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MensagemAssunto: "Empréstimo do Brasil seria sempre melhor que do FMI"   Qui Dez 02, 2010 4:28 pm

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"Empréstimo do Brasil seria sempre melhor que do FMI"

por FERNANDO MADAÍL
Hoje


Crise. Na sua mensagem de 1º de Dezembro, D. Duarte lançou a ideia de uma Confede-ração de Estados Lusófonos, para servir de rede ao falhanço do projecto europeu. Ao DN, advoga que o Brasil pode vir a desempenhar na CPLP o papel que, hoje, a da Alemanha tem na UE

Na sua mensagem de 1º de Dezembro defendeu a ideia de uma futura Confederação de Estados Lusófonos. A CPLP pode ser aprofundada?

A CPLP deveria começar a evoluir para uma Confederação de Estados Lusófonos, que não é uma alternativa às alianças regionais (Mercosul, UE ou União Africana), mas um complemento - que, no caso de Portugal, iria conferir-nos uma posição muito mais forte dentro da UE, como a Inglaterra tem vantagens por causa da Common- wealth. Como se sabe, Isabel II [de Inglaterra] é rainha de mais uma dúzia de países: Austrália, Nova Zelândia, Canadá, várias ilhas nas Caraíbas e alguns Estados do Pacífico. Mas a Commonwealth não é só a chefia do Estado; é toda uma solidariedade entre esses países. Não sabemos o futuro. E pode acontecer - espero que não! - que as coisas corram muito mal na UE. Nesse caso, é bom termos uma alternativa.

E quais seriam as vantagens dessa confederação?

Há uma diferença muito importante entre a Confederação dos Países Lusófonos e a União Europeia. A UE tem uma certa unidade cultural - enquanto assumirmos que é, como diz o Papa Bento XVI, uma mistura entre a espiritualidade judaica, a lógica grega e o sentido de organização romano -, mas baseia-se sobretudo em interesses, enquanto a lusofonia é uma questão de afectividades. Apesar de todas as divergências e das guerras de independência, mantém-se uma afectividade e uma identidade cultural muito fortes. O que é que distingue um timorense de um indonésio? Aquele espírito cristão, de caridade e de respeito pelos outros que não existe na Indonésia. É também o que distingue um angolano de um zairense ou um moçambicano de um sul-africano.

E como imagina essa confederação, pois não existe uma monarca comum como na Commonwealth?

Claro que a Commonwealth tem essa grande vantagem de ter uma rainha que é o Chefe do Estado de todos os países, mas isso não é indispensável. Uma união de repúblicas independentes pode muito bem criar uma série de organismos que preparem o caminho para uma confederação. Há vários exemplos. A própria UE, no meu entender, devia ser uma confederação e nunca uma federação. Muitos dos fundadores da UE diziam que o modelo para a Europa do futuro devia ser a antiga Confederação Suíça, em que as diferenças eram respeitadas. Infelizmente, estão a tentar uniformizar tudo e a extingir as diferenças, a começar pela moeda comum, que, como era de prever, provocou aos pequenos países um desastre económico.

Há alguma resistência ao Brasil como a potência dominante na CPLP.

Cada um dos grandes países tem um contributo importante a dar. Angola poderá vir a ser, em breve, uma grande potência económica - e tem todas as condições para ser um Brasil em África, desde que consiga resolver os problemas de adaptação à democracia e garanta uma administração que funcione melhor. Portugal tem inegavelmente capacidades enormes do ponto de vista cultural e científico. Mas é óbvio que o Brasil tem a dimensão, o sucesso económico e o desenvolvimento humano que lhe permitirão ser a locomotiva e um grande esteio da confederação. Se o Brasil tem um potencial económico muito grande isso é benéfico para todos os outros membros. Neste momento, na UE, estamos todos pendurados na Alemanha. Os alemães estão fartos e dizem que já não estão para aturar os países que se governaram mal e, daqui a pouco, deixam-nos cair.

Na sua mensagem, sugere mes- mo que "muito nos beneficiaria negociar com o Brasil um empréstimo em melhores condições do que com o FMI ou a Europa". O Brasil poderia ser a nova Alemanha?

O Brasil tem capacidade para ser o motor do desenvolvimento económico de todos os países lusófonos. Veja-se esta curiosidade: o Estado de Minas Gerais, que é o terceiro mais importante do Brasil, só por si seria um país mais importante do que a Argentina, o Chile ou a Venezuela.

E que vantagens teria o Brasil, já representado no G20 e a reclamar um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, com a confederação?

Um país que atinge certo nível de desenvolvimento económico começa a ter também interesses geo-estratégicos. Assim como os EUA estão muito interessados no que se passa no resto do mundo e têm a sua área de influência, o Brasil também estaria interessado em ter uma presença na Europa que lhe pode ser benéfica, do ponto de vista económico e também político, e uma presença em África aparentemente menos interessante, mas com futuro - e, já hoje, o Brasil investe muito em Angola.

Um conjunto de países unidos pela mesma língua teria hipóteses de aumentar a área de influência?

Neste momento, já há interesse da Guiné Equatorial (julgo que tenho alguma culpa na vontade manifestada pelo seu Governo em aderir à CPLP); das ilhas Maurícias, porque se querem associar a Moçambique; e do Senegal, que queria entrar só como observador.

E a Galiza.

A Galiza gostava de ser considerada uma região (não um Estado) dentro da CPLP. O Governo português fica sempre muito preocupado, não vá eventualmente ofender Madrid. Mas isso não faz sentido. Em primeiro lugar, porque os galegos é que têm de decidir. Depois, porque os castelhanos também nunca se preocuparam em não ofender a nossa sensibilidade quando os interesses deles estão em jogo, nomeadamente quando começaram a ensinar espanhol em Angola.

Ontem anunciou que pediu a nacionalidade timorense. Porquê?

Primeiro, a minha pátria é a língua portuguesa - e gostava de ter uma ligação com o mais recente país de língua portuguesa. Mas sobretudo devido à ligação que todos conhecem e que tenho mantido com Timor-Leste.

In DN

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MensagemAssunto: "Cavaco vai impor condições aos partidos"   Sex Dez 03, 2010 4:21 pm

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"Cavaco vai impor condições aos partidos"

por DAVID DINIS/PAULO TAVARES
Hoje


Sócrates já é parte do problema, Passos precisa de mudar de equipa. Para José Miguel Júdice, tudo vai mudar após as presidenciais. Virá o FMI, "é inevitável", e Cavaco imporá condições a um novo Governo. No limite, até um Governo de salvação nacional. Remodelar para quê?

O livro O Meu Sá Carneiro, que lançou esta semana, traça um retrato pouco simpático de Cavaco Silva enquanto líder do PSD e primeiro-ministro. Já teve algum telefonema de desagrado?

Não acho que seja pouco simpático, acho que é rigoroso. Reconheço-lhe as qualidades como lhe reconheço os defeitos. Mas é uma questão de feitio - Cavaco Silva não é propriamente um líder que tenha uma estratégia de rupturas e de riscos como Sá Carneiro. É um homem muito mais prudente. E não, não tive ocasião de falar com ele. Mas ele sabe como eu penso, como eu sou. Aliás, a única pessoa em quem sempre votei foi em Cavaco Silva...

Falta de alternativa?

Não é só. Ele tem todas as qualidades para ser Presidente da República - sobretudo nesta crise. Se o apoiei há cinco anos, agora apoio-o com muito maior intensidade.

Diz no mesmo livro que vivemos a maior crise na história. E que nada se consegue sem uma liderança, "que não se vê". Passos Coelho ainda pode aparecer como tal?

Seja quem for. Quem me apresentar e me convencer (não é só dizer) que vai fazer as reformas, que vai tentar mudar a realidade (para o que vai ser preciso muita coragem), terá o meu apoio.

Passos ainda não o convenceu?

Ainda não, mas também Sócrates não me convenceu... não votei no Sócrates na primeira campanha, mas depois de facto, na primeira fase, convenceu-me. Ainda ontem Fernando Ulrich dizia que a reforma da Segurança Social foi muito corajosa e arriscada. O problema de Sócrates foi não ter continuado a fazer depois disso.

Escreveu que Cavaco matou a herança de Sá Carneiro, aproximando o PSD do PS. Passos Coelho pode fazer o inverso?

Cavaco tentou uma estratégia hegemónica, secando o CDS à direita e o PS à esquerda, negociando com a UGT. Sá Carneiro queria fortalecer o PS, criando uma confrontação entre os dois blocos. Passos Coelho ainda não é claro. Pareceu-me que teve algumas ideias corajosas, mas o grande problema é que eles são reféns dos partidos. Passos Coelho e Sócrates não mandam nos partidos - eles toleram-nos, desde que não toquem demasiado nas suas quintas.

A actual conjuntura económica pode ajudar a que se façam as reformas?

Acho que sim. É natural que agora haja um álibi para os políticos fazerem o que eles acham que deve ser feito mas têm medo de fazer.

Há alguma coisa que o País possa fazer para resolver a sua situação?

Tenho muita esperança em Cavaco Silva, porque este é o seu segundo mandato, ele tem um sentido muito forte de serviço público. Acho que ele vai impor condições aos partidos. Se ele tiver 60%, e acho que pode ter, que diga aos partidos "as regras são estas".

Patrocinando um Governo de salvação nacional?

Ele tem de agilizar soluções. O ideal era um governo de maioria, um Governo forte. Se não for possível, acho que há uma segunda solução, que é um Governo em que o Presidente ponha as suas condições e escolha parte da equipa. Os partidos estão tão frágeis que, para não perderem o poder, aceitam tudo o que lhes coloquem à frente. Mas se nada disto resultar, a solução tem de ser um Governo de salvação nacional, que vá do PCP ao CDS.

Esse Governo de salvação deve acontecer independentemente de termos de recorrer ao FMI/UE?

Mas nós vamos ter de recorrer, não há qualquer hipótese. Os políticos não podem dizer isso, mas não vêem com maus olhos que venha o fundo. Porque é de fora que lhes dão as ordem de como tem de ser feito - e fazem.

É o álibi?

É um álibi. Isso vai acontecer, e quanto mais tarde pior.

Devíamos pedir já?

Acho que politicamente é muito difícil... até às presidenciais é muito difícil que isso aconteça, Cavaco Silva não vai dizer isso, nem pode dizê-lo. Mas não há dúvida de que depois das eleições presidenciais vai haver um momento em que as pessoas vão estar disponíveis para fazer coisas.

José Sócrates está condenado a sair já do Governo?

Este Governo tinha três hipóteses depois das eleições - e tive a ocasião de dizer isto ao eng. Sócrates da última vez que falei com ele. A primeira era fazer um Governo de coligação com o Bloco ou com o PCP; segunda hipótese, com o CDS; a terceira era um Governo minoritário, para cair passados seis meses. Ora bem, ele tentou uma quarta hipótese (ele é um homem voluntarista). Era fazer um Governo minoritário para sobreviver quatro anos. Lindo! Fantástico! Mas ineficaz.

Não resultou.


E não vai resultar. Admite que ele possa ser parte da solução, mas já é parte do problema.

Uma remodelação serve de alguma coisa?

É tratar com aspirinas problemas que precisam de antibióticos.

Se for parte da solução, será como?

Parte da solução só sendo primeiro-ministro, mas acho difícil. Ele tem uma dificuldade de relacionamento com os partidos da oposição, mas há milagres. Sá Carneiro toda a gente dizia que era um tipo horrível, insuportável. Vá ler o que se dizia dele antes de ele morrer! Diziam pior de Sá Carneiro do que dizem de José Sócrates.

Não me diga que vê parecenças entre Sá Carneiro e Sócrates?

Entre toda a gente! E de facto há uma qualidade que Sócrates tem, que é a sua determinação - e nisso é parecido com Sá Carneiro. A dificuldade de relacionamento...

E Passos Coelho?


Eu diria que ele é um produto do aparelho, como o Sócrates. Mas se perceber que tem a ocasião dele... Se ele conseguir reunir gente qualificada, motivar pessoas que não estão na política... agora, se continuar rodeado de... (não vou dar nomes porque não quero magoar ninguém) que começaram, nasceram e vão morrer com aqueles "lugarzitos" partidários e com aqueles automóveis muito grandes, não vai a lado nenhum. Mas tenho esperança de que ele melhore. Costuma dizer-se que a primeira vitória é contra aqueles que o colocaram lá - é cínico, mas é verdade.

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MensagemAssunto: "Já estava convencido da santidade do papa ao longo da vida"    Sab Dez 04, 2010 5:56 pm

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"Já estava convencido da santidade do papa ao longo da vida"

por PEDRO SOUSA TAVARES
Hoje


'João Paulo II, Santo' é o título do livro de Slawomir Oder, encarregue de defender a causa da santidade de Karol Wojtyla no Vaticano. Uma condição que, defende este padre polaco, já é um facto para as actuais gerações de católicos, mas deve ficar provada.

Juntando um ponto de interrogação ao título do seu livro, porquê João Paulo II, Santo?

Exprime uma convicção pessoal a que cheguei no final deste processo. Não é uma antecipação da decisão da Igreja, porque a única entidade competente para dizer: "É santo" é a Igreja. É também uma manifestação da voz de quem sentiu necessidade de gritar: "Santo Subito". Eu estava convicto da sua santidade ao longo da sua vida, estava convicto da sua santidade no momento da sua morte, mas sobretudo estou convicto depois de cinco anos de investigação sobre a sua vida, sobre documentos relativos à sua existência e ao seu magistério.

Que aspectos da vida de João Paulo II lhe deram tal convicção?

Ele viveu a sua vida com muita intensidade, segundo uma medida elevada, sem se poupar, sem ceder a compromissos. Viveu a sua vida sempre olhando em frente. A sua santidade é uma santidade quotidiana, dentro da vida, com a simplicidade que pode ter a vida de um papa, sempre envolta em tantas coisas. A sua santidade é sobretudo parte da sua relação com Deus. Era um homem de Deus, um homem de oração. E esta profundidade da relação com Deus ele soube vivê-la na relação com os homens, com o mundo.

Mas para um homem ser reconhecido como santo, além da sua conduta, a Igreja procura outras provas, como milagres....

A dimensão mística de João Paulo II está, desde logo, na sua constante consciência de viver na presença de Deus. Se me pergunta por uma confirmação, que provém de Deus, a Igreja espera um sigilo divino sobre este processo que vivemos e que se encontra actualmente em curso perante a Congregação para a Causa dos Santos. Este processo observa a recuperação de uma religiosa francesa que tinha a doença de Parkinson...

O processo de beatificação começou logo em 2005. Foi praticamente o primeiro acto de Bento XVI enquanto Papa. Havia a convicção no Vaticano de que João Paulo II não tinha sido apenas um papa muito amado, mas também um homem santo? Foi isso que ditou a rapidez de todo o processo?

Penso que foi sobretudo a fama de santidade difusa no povo de Deus, que se expressa, de facto, no grito: "Santo Subito", mas que se expressa com maior eloquência durante a celebração do funeral, com uma presença de representantes do mundo inteiro. Isto exprime desde logo a convicção na morte de um santo. E depois as visitas constantes ao túmulo de João Paulo II que, desde o dia do seu funeral, são contínuas...

É já um homem venerado?

É um homem que goza de muita veneração popular, mas eu estou convencido que também a convicção pessoal do Papa Bento XVI, que o conheceu, quando era o cardeal Ratzinger, durante anos de colaboração quotidiana muito próxima, ajudou à decisão de abrir o processo imediatamente.

Mas a canonização era uma exigência popular?

Sim. Era uma exigência popular. E depois o sinal divino surgiu quase de imediato, porque o caso que actualmente está a ser estudado pela Congregação para a Causa dos Santos, esta recuperação miraculosa, deu-se quase imediatamente depois da morte de João Paulo II. Dois meses depois.

É possível apontar horizontes temporais para a beatificação e canonização de João Paulo II?

A resposta exacta não pode ser dada neste momento. O processo desenrola-se observando todas as regras do direito canónico, é um processo actualmente bastante avançado junto da Congregação. Quando estiver terminado todo a literatura canónica, o Papa indicará a melhor data para se poder chegar à beatificação

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RMaria

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MensagemAssunto: O PS tem tido uma política muito mais consistente de defesa do desenvolvimento científico do que o PSD   Dom Dez 05, 2010 11:56 am

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"O PS tem tido uma política muito mais consistente de defesa do desenvolvimento científico do que o PSD"

por João Marcelino
Hoje


[Quanto ao investimento na Ciência] "há apenas, nas últimas décadas, dois pontos de quebra, o segundo Governo de Cavaco - no segundo, não no primeiro, que é um período de expansão - e imediatamente a seguir ao fim do período do engenheiro Guterres; portanto, na entrada do Governo PSD-CDS. Esses dois momentos, que são singulares, muito negativos, contra os quais, aliás, me bati na altura, tiveram efeitos. Houve uma altura em que tive de encontrar emprego para algumas pessoas lá fora. E foi muito fácil"

Académico conceituado, professor catedrático, investigador em física, o ministro Mariano Gago tem uma longa experiência governativa em quatro governos, dois com António Guterres e outros dois com José Sócrates - quase 13 anos no total. É um homem afável, que não gosta de entrevistas e sobretudo de privilegiar a espuma da política em detrimento das políticas do desenvolvimento científico e da reforma do ensino superior, de que notoriamente se orgulha. Por isso o "sim" para a entrevista demora e não dispensa um contacto prévio para se certificar de que o roteiro está suficientemente limpo da agenda mediática. Isso é para outros protagonistas, que não ele.

Foi divulgado há poucos dias um estudo demonstrando que o investimento na ciência e tecnologia duplicou entre 2005 a 2009. Onde podemos ver esse investimento?

Não é bem um estudo, são dados estatísticos nacionais. Se há 30 anos podia ser difícil de ver, hoje é difícil não ver. É muito difícil, primeiro, qualquer tecnologia não ter lá dentro investigação; está em qualquer empresa - do controlo de qualidade dos alimentos até aos medicamentos, à gestão da frota urbana dos autocarros, ou garantir que os metropolitanos não batem uns nos outros. Tudo isto não é apenas trabalho profissional, é trabalho de investigação incorporado no trabalho profissional. As pessoas, num país tradicionalmente atrasado, associavam investigação ao que vinha de fora, ao que se importava. É preciso mudar um pouco a percepção. É verdade que a investigação é mundial, mas há muita investigação feita em Portugal que é incorporada nos produtos e nos processos portugueses.

Até que ponto essa investigação pode vir a ser prejudicada com os cortes orçamentais que toda a sociedade portuguesa vai sentir nos próximos anos?

É uma pergunta interessante, mas tem um pressuposto. Para começar, o pressuposto de que essa investigação é toda pública, o que é falso. Mais de metade dessa investigação, em termos de investimento, é privada. Em segundo lugar, depende das políticas, naturalmente. Mas dependeu sempre das políticas, e depende em todos os países pequenos como Portugal, mas também como a Suécia, a Dinamarca ou a Suíça.

Qual é a distância entre as realidades de Portugal e da Suécia?

Em número de investigadores, para cada mil pessoas que trabalham em Portugal neste momento, cerca de sete, oito, mais ou menos, são investigadores. São mais pessoas, mas não fazem 100% de investigação, nem nas empresas, nem no Estado. Portanto, à volta de oito. A média europeia anda nos seis. Países como o Japão, os Estados Unidos, têm dez, doze de média. Países escandinavos andam pelos 12, 13. Mas há certas regiões ou certos estados dos Estados Unidos que podem ter dezenas.

Sente esta realidade como mérito do seu trabalho nestes anos todos que leva de actividade governativa?

Não. Sinto que tive a oportunidade rara de contribuir para que isso acontecesse. É absolutamente extraordinário em Portugal depois do 25 de Abril, e tenho acompanhado a evolução de muitos países do mundo nesta matéria, é o apoio que a sociedade portuguesa, com baixos níveis educacionais à partida, sempre deu ao desenvolvimento científico. Os inquéritos em Portugal sobre isso mostram um voto na ciência, que é sempre maioritário. Tem sempre a maioria absoluta. Quando se pergunta aos portugueses: "Acha que se deve gastar dinheiro na ciência, mesmo que não se saiba se esse investimento tem alguma utilização prática?", a resposta é sim.

Mas até que ponto a redução que vai ter no seu ministério, que é de cerca de 3,2% em relação ao que gastou este ano, pode impactar isso?


Não tem, não impacta.

Onde vai poupar esses 3,2%?

O orçamento do próximo ano do Ministério da Ciência e do Ensino Superior contribui para a redução do défice, como não podia deixar de ser. E contribui de duas formas: a principal é a redução da massa salarial, essencialmente no ensino superior; são as reduções de salários e as reduções conexas aos salários. Essa é a principal. As outras pequenas reduções que existem no ministério são compensadas com o acréscimo de fundos comunitários naqueles programas que já eram co-financiados. A mensagem é simples e corresponde a uma decisão política do Governo: o investimento em ciência tinha de se manter. Aliás, para sermos verdadeiramente objectivos, o orçamento de ciência para o próximo ano aumenta cerca de 2% relativamente a 2010.

A sociedade portuguesa encara bem essa aposta, mas isso às vezes está em contraposição com críticas que se ouvem de alguns cientistas, que vão no sentido de que é muito mais fácil ter trabalho e reconhecimento lá fora do que cá dentro. Como ouve essas críticas?

Não é uma crítica, são estados de alma! Em primeiro lugar, a verdade é que tem hoje muito mais cientistas em Portugal do que há cinco, dez, vinte anos! Todos os anos, o número de pessoas que querem ser cientistas, estudar, que fazem doutoramentos, que se candidatam a lugares, aumenta! Acho que a realidade é, neste caso, o elemento fundamental. Sou um experimentalista, acho que a experiência mostra que, ao contrário do que se imaginava há 20 ou 30 anos, foi possível transformar um país que nunca tinha tido ciência do ponto de vista significativo, na idade moderna, num país científico. E foi possível fazê-lo muito rapidamente - volto a repetir este ponto - porque a sociedade portuguesa acreditou nisso. Porque houve gerações após gerações de jovens que apostaram em carreiras que são muito difíceis, muito exigentes. Eles eram dotados para muita coisa, certamente para profissões até muito melhor remuneradas, mas apostaram nestas carreiras. Porque houve a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho e na educação, o que alterou o panorama dos recursos qualificados em Portugal depois do 25 de Abril. Porque houve a enorme expansão da educação e dos níveis educacionais em Portugal e, sobretudo, a entrada no ensino superior nos últimos 20, 30 anos. Foi tudo isto junto, associado a políticas que, no essencial e sobretudo nos últimos anos, não tiveram recuos. Porque o essencial na política científica é não haver recuos, é haver uma estabilidade política e científica ao longo dos anos.

Mesmo no período em que esteve afastado da liderança do sector?

Há um gráfico muito interessante que mostra... não os orçamentos mas a despesa real, efectiva, medida pelos inquéritos ao potencial científico em Portugal. E há apenas, nas últimas décadas, dois pontos de quebra: no segundo Governo de Cavaco - não no primeiro, que é um período de expansão - e imediatamente a seguir ao período do engenheiro Guterres; portanto, na entrada do Governo PSD-CDS. Esses momentos, que são singulares, muito negativos, contra os quais, aliás, me bati na altura, tiveram efeitos. Hoje sabemos quais. Não é apenas a desmobilização, é a ida das melhores pessoas para fora. Houve uma altura em que tive de encontrar emprego para algumas pessoas lá fora. E foi muito fácil.

Portanto, o PS lidera melhor esta área?

Não creio que se possa tirar essa conclusão para sempre. E eu não gostaria de tirar essa conclusão para sempre. Posso tirar essa conclusão quanto ao passado. O desenvolvimento científico do País precisa que todos tenham este elemento, este objectivo absolutamente firme, nas suas cabeças. O desenvolvimento científico da Europa fez-se desde o pós-guerra com uma aliança absoluta entre governos socialistas ou cristãos-democratas sobre o desenvolvimento científico. Todos os países que se desenvolveram muito rapidamente no pós-guerra, na Europa, foram países em que essa convicção foi assente. Essa é a convicção assente nos Estados Unidos entre republicanos e democratas. Em Portugal, fez um pouco parte do nosso subdesenvolvimento político o facto de ter havido uma política muito mais consistente ao longo destes anos do PS em defesa do desenvolvimento científico do que do PSD, que nalguns anos a teve e noutros anos não. Mas creio que isso deveria ser parte do passado. No futuro, não deve haver nenhum partido político em Portugal que não tenha a convicção de que sem desenvolvimento científico consistente e permanente ao longo dos anos não há futuro para o País.

Como está a relação entre o mundo académico e o mundo das empresas?

Muito melhor do que estava, e muito bem nalgumas áreas. O facto de termos tido nos últimos anos uma grande expansão da investigação nas empresas é, em grande parte, resultado do investimento público. Pode parecer contraditório, não é o investimento nas empresas, é o investimento público nas universidades. Foi o investimento público nas universidades ao longo de muitos anos que criou as condições de formação, de formação avançada, de internacionalização...

E há casos de sucesso específicos?

Há inúmeros casos de sucesso!

É capaz de me citar dois ou três? Em que zonas do País acontece mais isso? Em Aveiro, Braga, Lisboa?

Nos sítios onde há potencial científico e industrial. É muito visível isso aqui na área de Lisboa, é muito visível nas zonas onde há grandes universidades ou grandes politécnicos, na área do Porto, de Braga...

Há um projecto de que possa falar?

Não lhe posso dar um, posso dar-lhe inúmeros projectos!

Dois ou três.

A Bial pôs cá fora um antiepiléptico com base em investigação, com enorme colaboração do tecido científico. Se olhar para a investigação que está a ser feita na Unicer, desde as cápsulas até à cerveja sem álcool, tudo isto representa muito trabalho de investigação. Se olhar para a Portugal Telecom e para o trabalho que está a fazer com a segurança de redes, por exemplo, envolve não só universidades portuguesas como a Carnegie Mellon, nos Estados Unidos. Se olhar para a Alert, que é uma empresa que tem que ver com informatização dos hospitais, tem um caso de sucesso enorme de exportação para o resto do mundo com participação de investigadores que vieram das universidades. A Critical Software nasce na Universidade de Coimbra e começa por exportar soluções para a NASA antes de se tornar numa grande empresa exportadora de soluções de software. A Amorim, na cortiça, está a fazer com outros, e com investigação nacional, o genoma de sobreiro e novas aplicações para a cortiça. É um sem-número de coisas... Quando se diz "mais de metade do investimento em investigação é feito hoje pelas empresas", as cem maiores empresas que investigam em Portugal representam 25% das exportações. Isto significa muitos milhares de casos concretos, porque ninguém investe sem ter rendimentos.

Estamos bem no campeonato das patentes?


Chegámos tardíssimo ao campeonato do registo de patentes, como diz. Não é bem um campeonato, é o fim da linha.

É a aplicação prática do que se faz.

Não é só a aplicação prática, porque há áreas nas quais não se patenteia. Nós, por exemplo, temos uma actividade exportadora extremamente importante no domínio de desenvolvimento de software, mas isso não se patenteia. Eu podia simplesmente dizer-lhe "olhe, nos últimos anos, multiplicou por quatro" ou "multiplicou por cinco". Mas a base era tão baixa que seria preciso pôr isto em proporção. O que posso dizer é que o registo de patentes está em crescimento muito rápido: 30 no ano 2000, 145 em 2009. É muito interessante verificar certos aspectos curiosos. O que tem aqui é uma mistura dos registos europeus de patentes feitos por inventores, empresas ou entidades portuguesas, que mistura algumas coisas que são registadas em nome de outros países. Porque, quando tem uma multinacional instalada em Portugal, ela regista, de facto, como se a invenção tivesse vindo de Portugal, mas o país de registo da patente é normalmente uma empresa-sede, na Alemanha, na Finlândia, noutro sítio.

Veja aqui o vídeo

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MensagemAssunto: Primeiras obras do hospital privado de Bragança devem arrancar no início do ano   Sab Dez 11, 2010 4:24 pm

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Misericórdia de fora
Bragança



Primeiras obras do hospital privado de Bragança devem arrancar no início do ano

Arrancam no início do próximo ano as primeiras obras do hospital provado de Bragança. A garantia é deixada por Cordeiro Tavares, vice-presidente da CESPU, a entidade promotora da obra, numa entrevista concedida em exclusivo à Brigantia.

O projecto sofreu alguns atrasos mas Cordeiro Tavares garante que os primeiros trabalhos começam dentro de dias.

“Foi necessária a alteração de projecto e a adaptação dos planos contra incêndio, de emergência. A Câmara já está a apreciar tudo isso e depois será uma questão de dias. Vamos vedar o terreno e o que puder ser feito de desaterro será, enquanto as especialidades são aprovadas. O que pode demorar é [o concurso], pois queríamos que a obra fosse construída por empresas da região.”

Nesta entrevista, que será emitida amanhã à tarde, Cordeiro Tavares culpa a Santa Casa da Misericórdia de Bragança pelo atraso na construção do novo hospital.

“Houve atraso. Tivemos um projecto inicial que foi adaptado de acordo com uma entidade que foi aceite como parceiro natural, a Santa Casa da Misericórdia de Bragança, que pediu dois pisos, 86 quartos. O projecto foi adaptado mas depois disseram que afinal só queriam um piso. Houve necessidade de outra readaptação, mas simples. Até que, inopinadamente, a Misericórdia disse que não queriam nada.”

Cordeiro Tavares admite que ainda falta definir quais as especialidades que ficarão instaladas nesta nova unidade de saúde, algo que será feito nos próximos dias.

O vice-presidente da CESPU pretende que este seja um pólo de criação de emprego na região.

“O hospital vai responder à necessidade de conceder aos seus licenciados o ambiente real de trabalho, onde vão praticar. E vai tentar ser complementar ao Centro Hospitalar do Nordeste”, sublinha Cordeiro Tavares. “Já fomos procurados por alguns médicos que gostariam de deslocar as suas clínicas para dentro do hospital.”

O mesmo responsável admite que a prestação de cuidados aos mais velhos será um dos pontos fortes na oferta de serviços.

“Se temos uma boa fisioterapia dos cursos considerados dos melhores cursos, se na própria unidade que vamos construir vai haver piscina, ligada à fisioterapia, porque não ter uma boa unidade de fisioterapia? Ou radiologia, ou análises?”

Excerto de uma grande entrevista ao vice-presidente do grupo CESPU, para ouvir na íntegra amanhã à tarde, com repetição no sábado de manhã.

Brigantia, 2010-12-09
In DTM

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MensagemAssunto: "Mercados perceberão que Portugal está a fazer o que deve"   Sab Dez 11, 2010 5:24 pm

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"Mercados perceberão que Portugal está a fazer o que deve"

por JOÃO MARCELINO
Hoje


"Não temos nenhum problema que exija recorrer ao Fundo Monetário Internacional. O nosso problema é apenas um problema orçamental que temos de corrigir, tal como outros países têm! Quem não percebe que o que estamos a viver é uma questão sistémica, que diz respeito ao euro, não percebeu nada desta crise. Se alguém acha que isto é um problema deste país ou daquele, não está a ver como a crise da dívida soberana está a afectar o euro! Isto é um problema de todos os países europeus, e acho que devemos fazer o possível para o combater em conjunto".

A entrevista tem duas partes, uma sobre a actividade do Governo (hoje) e outra sobre política nacional (amanhã). Nesta, a primeira, José Sócrates insiste sobretudo na convicção de que o País tem condições para, sem ajudas externas, sair da crise. Nem em cenários, o governante, o político, profissional bem preparado, aceita o "se". O FMI, para ele, não é uma possibilidade. Ponto. E quanto ao que fica para trás é claro que valoriza o investimento na educação, ciência e tecnologia. As grandes obras são para avançar, mas, reclama, mesmo aí, no investimento infra-estrutural, a grande aposta tem sido, e vai continuar a ser, a requalificação do parque escolar. Essa é a marca que quer deixar associada ao exercício do poder - e de que, notoriamente, se orgulha.

O principal problema do País neste momento é conseguir, em 2011, concretizar o que está inscrito no Orçamento do Estado. Até que ponto é que os portugueses podem confiar num ministro, neste caso Teixeira dos Santos, que tem falhado todas as previsões?

Quero contestar isso. Em 2005, entrámos para o Governo com um défice de 6,83%, não havia nenhuma razão para esse défice. Em 2009, temos um défice de 9,3%, mas há uma boa razão: é que tivemos a maior crise internacional dos últimos 80 anos. O ministro Teixeira dos Santos, comigo, fez uma consolidação orçamental em apenas dois anos. Propusemos à Europa três e fizemos esse trabalho em apenas dois anos.

Mas esse trabalho terminou há dois anos. Em 2009 e 2010 não foi feito. Por que razão é que?...

(interrompendo) ... Desculpe, quero contestar isso, porque este ano iremos atingir o nosso objectivo orçamental, 7,3%!

À custa de uma receita extraordinária vinda do fundo de pensões da PT.

É verdade, mas quantos países é que tiveram também receitas extraordinárias? Muitos países!

Antes de chegar ao Governo, criticava muito Manuela Ferreira Leite por ter recorrido a essas receitas extraordinárias para regularizar o défice.

Nunca fizemos nenhuma utilização de receitas extraordinárias no passado, na consolidação orçamental. Este ano, tivemos de recorrer a uma receita extraordinária pelas razões que já expliquei. Tivemos também uma despesa extraordinária, chamada submarinos. Como compensaríamos os mil milhões de euros de despesa extraordinária sem recorrermos a uma receita extraordinária? É perfeitamente razoável que se entenda!

Mas houve mais despesas que resvalaram. Por exemplo no Serviço Nacional de Saúde...

Este ano tivemos um Orçamento que só foi aprovado em Março, tivemos de fazer face a dificuldades internacionais que são visíveis. Em Maio, todos os governos da Europa decidiram alterar as suas políticas económicas por forma a acelerar a consolidação orçamental. Tomámos medidas em Maio e em Junho que só entraram em vigor em Julho e em Agosto. É por isso, naturalmente, que esperávamos que este ano não fosse um ano em que a consolidação orçamental fosse tão intensa, mas fá-lo-emos no próximo. Porque as medidas que tomámos para o próximo ano garantem-nos que a nossa execução orçamental vai estar à altura das responsabilidades que o País tem e aí temos de ser absolutamente determinados na forma de o fazer, para que o nosso país fique protegido da crise internacional.

Neste cenário de rigor que é necessário, Carlos César, presidente do Governo Regional dos Açores, não está a ser desleal com o Governo e consigo?

Não vejo isso dessa forma. As decisões que o Governo Regional dos Açores toma são em função daquilo que considera melhor para os Açores, não em função daquilo que considera melhor para a governação da República, nem está a pensar em agradar- -me quando toma as suas decisões. Ele tomou uma decisão e eu tomei outra. Concordamos em discordar, digamos assim. É preciso respeitar a autonomia. Quando alguém assume responsabilidades como aquelas que Carlos César assumiu, o que tem de ter no seu espírito é a defesa dos interesses dos açorianos, e tenho a certeza de que no seu íntimo estará apenas essa vontade, servir o melhor possível o povo dos Açores. Se ela é ou não é conforme ao princípio constitucional da igualdade, isso veremos, porque há instâncias para dirimir essas questões.

Soube desta decisão pelos jornais, pela comunicação social?

Soube dessa decisão já depois de estar tomada. Mas não há nenhuma questão pessoal entre nós, se é isso que procura saber. Pelo contrário, há apenas respeito por aquilo que são duas funções políticas muito distintas.

Não acha que era muito mais fácil fazer aquilo que é preciso na sociedade portuguesa no que diz respeito às leis laborais, e não só, com a entrada do FMI em Portugal?

Não, pelo contrário. E desculpe, quando me faz essa pergunta, pergunto-me se alguém pensou nas consequências que teria para o nosso país, em termos de imagem internacional, uma decisão dessas. Seria muito negativo para a imagem internacional do nosso país e recuso em absoluto...

O FMI já veio duas vezes a Portugal.

Sim, eu sei, mas isso não foi positivo para o nosso país. Além do mais, o que lhe estou a dizer é baseado numa análise objectiva da economia portuguesa. Não temos nenhum problema que exija recorrer à ajuda do Fundo Monetário Internacional. O nosso problema é apenas um problema orçamental que temos de corrigir, tal como outros países têm! Quem não percebe que o que estamos a viver é uma questão sistémica, que diz respeito ao euro, não percebeu nada desta crise. Se alguém acha que isto é um problema deste país ou daquele, não está a ver como a crise da dívida soberana está a afectar o euro! Isto é um problema de todos os países europeus e acho que devemos fazer o possível para o combater em conjunto: todas as instituições europeias, a Comissão, que fez o seu papel, o Banco Central Europeu, que fez o seu papel, e cada um dos países por si, que estão a fazer o seu papel. É isso que estamos a fazer! Foi por isso que decidimos em Junho acelerar a consolidação orçamental, não baixar o défice para 8,3% mas baixá-lo já para 7,3%, e baixar também o défice no próximo ano para 4,6%. Aí ficaremos com um dos défices menores da União Europeia, e ficaremos protegidos naquilo que é a nossa principal debilidade neste momento. E somos capazes de o resolver pelos nossos próprios meios, nós sabemos exactamente o que fazer. O que precisamos é de confiança, naturalmente. E tenho a certeza de que todos os partidos perceberão que este é o momento para defender o País, porque o que tenho visto muitas vezes é uma preocupação de muitos partidos mais em atacar o Governo do que defender o País. E por isso tenho grande confiança na Concertação Social e acho que é preciso um esforço nacional para respondermos a esta situação, e tenho desenvolvido contactos com todos os parceiros sociais por forma a que tenhamos uma agenda não de uma nota só, não apenas concentrada na consolidação das contas públicas, mas também no crescimento económico. Uma agenda que tem como pontos focais o aumento das exportações, a redução das importações, que tem como ponto central também a redução dos custos administrativos na nossa sociedade, em particular no que diz respeito à vida empresarial; também a matéria que diz respeito à economia informal, que precisamos de combater, e também as alterações que forem necessárias fazer por forma a que aquilo que foram as orientações da última revisão do Código Laboral entrem mais rapidamente no terreno.

Na agenda do crescimento e do emprego, no âmbito da qual tem mantido reuniões, quer com os sindicatos quer com os representantes das entidades patronais, o acordo está fácil, vai ser breve? Que medidas concretas é que podem sair dessa ronda de negociações?

Tenho esperança de que estas negociações sejam rápidas, o País precisa de se entender...

Antes do final do ano?

Antes do final do ano. O Governo precisa de avançar, mas quer avançar com Concertação Social para definirmos orientações quanto às políticas públicas para o crescimento, para a competitividade e para o emprego. Nas áreas que referi, exportações, diminuição de importações, redução de custos administrativos, combate à economia clandestina, também na área laboral e na área da regeneração urbana. Mas dou um exemplo de medidas que vamos tomar: nós precisamos de actuar na área da regeneração urbana, na área da requalificação urbana, as nossas cidades precisam disso. E uma das medidas importantes que temos de tomar é sem dúvida relançar o mercado do arrendamento urbano. E há muitas medidas que podemos tomar para isso, nós tomámos medidas já recentemente, há uns anos, nesse sentido, mas julgo que é absolutamente essencial que neste momento percebamos que temos de dar mais confiança àqueles que querem colocar os seus bens imóveis no mercado de arrendamento. E a melhor garantia que podemos dar, aos senhorios, de que podem colocar esses bens no mercado de arrendamento, é garantir-lhes que em caso de incumprimento as coisas serão céleres para que o bem lhes seja devolvido. Aí está uma das medidas mais importantes que temos de tomar se queremos relançar o mercado de arrendamento, acho que seria benéfico para as cidades, seria benéfico para os jovens, seria benéfico para o relançamento de um mercado que é absolutamente essencial podermos recuperar.

Vai tentar tudo para que o FMI não entre em Portugal, mas se isso viesse a acontecer, não era consigo como primeiro-ministro?

Não há nenhuma razão para que o FMI entre em Portugal, porque Portugal não necessita disso! O Governo não necessita disso, o Governo português não necessita disso, nós sabemos exactamente o que fazer e não precisamos que alguém nos venha dizer o que devemos fazer.

E há países da UE a pressionar Portugal para pedir ajuda?

Não, nunca nenhum país nos pressionou para pedir ajuda. A ajuda pede-se quando é necessária, não quando não é necessária.

Esperava que a aprovação do Orçamento do Estado tivesse tido outros efeitos nos mercados?

Esperava que os mercados tivessem uma análise mais objectiva da nossa situação. E a verdade é que ao longo das últimas semanas pudemos ver que as nossas taxas de juro desceram. Não tanto quanto eu gostaria, é certo, mas julgo que os mercados lentamente perceberão que Portugal está a fazer aquilo que deve para a sua consolidação orçamental, para oferecer confiança aos mercados internacionais. E não é apenas Portugal, é Portugal, Espanha, Reino Unido, é França, é Bélgica, Itália, todos os países estão em processo de consolidação. Aliás, há uma diferença, se olhar para aquilo que nós estamos a fazer aqui em Portugal e olhar para as outras medidas que estão a ser tomadas noutros países, perceberá que a Concertação Social aqui em Portugal tem funcionado... e julgo que o País entendeu bem que este esforço tem de ser um esforço nacional e que não tem passado pela turbulência que outros países têm passado do ponto de vista social.

O grande desafio nacional neste momento é cumprir o Orçamento. Os primeiros números saem no final de Março, esse vai ser um momento-chave para a legislatura?

Há dois momentos importantes, o primeiro é o resultado deste ano. Nós temos de atingir 7,3% e todas as indicações que tenho da execução orçamental me levam a dizer que nós vamos cumprir esse objectivo orçamental. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto será, naturalmente, a execução orçamental dos primeiros meses, porque aí se verá que a redução da despesa e o aumento da receita contribuirão para lançar mensagens de tranquilidade aos mercados.

Sempre que há dificuldades em Portugal corta-se nos ordenados da função pública. Pode garantir hoje que para o ano não haverá necessidade de mais cortes?

Era o que faltava, não! Mas quero chamar-lhe a atenção para o seguinte: há muita gente que diz que esta foi a primeira vez que reduzimos salários, mas é-o apenas formalmente. Como é que resolvíamos os problemas no passado? Como é que resolvemos no momento que me lembrou, que o FMI esteve aqui...

Fazendo uma coisa que hoje não se pode fazer, desvalorizando a moeda.

Era isso mesmo, desvalorizar a moeda. Ora desvalorizando a moeda o que é que acontecia? Subia a inflação para 20%, 22%, 25%, certamente que se lembra desse tempo.

Portanto, espera que não seja necessário mais cortes nos salários?

Sim. Mas o problema que temos hoje é que já não temos essa autoridade e essa política monetária. Partilhámo-la com todos os países europeus.

Se saíssemos do euro, teríamos essa possibilidade.

É verdade, mas as consequências seriam muito piores para nós, mas muito piores.

Sente que o projecto europeu, neste momento, atravessa um momento difícil?

Atravessa um desafio muito grande, que é a defesa da moeda única. Ela veio dar uma densidade ao projecto europeu que não tinha anteriormente. É por isso que tenho a certeza de que todos os europeístas, todos os líderes europeus, se empenharão na defesa da sua moeda. E a forma que temos de a defender é cumprir os nossos objectivos orçamentais, é isso que estamos a fazer.

Olhando para trás, não se arrepende minimamente do "expansionismo social" daquele ano eleitoral de 2009, das medidas que na altura tomou e que obviamente depois apareceram reflectidas no défice?

Não me arrependo, pelo contrário. Acho que a história económica só vai provar que fizemos aquilo que devíamos ter feito. Todos os países o fizeram. Em 2009, o que é que fizemos? Aumentámos a ajuda às famílias para que pudéssemos ultrapassar os problemas económicos que enfrentávamos, aumentámos as ajudas às empresas, ajudámos muitas empresas a não...

(interrompendo) E, no caminho, ganham umas eleições.

Desculpe, acha que os Estados Unidos fizeram isso para ganhar eleições? Acha que o Japão?...

Mas não tinham eleições. O senhor tinha e coincidiu tudo nesse ano.

Havia ou não havia razões objectivas, do ponto de vista económico, para tomar essas medidas? No início de 2009 não estávamos todos de acordo de que devíamos tomar essas medidas para que o impacto da crise económica não fosse tão forte no nosso país?

Portanto, rejeita liminarmente as leituras eleitoralistas?

Se assim fosse... Nós aumentámos o nosso défice em 2009 de 2,7%, salvo erro, para 9,3%. Mas o mesmo aconteceu na Alemanha, que o aumentou de um vírgula qualquer coisa para 6%, tal como aumentou na França, tal como aumentou no Reino Unido, tal como aumentou nos Estados Unidos. Nós vamos ficar no final deste ano com um défice abaixo do francês.

Só que temos um problema de credibilidade junto dos mercados.

Essa falta de credibilidade também vem do passado, porque há uma grande diferença entre o défice de 2009 e o défice de 2005 - em 2005 éramos o único país em défice excessivo e tínhamos o défice maior de toda a União Europeia...

E o primeiro-ministro desse governo acabou à frente da Comissão Europeia.

... Em 2009 havia uma razão para aumentar o défice, e uma boa razão, como disse aliás Paul Krugman num artigo muito célebre, "os défices salvaram o mundo". O que teria sido da nossa economia se não tivéssemos feito isso? É muito fácil fazer críticas quando os tempos são difíceis! É claro que todos os países enfrentam dificuldades, mas quando se fizer a história económica deste período perceber-se-á que Portugal fez aquilo que devia. Nós crescemos economicamente em 2010, por isso, acho que as nossas políticas foram as políticas adequadas. É claro, dir-me-á, "mas contava com esta segunda fase da crise, a crise da dívida soberana em toda a Europa"?, claro que não contava. Como não contava nenhum político europeu! Nós, no início deste ano, em 2010, no último Conselho Europeu, decidimos que a Europa tinha de continuar a dar estímulos à sua economia para a recuperação económica. A verdade é que a crise grega veio alterar tudo e a desconfiança dos mercados relativamente à capacidade dos Estados europeus em pagarem as suas dívidas obrigou toda a Europa, e não apenas Portugal, a mudar de política. A mudar de política e a concentrar-se numa redução mais rápida e progressiva do seu défice.



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RMaria

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MensagemAssunto: "Tenho muita confiança em que o Manuel Alegre ganhará as eleições"   Dom Dez 12, 2010 11:52 am

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"Tenho muita confiança em que o Manuel Alegre ganhará as eleições"

por JOÃO MARCELINO
Hoje


Na primeira parte da entrevista, publicada ontem, foram abordados os temas ligados à governação. Nesta segunda parte, José Sócrates aceitou pronunciar-se sobre temas da actualidade política, das eleições presidenciais - em que fica registado o seu apoio vigoroso à candidatura de Manuel Alegre - à actividade partidária - na qual fala para dentro do PS sempre com uma perspectiva de unir as hostes e desvalorizar as divergências.

As principais críticas, mesmo que sem sujeito expresso referido, ficam para Francisco Louçã e o Bloco de Esquerda, e para Paulo Portas. Com o PSD e Pedro Passos Coelho, José Sócrates utiliza quase os mesmos cuidados que com Cavaco Silva. Ou seja, o secretário-geral do PS nunca se esquece da sua condição de primeiro-ministro e da necessidade de ter condições para governar.

Enquanto primeiro-ministro, defende a flexibilização das leis do trabalho, o combate ao desperdício no Serviço Nacional de Saúde (SNS), a reestruturação, porventura, de alguns apoios sociais. Como é que isso é compatível com o apoio a um candidato, Manuel Alegre, que nalguns destes temas defende precisamente o contrário?

Não acho que defendamos o contrário!

Não quer que lhe dê a posição dele na aprovação do Código do Trabalho em vigor...?

Sim, mas o que me une ao Manuel Alegre nesse ponto de vista é a defesa do Estado social.

Mas um Estado social um pouco diferente daquilo que ele pretende. Manuel Alegre já disse que se for eleito presidente da República podem contar com ele para que não haja mexidas no Código do Trabalho...

No meu ponto de vista, defende-se o Estado social fazendo reformas. Defende-se o Estado social com mais eficiência, e nós temos hoje sistemas públicos de saúde e educação dos mais eficientes.

E acha que ele tem uma visão compatível com a sua?

No essencial. Na defesa do Estado social e na procura de que esse Estado corresponda àquilo que se espera dele, isto é, que apoie quem precisa e que promova a igualdade. Nesse aspecto há uma total sintonia de pontos de vista. Nem sempre estaremos de acordo quanto a medidas da governação, é certo, como não estivemos no passado. Eu sou um reformista. Acho que o Estado social se defende reformando. Mas o que me liga ao Manuel Alegre é a comunhão de pontos de vista relativamente ao papel que o Estado social e os sistemas públicos que o garantem têm na nossa sociedade como um instrumento de combate às desigualdades. Apoio Manuel Alegre porque ele tem uma visão progressista para o nosso país. E apoio com convicção! Não me esconderei. Muito em breve irei à sua sede de candidatura assinar a declaração de apoio para que isso seja absolutamente claro. E participarei nessa campanha com agrado.

E acha que essa sua posição pessoal é acompanhada pelo partido? O que se tem visto é que o PS não está ao lado de Manuel Alegre no terreno.

Não. Ao contrário, tenho visto o PS muito mobilizado na defesa da candidatura do Manuel Alegre. E será cada vez mais, porque essa ideia de que as contas estão feitas e de que as candidaturas estão decididas é um erro em democracia. Estarão quando os votos forem contados. Tenho muita confiança que o Manuel Alegre disputará uma segunda volta e que ganhará as eleições presidenciais. E espero, naturalmente, contribuir para a mobilização do eleitorado à volta das qualidades políticas e pessoais que o Manuel Alegre tem para desempenhar o cargo de presidente da República.

Onde vê essa convicção do PS que ninguém mais vê exteriormente?

Porventura, conheço o PS um pouco melhor que os senhores jornalistas... Mas veja que todos os principais responsáveis do PS apoiam o Manuel Alegre. Os principais dirigentes, quer ao nível federativo quer ao nível das secções, apoiam-no convictamente, e essa é a decisão tomada por larga maioria da Comissão Nacional do PS. Haverá sempre, como há em todos os partidos, quem não concorde, mas isso são expressões de vontade muito minoritárias. O PS estará ao lado de Manuel Alegre nesta campanha.

Mas há vozes importantes do passado do partido, como Mário Soares, que não estão ao seu lado e que criticaram essa escolha. Que relevância é que têm essas posições individuais?

Em primeiro lugar, eu não vejo que o dr. Mário Soares tenha apoiado outro candidato.

Mas não apoia este...

Sim, também não vi que ele expressasse essa vontade de apoiar o Manuel Alegre. Mas eu não atribuo importância a isso. Naturalmente, gostaria que o dr. Mário Soares estivesse mais envolvido nesta candidatura, mas nunca deixei de tomar partido e de fazer escolhas. Não me escondo atrás de nada só porque as escolhas são complexas ou porque são difíceis.

Vai envolver-se nesse combate político para ajudar Manuel Alegre a ganhar, não vai esconder-se. Isso significa, por exemplo, que pode estar no mesmo palco com Francisco Louçã?

Isso tem mais um interesse jornalístico do que propriamente um interesse político.

Admito que sim. Mas pode chegar aí a sua vontade em ganhar?

O PS não pretende instrumentalizar a campanha do Manuel Alegre a favor nem do PS nem do Governo. E espero que nenhum partido que apoie o Manuel Alegre tenha essa pretensão, de instrumentalizar a candidatura, que é uma candidatura acima dos partidos, para servir o interesse partidário, ou uma linha política que essas lideranças sirvam. O Manuel Alegre merece o apoio enquanto candidato presidencial, acima dos partidos.

Incomoda-o que o seu candidato também tenha o apoio explícito do Bloco de Esquerda (BE)?

Não, não me incomoda nada. Não tenho a certeza é se a mesma coisa será respondida pelo BE... Tomara eu que mais pessoas, de diferentes sensibilidades políticas, apoiassem o Manuel Alegre! Fico sempre satisfeito quando alguém partilha dos meus pontos de vista, e não o contrário. Não tenho uma visão sectária da política e lamento muito que o BE tenha desenvolvido uma linha política muito sectária relativamente ao Governo e ao PS e a incapacidade de falar com o PS e com o Governo. Há momentos na vida dos partidos também para assumirem as suas responsabilidades, para aceitarem o diálogo e o compromisso, porque é isso que faz parte do património de um partido que está integrado numa democracia. Lamento muito que o Bloco de Esquerda tenha sempre enveredado em todo o seu comportamento por uma disputa política contra o Governo e contra o PS que faz parte daquilo que considera ser o seu interesse eleitoral. Isso não acrescenta nada, nem à esquerda nem à democracia nem ao País.

Manuel Alegre tem acusado o actual Presidente da República de ser co-responsável da situação que o País atravessa e acha que ele não usou, quando devia, na altura certa, os poderes presidenciais. Concorda com esta visão?

Manuel Alegre tem qualidades pessoais e políticas para ser um excelente presidente da República e é nesse patamar que coloco o meu apoio. Bater-me-ei pela sua eleição porque acho que ele tem essa visão progressista que muita falta faz ao País. Não quero entrar nessas disputas porque não preciso de apoiar o Manuel Alegre apenas porque ele é contra outro presidente. Apoio o Manuel Alegre porque acho que ele tem as qualidades certas para servir bem o seu país.

Diz que não vai esconder-se. Vai estar no terreno, vai a comícios, vai estar por todo o País?

Com certeza, participarei na campanha assim que ela começar e, de acordo com aquilo que forem as necessidades da campanha e as solicitações que me fizerem, estarei disponível para isso.

E, com um envolvimento tão próximo, não teme que uma eventual derrota de Manuel Alegre seja também vista como uma derrota pessoal sua?

Pobres dos políticos que determinam as suas actuações com base no cálculo político. Esses são os mais ingénuos. Há duas classes de políticos: aqueles que agem com base no cálculo e aqueles que agem com base na sua convicção. Ambos se enganam e ambos têm derrotas, mas há uma vantagem para os segundos: é que esses estarão sempre de acordo com a sua consciência. Eu não me movo com base em cálculos. Já perdi muitas vezes, já ganhei outras vezes, mas nunca me motivou o cálculo político, e saber se essa acção é mais vantajosa ou menos vantajosa para a minha carreira política ou para o partido que lidero. O que me motiva é servir bem o meu país e defender os meus pontos de vista. É isso que a democracia exige de mim.

Há dois anos, dizia em entrevista ao Diário de Notícias que a sua relação com Cavaco Silva estava excelente, apesar dos naturais desencontros em relação ao Estatuto dos Açores, à Lei do Divórcio. Isso tudo tinha que ver com o facto de serem pessoas que defendiam duas concepções de sociedade diferentes. Hoje, após o chamado "caso das escutas", é capaz de manter o que então dizia?

Tinha prometido, a propósito desse caso, não falar mais no assunto. E vou manter-me fiel a essa decisão. Não quero falar nisso. Foi um episódio lamentável que aconteceu na democracia portuguesa e não quero pronunciar-me mais sobre isso. O que foi dito está dito pela voz do ministro Pedro Silva Pereira, ou melhor, pelo dirigente Pedro Silva Pereira em nome do PS. Agora, se me permite, eu apoio o Manuel Alegre e bater-me-ei pelo Manuel Alegre, não preciso que esse apoio seja transformado numa campanha contra ninguém. É uma campanha a favor do Manuel Alegre, tenho a certeza de que ele será o melhor presidente da República para o País.

Que balanço faz do mandato do actual Presidente da República e, muito especificamente, sentiu-o alguma vez como força de bloqueio à governação?

Percebo para o que me quer arrastar, mas, perdoe-me, eu tenho responsabilidades institucionais e sei muito bem o que devo e o que não devo dizer. E, neste momento em que vai iniciar-se uma campanha eleitoral, o que tenho para dizer é o seguinte: apoio o Manuel Alegre, estarei ao lado dele, porque estou convencido de que as suas qualidades políticas e pessoais o transformam no candidato que deve ser eleito para servir o seu país.



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MensagemAssunto: "Acho que o PSD não tem pressa em ser poder"   Dom Dez 26, 2010 10:20 am

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"Acho que o PSD não tem pressa em ser poder"

por JOÃO CÉU E SILVA
Hoje


É impossível não nos surpreendermos com a clareza e os dados que o patriarca põe na mesa quando faz a análise política do País. Doseia algum humor perante a crise, como se só desse modo pudesse perdoar os descaminhos da finança, da economia e do endividamento externo. Apelida de "simpáticas" as conversas com Sócrates, mas não aprecia as medidas do Governo contra a Igreja.

A Igreja portuguesa está quase como o Governo. Até os ministros de Deus disparam críticas e opiniões políticas contrárias. Porquê

A Igreja é uma entidade muito plural e repartida na sua responsabilidade, mais do que a sociedade. Basta lembrar que as dioceses são autónomas e as paróquias são pessoas jurídicas independentes. Se isto é uma vantagem, porque não repousa sobre uma mesma pessoa jurídica, também poderá dar a quem vê de fora uma ideia de grande dispersão.

Que é contrária aos princípios da Igreja?

A unidade é a nossa busca principal, mas não pode ser o anular da diferença e da margem de autenticidade que as pessoas individuais e jurídicas têm de se exprimir. A unidade na doutrina é possível nas grandes atitudes frente à sociedade e para isso é que existe a conferência episcopal. No entanto, não tenho visto nada que pusesse em questão essa busca da unidade na pluralidade da diferença. Pode haver sensibilidades neste tomar de posições em relação à política e à sociedade, mas todos estão de acordo que não é missão da Igreja meter-se directamente na questão política a não ser num caso muito extraordinário.

Como o Papa já referiu?

O Papa acaba de admitir que sim, que em situações-limite a Igreja pode tomar posições políticas. Mas não tem sido essa a nossa prática, a não ser em situações muito concretas ou particularmente exigentes em que essas sensibilidades podem ter expressão. Não vi nada que quebre esta unidade fundamental, embora, com toda a franqueza, haja declarações públicas [de religiosos ] que eu não faria.

Acha que a Igreja não deve ter certas posições?

O princípio geral é de que não se deve meter na política, mesmo que tenhamos uma dificuldade em definir que âmbito é esse. Quando falo que a Igreja deve ser isenta e discreta nas questões políticas, refiro-me à política directa e às decisões do Governo. É evidente que, às vezes, nos apetecia falar como cidadãos...

O que tem acontecido com declarações suas!

... Mas como instituição, temos de a preservar. Até porque o nosso campo é outro, mesmo que nos bastidores apanhemos as consequências das políticas concretas. O político é mais vasto do que isto e diz respeito a todo o bem da sociedade. É nesse sentido mais global que, aí sim, temos uma palavra a dizer, na medida em que somos uma voz e temos um auditório numeroso que espera pela nossa palavra e orientação. Quando há uma tomada de posição mais acutilante sobre política concreta, temos um conjunto de vozes a aplaudir-nos e outro a denunciar- -nos. Por isso, é preciso uma grande isenção, que só se consegue tendo sempre muito em conta qual é o objectivo da nossa missão.

Já o Concílio Vaticano II pedia aos católicos para terem mais intervenção na sociedade.

A isenção política não é uma imposição do poder civil, é uma opção nossa para salvaguardar a especificidade da nossa missão. Se nos metemos na política directa, temos de sofrer as consequências dos que estão na política directa e não podemos reivindicar impunidade.

A Igreja não está impune, mas os políticos estão. É isso que quer dizer?

Não deviam estar nem estão. Não podemos é metê-los na cadeia cada vez que fazem erros, até porque para isso há punição em democracia.

Nos casos de pedofilia, muitos dos padres que pecaram tiveram penalização. O mesmo deveria acontecer aos políticos?

Esse é um outro tema para onde os holofotes apontaram todos. São casos tristes para nós - bastava um para termos muita pena -, porque é uma coisa muito feia. Mas, em termos globais estatísticos, os casos são apenas de 0,0 não sei quanto por cento. Talvez este sofrimento por que a Igreja tem passado, e eu compreendo que a sociedade se indigne porque se havia alguma entidade de que não se devia esperar uma coisa dessas era da Igreja, alerte a sociedade como um todo para a erradicarmos com uma política de família e de educação.

O actual Papa foi quem pagou pelos casos que aconteceram no pontificado de João Paulo II. Escapará a essa marca?

Reagiu com muita firmeza e, em certos casos, até nos surpreendeu, chamando as coisas pelos nomes, propondo regras muito rígidas e revendo, como está a acontecer, a própria legislação canónica das penas canónicas em relação a certos casos. O Papa tinha um velho conhecimento dos problemas e dos dossiers que passavam pela sua mão e alertava os episcopados. Esta questão é muito delicada e tão fora da nossa expectativa imediata que demorou algum tempo até os episcopados tomarem consciência dessa realidade.

Porquê?

Primeiro, pela delicadeza do assunto, que não é para remexer em público. Segundo, porque a única maneira de se ter conhecimento é pela denúncia das vítimas, o que por ser tão humilhante muitas vezes não queriam ser reconhecidas. Foi a brutalidade das revelações feitas sobretudo nos Estados Unidos que levou o resto do mundo a alertar-se para isso e ainda bem! Se esta mazela existe na Igreja, temos de a curar.

Como é que Portugal passou tão ao lado?

Não há casos que eu conheça - não quer dizer que não haja um ou outro - e penso que essa situação tem que ver com vários factores. O principal é haver um cuidado grande na selecção e na formação dos jovens padres e na detecção numa fase da juventude da vida do jovem daquilo que são fragilidades, e ajudá-las a corrigir. Depois, é uma qualidade básica do nosso povo respeitar as crianças. Eu temo é que esta publicidade suscite casos, porque, espontaneamente, não está na maneira de ser do nosso povo essa atitude. Qualquer português fica derretido diante do olhar de uma criança! Não excluo que porventura haja casos que tenham acontecido ou que ainda venham a revelar-se pois o pecado existe em todo o lado, mas por enquanto estamos isentos dessa vergonha.

Não receia que a WikiLeaks revele estes casos?

Não sei que telegramas é que o embaixador dos Estados Unidos mandou para lá! Eles informam tudo, desde a cor da gravata até ao cinema a que se foi.

O encobrimento da pedofilia no tempo de João Paulo II não vai obstar à canonização?

Não me pronuncio sobre isso. As únicas coisas que sei é o que diz este Papa, de resto não tenho nenhuma notícia. Tenho de reconhecer que, na hierarquia da Igreja, a primeira reacção foi a de evitar o escândalo. Isso reconheço que houve em geral, a começar no próprio Papa João Paulo II. O que estava errado nos casos que aconteceram foi não ter tirado esse sacerdote de qualquer contacto pastoral, mas deslocá-lo para outro lugar e voltar a repetir-se no segundo local.

Normalmente é a Igreja que pede sacrifícios. Agora, o Governo ultrapassa essa doutrina religiosa com a exigência económica. Sente o peso da "concorrência" do Governo?

Não, a Igreja não pede sacrifícios da mesma maneira porque não há conversão sem austeridade e sem exigência interior. Sou um observador atento - e tenho também mais meios de observação que o comum dos cidadãos - e o que se passa é que ainda estou perplexo pelo juízo global do que se está a passar. Penso que hoje há uma componente internacional que é muito complicada ,e como o mundo é uma aldeia até vemos Portugal ir vender títulos da sua dívida à China.

O que se passa com a economia portuguesa?

Na leitura que faço dos factos, penso que houve um momento em que se separou demasiadamente a relação estruturada durante décadas entre mundo financeiro e o económico, e a finança funcionava como um apoio e potenciador da economia. Dentro deste processo, há um momento em que o valor das moedas que eram caucionadas pelo ouro deixa de ser uma garantia do valor da moeda e passou a depender da saúde das economias. Esta autonomização da finança em si mesma como meio de ganhar dinheiro, e ao mesmo tempo com a oferta imensa, fez com que fosse impressionante o volume de dinheiro que passou a circular no mundo nos últimos anos.

É uma questão económica apenas?

Também tem que ver com a democracia, porque os partidos que estão no poder precisam de mostrar a obra feita e recorreram a esses mecanismos que dentro de uma normalidade regulada ia funcionando. Há um momento em que uma das peças do puzzle se escangalha e fica tudo de pernas para o ar. Eu não tinha noção de que Portugal pagava por dia um balúrdio ao estrangeiro por dever tanto dinheiro! O que me leva a crer que há também uma crise de sistema.

Do sistema capitalista em si?

Do sistema económico-liberal com que o mundo se organizou. Não significa que vá acabar, até porque não há alternativas experimentadas ou estudadas. O modelo totalitário também se desfez como um baralho de cartas e os que o defendem são os saudosistas de uma época. Há que inventar novas formas, mas, sobretudo, usar de prudência e objectividade nas decisões.

A Igreja terá de ter um papel no superar da crise económica?

A Igreja tem um papel, de criar na população uma atitude de esperança. Não tenho posições definidas sobre se as causas que nos levaram a esta situação eram evitáveis nem se as soluções apontadas são as melhores. Aí estamos no campo estritamente político. Até mesmo racionalmente tenho dificuldade.

Tem dificuldade porque não é racional?

Sim, mas tornou-se inevitável e agora é através da lei do orçamento que temos de ajudar as pessoas a viver com coragem e sem revolta. A revolta não leva a nada, temos de estar unidos para salvar o bem-estar das nossas populações. E aí a Igreja tem um papel.

Acredita que vai haver uma solução breve?


Só a longo prazo, porque não depende só de nós. Resta-nos a sensatez das decisões que vamos tomando e que já não são só nossas, porque, de cada vez que eles vão ao Conselho Europeu, vêm de lá com uma série de recados que, depois, têm dificuldades em implantar cá. Prevejo que a solução vai ser demorada e não vale a pena estarem com promessas fáceis demais porque, repito, não depende só de nós. Também prevejo que os mecanismos internacionais vão mudar muito e basta ver o caso da China, que está muito cautelosa.

Com base nas suas previsões parece não acreditar que este Governo tenha uma vida longa?

Democraticamente, é normal que tenha. O resto não sei prever.

Mas não o espanta que no próximo ano haja eleições legislativas devido a uma moção de censura do PSD?

E quem é que a vota?

Os partidos da oposição. Ou acha que estão comprometidos com este Governo?

Não sei. Se olharmos para o que se passou em Itália agora! Parecia evidente que Berlusconi caía, e nada. Aconteceu uma coisa que cá não se verificou, os deputados começaram a emigrar de um partido para outro.

Em Portugal aconteceria o mesmo?

Não é costume. Tem havido casos isolados de deputados que ficam como independentes, mas não mudam de partido.

Considera então que não vai haver uma maioria que derrube este Governo?

Não tenho a certeza de nada neste momento. É evidente que uma moção de censura supõe uma maioria para governar e no quadro actual quem é que faz maiorias? Faz maioria o PS com a esquerda toda; faz maioria o PS com qualquer dos partidos à sua direita. Numa moção de censura, o PS fica de fora. Portanto, as maiorias têm de ser ou à direita do PS, onde não há maioria, ou uma aliança dessa maioria à direita do PS com a esquerda, com o Partido Comunista e com o Bloco de Esquerda. É possível que possa acontecer, mas não tenho a certeza.

Acha que o PSD e o CDS não se aliarão para ter uma maioria na Assembleia da República?

Agora não têm! Estamos a falar de uma moção de censura que é votada no equilíbrio de forças do actual Parlamento.

Na sua leitura política, uma moção de censura não passaria porque não haveria nem aliança de direita nem de esquerda?

Não excluo que haja, mas não são fáceis os cenários. Isto também depende muito de se o PSD tem pressa ou não tem pressa de ser poder.

Acha que o PSD quer ser poder?

Acho que não tem pressa.

A Aliança Democrática irá regressar?

Eu tenho a intuição de que não irá regressar. Só se isto se complicar muito ou com a demissão do próprio Governo. Também podemos pôr este cenário, embora o nosso primeiro-ministro... Mas tenho a intuição de que a legislatura vai até ao fim, porque num momento destes uma crise política não é boa. É mais fácil ajudar quem está no poder.

A crise económica também afectou a receita da Igreja, com a baixa no nível de esmolas. É verdade?

Não. Não nos assustemos! O nosso povo é muito generoso e sempre que há um motivo directo existe participação. Veja-se o que aconteceu com o Banco Alimentar contra a Fome! Quando há um motivo directo, o povo português partilha. É evidente que neste momento as pessoas têm menos possibilidade de dar e as participações para a despesa da igreja ao domingo variam entre o gesto e a consciência objectiva de partilhar. Para o gesto, na altura de pôr uma moedinha, basta uma moeda; para o gosto de partilhar, é preciso pôr uma nota um bocadinho maior. Este segundo gesto sempre foi menos numeroso e só aumentou quando mudámos para o euro, porque ninguém reparava que um euro valia 200 escudos. De qualquer modo, ainda não tenho dados em relação à receita e não posso dizer se baixaram ou não.

Já se refez do impacto da sua afirmação sobre as mulheres católicas terem de pensar duas vezes antes de se casar com um muçulmano?

Espantou-me que num serão tão bonito no Casino da Figueira da Foz, onde se falou de tudo, a comunicação social só tenha pegado na última pergunta da noite! Um senhor não ficou contente com a resposta que dei e insistiu para que eu lhe desse orientações de comportamentos, porque, creio, teria um problema desses na família. Após fazê-lo, disse-lhe com um sorriso: "E cautela com os amores." Esse é um problema real, porque é uma cultura tão diferente, se não há um discernimento ou pelo menos um conhecimento do contexto e dos riscos em que vão meter-se. Eu não disse que não se casassem.

Fala-se muito do diálogo inter-religioso. Será possível, designadamente com o islão?

Não se podem meter os muçulmanos todos no mesmo saco... Tenho de confessar que o diálogo inter-religioso é muito difícil porque se é diálogo é simpático em vez de agressivo. Mas o normal é que as pessoas se fechem dentro da sua convicção e credo religioso.

Quem se fecha mais: os católicos ou os muçulmanos?

Há uma coisa que não podemos pedir que se mude só por fruto do diálogo: aquilo em que se acredita. É claro que posso mudar a minha fé se me converter, mas só por fruto do diálogo não se muda a fé. Só se for muito fraquita! Doutro modo, não mudarei aquilo em que acredito, sobretudo tendo em conta que tanto o catolicismo como o islão têm longas tradições, mesmo que no islão ainda seja a religião a comandar a totalidade da vida, da social à pessoal. Hoje, aposto mais no diálogo intercultural, sem excluir o diálogo inter-religioso, porque aí há coisas comuns. Creio que quando se começou a falar de diálogo inter-religioso na base estava a ideia do diálogo intercultural.

Os católicos e os muçulmanos não serão irredutíveis na sua aproximação?

Não, com irredutíveis não há diálogo possível. Nem inter-religioso nem intercultural!

Não está a acontecer agora uma abertura?

Está a acontecer com alguns grupos, mas não com a globalidade. Há muita gente, mesmo no mundo muçulmano, que está agora mais na mira pelo seu número e pelas posições fundamentalistas e exageradas que têm tomado, sobretudo, através da Al-Qaeda. Isso choca, mas não creio que o mundo islâmico do Ocidente fique com aquilo, porque a fé islâmica é muito simples. Tão simples que é inquestionável, e um muçulmano não faz espontaneamente o que um católico faz: pôr questões acerca da sua própria fé. Para isso é preciso uma grande evolução e estão numa fase de evolução que nós já fizemos há 300, 400 ou mil anos. É uma fé muito simples, e o muçulmano é naturalmente um homem bom, razão por que aquelas coisas do Alcorão que hoje serão interpretadas de uma maneira violenta não reflectem a sua afabilidade.

A comunidade muçulmana portuguesa não ficou um pouco crispada consigo?

Fizeram um esforço para não ficar. Por uma razão muito simples, é que há entre nós uma longa caminhada de simpatia e de relação normal. Penso que perceberam que não os agredi e que foi um facto muito mediatizado.

Mas não gostaria de ver Lisboa com mais minaretes do que os que já existem?

Lisboa com mais minaretes seria um regresso na história. O que gostaria era de ver mais torres de igrejas nas grandes cidades dos países muçulmanos. Acho bem que os nossos irmãos de outras religiões tenham aqui todos os direitos da nossa democracia, mas era preciso uma contrapartida mínima nos países onde são maioritários e têm o poder.

Que não existe?

Nada! Há muitos países nossos vizinhos onde se alguém se converter ao cristianismo tudo pode acontecer. Desde ser condenado à morte até ser expulso. Esta disparidade está a chocar o Ocidente e já estamos a sentir os primeiros sintomas dela. A senhora Merkel disse o que disse há um mês e em Inglaterra põe-se seriamente o falhanço da interculturalidade. É o Ocidente a reagir, o que não é bom porque é pôr achas em fogueira acesa.

Vamos ver repetidas as "cruzadas"?

Já estão a acontecer! Hão-de é ter outras expressões para além das que tiveram as cruzadas na Idade Média. Eu fiquei pasmado com a reacção de Angela Merkel, é nitidamente uma reacção a um problema interno!

A Igreja Católica sobreviveu dois milénios. Acha que em 2100, com as mudanças que estão a acontecer no mundo, ainda terá o mesmo perfil de instituição?

Há coisas perenes na Igreja que, se não deixar de existir, não mudam. Uma delas é a fé e a sequência comportamental desse sentimento, a que chamamos moral. Depois, há a estrutura apostólica, que é o baluarte e a solidez que hoje se exprime pelos bispos. Isso não muda, mesmo que se alterem pequenas formas de ser. No que se refere à adaptação ao tempo, é próprio da Igreja moldar-se às mais variadas circunstâncias sociais.

O desenvolvimento muito grande das neurociências não vai desfazendo a crença?

Só a dos que tinham pouca fé. As ciências, por mais avançadas que sejam, ainda não inventaram nada. O que têm feito é descobrir o que Deus criou!

A Igreja resistiu ao fim da missa em latim mas se, entre outras, a imagem bíblica de Adão e Eva for desconstruída o que acontecerá aos fiéis?

Em Roma ainda se fala latim! No que respeita a outras mudanças, se elas se derem, a Igreja resiste com certeza. Já passámos há muito tempo a fase de ler a Bíblia literalmente como se lê um jornal. Todos sabem que na Bíblia a verdade é sugerida e não é descrita. Tem estilos literários, tem uma simbólica riquíssima e é preciso compreender a ancestralidade daquelas culturas. Há uma coisa que na nossa cultura ocidental temos vindo a perder progressivamente, que é o valor do símbolo e da simbólica. E curiosamente somos obrigados a redescobri-la agora com a profusão da linguagem informática. Estive recentemente em Roma para o Conselho Pontifício para a cultura, que foi sobre as nossas linguagens, e vim de lá um pouco assustado.

Assustado com o quê?

Com os panoramas a médio e longo prazo do que será o mundo. Uma das coisas de que me apercebi foi que a linguagem que está a nascer é quase a reinvenção da escrita, daquele momento em que a humanidade transformou o dizer, o pensar e a fala em símbolos escritos. No Ocidente, perdemos muito o valor do símbolo, talvez devido à exactidão da ciência e da técnica e ao pragmatismo do racionalismo que invadiu a nossa cultura. Hoje, só os poetas é que ainda se vão safando com a simbólica... Ora é impossível ler a Bíblia sem ter uma estrutura simbólica. Eu não preciso de acabar com o Adão e a Eva porque, se eu não interpretar os capítulos primeiros do Génesis à letra, o Adão e a Eva não me incomodam nada, pelo contrário, têm uma riqueza de sugestão simbólica enorme. Às vezes há uma certa precipitação em pensar que podem substituir-se. Podem experimentar, mas não creio que seja fácil.

Acha que Deus perdoou a Saramago o livro Caim e as críticas ao Antigo Testamento?

Que Deus estaria disposto a perdoar Saramago, não tenho dúvidas nenhumas! Não sei é se o Saramago quis esse perdão. Eu fui um leitor assíduo de José Saramago e até admirador. Os grandes livros dele, eu li-os todos.

Inclusive o Evangelho?

Exactamente. Mas aí começa um bocado a sua decadência, é o livro que marca o fim daquela genica do José Saramago. O Caim, francamente, é um livro decadente, e acho que o deviam ter aconselhado a não o publicar.

Do resto da obra, o que é que acha?

É um autor raro, porque introduziu um estilo e lê-se com muito agrado. Aliava muito bem a objectividade da investigação histórica à ousadia do estilo. Há quem não aprecie, mas eu gosto de José Saramago.

E o Alcorão, já leu?

Li, claro.

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MensagemAssunto: "Com estas medidas de austeridade Portugal não vai pagar a dívida"   Dom Jan 02, 2011 5:36 pm

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"Com estas medidas de austeridade Portugal não vai pagar a dívida"

por JOÃO CÉU E SILVA
Hoje


A 24 horas de ser anunciada a concessão do Prémio México de Ciência e Tecnologia, o primeiro português e cientista social a recebê-lo analisa a situação nacional e a crise mundial provocada pela especulação dos mercados financeiros. Será o Presidente mexicano que, dia 14, lhe entregará o galardão pelo trabalho no espaço ibero-americano, semanas após lhe ter também sido concedida uma bolsa de 2,4 milhões de euros para desenvolver as suas ideias

Por que razão é que os portugueses não se revoltam perante a imposição destas medidas de austeridade tão violentas?

Reformularia a pergunta para "porque é que ainda não se revoltaram?", ou faz parecer que nunca se revoltarão. Basta lembrar que também pensávamos que não haveria mudança na sociedade portuguesa devido aos nossos brandos costumes, e houve o 25 de Abril.

Que foi uma revolta tirada a ferros!

Sim, que começou como uma revolta militar dos que tinham o poder e ficaram desafectos dele porque os tinha metido no pesadelo e na armadilha de uma guerra colonial que nunca se poderia vencer. E o povo respondeu de uma maneira criativa a esse processo.

Desta vez não se vislumbram capitães para liderar a contestação.

Neste momento, não. Em primeiro lugar, porque os portugueses ainda não se deram conta de todas as consequências das medidas que estão a ser tomadas. Que nem serão as medidas definitivas, porque enquanto não forem regulados os mercados financeiros quaisquer planos de austeridade vão ser seguidos por novos planos de austeridade, porque os mercados estão numa fase absolutamente insaciável. Em segundo lugar, ainda estamos numa fase do susto.

Por isso é que a reacção demora?

Após um discurso de austeridade, as pessoas começaram a ver os salários, as pensões e as participações nos medicamentos a ser cortados, mas este tratamento ainda não entrou tão profundamente nos bolsos quanto acontecerá no futuro. Sobretudo, ainda não entrou na cabeça das pessoas e elas não se deram conta de que a erosão é irreversível e não ficará por aqui.

Irreversível em que sentido?

De que o nível de vida a que se habituaram nas últimas duas ou três décadas vai deixar de existir. Os filhos, eventualmente, podem vir a retomá-lo, mas eles, certamente, estão num período de declínio do nível de vida e não vão recuperá- -lo nos próximos anos.

Mesmo com tantas promessas?

Por mais que os políticos digam que vai demorar cinco anos, os danos são muito mais profundos do que se pode imaginar agora e ainda vai levar tempo para se darem conta dos verdadeiros efeitos. A verdade é que Portugal passou 48 anos em ditadura e os hábitos democráticos expressos nos conflitos e contradições sociais não foram vividos tão intensamente como noutros países da Europa.

Tal como a Grécia ou a Itália?

A Grécia teve um período de ditadura entre 1967 e 1974, mas tem uma tradição de sociedade civil organizada, enquanto a Itália tem um sistema político relativamente desconectado das formas de organização da sociedade civil. Portugal perdeu nesse meio século o período em que as sociedades se organizaram para a convivência democrática que originou a actual Europa.

Mas conseguiram unir forças para derrotar o projecto de reformas do 1.º Governo de José Sócrates.

Os portugueses têm-se organizado para questões pontuais e sectoriais em que os interesses estão mais organizados. No caso dos professores, tal como na função pública, há uma forma de organização sindical bastante forte, mas é evidente que não reagem espontaneamente para grandes manifestações como vemos em França, onde não foram apenas os sindicalistas que se revoltam mas o cidadão comum, quando chegou à conclusão de que bastava.

Estranhou que tivéssemos sido o único país que realiza uma Cimeira da NATO sem um único conflito?

Não temos grande tradição de mobilização e de contestação social. Mesmo as greves gerais, ao contrário doutros países, não foram complementadas com grandes manifestações de rua, porque as centrais sindicais têm temor do fracasso. Isto é característico da sociedade portuguesa, mas nada diz que amanhã não seja diferente.

As grandes contestações às medidas de austeridade vieram de sectores inesperados: do presidente socialista do Governo dos Açores e dos magistrados. Porquê?

São formas diferentes de contestação e processos políticos distintos. Temos, por um lado, as acções sindicais, os movimentos e as organizações da sociedade que se associam aos sindicatos e o cidadão em geral. Por outro lado, temos os interesses organizados e, mais complicados, quando mete órgãos de soberania na contestação.

Quando os magistrados não aceitam o mesmo corte de grande parte dos portugueses, estamos perante uma defesa corporativa?

Nesse caso, sim. Mas as providências cautelares não se dirigem apenas aos salários dos magistrados.

Até agora, quem lidera a contestação é o poder judicial. É normal?

O que temos neste momento é uma iniciativa judicial que em democracia é saudável. Não está a ser feita por desobediência civil a greve de magistrados judiciais, mas através de um mecanismo judicial que visa confrontar estas medidas com a nossa própria Constituição.

Ao dizer que os portugueses ainda não se revoltaram é porque prevê que haja alguma convulsão?

É muito difícil fazer essa previsão. Aliás, penso que os sociólogos são muito bons a prever o passado e muito maus no que respeita ao futuro. Principalmente, em situações de grande turbulência como a que estamos a assistir. Aliás, podemos dizer que aquilo que é impensável hoje pode ser inevitável amanhã: que o euro acabe, por exemplo. Pode ser que daqui a um tempo passe de impensável a inevitável com uma fractura dentro do euro. Por outro lado, sabemos que não são as desigualdades sociais nem as formas de empobrecimento que automaticamente provocam contestação, ou os sistemas despóticos não tinham funcionado. Os sistemas mais autoritários e desiguais criam formas de resignação que tiram às pessoas a capacidade de autonomia para se revoltarem. Ficam com medo do patrão e do que lhes pode acontecer, ou seja, não é automático que o agravamento das condições económicas leve à contestação política.

Mesmo em democracia?

É evidente que as situações de conflito vão surgir em Portugal e em toda a Europa. É evidente que, quando se fala de contágio dos mercados, não se deve pensar que está apenas a esse nível mas que quando os portugueses vêem os espanhóis, os gregos ou os franceses a revoltar-se é natural que se questionem: "Afinal, por que razão é que nós não nos revoltamos perante uma situação que até é mais injusta?" É bom não esquecer que Portugal tinha em 2009 as contas muito mais equilibradas do que a Grécia ou a Irlanda.

Mas se vier um PEC IV?

O que é bem provável vir a acontecer porque os portugueses ainda não se deram conta de que estão numa situação em que a soberania dos Estados - não havendo uma regulação dos mercados financeiros - está sujeita aos abutres financeiros. Uma das coisas que me horroriza é dizer-se na comunicação social cobras e lagartos do Estado ou que a festa acabou e que Portugal é insustentável, enquanto ninguém é tão veemente no que respeita ao facto de os mercados financeiros poderem ganhar rios de dinheiro com a nossa crise e até se façam apostas para ver se a dívida portuguesa será paga e que se ganhe muito dinheiro na aposta. Isto é crime contra a humanidade!

Há anos dizia que o mundo pós- guerra tinha duas superpotências: Estados Unidos e agência Moody's. O que mudou foi deixarem de ser contra o Terceiro Mundo e virarem-se para a União Europeia?

Exactamente, essa minha previsão deu certo! Neste momento, estamos nas mãos das agências de notação e algo deve estar profundamente errado quando os juros da dívida de Espanha são iguais aos do Paquistão. Acho que estamos a entrar numa disjunção que pode provocar contestação e é provável que ocorra ao nível europeu em geral e, portanto, em Portugal.

Voltemos a prever. O que se segue?

Penso que nos próximos anos vamos estar perante esta opção: mercados sem fim ou democracia sem fim. Ou seja, os mercados vão regular tudo e assistiremos a um empobrecimento da grande maioria e ao enriquecimento absolutamente injusto de uns poucos.

A União Europeia não conseguirá responder aos mercados?

Essa é outra questão que nem os portugueses nem os europeus estão a ver bem. Porquê? Se para Portugal a Europa foi até agora um benefício líquido que, desde 1986, alavancou um desenvolvimento notável através dos fundos estruturais e de coesão que nos deram oportunidades que se pensavam que eram sustentáveis, o que estamos a verificar é que a Europa desse período não é a de agora. Mudou, sem que se tenha alterado institucionalmente situações como o aprofundamento. Por isso, é dominada por interesses egoísticos nacionais.

A solução da actual crise passa pela forte ajuda da União Europeia?

De uma coisa estou certo, a Grécia nunca vai poder pagar esta dívida à União Europeia se não houver uma reestruturação da dívida. Nem a Irlanda vai conseguir! Estes processos só resultam com um perdão de parte dessa dívida. Como se fez à Alemanha em 1950. As dívidas pagam-se com dinheiro, não é? De onde é que vem o dinheiro para o Estado? Dos impostos. De onde é que vem o dinheiro dos impostos? Do crescimento económico! Se não houver emprego e crescimento económico não encontro forma de a Grécia, a Irlanda, e de amanhã Portugal, a Espanha ou a Itália também pagarem. São os que estão na fila - Portugal, Espanha e Itália - e os mercados financeiros estão a apostar na bancarrota destes países porque vão ganhar muito dinheiro até que ela ocorra. Como é que é possível que os países funcionem nesta base quando se aposta na nossa falência e no lucro que ela dá?

Então, Portugal não será capaz de pagar a sua dívida?

Se estas medidas de austeridade de curto prazo não forem compensadas com as de médio prazo, que só podem vir da União Europeia, para poder repor o crescimento económico, Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda não poderão pagar a sua dívida porque entrarão numa fase de estagnação económica e ficarão sem recursos para pagar. Precisamos de medidas a médio prazo e de uma refundação da Europa com políticas conjuntas e solidárias, de modo a que a Europa se afirme como uma alternativa aos Estados Unidos e não permaneça totalmente subserviente da desregulação dos mercados.

Mesmo quando a economia dos Estados Unidos já não é tão forte?

Os mercados favorecem, acima de tudo, os Estados Unidos, e não se pode deixar de pensar que estavam preocupados com a estabilidade do euro. Os Estados Unidos não tinham interesse em que o euro fosse uma moeda estável e, portanto, o ataque especulativo à Zona Euro começou pelos países mais fracos. Como os dirigentes europeus, com grande miopia e desconhecimento histórico, aceitaram que esta lógica suicida avançasse, bipolarizou-se a periferia e o centro da Europa perante a crise. Só que o que acontece à periferia hoje aparecerá no centro amanhã.

O Presidente Obama defraudou a confiança europeia?

Penso que sim.

Não é o tal amigo europeu?

Não é, de modo nenhum. Aliás, Obama desilude a muitos outros níveis porque tem a concepção de que acima de tudo é preciso defender os Estados Unidos. Está numa lógica nacionalista e como o seu país está em crise, procura ganhar alguns pontos à Europa.

Houve boa aplicação dos fundos estruturais em Portugal?

Acho que não. Deveríamos tê-los utilizado de uma maneira muito diferente: numa aposta na educação que foi menos forte do que poderia ter sido. Temos, no entanto, feito uma boa aposta na ciência e na promoção do sistema científico nacional, apesar de não se ter feito a articulação da investigação científica com o desenvolvimento tecnológico. Para isso, falta-nos uma economia mais assente na grande inovação tecnológica, só que os lóbis ganharam e grande parte dos investimentos foram em exagero, mesmo se necessitássemos deles para auto-estradas.

Se Portugal não consegue liderar na agricultura e na indústria, como é que iria fazê-lo na revolução tecnológica ou do conhecimento?

A agricultura foi um péssimo negócio em que Portugal entrou. Tínhamos uma das agriculturas familiares mais fortes da Europa e foi destruída em meia dúzia de anos porque o modelo agrícola da Europa é de grande extensão e de grandes empresas agrícolas e industriais. A nossa produção familiar até era produtiva ao seu nível e produzia, por vezes, também para o mercado. Hoje, está-se a tentar recuperar na Europa a agricultura familiar e nós, que tínhamos o potencial de ser a reserva da Europa da agricultura orgânica, ficámos para trás. As coisas foram feitas em Portugal sob complexos históricos do colonialismo e da ditadura e, quando se deu a entrada na União Europeia, aceitámos as coisas de uma maneira totalmente acrítica. A negociação não foi tão boa quanto devia ser feita.

A culpa é só dos governos ou também dos próprios portugueses?

É muito difícil responder porque eu sou daqueles que pensam que o Estado e a sociedade não se opõem mas crescem organicamente. Os Estados que são fortes e as sociedades civis fortes - o caso da Suécia e dos países nórdicos - têm sociedades civis muito organizadas e autónomas a par de Estados democraticamente fortes. Portanto, de alguma maneira, o Estado é o espelho da sociedade e não o seu oposto. Também, por isso, muitas críticas que se fazem ao Estado deviam fazer-se também aos empresários que não estiveram à altura das circunstâncias e das oportunidades dadas.

Qual deveria ter sido a resposta?

Tivemos sempre uma burguesia muito dependente de mercados cativos - o das colónias, anteriormente - e mantivemo-los com as benesses dos fundos estruturais da Europa. E isso pode resultar da ineficiência do Estado e pode estar também ao nível dos cidadãos e da sua pequena motivação dentro da organização social. O que é estranho porque os portugueses motivam-se extraordinariamente quando emigram e são extraordinários produtores e empresários

Mas só em condições adversas?

Sempre disse que o nosso grande problema está nos empresários, que não estiveram à altura do risco e da capacidade de criar riqueza numa janela de oportunidade que tivemos e que praticamente se começou a esgotar no ano 2000. Foi a partir daí que começámos a derrapar e a deixar de nos aproximarmos da Europa. Desde então, temos vindo a distanciar-nos da média europeia e iremos continuar por esse caminho.

Nem com as medidas já tomadas se pode evitá-lo ?

Estes planos de austeridade podem acalmar os mercados - que são essa coisa mítica, mas que têm uma alma e vontade política por detrás desses falsos automatismos - e resolver a curto prazo o problema do défice orçamental, que é o problema de 2011. Mas não irão resolver a médio prazo porque nesse caso só temos uma solução: criar emprego e ter algum crescimento económico.

Que vai contra todas as medidas que o Governo está a tomar?

Neste momento, é essa a situação. A médio prazo, podemos vir a ter uma recessão, ainda por cima num conjunto europeu em que o nosso maior cliente é a Espanha, que, provavelmente, vai estar em situação muito semelhante. Precisaríamos de golpes de asa, de medidas europeias e também de políticas inovadoras por parte dos nossos líderes. Situações excepcionais exigem soluções também excepcionais.

Considera que este Governo já não conseguirá dar esse golpe de asa?

Nos governos europeus em geral criou-se uma ortodoxia que está a atravessar todos os líderes, sejam de esquerda ou de direita, que provoca uma certa exaustão em relação àquilo que é preciso fazer. Sabemos muito bem que, se neste momento queremos criar crescimento, é necessário ser mais tolerante com a inflação. Se calhar, o Estado pode ter de privatizar e até nacionalizar! Isto pode parecer um escândalo, mas se não houver a regulação dos mercados financeiros ou o Estado nacionaliza os bancos ou os bancos nacionalizam o Estado.

Que é o que está a verificar-se?

É isso que está a suceder, os bancos estão a nacionalizar o Estado ao fazerem o que querem, ao terem perdas como as que se observam. Como os bancos não podem falir, nem pagam IRC como as restantes empresas, é evidente que estão a nacionalizar o Estado português porque cometem todos os erros que querem e têm os lucros que se vê, para os quais os portugueses continuarão a contribuir.

Então, este Governo não será capaz de ter o golpe de asa que sugere?

Vejo com muita dificuldade que possa ocorrer. Penso que neste momento o Governo poderia aproveitar alguma transformação que ocorresse ao nível do Banco Central Europeu, onde há medidas urgentes que têm de ser tomadas. O Banco Central Europeu não pode continuar a ter o papel de emprestar aos bancos a um juro baixo e deixar que estes emprestem caro aos Estados. Nem podemos continuar a ter 10% do nosso PIB em offshores!

Será preciso um novo governo?

Creio que tem de haver medidas mas não acredito que, na situação em que vivemos, elas venham por iniciativa própria. Nem deste Governo nem, provavelmente, do que lhe suceder! Porque o que se vê num outro governo é que vão aprofundar-se medidas iguais. Será uma austeridade multiplicada.

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MensagemAssunto: "O eventual recurso ao FMI não pode deixar de ter consequências políticas"   Dom Jan 09, 2011 12:05 pm

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"O eventual recurso ao FMI não pode deixar de ter consequências políticas"

por João Marcelino
Hoje


Esta é a última entrevista de fundo que Pedro Passos Coelho concede até ao fim da campanha presidencial em curso. A partir de agora, só fará intervenções pontuais, e uma delas está marcada para Vila Real, ao lado de Cavaco Silva, num comício.

Percebe-se o cuidado. O presidente do PSD, que as sondagens vão insistentemente colocando como favorito a primeiro-ministro se umas eleições pudessem vir a ocorrer brevemente, está a gerir milimetricamente o discurso e não quer intrometer-se em demasia numa campanha que lhe não diz respeito. A estratégia é clara desde o primeiro dia e visa o poder executivo. Nesse âmbito, quer explicar como o PSD está preparado para assumir o poder, mas também quer deixar claro que não tem qualquer pressa. Ele e o seu partido estão aqui se os portugueses precisarem e se o Governo de José Sócrates falhar. Neste caso, "falhar" significa a entrada do FMI em Portugal. Nessa eventualidade, fica explícito que o PSD defenderá que o Governo tem de mudar, e num outro quadro parlamentar. Eleições, portanto.

Já disse que em 2011 o PSD tem de estar preparado para todas as eventualidades. Significa isso que está com pressa de chegar ao poder?

Nenhuma! A obrigação do PSD, como maior partido da oposição, é preparar-se para governar. É isso que o País espera que o principal partido da oposição faça. E o facto de há bastante tempo, infelizmente, o País estar confrontado com uma situação de grande dificuldade, apenas responsabiliza mais, também, essa função do principal partido da oposição. Nós estamos prontos para assumir responsabilidades se isso for necessário para o País, mas não temos pressa nenhuma.

Mas não se sente da parte do partido, face ao alento das sondagens, essa vontade de chegar rapidamente ao poder?

Não, não. Os partidos, como é natural, têm um programa e têm uma visão e um projecto para o País que só podem realizar de forma plena quando estão no Governo, e desse ponto de vista o objectivo dos partidos é ganharem as eleições e governarem, não é perderem as eleições e fazerem oposição. Mas o que aconteceu nas últimas eleições legislativas é que o PSD não ganhou as eleições, perdeu-as. Significa isso, portanto, que os seus militantes, os seus quadros políticos, estão empenhados em qualificar o PSD aos olhos dos portugueses, de modo que eles vejam no PSD uma alternativa de Governo. Essa alternativa acontecerá quando o País precisar dela.

Este, aparentemente, vai ser um ano muito difícil. Para...

Deixe-me, já agora, só dizer o seguinte: hoje, infelizmente, a maior parte das pessoas tem o realismo de perceber que os próximos anos vão ser anos de dificuldades, não vão ser anos em que os governos que assumam responsabilidades para futuro tenham uma herança fácil para poder fazer o bonito aos olhos dos portugueses. Portanto, não é com certeza a olhar para um caminho de maior facilidade que o PSD se prepara para governar. O PSD deve preparar-se para governar, sabendo que não vai ser fácil, que não vai poder distribuir grandes ambições, mas que é possível mudar o rumo que está a ser seguido no País e encontrar um futuro de maior esperança.

Uma pergunta muito concreta: se Portugal tivesse de recorrer à ajuda externa, isso significaria que teria de haver novo Governo, ou este Governo poderia continuar em funções depois de ter pedido uma ajuda externa ao FMI e recorrido aos fundos europeus?

Pelo menos, desde que fui eleito presidente do PSD, mas, julgo que é justo dizê-lo, também ainda antes com a Dr.ª Manuela Ferreira Leite, o PSD fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar uma situação dessas em Portugal. O que significa que, apesar de ter perdido as eleições e de estar na oposição, o PSD não se opôs ao Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), viabilizou o primeiro Orçamento do Estado de um Governo minoritário liderado pelo PS, acabou de viabilizar um segundo Orçamento do Estado, que impõe mais realismo na forma como as contas públicas devem ser geridas, e ainda acordou em Maio do ano passado um conjunto de alterações ao Programa de Estabi- lidade e Crescimento, que trouxe mais impostos e uma promessa de corte de despesa, que depois acabou por não se efectivar porque o Governo, realmente, não conseguiu concretizá-la. O que é que isto significa?

(Interrompendo) Depois de nos recordar o que já sabemos, responda à pergunta.

... O que é que isto significa? Significa que o PSD fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar que Portugal chegasse a uma situação de bancarrota ou de insolvência, em que precisasse de recorrer ao exterior, nomeadamente ao Fundo Monetário Internacional(FMI) e ao Fundo de Estabilização Europeia. E deu ao Governo todas as condições para que isso não acontecesse.

E se isso vier a acontecer?

Se isso vier a acontecer nesta altura, não tenho nenhuma dúvida: representará um falhanço político grande e grave do Governo.

Portanto, o PSD quererá um novo governo?

Aquilo que acontecerá é que o País não poderá deixar de seguir em frente, não poderemos deixar de adoptar as medidas que forem necessárias numa altura em que Portugal precisar de recorrer à ajuda externa, mas significa que iremos tirar conclusões políticas sobre o que nos conduziu a essa situação e à responsabilidade de quem liderou o País nesse caso.

E, portanto, o PSD apresentaria imediatamente uma moção de censura no Parlamento?

Não, não. Não vou...

Era possível, no actual quadro parlamentar, gerar uma solução governativa?

Deixe-me dizer-lhe: eu não vou fazer nesta altura nenhuma antecipação de cenários quanto ao que poderá vir a acontecer se as coisas correrem mal. Vamos pôr a questão noutros termos: espero que as coisas não corram mal e que não precisemos de recorrer à ajuda externa; é isso que prefiro que aconteça em Portugal. Até porque, julgo que as pessoas entendem isso bem; se precisarmos de recorrer à ajuda externa, ela será bem-vinda, é evidente - é porque precisamos mesmo dela. Mas significa, também, que aos olhos da maior parte da comunidade internacional Portugal terá falhado nos seus objectivos, e isso tem um custo reputacional pesado para o País. E significa que quem governar na sequência dessa fraca reputação terá mais dificuldades em governar do que sem essa situação ocorrer. Nós não temos nenhum interesse nessa situação.

Politicamente, se isso vier a acontecer, terá de ter consequências políticas?

Não pode deixar de ser! Pelo seguinte: se nós precisarmos de recorrer à ajuda externa, significa que a estratégia que estava a ser seguida, ou a ausência dela, falhou e conduziu o País a uma situação que era indesejável. Ora, quem conduz o País a uma situação dessa natureza não tem condições para poder, no dia a seguir, liderar a recuperação. E o País, precisando de passar à frente disso, terá de encontrar as saídas necessárias para poder encontrar um governo que consiga liderar essa recuperação.

E isso só pode fazer-se com novas eleições, ou pode ser feito no actual cenário do quadro parlamentar?

Julgo que numa entrevista que realizei, justamente com o Diário de Notícias, já há bastante tempo, disse uma coisa que mantenho hoje. No actual quadro parlamentar, não é possível fazer nenhum governo que não inclua o PS, que actualmente está no Governo. Significa que mudar de governo significa, primeiro, ouvir os portugueses. E só um governo escolhido novamente pelos portugueses terá força suficiente para liderar a recuperação do País;, não há outra alternativa. Agora, saber como é que isso se vai fazer, não vale a pena estarmos a perder tempo a antecipar cenários. No dia em que o País precisar de mudar de Governo, encontrará as formas adequadas de escolher um novo governo. Não tenho dúvida disso.

O Governo está a cumprir a parte do acordo que fez com o PSD para viabilizar o Orçamento?

Nesta altura, a expectativa que existe é de que o Governo execute o Orçamento que aprovou, de modo a atingir o objectivo dos 4,6% para o défice. O que significa voltar a ganhar a confiança externa em Portugal e ainda fazer a reavaliação das parcerias público-privadas e das concessões públicas, e criar uma entidade autónoma e independente do Governo que ajude a credibilizar a política orçamental e as contas públicas em Portugal. Esses dois grupos de trabalho, que no acordo que fizemos com o Governo estava previsto que fossem constituídos - um para proceder à reavaliação mesmo das parcerias público-privadas, o outro para propor ao Governo e ao Parlamento uma solução de uma entidade a criar -, foram finalmente constituídos, justamente no princípio desta semana.

E o que espera da actuação dessas duas entidades?

Espero que a missão de que foram incumbidas as pessoas que convidámos se concretize, isto é, que haja nos próximos seis meses uma reavaliação de todos os investimentos decididos, quer já tenham sido concretizados, quer estejam em fase de arranque. E isso é muito importante numa altura em que atingimos um endividamento recorde, face à perspectiva para os nossos credores, em particular de que o País tem o bom senso, naquilo que ainda vai a tempo de rever e travar face às novas condições financeiras e aos constrangimentos do financiamento da economia que enfrentamos. Tudo o que ainda se puder travar, e para que se possa de alguma forma encontrar alternativas úteis, o País deve fazê-lo. O que espero é que essa comissão, esse grupo de trabalho, possa nos próximos seis meses fazer essa reavaliação. E vamos esperar pelo resultado.

Quero fazer-lhe uma pergunta concreta neste domínio. Neste mesmo espaço, José Sócrates, há poucas semanas, deixou bastante claro que considera o TGV um investimento estratégico para o País. Qual é o entendimento que o PSD tem sobre este assunto, em função do acordo que fez para a viabilização do Orçamento?

Nós sabemos o que o primeiro-ministro e o Governo pensam do TGV e de outras obras e grandes investimentos que decidiram! E que, de resto, contribuíram em larga escala para que a percepção do exterior sobre Portugal se degradasse. Nós sabemos o que o Governo pensa sobre isso. E o País também sabe que o PSD não tem esse entendimento, tem outro. Por essa razão é que decidimos com o Governo criar uma comissão, um grupo de trabalho com autonomia e com afastamento, quer em relação ao Governo, quer em relação ao PSD, que tecnicamente pudesse fazer essa reavaliação, dado que politicamente temos perspectivas diferentes sobre o assunto. Agora, há duas coisas sobre as quais a visão política...

Portanto, não tem uma posição fechada sobre a questão do TGV?

A posição que temos sobre o TGV é conhecida!

Deve ser adiado?

Nesta altura, o TGV não deve ser realizado! Do nosso ponto de vista, um país que enfrenta a maior dívida externa - em percentagem do produto, uma das maiores do mundo - e que está a endividar-se, seguramente, à maior velocidade - pelo menos ao nível dos países mais ricos ao nível da OCDE -, não pode estar a comprometer o futuro com investimentos dessa grandeza. Mas, como lhe disse, aguardamos a decisão que sobre estas matérias esse grupo de trabalho vai realizar. E não quero, sobre isso, produzir nenhum condicionamento ao trabalho que o grupo vai fazer. Há duas coisas que sabemos. Em primeiro lugar, o financiamento externo é hoje muito mais difícil e muito mais caro do que era quando essas obras, ou esses projectos, foram decididos. E, portanto, se tivéssemos de os decidir nas circunstâncias, hoje, de grande restrição financeira, julgo que só alguém muito distante da realidade é que supõe que a decisão pudesse ser a mesma. A segunda coisa é que o conjunto das decisões que já foram sendo tomadas nestes anos todos comprometem a sustentabilidade das finanças públicas portuguesas. Portanto, uma coisa é estarmos a analisar cada um dos projectos, outra é saber que impacto para os próximos dez ou 15 anos vão ter todos os projectos que foram sendo aprovados fora do Orçamento do Estado. Quanto vão pesar em impostos aos portugueses nos orçamentos dos próximos dez ou 15 anos. E, hoje, esse peso é muito grande.

Para terminarmos esta parte económica: acredita que as medidas anunciadas chegarão para controlar a despesa pública, atingir o défice previsto e melhorar a relação com quem nos empresta o dinheiro lá fora?

O Governo comprometeu-se a fazer uma redução muito grande da despesa pública, e nós não colocaremos obstáculos às medidas que o Governo entender que são necessárias...

Adicionais?

Às medidas que o Governo, no Orçamento, se comprometeu a tomar para reduzir essa despesa. Isso não é o suficiente. No entanto, para resolver o problema do futuro do País, vamos ver se nos entendemos. Nós precisamos de voltar a crescer. Sem isso não vai haver mais emprego, não vai haver mais riqueza para distribuir, não vai haver hipótese de diluir muita da despesa social na riqueza que é criada...

Vai dizer que Portugal precisa de menos Estado para libertar a pressão sobre a economia?

Também precisa! Mas nós precisamos de pôr as nossas finanças públicas em ordem e de gastar de acordo com as nossas possibilidades, e, portanto, de gastar muito menos. Essa é a primeira condição, e o Estado é daqueles que mais gastam: gasta quase metade da riqueza que produzimos. É indispensável que o Governo, portanto, tenha um programa forte de redução desta despesa e não ande a fingir em 2011 como andou a fingir em 2010 que estava a cortar a despesa. É preciso cortá-la mesmo!

Cortá-la em que áreas?

Onde o Governo se comprometeu a cortar! Isso já está decidido no Orçamento do Estado. Agora, o problema não é esse. Nós podemos cumprir o Orçamento e, no entanto, ter um país pobre! Se quisermos voltar a ter emprego, precisamos de criar riqueza, e para criar riqueza precisamos, como dizia há pouco, de fazer reformas na raiz dos problemas. Sem reformar seriamente o Estado e sem libertar recursos para a economia privada, não vamos conseguir concretizar esta visão do País. Isso significa que o Governo, além de cumprir este Orçamento, tem de ter uma estratégia, tem de apresentar ao País uma estratégia de reforma estrutural da administração do Estado, mas também de várias das políticas públicas sem as quais, evidentemente, os cortes que vão ser feitos serão cortes cegos e terão consequências pesadas para futuro.

Tem-se acusado muito o PSD, nos últimos meses, de estar contra o Estado social, sobretudo na saúde e noutros domínios. Muito resumidamente, quer esclarecer a sua posição face ao Estado social e que dimensão é que ele deve ter?

Mas parece irónico, não é? Porque, realmente, houve quem se tivesse escandalizado muito por nós dizermos, no Verão do ano passado, que precisávamos de reformar o nosso modelo de Estado social para que ele seja sustentável e para que possa ser justo. E quando decidimos, penso eu com alguma coragem, avançar com ideias de reforma de políticas públicas na área da educação, da saúde, do emprego, praticamente acusaram-nos de querer destruir o Estado social. Mas repare que o actual Governo tem feito mais para pôr em causa o Estado social do que qualquer das medidas que nós, na altura, avançámos. Aquilo que se nota, de resto, é que não há uma estratégia de reforma desse Estado social. Veja o caso da saúde, que penso que é escandaloso: não há nenhum mês em que não seja divulgada uma nova lista de comparticipações em medicamentos que o Estado deixa de fazer; não há nenhum mês em que não paire a dúvida sobre qual o défice mais avolumado na área da saúde, que está reflectido em prazos cada vez mais elevados que os hospitais enfrentam para pagar aos seus fornecedores, o que significa que há serviços de saúde que são prestados aos cidadãos que podem vir a estar em causa se não houver uma reforma séria do financiamento. O Governo diz que não quer mexer no financiamento, mas acabou de apresentar uma decisão em que aumenta as taxas moderadoras! Não sabemos em que estudo se baseou, o que se espera do aumento dessas taxas moderadoras, se elas contribuem ou não para resolver o problema do financiamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS)...

O PSD tem uma estratégia clara em relação ao SNS e à dimensão que ele deve ter em Portugal?

Com certeza que sim, e não deixaremos de o apresentar! De resto, é impensável que um partido se proponha governar e não apresente ao País - em áreas fundamentais como são a justiça, a saúde, a educação, a reforma do Estado - o que pensa.

E aí, em todos esses campos, o PSD pretende agilizar o papel do Estado, mas não pretende pôr em causa aquilo que é conhecido como o Estado social?

Nós precisamos de ter coesão social. O PSD é um partido social-democrata, o que significa que...

(Interrompendo) Às vezes, a propósito da sua chegada ao poder [no partido], diz-se que se quer tornar mais liberal e menos social-democrata...

Não vejo incompatibilidade em ser-se social-democrata e defender-se a iniciativa privada, e em defender que o Estado não seja um peso para as empresas e para as pessoas. Antes pelo contrário! Veja a situação que temos hoje: o Estado pesa demais em termos financeiros, por isso é que muitas empresas vão fechar em Portugal este ano, infelizmente. É porque o perímetro público, administração directa e indirecta do Estado - estamos a pensar nos institutos públicos, nas empresas públicas, nas obras públicas que as empresas privadas estão a realizar com dinheiro privado avançado para o Estado -, tudo isto representa mais de um terço do endividamento das empresas privadas em Portugal. Significa que muitas empresas, pequenas e médias, sobretudo, vão fechar as portas porque não conseguem aceder a crédito, a financiamento, para a sua actividade. Porquê? Porque o Estado, as suas empresas públicas e os seus institutos públicos recorrem a muito do financiamento da riqueza que está disponível na sociedade. Ora isso, hoje, tem um peso muito negativo para a nossa economia e, portanto, para o emprego também.

Para terminarmos esta parte da entrevista, o Diário de Notícias começou a publicar esta semana um levantamento...

Mas deixe-me só concluir dizendo isto: nós precisamos de ter um Estado que seja inteligente e que seja eficaz, não necessariamente maior do que aquele que temos hoje, antes pelo contrário! Que tenha mais independência sobre os privados, que seja mais qualificado. Precisamos de qualificar a nossa administração pública, precisamos de garantir os serviços de qualidade nas políticas públicas, na saúde, na educação, na justiça! Agora precisamos de ter um modelo de de-senvolvimento que seja produtivo, orientado sobretudo para o comércio internacional e para a internacionalização da economia, liderado pela iniciativa privada e não pelo Estado. E isso significa uma orientação de política económica completamente distinta daquela que tem sido seguida nos últimos anos!

Volto à pergunta que estava a tentar fazer-lhe. O Diário de Notícias começou esta semana a publicar um dossier que visa fazer um levantamento do Estado e do peso que ele tem. Um dos dados que surgiram é que temos cerca de 14 mil organismos que dependem do Estado, que só 1700 apresentam contas e que o Tribunal de Contas só tem capacidade para vistoriar cerca de 417 desses organismos. Tinha noção dessa realidade?

Sim, e temos insistido muito no tema da reforma do Estado justamente por causa disso.

Não vê aqui culpas, tanto do PS como do PSD, do estado a que Portugal chegou?

Com certeza que sim. Disse-o antes de ser líder do PSD e mantenho-o hoje. Em matéria de Estado, ninguém aqui deve andar a atirar pedras a ninguém. Nem nos conduz a nenhum resultado interessante estar a saber agora se criámos mais institutos ou menos institutos. O País hoje tem um peso demasiado elevado de toda a área pública, temos institutos a mais, temos transparência a menos, e isso tem de mudar! Agora, é um facto que, nos últimos anos, sobretudo nos últimos 15 anos, esse peso mais que duplicou, é verdade. É uma constatação, e isso tem rostos e responsáveis.

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MensagemAssunto: "É insustentável o preço que pagamos pelo dinheiro"   Dom Jan 16, 2011 11:29 pm

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"É insustentável o preço que pagamos pelo dinheiro"

por JOÃO MARCELINO
Hoje


Gente Que Conta - Entrevista com João Duque. "Eu, se tivesse votado no PS, tenho dúvidas de que tivesse dado o mandato de venda do País a alguns países com que agora nós procuramos ter relações de financiamento. Não estava previsto em nenhum programa de acção eleitoral ou, mais tarde, no programa do Governo a possibilidade de empenhar a palavra política de Portugal perante a China ou qualquer outro país! (...) Não sei se faz sentido quando há, ou pode haver, uma alternativa, que é o recurso ao apoio do Fundo Europeu, ao mecanismo de estabilização financeira. Para mim, há [alternativa]! E até é mais entendível quando nós fazemos parte de uma união de países da Europa e estamos umbilicalmente ligados a essa Europa por uma moeda comum".

Para João Duque, 50 anos, professor catedrático de Economia, presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), cidadão conhecido pela sua intervenção nos media, a previsão feita há alguns meses continua válida: Portugal vai ter necessidade de recorrer a ajuda externa até final do primeiro trimestre deste ano. Os juros que estamos a pagar pela colocação da nossa dívida pública não são suportáveis durante muito mais tempo e estão a atrofiar a economia nacional. O País chegou a um ponto em que já não basta apresentar bons resultados de execução orçamental. Isso é uma condição imprescindível, mas já não dependemos de nós próprios. Cometemos demasiados erros nos últimos anos e os próximos vão ser muito duros. Agora, na sua opinião, quanto mais rápida for a adaptação à realidade... melhor.

Esta semana houve a primeira colocação de dívida de 2011 e há aqui duas visões muito distintas: o primeiro-ministro, José Sócrates, fala num grande êxito e, lá fora, Paul Krugman, Nobel da Economia, diz que pagar taxas de juro de 6,7% é pouco menos que ruinoso. Qual a verdade?

Se calhar, a verdade está um bocadinho dos dois lados, isto é, houve sucesso, no meu entendimento, na colocação, uma vez que se conseguiu mesmo colocar aquilo que se pretendia. É um insucesso pelo preço. Aliás, estou de acordo que mantendo-se esta relação de diferença entre o custo do dinheiro para a Alemanha e para os restantes países da Europa, e para Portugal, a situação é insustentável. Não só porque o nível de endividamento é tão elevado que leva a pagar juros que nos tiram riqueza, que esvaem o País, nomeadamente ao nível do Orçamento. Não podemos manter esta trajectória, que também inibe o investimento em Portugal. Basta pensar que um investimento que promova um rendimento de 6% de rentabilidade na Alemanha é um investimento que pode realizar-se mesmo do ponto de vista público, porque o custo de capital para eles é muitíssimo menor, anda à volta dos 3% a dez anos. Isso é um investimento que gera riqueza. Em Portugal é um investimento que só gera empobrecimento.

Isso é culpa nossa. Como é que se ultrapassa este momento?

Existem várias soluções. Uma delas é, de facto, contermos rapidamente o diferencial entre as receitas e as despesas do Estado.

Sermos mais realistas no nosso modo de vida?

Sim. Adequarmos as despesas àquilo que é a nossa capacidade de geração de receita. Porque podemos sempre também aumentar a receita do Estado aumentando os impostos, só que isso depois acaba por impossibilitar as famílias e as empresas de sobreviver. Com uma carga fiscal com o nível que já temos, das mais elevadas da Europa, com o nível de serviço de satisfação pública, pelo serviço prestado, não vejo muito espaço para continuarmos a aumentar a receita pública. Portanto, primeiro ponto: equilibrar a despesa com a receita do Estado tão rapidamente quanto possível...

... e tão rapidamente quanto possível é um prazo?...

O ideal era um ano ou dois!

Com o financiamento a este preço, esta é uma situação insustentável durante quanto mais tempo?

Se o diferencial se prolonga muito tempo, muitos meses, leva a que o investimento seja impraticável em Portugal, porque o nível basal do custo do capital para um país é o nível da sua República. Veja o que é que uma empresa, que vai pedir dinheiro emprestado em cima de um nível de base de seis ou sete por cento... O que é que vai acontecer às empresas? Vão buscar dinheiro a 12%, 13%, 14%. Isto leva a que os projectos de investimento sejam absolutamente inconcretizáveis em Portugal. Isto aguenta-se por um pico de curto prazo, não se aguenta por um ano ou dois.

Pode aguentar-se durante quanto mais tempo? No final do ano passado previa a intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI), associado ao nosso recurso ao Fundo Europeu, aí para finais de Fevereiro, princípios de Março.

Mantenho por aí, porque não estou a ver grande flexibilidade. Veja só o que nós sofremos esta semana com a colocação de dívida!

E precisamos de pedir 15 mil milhões...

Durante todo o ano, vamos ter necessidades de financiamento de 46 mil milhões, porque há muitas emissões de bilhetes do Tesouro que se vencem; vamos ter de arranjar dinheiro para pagar aquelas; vamos ter ainda em cima disso as obrigações do Tesouro; vamos ter em cima disso outros instrumentos de dívida que o Estado deve e que é normal que as pessoas resgatem, nomeadamente certificados de Tesouro, certificados de aforro, etc. E ainda temos de alimentar o défice, que são dez mil e quinhentos milhões. Quarenta e seis mil milhões divididos em tranches de mil, mil e picos, são 46!

É viver semana a semana...

Exactamente, isto é, todas as semanas com o credo na boca! É insuportável a probabilidade de Portugal passar incólume, sem nunca ter um acidente grave no meio de 46 semanas! Eu perguntava: porque é que chamaram Dia D à passada quarta-feira? Eu chamava-lhe o Dia A, porque vamos chegar ao Z e vamos voltar ao AA, ao AB e por aí fora. Dá duas vezes a volta ao abecedário, com o credo na boca! A probabilidade de haver um pequeno descontrolo é elevadíssima, e no final do primeiro trimestre, aí por Março, quando sair a execução orçamental...

Esse é que é o momento essencial?

Esse, para mim, é o momento crítico, mas se calhar nem o mercado nos dá espaço a chegarmos lá se continuarmos com pico de crises de liquidez !

E o facto de eventualmente estarmos a cumprir, no final desse primeiro trimestre, 100% da execução orçamental?

Isso não dá garantia!

Não dá garantia?

Não! No meu entendimento o que dá é possibilidade. Temos de fazer isso para tentar evitar o sufoco e ver se o mercado nos alimenta, mas não nos dá garantia. Agora, uma coisa é certa, se não cumprirmos nem aquilo que prometemos, aí não tenho dúvidas nenhumas de que vamos necessitar de ajuda.

Tem havido um grande envolvimento político por trás desta questão de financiamento e o Governo português tem feito contactos com alguns países. Daniel Bessa dizia há poucos dias que também era importante saber quais eram as entidades que estavam por trás deste nosso financiamento e quem é que estava a comprar a nossa dívida. Concorda?

Do ponto de vista político, sim. Eu, se tivesse votado no PS, tenho dúvidas de que tivesse dado o mandato de venda do País a alguns países com que agora nós procuramos ter relações de financiamento. Não estava previsto em nenhum programa de acção eleitoral ou, mais tarde, no programa do Governo a possibilidade de empenhar a palavra política de Portugal perante a China ou qualquer outro país!

Está a falar da Líbia, da Venezuela?...

Sim...

Mas aí o pragmatismo político do primeiro-ministro não faz sentido na actual conjuntura mundial?

Não sei se não faz sentido quando há, ou pode haver, uma alternativa, que é o recurso ao apoio do Fundo Europeu, ao mecanismo europeu de estabilização financeira. Para mim, há! E até é mais entendível quando fazemos parte de uma união de países da Europa e estamos umbilicalmente ligados a essa Europa por uma moeda comum. Portanto, procurar escapatórias fora é pragmático, mas não sei se existe esse mandato, particularmente quando nós não conhecemos as condições contratuais.

Também aí é preciso saber qual é o preço que temos a pagar?

Exactamente, e qual é a origem! Eu não ficava descansado se em minha casa aparecessem todos os dias molhos de notas de 50 euros, porque eu perguntaria à minha mulher ou às minhas filhas: "De onde é que vem este dinheiro?!"

No caso da China, o Diário de Notícias publicava esta semana um trabalho sobre essa predisposição do Governo chinês de nos ajudar, dizendo que nós para eles temos um interesse estratégico ligado não só à União Europeia como à nossa relação com África. Não é normal que o País faça valer essa sua posição nesta fase difícil?

É, mas seria normal também discutir isso antes...

Das eleições?

... das eleições, claro! Porque é para isso que servem os mandatos!

Teodora Cardoso, administradora do Banco de Portugal, veio dizer que Portugal precisa de ajuda a curto prazo e que seria mais fácil controlar a situação das contas públicas com ajuda externa. Não é um pouco desestabilizador vindo estas afirmações de dentro do próprio Banco de Portugal?

É muito forte, é uma mensagem muito forte que deve ser entendida exactamente por aquilo que vale. Alguém que, tendo uma posição tão importante no Banco de Portugal, está a lançar uma mensagem de até algum conforto ao Governo e a dizer-lhe: "Este é o caminho, parece-nos que este é o caminho." O apoio tem um benefício extraordinário, que é o deixar descansar o Governo daquela preocupação de andar com o credo na boca todas as semanas.

Não se devia ter feito a diabolização do FMI e deveríamos ter tido uma atitude proactiva na procura de auxílio externo?

Eu antecipo porque é que será mau a entrada do FMI, porque o FMI, quando entra, entra em situações desesperadas, que levam a medidas desesperadas que não são racionais, que não são lógicas e que não são as melhores.

Mas se o FMI entrasse neste momento em Portugal seria defrontado com condições muito parecidas com as da Grécia e com as da Irlanda? Comparar-nos com a Grécia não é um exagero?

Para mim, é um exagero. Neste momento, o mercado, aliás, o custo da dívida portuguesa não é o mesmo que o da grega. Mas também acho que nós não fizemos o balanço de todas as contas, nomeadamente de todas as dívidas, e não explicitámos tudo isso em dívida titulada. Há muita coisa de fora e é conhecida: a dívida das PPP, as dívidas das Estradas de Portugal, as dívidas das empresas de transporte, etc.

Tem um cálculo de quanto é que poderá ser?

Não. Sigo o dos colegas que fizeram as contas, que aponta para valores muito superiores àquilo que são os valores titulados!

Titulados são 91% do PIB.

Sim, sensivelmente 90% do PIB. E depois, com as não tituladas, temos de meter em cima pelo menos 30%.

120% garantidos?

Sim, 120% garantidos! O problema, para mim, da entrada do FMI é a possibilidade de um conjunto de técnicos ter imposições de cortes que não dão qualquer hipótese de manobra, para se fazer a selecção. Mas o Governo também tomou essa atitude recente quando mandou cortar indiscriminadamente, de acordo com uma tabela, os vencimentos de uma série de funcionários públicos e de pessoas que estão enquadradas dentro das empresas do Estado, sem salvaguardar qualquer tipo de política discriminatória. Não discriminar é não fazer gestão!

Como professor de Economia, quando é que viu que Portugal estava a resvalar para este buraco?

Há três anos já era óbvio! Comecei a ver antes, mas também não tinha grande expressão pública. E tenho alguns escritos que também as pessoas não ouviam, não ligavam. Os últimos cinco anos são dramáticos.

Não distingue um período até 2009 e depois de 2009, depois da crise imobiliária?

2009 acho que foi um ano péssimo, 2008 também porque já se começou a gerir para as eleições e não a gerir para o equilíbrio do País. Aliás, o primeiro mandato de José Sócrates divide-se de uma forma muito clara entre a primeira metade e a segunda. Na primeira tentou ser reformista e atacar muitos problemas, e até fazer coisas muito saudáveis do ponto de vista económico. Depois há uma inversão total! É claro que na altura já se cavava o problema do endividamento e foi sempre um problema que se meteu debaixo do tapete! A campanha eleitoral é escandalosa por aquilo que se tenta encobrir! Em Julho de 2009 já tínhamos consumido 75% do acréscimo da dívida que estava autorizada pela Assembleia da República. Em Julho! Estava-se mesmo a ver que nos outros cinco meses não era possível viver com mais um acréscimo de dívida de 2500 milhões de euros! Claro que acabaram as eleições e o Governo vai à Assembleia da República pedir uma autorização para aumentar o saldo de dez mil milhões para 15 mil milhões, um aumento de 50%, porque senão não tinha dinheiro para pagar aos funcionários públicos e as pensões de reforma. E isso foi aprovado por toda a Assembleia. Custou-me muito ver aqueles que durante a campanha também tinham feito muitos avisos e alertas à situação e depois acabaram por claudicar.

Há pouco falava nos benefícios que uma eventual ajuda externa pode trazer para o Governo. Acha que era possível Portugal recorrer a essa e não mudar o Governo?

É possível se isso for negociado com os outros partidos parlamentares. Talvez a postura do primeiro-ministro e do Governo não seja de grande negociação à partida, mas, se negociar a entrada de terceiros, com certeza que haverá condições para se manter o Governo e fazer negociação. Mas isso exigia uma postura negocial muito diferente. Mas fiquei admirado com aquilo que se conseguiu, nomeadamente com o PEC III e com o PEC II.Não estava até à espera de que se conseguisse chegar a algum entendimento.

Diz isso por causa do carácter de José Sócrates?

Não, pela postura que tem havido! Tem havido uma trajectória, e as trajectórias dão conhecimento sobre aquilo que são as pessoas. E o seu passado não era de negociação. E não foi na entrada do [actual] Governo, na constituição do Governo. Alguém verdadeiramente empenhado em salvar Portugal teria, pelo menos, negociado um Governo com alguma base parlamentar de apoio, de suporte, logo à nascença.

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MensagemAssunto: "Há risco de Cavaco dissolver imediatamente a Assembleia"   Seg Jan 17, 2011 5:30 pm

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"Há risco de Cavaco dissolver imediatamente a Assembleia"

por DAVID DINIS
Hoje


Corrupção e regionalização são os temas centrais da campanha do deputado do PS que resolveu avançar contra a escolha do seu partido, para assim conquistar eleitorado ao centro, como defende. Mas é em Cavaco Silva que este médico centra os seus ataques.

Um presidente da República não apoiado pelo seu partido mudava alguma coisa?

Acho que não. Se o candidato fosse como interpreto a função de presidente da República, o facto de ser eleito sem o apoio do partido era indiferente. Demonstro isso bem com o meu exercício como presidente de câmara. Sempre fui eleito pelo PS, mas a partir do dia em que fui eleito deixei de ter partido - e tratava por igual as juntas de freguesia de quatro partidos diferentes. Fi-lo com tal isenção e cumplicidade que agora, um ano depois de deixar a câmara, me apoiaram a angariar as assinaturas para a candidatura. E tenho plena consciência de nunca ter exercido pressões ilegítimas sobre eles.

O que faria de diferente?

O presidente da República tem poderes suficientes para se constituir como um exemplo para o País. Um exemplo de comportamento isento e leal com os órgãos de soberania e os cidadãos, de magistratura de influência sobre os órgãos de soberania, não só sobre o Governo e a Assembleia mas também sobre os tribunais - porque me preocupa muito o estado da Justiça.

E como é que pode fazê-lo?

Por pressão, por diálogo, por chamar a atenção sistemática sobre as coisas, até por uma acção pedagógica sobre os cidadãos. Por exemplo, penso que a corrupção e o clientelismo estão infiltrados na mentalidade portuguesa a ponto de serem tolerados. E acho que essa pedagogia do presidente é fundamental para mudar essa mentalidade dos portugueses, que toleram essas coisas todas.

Tem tido algum apoio, logístico, financeiro, por parte do PS?

Absolutamente nenhum.

E com José Sócrates, tem falado?

Não, desde a última vez que nos encontrámos aqui no Parlamento.

E quando ele soube da sua candidatura, houve conversas?

Não, por acaso não. Tivemos um encontro aqui na Assembleia ainda eu estava na fase de ponderar.

E ele incentivou-o?

Não, não. Ele conhece-me bastante bem para saber que eu me conduzo pela minha cabeça.

Depois do debate com Cavaco Silva, disse que várias pessoas dentro e fora do PS lhe deram os parabéns por ter dito o que nem Alegre disse ao Presidente...

Disse que pessoas do PSD, do PS e dirigentes do PS me tinham felicitado por ter tido a coragem de dizer a Cavaco Silva algumas coisas que ninguém, nem dentro do partido, tinha tido a coragem de dizer!

Tem então feito um favor ao PS?

Não estou a pensar em termos de partido quando faço esta candidatura. É importante alertar os portugueses para o que é a criação de um mito à volta de Cavaco Silva...

Acha que Cavaco é um mito?

Acho que é uma construção feita durante muitos anos e que não corresponde à realidade. E eu apresentei provas concretas, coisas que se passaram comigo...

Sobre o caso do Dia de Portugal em Viana do Castelo, organizado por Belém. Porque não fez a denúncia antes, enquanto autarca?

Não era útil.

Porquê?

Que utilidade tem desprestigiar o Presidente em exercício? Que utilidade para o País? Fiz isto agora, quando se escolhe um novo presidente e em que um candidato se apresenta no seu manifesto com auto-elogios sucessivos, sobre a sua isenção, competência, conhecimento dos dossiês. E isso sei que não é verdade.

O que está por trás desse mito?


Está o homem que eu denunciei. E que tem estes comportamentos pouco corajosos e abstencionistas quando se trata de defender o que é o seu projecto político pessoal. Ele durante este ano absteve-se de intervir para tentar que houvesse mais condições de governabilidade para o Executivo, pensando apenas na sua reeleição. Não é que não pensasse que esta ingovernabilidade era má para o País - porque ele já pensou isso quando foi com Santana Lopes. Aí não teve pejo nenhum em escrever um artigo falando da má moeda e da boa moeda, confortando a decisão de Jorge Sampaio em dissolver a Assembleia.

E fez isso porque...?

Porque achava que aquele Governo não estava a governar bem. E, se nos recordarmos, as condições de governabilidade não eram tão más como foram este ano. Mas agora ele não tinha de empurrar alguém para decidir - tinha de ser ele a decidir. E não decidiu.

E com isso ajudou o Governo?

E com isso prejudicou o País. Não estou a dizer que ajudou o Governo - acho que governar nas condições em que este Governo governou este ano não é ajuda para ninguém.

Sócrates devia ter-se demitido?

Não, não. O Governo tinha sido eleito e tinha de tentar governar até ao fim. Acho é que da parte do Presidente devia ter havido uma pressão sobre o Governo e sobre as oposições para que se criassem as condições de governabilidade. A eventual dissolução da Assembleia seria uma crítica mais às oposições do que ao Governo. Porque criaram todas as condições para que o Governo não tivesse condições de estabilidade.

Pegando no seu argumento, há o risco de Cavaco, sendo reeleito, dissolver imediatamente?

Há esse risco!

Dissolvendo a Assembleia?

Sim. Tal como haverá se eu for eleito. Entendo que, se não houver condições de governabilidade e de estabilidade para credibilizar a acção governamental, perante os portugueses, mas principalmente perante os financiadores e credores externos, deve-se dissolver e criar nova maioria.

Porque não o convence a candidatura de Manuel Alegre?

Eu disse-o na reunião de José Sócrates com o grupo parlamentar: porque a candidatura do PS devia ser uma candidatura com hipóteses de vencer as eleições. Porque tínhamos pela primeira vez um presidente da República que no final do primeiro mandato estava fragilizado. E o PS tinha a obrigação de apresentar um candidato que fosse de largo espectro, para apanhar todo o eleitorado, incluindo o do centro - que é fundamental para ganhar eleições.

E que resposta teve?

... e a candidatura de Manuel Alegre, ao ser capturada, apoiada pelo Bloco de Esquerda, perdeu a possibilidade de obter o apoio do eleitorado do centro. Essa candidatura era, desde o início, uma candidatura com poucas possibilidades de vencer - embora ainda possa fazê-lo numa segunda volta, se houver quem, como eu, conquiste esse eleitorado do centro.

Ou seja, acredita ainda numa segunda volta?

Acredito que pode haver. E estou disponível para apoiar o candidato que se opuser a Cavaco Silva nessa segunda volta. Posso ser eu.

Vê o PS mobilizado?

Já vi menos. Já está mais mobilizado do que esteve há mês e meio.

Tem tido um discurso muito centrado na corrupção e regionalização. Tendo acusado Cavaco de ter sido cúmplice desse clientelismo e corrupção que diz 'larvar' no País, considera Sócrates igualmente cúmplice?

Todos os responsáveis políticos - especialmente em mais alto nível - são mais responsáveis. Mas todos os cidadãos são responsáveis, porque toleram a pequena corrupção, o favorecimento...

Sobre a regionalização, a região- -piloto proposta pelo PSD convence-o?

Vivemos numa inconstitucionalidade por omissão, e o Presidente é responsável por isso. Eu faço disto a minha bandeira, porque tenho a consciência de que a existência de um patamar intermédio na administração é fundamental para libertar a criatividade e o dinamismo dos agentes culturais e sociais e para aproveitar e coordenar os investimentos públicos.

Não me respondeu à região-piloto.

Sou contra, seria mais uma manifestação de autoritarismo da administração central. Seria ela a dizer que era esta ou aquela região.

Os debates televisivos mudaram alguma coisa nesta campanha?

Eu que era um candidato conhecido apenas em Viana do Castelo e zonas limítrofes sou agora conhecido em muitos pontos do País.

Responsabiliza Cavaco Silva pelo que aconteceu com o BPN?

Não. Não sou tribunal nem tenho conhecimento tão aprofundado dos dossiês...

Então de que o acusa nesse caso?

De tolerar a convivência com alguém que tinha responsabilidades, de muitos dos seus ex-governantes estarem envolvidos nisso e de um deles ser conselheiro de Estado. E além disso ele próprio ter acções no BPN - de forma que eu, por exemplo, que sou médico e não jogo na bolsa, não sei como se tem acções que não estão na bolsa, nem sei como se tem lucro de 140% com essa facilidade toda. Eu pensaria que seria um negócio ilícito - e parece que os tribunais estão a dar- -me razão.

Ilícito, de Oliveira Costa e outros no BPN. Cavaco devia ter melhor conhecimento do que se passava no banco?

... Do que eu! De certeza! Ele é economista, sabe muito de economia, passa a vida a dizer que é fundamental uma pessoa como ele, com o seu conhecimento para ser presidente. Apesar disso, quando se fala da nacionalização do BPN, diz "fiz com muitas dúvidas, mas o Governo e o Banco de Portugal disseram que era preciso!".

E que podia Cavaco ter feito?

Não estou a dizer que podia, estou a demonstrar a contradição de um homem que se diz sabedor na sua área profissional, mas que quando se lhe põe o caso concreto da nacionalização diz que fez o que o Banco de Portugal e o Governo lhe disseram - até por escrito.

O que espera de 2011?

Espero um ano muito difícil. Um ano que vai ser a consequência de tudo o que temos feito desde que aderimos à Comunidade Europeia.

Para si, o mal vem de 1986?

Vem de termos aproveitado mal os apoios que tivemos da Comunida-de Europeia e os benefícios que tivemos da integração - o dinheiro para a formação profissional, fazendo apressadamente obras e investimentos que depois tiveram de ser corrigidos... Todos os investimentos que foram feitos sem haver uma estratégia a prazo, estamos a sofrer as consequências.

É uma crítica ao PS e ao PSD?

É verdade.

As pessoas que votaram também erraram?

Não, as pessoas votaram segundo a informação que tinham e pelas ilusões que lhes criaram.

Se tivermos o FMI em Portugal, enquanto presidente vetaria alguma das medidas sugeridas?

Não se pode falar sem saber que propostas são.

Mas não aprovaria de cruz?

Nunca aprovaria de cruz, nem o que viesse do FMI.

Pedro Passos Coelho parece-lhe pronto para governar?

(longo silêncio) Não conheço suficientemente. Parece-me que não tem grande experiência de administração pública, e penso que isso é fundamental para o exercício de um cargo de tanta responsabilidade. Mas a experiência da administração também se ganha. O que acho é que a equipa dele não é suficientemente apta para exercer o mandato, como se verificou nas propostas que fez na revisão constitucional, onde teve de recuar, e que revelam alguma sofreguidão pelo exercício do poder.

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MensagemAssunto: "Entre Cavaco e Alegre não há alternativa"   Ter Jan 18, 2011 4:30 pm

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"Entre Cavaco e Alegre não há alternativa"

por DAVID DINIS
Hoje


Contra a bipolarização, o candidato à Presidência da República apoiado pelo PCP quer evitar o voto útil de esquerda em Manuel Alegre. Por isso, critica o candidato que junta PS e Bloco, quase tanto como ataca Cavaco Silva com o caso BPN.

O que é que mudava com um Presidente da República militante do PCP?

Se o povo português entender eleger-me, exercerei o mandato com um quadro que é o cumprimento da Constituição da República, como elemento de mudança essencial que é necessária no país.

Teria vetado mais diplomas do que Cavaco Silva vetou?

É necessário posicionar-me sobretudo para o futuro, porque estas eleições realizam-se num momento muito difícil. O que determina a minha opção são alguns princípios essenciais para responder à situação de desastre.

Que princípios são esses?

Primeiro, defesa dos interesses nacionais a todos os níveis, no quadro de intervenção na União Europeia e no espaço internacional. Isto implica uma conduta do PR oposta àquela que tem sido exercida por Cavaco Silva.

O PR não tem defendido os interesses nacionais?

Não tem defendido os interesses nacionais, tem-se inserido numa estratégia que vem de há muitos anos a esta parte - e que vem do tempo em que foi primeiro-ministro - e que continuou durante estes cinco anos de mandato, de abdicação dos interesses nacionais. Um elemento que o identifica é a forma como se assumiu como voz dos especuladores, em vez de ser a voz de Portugal contra a especulação. Teria uma intervenção oposta àquela que tem caracterizado a acção de Cavaco Silva em convergência com o pior do Governo do PS. E se formos ver, aí temos que não há um decreto do Governo que tenha sido vetado pelo PR. E relativamente às leis saídas da Assembleia da República, não há praticamente vetos a não ser em questões que têm a ver com costumes/questões morais e com...

Como explica?

Há uma convergência essencial ao longo destes anos entre o presidente Cavaco Silva e o Governo do PS naquilo que de pior têm em termos da estratégia económica e social que tem empurrado o País para o abismo.

Como define o Orçamento do Estado para 2011?

Passou pouco tempo desde a sua aprovação, mas hoje é claro já que não é um OE para responder aos problemas nacionais mas que os vai agravar. Como é que ficamos no final de 2011, se este OE for para diante? Já estão a invocar a questão do FMI, que é uma outra etapa, sempre decepando aquilo que são os recursos nacionais e as possibilidades de progresso do País! Ora, entendo que o papel do PR que vai ser eleito no dia 23 de Janeiro, ou na segunda volta que resultar da primeira volta de dia 23 de Janeiro, é um papel essencial!

Se fosse PR, travaria as medidas do FMI para Portugal?

Se o povo português entender eleger-me PR, sinalizo com todos os meus poderes a necessidade de uma mudança de política, que é oposta aquela, nos termos económicos e sociais essenciais, à que tem sido realizada por este Governo com o acordo do PSD e do PR. E que significa também, esta política que tem sido praticada, é a política do FMI, oposta àquilo que é necessário. Nessas circunstâncias, eu usarei todos os poderes para sinalizar um caminho de mudança. Os poderes do PR não são tão pequenos como isso!

Não são pequenos, são claros.

Sim, limitados, mas grandes!

Delimitados.

Delimitados, mas a palavra "delimitado" pode dar a ideia de reduzidos, não são. São amplos. De- fendo que não é necessário mais poderes para o PR, os poderes que estão na Constituição são suficientes. A questão que se coloca é como é que eles são usados. Cavaco Silva coordenou, apadrinhou este entendimento entre o PS e o PSD para o OE em torno de todas estas medidas de agravamento das injustiças, da recessão económica...

Não era fundamental haver OE?

Era fundamental que não tivesse sido este. Era muito útil que fosse outro, com um sentido diferente.

E o que faria não pode obrigar o Governo a alterar um OE?

Cavaco Silva interveio favorecendo o entendimento entre PS e PSD em torno de aspectos negativos. Eu interviria num quadro semelhante para influenciar um acordo num sentido oposto.

Conseguiria promover um acordo com todas as forças da esquerda, incluindo o Bloco?

Não podemos estar a fazer hipóteses hipotéticas. Teria uma intervenção para dar resposta aos problemas nacionais, facilitando entendimentos, medidas e opções. Que é uma prática política oposta àquela que tem tido Cavaco Silva. Mas dou outro exemplo: Diz-se que o PR não tem possibilidades de intervenção e, até agora, circunstancialmente teve em relação ao ensino. É um exemplo, pode haver intervenção! No caso do BPN, o PR associou-se ao Governo do PS num processo que é um dos escândalos maiores que está a cair sobre o nosso País! Era necessário ter uma posição oposta àquela, defendendo o interesse nacional!

Que posição devia ter tido?

A posição do PR devia ter sido, na salvaguarda do interesse nacional, não acompanhar uma iniciativa de chamar à responsabilidade pública, isto é, a todos nós, a cobertura dos prejuízos imensos de uma fraude. Este caso do BPN, pela fraude, pelo processo que se verificou, pela forma como o poder político, Governo, maioria da Assembleia e presidente da República se pronunciaram, é um dos maiores escândalos da vida política portuguesa.

Acha que a culpa tem rosto?

Há rostos claros. Houve uma comissão de inquérito, na Assembleia da República, e esses dados estão divulgados. Há processos judiciais em curso que permitirão, certamente, espero eu, ir ao fundo ainda de mais questões. Mas é hoje claro que há responsáveis: Oliveira e Costa, ex-colaborador no governo de Cavaco Silva, financiador da sua campanha há cinco anos! O candidato Cavaco Silva veio dizer, depois do debate que teve comigo na televisão, que há dez anos, ou quinze anos, tinha saído do governo e que não tinha nada a ver. Não, há cinco anos foi financiador da sua campanha! Também veio dizer que quando decidiu foi na base da informação do Banco de Portugal e do Governo mas um conselheiro de Estado nomeado por ele, em funções, estava por dentro de todo o processo e certamente Cavaco Silva conheceria esses elementos. Não há responsabilidades do presidente Cavaco? Não há responsabilidades do Governo, não há responsabilidade do Oliveira e Costa, não há responsabilidade daqueles que provocaram essa fraude e que decidiram erradamente?

Não é uma responsabilidade judicial? Ou é política também?

Há aqui, primeiro, uma responsabilidade dos próprios, que responsabiliza os próprios. E não é matéria judicial, é económica, de gestão e judicial, tem vários planos. Há uma responsabilidade política pela proximidade de alguns desses responsáveis, não apenas com o percurso longínquo no Governo do actual PR mas como financiadores da sua campanha há cinco anos atrás, incluindo para além disso um ex-conselheiro de Estado que foi indicado pelo próprio Presidente da República. Portanto, há responsabilidades políticas.

Nós precisamos de outro caminho, Portugal está aprisionado pelos interesses dos grupos económicos e financeiros, a Constituição está aprisionada e é preciso libertar Portugal e libertar a Constituição dos interesses dos grupos económicos e financeiros, da especulação financeira, do comprometimento dos interesses nacionais no quadro da UE.

Mesmo que para isso o PR tenha de dissolver a Assembleia?

Como PR, exercerei segundo a Constituição todos os poderes que o presidente tem em função da necessidade. Não recuso nenhum dos poderes que tem o PR, seja a dissolução da Assembleia da República, seja a demissão do Governo.

Francisco Lopes partiu para esta campanha com uma mensagem decalcada, daquilo que é a mensagem do partido, do PCP. Seria suficiente obter um resultado ao nível do da CDU em legislativas?

O decalcada pode ter vários entendimentos, pode ter o entendimento de que é uma colagem...

Direi então inspirada. Esta é uma candidatura que não esconde de onde vem e ao que vai.

Mas independentemente do significado que cada um de nós dá a essa palavra, não entrando em polémica em relação a ela, é natural que com todo o meu percurso político me identifique com o projecto do PCP e que isso faça parte da minha reflexão pessoal.

Está fora de causa desistir?

O problema não se coloca, desde o início que isso está esclarecido.

Mesmo que haja o risco?...

Não há risco nenhum! O grande risco que poderia haver era o povo português não ter uma alternativa clara de demarcação em relação às práticas políticas de Cavaco Silva como presidente da República, pelo percurso que tem, e às práticas políticas de outros candidatos, como Manuel Alegre, comprometido com o PS e com o governo do PS, candidato do PS apoiado pelo BE, ou como Defensor Moura ou como Fernando Nobre, todos eles, de uma forma ou de outra, identificados com este rumo.

É importante que a pessoa vote, seja ouvida. E a forma de fazerem ouvir a sua voz no dia 23 de Janeiro é votarem, de uma forma clara! Por isso, a questão para mim não é esta ou aquela percentagem, é o máximo de apoio do povo português. O povo decidirá no dia 23 quem passa à segunda volta, o povo português decidirá quem vai eleger.

Se for eleito PR, será o presidente de todos os portugueses ou só daqueles que votaram em si?

De maneira nenhuma só dos que votaram em mim, nunca em nenhuma circunstância.

Uma vez eleito, entregaria o cartão de militante do PCP?

Essa questão não se coloca, porque eu sou o que sou. E é como sou que sou candidato a PR. Isso seria uma demonstração de incoerência, dissimulação e engano.

Entre Cavaco e Alegre há um mal menor?

Entre Cavaco Silva e Manuel Alegre não há propriamente uma afirmação de uma alternativa. Cavaco Silva e Manuel Alegre são duas componentes do mesmo rumo, de uma mesma política de desastre, abdicação dos interesses nacionais e injustiça social. Basta ver como é que chegámos aqui, do ponto de vista da abdicação dos interesses nacionais. Mercado Único, Cavaco Silva e Manuel Alegre estiveram sintonizados; Tratado de Maastricht, União Económica e Monetária, Banco Central Europeu, euro, portanto, ambos estiveram, no essencial e nessa perspectiva.É desse tempo a célebre frase de Cavaco Silva do pelotão da frente, que tinha colocado Portugal no pelotão da frente da União Europeia, está-se a ver qual é o pelotão da frente em que estamos. São alguns percursos constantes. A questão do BPN é um outro exemplo, de compromisso e de uma posição semelhante na altura em que as decisões foram tomadas, um como presidente da República, outro na Assembleia da República como deputado do PS.

Havendo uma segunda volta que não o inclua, que opção tem o PCP?

A questão que me está a colocar terá de ser respondida depois.

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Romy

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MensagemAssunto: "O Presidente da República não é uma estátua de cera"   Qua Jan 19, 2011 5:04 pm

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"O Presidente da República não é uma estátua de cera"

por DAVID DINIS
Hoje


O candidato independente acha que Cavaco Silva devia ter feito mais do que usar a palavra, denunciando o estado da economia. Para Fernando Nobre, o Presidente não se pode limitar a assistir aos actos da governação porque é, também ele, um decisor político activo.

Um Presidente da República apartidário mudava o quê?

Dava muito mais isenção e equidistância. E deixaria bem claro para todos que ele, nunca tendo feito parte de uma equipa em presença, estará ali exclusivamente para defender os interesses de todos os portugueses e do País.

Os presidentes anteriores pecaram por falta de equidistância?

Acho que sim, pelo menos é isso que tem saído da leitura dos factos durante os seus mandatos, sobretudo se analisarmos o primeiro e segundo mandatos.

Cavaco Silva beneficiou o Governo ou a oposição?

Não sei, lembro-me só daquele período das escutas entre Belém e S. Bento, que pode ter deixado várias leituras na altura. Alguém que foi jogador de uma equipa durante 20 anos e que passa a árbitro, nem que seja inconscientemente, terá tendência para apitar mais contra a equipa da qual nunca fez parte.

Durante o seu percurso apoiou várias personalidades. Alguma vez se arrependeu?

Sim. Com o PSD, no Coliseu de Lisboa, em 2002, que levou Durão Barroso a primeiro-ministro, arrependi-me porque acho que ele não se comportou como eu esperaria de um primeiro-ministro, na altura da Guerra do Iraque. Quanto aos outros três apoios pessoais [Mário Soares nas presidenciais, mandatário nacional do BE para o Parlamento Europeu e ter pertencido à comissão de honra de Capucho em Cascais], não me arrependo.

Foi usado por virtudes eleitoralistas?

Já tenho idade para não ser tão ingénuo quanto muitas pessoas pensam! Estava ali enquanto independente para dar a minha leitura da sociedade portuguesa, ponto final. Agora, se me convidam é porque sabem que o meu nome e o meu passado podem beneficiar uma candidatura.

Já teria dissolvido a Assembleia da República?

Pelo que sei pelos jornais, entendo que não. Agora, se eu for eleito PR, terei acesso de uma maneira aprofundada às matérias que me poderão levar a um juízo diferente. O que eu lhe posso garantir é que eu PR, conhecedor profundo dos dossiers, não hesitarei em dissolver a Assembleia da República ou em demitir o Governo se eu entender que o País está num impasse ou se está em causa o regular funcionamento das instituições.

Cavaco devia ter feito mais?

No ano passado tivemos três eleições sucessivas, o Governo é responsável pela marcação das eleições autárquicas, sendo o PR responsável pelas eleições europeias e legislativas. Andámos entretidos em três actos eleitorais sucessivos que fizeram com que o Orçamento deste ano fosse apenas e só aprovado na primeira semana de Maio. Isso quer dizer que durante os quatro primeiros meses deste ano nós estivemos a viver em duodécimos. Entendo que o PR podia ter encurtado os períodos eleitorais, primeiro ponto. Segundo ponto, a questão do casamento homossexual. Se for para Belém, vou com as minhas convicções. Eu teria promulgado o casamento, talvez teria sugerido um outro nome, não me incomoda a palavra casamento porque sou um homem de inclusão, quero que a sociedade portuguesa inclua todos os grupos que se sintam discriminadamente negativados.

Porque acha que o PR promulgou?

Isso talvez fosse bom perguntar- -lhe a ele! Mas depois de uma passagem do Papa durante três dias no País, em que ele esteve sempre com o Papa, acho que toda a gente estava à espera que ele agisse em função das suas convicções.

Se fosse PR teria vetado ou promulgado este OE?

Ainda não foi promulgado...

Já foi promulgado, no último dia do ano.

Teria actuado preventivamente, teria feito tudo para que não fosse este OE.

Sente que os debates televisivos mudaram alguma coisa?

Tive a possibilidade de expandir algumas das minhas ideias. Um candidato presidencial tem de fazer propostas, tem de ajudar a definir desígnios para o País, tem de contribuir para a melhoria da qualidade da vida política. Enquanto candidato faço propostas muito concretas no sentido, por exemplo, de se reduzir o número de deputados, para cem, por exemplo, à semelhança do que existe na Holanda, 16 milhões de habitantes, 150 deputados! Nós temos dez milhões de habitantes, 230 deputados.

O PR não tem poder para impor essas mudanças.

Sim, mas o PR tem poderes explícitos na Constituição e tem poderes implícitos. Há conversas reservadas, sigilosas, e há conversas públicas. É por isso que se diz que ele tem um magistério de influência, acho que o PR é o único órgão de soberania que é eleito unipessoalmente por sufrágio universal.

Mas teria mais influência vindo de fora do universo político?

Sinceramente, acho que teria mais influência e vou dizer porquê: é que todos os líderes partidários, e qualquer que seja o primeiro-ministro, e todos os deputados saberão que vou falar com eles da mesma maneira. Não vou falar com A de uma maneira e com B de outra maneira.

Que opinião é que tem de José Sócrates e de Passos Coelho?

Do sr. primeiro-ministro, eng. José Sócrates, reconheço uma pessoa determinada, voluntariosa. São os dois adjectivos que me vêm à mente. O dr. Passos Coelho também não conheço em termos políticos...

Tem boas expectativas, no caso de Pedro Passos Coelho?

É um homem que mostra vontade, acho que é um homem sério. Um dia ou outro, terá de haver alternância porque isso é o jogo da democracia, e acho que ele assumirá as funções de primeiro-ministro e só depois é que nós vamos saber, na prática, se ele dará um bom primeiro-ministro ou não.

Cavaco desiludiu-o como PR?

Tenho o maior respeito e a maior estima pelo prof. Cavaco Silva. Mas entendo, pelo que disse há pouco, que ele não correspondeu às expectativas. Pergunto-me se ele também não é um decisor político, a meu ver o PR também é um decisor político! Se ele alertou, das duas uma: ou ele falou numa língua que ninguém percebeu ou então os portugueses andam completamente surdos. Porque ele podia ter tido e podia ter actuado de forma muito mais incisiva. Ele podia ter convocado, por exemplo, o conselho de estado para debater a situação económica do País e o descalabro anunciado.

E o Governo não acharia imediatamente que ele estava a atacar?

Não, mas então para que é que serve o Conselho de Estado? Mais do que isso, se depois das suas conversas particulares, semanais, com o senhor primeiro-ministro, ele entendesse que as suas competências, os seus pareceres e os seus alertas não estavam a ser escutados, ele tinha outras maneiras para actuar! Ele podia mandar uma mensagem à Assembleia da República, ele podia convocar extraordinariamente a AR. Porque é que ele não fez uma comunicação específica sobre os perigos que estávamos a correr com o superendividamento das famílias?

O Governo não diria que o PR era uma força de oposição?

O prof. Cavaco Silva é que acusou o dr. Mário Soares de ser uma força de bloqueio!

Pois acusou.

Mas eu acho que o PR não é um mero vaso de flores e não é uma estátua de cera que se senta numa cadeira, porque senão então vamos poupar financiamentos ao Estado! Então para que é que precisamos de um PR?

Cavaco Silva fez do cargo de PR um cargo irrelevante, é isso?

Não sou o primeiro a afirmá-lo. O prof. Cavaco Silva neste primeiro mandato exerceu os seus poderes de uma forma minimalista, eu tê-los-ia exercido de uma forma mais acentuada. E daí eu dizer, atalho de foice, que se os presidentes da República estão condicionados pela eleição de um segundo mandato, então talvez não fosse mau pensar, isso é uma ideia, que o mandato de PR fosse único, tipo sete anos, mas fosse um.

Cavaco Silva convocou o Conselho de Estado e pronunciou-se sobre a situação económica antes do início das negociações do OE.

Podia antecipar o que ia acontecer, já antes do Lehman Brothers, os peritos financeiros sabiam para onde estávamos a caminhar. Ele podia ter actuado mais cedo.

Um dos assuntos que estão a marcar esta campanha é o caso BPN. É talvez o único candidato que não fala deste assunto. Porquê?

Por uma razão muito simples: não gosto de fazer ataques ad hominem a ninguém. Segundo, não gosto de lançar insultos a ninguém. E por isso, não tendo provas seja do que for, não estou virado para lançar suspeições gratuitas.

Mas acha que é necessário algum esclarecimento?

Não, o que eu entendo é que o BPN, o caso BPN, não é o professor Cavaco Silva, porque não é por termos amigos metidos numa embrulhada que imediatamente também somos culpados.

Cavaco foi accionista da SLN.

Com certeza, muitos milhares de portugueses terão sido, provavelmente.

Cavaco Silva não tem de dar nenhum tipo de explicação?

Para mim não solicito coisa nenhuma, inclusive, a ter-se solicitado teria sido há dois anos. Não vejo porquê estar agora a focar esta questão neste momento eleitoral.

Nos debates usou o facto de ter estado em Beirute em 1982. Porque é que acha que é fundamental?

Quando anunciei a candidatura, de imediato surgiram aí vozes - os portugueses saberão ajuizar da parte de quem - dizendo que estava a ser empurrado.

Por Mário Soares?

Disse que alguém como eu, que tem um percurso de vida há 30 anos, em que teve momentos extremamente difíceis e duros, como estar em Beirute no Verão de 1982 durante dois meses, diariamente bombardeado por terra, céu e mar, que uma pessoa com o meu perfil e com o meu percurso não é alguém que seja empurrado.

Mas porque é que acha que essa sua experiência...

Podia falar em Mogadíscio em 1992!

E é importante para o desempenho das funções de PR?

Foi uma experiência que demonstra uma particular resistência psíquica, física.

Mas acha que essas suas experiências lhe conferem uma espécie de superioridade moral face aos outros candidatos?

Não é superioridade moral, cada um de nós é o resultado do seu percurso. Este foi o meu percurso, comecei aos 27 anos e tenho 59. Porque carga de água é que eu não posso invocar a minha experiência humanitária e cívica em favor de uma cidadania activa, como está escrita há anos?

Já falámos de Mário Soares, aconselhou-se com ele?

Falei, como disse na altura e é público, com 15 personalidades.

E ele estava entre elas?

Sim, senhor. Prof. Adriano Moreira, Fernando Moreira, dr. Mário Soares, Miguel Portas, Henrique Granadeiro, Carvalho da Silva... foram muitas as pessoas, por quem tenho estima. Eu levantei-me por um imperativo, um imperativo de cidadania.

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MensagemAssunto: Orimar Serip    Qui Fev 10, 2011 11:59 am

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Orimar Serip
Bragança



O único Magico em Bragança

Mágico Orimar Serip (Ramiro Pires)
Idade – 49 anos
Naturalidade – Fontes, Parâmio, Bragança
Licenciatura em Animação e Produção Artística
Membro da International Magicians Society
Membro da Associação Portuguesa de Ilusionismo
Prémio de Originalidade e Criatividade no Festival Internacional de Ilusionismo, 1998
Site - www.orimar-serip.web.pt


1 @ Como e quando é que começaste a desenvolver o interesse e a paixão pela magia?

R: Este interesse pela magia apareceu em mim ainda em miúdo. Nos circos, havia sempre um mágico. Admirava os palhaços, como ainda hoje admiro, mas o que me chamava realmente a atenção eram os chamados magos, na altura. Via as coisas a desaparecerem e a aparecerem e isso fascinava-me. Já era um pouco mais adulto quando decidi apresentar os meus efeitos mágicos ao grande público. Comecei em 1976 e faço, agora, em Dezembro de 2011, 35 anos como mágico.

2 @ Que truques te foram mais apelativos quando, na adolescência, decidiste ganhar o pulso ao rumo das artes mágicas?

R: Era o desaparecer, era um simples lenço com floreados e cores garridas que eram realmente chamativas, era aparecer uma pomba de um simples lenço. Dar vida àquele lenço, mesmo sabendo hoje como se faz, ainda me põe os olhos em bico, sendo o truque bem feito, claro.

3 @ Apesar de residires em Bragança, actuas como mágico um pouco por todo o país. Sobretudo, na região norte. Como é que funciona em termos de agenda e espectáculos?

R: Vou por onde me convidam. Quanto a espectáculos, isso depende. Por vezes, participo em galas, onde há mais artistas, e aí actuo, no máximo, durante 10/15 minutos. Num espectáculo individual, já faço uma hora e quinze minutos, sensivelmente. Os truques têm de estar interligados, tem de haver uma continuidade, isso é que faz o espectáculo. Há um princípio, um meio e um fim. Tudo nele tem um propósito. Agora, no palco sou só eu. Já tive algumas partners, a trabalhar comigo, mas, neste momento, é mais a interactividade, É um espectáculo do sério ao cómico e é a forma como se faz, a sua estrutura, como se vende a ilusão que interessa verdadeiramente. Certas pessoas compram o “livro de instruções”, estudam-no e limitam-se a fazer o que vem no livro. Eu não faço isso! Um truque tem variadíssimas formas de ser feito e eu gosto de dar a cada um o meu cunho pessoal. Um pequeno truque, pode ser uma grande ilusão.

4 @ Que ilusões agradam mais às pessoas?

R: Existem as grandes ilusões, que fascinam, como a mulher cortada ao meio. Mas o que fascina mais o público é o acto de aparecer ou desaparecer de um objecto, a transformação. A levitação é, também, outro efeito mágico soberbo.

5 @ Consegue-se viver da magia em Portugal?

R: Há essa possibilidade, mas não é nada fácil. São poucos os que conseguem viver somente da magia. Os apoios são muito limitados, mas, tendo por trás um grande suporte, é possível.

6 @ Que mágicos actuam para ti como referências artísticas?

R: No nosso país, o mais conhecido é Luís de Matos. Mas tenho muitos mais: David Sousa, de Espinho, que ficou em segundo lugar no campeonato do mundo, que se realiza de 4 em 4 anos, da Federação Internacional das Sociedades Mágicas; Hélder Guimarães, que foi campeão do mundo em magia de mesa (Close Up); e o Mago Daniel. A nível internacional, o David Copperfield, também, o mais conhecido, mas, pessoalmente, prefiro o suíço Peter Marvey, o oriental Ximada, Kevin James e o Topas, entre outros.

7 @ Como é que imaginas o teu futuro enquanto mágico?

R: Eu quero reformar-me disto, mas não consigo. Primeiro porque quero continuar por mais tempo e, segundo, porque as pessoas continuam a querer um mágico. Portanto, em termos de agenda, não me posso queixar. Também tem havido festas privadas para as quais sou contratado e espero que haja muitas mais.

8 @ Na tua opinião, a magia respira saúde e recomenda-se?

R: A magia continua muito viva, mesmo. De boa saúde e sempre a surgiram coisas novas… Eu já fiz, em Bragança, alguns espectáculos e quando vou na rua muitas vezes as crianças reconhecem-me como mágico. Só isso, vale bem a pena!

CAIXA

Ramiro Pires é um Pintor Artista

Exposição de pintura «(In)visível», de Ramiro Pires, encontra-se patente no A Noz Bar até 14 de Fevereiro. São cerca de dez obras, a óleo, onde podemos contemplar telas como «Luz», «Planeta violado», «Estilhaços», «A humanidade da tocha« ou o «Sorriso forçado». O seu autor, explica o porquê do nome que dá título à exposição: «O Invisível tem a ver com o «in», o interior de cada um de nós, e nesta exposição, não se trata só daquilo que está imediatamente visível, mas sim outros assuntos ou temas que estão disfarçados ou escondidos, digamos assim”. Desta forma, há algo mais para além da primeira percepção. Uma outra leitura do mesmo quadro. “É preciso estar realmente atento para se poder observar a outra parte, a parte invisível do quadro”, acautelou o pintor. Quem não conseguir decifrar as telas, poderá contar com a ajuda do proprietário do bar, Eduardo, que já conhece os detalhes “mascarados”.

Esta colecção divide-se em duas partes, cada uma com cinco quadros, dada a limitação do espaço, pretende-se aqui, também, uma mostra mais intimista.
“O quadro é um território intimo, de magia, onde a linha, a cor, o espaço e a luz aparecem carregadas de profundidade espiritual”, desvendou o criador.


Jornal Nordeste, 2011-02-10
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MensagemAssunto: "O segredo de justiça em Portugal é uma fraude"   Dom Fev 20, 2011 5:47 pm

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"O segredo de justiça em Portugal é uma fraude"

Hoje


O Procurador-geral da República, Fernando Pinto Monteiro, continua a achar que há escutas ilegais no aparelho de Estado e aponta o dedo ao segredo de justiça. É o entrevistado de hoje na rubrica "Gente Que Conta".

Pinto Monteiro dá uma entrevista ao Diário de Notícias em que fala de tudo, sem inibições. Revela-se um homem tranquilo nas suas convicções mas não esconde um visível sentimento de inconformismo quanto a algumas críticas de que é alvo.

Diz lamentar "que os políticos continuem a tentar resolver as questões políticas através de processos judiciais" e que "o segredo de justiça em Portugal é uma fraude, não há segredo de justiça nenhum".


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MensagemAssunto: "Uma política externa não se funda apenas em princípios mas também em interesses"   Dom Fev 27, 2011 6:45 pm

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"Uma política externa não se funda apenas em princípios mas também em interesses"

por DN.pt
Hoje


Luís Amado aproveita esta entrevista para afirmar que o Governo a que pertence, e no qual é o "número dois" de José Sócrates, não sente qualquer constrangimento pelas relações estreitas que durante muitos anos manteve com o Governo líbio.

Amado separa os "princípios" dos "interesses" e defende que se assim não fosse Portugal não poderia ter relações comerciais com muitos outros países espalhados pelo mundo. Apesar de tudo, bem se percebe que o ministro dos Negócios Estrangeiros gostaria que já não houvesse portugueses no país de Kadhafi para poder dizer, com outro à-vontade, tudo o que pensa sobre o regime do ditador há 41 anos no poder - e que ele e José Sócrates, com o álibi da economia, tanto visitaram nos últimos anos. "Como outros na União Europeia", invoca em jeito de defesa...

http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1794141

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MensagemAssunto: Manuel António Araújo    Seg Fev 28, 2011 5:14 pm

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Manuel António Araújo
Vinhais



«Sou triste por natureza e escrevo para me equilibrar»

É transmontano puro, mas, se não fosse, não lamentava. O professor e escritor Manuel António Araújo acredita que viver em Trás-os-Montes se paga muito caro em termos de reconhecimento e projecção.

À parte disso, em entrevista ao Transmontano de Gema, Manuel Araújo revelou que escreve para se equilibrar e garantiu que não é antipático e arrogante como muita gente o julga. É tímido. Só isso. No seu último romance, A Aldeia das Mulheres, diz que a personagem do padre Julião tem coisas dele.

Semanário TRANSMONTANO (ST): considera-se um transmontano de gema?

Manuel António Araújo (MAA): Sim. Eu sou natural de uma aldeia a 40 quilómetros de Chaves, que é Rebordelo, no concelho de Vinhais, mas estou em Chaves praticamente desde sempre.

ST: O facto de estar “atrás dos montes” tem impedido a sua projecção enquanto escritor?

MAA: A razão, para mim decisiva, de as pessoas não se projectarem e não serem reconhecidas é viverem aqui. Há vários exemplos de pessoas que tiveram de sair daqui para serem conhecidas. Viver em Trás-os-Montes custa muito em termos de projecção. Paga-se muito a interioridade.

ST: Sente isso na pele:

MAA: Eu sou um exemplo paradigmático. Escrevi uma obra que se chama a Emancipação da Literatura, que ganhou um prémio da Associação Portuguesa de Escritores, que é um prémio de prestígio, e, apesar disso, ninguém ma publicava se a Câmara não a patrocinasse. Na capa do livro vinha a indicação de que ganhei o prémio, a televisão publicitou-o. Na RTP, num programa chamado Câmara Clara, falaram que ganhei o prémio e ninguém me publicava a obra. Só a publicaram depois de a Câmara patrocinar. E depois foi publicada e ninguém a conhece porque estou em Trás-os-Montes. Se estivesse em Lisboa, o livro era claramente publicitado, andava nos corredores da literatura e era conhecido. Até acho que já esgotou e ninguém sabe dele.

ST: As suas raízes reflectem-se nas suas obras? A aldeia de Pousos de que fala no seu último romance é uma aldeia transmontana?

MAA: Não é uma aldeia específica, é formada por pedaços de aldeias onde vivi, Rebordelo e Lebução, identifica-se com ambas. Em Pousos há uma praça que existia em Lebução.

ST: Porquê o título: Aldeia das Mulheres?

MAA: Porque só vivem lá mulheres. Eu acho que as mulheres são muito mais interessantes e misteriosas do que os homens. À parte o aspecto sexual, a mulher é muito mais bonita. Eu sou capaz de ver um rosto masculino e achar que é bonito, mas o rosto feminino é muito mais bonito. A beleza da mulher tem muito mais mistério.

ST: Há personagens reais no livro?

MAA: Há uma personagem, que é a Rute, e que é uma personagem um bocado esotérica, que equivale a uma pessoa que havia lá na aldeia e que me impressionou quando era pequeno, também era misteriosa e tinha laivos de bruxaria. Tudo o resto é ficção, mas não é uma ficção pura. Há coisas de mim no padre Julião e há coisas de outros padres, e que resultaram de coisas que eu observei no seminário. Há uma mistura e uma construção.

ST: Seminário? Alguma vez quis ser padre?

MAA: Eu acho que devia ser um bom padre, talvez um bocado heterodoxo. Eu andei no seminário em Arouca. Estive lá dois anos, até aos 11. Lembro-me que, quando o meu pai me foi lá buscar para não regressar mais, eu jurei que ia voltar, depois não voltei. Mas foram os anos mais felizes da minha vida.

ST: Já escrevia nessa altura?

MAA: Não. Foi só depois, lá para os 13/14 anos que comecei a escrever pequenos poemas. Comecei um romance para aí aos 14 anos, mas escrevi para aí umas dez páginas…

ST: Está na gaveta?

MAA: Desapareceu.

ST: Quando pensou em ser escritor a sério?

MAA: Isso de ser escritor a sério em Portugal é uma coisa difícil. Fui escrevendo. Uma das razões porque escrevo é porque sou triste. Sou uma pessoa naturalmente triste e, portanto, as pessoas tristes têm uma incompatibilidade social. Não saem muito, não têm uma relação com a sociedade muito boa. Geralmente são pessoas tímidas. A escrita é um equilíbrio. Escrevo para me equilibrar.

ST: O facto de ser fechado e tímido, às vezes, é interpretado como arrogância, antipatia, mas isso é só fachada ou não?

MAA: Sim, é só fachada. Isso não é verdade.

ST: Como vê o fenómeno da escrita em Portugal e na região, na medida em que há cada vez mais pessoas a escrever?

MAA: Eu acho bem que as pessoas escrevam. A escrita é um bálsamo, é uma espécie de refúgio. Agora depende se se escreve por necessidade, porque, às vezes, há pessoas que escrevem por vaidade, mas essa é uma vaidade estéril, porque quem escreve por vaidade não tem talento e nunca vai…

ST: O que é que acha de haver pessoas conhecidas de outras áreas que escrevem e que acabam por ter sucesso?

MAA: A literatura não é espectáculo. A literatura não tem que ver com dinheiro, depois até pode ter, mas acho até que é anti-comercial. Acho que agora isso já não acontece, mas há algum tempo víamos livros nos centros comerciais ao lado das batatas. Acho que a literatura não tem nada a ver com isso.

ST: É professor… escrevem bem os seus alunos?

MAA: Tenho alguns que escrevem, mas com o tempo, o nível da escrita e da leitura está a degradar-se muito.

ST: Incentiva-os a ler?

MAA: Sim, de uma forma simples. Leio para eles. Sou professor de português e tenho obrigação de ler bem, e leio, e é uma forma de estarem atentos à leitura.

ST: Costuma dizer-se que quem não lê não sabe escrever…

MAA: É um bocado assim. José Saramago antes de escrever leu imenso. É preciso ler, embora também não seja só por se ler muito que se escreve bem. Tem de haver talento.

Há alguns escritores, julgo que com alguma falsa humildade, que dizem que escrever é só trabalho, mas para ser um bom escritor tem de se ter talento, embora também tenha de haver trabalho.

ST: Há algum escritor em que se reveja?

MAA: Gosto de Gabriel Garcia Marques, gosto sobretudo da sua literatura fantástica.

ST: Este é o seu melhor romance?

MAA: Dizem que é, não sei se é. Vamos ver! Há pessoas que gostam muito. Tive uma amiga que me mandou uma mensagem às três da manhã a dizer que era fantástico.

ST: O que gosta de fazer?

MAA: Gosto de ler, de escrever, se bem que eu não escrevo para me divertir, escrevo porque preciso, como há pessoas que precisam de ir à discoteca. Gosto de ver futebol, o Benfica, e vejo sempre, gosto de ouvir música. E acho que não gosto de mais nada. Ah, gosto de conduzir com chuva.

ST: Escreve com regularidade?

MAA: Quando estou a escrever um livro sim. O meu problema é que sou um bocado preguiçoso. Uma vez, o Lobo Antunes falou disso. Quando escrevemos estamos para aí, eu estou, uma hora, uma hora e meia, e aquilo que escrevo não é muito bom, risco, rasgo. Estamos ali, levantamo-nos, voltamo a sentar-nos e quando as coisas estão a ser boas, estou cansado. Muitas vezes, não tenho coragem de continuar e vou-me deitar. Quando chego ao momento em que a produção está a ser boa, vou--me embora. É por isso que eu acho que nunca chegarei a ser um bom escritor, porque eu tenho esse defeito. O Lobo Antunes não tem. Ele diz que quando começa a ser bom, ele vai por ali fora, mas eu não, canso-me e muitas vezes vou-me deitar. Estou ali a aguentar até a inspiração vir e quando ela chega vou-me embora. Eu rejeito muita coisa na vida e na literatura acontece-me um bocado isso.

ST: No prato, é transmontano?

MAA: Não como muito, mas gosto de comida transmontana. Gosto muito de uma comida que só como na casa do meu pai, que não há nos restaurantes, feijões e couves com orelha de porco.

ST: Faz questão de realçar que é transmontano. Sente orgulho nisso?

MAA: Não tenho orgulho absolutamente nenhum. Se fosse de outra região não lamentava nada. É uma coisa que para mim é neutra.

Há coisas boas que eu não tenho por estar em Trás-os-Montes, como o mar. Há gente com muito valor e isso prova-se, não é isso que está em causa. Perguntar-me-á porque não se vai embora? Porque não posso, trabalho aqui.

ST: Acha que as pessoas, no resto do país, ainda têm a ideia de que os transmontanos sãos uns coitadinhos?

MAA: Acho que a imagem não é muito positiva. Há pessoas que pensam que Chaves fica em Espanha, mas, quando cá vêm, acham isto muito bonito, e depois vão-se embora, e nós ficamos. E Chaves, de facto, é uma cidade bonita e seguramente com muito potencial para se desenvolver, mas gostava que Chaves fosse a cidade que era antes do 25 de Abril. As pessoas vão achar isto reaccionário, mas não é.

ST: O que é que faz falta a Chaves?

MAA: Devia ter uma universidade. Devia ter ensino superior com qualidade, não estou a dizer que o que há não tem, mas gostava de ver aqui outros cursos. Houve um momento para isso, mas acho que se perdeu quando se deixou, em termos de ensino superior, ir tudo para Vila Real. Isso marcou Chaves de forma irremediável.

ST:Como define um transmontano de gema?

MAA: Em primeiro de tudo, pela pronúncia. Depois pela franqueza. Os transmontanos são, ao mesmo tempo, francos e desconfiados. Isto pode parecer paradoxal, mas não é. São desconfiados à partida, mas quando conhecem são muito francos.

Margarida Luzio, ST, 2011-02-28
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MensagemAssunto: 'Não somos indiferentes à manifestação.Vamos estar lá'   Sab Mar 05, 2011 11:27 pm

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'Não somos indiferentes à manifestação.Vamos estar lá'

por DN.pt
Ontem


Jerónimo de Sousa recusa ser um partido de mera contestação social, mas os seus militantes também vão estar na manifestação da "geração à rasca". Porque o "PCP não pode ser cúmplice de uma política que está a levar o país a este estado".


O líder do PCP revela em entrevista à TSF/DN que os militantes do seu partido também vão percorrer a Avenida da Liberdade em conjunto com outras pessoas e organizações que aderirem à acção promovida pelos precários da "geração à rasca", no dia 12. Mas recusa a ideia de que o PCP seja "um partido de mera contestação social". E explica: "Temos um projecto e um programa que, quando o povo português o entender, será parte de uma solução governativa. O PCP não pode ser cúmplice de uma política que está a levar o país a este estado."

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MensagemAssunto: Marinho e Pinto vai exigir exame de acesso à Ordem   Dom Mar 06, 2011 3:35 pm

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Marinho e Pinto vai exigir exame de acesso à Ordem

Hoje

Bastonário da Ordem dos Advogados reeleito no passado mês de Novembro, Marinho e Pinto avisa que o exame de acesso à Ordem, apesar de ter sido considerado inconstitucional, deverá passar à legalidade com a aprovação do novo estatuto a entregar na Assembleia da República.


Numa entrevista a João Marcelino, no programa Gente que Conta, Marinho e Pinto criticou duramente o conselho superior da Ordem dos Advogados, que lhe instaurou seis processos disciplinares no mandato passado.

Sublinhando que a justiça portuguesa funciona ainda dentro de um paradigma de outras épocas, o bastonário da OA revela que não se arrepende de ter tomado posição no caso Freeport e reflecte sobre os processos mediáticos da justiça portuguesa, dizendo que nos casos de desaparecimento como os de Madeleine McCann ou de Joana "a tradição" é acusar os pais. Do processo Casa Pia, diz que a pena de 18 anos aplicada a Carlos Silva desencoraja a colaboração com a justiça.

Falando da saturação do mercado de trabalho, o bastonário destacou ainda que mais de oito mil advogados já abandonaram a profissão nos últimos anos, jovens na sua maioria.

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MensagemAssunto: 'Presidente tem de tirar consequências do seu discurso'   Dom Mar 13, 2011 11:55 am

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'Presidente tem de tirar consequências do seu discurso'

por DN.pt
Hoje

http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1804767

Deputado na Assembleia Constituinte, em 1974, então militante do PSD, Jorge Miranda manteve-se sempre como um observador atento da realidade portuguesa e nesta entrevista expressa os seus pontos de vista com a acutilância de sempre.

Jorge Miranda foi esta semana distinguido com o Prémio Universidade de Lisboa que distingue uma brilhante carreira docente ao serviço do ensino do Direito mas que também é devido ao ilustre constitucionalista por muitos considerado o pai do nosso texto fundamental.

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MensagemAssunto: "Portugal é hoje um país vagamente soberano"   Dom Mar 20, 2011 11:36 am

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"Portugal é hoje um país vagamente soberano"

Hoje

Nuno Melo, eurodeputado do CDS-PP, defende que o primeiro-ministro e o executivo socialista são a razão da crise política que se abriu esta semana no País e acusa a gestão orçamental portuguesa de ser um "faz de conta".

http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1810416

No fim-de-semana do 24.º congresso do CDS-PP, Nuno Melo falou ao Gente que Conta, programa conduzido por João Marcelino, director do Diário de Notícias. Numa entrevista marcada pela actualidade, o eurodeputado sublinhou que o partido de que é dirigente prefere eleições antecipadas à aprovação do PEC IV no Parlamento, defendendo que o documento tem de ser levado a votos.

O eurodeputado manifestou ainda o seu apoio à posição do líder do CDS-PP, Paulo Portas, que recusa a aprovação de novas medidas de austeridade, e admite que, neste momento, "as eleições antecipadas não serão uma tragédia".

Na opinião de Nuno Melo, José Sócrates tem uma estratégia eleitoralista, pois o chumbo do PEC IV no Parlamento abrirá caminho à ajuda externa e permitirá ao actual chefe do executivo sair culpando a oposição, por não ter viabilizado os cortes que acordou com Bruxelas.

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MensagemAssunto: "IVA é imposto cego que afecta dez milhões de pessoas"   Sex Mar 25, 2011 5:54 pm

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"IVA é imposto cego que afecta dez milhões de pessoas"
Hoje

Dirigente do PSD Marco António Costa pede ao PS que não transporte para as legislativas a crispação das presidenciais. E promete que o Programa de Governo do partido estará pronto em 30 dias.

http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1814757

Um dia depois de o PSD admitir aumento do IVA, o vice-presidente do partido diz que "essa é uma proposta honesta de um líder partidário que diz, de antemão, que não pode comprometer-se com a exclusão de nenhuma das possibilidades instrumentais que poderá ter de usar face ao desconhecimento absoluto da real situação do País..."

Marco António Costa reafirma que o PSD "nunca terá preferência por sobrecarregar os mais carenciados", mas admite que o aumento do IVA também os iria penalisar. "O IVA é um imposto cego que afecta dez milhões de pessoas".

In DN

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MensagemAssunto: "Lutarei por uma maioria absoluta"   Sab Mar 26, 2011 5:05 pm

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"Lutarei por uma maioria absoluta"

por Dn.pt
Ontem


Em entrevista à SIC, esta noite, o líder do PSD afirmou que o PEC4 foi a "gota de água" e mostrou-se optimista de que o partido vai ter uma "maioria muito clara" nas eleições.

"Penso que o PSD possa ter uma maioria muito clara. Lutarei por uma maioria absoluta mas não significa que não tencione levar para o governo outras forças políticas ou personalidades da vida pública", afirmou Pedro Passos Coelho nesta entrevista a Clara de Sousa.

A jornalista questionou-o acerca da possibilidade de num governo tripartido e da presença de José Sócrates. "Isso parece-me claro. Se estou a dizer que não havia confiança política para manter este Governo, faria algum sentido chamar o engenheiro José Sócrates para um Governo chefiado por mim?", respondeu.

Antes, logo no início da entrevista, Passos Coelho falou da situação que levou à demissão do primeiro-ministro, na quarta-feira. "Quando olhamos para uma situação e vemos que não há outra saída, a melhor forma de a resolver e devolver a palavra aos portugueses", afirmou.

"Em Novembro e Dezembro já passámos por situações muito difíceis no mercado. Há muitos meses que enfrentamos taxas muito superiores àquilo que o próprio ministro das Finanças considerou sustentáveis", realçou.

"O PSD esteve sempre comprometido com necessidade de sanear finanças públicas. O PSD tem permitido, ao longo de todo este tempo, que o Governo aprovasse no parlamento todas as medidas necessárias para responder à crise. Do lado do PSD, teve sempre uma posição construtiva, nem sempre concordámos com o governo, mas demos-lhes condições para adoptar as medidas", defendeu Passos Coelho.

"Foi a gota de água no sentido em que há limites para tudo", admitiu o líder social-democrata. "Tivemos um Governo que cortou salários e que prometia ir às pensões mais degradadas. Tudo aquilo que o Governo disse que precisava de fazer falhou".

"Quando perdemos a confiança em com quem estamos a negociar não é possível chegar a um acordo", disse ainda.

Passos Coelho esclareceu a sua posição relativamente ao aumento da taxa de IVA, ontem noticiada. "Aquilo que eu disse foi que ninguém no seu perfeito juízo, antes de eleições, se pode comprometer a não mexer na carga fiscal sem ter noção exacta de qual é a verdadeira situação financeira do Estado".

"Prefiro mil vezes arranjar dinheiro do lado da receita sobre o consumo do que ir às pensões mais degradadas ou às reformas", acrescentou.

Passos considerou que em meados de Julho haverá "condições para ter outro governo empossado". "O PSD está a ultimar aquilo que é um compromisso, não digo eleitoral, mas um compromisso para o país". O social-democrata acrescentou que "há informação de que só o Governo dispõe", mas que está convencido que "conseguiremos até ao Verão ter um Governo que consiga dar a mão à situação".

Garantiu ainda que o Presidente da República nunca interferiu nesta situação, que levou à demissão do primeiro-ministro José Sócrates.

Passos Coelho considerou que "não há razão para fazer pedido de ajuda externa", mas repetiu o que já hoje dissera: que o legitimaria mesmo num governo de gestão como o actual.

Defendeu ainda que recorrer ao FMI seria pior em 2011 dos que nos 80, porque na altura "tínhamos perspectiva de crescimento económico e agora temos para trás dez anos de estagnação".

Mesmo a fechar a entrevista, Passos deixou uma garantia aos portugueses:"Não vou andar a fazer fugas para os jornais sobre a execução orçamental quando depois são desmentidas pela realidade dos factos".



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MensagemAssunto: "Cavaco Silva não dará posse a um governo minoritário"   Dom Mar 27, 2011 12:03 pm

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"Cavaco Silva não dará posse a um governo minoritário"

Hoje

António Capucho, conselheiro de Estado e um dos fundadores do PSD, defende que o presidente da República não dará posse a um governo minoritário e que o próximo executivo deve integrar, além do partido que vença as eleições, independentes e outras forças políticas com assento parlamentar.

http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1816239

Em entrevista ao Gente que Conta, programa semanal de entrevistas conduzido por João Marcelino, António Capucho diz ainda que o PSD não pode perder tempo e deve tornar públicas as medidas de austeridade alternativas que propõe para fazer face ao défice, assim como o seu programa eleitoral.

Em relação a José Sócrates, o conselheiro de Estado considera que o primeiro-ministro deu "um tiro voluntário no pé", pedindo a demissão para colocar toda a responsabilidade em cima do PSD, que não aprovou o PEC IV. Também a acção do presidente da República terá sido inviabilizada por José Sócrates que, segundo António Capucho, apresentou sem explicação prévia um novo pacote de medidas de austeridade, impedindo a intervenção de Aníbal Cavaco Silva.

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