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Romy

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MensagemAssunto: Cenários e sombras   Qui Set 20, 2012 10:13 am

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Cenários e sombras

por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
Hoje


Portugal vive uma encruzilhada excecional. O Conselho de Estado irá amanhã debruçar-se sobre a situação mais delicada que a III República encontrou desde a sua estabilização constitucional em 1976. Em 1974-75, a convulsão revolucionária dividia o País. Hoje, a "terapia" da austeridade irracional, comandada pelo diretório de Berlim, e executada insensatamente por Lisboa, uniu a nação numa recusa unânime e transversal. A paisagem política é desoladora. O PSD está devorado por uma "guerra civil". A coligação perde em coesão o que sobra em pugilato verbal. O líder da oposição pede mais tempo.

Existem apenas três cenários sobre a mesa: a) Remodelação; b) Novas eleições; c) Novo governo apoiado pela presente composição do Parlamento, com pilotagem presidencial. Todos cenários de sucesso duvidoso. A remodelação parece a saída mais óbvia, mas tem um obstáculo letal. Um corpo pode sobreviver sem os membros, mas não sem a cabeça. Uma remodelação séria teria de afastar Passos, Portas, Gaspar (e informar Relvas de que os seus serviços já não são necessários). Estamos a falar de um novo Executivo. Infelizmente, o cenário das eleições defronta-se com a escassez do tempo e a falta de alternativas, quando o provável partido vencedor afirma não ter pressa. O cenário "Monti", um gabinete de quadros de competência reconhecida, teria de conquistar um improvável apoio do Parlamento, já que o Presidente, para além de muito desacreditado, há muito perdeu a capacidade constitucional de propor governos da sua iniciativa. Resta saber, ainda, se haveria um Monti português com capacidade de estabelecer empatia com um povo que não o elegeu.

A verdade, contudo, é que este governo atrelou o País à quadriga de Merkel, e à sua estratégia de uma Europa dual. De metecos e cidadãos. Devedores e credores. A um rumo que não vai vencer, mas que pode partir a Zona Euro (ZE) ao meio. Sobre todos os assuntos relevantes Portugal tem estado do lado errado: união bancária; papel do BCE; intervenção do Mecanismo Europeu de Estabilidade; euro-obrigações; união política. Neste momento, a sobrevivência do País passa por ficar dentro da ZE, mesmo que esta entre em rutura. Portugal precisa de ficar ao lado dos países que conservem o euro, usando-o para promover o desenvolvimento (até para pagar dívidas é preciso que a economia tenha vida), e não temam o federalismo constitucional. Só se estivermos preparados para a rutura da ZE poderemos evitá-la. Berlim pode não ligar à força dos argumentos, mas percebe o argumento da força. O memorando de entendimento tem de ser revisto, mas no quadro de uma mudança radical da estratégia europeia. O Presidente, os partidos e o Parlamento têm de ter a inteligência, imaginação e humildade necessárias para permitir, contribuir e apoiar uma solução capaz de superar o impasse do Executivo nesta encruzilhada da nossa opção europeia. Se o regime não conseguir resolver o problema da governação, então a avalanche da realidade não poupará o regime.

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MensagemAssunto: A falência é um estado de espírito   Dom Set 30, 2012 11:52 am

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A falência é um estado de espírito

por ALBERTO GONÇALVES
Hoje


É extraordinária a quantidade de gente capaz de interpretar os sentimentos expressos nas manifestações de rua. Não possuo tal dom. Ouço e leio as palavras de ordem (pelo televisor, salvo seja) e acabo mais confuso do que comecei.

Ao que tudo indica, o povo em protesto não quer aumentos de impostos e, em simultâneo, não quer a redução na despesa que compensaria a manutenção dos impostos tal como estão ou estavam. O povo pretende a expulsão da troika e não se encontra minimamente preparado para a penúria que a partida da troika implicaria. O povo rejeita a austeridade sem perceber que a alternativa é uma austeridade maior e menos meiga. O povo está contra o Estado e vive apavorado com a ideia de que o Estado recue nas suas vidas. O povo insulta o Governo que desastradamente tenta corrigir as contas públicas embora não deseje que as corrija com acerto, nem dedique grandes insultos aos governos que deliberadamente transformaram as contas públicas na ruína actual. O povo, em suma, é realista à maneira do Maio de 68: pedindo o impossível. Impossível no sentido de que não tem pés nem cabeça.

É natural que o povo, às vezes constituído por serventes partidários, às vezes por gente em autênticas dificuldades, às vezes por sujeitos que berram qualquer coisa, caia nesta teia de contradições. Não deveria ser natural que as contradições chegassem a jornais ditos de referência sob a forma de colunas de opinião. A opinião é livre? É, e Deus nosso Senhor sabe o quanto agradeço a benesse. Por acaso, a irracionalidade também não conhece amarras, donde a emergência de textos do calibre do de José Vítor Malheiros, no Público de 25 de Setembro.

O título do texto ("A Dívida Existe Mesmo?) já arrepia. O pior é que após a pergunta do título o sr. Malheiros gasta uma data de caracteres a responder "não". Não perderei tempo a comentar os, digamos, "argumentos" do homem (o João Caetano Dias fê-lo brilhantemente no blogue Blasfémias). Basta resumi-los: para o sr. Malheiros, o défice e a dívida que decorre dos sucessivos défices (ele pensa ser ao contrário) são uma história mal contada, um provável estratagema para oprimir as massas que nada justifica, excepto talvez os favores às construtoras e aos bancos.

Perante isto, o que fazer? Podemos, claro, organizar uma colecta a fim de enviar o sr. Malheiros para um curso de Economia ou um merecido descanso. Porém, podemos igualmente aproveitar o mote e estender a tese ao que nos aprouver. A dívida não existe. O Estado esbanjador não existe. Os gastos com os salários e as prestações sociais não existem. Os custos da educação e da saúde não existem. As autarquias e as regiões autónomas não existem. As fundações e as empresas públicas não existem. O Magalhães não existe. Os estádios do "euro" não existem. Os pareceres, as consultorias e os estudos encomendados a amigos não existem. Os subsídios às energias "renováveis" não existem. Os apoios à "cultura" não existem. O socialismo não existe. O eng. Sócrates nunca existiu. E é duvidoso que, a médio prazo, o próprio país exista.

O exercício não é fortuito: se passarmos por doidos varridos, o mundo exterior comove-se e dá-nos um desconto moral. Infelizmente, dado que ninguém investe na demência, o mundo não nos dará um desconto material. Mas, de acordo com a escola financeira do sr. Malheiros, dinheiro não nos falta.

Terça-feira, 25 de Setembro

Objectividade pelos ares

A mulher de Mitt Romney viajava num avião que sofreu um pequeno incêndio e se encheu de fumo. A peripécia foi inconsequente. Ou nem por isso: mais tarde, numa sessão de campanha, o candidato referiu o assunto já ao lado da esposa, dizendo não perceber porque é que as janelas dos aviões não abrem para deixar entrar o ar. Tratou-se, conforme os correspondentes do Los Angeles Times e do New York Times (nenhum suspeito de simpatias republicanas) asseguraram, de uma brincadeira, aliás evidente no vídeo do episódio. É claro que a internet canhota local tentou remover as declarações do contexto e apresentar Romney como um tontinho, mas para efeitos internos a coisa morreu ali. Externamente, a coisa estava apenas a começar.

Um pouco por toda a parte, incluindo em muitos países europeus e incluindo, quase sem excepções, os media portugueses, o "jornalismo" a que temos direito diagnosticou em uníssono a idiotia terminal de Romney, o qual, segundo a opinião geral, gostaria de facto que as janelas de um jacto comercial descessem à semelhança das de um Fiat Punto. A veneração cega do actual inquilino da Casa Branca, misturada com a tendência para ver em cada membro do GOP um monumento à ignorância, dá nisto: uma mentira transformada em "notícia" e um espectáculo em que sujeitos com dificuldade para alinhavar uma singela peça sem erros ortográficos discorrem sobre a boçalidade de um discípulo de Stanford e Harvard. Boçal é o fanatismo.

Boçal e distraído, já que a reacção a gafes imaginárias impede inúmeros "jornalistas" de reagirem a gafes reais. Que eu saiba, por cá ninguém se riu após um político americano ter afirmado que os EUA construíram o "primeiro comboio intercontinental". Ou após um político americano ter exaltado o bom exemplo da FedEx por oposição ao dos correios públicos enquanto pretendia defender um sistema de saúde financiado pelo Estado. Ou após um político americano ter confessado que não sabia falar austríaco. Ou após um político americano ter declarado que percorrera 57 estados da União. Ou após um político americano ter classificado as recentes fúrias no Médio Oriente (que assassinaram um embaixador de Washington na Líbia) de "lombas na estrada". Em qualquer dos casos, o político americano era Barack Obama, um simpático colecionador de cargos públicos e um presidente medíocre que, ainda assim, paira largos furos acima do político indígena médio.

A terminar: nas circunstâncias adequadas (altitude, despressurização, etc.), os aviões podem voar com as janelas abertas. Fechadas sem remédio só algumas visões do mundo.

Quarta-feira, 26 de Setembro

A marca de Zorrinho

Não me canso de admitir algo de admirável no Partido Socialista: a rigorosa e absoluta falta de vergonha. Em seis miraculosos anos, o PS conseguiu duplicar a tendência para o desastre lentamente acumulada nas décadas anteriores e enfiar a pátria amada na bancarrota e na dependência de esmolas caríssimas. Em circunstâncias ideais, a derrota eleitoral de 2011 teria lançado os autores da façanha para um justificado limbo ou, no que respeita aos principais responsáveis, para a cadeia. Em Portugal, quase (quase) todos andam aí, a instruir os incréus sobre a arte de bem governar e a recriminar, com voz pungida, a má governação.

Esta semana, o descaramento maior coube a Carlos Zorrinho, o qual, a propósito dos pífios "cortes" nas fundações, lamentou com total precisão e nenhuma legitimidade: "Quando é para aumentar os sacrifícios aos portugueses, é sempre mais do que aquilo que esperamos; quando é para cortar despesa, é sempre menos do que aquilo que esperamos." Brincadeira? Parece. Mas não é. É apenas o PS a confiar na amnésia terminal do eleitorado.

Em matéria de amnésia, nem vale a pena notar o impulso do PS a incontáveis fundações. Sobretudo, importa descontar a facilidade com que o PS alterna as exigências de "investimento" público com a mágoa de que a despesa pública não seja devidamente reduzida. O primeiro sermão tem a atenuante da coerência face ao modus operandi que nos deixou na penúria. No segundo, trata-se de puro desplante. E se apetecer ao cidadão médio comparar o caso ao do gatuno que condena as escassas medidas de segurança depois de esvaziar o banco, a comparação é redundante: é literalmente isso o que se passa.

O pior é que, se calhar, o cidadão médio prefere o encanto do logro a uma dose de realidade e não está para aí virado. Se calhar, a acreditar nas sondagens recentes, uma quantidade suficiente de pessoas esqueceu-se de facto de quem as colocou nos limites da indigência. Se calhar, os drs. Zorrinhos deste mundo sabem o que fazem e o que dizem. Se calhar, o PS merece o país, e o país merece o PS.

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MensagemAssunto: A visita de Merkel   Sab Nov 10, 2012 6:10 pm

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A visita de Merkel

por JOÃO MARCELINO
Hoje


1 Angela Merkel visitará Portugal por várias razões. Uma, com certeza, será "ajudar" - na perspetiva dela, claro - o Governo de Pedro Passos Coelho. A chanceler alemã não desconhecerá que o Executivo português se encontra confrontado com uma opinião pública cada vez mais hostil às medidas de austeridade necessárias à consolidação das contas públicas neste curto espaço temporal que nos foi concedido.

Tal como José Sócrates lhe mereceu, na devida altura, um elogio na hora de saída (sobretudo pelo chumbado PEC IV), o atual primeiro-ministro ganhou perante Merkel, evidentemente, o crédito de estar a promover um ajustamento convicto, sem desfalecimentos.

Ou seja, agora como antes, a Alemanha percebe que tem aqui, nos governantes portugueses, bons aliados para a sua visão de uma União Europeia homogénea, formada por países responsáveis e cumpridores (alguns deles conscientes dos erros cometidos no passado), competitiva no mercado global, com menos direitos e regalias no trabalho. Não é que isto nos deva tranquilizar; é um facto.

Concedendo que esta viagem, como a anterior à Grécia, tenha também, perante os eleitores alemães, algum valor facial, o importante é que ela seja igualmente uma oportunidade para os líderes nacionais, naquela escassa meia dúzia de horas, apresentarem a realidade do País e explicarem a razão pela qual o caminho de consolidação das contas públicas pode, afinal, vir a revelar-se um outro desastre se não for acompanhado de medidas para o crescimento económico dinamizadas a partir da Europa que a Alemanha evidentemente lidera.

2 Os sinais do País em rutura são evidentes. O Orçamento do Estado, recentemente aprovado, será insuficiente para chegar ao objetivo traçado: 4,5% de défice em 2013. Nem os fiéis acreditam nisso. Para cumprir, serão necessárias então mais medidas de austeridade. E o PS encontrou nesta escalada de contestação social o espaço para reforçar a sua via de descolagem política relativamente ao consenso sobre o memorando e a sua evolução (a peça a que Passos chamou "refundação").

O Governo irá, assim, já se percebeu, arcar sozinho com os cortes de quatro mil milhões de euros na despesa do Estado (social) para 2014. Piorará a relação com os portugueses porque não conseguirá qualquer pacto com António José Seguro, que seria social e politicamente útil, na apreciação dos custos do chamado Estado social e sua adequação à realidade que podemos ter. O líder do PS colocou-se numa posição simétrica àquela que Passos Coelho adotou perante Sócrates: resolva lá os problemas com as suas ideias que as nossas estarão num programa eleitoral...

Esta é uma dialética política nacional de mais de 30 anos que não tem vítimas inocentes nem vilões sistemáticos. À vez, e sucessivamente, os líderes do PSD e do PS têm alternado nas posições relativas, sentindo-se sempre com enorme à-vontade só por terem chegado de fresco e libertos - acham sempre... - das culpas do passado. Que são de outros...

3 É importante que a realidade social portuguesa seja percebida pela chanceler alemã, assim como a vontade maioritária do País de não falhar as metas acordadas. Nesse campo, Cavaco Silva pode aproveitar para dizer em privado o que já ousou dizer em público sobre os mecanismos europeus de controlo à crise, começando pelo papel do Banco Central Europeu, e explicar como a recessão, produto da austeridade, está a atrapalhar o esforço nacional. E no encontro de empresários devem passar as referências ao crescimento económico necessário para amparar este caminho de ajuste.

O ativo da vontade política de cumprir os objetivos assumidos não pode faltar ao encontro com Merkel. A coragem de falar nas necessidades da sociedade portuguesa também não.

António José Seguro não terá nenhum encontro com Merkel. Normal. O secretário-geral do PS já esteve há pouco tempo na Alemanha com o líder do SPD...

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RMaria

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MensagemAssunto: América   Dom Nov 11, 2012 2:51 pm

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América

por PEDRO MARQUES LOPES
Hoje


1- "Hello Freedom Fighters", foi assim que o reformado Colonel Perkins, do Partido Republicano, candidato ao Congresso dos Estados Unidos pelo Estado da Virgínia, saudou as pessoas apinhadas no pavilhão desportivo duma universidade em Fairfax. Lá dentro estavam mais de dez mil pessoas e cá fora estariam outras tantas. Esperaram muitas horas em filas infindáveis, debaixo dum frio de rachar, sujeitas a uma revista pior do que a dos aeroportos, para poder saudar os candidatos do Partido Republicano, sobretudo aquele que queriam ver como Presidente dos Estados Unidos, Mitt Romney. Já trazia comigo a enorme constipação que tinha apanhado no dia anterior durante o comício de Obama em Bristow. Mais gente, muito mais frio, mas o mesmo entusiasmo.

Sou suficientemente antigo para me recordar da capacidade de mobilização dos partidos para comícios aqui em Portugal. Mas já há muito que a única maneira de arregimentar pessoas para eventos do género é transportar meia dúzia de pessoas de cá para lá, pagar-lhes uns lanches, enfiar-lhes umas bandeiras na mão e mandá-las gritar quando as câmaras de televisão aparecem. Agora as grandes manifestações são sempre contra alguma coisa e, se se quiser mesmo garantir a presença de muita gente, a fórmula ideal é fazê-las contra os políticos.

Nesta campanha, nos EUA, assisti mais uma vez a grupos de pessoas, a esmagadora maioria sem ligação a partidos, a organizarem reuniões nas suas casas para telefonarem a amigos e conhecidos para os convencer a votar no seu candidato; homens e mulheres que no intervalo dos seus trabalhos ou nas suas folgas iam de porta em porta fazer campanha. Gente mobilizada por valores, ideais, interesses, claro está, mas que acredita inabalavelmente no seu papel na democracia, na sua capacidade de mudar as coisas através do seu voto e da sua acção na comunidade.

Para quem está habituado a campanhas políticas em Portugal é quase um alívio não assistir a ataques aos políticos, sobretudo pelos próprios políticos (não tive coragem de dizer a ninguém que em Portugal há políticos que fizeram a sua carreira a dizer mal da sua própria profissão). Quando muito assistimos a críticas aos políticos de Washington não por serem políticos mas pelo facto de a sua quantidade na capital federal ser quase uma questão ideológica. Sim, há ataques baixos, propaganda de fazer corar um carroceiro, mentiras, promessas lunáticas, mas não há quem não conheça ao que vem cada um dos candidatos nas questões essenciais.

A democracia americana tem muitos problemas: a eterna questão da desigualdade, o sistema judicial, o sistema prisional, o racismo latente e patente, a demasiada força do dinheiro nas eleições, a profusão de referendos e muitos, muitos outros. Mas a verdade é que a democracia na América está de boa saúde e recomenda-se.

2 - Obama é o primeiro político importante a ser apanhado pela crise e que consegue ser reeleito.

Os Estados Unidos estão em pior situação do que estavam há quatro anos: mais desemprego, mais endividamento, a economia em pior estado. Mesmo assim o povo americano deu-lhe mais um mandato. Não faltarão explicações: a crise de identidade do Partido Republicano perdido entre o Tea Party, os fundamentalistas religiosos entre outros loucos semelhantes e os moderados que, aparentemente, estão reféns dessa gente perigosa; os que falam de demografia ( confundindo sexo e raça, por exemplo, com opções ideológicas, enfim...); o papel de Bill Clinton na campanha lembrando os recentes anos de abundância. Os especialistas gastarão rios de tinta a tentar explicar o que está por trás da vitória de Obama, mas há algo que ninguém pode negar: Obama ganhou tendo executado políticas de resposta à crise radicalmente diferentes das europeias, e prometendo insistir nelas.

O povo americano mostrou que é nessas políticas que acredita e, em democracia, o povo tem sempre razão. Mesmo quando não tem.

3 - A palavra de ordem nas campanhas dos dois partidos foi a mesma: empregos. Não estive por cá nos últimos tempos mas segundo o que li há gente no governo a dizer que despedir 50.000 pessoas é de caras. Mas que mal deu nesta gente.

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MensagemAssunto: O crescimento   Sab Ago 17, 2013 4:27 pm

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O crescimento


por JOÃO MARCELINO
Hoje



1-A retoma económica é uma coisa tão inevitável quanto o nascer do Sol. Com uma diferença: o Sol volta todos os dias, a retoma da economia pode demorar anos. Nunca se sabe quanto tempo é necessário empobrecer para, finalmente, a luz aparecer de novo na linha do horizonte. Mas aparece sempre.

Cresce-se quando os índices de atividade económica são superiores aos do período imediatamente anterior ou do homólogo. E, portanto, quanto mais frágil e anémica for ficando a economia mais possibilidades temos de voltar a crescer - ou de, pelo menos, recebermos notícias como as que esta semana vieram do Instituto Nacional de Estatística e do Eurostat revelando um crescimento de 1,1% do PIB no segundo semestre deste 2013.

Em Portugal foram precisos mais de dois anos e meio, 913 dias exatos de queda, para aparecerem os primeiros sinais de alguma evidência de que a economia, rebocada por alguns sinais positivos na Europa, poderá a estar a sair do túnel recessivo. Essa é a notícia boa. A notícia má, sempre evitada pelos discursos técnicos, é de que não se sabe quanto anos teremos de esperar para podermos voltar aos níveis de antes da crise. O melhor é nem sequer pensar nisso...

2-O País está mais pobre mas o Governo parece mais rico em bom senso. Desta vez, e ao contrário do que acontecia no saloio passado recente, não se ouviram vivas ao final da crise - que, aliás, poderão vir a revelar-se notoriamente exagerados. Da boca de Marques Guedes e de António Pires de Lima vieram comentários sensatos, prudentes, de quem politicamente reconhece que ainda há muito a fazer, que estes dados precisam de ser confirmados por outros, que o rendimento das famílias não vai mudar de um dia para outro, e que, sobretudo isso, vem aí um Orçamento do Estado que exigirá do Governo uma capacidade de comunicação com os portugueses que não se coaduna com o decretar do fim da crise.

Na primeira fase do Governo de Passos Coelho o voluntarismo teria feito rebentar o fogo de artifício da demagogia. Agora há uma perspetiva mais inteligente, de quem não desconhece que a separar o presente do futuro ainda estão algumas reformas assumidas com os credores, entre as quais a principal: a reforma do Estado. E esta, estando cada vez mais longe um consenso mínimo com o PS, dispensa qualquer discurso triunfalista e antes sugere ponderação. Aqui também houve crescimento.

3-Passos Coelho tinha prometido, no Pontal de 2012, à porta fechada, a recuperação económica para 2013. Ontem, face aos já citados relatórios, e à porta de novo aberta, não resistiu: são dados "objetivos" que confirmam as "convicções" do Governo. O primeiro-ministro, como era esperado, passou ao lado das "tensões" que iam matando esse mesmo Governo ainda há pouco mais de um mês. E, para polémica, só não resistiu a um novo aviso ao Tribunal Constitucional, que terá de analisar a lei que pretende gerir a mobilidade dos funcionários públicos rumo ao despedimento. Mesmo assim, foi um discurso mais de Estado do que é habitual. Sinal de que o líder também aprende com os erros, e a conflitualidade, que no passado vinha desnecessariamente de São Bento vendo inimigos em todo o lado. Outro crescimento, portanto.

A chamada lei de limitação dos mandatos, que ameaçava algumas candidaturas autárquicas, está a originar a confusão esperada. Uns "dinossauros" podem candidatar-se, outros não.Tudo depende da subjetiva opinião de um juiz sobre um texto que os políticos quiseram assim: que parecesse uma coisa e se prestasse a outra...

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MensagemAssunto: Um país de políticos   Seg Set 02, 2013 3:51 pm

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Um país de políticos

por JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Hoje


Então a recessão acabou? No segundo trimestre, na terrível crise política, como pode a economia ter crescido e o desemprego cair? Há aqui grande mistério!

Portugal é um país de políticos. Dois desconhecidos encontram-se e logo depois diz-se mal do Governo. Não interessa a realidade mas os dirigentes, culpados de todo o bem e mal que existe. Em dez milhões de cidadãos só contam quinze, os ministros. Pior, Portugal é um país de rivalidades. Todos temos clube e o do vizinho joga mal.

Juntando os dois elementos, sai o ridículo de 80% dos eleitores votarem em dois partidos iguais que se combatem sem cessar. Agora, na crise, parecem muito diferentes, com o PSD acusando o PS de criar a catástrofe e o PS considerando o PSD neoliberal. Mas há trinta anos a crise nasceu com o PDS/CDS e foi o PS a aplicar a austeridade do FMI.

O pior é que toda a esta superestrutura mediática oculta aquilo que realmente interessa. Só se fala de política, leis, medidas, eleições, omitindo a vida, sociedade, trabalho e mercados, que de facto orientam a nossa existência. Depois surgem surpresas, como a economia recuperar no meio da confusão institucional.

Imensa gente anda angustiadíssima com o futuro do País devido à má qualidade dos nossos dirigentes e jornalistas, sem pensar na excelente qualidade do povo. Muitos estão furiosos com os políticos, de um ou outro lado, por terem dado cabo de Portugal, sem notarem que Portugal está vivo e recupera dos disparates que todos cometemos.

É claro que a política tem influência, muita influência. Mas está longe da omnipotência que a nossa ilusão criou. Mais ainda, temos políticos maus há oito séculos e ainda por cá andamos. Aliás, tudo somado, os actuais até são muito melhores do que os antigos e o nosso nível de vida, mesmo com crise, está bastante acima das gerações anteriores. Para o ver basta afastar os mitos elegantes da nossa retórica e olhar para o mundo e para a história. Coisa que temos muita dificuldade em fazer, por sermos um país de políticos. Gostamos do fanatismo cómodo, raivoso ou laudatório que criámos para nós mesmos. É tão mais simples acusar um poder remoto pelos nossos sofrimentos do que assumir culpas e enfrentar dificuldades!

Se isto é sempre verdade, em tempos de crise sente-se mais. Nos últimos anos a obsessão pela política e a fúria partidária explodiram. Com isso aumentou em muito a cegueira face à realidade. Um buraco deste tamanho não pode ter sido culpa de um punhado de governos. Ele nasceu de vinte anos de ilusões de dez milhões de cidadãos. Se o País fosse povoado por alemães, as políticas de Sócrates não teriam tido os efeitos que tiveram. Nem sequer ele seria eleito e reeleito.

Agora, o essencial da solução não está em estratégias ministeriais ou na célebre reforma do Estado, mas no ajustamento que os dez milhões estão a dar às suas vidas, para resolverem a sua situação. Isso começou muito antes da troika e pouco depende do Orçamento. Assim se explica o mistério. A recessão, que se situa mais na sociedade do que nas políticas, foi fazendo o seu caminho, debaixo do alarido mediático e combates partidários. As famílias mudaram de vida, as empresas corrigiram estratégias e cortaram custos, muitas desapareceram. Os capitais e trabalhadores aumentaram a eficácia, inventaram novos caminhos, procuraram alternativas. A economia ajustou.

Agora, segundo as regras económicas que a dirigem, a conjuntura parou a queda. Isto não é mérito do Governo ou influência da Oposição. Foram os trabalhadores e consumidores, investidores e mercados, nacionais e estrangeiros, milhões deles, que determinaram a trajectória. A economia, que começou a reagir à situação, não em Abril de 2011 com a troika mas logo em Setembro de 2008 com o crash financeiro, tem avançado bastante o seu ajustamento. Nesse sentido pode dizer-se que a crise está próxima do fim.

Então as dificuldades acabaram? Claro que não. Ainda há muito a fazer. Por exemplo, no ajustamento do Estado em que devido a lutas, insultos e truques se fez muito pouco.

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MensagemAssunto: Re: Análises   

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Análises
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