mais útil é relembrar duas perigosas particularidades da nossa democracia que têm vindo a agravar-se.

A primeira refere-se ao modo como se tem legislado em Portugal: quer a aprovação recente, em sede de governo e em sede parlamentar, de leis inconstitucionais, quer a aprovação de leis que se revelam, logo após a sua entrada em vigor, incompreensíveis, inaplicáveis e perniciosas para os próprios destinatários. Do alto do seu cadeiral o poder constituído legisla indiferente à realidade social e sociológica que o rodeia, alheio aos anseios e legítimos interesses dos cidadãos e distante dos que têm por função aplicar a lei. O caldeirão parlamentar sobrepõe-se ao valor da certeza e segurança jurídica.

A segunda diz respeito a esta crescente invasão da esfera privada dos cidadãos. O Estado - que tantas vezes falha nas suas mais relevantes funções - quer hoje tomar conta de todos e cada um de nós: dos nossos casamentos, dos nossos divórcios, das nossas uniões de facto, das nossas famílias, da educação dos nossos filhos e até da quantidade de sal em cada carcaça que comemos. É uma ameaça crescente às liberdades individuais e cívicas em nome das boas intenções que enchem o inferno e da legitimação de uma ditadura do pensamento único.

Isto sim, é perigosamente ideológico. O que me leva a ter saudades do "é proibido proibir" do remoto Maio de 68 que era bem melhor. Seria então proibido proibir as famílias e os cônjuges de serem o que são, e proibido proibir os que vivem em união de facto de serem o que querem ser. Aliás, parece-me que ninguém pediu o contrário. Quando muito, e justamente, o direito à diferença.

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MensagemAssunto: 2004 em 2009   Sex Set 18, 2009 5:30 pm

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2004 em 2009

por Fernanda CâncioHoje




Lembram-se de 2004? Durão Barroso decidiu abandonar as funções de primeiro-ministro, para as quais tinha sido eleito, e rumar a Bruxelas para assumir a presidência da Comissão para a qual acaba de ser reeleito, "apontando" Santana Lopes como seu herdeiro.

Assolado pelo fervor patriótico do final do Euro 2004, Portugal fazia-se palco de um espectáculo político permanente: Manuela Ferreira Leite falava em "golpe de Estado", Cavaco (não me lembro se na mesma altura ou pouco depois) vituperava o substituto de Barroso com o epíteto de "má moeda", Pacheco Pereira fazia-se arauto indómito da resistência do povo livre e Santana tomava posse numa confusão de papéis, ministérios e secretarias de Estado, com Teresa Caeiro a chegar à cerimónia sem saber o que lhe caberia e Portas a receber de surpresa os Assuntos do Mar, que lhe valeriam, lá para Agosto, o confronto heróico com as mulheres das ondas.
Como muito boa gente, pasmei com a escolha de Barroso. Porquê Santana, se tinha Ferreira Leite? Como muito boa gente, fazia estas contas: Ferreira Leite era ministra das Finanças e número dois do governo; Ferreira Leite era (ou parecia) uma pessoa séria; Ferreira Leite era (ou parecia) da nobreza do PSD; Ferreira Leite era (ou parecia) uma pessoa competente; Ferreira Leite era (ou parecia) o contrário absoluto de Santana Lopes; Ferreira Leite era mulher (esta era a parte, confesso, de que gostava mais).Ferreira Leite era (ou parecia) a escolha óbvia.
O mistério prolongar-se-ia, pelo que me diz respeito, até 2009. Quando Ferreira Leite foi eleita presidente do PSD, a sua vitória sobre Santana, ainda que magra, surgiu como justiça poética. Isto, claro, foi até começar a ouvir Ferreira Leite. As primeiras entrevistas revelaram não só uma pessoa de discurso errático, impreciso, hesitante - o que não sendo uma qualidade nem desejável podia ser fruto de pouco treino mediático (ainda que justificação bizarra em alguém que anda na política e em cargos governativos desde os anos 80) - como com ideias absurdas e contraditórias,ou mesmo sem ideias nenhumas. Mas foi preciso chegarmos à recta final das legislativas para se perceber que nem na sua suposta área de especialização, a da economia e finanças, Ferreira Leite parece saber do que fala. Não se limitou a confundir a taxa máxima do IRS com a do IRC no debate com Jerónimo de Sousa; ontem de manhã na TSF mostrou não saber o que é um projecto PIN (Projecto de Interesse Nacional), ao responder a um ouvinte que "não pode ser o Governo a decidir que empresas salva". Ora até eu, que nãopercebo nem pretendo perceber de economia, sei que os projectos PIN não têm nada a ver com "salvar empresas". Um candidato a PM pode estar a favor ou contra a existência da classificação PIN e do que significa; não pode é nao fazer ideia do que é um PIN e, já agora, convém que não finja que sabe (parece que a isso se chama aldrabar, não?).
Percebo pois agora o dilema de Barroso. A própria MFL, afinal, também o percebe: no mesmo programa da TSF, disse que quando se candidatou à presidência do PSD nunca pensou que poderia vir a concorrer a primeira-ministra. Parece mentira, mas é verdade - verdadinha.

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MensagemAssunto: Uma nova ordem económica mundial?   Ter Set 29, 2009 5:07 pm

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Uma nova ordem económica mundial?

por Mário Soares
Hoje



1. Desde há décadas, na segunda metade do século passado, que nos meios progressistas se falava da necessidade de uma nova ordem económica mundial. Sempre em vão. Desta vez, em plena crise global - que não terminou, insisto -, no encontro dos G20 que teve lugar, há três dias, em Pittsburgh, na América do Norte, a convite de Barack Obama, mas à margem das Nações Unidas, note-se, Gordon Brown decretou, no encerramento da cimeira, que foi "criada uma nova ordem económica mundial para lidar com os problemas financeiros e económicos mundiais", que abrange ou coordena, ao que parece, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial.

Que verdade existe nesta declaração surpreendente do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown? Responderia que tem uma parte ou meia verdade. O G20 tem vinte países membros dos mais ricos da terra, que representam 85% do PIB (produto interno bruto) mundial. É bastante considerável. Entraram os países emergentes: Brasil, Índia, China, para além da Rússia, Arábia Saudita, Argentina, Japão, África do Sul, Indonésia, México, Turquia, Austrália, e os tradicionais Canadá, Estados Unidos, União Europeia (França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha) e o presidente da Comissão Europeia. Foi um amplo alargamento, desde o G7 e, depois, G8. Precisamente mais doze países membros vindos dos cinco continentes, mas tendo como países islâmicos apenas a Arábia Saudita, uma teocracia plutocrática, a Indonésia e a Turquia. O que é manifestamente pouco, para uma organização que se propõe ser "o governo financeiro e económico do mundo". Faltam os outros cento e sessenta e tal países membros da ONU!

Claro que esta "nova ordem" não definiu com suficiente clareza quais as políticas financeiras e económicas susceptíveis de criar, na expressão de Obama, um novo paradigma de desenvolvimento. E não ultrapassou velhas divergências entre os países ditos desenvolvidos e os países emergentes. A economia de casino está longe de ter sido ultrapassada: não se reduziram os prémios bilionários e escandalosos dos gestores das grandes empresas (incluindo os bancos), nem se acabou, como se dizia, com os "paraísos fiscais", nem se criaram os mecanismos de fiscalização necessários para evitar as grandes corrupções. E, sem isso, não será possível ultrapassar a crise.

No entanto, no plano diplomático, deu-se um passo em frente (importante) pondo a dialogar países tão diferentes como os Estados Unidos, a China, a Alemanha, o Japão, a Rússia, o Brasil, a Índia, a África do Sul e a Indonésia.

O documento final - divulgado na íntegra pelo El País, de domingo passado - tem um preâmbulo que parte da premissa (polé-mica) de que os países signatários se comprometeram a garantir a recuperação, a reparar os sistemas financeiros e a manter o fluxo global de capitais. E que "tudo funcionou" (o que é igualmente polémico). Esta-mos cá para ver. O documento afirma, aliás, que os signatários não vão permitir um re-torno ao que a banca vinha fazendo. É caso, para os crentes dizerem: "Deus os oiça!"

Quanto às conclusões, contêm alguns princípios simpáticos, mas vagos: "Deve fazer-se mais contra as práticas abusivas do mercado" (sem se indicar quais e como); "importa fortalecer a regulação do sistema financeiro internacional" (sem também se indicar como); "o Banco Mundial e os bancos regionais deverão reforçar a coordenação entre si"; "não se deve estimular o retorno às práticas que levaram à crise"; e, finalmente, que "se deve fomentar a transparência das estruturas de compensação". Tudo boas intenções. Mas será que os G20 estarão resolvidos a passar das palavras aos actos?

Finalmente, ocuparam-se da "segurança energética e das mudanças climáticas" - que irão ser discutidas e, depois, tomadas medidas peremptórias, em Copenhaga, em Dezembro próximo - "prometendo trabalhar para que a recuperação seja duradoura, sustentável e verde". Prometem ainda trabalhar para que a Ronda de Doha (respeitante à Organização Mundial do Comércio, onde não houve acordo entre os "desenvolvidos" e os "emergentes") possa terminar com êxito em 2010, "sendo imperativo permanecerem unidos contra o proteccionismo".

A próxima Cimeira do G20 será no Canadá, em Junho de 2010 e na Coreia do Sul, em Novembro do mesmo ano. Tratou-se de um passo importante com excelentes intenções. Veremos se o tempo - e a crise - obrigarão os 20 a ter bom senso e a cumprir as promessas...

2. Afeganistão, Iraque e Irão. Obama está a fazer o que pode, em múltiplas frentes, na linha estruturada do seu pensamento humanista, idealista e progressista. Mas o mundo dos grandes interesses e a resistência do conservadorismo, do belicismo e da violência organizada, no interior da América e no exterior, coligados, tudo fazem para o travar e tentar desacreditar. Parece que uma parte do mundo quer que tudo fique na mesma e teme, acima de tudo, as mudanças necessárias. E, entretanto, tudo cai em cima de Obama...

Dos três países citados que estão, por razões diferentes, na actualidade mais actual, das últimas semanas, o Iraque parece ser o menos problemático. Embora se saiba que os Estados Unidos vão retirar de lá as suas tropas. Contudo, tudo leva a crer, dadas as dificuldades crescentes, que não será tão rápido quanto se supunha. É caso para perguntar: quem alimenta a violência? Donde vêm as armas e o dinheiro para sustentar o terrorismo latente?

O Afeganistão, como tenho escrito nesta coluna, é hoje um problema muito mais difícil ainda de resolver do que o Iraque. O envolvimento da NATO na invasão de um país que nunca foi vencido (nem por britânicos, nem por soviéticos, nem por americanos) foi um erro colossal que pode ter como consequência o descrédito total daquela organização, que sempre pretendeu ser defensiva. Há que encontrar uma saída - que não é fácil. Mas uma coisa é certa, não é pela guerra que se poderá encontrar.

Finalmente, o Irão. A teocracia está a exagerar. As eleições revelaram um descontentamento enorme. O povo desceu à rua e manifestou-se com coragem e exuberância. Foi reprimido com violência, que não esquece. E agora surgiu mais uma central nuclear, com lançamento de mísseis de longo alcance. Um perigo enorme. Os ocidentais reagiram. Mas não só. A Rússia e a própria China também estão preocupadas. Atenção: o mundo quer paz, não guerra! O povo iraniano sabe isso, por experiência própria.

3. As eleições de 27 de Setembro deram uma incontestável vitória ao PS e a José Sócrates. Perdeu a maioria absoluta, é certo, como se esperava. Mas depois de ter tudo - e todos - contra ele - todos os partidos e as diversas corporações de interesses sectoriais (professores, magistrados, polícias, agricultores, uma parte dos funcionários públicos e alguns sindicatos, que imprudentemente entraram na política, até quase ao último dia) -, conseguiu obter uma maioria relativa, o que não pode deixar de ser considerado uma grande vitória. Daí a alegria indisfarçável do PS, que celebrou a vitória, em unidade e com genuíno entusiasmo.

Contudo, com a ponderação do dia seguinte, há que reconhecer, com isenção, que houve outros vencedores: o PP de Paulo Portas, que, inesperadamente, chegou a terceiro partido, ao contrário do que previam todas as sondagens e atingiu a almejada percentagem simbólica dos dois dígitos (10,5%); e o Bloco de Esquerda, que, ficando bastante aquém das expectativas anunciadas, dobrou o número de deputados no Parlamento, o que é considerável e importante.

Quanto à CDU, avançou ligeiramente - o que nos tempos que correm não é mau - e, em percentagem de votos e de deputados eleitos não ficou muito atrás do Bloco (7,88% para 9,85% e 15 deputados para 16). Por fim, o PSD só teve uma derrota porque durante toda a campanha não se cansou de anunciar a vitória sobre o PS, como uma inevitabilidade. Manuela Ferreira Leite, com a sua rigidez e a raiva contra o PS e o Sócrates, em espe-cial -, saiu das eleições, obviamente, fragilizada. Contudo, como vamos entrar de imediato na campanha das autárquicas, é de esperar que os "barões" adiem para depois o inevitável ajuste de contas.

4. E agora? Temos pela frente dois desafios imediatos: as eleições autárquicas importantíssimas, dentro de duas semanas, isto é: amanhã; e a constituição do novo Governo, sob a presidência de José Sócrates, uma vez indigitado pelo Presidente da República e realizadas as consultas que prometeu fazer a todos os partidos com assento parlamentar. Nesse sentido, quanto a mim, não tem que ter pressa.

Note-se que vivemos uma crise global que está longe de ser superada. A reunião do G20, em Pittsburgh, como escrevi atrás, deixou quase tudo em aberto. Os próximos meses, até ao fim do ano, serão decisivos e Portugal- membro prestigiado da União Europeia e da CPLP - não pode deixar de ter isso em conta, desenvolvendo uma diplomacia interventiva e inovadora.

Mas há outra questão que me preocupa - e deve preocupar os portugueses - a fragilização política do Presidente da República e o seu silêncio, quando mais precisamos de saber o que pensa e como tenciona exercer as suas funções constitucionais de "moderador e árbitro".

E, depois, há a questão preocupante da governabilidade, que é o que mais interessa aos portugueses. Reconheça-se que Sócrates é hoje um outro homem: maduro, experiente, dialogante, contido, informado e competente. Exactamente o contrário da imagem que toda a oposição à direita e à esquerda lhe tentou colar até ao dia das eleições. Um erro imperdoável em que o povo português não incorreu. Felizmente.

Mas agora, na situação presente, Sócrates deve dar mais um salto em frente: tem que mostrar flexibilidade, jogo de cintura, paciência e capacidade de diálogo, com todos os partidos, sem excepção. Governar sem maioria absoluta é outra coisa. É a prova de ser um grande estadista, com a adaptabilidade que as circunstâncias difíceis, sob todos os aspectos, lhe vão exigir. Estou certo de que vai conseguir. Mas, atenção, as responsabilidades são partilhadas: os Partidos com assento na Assembleia têm também novas e sérias responsabilidades. Não lhes basta protestar. Os comícios - e houve alguns até ao fim - acabaram na noite eleitoral. O País está farto deles. Agora, são precisas ideias e propostas concretas, exequíveis e inovadoras. Porque Sócrates, como primeiro-ministro, terá sempre uma arma absoluta: a apresentação ao Parlamento de uma moção de confiança ou novas eleições, se a não conseguir.

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MensagemAssunto: Uma tragédia política em três actos   Sab Out 03, 2009 3:30 pm

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Uma tragédia política em três actos

por Rui Hortelão
Hoje



Acto primeiro - O Presidente da República prometeu e cumpriu, só falou após as eleições. Legislativas, porque, se estas foram perturbadas pelo silêncio presidencial, as autárquicas perderam irremediavelmente visibilidade por o Presidente ter falado. As suas palavras deram novo fôlego aos que teimam em defender o indefensável, alheios ao princípio - factual, documentado e confirmado - de tudo: foi a Presidência da República, através de Fernando Lima, que criou o caso. Sem o encontro do "café discreto da Av. de Roma", sem a entrega de um dossiê sobre um assessor do primeiro-ministro, sem as manchetes do Público de 18 e 19 de Agosto, sem as fontes oficiais e o silêncio cúmplice de Belém, não haveria caso das escutas. Repito: não haveria caso das escutas.

Acto segundo - A rejeição do fim político de Cavaco Silva é das poucas coisas acertadas que dizem os amigos do Presidente - os dedicados de sempre e os oportunistas de circunstância. Vinte e cinco anos de obra política consistente não se esfumam por um erro. Mas tão utópico é sonhar com a fragilização definitiva de Cavaco Silva e a sua não recandidatura à Presidência da República, quanto defender que lhe será possível continuar a ser, aos olhos dos portugueses, uma referência de estabilidade, serenidade e independência. Oiça-se o que tem dito o amigo Marcelo Rebelo de Sousa.

Acto terceiro - José Sócrates conquistou a reeleição. Pessoalmente, um triunfo sobre os fantasmas do seu passado, sobre os erros de alguns dos que o rodeiam e sobre os adversários. Politicamente, uma prova de fogo sem retorno. Se é verdade que em 2005 foi surpreendido com o poder absoluto, também o é que a ele se afeiçoou com perigosa intensidade. Nos próximos anos, ver-se-á se o político de elite que conduziu Portugal nos últimos quatro anos é fruto do mérito pessoal de José Sócrates ou pouco mais do que um acaso provocado pela convergência do poder absoluto, com uma oposição fraca e três anos de conjuntura favorável.

Ainda a TVI

Quando a Prisa comprou a Media Capital os patriotas de gema alertaram para o perigo de entregar a televisão líder de audiências a estrangeiros. Quando o primeiro-ministro e a TVI entraram em colisão, logo houve quem alertasse para pressões, como se estas fosses inéditas e únicas. Quando a PT quis entrar na TVI, os mesmos clamaram contra a manipulação política. Fizeram eco destas teses assim que foram consumadas as rupturas de José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes e, agora, voltaram a clamá-las por a Prisa ter vendido 35% da Media Capital à Ongoing. O que ainda não se sublinhou é que a TVI vai voltar a ser controlada por portugueses; que talvez assim se trave a quebra de qualidade e resultados que se verifica desde que o director-geral deixou Queluz; e que os interesses da Ongoing podem até servir os de Sócrates, mas seguramente não foi à força que Nuno Vasconcellos contratou Moniz

As lições do prof. Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa está para Cavaco Silva como António Costa para José Sócrates. Não há cenário de mudança no PSD que não inclua o seu nome, não há conspiração política que o exclua. Não há contribuição pública sua para que assim seja, nem esclarecimento inequívoco de que assim não é. Há apenas política, da pura. O exercício exímio desta ciência, com estratégia e objectivos bem definidos, por parte de quem tão bem faz jus ao título de professor.

A gravata de Santana

Santana Lopes está numa cruzada pela credibilidade. Trabalhador empenhado e lutador inveterado, o candidato a Lisboa quer fazer esquecer o seu passado de solteirão charmoso, presença regular nas noites do jet set, e de político desbocado, disposto a dizer (quase) tudo o que pensava. Desde que se lançou na corrida a Lisboa, recusa fotografias de entrevista em poses que não as mais institucionais, evita polémicas com a mesma força com que antes as procurava, foge dos locais onde no passado era presença assídua. Decidiu abriu uma excepção na entrevista aos Gato Fedorento, mas arrependeu-se à última hora e teve de pedir uma gravata emprestada a Ricardo Araújo Pereira. Um pormenor apenas, não fosse ser parte de uma rigorosa estratégia.

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MensagemAssunto: Jornalismo, mentiras e Belém   Sex Out 16, 2009 10:06 pm

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Jornalismo, mentiras e Belém

por Fernanda Câncio
Hoje



Faz domingo um mês, o DN publicou o mail de um jornalista do Público que narra um encontro, em Abril de 2008, com o assessor de Cavaco para a Comunicação, Fernando Lima, em que este lhe comunicou a suspeita de que a Presidência estaria a ser vigiada pelo Governo e lhe sugeriu que o jornal noticiasse o assunto "fingindo" que este surgira da Madeira. Faz também dois meses que a primeira notícia sobre as "suspeitas" de Belém saiu no Público.

Esta semana, no programa da RTP1 Prós e Contras, o caso foi discutido do ponto de vista jornalístico, com os directores do DN e Público. Estiveram também o do Expresso, o da TSF e o do departamento de informação da RTP. Dos cinco, quatro (a excepção foi o do Público) não tiveram pejo em afirmar que não acreditavam que alguma vez o Governo tivesse vigiado a Presidência. Como se explica então que toda a comunicação social tenha embarcado na "notícia"? A justificação foi dada no programa: a simples vocalização das "suspeitas" era notícia por "abrir uma crise institucional". É certo. Aliás, se havia notícia para dar desde o início - desde Abril de 2008 - era a de que um assessor do PR, homem da sua confiança há décadas, propôs uma inventona a um jornalista. Mas o jornalista alinhou em vez de a denunciar, pedindo ao correspondente na Madeira que investigasse. A "notícia", sabe-se, não saiu logo. Justifica o director do Público, na resposta que deu ao provedor do mesmo e que foi publicada a 13 de Setembro de 2009: na altura não havia suficiente "confiança" para a publicar nem "fonte autorizada". Na verdade, a investigação feita pelo correspondente contradissera as "informações" dadas pelo assessor do PR. Mas ano e meio mais tarde a "notícia" saiu mesmo.

Porquê? Explica José Manuel Fernandes: "Um membro da Casa Civil do PR confirmou formalmente ao Público (...). No dia em que uma fonte autorizada(...) assume que no Palácio de Belém se suspeita de que o Governo montou um sistema para vigiar os movimentos do Presidente, essa informação tem uma tal importância e gravidade que só podia ter o destaque que teve." Ignoremos que esta "notícia", a qual segundo Fernandes "estava a ser investigada há ano e meio", não só não continha qualquer reacção do acusado, o Governo, como se escusava a concretizar a forma da qual se revestiria o tal "sistema de vigilância" e quem dele se ocuparia; concentremo-nos na "autorização" e no "formalmente". Se quase toda a gente, após a publicação do mail, se convenceu de que a fonte "autorizada" era Lima, Fernandes nega-o. No dia seguinte ao da comunicação de Cavaco, o seu editorial é claríssimo: "'O PR não desautorizou ontem os membros da Casa Civil que falaram ao Público: disse que só ele fala em seu nome - ele e os chefes da Casa Civil e da Casa Militar."

O que Fernandes nos anda a dizer há semanas é que quem "confirmou as suspeitas" ao Público foi uma ou mais dessas três pessoas. Ou seja, o próprio Presidente. Claro que Fernandes pode estar a mentir. Mas e se não estiver? Como muitas outras perguntas que o caso suscita, esta deveria estar a ser objecto de séria investigação jornalística. Porém, desde que Cavaco falou, os chamados "fluxos noticiosos" desviaram-se do assunto. Watergate é, está visto, uma coisa para a América, para filmes e para escolas de jornalismo. Bigger than life. E nós somos pequenos.

In DN

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