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Fantômas

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MensagemAssunto: "Sempre me perguntei: porquê eu? Talvez porque tive coragem nos momentos difíceis"   Sex Jun 25, 2010 11:57 am

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"Sempre me perguntei: porquê eu? Talvez porque tive coragem nos momentos difíceis"

por HUGO FILIPE COELHO
Hoje


A política de hoje ficou de fora. Em dia de homenagem, impunha-se falar do seu percurso de vida. Mário Soares, que levou Portugal para a CEE, conta que o feito de que mais se orgulha é ter sido um "persistente lutador contra a ditadura". Jura que nunca se desiludiu com os portugueses. E perdoa-lhes o seu maior defeito: "o complexo de dizerem mal de si próprios"

Aqueles que decidiram homenageá-lo julgam-no o maior político português vivo. Concorda?

Nunca participei nessas competições. Fui um estudante medíocre, apesar de nunca ter perdido anos. Salvo por estar preso, às ordens da PIDE. Nunca tive esse complexo de ser o primeiro ou o maior. Considero-me um cidadão comum. Como político, visto que me assumo como tal, não obstante ter exercido várias profissões, quando tive cargos de grande responsabilidade, sempre me perguntei: porquê eu? Talvez porque não hesitei e tive coragem nos momentos difíceis.

Na sua opinião, quem foi então o maior estadista português?

É difícil de responder. Na I República, ocorrem-me, naturalmente: Afonso Costa, António José de Almeida, Álvaro de Castro… Durante os 48 anos da ditadura, não puderam manifestar-se grandes estadistas. Pergunta, certamente, se Salazar não foi um estadista? Respondo-lhe resolutamente: foi um ditador que destruiu as elites culturais, científicas e artísticas portuguesas e perseguiu todos aqueles que discordaram dele. Deixou-nos 13 anos de guerras coloniais e um país orgulhosamente só. Assim, todos os que podiam ter sido estadistas foram ceifados pela ditadura, que os condenou ao ostracismo e ao silêncio. Cito os exemplos de Jaime Cortesão, Bento Caraça, Mário de Azevedo Gomes, Abel Salazar, António Sérgio, entre outros, que tinham esse perfil… Quanto à nossa II República, apesar de ter chegado a maturidade, com 36 anos feitos, estamos muito próximos para poder ter uma imagem objectiva: Sá Carneiro, Salgado Zenha, Álvaro Cunhal, Mota Pinto foram, seguramente, políticos de grande estatura. Mas não tiveram tempo de ser estadistas...

Olhando para trás, qual o feito de que mais se orgulha? Por que decisão que tomou gostaria de ficar na história?

O que mais me orgulha é ter sido um persistente lutador contra a ditadura. Sofri por isso. Depois do 25 de Abril, a cujos capitães de Abril devemos a liberdade, dei alguns contributos em matéria de descolonização; para a normalização de uma democracia pluralista e ocidental; para a consolidação de uma República civilista e defensora dos direitos do homem; para a resolução das crises, financeiras e económicas, de 1976-78 e de 1983-85; para a integração de Portugal na CEE, hoje, União Europeia; para uma certa concepção da chefia do Estado, civilista e republicana. Não o digo com orgulho. Antes, com um certo sentido da relatividade das coisas e do dever cumprido. Quanto à história, por dever de ofício, sei quanto é mutável a avaliação que faz das políticas e dos políticos…

Qual o maior erro que cometeu na sua carreira política?

Seguramente, cometi muitos erros. Mas a análise deles não me compete a mim fazê-la. Pergunte aos historiadores e comentadores políticos… Interessam-me o presente e o futuro, enquanto por cá estiver. Quanto à História, sem ilusões, deixo-a aos historiadores. Não gosto de fazer análises retrospectivas dos meus comportamentos políticos. Assumo o que fiz, por inteiro, no melhor e no pior. E estou, e sempre estive, voltado para o futuro.

Alguma vez se sentiu desiludido com os portugueses?

Nunca. Se não confiasse no génio do povo português e não sentisse - aí sim - um grande orgulho de ser português, como poderia ter aguentado trinta e dois anos da minha vida consciente resistindo a prisões, discriminações, deportação e exílio? O povo português, no seu conjunto, é extraordinário, de sensatez, de argúcia e na sua própria coesão. Só tem, quanto a mim, um defeito maior: o complexo de dizer mal de si próprio e de julgar que pertence a um país periférico, pequeno e sem influência. Não é verdade! A nossa História, antiga e recente, comprova-o. Temos de sacudir esse complexo snob do "vencidos da vida", que vem desde o século XIX…

É longa a lista de pessoas que se cruzaram consigo e vão discursar hoje no Congresso de Arcos de Valdevez. Pedia-lhe que relatasse um episódio passado com um deles, que o tenha marcado.

Não é o momento. Não sou o responsável pela iniciativa de Arcos de Valdevez. Mas acolhi-a com muito gosto. Estou grato aos organizadores, ao Município de Arcos de Valdevez - e ao seu ilustre presidente, aos que lá trabalharam e aos amigos que nela quiseram participar e que tanto me honram.

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MensagemAssunto: "Não é negativo que se leve a política para dentro da Aliança das Civilizações"   Dom Jun 27, 2010 9:58 am

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"Não é negativo que se leve a política para dentro da Aliança das Civilizações"

por JOÃO CÉU E SILVA
Hoje


Após o ter tentado em Portugal, o ex-presidente da República corre o mundo atrás do consenso entre civilizações bastante diferentes. As questões religiosas são algumas entre as muitas que dividem o planeta e que todos os anos são debatidas no fórum promovido pelas Nações Unidas, por inspiração da Espanha e da Turquia. A última reunião aconteceu no Rio de Janeiro, e Jorge Sampaio faz o balanço deste III Fórum para o DN.

Ao III Fórum da Aliança das Civi-lizações, viu-se envolvido na sua politização. Isso preocupa-o?

Creio que foi positivo. Nunca pretendi que a Aliança ficasse acantonada no colóquio estritamente cultural, porque é uma iniciativa política, numa área que se dirige à grande questão do nosso tempo: a diversidade cultural. Evidentemen-te, com o seu alargamento à participação de mais países a cada fórum, cada um vê a Aliança à sua maneira e adapta a política externa com a interna, o que faz os debates alargarem-se e fazerem vir ao de cima algumas confrontações.

Mas a politização trouxe benefícios?

Permitiu a expressão de desacordos porque, ao crescer o número de países participantes, aumentou o número das diversidades. Vão crescer os blocos, situação típica de uma sociedade internacional, mas, se nos mantivermos nas quatro áreas da Aliança - educação, migrações, juventude e media - e com uma actividade proactiva e mobilizadora, conseguiremos ser uma plataforma onde a sociedade civil desempenhará um papel e teremos capacidade para aguentar as divergências que se viram no Brasil.

Bastou o discurso do Presidente Lula para se ver que o tom mudara ao terceiro encontro da Aliança?

Era o tempo imediato pós-visita ao Irão, e tanto Lula como o primeiro--ministro da Turquia estavam presentes. Era natural que falassem do tema no contexto da Aliança, embora fossem discursos mais politizados. Como sou um político, não achei negativo que se trouxesse a política para dentro da Aliança, mesmo que mais vasta do que a diversidade cultural é. Tal como achei interessante a participação dos EUA e a forte presença de países da Amé-rica Latina, porque se alargou a perspectiva mais global.

Que balanço faz deste Fórum da Aliança no Rio de Janeiro?

É muito positivo, pois as metas que se estabeleceram - em termos de participação, afirmação de apoio político e resultados - foram plenamente alcançadas. A imagem da Aliança como um fórum mundial de diálogo inclusivo sobre questões relacionadas com a diversidade cultural saiu claramente reforçada.

A localização geográfica beneficiou?

Foi uma estreia na medida em que se tratou do primeiro organizado fora da área euro-mediterrânica. Foi, por isso, um bom teste ao esco-po global da Aliança e ultrapassado com sucesso, pois, por um lado, o anúncio da sua realização no Brasil levou a que a esmagadora maioria dos países daquele continente se filiasse, e, por outro lado, o facto de ter este país como anfitrião gerou também um movimento de solidariedade sul-sul, tendo vários países africanos aderido também à Aliança nos últimos meses.

Houve mais repercussão da América Latina, mas menos da Europa?

Os países desta área geográfica estão já a planear o início dos trabalhos relativos à elaboração de uma estratégia regional para a América Latina e muito empenhados em aplicar localmente alguns dos projectos apresentados no Rio. O fórum contou com forte participação dos membros dos quatro cantos do mundo ao mais alto nível - com excepção, porventura, da Europa, cuja presença não foi tão forte quanto se poderia esperar -, bem como com uma activa participação da sociedade civil, especialmente de jovens.

Quais foram os resultados práticos?

Foi anunciado um conjunto de iniciativas, assim como tiveram lugar debates muito concorridos relacionados com temas da actualidade no domínio dos media, das migrações, do papel das cidades, da educação para a diversidade cultural e dos jovens. Tudo isto a somar a uma reunião ministerial que demorou seis horas, encontros com os pontos focais da Aliança em torno das estratégias regionais e os seus planos de acção, etc., e as mais diversas sessões organizadas pelos parceiros da Aliança no âmbito de um Pré-Fórum que teve lugar a 27 de Maio e em que os jovens organizaram também o seu próprio programa de trabalho.

Mudará algo com a hipotética eleição de Mariano Rajoy em Espanha?

Caso tal aconteça, a definição das prioridades de política externa de Espanha poderá porventura ser ajustada, pois é sabido que, pelo menos no passado, a alternância do PP e do PSOE revelou existirem entre ambos algumas dissonâncias em matéria de actuação externa, bem como no ângulo de abordagem das principais questões internacionais.

Mesmo com a nova realidade?

É verdade que a situação internacional também se alterou e amenizou dilemas passados. A mudança da Administração americana e o seu regresso ao multilateralismo tornam menos perceptíveis ou relevantes algumas linhas de clivagem anteriores, e, por isso, imagino que o PP de Rajoy seja diferente do PP de Aznar nessa matéria. Acresce que me parece que a Aliança já atingiu um grau de maturidade e desenvolvimento que não só ilustra por si só a bondade e méritos intrínsecos desta iniciativa, como a está dotando de uma capacidade desejável de autonomia e de "encaixe" a choques… Pela minha parte, nunca ignorei que a Aliança das Civilizações, por ser um instrumento flexível de soft power das Nações Unidas, não está imune nem aos interesses particulares de cada um dos seus membros nem às flutuações - internas e externas - a que estes interesses estão sujeitos. Por isso, entendo que esta é uma variável a que é necessário estar atento, mantendo sempre a autonomia, coerência e capacidade de independência da Aliança como um todo.

Qual o seu papel nesta situação?

Revejo-me no assegurar deste jogo de equilíbrios, e aí inscrevo o papel do alto-representante. Neste contexto, quero mesmo referir que tenho mantido contactos com M. Rajoy, por forma a que esteja ao corrente da evolução dos trabalhos da Aliança. Em suma, acredito que alterações políticas que a democracia torna possíveis não trarão consigo cenários de ruptura para a Aliança.

O papel internacional da Turquia está a politizar a Aliança.

Esta afirmação repousa numa série de mal-entendidos. Primeiro, qualquer Governo tem - desejavelmente - um papel internacional. Por isso, a Turquia não é excepção. Em segundo lugar, a Aliança já é à partida uma iniciativa política, caso contrário não teria razão de ser no seio das Nações Unidas. Em terceiro lugar, o expectável papel dos co--patrocinadores, como, aliás, o de qualquer outros dos seus Estados membros, é precisamente o "nacionalizar" a Aliança em termos de política interna e externa. Digamos que a Aliança corresponde à tentativa de estabelecer no plano mundial uma agenda para a diversidade cultural vista simultaneamente como o 4.º pilar do desenvolvimento sustentável, a par da dimensão ambiental, económica e social, e como uma questão de diplomacia preventiva enquanto factor de segurança e paz no seio e entre as sociedades.

O próximo fórum é no Qatar. Vai destacar o choque religioso?

Não há relação de causalidade entre a localização geográfica de um fó-rum e a sua agenda. A escolha das prioridades para o IV Fórum resultarão do II Plano de Implementa- ção da Aliança que ainda cobre 2011 e das iniciativas anunciadas no III Fórum e das sugestões que o país anfitrião possa fazer, aliadas a outras ideias que os restantes membros e parceiros da Aliança possam adiantar e que sejam consideradas relevantes.

África continua a estar com menos presença neste fórum. Até quando?

Já foi um progresso que todos os países da CPLP se tornassem membros da Aliança, mas também hou-ve mais alguns países africanos, designadamente o Magrebe inteiro e África do Sul.

A Aliança quer "construir pontes". Com mais países será mais fácil?

É sempre mais complexo porque a diversidade é maior, mas essa é uma das razões de ser da Aliança. Preencher espaços vazios, construir parcerias, aproximar as pessoas e descer às comunidades locais. Temos como objectivo dirigirmo-nos a todos os países da Organização das Nações Unidas e às várias organizações internacionais e com a nossa actividade produzir resultados.

E os resultados estão a acontecer?

É um trabalho para décadas, mas há uma coisa de que me orgulho, o ter colocado de uma forma frontal e incontornável na agenda o de-senvolvimento sustentável. Não é a economia só; não é o social só e não é o ambiente só - é também a diversidade cultural. Esse tema deu um salto muito qualitativo na agenda porque, como se vê bem, a crise não é só económica e financeira, há também as grandes novas questões que as migrações vão trazer.

Que vai exigir trabalho de maior proximidade?

Sim, vai ser necessário ir até aos locais territorialmente mais pequenos, as nossas freguesias, para chegar à esfera nacional. Também teremos, à escala da União Europeia e à escala mais geral, de nos dirigir àquilo que po-de ser agravado pelas percepções erróneas que se tem devido à instrumentalização de certa comunicação social por partidos que fazem das fobias um elemento aglutinador de algumas minorias esquecidas daquilo que é verdadeiramente uma democracia.

Quando refere partidos com fobias, também nota isso em Portugal?

Não, sinceramente. Quando estou fora de Portugal - e tenho sido um verdadeiro globetrotter -, vejo, quando regresso, que estamos a discutir A e B com toda a legitimidade mas que ainda se respira uma importantíssima paz. Porque um dos grandes desafios do nosso tempo é a enorme importância que tem a convivência de várias religiões, de várias etnias e o facto de termos absorvido a imigração e da forma como o fizemos. Claro que há bairros problemáticos, mas esse é um incentivo para avançar.

É nesse âmbito que a Aliança criou, a nível global, a experiência do Dialogue Café?

É uma rede que começou com Portugal e o Brasil, mas que vai ser mundial, porque pretende aproximar toda a gente. Contamos muito com as universidades e as escolas, mas, quando tivermos uma rede maior, cada um escolhe com quem é que quer falar. Pode ser com alguém de Telavive, de Nova Iorque, de uma cidade africana, etc. Essa foi uma extraordinária cooperação da Aliança com a Cisco e a Gulbenkian, que dará a conhecer pessoas de todo o mundo umas às outras.

Que balanço faz do Plano Nacional?

Considero muito positivo o esforço feito, mas não me cabe fazer juízos de valor sobre o nosso Plano Nacional. Não obstante, o esforço tem de ser prosseguido e ganharia com uma participação acrescida da sociedade civil, das universidades, dos media. Como em todas as sociedades, também a portuguesa sofreu uma evolução muito considerável na última década em termos da acrescida exposição à diversidade. Importa tornar esta situação numa oportunidade de criação de riqueza e de mais-valias para a cultura portuguesa que, por matriz própria, já tem uma dimensão universalista e cosmopolita de que poderíamos tirar mais partido.

Como vê os recentes conflitos entre Israel e a frota marítima que ia para Gaza. Vai atropelar mais um futuro entendimento?

Não facilita. Continuo a achar que só resta uma solução, a de dois Estados que vivam lado a lado e com a questão da Palestina resolvida. Mas o tempo vai passado e a correr contra isto, razão pela qual me bato à procura de maneiras de dizer que não compete à Aliança tratar dos assuntos que o Quarteto, o Conse-lho de Segurança e a Assembleia Geral da ONU têm de tratar a nível estritamente político.

Mas a Aliança pode ter um papel?

Pode dar uma ajuda, preventiva ou de outro tipo, tal como criar caminhos para a paz. Não me esqueço de que uma vez em Ramallah alguém me pedia: "Eu só quero um campo de futebol para pôr esta gente toda a jogar, que é maneira de os ter aqui." E obviamente que - visitei Gaza e Israel em 2008 - se percebe que o bloqueio está a contribuir para o reforço de radicais em vez de servir qualquer outra a perspectiva. O campo da paz em Israel tem diminuído, mas a verdade é que temos de assegurar a segurança de Israel e ao mesmo tempo assegurar que é viável um Estado palestiniano ao lado. Ninguém negará que isto é complexo e difícil e que os passos que foram dados não estão a ser um contributo nessa direcção. Permito--me dizer que o discurso de Obama, no Cairo, criou uma expectativa brutal que necessita de concretizações.

Estamos perante uma crise económica e financeira generalizada. A Aliança será prejudicada por isso?

É certo que a economia passou a ser financeira - o que é já de si algo que não está profundamente correcto -, e a predominância da crise económica e financeira, do desemprego e da desigualdade causa extremos desafios à Europa e à capacidade de reavivar as questões centrais do seu desenvolvimento. Por isso, vão estar sobre a mesa todas as questões a que a Aliança se dedica ,e, portanto, os governos terão alguma responsabilidade em assegurar que a actividade da Aliança se faz no sentido das tomadas de posição em termos de agenda política que os governos devem tomar.

Pela sua experiência, esta crise do sistema económico capitalista terá solução?

As crises tiveram sempre solução, e há quem diga - o professor Stiglitz - que as temos sempre a cada dez anos, mas nunca aprendemos com a anterior. A grande dificuldades está, no caso europeu, num conjunto de desafios centrais que têm que ver com lideranças, combate à introversão das soluções e à dificuldade em assumir a multilateralidade e a necessidade delas.

Tem muito que ver com a economia?

Há algo de profundo no sistema financeiro e há necessidade de se fazer a sua regulação, porque não podemos fazer mais do mesmo, está esgotado. Não é possível ter uma total discrepância entre a economia real e a economia financeira que já provou ser dramática. Esta questão, que agora se debate na agenda do G20 e se vai debater nas divergências entre os EUA e a Europa, já é patente quanto à necessidade de uma certa regulação. As divergências que houve e está a haver no eixo franco-alemão suscitam junto da Comissão a necessidade de acelerar os projectos relativamente à própria regulação. Eu acho que há não só que voltar aos valores funcionais do que foi afinal de contas a União Europeia, sem embargo da imensa diferença que hoje tem, porque o alargamento foi um preço essencial para a paz. Vivemos na ânsia da paz, o alargamento é consequência disso.

Que medidas devem ser impostas?

Temos de ter uma política energética que não se dirija só às novas fontes de energia, mas que assegure à Europa fontes diversificadas e não totalmente dependentes de energia. Também uma política activa sobre as alterações climáticas que mantenham o balanço que tínhamos levado até Copenhaga. No fundo, são verdadeiras exigências que estão à nossa frente, mas precisamos para isso de saber derrotar o que são os terríveis paradoxos do nosso tempo. Os conservadores servem o mercado - eu não sou antimercado -, mas o mercado deu--nos graves lições porque não soube tratar o interesse colectivo. Se o mercado não traz justiça, nós - incluo--me na vertente progressista e não esqueço todos os dias as minhas energias de filiação - queremos que os mercados sirvam as pessoas. É curioso que os fautores da crise e os seus representantes políticos tenham sido nas mais recentes eleições reconfirmados.

Não estranha que a Comissão Europeia, nomeadamente o presidente Durão Barroso, não exiba uma outra atitude perante a crise?

O presidente Durão Barroso e a sua Comissão têm de responder rapidamente à carta que receberam da chanceler Merkel e do Presidente Sarkozy para apressar a regulação europeia, nomeadamente em relação ao mercado financeiro. Gos-taria muito de ver uma Comissão mais propositiva e mais arriscada, porque ela nasceu da necessidade de representar todos os países, e não podemos - nós, portugueses - assistir de braços cruzados à consagração de directórios.

O que pode Portugal fazer?

Temos de romper necessariamente com este círculo vicioso, através de muito trabalho, na forma como se organizam as políticas públicas; tornarmo-nos mais eficazes em termos de administração pública; dispensar o desperdício e olharmos para o que devem ser os trabalhos essenciais para uma repartição que seja mobilizadora. E aqui digo alguma coisa sobre Portugal, independentemente dos discursos recentes e da importância das afirmações do Presidente da República. É positivo que haja entendimentos, e eu já os advogo há mais de um ano. Até dei uma entrevista em que o título foi um pouco mais além do que eu tinha dito - falava de "bloco central" -, mas nessa altura senti como crucial a necessidade de se fazerem compromissos.

Entre os partidos?

Não só entre partidos. Precisamos de ter muito maior concertação e que ela se verifique todos os dias a sério. E precisamos também de ter uma plataforma social transversal que mobilize actores diversos - partidos, agentes sociais e empresariais - para medidas determinadas. Se não o fizermos, qualquer medida que se tome é sempre confrontada com o silêncio. Podemos escolher dez exemplos de reformas estruturais cruciais que precisam de ter uma frente ampla de sustentação que não seja só partidária! Essa frente ampla implica uma laboriosa e participativa discussão com os actores sociais que, não sendo assim, se lhes vão opor, esquecendo que a situação do País é efectivamente muito grave.

Mas como se consegue essa concertação?

Com uma enorme paciência, explicação e publicidade em relação àquilo que se está a fazer e se pretende. Devo dizer que em Portugal é muito difícil, porque temos amanhãs que cantam mas que não são alternativas exequíveis num momento de grande preocupação sobre a sustentação do nosso país em termos económicos e financeiros.

Refere-se às medidas, por exemplo, propostas pelo PSD?

Acho que não podemos estar sempre a pensar qual é a percentagem que temos amanhã, mas sim que hoje há algo de muito mais importante: a sustentabilidade do nosso país na economia e nas finanças. Entrámos para o quadro do euro, todos se sentiram à vontade, desde os cidadãos ao crédito bancário, e agora, ao contrário, temos de fortalecer os bancos com poupança e ver como é possível dar apoio às empresas que estão disponíveis para crescer e investir nas que estão em dificuldade.

Como é que se sabe o que fazer?

É preciso que a clareza do diagnóstico não se confunda com uma luta partidária às terças e quintas e que a assunção colectiva das medidas de emergência necessárias sejam a de qualquer um que estivesse no poder. Se o diagnóstico foi tardio ou não, isso é para uma próxima campanha eleitoral, porque agora temos de ter a noção de que tudo quanto dissermos é observado à lupa. É preciso reforçar a visão multilateral europeia de soluções globais e que a agenda portuguesa seja absolutamente clara quanto às forças mobilizáveis. E há-as muito! Estou sempre convencido de que os portugueses, com boas explicações, fazem um consenso mais alargado, até porque os amanhãs que cantam não têm saída imediata. Nem sei se terão.

Não é a visão do PSD, que começa a pensar que a qualquer momento…

Eu tenho confiança que os responsáveis pelo PSD, não apenas o seu líder, mas o seu núcleo de consultores económicos, tenha suficiente influência. O mesmo se aplica ao PS, que é o meu partido, para a necessidade de ter um trabalho constante. Nesta altura, as pessoas não se podem encontrar mês a mês, como acontece na Concertação Social. Eu teria a Concertação Social todos os dias aberta e reuniões diárias entre o PS e o PSD e outros partidos que se quisessem juntar, sectorialmente ou não. É perfeitamente possível encontrar plataformas de composição diversa em relação a sectores essenciais; precisamos de respeitar mais as leis do trabalho e dar guarida àqueles que precisam de capital de risco para lançar iniciativas de progresso.

Foi presidente da UCCLA (união das capitais de língua portuguesa). Acha que a difusão da língua portuguesa merecia mais apoio?

Não tenho dúvidas! Aliás, confesso que fiquei feliz por ver que, numa entrevista recente à actual responsável do Instituto Camões, se defendia não só o apoio ao português como língua estrangeira, mas também o desenvolvimento dos Institutos Camões, como centros de rua, porta aberta para o público, ideia que sempre defendi. Aliás, em 2004, aquando da minha visita de Estado a França, apoiei o lançamento de uma campanha inovadora - jeparleportugais.com - que visava precisamente promover o português como língua estrangeira em que valia a pena apostar. Na altura desenvolveu-se um site, prepararam-se brochuras, outdoors…

A comemoração do Centenário da República desperta-lhe atenção?

Sim, não só porque o programa me parece rico e variado, mas também porque sem memória histórica é difícil conceber um futuro sustentável para um povo.

In DN


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Romy

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MensagemAssunto: Ministra: função pública terá aumento igual ao da inflação   Dom Jul 18, 2010 10:46 am

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Ministra: função pública terá aumento igual ao da inflação

por JOÃO CÉU E SILVA
Hoje


Ministra Helena André tem uma máxima: "Mais concertação e menos contestação." Considera que "há sempre solução para tudo" e elogia o "animal feroz" como um primeiro-ministro determinado e profundo conhecedor das matérias de todos os ministérios.

Do alto do seu gabinete, a 50 metros de altitude, vê Lisboa inteira e até o Terreiro do Paço, onde o ministro Teixeira dos Santos regula o fluxo financeiro que a crise permite aumentar ou diminuir na gestão do País. Evita intrometer-se nas matérias de outros ministérios, mas não se proíbe de criticar o atraso dos sindicatos, a falta de formação de muitos empresários e o desconhecimento do Código do Trabalho por quem o devia saber.

Até 2013, tem de cortar 1% do PIB na despesa social. Como vai conseguir fazer isso?

O nosso objectivo é conseguirmos chegar a 2013 com os níveis de despesa social que tínhamos, ainda um pouco superiores, antes da crise. Portanto, não estamos a fazer nada que seja profundamente revolucionário, mas sim a tentar procurar - e espero que essa seja a realidade, independentemente das perspectivas - ler alguns sinais de recuperação económica para podermos voltar ao regime antes da crise.

Mas 1% do PIB é quase inalcançável!

É uma questão de utilizarmos melhor os recursos que temos à dis-posição. Estamos neste momento a equacionar a forma de pôr tudo isso no terreno, mesmo tendo a noção que algumas das políticas terão alguns efeitos nessa matéria.

Há alguma cartola onde se consiga fazer esse passe de mágica?...

Com uma melhor gestão dos recursos disponíveis! Através de algum emagrecimento de despesas de administração em certos sectores onde será possível fazer economias.

Tal como os anunciados cortes nos salários da função pública?

O que acontece é o congelamento dos salários da função pública. Sobre isso também é importante termos a noção de que, ao contrário do que se passou na maior parte dos países da União Europeia - onde houve efectivamente cortes, e nalguns foram muito rigorosos não só nos salários da função pública como nas pensões -, Portugal optou por uma via em que há um congelamento de salários e não cortes. Não façamos futurologia, neste momento o que há é um congelamento dos salários.

Um congelamento que, com a inflação prevista de 1,4%, com aumento zero, será um corte salarial?

Não, porque há o ajustamento à inflação.

Portanto, vai haver no mínimo 1,4% de aumento?

O ajustamento é esse.

Esse não será o ponto de partida para as negociações. Será o final?

Esta foi a decisão do Governo em relação à política salarial para 2011. Depois, logo veremos.

Essa é uma nova realidade?

Não, é a medida que está! A medida no PEC é em relação a 2011.

Que significa que vai haver um aumento de 1,4...

O congelamento salarial é isso que implica. Não há aumentos salariais de x por cento, mas há tudo o que tem que ver com o ajustamento normal dos salários.

E esse valor já é conhecido?

Não. Aquilo que há neste momento é o congelamento dos salários.

Acha que vai conseguir negociar com os sindicatos da função pública?

Eu não negoceio com os sindicatos da função pública, é o secretário de Estado da Administração Pública que o faz. Eu não intervenho em rigorosamente nada nessa matéria, que é gerida pelo Ministério das Finanças e da Administração Pública.

Prevê-se que a bolsa de mobilidade da função pública vai crescer?

Eu não tenho que ver com tudo o que seja administração pública, é melhor cortar tudo o que tem que ver com isso.

Passemos à questão do emprego. Que medidas novas existem para combater o desemprego?

Estão em curso discussões sobre o Pacto para o Emprego, que é fundamental.

O que está exactamente em curso?

Nós iniciámos as discussões na Concertação Social sobre essa matéria no final de Maio, e neste momento estamos a definir aquilo que vai ser a agenda do Pacto para o Emprego. Procuramos sair daquilo que seria tradicionalmente um Pacto para o Emprego que se preocupa exclusivamente com questões relacionadas com o mercado de trabalho.

Designadamente?

O que temos sobre a mesa - e que temos vindo a discutir com os parceiros aos níveis da concertação social e bilateral - é a necessidade de alargarmos esta agenda da discussão do Pacto para o Emprego. O que o Governo propôs aos parceiros, com base em discussões que foram feitas com contribuições dos parceiros, foi que este pacto tivesse três capítulos. O primeiro tem que ver com inovação e competitividade, que tem que ver com o modelo do desenvolvimento económico, os constrangimentos da economia e os instrumentos. O segundo tem que ver com o emprego e as qualificações, como podemos melhorar o nível de qualificações e obter vantagens competitivas. E o terceiro tem que ver com a discussão sobre os nossos sistemas remuneração social e salarial.

Serão as três grandes linhas de retoma?

São os grandes temas que vão estar sobre a mesa e para os quais o Governo pretende ter conclusões e acções pragmáticas e objectivas. Se possível, até calendarizadas no tempo, com um compromisso entre o Governo e os parceiros para levar a cabo um determinado número de acções que possam ser constantemente avaliadas não em termos de timing e do seu impacto.

Serão essas as novas medidas?

Penso que são muito importantes, mas o Governo tem algumas propostas nessa matéria que agora não posso revelar, porque fizeram parte das discussões com os parceiros sociais. Sobretudo temos uma grande preocupação em ter um pacto que seja a resposta às necessidades da economia, das pessoas e do País. Estou a falar também das necessidades das empresas e dos trabalhadores.

É um pacto para breve?

Do meu ponto de vista, tem de ser rápido em termos de negociação e de implementação no terreno. Não serve de muito prolongar as discussões.

É para estar cá fora já em Outubro?

Gostaria imenso que sim, e vamos trabalhar nesse sentido. Temos de ter a noção de que não é um pacto para trazer ao de cima as divergências, mas que construa uma agenda positiva onde todos os parceiros estejam envolvidos em termos de execução das medidas e dos esforços precisos para que essas medidas se tornem uma realidade.

Quase parece um pacto de sobrevivência do Governo?

Não sei porque é que diz isso.

O grande problema do Governo é o desemprego e conseguir a retoma.

Esse não é um problema de um governo, é um problema do País.

E do mundo... Mas se o Governo conseguir que esse pacto canalize todas as forças sociais, poderá ter outro tipo de atitude?

Eu não espero outra atitude pela parte das forças económicas e sociais do nosso país, pois estamos num momento de encruzilhada em relação àquilo que vai ser o nosso futuro colectivo. Temos a noção de que se há coisa que a crise mostrou, é que vamos todos ter de mudar o nosso modelo de desenvolvimento económico e social do País e do mundo! E nós não podemos ficar imunes a esse grande desafio. Dou só um exemplo mínimo, que é irrelevante até, que é o da consciência que existe sobre a necessidade de proteger e preservar o ambiente. Se os parceiros económicos e sociais não tiverem essa consciência e não forem capazes de apoiar os governos na definição de novos rumos e caminhos, teremos pouco futuro enquanto sociedades!

O Pacto para o Emprego não irá basear-se na questão das energias renováveis ou ambientais?...

O Pacto para o Emprego terá de ter em consideração as energias renováveis e a protecção do ambiente obviamente. Essa é uma área de futuro e faz parte dos constrangimentos ou as possibilidades de os países terem ou não possibilidades de maior ou menor crescimento económico. Isso tem de passar forçosamente pelas nossas discussões.

Mas terá outras áreas?...

Obviamente que sim. Mas como é que discutimos uma economia mais sustentável e mais sustentada? Estas questões têm implicação na produção, no trabalho e em tudo o que é a nossa vida diária.

Não estou a entender... O Pacto para o Emprego vai em muito fixar-se na sustentabilidade ambiental?

Não, mas vai ser uma questão que tem de estar sobre a mesa. Ao falar disso, estamos a falar da economia, do social e da protecção do ambiente. Essas matérias não podem estar fora das discussões.

Junto de que parceiros sociais é que esse pacto vai ter mais fricção?

Espero que seja uma discussão tranquila dos parceiros sociais. Nas reuniões bilaterais que já tive com os parceiros - onde não esteve só o Ministério do Trabalho, porque é uma questão transversal ao Governo -, fiquei muito encorajada pela percepção clara da parte deles de que o País precisa deste tipo de entendimento. Espero uma discussão dura, mas, ao mesmo tempo, mobilizadora, porque precisamos de mobilizar a confiança de todos os agentes nas capacidades do nosso país.

E a reacção a nível partidário?

Eu penso que o Partido Socialista terá de apoiar o que for o resultado de um entendimento entre o Governo e os parceiros sociais.

E os outros partidos - PSD, CDS, Bloco, PC - entrarão nesse pacto?

Esses partidos, que também defendem muito o papel da Concertação Social - pelo menos nas discussões que tenho no Parlamento com eles -, não poderão estar contra um acordo do Governo com os parceiros sociais, antes pelo contrário.

Acredita que os sindicatos se adaptarão às novas realidades?

Se não se adaptarem, deixarão de ter muito peso nas definições das estratégias dos países. Isto não é um problema de Portugal, basta olharmos para o decréscimo de membros nas organizações sindicais, fruto de uma iniciativa neoliberal muito forte que tem sido a de enfraquecer as organizações sindicais e também fruto de uma incapacidade de resposta rápida dos sindicatos - sobretudo alguma incapacidade em antever os problemas. Os sindicatos estão à espera que as coisas aconteçam para se posicionarem, em vez de serem mais interventivos.

A CGTP tem avisado?

O que temos das organizações sindicais, principalmente da CGTP, é uma defesa intransigente dos direitos adquiridos. Aliás, uma das grandes questões que temos com a CGTP tem que ver com a revisão do Código do Trabalho e a caducidade das convenções colectivas. A CGTP está contra porque receia não ter capacidade para renegociar alguns aspectos das convenções colectivas. Esquece--se que não podemos ter em 2010 as que tínhamos nos anos 70 ou 80, tem que haver progressão e capacidade de negociar novos direitos. Mais direitos à formação, aos trabalhadores poderem conciliar a vida profissional e privada, à capacidade de se adaptarem ao local de trabalho com outras regalias. Os direitos salariais continuam a ser importantes num país com salários baixos mas não podem ser a única variante de ajustamento do mercado de trabalho.
Já se tornou famosa a sua frase: "Mais concertação e menos contestação."

Repete-a tanto, porquê?

Se calhar, ad nauseam...

Quem é que não está a participar na concertação a 100%?

Todos estão...

Quem é que está a falhar?

Temos esse grande teste sobre a mesa - o Pacto para o Emprego - que era uma proposta do Programa do Governo PS. Após este teste ter sucesso ou falhar é que direi qual é a minha avaliação sobre quem faltou à chamada na mesa das negociações. O que o Governo pretende é uma identificação de problemas comuns e que se consiga ir para além da identificação. Somos bons a identificar, mas temos dificuldade em encontrar respostas para os problemas e, principalmente, a comprometermo-nos a pôr em prática as soluções para os problemas.

Quem falha mais nesse desafio?

Em termos de concertação social, temos tido algum sucesso relativamente aos acordos tripartidos. Só que, ao analisá-los, o peso da responsabilidade do Governo na implementação é muito superior à parte dos parceiros.

São as associações empresariais que estão a aproveitar-se da crise?

Isso é o normal em todas as partes do mundo, Portugal não é diferente do que se observa na Europa.

Mas pode dizer-se que os empresários se aproveitam da crise?

Todos se aproveitam da crise naquilo que são as possibilidades de se aproveitarem, mas dizer que estão a aproveitar-se da crise é demasiado forte. No entanto, é preocupante quando ouço alguns empresários dizerem "precisamos de mais flexibilidade para organizar o trabalho", em vez de utilizarem todas as possibilidades que lhe são dadas no Código do Trabalho.

Porque é que são incapazes de utilizar as oportunidades do Código?

É melhor perguntar às associações empresariais. Vejo que há falta de informação e que não têm conhecimento de todas as possibilidades em termos de organização do trabalho e de acesso a acções de formação, até deles, pois há muitos a precisar de formação.

O Código do Trabalho não precisa de mudança?

O Código do Trabalho não deve ser mudado. Teve uma alteração profunda e consenso maioritário dos parceiros. Não podemos dar-nos ao luxo de saltar de reforma em reforma sem primeiro avaliar quais são os resultados da anterior.

Não se deve responder à crise com alterações ao Código do Tra-balho?

Não sei em que é que alterar o Código do Trabalho daria uma situação diferente da que temos. Está por provar, onde quer que seja no mundo, que a redução dos direitos dos trabalhadores com contratos sem termo é em si mesma geradora de mais postos de trabalho face aos que têm contratos a termo. Não está provado que haja relação directa entre a protecção das pessoas que estão no mercado de trabalho e a criação de emprego. Portanto, não é por aí que temos de ir, mas pela capacidade de melhorar recursos humanos e gestão empresarial e, em conjunto, ultrapassar os constrangimentos que temos.

Estamos perante um aumento do desemprego...

... Não é bem verdade.

Desceu 1,8% desde Abril, mas em relação ao período homólogo aumentou 14,6. A tendência é crescer?

Temos que ver como é que a economia se vai comportar. Como aspecto extremamente positivo, vemos que, de forma sustentada, o número de pessoas que entra no desemprego tem vindo a reduzir nos últimos meses. Isso é importante e pode ser um sinal de que há alguma retoma económica.

Mesmo a prever-se a estagnação?

Devemos tratar estes números com muito cuidado. Se olharmos para as previsões económicas de todos os institutos nacionais e estrangeiros em relação ao comportamento da economia, vemos que são muitas vezes revistas. Em alta ou em baixa, neste momento não é isso que está em causa.

No nosso caso, foi revista em baixa.

A fiabilidade dessas previsões tem de ser sempre tomada com uma grande precaução, porque o comportamento do emprego está relacionado com o da economia e a capacidade de criar postos de trabalho. O Governo não cria postos de trabalho por decreto, é a economia.

Os sindicatos da função pública consideram que negociar com este Governo não é uma coisa fácil!

Terá de perguntar ao meu colega Teixeira dos Santos, porque é ele quem faz a negociação da administração pública.

Como é a sua relação com o primeiro-ministro. Há uma conversa frequente?

Obviamente que sim, todas as questões são discutidas ao nível do Conselho de Ministros. A ideia de que cada ministro faz o que quer...

Tendo-se Sócrates autodefinido como "animal feroz", consegue expor-lhe o que pensa?

Penso que o primeiro-ministro é uma pessoa muito determinada, e é fundamental termos um primeiro-ministro com essa capacidade. É também extremamente informado e conhece profundamente o que se passa em todas as áreas de governação. Portanto, as matérias são discutidas com o primeiro-ministro naturalmente.

A dois ou em Conselho de Ministros?

A dois quando é necessário, em Conselho quando é necessário

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MensagemAssunto: "Políticas de natureza económica têm de ser escrutinadas"   Dom Jul 18, 2010 11:30 am

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"Políticas de natureza económica têm de ser escrutinadas"

por ISADORA ATAÍDE
Hoje


Um ano depois das eleições europeias, o DN apresenta durante cinco semanas a análise por eurodeputados de cada força política. Hoje, o deputado do CDS Diogo Feio explica as linhas-mestras do relatório sobre governação económica que vai ser apreciado pelo Parlamento Europeu.

Quais as linhas-mestras do relatório sobre governação económica que está a redigir no Parlamento Europeu (PE)?

O relatório tem linhas muito claras, a primeira é a necessidade da Europa a 27 ter um sistema de vigilância económica. A dívida pública é uma grande preocupação e há a possibilidade de termos um procedimento próprio para o tema. Depois, a necessidade de uma maior transparência, as políticas de natureza económica têm de ser escrutinadas pelos parlamentos nacionais e pelo PE. O governo económico é um conceito que se deve aplicar aos 27 estados e não apenas à Zona Euro. O relatório respeita a estabilidade, mas aposta no crescimento da economia através da flexibilidade do mercado, de modo a gerar competitividade e criando instrumentos comunitários.

A União Europeia deve taxar a banca, como anunciou que fará a Alemanha?

Essa é uma opção dos Estados. Só poderia ser adoptada pela UE se fosse uma opção global, caso contrário é um erro, porque o dinheiro deslocar-se-á para zonas onde não há tributação. Acho que é necessário regular os mercados, os impostos não servem para arrumar nem para sancionar.

A entrada da Estónia na Zona Euro em 2011 é positiva para a UE?

É um sinal de confiança no euro. A Estónia tem de aproveitar a entrada na Zona Euro e fazer o contrário do que se fez em Portugal, onde se passou a gastar mais e pior. É preciso atenção, porque quando um estado adere à moeda única perde o controlo sobre a sua política monetária.

Croácia e Macedónia são candidatas à UE, outros países dos Balcãs são reconhecidos como potenciais candidatos. Qual será o impacto dos futuros alargamentos?

Os alargamentos devem ser pensados em acordo com os critérios já estabelecidos. Porém, está na altura de se fazer uma reflexão séria sobre a capacidade de intervenção da UE com mais estados. Uma Europa o mais integrada possível é desejada, mas também mais ágil. Se a agilidade não aparecer, teremos efeitos negativos.

Em 2009 as eleições para o PE registaram mais de 60% de abstenção em Portugal. Trata-se de défice democrático?

A abstenção é um fenómeno que existe em todas as democracias e eleições, devemos preocupar-nos em torná-la o mais baixa possível. Em Portugal, as questões europeias vão sendo esquecidas, mas elas são de uma relevância enorme, temos de deixar de ver Bruxelas como um sítio longínquo, as decisões tomadas em nível europeu impactam o dia-a-dia de todos os países.

Cresce o poder do PE nas decisões comunitárias, o que interfere na acção dos parlamentos nacionais. Está a ser promovido o diálogo entre as instituições?

É natural que muitos temas discutidos no PE tenham reflexo nos parlamentos nacionais, assim como as decisões. Com mais competências está criada a situação para aproximar os parlamentos nacionais do europeu. Pode haver uma acção pedagógica em relação à relevância de poderes que o PE passou a ter com o Tratado de Lisboa.

Quais as propostas do seu grupo político, o Partido Popular Europeu, para o orçamento comunitário, a ser discutido no PE?

Há dois desafios pela frente: o tamanho do orçamento e as formas de financiamento. É evidente que mais competências e maior actuação política também exigem um maior orçamento.

A intervenção do PPE é no sentido de se atingir um equilíbrio entre o que é o orçamento comunitário e aquilo que são os orçamentos nacionais, tendo atenção que o actual orçamento é insuficiente para as actuais necessidades.

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MensagemAssunto: «A localização do centro escolar de Santa Maria é absurda»   Qua Jul 21, 2010 2:48 pm

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Entrevista a Paulo Xavier
Bragança



«A localização do centro escolar de Santa Maria é absurda»

No rescaldo das eleições para a Comissão Concelhia de Bragança do PSD e num momento tenso em termos de reorganização da Rede Escolar, o presidente da Junta de Freguesia da Sé, Paulo Xavier, comenta as opções da Câmara Municipal de Bragança.

Numa entrevista recheada de recados, o autarca revela que nunca sentiu abertura da parte de Jorge Nunes para dialogar acerca da política local.


Jornal Nordeste (JN): O que pensa da reorganização que está a ser levada a cabo na Rede Escolar do concelho de Bragança?

Paulo Xavier (PX): Creio que este é mais um dos casos em que tive oportunidade de ter razão antes de tempo. Enquanto presidente da Junta de Freguesia da Sé expressei, na Assembleia Municipal de Bragança, durante o debate de aprovação da Carta Educativa, as minhas reservas acerca das opções preconizadas pela Câmara e pelo Conselho Municipal de Educação em torno da localização e dimensão dos novos centros escolares. Acredito hoje, como acreditava na altura, que esta opção de construir estas infra-estruturas não vem responder às necessidades das nossas comunidades educativas. A localização do centro escolar de Santa Maria é absurda e este equipamento encontra-se sobredimensionado, não servindo nem as famílias nem os alunos. No que se refere ao centro escolar da Sé, é exíguo para as necessidades da minha freguesia, que contínua a ter jardins de infância e escolas do 1º ciclo instalados em contentores, que, ao que parece, vão sobreviver a mais esta reforma da rede escolar! É inacreditável que uma “ecocidade” tenha crianças acomodadas nestas condições em pleno no Século XXI.

JN: Então não admite que estas crianças venham a ser encaminhadas para o Centro Escolar de Santa Maria?

PX: Não gostaria que tal acontecesse, mas creio que a decisão deve ser dos pais. A Câmara deve proporcionar às famílias respostas educativas próximas da respectiva área de residência. As crianças não podem ser responsabilizadas e pagar os erros e opções políticas de outros. Os alunos não podem servir para justificar absurdos e corrigir erros. Esta freguesia sempre se oporá à política de “encher” equipamentos mal pensados!

JN: A Associação de Pais do Agrupamento Augusto Moreno promoveu um abaixo-assinado, contestando o possível encerramento da Escola do Toural. Apoiou esta iniciativa?

PX: Creio que esta iniciativa, que desde o seu início teve o apoio e solidariedade da Junta de Freguesia da Sé, revela o estado de amadurecimento e consciência cívica que se desenvolveram em Bragança, nos últimos anos, e serve de exemplo para outras matérias. Aliás, penso que a causa da Associação de Pais tem mérito e devia ser acolhida, pela Câmara Municipal e pela Equipa de Apoio às Escolas, que deveriam abraçar uma estratégia de diálogo e concertação de posições, em defesa dos interesses das crianças e suas famílias. Não consigo compreender como puderam os responsáveis locais perder tanto tempo em troca de acusações públicas, alijando responsabilidades, em vez de coordenarem esforços na defesa dos interesses do concelho, que, em ambos os casos, estão muito acima dos interesses partidários e vaidades pessoais.

JN: Acredita que a escola do Toural vai encerrar?

PX: Acredito que prevalecerá o bom-senso. Não faz sentido que se encerre uma escola, recentemente requalificada e com boas condições, e se mantenham abertas as escolas com salas em contentores. Aliás, a senhora ministra da Educação afirmou que só encerrarão as escolas que mereçam a concordância das Câmaras Municipais. Assim, não creio que a Câmara de Bragança, tendo gasto muitos milhares de euros na escola do Toural, dê luz verde e concorde com o encerramento deste equipamento.

“Não faz sentido que se encerre uma escola [do Toural],
recentemente requalificada
e com boas condições, e se mantenham abertas as escolas com salas em contentores”

JN: Concorda com os critérios que são usados para encerrar escolas no concelho, nomeadamente o número de alunos?

PX: Acredito que todas as reformas e mudanças tendem a ser polémicas e a gerar resistências. Entendo, porém, que sempre que as mudanças ajudem ao desenvolvimento e prosperidade das comunidades locais devem ser debatidas e explicadas para que se gerem os maiores consensos possíveis. No caso vertente, nem o Estado nem as autarquias municipais têm procurado explicar às pessoas o sentido das reformas, apresentando a questão do encerramento confrontada com a mera questão do não encerramento. Nesta matéria devemos ser mais exigentes e nesse sentido devemos procurar compreender o que melhor pode servir os interesses das crianças e das suas famílias, designadamente na dinâmica do processo de ensino/aprendizagem. Esse deve ser o nosso critério de prioridade.

JN: Mas compreende a posição da Câmara Municipal de Bragança neste processo?

PX: Com toda a honestidade, eu ainda não percebi, sequer, se a CMB tem uma posição. Repare, a Câmara no âmbito da sua intervenção na Associação de Municípios da Terra Fria e da Comunidade Intermunicipal de Trás-os-Montes concorda com o encerramento de escolas com menos de vinte alunos. Mas, à comunicação social, em Bragança, protesta contra o encerramento de algumas escolas que têm menos de vinte alunos. Não faz sentido! A CMB deve ter uma posição séria e rigorosa nesta matéria, procurando concertar soluções entre os estabelecimentos de ensino, as famílias e a Administração Central. Até ao momento ainda não o fez, até porque a premissa inicial para que isso possa acontecer passa pela clarificação da posição municipal, que pelas razões que referi é pouco mais do que errática e incoerente.

JN: Revê-se nas posições assumidas pelos seus colegas presidentes de Junta?

PX: Compreendo as posições dos meus colegas como sendo corajosas e consentâneas com a vontade maioritária das suas populações. Mas penso, também, que este processo de reorganização da rede escolar terá que servir para reflectir acerca de assuntos fundamentais para a governação das nossas terras. Penso que os presidentes de Junta de Freguesia deveriam ter sido chamados há muito tempo para debater as questões relacionadas com a evolução da rede escolar no concelho e a própria estratégia educativa municipal.

JN: E isso não aconteceu? Porquê?

PX: Não. A primeira de todas as razões prende-se com o facto de não ser habitual auscultar previamente todos os presidentes de Junta antes da tomada de posições. É pena, porque o nosso contributo poderia ser valioso, pela proximidade que temos com as pessoas. A segunda razão prende-se com a necessária reflexão em torno de um problema mais profundo que consiste na morte lenta das nossas comunidades, apesar de termos vivido, nos últimos 13 anos, o maior ciclo de investimentos no nosso concelho!

JN: Já que falou em investimentos, pergunto-lhe se concorda com as obras realizadas pela CMB nos últimos anos?

PX: Naturalmente que sim. Passei os últimos doze anos a defender muitos dos investimentos que a CMB vem concretizando. Fi-lo na Assembleia Municipal e fi-lo junto dos nossos concidadãos, ao lado de António Jorge Nunes, que tenho a honra de acompanhar neste percurso autárquico. Mas o facto de ter apoiado e continuar a apoiar a estratégia do Eng. Nunes para a cidade e para o concelho, nunca me impediu de pensar pela minha cabeça e de ter um espírito crítico. Por isso, aponto, de forma leal, os erros e faltas de oportunidade, sempre que se justifique.

JN: Mas as suas relações com o Eng. Nunes tornaram-se mais tensas depois do último processo autárquico…

PX: Repare que no último processo autárquico eu desempenhava as funções de presidente do PSD/Bragança e, assim sendo, tinha a responsabilidade de procurar representar e defender até ao limite os interesses do PSD. Sempre entendi e continuo a entender que não vale tudo para ganhar, a todo o custo, eleições, por isso dialoguei e debati com Jorge Nunes, por vezes com grande intensidade, em torno da estratégia eleitoral e autárquica. É natural que desses momentos se gerem algumas distâncias, mas encaro isso com normalidade.

JN: Há quem atribua esse distanciamento à sua intenção de ser vereador na Câmara…

PX: Sinto-me e sempre me senti bem no meu papel de presidente de Junta de Freguesia da Sé, junto das pessoas que me elegeram e que considero minhas amigas. Mas acerca da eventual ida para vereador, em torno dessa questão criou-se uma mistificação que serviu, apenas, o propósito oculto de alguns, que talvez um dia mais tarde possa explicar melhor. O que lhe posso dizer, no entanto, é que não tendo sido convidado para integrar a lista da Câmara Municipal, recusei todos os convites que me foram feitos para ingressar nos mais diversos cargos e gabinetes da autarquia municipal.

JN: Ao longo dos últimos quatro anos liderou a estrutura local do PSD. Que avaliação faz do seu mandato?

PX: Avalio de forma positiva o mandato que as duas comissões políticas concelhias do PSD, que tive a honra de liderar, exerceram ao longo dos últimos quatro anos. Foram quatro anos difíceis para o PSD e para o País, mas creio que a forma dialogante e firme como exercemos funções acabou por saldar-se em resultados positivos para o partido e para o concelho, ainda que neste momento possam não ser inteiramente perceptíveis.

JN: Que resultados são esses?

PX: Além das vitórias eleitorais que conseguimos arrecadar para o PSD nas eleições europeias, legislativas (sem o candidato que gostaria de ter apoiado) e autárquicas, neste concelho; Conseguimos abrir o Partido à sociedade civil, reforçando a nossa implantação local, com aproximadamente um milhar de militantes inscritos nesta Secção local. Mas fizemos mais. Além dos trabalhos de renovação da sede distrital, tivemos oportunidade de renovar, também, as estruturas dirigentes chamando ao exercício de responsabilidades partidárias muita gente jovem com crédito e reconhecimento no seu meio social e profissional.

JN: Sentiu na pele alguma oposição interna?

PX: Naturalmente que sim. Não é possível, em nenhuma parte do mundo, fazer mudanças ou reformas, seja de pessoas, seja de políticas, sem que haja a resistência de quem ao longo dos anos se habituou ao conforto do status quo e à certeza do imobilismo. O PSD é desde a sua fundação um partido reformista e progressista, que não se pode compadecer, na sua acção, com as resistências que alguns, com posições mais confortáveis na vida, gostariam de garantir. A política não pode servir para que alguns possam afirmar-se na escala social, deve servir para a concretização de uma sociedade mais justa e perfeita. Foi neste princípio que, tal como Sá Carneiro, alicerçamos a nossa acção ao longo dos últimos quatro anos.

“Recusei todos os convites que me foram feitos para ingressar nos mais diversos cargos e gabinetes da autarquia municipal”

JN: Sentiu que os autarcas eleitos para a Câmara Municipal compreenderam e apoiaram a sua visão?

PX: Não creio que a Câmara, enquanto tal, tivesse que compreender ou apoiar a visão do líder do PSD/Bragança. No entanto, sempre entendi que os militantes com responsabilidades governativas no nosso concelho deveriam ter para com o PSD maior reconhecimento. Os partidos, não podem servir apenas de comités eleitorais para a distribuição de bandeiras e esferográficas. A relação entre os autarcas eleitos pelo PSD e o próprio PSD deve ser de colaboração, respeito, diálogo e solidariedade recíprocas, para a concretização do projecto político que não é de ninguém em particular, mas dos homens e mulheres do PSD e, também independentes, que se associaram à proposta social-democrata para o nosso concelho.

JN: E da parte de Jorge Nunes, teve alguma solidariedade?

PX: Não, nunca senti da parte do militante Jorge Nunes qualquer solidariedade ou abertura para dialogar acerca da política local. Fica a ideia que a execução do programa do PSD consiste num projecto pessoal de poder.

JN: Foi por esse motivo que não se recandidatou à liderança do PSD?

PX: Não, não foi por essa razão. Apesar dos estatutos do partido admitirem a minha recandidatura, sempre disse que só cumpriria dois mandatos, de forma consecutiva. Eu sempre fui e continuarei a ser um homem de palavra. Se afirmei que só cumpriria dois mandatos consecutivos, só tinha que o fazer.

Jornal Nordeste, 2010-07-21
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MensagemAssunto: Entrevista com Americo Pereira, presidente da Câmara de Vinhais   Sex Jul 30, 2010 2:36 pm

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«O Parque nada nos dá»
Vinhais



Entrevista com Americo Pereira, presidente da Câmara de Vinhais

Apesar de ser eleito pelo partido do Governo, o presidente da Câmara Municipal de Vinhais, Américo Pereira, é o mais crítico autarca da região face às políticas de ordenamento traçadas pelo Governo de José Sócrates.

Garante que não há qualquer ruptura com o partido, mas fidelidade à população que o elegeu. “Não sou nenhum cordeiro nem muito menos carneiro. Só sigo o rebanho quando está no bom caminho, mas não é o caso”, avisa.
Em rota de colisão com o ICNB, o edil recorda que “se a natureza e a biodiversidade estão conservadas como estão, é porque os nossos pais e avós souberam fazer esse trabalho bem feito (…) não foram precisos doutores para lhes explicar o bom uso do solo”.


Jornal Nordeste (JN): O assunto “áreas protegidas”, planos de ordenamento dos parques e taxas parece que está mais quente que o próprio Verão?

Américo Pereira (AP): Muito mais quente e muito mais actual. Há todo um conjunto de legislação que teve o seu início com o Governo de Durão Barroso e que este Governo deu continuidade, que prejudica gravemente todo o interior do País, nomeadamente as regiões integradas em áreas protegidas, como é o caso do Parque Natural de Montesinho que integra os concelhos de Vinhais e Bragança.

JN: Em termos práticos, quais são os principais problemas?

AP: A questão é muito complexa e por isso tem que ser bem “esmiuçada”. O problema não tem nada a ver com os dirigentes, não tem a ver com a direcção do ICNB, com os dirigentes dos Parques e muito menos com os funcionários. Aliás, quero-lhe dizer que da parte dessas pessoas, até tem havido uma grande abertura e um relacionamento normalíssimo.
O problema começa exactamente quando se fez uma Lei (novo regime da biodiversidade e organização do ICNB) que aponta para uma forte limitação de todo o tipo de actividades, que restringe o aproveitamento das terras, que dificulta ou quase restringe a construção em zonas rurais e que conduz à desertificação. E portanto os pontos da discórdia são três, fundamentalmente: necessidade das populações participarem na gestão das áreas protegidas, restrições às actividades económicas e agrícolas e taxas aplicadas pelo ICNB.

JN: Quer com isto dizer que as populações continuam a não participar na gestão das áreas protegidas?

AP: Exactamente. No regime jurídico anterior as populações, através dos seus legítimos representantes que são os autarcas, participavam na gestão, na direcção do Parque, acompanhando e decidindo os processos. Hoje isso acabou. Com a reorganização do ICNB, o Parque de Montesinho deixou de ter uma direcção e depende de uma direcção sedeada em Braga, ao mesmo tempo que nós não somos ouvidos nem achados. Já está a ver o que isto dá. Quando se deveria caminhar para um processo de decisão de proximidade, com pessoas que conhecem a região, não, faz-se ao contrário. Por outro lado, não se percebe como é possível intervir em milhares de hectares que são propriedade privada, sem que os donos dos terrenos tenham uma palavra a dizer. Sinceramente não percebo como é possível um senhor em Braga dizer a um agricultor da Mofreita, por exemplo, que não pode transformar um lameiro num souto de castanheiros, e ainda lhe aplicar uma taxa por querer trabalhar no que é dele. Enfim, uma tontaria…

JN: E quais os reflexos destas medidas nas actividades económicas e na construção?

AP: Aí as coisas são ainda mais graves. Se alguém quiser construir um estábulo ou uma casa fora do perímetro urbano, está tramado. O índice de ocupação do solo baixou, tem que ter pelo menos um terreno com 2 hectares e tem que ser agricultor e contar ainda com a RAN, REN, etc, etc.
A maior parte dos paí­ses da Europa têm e aplicam medidas que visam a coesão social, o combate às assimetrias regionais e algumas dessas medidas, passam pela ocupação dos solos rurais, pelo incremento da agricultura nas zonas de montanha, pelo fomento de segunda habitação, marcando assim a diferença no que diz respeito à qualidade de vida. Aqui acontece exactamente ao contrário.
Tudo está preparado para que as pessoas abandonem os campos e as zonas rurais. Como se isto não chegasse, avançam com um conjunto de taxas que as pessoas têm que pagar pelo simples facto de terem que pedir parecer ao Parque para realizarem em uma simples festa numa aldeia, taxa essa que custa mais que os foguetes da festa, ou para vedar um lameiro, por exemplo.

“Com a reorganização do ICNB, o Parque de Montesinho deixou de ter uma direcção e depende de uma direcção sedeada em Braga, ao mesmo tempo que nós não somos ouvidos nem achados”

Alguém percebe que os próprios proprietários, os residentes, tenham que pagar para utilizarem normalmente o que lhes pertence?
Quando se paga uma taxa recebemos algo em troca. Ora, não há nada a pagar ao Parque porque nada nos dá.

JN: Acha que a preservação da natureza e da biodiversidade é compatível com qualidade de vida e com o desenvolvimento económico?

AP: Claro que é, nem pode ser de outra forma. Parece-me até que viver no Parque deveria ser uma espécie de pequeno luxo, algo de muito bom e desejável, mas na verdade é exactamente ao contrário. O que vejo é toda a gente descontente.
Se a natureza e a biodiversidade estão conservadas como estão, é porque os nossos pais e avós souberam fazer esse trabalho bem feito, utilizando e cultivando as terras muito mais que agora, com uma pressão muito maior e não precisavam de planos de ordenamento nem de leis. Não foram precisos doutores para lhes explicar o bom uso do solo.
De uma vez por todas há que perceber que os mais interessados na conservação da natureza são as próprias pessoas que residem nos parques e os autarcas, que em vez disso são tratados como uns criminosos que não sabem o que fazem.

“Sinceramente não percebo como é possível um senhor em Braga dizer a um agricultor da Mofreita que não pode ­transformar um lameiro num souto de castanheiros, e ainda lhe aplicar uma taxa por querer trabalhar no que é dele”

JN: Qual tem sido o papel da Associação Nacional de Municípios em todo este processo de contestação, em especial da secção de municípios com áreas protegidas, da qual é presidente?

AP: Este já é um problema nacional. Não conheço nenhum município que se reveja nesta actual legislação, exactamente porque todos concordamos e grandes especialistas também, que este não é o caminho, pois empobrece as regiões e não protege a natureza. Os territórios só são territórios se tiverem pessoas e que desenvolvam actividades agrícolas e económicas rentáveis que lhes permitam ter qualidade de vida. E nessa medida a secção de municípios com áreas protegidas tem feito uma grande pressão, várias reuniões e apresentou propostas, no sentido de demonstrarmos que estamos todos do mesmo lado, embora com opções de trajecto diferentes.
Da parte da Senhora Ministra do Ambiente tem havido uma grande abertura e neste momento está aberta a porta para alterar os Planos de Ordenamento e demais legislação nomeadamente as taxas.

JN: O senhor é um militante do partido do Governo, mas tem sido o autarca da região mais activo no combate às políticas de ordenamento traçadas pelo governo de José Sócrates. Há aqui alguma ruptura?

AP: Sou militante do PS com provas dadas de grande empenho como demonstram os resultados eleitorais alcançados em Vinhais, mas não sou nenhum cordeiro nem muito menos carneiro. Só sigo o rebanho quando es­tá no bom caminho, mas não é o caso.
Aliás, o próprio presidente da Federação do PS, em tempos, foi claro ao discordar publicamente do Plano de Ordenamento do Parque. E não se trata de pessoas, pois o Governo está disponível para mudar a legislação. O problema é que em consequência de uma reestruturação legislativa, repito, iniciada e delineada pelo governo de Durão Barroso, foi-se longe demais na regulamentação das directivas comunitárias e agora temos isto.
Quero até dizer-lhe que qualquer autarca ou cidadão responsável, e perante o que se está a passar, não pode ficar calado nem quieto. É uma questão de consciência e de responsabilidade política. Afinal porque se estão a fazer as estradas, os saneamentos e todas as outras obras nas zonas rurais, se ao mesmo tempo não permitimos que as pessoas aí residam? É um contra-senso e algo que jamais aceitarei.


Jornal Nordeste, 2010-07-29
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MensagemAssunto: "Mérito de encontrar solução para a Vivo foi da PT"   Dom Ago 01, 2010 4:08 pm

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"Mérito de encontrar solução para a Vivo foi da PT"

por JOÃO CÉU E SILVA e NUNO SARAIVAHoje


Após o anúncio do meganegócio com a Telefónica, no dia em que se celebravam 12 anos sobre a compra da Vivo, o presidente executivo da PT revela os bastidores da maior disputa em que uma empresa portuguesa esteve envolvida. A intervenção do Governo, a diplomacia económica e a luta dos accionistas.

A venda da Vivo e a entrada na Oi foi um melhor negócio para os accionistas do que para a PT?

PT é dos accionistas, que numa Assembleia Geral decidiram que deveriam vender a Vivo a um valor x. Provavelmente, a 6,5 mil milhões teriam decidido não vender.

Mas foi um bom negócio para a PT?

Sim, porque vendeu-se a Vivo por um valor que é reconhecido por todos como extremamente atractivo e houve uma realização de valor importantíssima para a PT.

Mas não venderam pelo valor que estava proposto...

Venderam mais alto ainda! Correu-se o risco de ficarmos numa situação em que a PT pudesse até vender aquele activo mais baixo quando a Telefónica retira a proposta. Uma parte do mercado ficou preocupada também que com o processo de litigação pudesse resultar nisso.

Foi o seu caso?

Eu não fiquei preocupado porque desde o início considerámos que as ameaças que tinham sido feitas pela Telefónica não passavam de táctica negocial. Temos estilos diferentes - ninguém pode levar a mal - e o deles pautou por ser um discurso bastante hostil. Achámos que era táctico o não terem dado uma extensão à PT quando o Conselho de Administração solicitou mais 12 dias.

Esses 12 dias foram um risco calculado porque sabia que o diálogo não estava interrompido?

Sabíamos que tínhamos de resolver isto rapidamente, porque sendo estas empresas cotadas não podemos ter processos como este abertos por um tempo indeterminado. A incerteza no mercado gera desconto, e este destrói valor. Como a Telefónica trabalha para criar valor, e o caminho da litigação iria destruí-lo, seria penoso para ambas as partes fazê-lo.

Mesmo com valores tão altos em jogo?

Porque iria fazer que a Vivo fosse impactada e a Portugal Telecom iria fazer tudo para que tal não acontecesse. A situação de os dois accionistas controladores não se entenderem iria ter reflexos no negócio, até porque o Brasil é muito competitivo e podia levar à perda de quota e de valor da Vivo. Por isso, tínhamos de ser rápidos, para um lado ou para o outro.

No dia do veto da golden share, entendeu que Ricardo Salgado não se posicionaria contra mas que poderia convergir numa solução futura?

Somos uma empresa cotada e há uma gestão profissional. Eu fui bastante claro: a golden share é um tema do Conselho de Administração da PT e, nesse contexto, temos de ser fiéis aos nossos valores. Que são muito claros: a empresa é dos accionistas e temos de respeitar os estatutos da PT e a independência dos vários órgãos. Neste caso, o que se viu foi que a Mesa da Assembleia Geral teve um entendimento diferente do do Conselho de Administração.

Deixou sempre perceber que esta operação não era do género em que a golden share deveria ser accionada!

Não é uma opinião minha mas do Conselho de Administração da PT. O primeiro-ministro até deu uma entrevista ao El País em que diz que respeitava a minha opinião - leia-se, do Conselho - mas também temos de respeitar a dele. No fim, a opinião que importa é a do presidente da Mesa, que considerou que a golden share seria aplicável.

Acha que a utilização pelo Governo da golden share poderia ter sido prejudicial para o negócio?

O que posso dizer é que o que anunciámos [a venda da Vivo] esta semana foi bem recebido pelo mercado. Que incorporou duas coisas muito importantes: o valor oferecido pela Telefónica é extremamente generoso, provavelmente o mais alto já pago no sector das telecomunicações; e a Comissão Executiva e o Conselho de Administração tudo fizeram para encontrar uma boa solução para todos e viabilizou a transacção que os accionistas tinham votado.

Com o empurrão da golden share?

A golden share permitiu estarmos com um preço em cima da mesa que é melhor do que o que esteve na Assembleia Geral. Permitiu também colocar a fasquia alta porque é preciso garantir escala para a PT, e a transacção da Oi resolve esse problema estratégico. Por isso, o mercado elogiou tanto o negócio.

A venda da Vivo não se consumaria imediatamente. A PT não teria, com ou sem veto, tempo para se posicionar na Oi?

No mundo dos negócios, o timing é das coisas mais importantes que existem. A Oi estaria lá sempre, mas se a PT não tivesse tomado uma decisão rápida talvez iniciássemos um processo de litigação com a Telefónica por três a cinco anos e não tivéssemos oportunidade para poder fazer nada. O que se viu foi que a Portugal Telecom sempre negociou a venda da Vivo numa posição de força porque nunca quisemos vender a Vivo; sempre considerámos o Brasil estratégico e não precisamos de dinheiro.

Quando deixou a Vivo de ser um activo essencial para a PT?

A Vivo nunca deixou de o ser. Houve uma oferta irrecusável por parte dos accionistas da PT, e ninguém deve levar a mal o que eles pensam.

Enquanto defendia o interesse accionista, resistindo à pressão do preço da Telefónica, gostou de ver Ricardo Salgado e Nuno Vascon- celos a falar com a Telefónica em paralelo?

Não vou comentar esses temas, e acho que muito já foi dito sobre isso.

Não fragilizou a posição da PT?

Não. Os accionistas quando falam é para fazer bem às empresas nas quais têm capital. Por isso trabalho sempre com base nos pressupostos de que a empresa é dos accionistas e que estamos cá para os servir.

Nem se sentiu incomodado?

Nada! Acho que neste processo o Conselho de Administração mostrou um nível de coesão exemplar num período muito enervante, porque estamos a falar de muito dinheiro. As pessoas falam com alguma ligeireza sobre "podia-se dizer não a isto ou àquilo" mas há imensa gente que tem muito dinheiro investido na PT, para além do interesse estratégico da PT para o País.

Notou-se alguma divergência entre as suas posições e as de Henrique Granadeiro.

Não, nunca. Estivemos sempre de mão dada. Naturalmente que Henrique Granadeiro é na PT a pessoa que mantém a relação com a golden share e o âmbito de preocupação que tem é mais abrangente do que o meu nesse aspecto. Acho que temos uma convivência até bastante atípica de chairman/CEO porque já foi meu presidente, eu já fui presidente dele, e fomos colegas. Ou seja, estivemos nas trincheiras juntos e sem o formalismo que caracteriza essas relações noutras empresas.

A relação com a golden share por parte de Henrique Granadeiro facilitou a concretização do negócio?

O presidente da Mesa da Assembleia Geral considerou que o artigo 15 era aplicável e a golden share foi exercida. Definiu um objectivo, expressou uma preocupação. O que nos cabe fazer? Ser pragmáticos, ir para o terreno e dizer "como consigo endereçar estas preocupações?" Fizemo-lo e acreditamos que a Oi pode ser uma solução. Talvez não seja a única, mas no mercado brasileiro acreditamos que será.

Diz que a activação da golden share serviu para aumentar o preço e dar tempo à PT para se organizar no sentido de arranjar uma alternativa de escala e crescimento no Brasil. Isso teria acontecido sem o seu uso?

No mundo dos negócios, há sempre um tempo para as coisas acontecerem. Hoje, estamos confrontados com um facto e não faz sentido especular mais sobre isso. O facto é que em 30 dias foram criadas condições para a PT encontrar uma solução que agradou a todas as partes. Este é um mérito da PT, porque o conseguiu.

Esse não é um mérito da golden share mas da PT...

Repito, foi criada uma situação na Assembleia Geral. A solução mais simples era vender nessa altura mas, na maior parte das vezes, a solução mais simples não é necessariamente a melhor! Basta ver como a comunicação social retratou bem o resultado nesta semana, para se entender que a resolução deste tema da Portugal Telecom tem muitos vencedores. Essa é a parte positiva.

O que é muito raro num negócio desta dimensão?

Fico muito contente por poder dizer que a golden share está satisfeita porque sente que a PT é uma empresa com escala, que vai manter um projecto internacional ambicioso e que as condições que foram criadas foram suficientes para se sentir confortável com a transacção. Fico satisfeito em ver os meus accionistas a dizer "se dia 30 tínhamos vendido por um preço, agora conseguimos um ainda melhor!".

Mesmo que parcelado?

Uma parte do dinheiro vem diferida no tempo, mas conseguimos um preço de referência ainda maior! Fico contente ao ouvir os trabalhadores dizerem "as nossas cinco metas continuam intactas". Já recebi não sei quantos e-mails e sms de colaboradores a dizer "grande desafio esse da Oi, conte comigo!" Os desafios são muito bons para as empresas.

A golden share serviu, neste caso, para garantir os interesses da empresa e dos accionistas?

Não estou de acordo com essa leitura. É uma leitura malandra que está a fazer - entendo-a, mas não acho que esteja correcta. Vi alguém na televisão a dizer "têm de explicar porque é que a PT é uma empresa estratégica para o País". Essa pessoa tem de olhar para o relatório e contas da PT e ver qual é o volume de negócios e quantas pessoas empregamos directa e indirectamente! O talento não vai atrás de onde há trabalho mas de comunidades e de lugares onde as pessoas se sentem à vontade e encontram boas condições de vida.

A venda da Vivo esteve em perigo?

Quando, no dia 16, a Telefónica decidiu não estender a oferta foram muitas as pessoas que disseram que "a probabilidade de a transacção da Vivo acontecer é um terço". Quem conhece a situação da Oi sabe que a probabilidade de alguma empresa conseguir entrar naquele núcleo de controlo era mínima. Ou seja, o que estava em curso tinha uma probabilidade de 10% na melhor das hipóteses, e conseguimos fazê-lo em tempo absolutamente recorde. Nestes 30 dias encontrou-se uma solução que era boa para todas as partes e, por isso, pode dizer-se que estamos num projecto em que todos se sentem vencedores.

Que não era expectável a seguir à Assembleia Geral?

Eu disse imediatamente a seguir à Assembleia Geral: "Vamos continuar a trabalhar para fazer o melhor para todos os accionistas." Naturalmente, quando falamos de todos os accionistas não podemos descurar o accionista que tem direitos especiais, e acho que conseguimos fazê-lo também. Foi fruto de um trabalho de equipa enorme da Comissão, da Administração e também dos accionistas da PT, que ajudaram muito.

Que teve um final feliz?

E nada melhor do que o que aconteceu. Dá-me um prazer enorme ver Sócrates contente, Ricardo Salgado contente, a Ongoing contente, os meus fundos internacionais contentes... A direcção é a mesma, o caminho é outro, vamos celebrar o resultado final em vez de lamuriar. Conseguimos transformar algo que foi visto como uma contrariedade numa oportunidade para fazer o melhor para todas as partes. Vamos virar a página.

A OPA da Telefónica sobre a PT está posta definitivamente de parte ou ainda é um próximo passo?

Falou-se bastante na OPA no contexto da operação da Vivo e, num determinado momento, até deram uma entrevista no Financial Times em que afloravam essa hipótese. O tema da Vivo está resolvido, daqui a 60 dias a Vivo estará vendida, e penso que esse capítulo está encerrado. O contexto em que a Telefónica falou nisso já mudou.

Não haverá, em princípio, mais essa pretensão por parte da Telefónica?...

Uma empresa cotada está sempre sujeita a OPA! Se não demonstrarmos ao mercado e aos nossos accionistas que somos uma equipa de gestão que consegue criar valor acima da média, então teremos um problema. Se, como empresa, não conseguirmos justificar ao mercado que estamos a gerir os activos para maximizar o valor, alguém virá e fará isso melhor do que nós. São as regras do jogo.

Em que moldes a parceria com a Telefónica poderá continuar?

Será uma parceria muito mais tecnológica e diferente, não de capital.

Nem no terreno, por exemplo, Marrocos?

Nesse aspecto a Telefónica também já deu a entender que prefere ser dona dos activos a 100% ou com o seu controlo absoluto. A PT não é um investidor financeiro mas estratégico e quando investimos não é para mandar mas para poder aportar o nosso valor acrescentado.

Com a Oi, a PT passa de uma participação na empresa líder no móvel para o 4.º operador. Perde muito?

Não posso contrariar essa realidade da nossa posição agora. De facto, a Vivo é líder no móvel e a Oi no fixo, mas em 2006, quando foi a OPA da Sonae, a Vivo era um problema e queriam vender a Vivo. Dissemos que não! Nesse momento chegou a falar-se de que o único activo bom para ficar era Marrocos, e tomámos uma decisão - das mais difíceis que algum dia tomámos -, que foi dizer: "Separa-se a empresa de cabo, criamos um concorrente e mantemos a Vivo." Propus isso ao Conselho e a PT demonstrou uma característica muito rara nos incumbentes das telecomunicações: a capacidade de gestão e de engenharia. E por isso temos de ter confiança na capacidade da PT de olhar para a Vivo e acreditar que vamos contribuir com o nosso valor acrescentado nos novos parceiros brasileiros. Nós somos pagos para criar valor!

Como é que a Telefónica se defende do conhecimento da PT sobre a Vivo?

A Vivo era controlada conjuntamente. O mérito é da PT, da Telefónica, dos trabalhadores e da equipa executiva da Vivo. A PT não tem o monopólio de tudo o que foi feito...

O interesse económico na Vivo era de 29% enquanto na Oi é de 22,38%. Não é andar para trás?

A Vivo é mais pequena que a Oi- -Telemar. Por isso, quando se olha para a apropriação de resultados, é praticamente ela por ela. Há um interesse económico mais pequeno, mas a Oi é maior que a Vivo, até em termos de resultados. Deste modo, naquilo que é um dos nossos objectivos estratégicos - atingir dois terços do negócio fora de Portugal - estamos na mesma direcção, só escolhemos um caminho diferente.

Agora, é hora de os accionistas pedirem dividendos...

As empresas cotadas têm de encontrar o equilíbrio entre todos os accionistas; para as condições dos trabalhadores; nos projectos internos de responsabilidade social; garantir que pagamos a tempo e horas aos fornecedores; dar mais e melhores serviços a preços mais baratos e, naturalmente, temos de remunerar os nossos accionistas!

Os dividendos irão satisfazer os accionistas?

Prometemos 57,5 cêntimos durante três anos. Já o pagámos o ano passado, este ano vamos fazê-lo e para o ano também. Em relação ao diferencial de 3,75 mil milhões que temos pelo que a Telefónica vai pagar pela Vivo, o Conselho de Administração ainda não teve tempo de qualidade para decidir. Estes últimos cem dias foram infernais, mas o Conselho de Administração tem experiência e passado. Sempre cumprimos o que prometemos ao mercado.

Não serão distribuídos mais dividendos além dos 57,5 cêntimos?

Não é isso que estou a dizer. A forma como a PT pretende usar os 3,75 é algo que o Conselho de Administração da PT ainda vai analisar.

Poderá passar por reinvestimento?

A única coisa que dissemos formalmente é que este dinheiro poderá ser usado para múltiplos objectivos: investimento, reduzir dívida, meter no fundo de pensões, pagar dividendos... Por uma questão legal, até usámos uma definição muito ampla para o Conselho de Administração ter toda a flexibilidade e poder tomar a melhor decisão tendo em conta os interesses de todos e dos vários projectos que a PT tem.

A percepção é de que os accionistas queriam fazer dinheiro já!

Acho que essa ideia é completamente errónea. Da mesma maneira que não acredito que as soluções simples são sempre as melhores e, de facto, na Assembleia Geral da PT estávamos confrontados com uma que era muito mais simples do que a que encontrámos. Esta, no entanto, resolveu um problema de escala e estratégico que podíamos potencialmente vir a ter. Acho essa forma de falar do tema errada. Os accionistas investem nas empresas para ganhar dinheiro, mas ele tem um custo de oportunidade e tem de ser remunerado adequadamente, mas cabe ao Conselho de Administração definir as prioridades.

Os accionistas protestaram quando o Governo vetou o negócio porque não viam retorno rápido. Querem ou não ganhos imediatos?

A PT dá-se ao luxo de poder dizer que tem uma estrutura de capital relativamente estável há muitos anos, e mesmo o Estado, directa ou indirectamente - deixando de lado a questão da golden share - tem mantido desde sempre uma participação na PT de 10%. O grupo Espírito Santo é um grande aliado da PT desde sempre, nos bons e maus momentos, e nunca o vi vender uma acção quando a moeda brasileira se desvalorizou. Por essa razão, neste processo da Vivo não houve praticamente transformação da base de capital da PT.

Mas a estrutura accionista da PT vai manter-se igual ou alterar?

Eu vejo a estrutura accionista da PT como muito estável há vários anos.

Mesmo quando sai a Telefónica?

Não altera, apenas houve uma mudança de parceria estratégica. Que poderá levar a uma alteração, porque, ao abrigo do acordo que fizemos com a Oi, esta pode vir a comprar até 10% da PT.

E há a dispersão da Telefónica que aconteceu antes da Assembleia.

Dizem que venderam e, tecnicamente, fizeram-no. Hoje só têm 2%. Assim sendo, acho que a nossa estrutura de capital tem sido estável.

Ainda há o BES, a Ongoing... Vão manter-se todos?

Cada um poderá responder por si e eu não posso falar por eles. Mas também temos tido um grupo de accionistas de referência internacionais que estão na PT há muitos anos. Não devíamos qualificar português/não-português, porque existem accionistas de longo prazo e esses incluem investidores internacionais que estão no capital da PT há muitos anos.

O Presidente Lula da Silva colocou a questão da identidade nacional da Oi, e disse que vai continuar "brasileira da silva". Como é que olha para esta frase do Presidente do Brasil?

As empresas de telecomunicações em todos os mercados são empresas de referência. A postura da PT não vai contra este tipo de afirmações e, apesar de podermos nomear o presidente executivo da Vivo por direito, a PT decidiu por um brasileiro!

Roberto Lima, que ficou muito satisfeito com este negócio!

Claro! Viu realizados 7,5 mil milhões na participação da Vivo... Em 2006, 100% da empresa valia oito mil milhões, passados quatro anos um terço vale 7,5. Caramba! Foi uma forte valorização.

O sucesso desta negociação apaga a má imagem da PT no negócio falhado de compra de parte da TVI?

Esse tema foi tratado devidamente nas várias comissões parlamentares de inquérito, aonde tive o privilégio de ir três vezes e o Henrique duas. Acho que a PT prestou toda a informação e tudo o que tinha a dizer fê-lo no fórum certo - a casa da democracia. Sempre dissemos que os conteúdos são muito importantes, e a nossa visão continua a ser a de que a diferenciação na televisão por subscrição tem de estar assente em cima deles mas também de funcionalidades. Os clientes Meo nunca vão ficar prejudicados, nem que tenhamos de pagar mais caro pelos conteúdos. Continuamos a lamentar o facto de a Autoridade da Concorrência ainda não ter olhado para o tema de conteúdos com a urgência e a importância que merece.

Nos momentos de maior tensão e menor racionalidade no negócio PT/Telefónica, em algum momento pensou "estou farto disto, quero ir embora"?

Não, nunca.

Nunca teve vontade de desistir?

Não. Somos uma equipa de gestão profissional e a maior parte já trabalha na PT há oito, nove, dez anos - já estou na PT há quase 12 anos - e com paixão e convicção nas nossas ideias e objectivos claramente definidos. Pela dimensão do País, o nosso ponto de partida, temos um défice em relação a Espanha, a França porque eles são 40 milhões, 60 milhões, 70 milhões e nós um mercado de dez milhões mas não prescindimos dos nossos cinco objectivos, que retratam a ambição da empresa. E não é só na Comissão Executiva, é da empresa toda.

Não teme os desafios?

A razão pela qual nunca senti medo é porque tenho muita confiança na PT e nas pessoas que trabalham aqui. Isso permite-nos sempre colocar a fasquia bem alta e permite-me dizer sempre que não tenho plano A e plano B. Só tenho um plano, e executamo-lo. E temos uma cumplicidade com o Conselho de Administração que permite assumir objectivos agressivos e dar uma guinada ao leme para ajustar se for necessário.

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MensagemAssunto: "Crise é de tal forma grave que questiona a própria UE"   Dom Ago 01, 2010 5:09 pm

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"Crise é de tal forma grave que questiona a própria UE"

por ISADORA ATAÍDE
Hoje


A eurodeputada social-democrata Maria do Céu Patrão Neves diz que a Europa precisa de democratizar-se na participação política. E sublinha a importância do Parlamento Europeu em tempos de discussão das políticas agrícolas, das pescas e de coesão social.

Elaborou o relatório do Livro Verde sobre a reforma das Pescas. Quais os desafios da Europa neste sector?

O relatório assenta em três pilares: o económico, o social e o ambiental. A pesca é uma actividade que tem de ser rentável. Os rendimentos em geral são baixos, é preciso investir na valorização do preço da 1.ª venda e na pesca de espécies com valor acrescentado. Também é importante tornar as associações mais fortes. A dimensão social passa pela dignificação da profissão, pela atracção de jovens e pela formação profissional. A vertente ambiental é decisiva, temos de defender os nossos estoques de forma sustentável. O equilíbrio entre estas dimensões é o desafio na agenda da pesca.

Quais os ajustes necessários à Política Agrícola Comum (PAC)?

O relatório sobre a PAC para 2013 foi votado em plenário, traz os princípios gerais e traça o contexto em que o debate sobre a reforma vai prosseguir. O mais interessante é o abandono do modelo histórico de distribuição dos auxílios para o modelo dos pagamentos através do hectare. Isso é bom para Portugal, que poderá passar a ter um financiamento mais elevado - neste momento estamos em 23.º lugar entre os 27 Estados. Contudo, haverá outros critérios de correcção e a polémica vai estar neste debate. O handicap do País são as taxas de execução muito baixas, o que deixa a nossa capacidade de negociação débil.

Pensa que a Europa vive uma situação de défice democrático?

Pensar que 90% das leis são feitas pelas instituições europeias deveria convidar os cidadãos a se empenharem mais, o PE é a única das instituições constituída pelo voto directo. O Tratado de Lisboa dá mais poderes aos cidadãos, que têm a capacidade de introduzir temas na agenda através da reunião de um milhão de assinaturas. A Europa democratizou-se ao nível das estruturas e dos regulamentos, mas precisa de se democratizar ao nível da participação política.

O PE deve avançar no sentido dos eurodeputados terem iniciativa legislativa?

É uma questão muito vasta, não posso dizer sim ou não. O PE tem iniciativas não legislativas que são um factor de peso para as iniciativas legislativas da Comissão Europeia. Não podemos dizer que o PE está despido de qualquer poder. Está do ponto de vista formal, mas do ponto de vista da sua dinâmica tem influência a nível das instituições europeias.

Deve-se avançar na taxação do sistema financeiro a 27?

O Partido Popular Europeu não tomou uma decisão sobre a taxação do sistema. Parece-me que a UE tem de ser capaz de falar a uma só voz. Esse é um problema crónico, que neste momento tem que ver com a estratégia para se sair da crise económica. Esta crise é de tal forma grave que questiona a própria UE e por isso não temos alternativa senão vencê-la.

A pobreza aumentou na Europa. Quais os desafios em termos de coesão social tendo em vista os novos alargamentos?

O objectivo da política de coesão é que todas as regiões europeias aproximem-se no seu nível de vida. Torna-se claro que será necessário não apenas avaliar a taxa de execução dos fundos, mas o impacto da sua utilização na transformação social das regiões. O alargamento terá de ser feito garantindo que os novos Estados sejam integrados em equidade com os países membros. Estamos numa situação de constrangimento financeiro e orçamental que afecta o alargamento e a inclusão social nas regiões mais desfavorecidas da Europa.

Falta legislação ou recursos para que a Europa enfrente as catástrofes naturais?

Não existe défice a nível da legislação ou dos meios, mas precisamos coordenar melhor a prevenção e gestão das catástrofes naturais ou provocadas pelo homem. A prioridade será uma síntese da legislação que existe, pois está dispersa. Outra questão é a maior organização dos meios de cada Estado, com a vantagem de aumentar a rapidez e a eficácia da resposta com a redução de custos. Chamo a atenção no meu relatório para a importância de uma força civil de intervenção a nível da UE e de uma maior flexibilidade na disponibilização do fundo social.

A partilha dos valores europeus está entre as prioridades da sua família política, maioritária no PE. Quais as expectativas para a III Cimeira UE-África, prevista para Novembro?

É maioritário, mas não tem maioria absoluta. O projecto da UE só tem sentido se for de alargamento progressivo numa exigência de inclusão e equidade. A solidariedade é benéfica para todos, quer para os contribuintes quer para aqueles que recebem. À UE é essencial a abertura aos outros povos, a promoção do seu desenvolvimento social e económico. As cimeiras e os acordos bilaterais são uma parte desse caminho.

O DN continua nas próximas semanas a publicar entrevistas com eurodeputados portugueses.Próxima entrevista é com Luís Alves Paulo, eurodeputado pelo P.

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MensagemAssunto: "Nunca deixei Saramago pedir a nacionalidade espanhola"   Dom Ago 08, 2010 3:21 pm

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"Nunca deixei Saramago pedir a nacionalidade espanhola"

por JOÃO CÉU E SILVA
Hoje


Cinquenta dias após a morte do Nobel, Pilar del Río abriu a porta da sua casa de Lanzarote para recordar o marido. Lembra o pequeno-almoço que ficou por tomar e conta que o escritor lhe prometera que o livro que estava a escrever seria o último. A partir daí, o tempo que lhe restava seria para viver a dois.

Apesar das solicitações vindas de todo o mundo para celebrar Saramago, observa-se muita tristeza em Pilar e alguma dificuldade inicial em se abordar temas sobre o falecimento. Nos primeiros minutos, o nome de José nunca é pronunciado, e só pouco a pouco o faz. Só ficará igual a si mesma quando acusa o fisco espanhol de perseguição política.

Parece que está mais triste e sem a alegria com que a víamos...

Que não era assim tanta porque nos últimos anos não havia. Eu sabia o que estava a acontecer e estava a conter-me, era uma loba a defender o meu marido. Nos últimos anos fui uma loba e, agora, em algumas imagens noto e vejo até que ponto em tudo o que estava relacionado com o meu marido estava sempre tensa quando com outras pessoas. Porque era uma loba a defender a minha alcateia, que era o meu marido.

Tanto enquanto homem como enquanto escritor?

Tudo o que pudesse afectar o seu delicado estado de saúde. Ele queria tempo, e eu disse-lhe: "Vou facilitar-te a vida em tudo o que esteja ao alcance das minhas mãos para que tenhas tempo."

Ele estava consciente d e que o fim estava para breve?

Não! Não sabíamos se ia durar mais ou menos. Eu pensava que podíamos ir no final deste Verão a Lisboa e acreditava absolutamente nisso. Mas nos últimos tempos ele teve um problema, de que não chegou a inteirar-se, e acelerou-se o final. Mas, na verdade, eu não contava que se fosse produzir tão rapidamente.

Doença para além da pneumonia?

Foi tudo consequência do mesmo. Não quero entrar em assuntos médicos, mas ao ter tido a pneumonia começaram a activar-se coisas que tinha desde que era criança. Na Península Ibérica nos anos 20 - e nos anos 30, 40 e até 50 - todos tínhamos uma série de problemas de saúde e, quando se activaram, para além da pneumonia, provocaram-lhe complicação atrás de complicação.

Chegou-se a falar de um cancro. É verdade?

Não, o que tinha era uma leucemia crónica. Mas essa foi uma doença com a qual ele viveu toda a vida e que lhe descobriram por acaso numa operação à vista. Mas era crónico e não tinha problema nem sequer tratamento.

Ele foi-se apercebendo da situação?

Ele… acreditou que podia ultrapassá-lo. Como ultrapassou uma vez, poderia ultrapassar a segunda.

Acreditou sempre?

Ele morreu a 18, mas no dia 14 de Junho, quando celebrámos o nosso aniversário [de casamento], disse: "Celebraremos outros 24." Até disse: "Celebraremos muitos mais." Já estava a começar a fazer exercícios para recuperar a massa muscular, porque se na vez anterior já a tinha recuperado também iria recuperá-la desta segunda vez. Só que eu sabia que desta segunda vez ele não iria recuperá-la.

Os portugueses ficaram muito espantados por ter pedido a nacionalidade. Qual foi mesmo a razão?

Emocional. Sem razão. Creio que lho devo isso, ponto.

E está a pensar viver mais tempo em Portugal?

Isso estava previsto desde que iniciámos a Fundação [José Saramago] e o nosso projecto era passar por ano, pelo menos, seis meses em Portugal. O que aconteceu é que pusemos em marcha a Fundação, mas a doença impediu-nos desse projecto.

Mas nunca pensara antes pedir a nacionalidade portuguesa?

Pensámos em vários momentos conjuntamente. Ele, pedir a espanhola, e eu, a portuguesa. Termos dupla nacionalidade os dois, mas eu recusei sempre que ele pedisse a espanhola.

Porquê?

Porque ele é um símbolo de Portugal e parecia-me que tinha de ser português a 100%, sem nenhum outro documento.

Acha que com a morte os portugueses vão olhar para José Saramago de outra forma?

Eu acredito que os portugueses olhavam muito bem para Saramago! Eu sei como o olhavam porque andava com ele pela rua. Quando fizemos A Viagem do Elefante, saímos de Lisboa, fomos a Constança, a Castelo Branco, e continuámos a subir até Figueira de Castelo Rodrigo, e bem vi como o acarinhavam! Quem não vai continuar a olhá-lo bem é quem já não o olhava antes. São três, quatro ou cinco pessoas que escrevem na comunicação social. Não são mais.

Não mudarão de opinião...

Não! Essas pessoas, que têm nome e apelido, vão continuar na mesma. Quanto ao resto das pessoas, que o olhavam bem e que gostavam de Saramago, pouco a pouco vão-se sentindo órfãos.

Designadamente muitos jovens que, aquando da morte, diziam que iriam passar a ler Saramago...

Esses foram os comentários. Uma coisa é o Saramago matéria de estudo - pesada - e outra é o homem rebelde e transgressor que nunca baixou a cabeça. Um homem com critério, mais jovem do que todos os jovens do mundo, trabalhando até à última hora, dinâmico e que enfrentava tudo. É um modelo para qualquer jovem - já o disseram; é o mais jovem de todos os escritores e o mais jovem de todos os jovens. Não há ninguém tão rebelde como Saramago. Rebelde contra Deus, contra a Igreja e contra o poder.

Muitos escritores quando morrem são esquecidos durante algum tempo. Será o caso de Saramago?

São esquecidos!… Entram é numa zona de sombra algum tempo após morrerem mas não imediatamente. Eu não sei se vai ser o caso ou não de Saramago, porque ele quebra todas as regras! Quebrou não frequentando a universidade; quebrou começando a escrever tão tarde e quebrou fazendo uma obra sem igual. Em qualquer caso, uma das missões que temos na Fundação é entrar nessa zona de sombra para resgatar os escritores que lá estão, como se fosse um purgatório. E estamos a fazê-lo com alguns nomes. Acabou de se publicar o livro de Rodrigues Miguéis e estamos a tentar que se republique toda a sua obra e o mesmo acontece com Jorge de Sena. Escritores que são de primeira linha e que não há direito que estejam esquecidos.

Essa foi, aliás, uma missão que José Saramago impôs nos últimos tempos.

É um objectivo da Fundação, resgatar a cultura portuguesa. É a nossa obrigação, não é um passatempo, entrar na zona de sombra daqueles nomes que são um valor e uma riqueza patrimonial.

Que outros nomes se seguem?

Agora lançámos um projecto com Almada Negreiros, que não está tanto na zona de sombra mas também sem o brilho devido, que é o livro Nome de Guerra. Queríamos começar com Escola do Paraíso, porque não está editado e ninguém consegue comprar esse livro, e estamos à procurar editor para ele. Há uma série de escritores que estavam já aprovados por José Saramago e sobre os quais estamos a trabalhar. Sempre escritores portugueses.

Quais serão as próximas iniciativas da Fundação José Saramago?

O último trimestre vai estar muito voltado para Saramago, porque há muitas homenagens em curso. Foi a Feira do Livro em Gua- dalajara, de Frankfurt, de Itália e do México, é na Biblioteca Nacional de Portugal… Só que, apesar de a Fundação não ser exclusivamente para José Saramago - para isso temos as editoras em todo o mundo -, entendemos que temos de estar atentos ao que se passa no mundo em torno da obra de Saramago.

A sua presença tem sido muito solicitada em eventos?

Sim, muitas vezes e todos os dias chegam pedidos. Evidentemente que é impossível poder assistir a todas as iniciativas mesmo que gostasse muito. Agora mesmo, em Paraty, vão fazer uma leitura ininterrupta da Jangada de Pedra e deveria ir ao Brasil, mas é impossível. É um exagero de convites e de energia mas, não podendo atender a todas as iniciativas, enviarei sempre uma mensagem. Estão a inaugurar bibliotecas com o nome de Saramago, põem o nome dele em praças e ruas! A mim, vão-me chegando as notícias pelos meios de comunicação porque nem sequer mo comunicam directamente.

Quando é que a Fundação vai abrir a sede em Lisboa? Em Junho de 2011?

Se calhar. É que as obras são muito complicadas porque encontram-se sempre mais vestígios arquitectónicos, o que obriga outros organismos a envolverem-se. De uma coisa estou certa: é que quando estivermos na Casa dos Bicos a Fundação vai ter outro tipo de visibilidade porque irá converter-se num centro de actividade cultural diária.

Pode adiantar o que se fará?

A Casa dos Bicos não será apenas aquilo que a Fundação Saramago organiza. Vai colocar à disposição de todos o espaço e haverá apresentações de livros, concertos e projecção de cinema político, entre muitas outras actividades. Nós oferecemos a Casa à comunidade para que seja um centro de actividade cultural diária e possa ser visitada diariamente.

Como será organizado o espaço?

A Casa dos Bicos tem cinco pisos. No primeiro, está o centro de interpretação arqueológica; no segundo, um centro de exposições permanentes de livros e assuntos relacionados com José Saramago; no terceiro piso, estará a Fundação propriamente dita; no quarto, será a biblioteca; e no quinto, ainda está por decidir.

Vai manter-se o gabinete que era para ser o do escritor?

Não, não somos mitómanos nem prestamos culto à personalidade.

Saramago ficou muito feliz com a cedência da Casa dos Bicos...

Por isso as suas cinzas irão ficar diante da Casa dos Bicos e por essa razão é que o arquitecto Manuel Vicente chorava desconsoladamente no sábado [do velório]. Dizia: "Eu vi os olhos de Saramago, iluminados, dizendo 'Vou ver o Tejo. Deste escritório vejo passar os barcos'. Foi aí, ouvindo Manuel Vicente, que pensei que Saramago teria de ficar ali e não noutro lugar. Não houve essa disputa pelo Panteão Nacional de que tanto se falou, porque ele tinha de ficar ali.

Se a questão do Panteão nunca se pôs para José Saramago, também a presença de Cavaco Silva no funeral foi uma falsa questão?

Quero deixar claro que Cavaco fez o que tinha a fazer.

Não ir foi o mais correcto?

Sim. Saramago e ele não tinham partilhado a vida e, por dignidade, muito menos teriam de partilhar esse momento final. Enviou as suas condolências e fez o que tinha a fazer. Eu não entrei nunca nessa polémica sobre se Cavaco teria de ir ou não porque me parece que aconteceu o que deveria.

Sempre pensa ir viver para Portugal em Setembro?

Volto. Vou ao Brasil, depois a Itália e aí parto para Portugal.

Mas está a pensar morar mesmo em Portugal?

Sim, sim.

Vai estabelecer em Lisboa a sua vida?

Sim.

Sentirá saudades de Lanzarote?

Vou sentir muitas saudades de Lanzarote... Mas vou voltar de vez em quando porque está cá [em Lanzarote] o espírito de Saramago. Foi aqui que criou o Ensaio sobre a Cegueira, Ensaio sobre a Lucidez, Todos os Nomes, a Caverna, as Intermitências da Morte e Caim e, por isso, este sítio não pode fechar-se. Está cheio de todas essas palavras, esses sussurros e ideias.

Como vai acabar a disputa com o fisco em Espanha?

Não sei no que vai dar! Saramago pagava onde tinha de pagar; como tinha de pagar; no momento em que tinha que pagar e o que tinha de pagar. Sem nenhuma engenharia financeira, sem nenhuma dedução por causa da Fundação, e fê-la com o seu dinheiro. Pôs os seus direitos de autor a pagar os ordenados das pessoas porque não era para ter vantagens. Porquê? Porque acreditou que poderia partilhar dessa maneira, e o que as finanças espanholas fizeram não tem nome.

Foi uma insensibilidade a questão ser anunciada após a morte?

Não, não. A insensibilidade foi dos meios de comunicação, porque isto aconteceu em Abril. A sentença já tinha saído mas publicaram-na no dia do funeral por alguma razão. Para nós não tem nenhuma interferência, porque Saramago cumpriu civicamente com os seus deveres e, quando isto começou há dez anos, pediu auxílio ao Governo de Portugal. O primeiro-ministro de Portugal e o primeiro-ministro de Espanha disseram-lhe que estava resolvido, e creio que ambos estavam convencidos de que assim era. Por outro lado, acredito que houve alguém dentro do fisco espanhol que teve muito empenho em que isto não estivesse resolvido.

Qual terá sido a razão?

Creio que foi uma perseguição claramente política. Quando o primeiro-ministro de Portugal e o primeiro-ministro de Espanha juntos disseram a Saramago que "isto está solucionado" é porque ambos acreditavam que estava. Mas desde logo alguém lhes estava a mentir. E foi aqui de Espanha, de alguém muito concreto de Espanha. Todo este problema surgiu quando Saramago pegou na bandeira da guerra contra o Iraque; quando Saramago enfrentou o Governo dos Estados Unidos e, também, o de Espanha por causa dessa guerra.

Quanto à herança de José Saramago, não há polémica?

Não!

Há um entendimento entre si e a filha, Violante.

Absoluto.

Fazem-lhe falta as polémicas que Saramago conseguia criar?

Não!

Consegue conviver com uma vida mais calma?

Saramago criava polémicas - criou-as inclusivamente depois de morto - mas a mim não me fazem assim tanta falta. Eu vivia-as porque estava ali e porque era a loba, insisto, mas não suspiro pelas polémicas. O meu marido era muito mais radical do que eu, que sou mais apaixonada. Mas ele, sim, era radical - então para a polémica - e entrava nelas com toda a força enquanto eu era muito mais apaziguadora. Ainda que pudesse parecer mais o contrário, era ele o radical.

O que é que lhe faltou fazer com José Saramago?

Nada...

Nada mesmo?

Sobrou-me uma coisa, o pequeno-almoço do dia em que morreu. Ele não queria comer mais e eu insisti: "Vá lá, José, acaba. Tens muitas células para alimentar." Só que eu não sabia que iria morrer uma hora depois. E obriguei-o… Insisti tanto que ele acabou docilmente a tomar o seu batido de frutas e o resto da refeição.

Como é a vida sem José Saramago?

É isto... (aponta para o vazio).

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MensagemAssunto: «Sou uma competência em arte, mas sou um analfabeto, um atrasado mental em muitas disciplinas»   Sex Ago 20, 2010 4:05 pm

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Nadir Afonso em entrevista
Chaves



«Sou uma competência em arte, mas sou um analfabeto, um atrasado mental em muitas disciplinas»

Nasceu em Chaves, nunca perdeu a pronúncia, mesmo quando andou pelo mundo fora, vem sempre à terra natal…Por tudo isto é um transmontano de gema. Mas não é da sua origem que o pintor Nadir Afonso gosta de falar. Do que Nadir fala com verdadeiro entusiasmo é da origem da arte. Da essência. Da teoria. Da sua teoria da arte. “O que é que isto representa?”, perguntam-lhe quase sempre sobre os seus quadros. “São leis. Leis matemáticas”, responde. Poucos o compreendem.

Semanário TRANSMONTANO: Considera-se um transmontano de gema?

Nadir Afonso: Eu acho que sim. Nasci em Chaves. Os meus pais, um era de Montalegre , o outro de Sapelos, no concelho de Boticas.

ST: Então é barrosão?

NA: Os meus pais são, e eu tenho muita honra nisso, mas eu sou flaviense, nasci em Chaves.

ST: Já está há muitos anos em Lisboa, já se considera um alfacinha ou será sempre fla-viense?

NA: Eu sempre fui flaviense. Vivi muitos anos na França, acho que uns 30, agora já não me lembro bem. Fui para lá aos 28 até aos 50, também estive no Brasil, mas fui sempre flaviense. Sempre que podia vinha a Chaves, era aqui que via os meus amigos do Liceu. Os meus grandes amigos estão em Chaves, mas já morreram quase todos.

ST: Os transmontanos têm fama de lutadores, de ter garra, também é assim…

NA: Eu não sou muito lutador. Eu tenho é uma concepção de arte original e debruço-me muito sobre a arte. Fui um indivíduo que desde que me conheço meditei o fenómeno artístico e acho que sou uma competência. Não sei se sou imodesto, se não. Mas eu acho que posso dizer que sou uma competência em arte porque digo que sou um analfabeto, um atrasado mental em outras disciplinas. Quando se fala, por exemplo, em medicina, eu não percebo nada de medicina; fala-se em política, eu não percebo nada de política, fala-se em geografia, eu não percebo nada de geografia, não percebo nada de história, troco tudo. Sou um indivíduo que nunca me prendi muito a esses conhecimentos, mas fui um obcecado pela arte, pelas leis da arte, e toda minha vida meditei sobre elas e parece-me que consegui. Isto pode parecer imodesto, mas criei uma concepção de arte original. E isto é muito importante. E tão original que as pessoas não acreditam em mim.

ST: Não lhe dão ouvidos…

NA: Está a ver, aos estetas, aos arquitectos, nas universidades, ensinam-lhe coisas com as quais eu estou em desacordo…

ST: É controverso…

NA: Sou um indivíduo controverso porque cheguei a conclusões que eles não chegaram. Mesmo grandes filósofos, como Kant e Eagle, dizem coisas que eu acho que são grandes disparates. Eu trabalhei as formas e, ao mesmo tempo, meditei sobre aquilo que instintivamente criei. Quando fazia um traço, meditava: porque raio não fiz aqui um quadrado, não fiz um círculo? Porque meti uma linha recta e não meti uma linha curva? Fui um indivíduo que tentei compreender as motivações da minha obra, tentei elevar ao nível da consciência os impulsos intuitivos. E cheguei a conclusões. A conclusão mais importante da minha vida foi que a arte é regida por leis, coisa que os estetas não acreditam. E mais: as obras de arte são regidas por leis matemáticas. E as pessoas perguntam: mas eu não vejo lá matemática nenhuma? Está certo! Porque é uma matemática intuitiva, inconsciente, apreendida apenas por faculdades intuitivas, extremamente difíceis de perceber.

ST: Ainda tem esperança de que um dia a sua teoria venha a ser reconhecida como plausível?

NA: Há muita gente que acredita em mim, quando falo sobre arte. Realmente este macaco tem razão, este indivíduo pode ser inculto em muita coisa, mas…

ST: considera-se um homem inculto?

NA: Não me considero um homem culto. Fiz um curso de arquitectura sempre…

ST: À rasca…

NA: À rasca e sempre em contrasenso.

ST: Os seus pais preferiam que fosse arquitecto ou pintor?

NA: Os meus pais preferiam que fosse arquitecto. No meu tempo, já lá vão setenta anos, sem exagero, um pintor era considerado um analfabeto. Quando Cheguei às Belas Artes, com o requerimento para entrar em pintura, um contínuo disse-me: então você já tem um curso de liceu e vai-se inscrever em pintura? Oh homem, a pintura é uma coisa sem categoria nenhuma! Vá-se inscrever em arquitectura! E eu, covardemente, fui na conversa daquele contínuo. Covardemente, insisto nisto, rasguei o requerimento para pintura e fiz outro requerimento: Eu, respeitosamente, venho requerer a vossa excelência que se digne a aceitar-me no curso de arquitectura…

ST: ganhou mais dinheiro como arquitecto ou como pintor?

NA: Ganhei mais dinheiro como arquitecto. Só muito tarde é que comecei a vender.

ST: Quando vem para Chaves ainda pinta ou só vem para passar férias:

NA: O ideal era vir só passar férias, mas a minha vida é trabalhar, é pintar. Pinto sempre.

ST: A que horas costuma pintar?

NA: Depende. Posso estar deitado, lembrar-me que uma forma que fiz num quadro pode estar errada, porque uma pessoa revê em imagem o quadro que pinta à tarde e sou capaz de me levantar de noite…

ST: O que é que o inspira?

NA: Essa é uma pergunta muito interessante. Tenho a impressão que é tudo de uma maneira intuitiva. Eu faço um risco na tela, uma linha recta, uma linha recta é arbitrária... Eu digo vou fazer aqui o rosto de uma mulher, uma casa, uma árvore... evidentemente que é o raciocínio que intervém, mas a verdade é esta: quando meto uma forma, essa leva a outras formas. E quando a segunda intervém, essa já tem de ser proporcional à primeira, e aí já não é o raciocínio. A segunda forma é dependente da primeira através de leis matemáticas, a partir daí joga a intuição, o irracional, eu digo irracional, não digo intuitivo, porque não sei bem o que isso é. Quando começo a trabalhar a primeira forma pode ser muito racional, mas a seguir há um jogo de proporções matemáticas. As pessoas não acreditam nisto. Pensam que é tudo racionalizado. O verdadeiro artista não racionaliza, pode racionalizar momentaneamente, mas depois o mecanismo é dado por leis intuitivas.

ST: Já pintou algum quadro que não tenha gostado?

NA: Quantos quadros. Se na hora da morte tiver uma trintena de quadros que me agrade já me dou por satisfeito, e eu fiz milhares.

ST: Na rua, as pessoas reconhecem-no?

NA: Sim, sou reconhecido. Eu faço por ser um homem normal.

ST: Quando o abordam, o que é que as pessoas lhe perguntam?

NA: Como é que o senhor faz? O que é que isso representa? Ai, não representa coisa nenhuma, representa leis, são leis (coloca o dedo indicador na cabeça em sinal de que o tomam por louco). Leis de quê? Leis de matemática! (repete o gesto)

ST: A sua família compreende a sua teoria de arte?

NA: A minha mulher concorda comigo, se bem que ela me diz que tenho que ter cuidado com o que digo. Eu digo coisas sinceras e que caem mal. Uma das coisas que cai pior é quando falo na confusão que existe nas obras de arte. Há grandes artistas que são desconhecidos e artistas insignificantes que são muito conhecidos. E porquê?

Porque são políticos. A política anda no meio da arte como piolho no meio da costura. E eu digo: que sejamos políticos, que sejamos artistas, mas que não se misturem as coisas. A coisa que mais me choca na vida é ver um indivíduo que só por ser político ou politiqueiro é um artista muito conhecido; que é conhecido só porque é sustentado, é o termo, por críticos de arte que são da mesma cor. Eu acho isso revoltante!

ST: Regressemos à sua infância, estudou em Chaves…

NA: Eu era hipersensível. Qualquer coisa me chocava muito. Havia palmas. Havia uma professora... Um dia, cheguei ao meu pai e disse-lhe que não queria ir para a escola, que me batiam, e ele disse-me, então espera aí. O meu pai foi ao pé da professora e disse--lhe, ao meu filho não lhe batas. Mas assisti muito a apanharem nas mãos.

ST: Era brincalhão?

NA: Havia em mim uma sensibilidade doentia, mas, à parte disso, era uma criança normal.

ST: Os seus filhos pintam?

NA: Eu tenho a ideia de que eles podem ser pintores. Ainda não se revelaram. Eu até acho bem que não se revelem. A pintura não é uma actividade que dê satisfação. Há injustiças. A política está metida na arte.

ST: É adepto do Grupo Desportivo do Chaves?

NA: Do Chaves e depois do Porto.

ST: Por onde passa diz que é transmontano?

NA: Faço sempre questão de dizer. O senhor tem uma pronúncia que não é bem português? É que eu sou de Chaves. Nós temos uma pronúncia especial.

ST: Para terminar, uma definição de transmontano de gema...

NA: Um transmontano de gema…é uma pergunta difícil. É aquele que nunca perdeu a pronúncia transmontana por esse mundo fora, que é sempre transmontano ande por onde andar, que vem sempre à sua terra natal


Margarida Luzio, Semanário Transmontano, 2010-08-20
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MensagemAssunto: "Você, portuguesinho, filho de barrosões, está a explicar desse modo o que grandes filósofos pensam diferente!..."   Dom Ago 22, 2010 4:06 pm

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"Você, portuguesinho, filho de barrosões, está a explicar desse modo o que grandes filósofos pensam diferente!..."

por CÉU E SILVA (texto), GUSTAVO BOM (foto)
Hoje


Memória. É fácil conversar com o pintor e perder o norte à entrevista porque Nadir Afonso tem muitas histórias para contar. Entusiasma-se facilmente quando as perguntas o fazem recordar situações da vida e desvia a atenção do guião. Vendeu o primeiro quadro aos 18 anos e desde então não mais parou de pintar, mesmo que para tal tivesse abandonado o curso de Arquitectura que um contínuo das Belas Artes do Porto o convenceu a fazer em vez do de Pintura.

Há quem interprete a personalidade de uma pessoa lendo a palma das mãos. Acha que consegue ser lido através da sua pintura?

Não acredito nisso e penso que não é possível. A meu ver, a obra de arte tem leis próprias e imanentes à matemática, e o temperamento do artista não é mais do que apreender essas leis que estão na natureza. O papel do artista é ser mais ou menos sensível a essas leis, e quando vêm com essa conversa "eu exprimo na obra de arte o meu mundo interior e a linguagem da alma", isso não rima com coisa nenhuma.

Há pintores a quem isso possa acontecer?

Só se quiserem acreditar nisso! Mas o verdadeiro artista emprega as matemáticas através de faculdades inconscientes. Entra com o factor matemático mesmo que o próprio não se aperceba, e isso é que é interessante. Quando se fala com um artista genial e se pergunta "olha lá, tu empregas matemática?", a resposta é sempre: "Não, não emprego matemática. Eu emprego o espírito, algo tornado sensível." É que o próprio artista não se apercebe de que emprega as matemáticas, e isso é que é interessante, porque, sendo apreendida de uma maneira intuitiva, escapa ao próprio artista.

É dos poucos pintores que, ao longo da sua vida, fez questão de teorizar a arte?

Eu faço questão de teorizar e até escrevi um livro com uma síntese sobre o que penso da arte.

Síntese que prova que o artista não consegue fugir a essas leis da matemática?

Não consegue fugir porque as leis existem, mesmo que não eleve ao nível do raciocínio os seus impulsos intuitivos. Geralmente, define-se que o artista é intuitivo e que trabalha sem nunca se dar ao cuidado de racionalizar esses impulsos intuitivos.

Não será o seu caso?

Toda a minha vida me perguntei porque faço assim e não faço assado. Sou um pouco diferente - suponho - dos artistas que foram puramente inconscientes naquilo que fizeram.

Como aconteceu com o pintor Van Gogh?

O Van Gogh nunca compreendeu muito bem o mecanismo da criação. Nem ele nem a maior parte dos pintores, porque não se apercebem das leis e jogam com elas de uma maneira intuitiva.

Com Picasso também?

Com o Picasso também.

Mas nem ele se apercebeu?

Não se apercebeu. Peço desculpa por ser um bocado radical, mas eu devo ser dos raros indivíduos que teve o cuidado de elevar ao nível do raciocínio os seus impulsos intuitivos. E mais. Tenho lido muito crítico de arte e muito esteta, e eles nunca falam da essência de uma obra de arte: a matemática. Não falam nisso mas sim da perfeição do objecto, da originalidade ou da evocação... Sobre o que é específico numa obra de arte, que é a matemática, é que eles nunca falam.

E nunca se sentiu um pouco isolado no mundo da arte?

Sinto-me absolutamente isolado, e é uma coisa estranha ser eu o único a pensar assim, no que vi e li até agora - com quase 90 anos -, e não encontrar um único esteta que concorde comigo.

No tempo de Van Gogh, era normal não se teorizar muito a própria pintura. Mas sobre Picasso há muita investigação. O que se passa?

O que os estudiosos fazem é relacionar a arte com a Sociologia ou com a Psicologia, mas quanto à essência, peço desculpa mas sou o único homem - mesmo que possa parecer egocentrismo - que se ocupou dela.

Estudou matemática?

Nunca estudei Matemática porque a matemática do artista não é racionalizada. Isso é fácil de perceber. Se perguntarmos a um homem inteligente onde está o ponto C, equidistante num segmento de recta que vai de A a B, ele pode fazer um tratado de 200 páginas a explicar a situação. Mas se eu lhe disser "mostre onde é que está o ponto C", dificilmente me o indicará. Se fizer a pergunta a um analfabeto, ele aponta-o logo. Isto é para dizer que com a obra de arte acontece exactamente o mes- mo. Só há uma relação entre as distâncias A a C e C a B, ao passo que a obra de arte tem relações não mensuráveis.

A sua relação com os críticos de arte deve ser complicada...

É o diabo, é! Geralmente, o crítico actual assume a sua posição - acredita na magia, no sobrenatural e nas qualidades da natureza -, mas pelo facto de eu ter uma concepção diferente, é, por vezes, injusto comigo. Eu digo "não é nada disso" sem ter intenção de os ofender pessoalmente, mas como estou em contradição com eles, atacam-me.

E o cidadão normal entende as suas teses?

Há muitas pessoas com quem falo directamente que dizem "realmente tem razão, percebe-se perfeitamente". Mas, de uma maneira geral, quem não convive comigo acredita mais nos estetas, e o que é normal é darem-lhes razão. "Então você, portuguesinho, natural de Chaves, transmontano, filho de barrosões, está a querer explicar uma coisa que os grandes filósofos alemães pensam de um modo diferente!..."

Nem mesmo Marx tem outra visão crítica da arte?

É a mesma coisa. O Marx compreendeu que há qualquer coi- sa de perpétuo e de imutável na obra de arte mas fê-lo de uma maneira negativa. E há! São as raízes matemáticas - o quadrado do Pitágoras de há milhares de anos é o mesmo hoje -, porque as leis imanentes à obra de arte são eternas e constantes. Marx dizia: "Não percebo como é que uma obra de arte pintada há 200 ou 300 anos ainda hoje nos procura satisfações estéticas." Marx apercebeu-se de que há qualquer coisa que não entende, só não soube compreender que a matemática é eterna. Mas, por outro lado, Marx compreendeu que havia qualquer coisa que escapava aos filósofos.

Leu o estudo de Álvaro Cunhal A Arte, o Artista e a Sociedade , em que ele teoriza sobre este tema?

Não li, mas posso acrescentar que para ele os bons pintores eram os do seu partido. O que não é lá muito correcto, mesmo que tenha sido um bom político. O erro do político é estar a juntar a arte e a política; nestes casos não há mistura. Se bem que em Portugal seja muito corrente ver-se o político ser um bom artista quando é da mesma cor... Eu sou contra esta situação desde sempre.

Atravessou quase todo o século xx. Como conseguiu manter-se fora da influência da política?

Também fui político - até era mais das esquerdas do que das direitas -, mas não misturei as coisas.

Teve actividade política nestes quase 90 anos de vida?

Eu nunca tive uma actividade política. No entanto, parecia-me que havia coisas no comunismo que estavam correctas. Agora não acredito tanto nisso porque li mais algumas coisas, tal como os livros do filósofo Karl Popper, que me mostraram muitas erros nessa ideologia. No entanto, enquanto estava em Paris, fui muito interessado pelas esquerdas.

E em Portugal? Qual foi o seu posicionamento político?

Fui acompanhando as várias realidades, mas hoje sinto que já não sou político.

A política não faz lei dentro da sua arte?

Não faz, nunca fez. Nunca acreditei que a política pudesse interferir na obra de arte ou que a arte se intrometesse na política. Se bem que sinto isso em muitos políticos e artistas em Portugal, onde há muita confusão.

Ao pintar, nunca sente uma componente política?

Nunca, nunca!

Como nasce a obra?

Ora aí está uma pergunta correcta! Eu tenho-a feito a mim próprio muitas vezes porque insisto que a criação é-nos dada por faculdades inconscientes: a intuição. Quando um indivíduo começa a pintar, ele próprio pode racionalizar "vou pintar mulheres". Mas quando lança o primeiro traço, é este que vai chamar os outros. Depois, começa um jogo de factores puramente matemáticos, e a evolução da obra já nada tem a ver com o tema, porque as formas nascem de uma relação matemática.

Nunca se sente obrigado a contrariar a sua intuição?

Não. O político pode pensar "eu vou pintar uns pobrezinhos", mas se é artista não poderá fugir às leis. Se não é hipersensível, empenha-se na perfeição e fica pela perfeição de um rosto que, evidentemente, cria emoção mas não a originalidade.

E é um artista menor por causa disso?

É menor se não justapõe as formas que emprega dentro de leis matemáticas. O verdadeiro artista terá a mesma vontade de pintar casas ou figuras, mas dá-lhe uma estrutura matemática. O truque do verdadeiro artista é justapor as formas dentro de leis matemáticas não tendo consciência disto.

Também teorizou sobre as leis do universo e critica Stephen Hawking e Einstein...

Isso já é outra coisa... É que eu penso que o factor tempo não existe...

Nem existe o passado, o presente ou o futuro?

Não existem. Mas isto é uma situação extremamente subtil e difícil de apreender. No entanto, eu tenho essa sensação.

Como é que enquadra a sua ausência de tempo numa vida com quase décadas?

O que há é o espaço e a velocidade. Se chamarmos ao tempo a relação entre espaço e velocidade e ficarmos por aí, então está muito bem. O que evolui é a velocidade. Porque os corpos evoluem dentro de relações com o espaço. Mas vamos supor que o corpo que evolui no espaço pára! Aí a relação é nula, e os que acreditam no tempo vão dizer "o tempo continua", enquanto eu direi "não, o tempo não continua", porque para um corpo imóvel não existe o tempo. Claro que tenho este meu pensamento bem arquitectado, mas em palavras mais concisas pode-se dizer que é isto.

A sua relação com a pintura já passou por várias fases. A que se devem tais períodos?

Mais uma vez digo que é intuitivo e natural. A primeira reacção é racional: vou pintar figuras estranhas que nunca vi, por exemplo. Depois, a elaboração da obra passa a ser condicionada pela justaposição matemática das formas. Sei muito bem que posso fazer surrealismo ou pintura barroca por decisão mental. Eu comecei o barroco quando cheguei ao Porto, e fiquei muito impressionado com o barroquismo existente na Igreja dos Grilos. Tentei aproximar-me daquele barroquismo por uma decisão puramente racional, mas ao trabalhar as formas o homem é trabalhado por elas e sensível às leis. Por conseguinte, o tema desaparece e só ficam as leis a orientar o homem.

Foi através do pintor brasileiro Cândido Portinari que obteve a bolsa para ir para Paris. A volumetria da sua pintura impressionou-o muito?

Sim, ele é um bom pintor, mesmo sem haver qualquer composição nos seus quadros .

Vai para Paris ainda com estatuto de arquitecto. Porque desiste dessa profissão?

Vou como arquitecto, mas o que me atraiu a Paris foi mais a vontade de ver ao vivo as pinturas dos grandes mestres e, ao chegar lá, as obras de outros artistas que desconhecia, como foi o caso do Vasarely. Mas lá está, sempre com a mesma convicção de que, quer seja o surrealismo, o abstraccionismo ou o tema barroco, todos obedecem às mesmas leis. Ao pintor de vanguarda acontece-lhe a mesma coisa que ao pintor dos séculos xvi ou xvii.

Seja os pintores tão diferentes como o são Vasarely ou Van Gogh?

Convivi com o Vasarely e tenho um exemplo curioso sobre este meu pensamento. Estava lá na minha águas-furtadas a pintar e decidi mostrar ao Vasarely, que era já meu amigo, a minha pintura. Ele vira alguns trabalhos meus e quis ver mais. Quando ele disse que vinha à minha casa eu estava a pintar um quadro e não havia meio de ajustar as formas. Se bem que eu não as compreendesse racionalmente, estava a sentir as leis e tinha a sensação de que havia um canto do quadro onde as formas reagiam mal e não se acordavam. Eu andava naquilo há uma série de tempo, e quando ele tocou à campainha, a primeira reacção que tive foi não lhe mostrar esse quadro que me fugia à compreensão. Virei-o do avesso e encostei-o à parede para passar despercebido. Vasarely entrou, estivemos a ver várias pinturas e depois ficámos à conversa. E ele veio com a história de que a arte é subjectiva e justificava-o assim: "o que te agrada a ti não me agrada a mim". E eu pensei: "se é assim e se aquele quadro que deixei contra a parede está errado, quando ele vem com esta conversa de que a arte é subjectiva só me resta mostrar-lhe". Agarrei nele e exibi-o. E ele, com aquela experiência de longos anos, viu o quadro, sorriu e disse: "aqui neste canto ainda não encontraste a forma". Então, disse--lhe logo "eu tenho razão: por isso é que a pintura não é subjectiva, e a prova disso é que eu sinto que este quadro está errado".

Como é que desempataram as opiniões?

Eu propus-lhe fazer uma coisa. Dei-lhe o estudo que sempre costumo fazer - que geralmente é exactamente igual ao futuro quadro - e desafiei-o a procurar o que faltava naquele canto do quadro. E ele levou--o consigo para tentar encontrar a forma exacta da pintura. Logo no dia seguinte, encontrei-o e ele exclamou "o quadro está difícil". Andámos naquilo uns tempos, até que um dia ele me disse: "Encontrei a forma que se ajusta à composição!" E eu, que ainda não tinha encontrado o que lhe fazia falta, fiquei um pouco humilhado. Redobrei os meus esforços e tanta volta dei que a dada altura encontrei a composição que eu considerava justa. Para espanto dele, tínhamos chegado à mesma conclusão sobre o que faltava. Nesse momento, eu disse-lhe: "isto é a prova de que tem leis e não é subjectivo". Mais tarde, no Brasil, eu contei isto ao Óscar Niemeyer, e quando lhe disse que chegáramos à mesma conclusão, o Niemeyer, que é uma óptima pessoa mas meio disparatado, disse imediatamente: "Isso é bobagem!"

Mais uma vez sozinho.

O que fiz quando ele respondeu "Isso é bobagem!" foi dizer-lhe: "então vamos fazer uma coisa: estamos no Rio de Janeiro e não sei o que estão a fazer em Paris, mas como recebem cá a revista Artes Hoje, mutilem um quadro que venha na revista que eu refaço igual". Pus uma condição: "Que seja um quadro de Herbin, Vasarely ou Mortensen, que são quadros de uma matemática irrepreensível." O desafio era: "alteram o quadro e eu dir-vos-ei onde é que está o retoque ou a mutilação". Foi uma jogada forte a minha, e eles assim fizeram. Em vez de um quadrado puseram um círculo em determinado sítio da tela e, com muito cuidado, retocaram o quadro e puseram-no a três metros de distância. Olhei e tive sorte, pois podia não ter apanhado a emenda: "Está ali o retoque." O Niemeyer e os outros ficaram com uma cachola!

Era difícil lidar com arquitectos como Niemeyer ou Le Corbusier?

Era muito difícil. Eles eram óptimas pessoas, mas quando se tratava de arte... Le Corbusier, quando sentia que não conhecíamos a sua obra, ficava fulo; queria que conhecêssemos a obra melhor do que ele próprio: "Então tu não sabes qual é a solução que está na obra tal..."

Trabalhou no atelier de Le Corbusier?

Trabalhei muito tempo, sim.

Dizem que ele até lhe deu as manhãs para poder pintar. É verdade?

Foi, sim. Mas passei maus bocados com ele, porque era orgulhoso e egocêntrico como artista. Ele é que era o verdadeiro artista! Lembro-me que um dia apareci no atelier com seis quadros com guaches para mostrar à malta, e o chefe do atelier disse-me que Le Corbusier os deveria ver. Ele estava numa dependência muito pequenina, que não tinha luz eléctrica - era uma mania dele trabalhar num cubículo -, e eu enchi-me de coragem e fui bater à porta. "Dá licença, mestre?" E entrei. "O que é que queres?" Queria-lhe mostrar os meus trabalhos. "Estou ocupado, mas mostra lá." Depois dizia "agora não tenho tempo", mas logo de seguida "Mostra cá!" Entrou num jogo de tal modo bizarro que eu fiquei tão atrapalhado e lhe confessei "Inspirei-me nos seus trabalhos." E aí ele exaltou-se: "Isso é teu, não é meu!" A dado momento, eu já não sabia se havia de ir embora se devia ficar naquele cubículo.

A relação com os grandes artistas é sempre muito complicada...

Muito! Mas, à parte disso, era um bom homem. Lembro-me de um belo dia eu ter-lhe dito "vou a Portugal defender a tese" e de ele me ter levado ao andar onde vivia. Estávamos a conversar e vi que se encostou a um canteiro de flores, que ele próprio tratava, e que fez qualquer coisa. Eu não percebi o que era - nem porque estava com as mãos atrás das costas -, mas quando nos despedimos, entregou-me um girassol que tinha cortado do canteiro. E lá vim eu de girassol pelas ruas de Paris...

In DN

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MensagemAssunto: "Se me oferecerem um milhão de euros eu saio" da TVI   Qui Ago 26, 2010 10:51 am

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"Se me oferecerem um milhão de euros eu saio" da TVI

por SOFIA FONSECA
Hoje


Manuela Moura Guedes diz que nunca foi contactada pela administração da estação de Queluz para rescindir, que vale mais que os 600 mil euros de que falava a 'TV Guia' de ontem, e que, quando voltar, fará um jornalismo diferente. Para ela, Júlio Magalhães é um 'entertainer'

É verdade que está a negociar com a administração a sua saída da TVI, como afirma a TV Guia?

Estou abismada. Acabei de comprar a revista e ainda não vi o texto lá dentro, mas desmenti aquilo.

Desmente o quê? As negociações, os 600 mil euros?

Eles gostam é de fazer títulos. Estas revistas auto-apelidam-se de jornalismo. É asqueroso.

Mas está ou não a negociar com a administração?

Eu sei lá.

Não sabe? Já falou ou não com alguém da TVI para rescindir?

Nunca. Claro que se me oferecerem uma quantia de dinheiro que seja justa, vou pensar nisso. Neste momento não há nada disto.

A revista diz que as negociações deverão terminar em Dezembro.

Deve ser um presente de Natal...

E que a discussão começou em um milhão de euros...

Se me oferecerem um milhão de euros, eu saio. Você não saía? Toda a gente saía.

No início do Verão, disse que, se a saúde o permitisse, voltaria à TVI em Setembro. Mantém?

Não quero falar disso. Depende daquilo que acabou de falar.

Da opinião do médico?

Sim. Tenho de me sentir bem para voltar ao "local do crime".

E sente-se bem?

Claro que me sinto muito melhor, mas tenho de ter a certeza de quem me acompanha.

E tem vontade de voltar?

O que me faz pena é ver a informação da TVI chegar onde chegou. Ver o trabalho todo que tivemos e ver esse trabalho perdido. Na sexta-feira passada, e a sexta-feira é emblemática, tiveram 13 por cento de share. Não me lembro, a não ser nos anos 90, de a TVI ter esses resultados.

A que se deve essas audiências?

É a factura que estão a pagar da falta de credibilidade. A informação da TVI anda praticamente sempre em terceiro. É uma coisa que mete dó. Quando pegámos naquilo, a informação da TVI não tinha credibilidade, e agora está a voltar ao abandono. Foi a pouco e pouco. Há estudos sobre isso: nós éramos a informação que dava mais economia, que mais aprofundava os assuntos. Eu nunca dei crime no jornal de sexta. Nunca fomos para assuntos fáceis.

Acha que agora estão a ir?

É muito triste. Não tem credibilidade, é feita de fait-divers. No outro dia, estava a ver um blogue, um dos sérios, que estava a comentar que, com meia hora, o jornal já estava a dar uma peça sobre swing e depois uma outra sobre gelados. Eu vi isso e meti as mãos à cabeça. Ao fim de meia hora de noticiário...

Isso não poderá estar relacionado com a habitual falta de notícias durante o Verão?

Não tem a ver com o Verão. Tem a ver com a filosofia. Estão sistematicamente a fugir aos assuntos que fazem parte da realidade do País.

Uma vez mais, critica o Júlio Magalhães, director de Informação da TVI.

O Júlio Magalhães é um óptimo entertainer. Não é jornalista.

Concluiu isso agora ou já tinha essa opinião quando era subdirectora e ele mero jornalista?

Fui formando essa opinião à medida que fui trabalhando com ele. Ele está mais à vontade a fazer coisas no entretenimento do que na informação. Outra coisa que não resultou foi a dupla Júlio Magalhães/Marcelo Rebelo de Sousa. Até agora, se não me engano, ganharam no primeiro dia e, mais uma vez, há duas ou três semanas. E por pouco. O jornal de domingo tem sido um derrotado sistemático, e isto apesar do investimento feito no Marcelo. Foi um desastre. Nem isso funciona, tal a descredibilização que tem a TVI.

E isso deve-se a quê?

À mudança radical na filosofia da informação.

A ERC deliberou, no final de Julho, que a decisão da administração da TVI de suspender o seu jornal não se deveu a interferências do poder político. Nunca comentou esta deliberação.

Não vou falar sobre isso. A ERC não disse textualmente que o Governo interferiu, mas acabou por dizê-lo indirectamente quando disse que a administração foi sensível às críticas, que tinha querido agradar às pessoas do Governo. Houve uma coisa que aprendi ao longo des- te último ano.

Que foi...

Pode parecer um pouco pretensioso, mas sempre carreguei nos ombros a responsabilidade e a angústia de alertar as pessoas. Mas, a partir do momento em que escolhem o seu destino estando alertadas...

Está a falar de quem?

Do povo português. As pessoas estão mal, mas querem continuar dessa forma. Fiquei surpreendida, mas ao mesmo tempo aliviada. Eles sabem, já não tenho de ser responsável por eles. Isso tirou-me um pouco o fascínio do jornalismo mas deu-me paz de espírito. Já sinto algum distanciamento. A minha forma de fazer jornalismo mudou com isso.

Quer dizer que voltará de uma forma diferente?

Se calhar. Já conheço melhor os destinatários. É um povo mais complicado, menos reactivo, conformado. Por isso, sim, seria naturalmente diferente. Muito menos inquieta porque não carrego esse peso, essa inquietação. O meu jornalismo seria diferente. Aliás, será diferente. Tenho alguma esperança de que não tenha morrido. A minha "morte" foi francamente exagerada na avaliação financeira.

Acha que não vale os 600 mil euros de que fala a TV Guia?

Eu valho muito mais do que isso. Mas para já está a zeros.

Quanto vale?

Há uma decisão da ERC que considera ilegal o acto de a administração suspender o jornal de sexta. Além disso, foram proferidas afirmações de todo o género a meu respeito, o que implica complicações várias no mercado de trabalho, e eu só tenho o meu nome. Em termos judicias, num processo negocial, vale muito dinheiro.

Então 600 mil euros é pouco?

Claro que é.

Há pouco falámos do milhão de euros. É esse o valor?

É uma coisa mais aceitável.

E a SIC já a sondou?

É melhor perguntar à SIC. Mesmo que fosse verdade, nunca falaria sobre isso

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MensagemAssunto: Re: Entrevistas   Qui Ago 26, 2010 10:54 am

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Coitada!

Presunção e água benta...



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MensagemAssunto: "Banco de Portugal tem de ser mais proactivo na supervisão"   Dom Ago 29, 2010 3:08 pm

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"Banco de Portugal tem de ser mais proactivo na supervisão"

por PAULA CORDEIRO
Hoje


É o rosto da denúncia de constantes abusos, por parte da banca, no que respeita à defesa do consumidor. Apesar de tudo, Jorge Morgado tem um discurso conciliador e reconhece que muito já foi feito, faltando essencialmente fiscalização à aplicação da legislação. Para o secretário-geral da Deco, continua a faltar transparência nos preçários dos bancos.

A legislação criada nos últimos anos, no âmbito da defesa do consumidor, em relação à banca e aos produtos bancários, parece não ter produzido grandes efeitos. Continuam as denúncias de abusos por parte da banca. A situação não melhorou?

A Deco esteve por detrás da maioria dessa legislação. Fomos a primeira entidade em Portugal a reivindicar algumas dessas leis, através dos testes que fizemos, dos estudos, inclusive através do documento reivindicativo que entregamos sempre aos diversos governos quando estes tomam posse. É gratificante verificar que muitas coisas foram feitas. Noutras não se chegou tão longe quanto queríamos, e outras nem sequer foram atendidas. Apesar de tudo, a legislação portuguesa protege o consumidor, por vezes melhor que a de alguns países da Europa comunitária. O que falta é o cumprimento dessa legislação, a interiorização por parte dos operadores económicos e a fiscalização.

As falhas que encontra são no acompanhamento da aplicação legislativa?

Na actividade bancária, é fundamental que o Banco de Portugal passe a exercer melhor uma supervisão comportamental, que seja mais proactivo.

Não tem exercido essa função?

Há muito a fazer nessa matéria, embora reconheçamos que o Banco de Portugal, e não só o Governo, tem tomado medidas interessantes. Mas os reguladores não actuam apenas para regular a actividade. Existem também para proteger a parte mais fraca, os consumidores.

O regulador devia acompanhar e analisar contratos?

Não basta que as entidades reguladoras se baseiem nas informações que lhe são fornecidas. É importante que elas próprias sejam proactivas relativamente à inspecção, que criem mecanismos de fiscalização e não estejam à espera das reclamações e das denúncias para actuarem.

É isso o que tem acontecido?

Sim, e aí a Deco tem tido um papel importante. Conseguimos, graças a muitos testes e estudos e também porque temos um contacto directo com consumidores.

Os vossos trabalhos partem de casos concretos de denúncias?

Os artigos e os testes que fazemos são muitas vezes espoletados por indicação dos consumidores e por inquéritos regulares que fazemos.

Mas será que os bancos abusam cada vez mais do seu poder?

Os bancos têm tido uma grande capacidade inventiva, uma grande criatividade para taxar serviços. Dantes, os bancos guardavam o nosso dinheiro e governavam-se com isso. Agora, o que interessa são os diferentes serviços que os bancos nos prestam e cobram. Temos taxas altas comparativamente a muitos países da Europa. A par desta criatividade, não há transparência na sua aplicação.

Mas essas taxas são anunciadas...

Sim, os bancos são obrigados a ter um preçário no balcão. Mas eu convidava os leitores a abrirem uma vez um preçário para verificarem que aquilo não é transparente. Muitas vezes - por falta de informação ou de formação do funcionário bancário, ou ainda porque o preçário está mal feito - permitem interpretações diferentes, de agência para agência. E esta é sempre a favor do banco, penalizando o consumidor.

No caso do preçário, a busca da transparência produziu um efeito contrário?

As leis são importantes, mas também o seu espírito é. O que verificamos é que a banca, o comércio e outros sectores (dependendo da sua capacidade organizativa) não ligam ao espírito da lei mas sim à forma de a contornar.

O Governo tem tido uma boa actuação na defesa do consumidor face aos produtos financeiros?

Houve algumas iniciativas, no âmbito da Secretaria de Estado da Defesa do Consumidor, que foram interessantes. Notámos, por vezes, descoordenação entre as entidades reguladoras e a legislação. Era bom que se acertasse o passo.

Qual a vossa relação com a banca quando preparam os estudos?

Os nossos estudos comparativos são sempre feitos de acordo com informação prestada pela banca e atestada pela própria. Se dizemos que há um determinado comportamento da banca é porque temos reclamações de clientes que o provam, ou porque a informação que recebemos nos mostra que é a prática seguida. Por vezes, as entidades tentam descodificar a informação que prestamos ou procuram justificativos para se colocarem numa situação de legalidade, negando o comportamento abusivo. Mas o que publicamos é sempre comprovado pela instituição.

O que há ainda por fazer, a nível legislativo, na defesa do consumidor bancário?

Para já, é necessário assegurar o quadro legislativo que está em vigor. É fundamental estabilizar a transparência da informação, que os bancos a cumpram, que as pessoas saibam que existe essa informação e a utilizem. É também importante que haja formação dos portugueses em relação a questões financeiras; ainda demonstram uma grande falta de preparação a este nível. O Estado, e não só, devia fazer acções nesse sentido. A Deco vai fazer. Com consumidores mais informados, teremos uma banca melhor.

Como é a vossa relação com o Banco de Portugal?

Temos uma relação de cooperação. Todos os meses enviamos cartas para as entidades reguladoras, com informações e reivindicações. Progressivamente, reconhecem a nossa actividade. Tanto que nos têm convidado a participar em órgãos consultivos e consultam-nos quando estão a preparar legislação. Esse caminho está a ser feito.

Qual o feedback que têm da banca, das cartas e reclamações que fazem junto dos supervisores?

A banca tem connosco uma situação de amor e ódio. Quando fica bem nos testes, felicita-nos e diz que é muito importante o nosso trabalho. Quando fica mal, é evidente que fica mais melindrada.

O segmento do crédito à habitação domina nos alegados abusos?

O crédito à habitação é talvez o maior negócio da banca. E para as pessoas, é a sua maior compra. A banca, fruto desta crise, tem procurado encontrar, com o espaço mais delimitado face à legislação que foi produzida, formas de aumentar os seus proveitos. Estes abusos que temos vindo a denunciar visam encontrar formas complementares de financiamento.

Julga que os seus técnicos ainda vão encontrar novas situações de abuso na banca?

Com o apoio dos consumidores, se elas existirem, vamos encontrá--las. Mas gostaríamos muito que não houvesse. A Deco gosta de pacificar as relações entre consumidores e prestadores de serviços.

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MensagemAssunto: "Moniz tem sido uma decepção profunda"   Qui Set 02, 2010 2:51 pm

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"Moniz tem sido uma decepção profunda"

Hoje


Há um ano à frente da Informação da TVI, o jornalista reage às críticas de Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz. Confessa que teve vontade de desistir na altura das comissões de inquérito do caso PT/TVI

Que balanço faz deste ano à frente da informação da TVI?

É óptimo. A TVI continua a liderar. Foi provavelmente o ano mais difícil de sempre da TVI. E chegamos ao fim do ano e, afinal de contas, a TVI continua líder de audiências. A concorrência melhorou imenso, está a fazer um belíssimo trabalho, e nós estamos a fazer o nosso: competente, sério. Perdemos, ganhamos, como tudo na vida, e temos consciência que não tivemos só que fazer o nosso trabalho este ano. Tivemos que resistir, resistir, resistir às dezenas de investidas que foram feitas na TVI e sobre a TVI.

Ou seja?

As comissões de inquérito [relativas ao caso PT/TVI]. A TVI foi notícia quase todos os dias. A direcção de informação foi atacada quase semanalmente e fomos resistindo. Fomos fazendo o nosso trabalho, é para isso que estamos lá, foi para isso que nos escolheram, sempre na perspectiva de que aquele é um lugar efémero. Enquanto a administração confiar, lá estarei.

Houve algum momento durante este ano em que tenha tido vontade de se ir embora?

Sim, houve momentos em que me apeteceu fazer isso.

Quando?

No momento da comissão de inquérito, foi esse provavelmente o mais difícil. Assistimos a cenas lamentáveis. Nunca pensei que se chegasse a tanto. As pessoas podem ter divergências, podem ficar desoladas com a vida, mas chegar ao ataque pessoal e à denúncia de conversas privadas era algo de que não estava à espera.

A comissão de inquérito acabou por ser fogo-fátuo?

Olhando para trás, parece que foi, mas não foi. A redacção da TVI passou momentos muito difíceis porque não houve dia nenhum em que não fossemos notícia. Não houve dia nenhum em que, sistematicamente, não andassem pessoas a minar e a estilhaçar completamente a direcção de informação e a informação da TVI.

Essa tentativa de minar vinha de dentro?

(pausa) Sabe como é...Sinceramente, também senti isso.

E como é que, dentro de uma redacção, se gerem egos, expectativas e frustrações?

Infelizmente, ao longo deste ano foi esse o trabalho mais difícil que tive. E digo infelizmente porque muitas vezes queríamos concentrar-nos no nosso trabalho, no que queríamos fazer na TVI e não podíamos porque tínhamos de estar a gerir frustrações, egos, intrigas... enfim, houve coisas que aconteceram que nunca pensei que pudessem acontecer.

Por exemplo?

Houve muita gente que, ao longo do ano, não percebeu que as coisas tinham mudado. Nem de dentro nem de fora. Há muita gente em Lisboa que não vive do seu próprio trabalho. Vive normalmente “pendurada” naquilo que acha que é e não é, “pendurada” noutras pessoas. E isso é triste.

Refere-se a alguém em particular?

Algumas pessoas, evidentemente que não vou dizer quem, mas senti, ao longo deste ano, que há muita gente que sabe que não tem grande qualidade, ou que sozinha não consegue atingir aquilo que pretende e depois acha que o faz estando dependente de alguém. Foi isso que mais me desiludiu, ver pessoas terem esse tipo de atitude e, sobretudo, terem relações de conveniência, que é uma coisa que me entristece bastante. Vi pessoas que se zangam para a vida e depois voltam a ser amigas porque lhes convém. Pessoas que dizem muito mal umas das outras e, de repente, vejo-as todas juntas em festas. Isso foi o que me apercebi durante o ano inteiro, que observei e registei também, embora não seja pessoa de vinganças nem de tratar mal os outros.

Fica para um futuro próximo?

Vai ficando para memória futura. Não quero dizer com isto que foi um ano horrível. Não. Foi uma experiência fantástica e é como lhe digo: a TVI é um projecto colectivo, não é um projecto individual. Não sou daqueles que, quando ganhamos, diz ?somos os melhores do mundo? e ?eu ganhei? e, quando perdemos, que as coisas correram mal. O que interessa é que, como projecto colectivo, a TVI mantém a liderança. E isso é indiscutível.

Em entrevista ao DN de 26 de Agosto, Manuela Moura Guedes disse, e cito: “O Júlio Magalhães é um óptimo entertainer. Não é jornalista”. O que achou destas palavras?

Não li, estava de férias. Contaram-me qualquer coisa e eu nem quis saber, porque em férias não devemos falar de coisas que são lamentáveis e que, enfim... As pessoas já se habituaram a esse tipo de declarações. Nem devemos valorizar isso.

A Manuela disse também que se lhe oferecessem 1 milhão de euros, saía da TVI. É um valor razoável para uma rescisão de contrato?

Não tenho nada que achar. A guerra não é comigo, é com a administração. São eles que têm que resolver esses assuntos. Sou director de informação, estou lá para fazer o trabalho que eu acho que deve ser feito, de forma séria, competente e honesta. De resto, as pessoas façam o que quiserem, ganhem o dinheiro que quiserem. Em Lisboa movimentam-se muitos milhões de euros. Eu tenho visto como é que, em Lisboa, se desperdiçam milhões de euros.

Essa dicotomia com Lisboa é em relação ao Porto?

Não, é ao resto do país. Vive-se em Lisboa de uma forma que não se vive no resto do país. Tenho assistido a coisas que não pensem existirem. Vive-se de milhões de euros, de jantaradas, de almoçaradas, de grandes festas e, sobretudo, de grandes negociatas. Vivemos num país demasiado centralista e demasiado centralizado.

Isso é um discurso céptico, para não dizer pessimista.

Mas as pessoas estão mesmo desoladas! Quem sair de Lisboa percebe que o país está mesmo desolado. E não é ser céptico, é ser realista. Já me apercebia disso e agora apercebo-me um pouco mais. Mas acho que, depois desta crise que estamos a viver, já não vai ser a mesma coisa.

É uma pessoa permeável a essas relações de conveniência de que fala?

Sou um mero jornalista, portanto não sou uma pessoa importante para ser assediada. Não entro nesse jogo porque nem sequer faço parte dele. E também não tenho interesse para essas pessoas. Faço só o meu trabalho, quando quiserem querem, quando não quiserem... acho que essa tem sido a minha grande vantagem e aquilo que me sustenta neste cargo e na TVI. Volto a dizer: estou director, não sou director.

Se hipoteticamente a Manuela voltasse à redacção da TVI, ia ser difícil para si voltar a trabalhar com ela?

Não comento cenários. Há um problema que tem que ser resolvido pela administração da TVI, não por mim. Tenho muitas coisas com que me preocupar na TVI.

A administração da TVI dá-lhe feedback sobre o seu trabalho?

Temos uma comunicação diária, nunca houve nenhum atrito. Agora, o ano tem sido tão difícil para a informação como para a administração e para toda a gente que trabalha na TVI. Até agora, não obtive nenhuma manifestação por parte da administração de que não estão a gostar do trabalho que estamos a fazer. No dia em que tiver, muda-se. A vida é assim mesmo, uns entram, outros saem.

Um dos momentos marcantes deste ano foi o regresso de Marcelo Rebelo de Sousa à TVI.

Foi um dos. O futebol foi outro. Não mudámos nada na TVI. Os coordenadores são os mesmos, os jornalistas são os mesmos. Mas é claro que o regresso do professor Marcelo foi importante. Era uma aposta nossa.

Mas as audiências não têm sido tão boas como há cinco anos.

Não, não! Têm sido óptimas. Só por maldade é que se tem dito que têm sido más. O professor entrou numa altura em que começou o campeonato do mundo de futebol. A seguir apanhou o Verão. Se os críticos não fossem tão preguiçosos, percebiam que no momento em que o professor entra no ar, o jornal dispara. O professor tem sido prejudicado pela média do Jornal [Nacional]. Os fins-de-semana foram sempre muito difíceis na TVI. É evidente que não podemos dizer que a TVI está com grandes números na informação. Mas, por onde ando, toda a gente fala do regresso do professor Marcelo. Estamos satisfeitos. Umas vezes perdemos, outras ganhamos e temos de reconhecer que o Telejornal, da RTP, e o Jornal da Noite, da SIC, são óptimos produtos informativos e, sendo assim, correm o risco de conseguirem bons números e nós não. Estamos menos preocupados com as audiências do que muita gente que está fora da TVI e que anda ao milímetro a ver as peças e os números da TVI. E fica na mesma o recado: quando quiserem o lugar está à disposição.

Quando fala dos críticos que analisam audiências está também a referir-se à crónica que José Eduardo Moniz escreveu no Diário Económico de 17 de Agosto, onde manifestou preocupação com os resultados da TVI?

Não li, mas já vi vários comentários dele sobre os resultados da TVI. É uma opinião dele.

Fica triste?

Fico, claro. Tem sido uma decepção profunda. Deixa-me triste, tem sido decepcionante. São opiniões, o trabalho continua. E, sinceramente, há coisas que eu não consigo perceber.

Acha que há um “fantasma” de José Eduardo Moniz a pairar sobre a TVI?

Na TVI não. Fora da TVI, sim. Acho que a comunicação social tem colaborado para a manutenção desse “fantasma”.

Porquê?

Não sei, faço o meu trabalho e ponto final.

A TVI comprou a transmissão dos jogos da Liga Zon Sagres e tem mais dois espaços de informação desportiva, mas os resultados dos jogos têm ficado aquém do esperado. O público da TVI não gosta de ver futebol?

Acha que sim? Está enganada. Há dois anos, quando o futebol saiu da TVI para a RTP, perdeu 200 mil espectadores. Como é que explica que a 15 de Agosto, um Benfica-Académica não tenha feito a audiência que se esperava e que, no sábado passado, o Benfica-Vitória de Setúbal tenha sido líder? Durante o Verão as pessoas estão na praia, o consumo é muito menor, não é preciso ser um especialista para perceber como é que as audiências funcionam nestas alturas.

Vai começar um novo reality show. Imagina, como aconteceu há 10 anos, o Jornal Nacional a abrir com um episódio semelhante ao pontapé do Marco?

Tudo o que for notícia é informação e, provavelmente, corremos esse risco, como há 10 anos foi um grande acontecimento e foi notícia, e assumiu-se na estação que ia ser assim. Como sempre, estávamos de corpo e alma na TVI e estávamos com aquilo que o director-geral decidia que era preciso fazer. E ao longo de anos foi o que fizemos. Ser solidários com tudo o que era decidido fazer. Se acontecer o mesmo este ano, a TVI corre esse risco.

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MensagemAssunto: O melhor contributo do Governo para a economia é consolidar as contas públicas"   Dom Set 12, 2010 2:46 pm

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O melhor contributo do Governo para a economia é consolidar as contas públicas"

por João Céu e Silva
Hoje


É o presidente da mais prestigiada fundação que tem sede em Portugal. Pouco receptivo a entrevistas, o ex-ministro não gosta de comentar o lado político da vida nacional, mas aceitou opinar sobre questões económicas. Certos de que preferia que a entrevista fosse eminentemente sobre a instituição que lidera, tentou-se contrariar o rumo para se dar a conhecê-lo


O presidente da Gulbenkian ainda sente a responsabilidade de ser o ministro-sombra da Cultura e da Educação, tal é o papel da Fundação nestes sectores?

Não, sinto-me como presidente de uma grande instituição privada, com uma grande responsabilidade na sociedade portuguesa, mas baseada nos princípios da filantropia. A associação da Fundação Gulbenkian a um "Ministério da Cultura" é uma imagem que se colou à instituição durante os primeiros anos porque representou o preenchimento de funções que normalmente caberiam ao Estado.

Até substituindo-se ao Estado?

Hoje, a situação é totalmente diferente, e a Fundação olha-se a si própria como uma instituição interveniente, mas da sociedade civil, e que alarga a intervenção muito para além da própria sociedade portuguesa, visto que cada vez mais intervimos fora de Portugal.

Portugal ainda vive hoje muito à sombra das bolsas, de financiamento e das exposições da Gulbenkian?

A Fundação tem um grande papel na área cultural, quanto mais não seja por ter dois museus que procuramos que sejam dois exemplos de excelência; por ter uma orquestra a que queremos dar standards internacionais; por possuir a melhor biblioteca de arte do País; e por ter programas de apoios a artistas.

Mas adaptou-se aos tempos actuais?

A Fundação teve de reorientar a intervenção tendo em conta as enormes mudanças que se produziram no País. Podemos marcar duas grandes etapas: a primeira, a democracia; e depois a integração europeia, em que o papel do Estado se libertou dos constrangimentos do regime autoritário e passou a ter meios financeiros que não existiam.

Sente pressão dos governos para reorientar o rumo da Gulbenkian?

Não. Nós agimos segundo uma estratégia própria e não fazemos ajustamentos segundo os ciclos políticos. Aliás, a grande vantagem das fundações como instituições independentes é estarem simultaneamente livres dos ciclos políticos e, em certa medida, dos económicos. Podemos projectar a intervenção a mais longo prazo, que não é a lógica da política, porque está submetida aos ciclos eleitorais.

A crise financeira e económica também alterou o rumo da Gulbenkian?

É evidente que não está imune ao que aconteceu, porque tem os seus investimentos no petróleo e no gás nos mercados internacionais, e, por isso, em 2008 tivemos uma redução da ordem dos 12% no valor dos activos que obrigou a medidas de contenção. Procurámos que fossem sobretudo nos custos de funcionamento e não se repercutissem em subsídios, bolsas e actividades.

Ao dar 110 milhões ao mecenato em 2009, quer dizer que está de boa saúde financeira?

Considero que sim, o que não quer dizer que não estejamos preocupados com a situação da economia mundial e, sobretudo, com o grau de baixíssima previsibilidade dos mercados.

Como presidente do Centro Europeu de Fundações, pediu criatividade. É a forma de superar esta crise?

Sugeri a criatividade para que com recursos escassos sejamos mais eficazes na acção, mas, relativamente à situação geral, penso que vivemos um momento de grande perplexidade. Se relermos o comunicado da última reunião do G20, há num parágrafo o apelo à austeridade e no seguinte um outro aos estímulos à economia. Essa perplexidade traduz-se na ambivalência de que a generalidade das políticas sofre neste momento nos planos teórico e doutrinal, porque não dispomos de ferramentas que respondam à situação que estamos a viver.

Não dispomos, quem?

O sistema económico! O Presiden-te Obama acaba de propor uma medida de carácter keynesiano - 50 biliões de dólares para investimentos em infra-estruturas - e o presidente da Comissão Europeia no discurso do estado da União propôs a emissão de obrigações europeias para financiar investimentos em infra-estruturas. Não há, diga--se, muita inovação nessas propostas no ataque à crise.

Porquê essa falta de inspiração?

Esta crise é o fim de um ciclo que se iniciou no final dos anos 70 com uma política de estabilização salarial, baixa inflação, valorização de activos bolsistas e imobiliários e, principalmente, um grande endividamento que foi propulsionado pelas políticas Reagan/Thatcher. O Verão de 2007 é a implosão de um sistema que não tinha lógica nem sustentabilidade. Qual é a resposta neste momento? Aí penso que faltam ideias, rumo e coerência.

Que é o caso da União Europeia, em que a Comissão de Durão Barroso não consegue dar resposta efectiva?

Penso que ele não é o único que sofre do que considero falta das ferramentas para enfrentar a situação. Recorde-se que o Japão viveu dez anos de deflação e talvez não tenhamos aproveitado suficientemente o facto para tirar ensinamento da situação. Hoje, temos uma dificuldade adicional porque as economias emergentes nos ultrapassam em muitos domínios com o seu dinamismo. Não tenho a veleidade de fazer propostas, mas acho necessário reflectir e, muitas vezes, parece-me que não damos tempo suficiente a uma reflexão nem a um debate sereno porque se cede à pressão, designadamente a mediática, de dar respostas sem suficiente estudo.

Basta ver o caso de Portugal, em que se estimulou o défice num ano e no outro foi penalizado...

É a tal ambivalência de austeridade e estímulo. Em Julho, o Financial Times publicou na mesma semana e página dois artigos sobre a economia - um a favor da austeridade e o outro dos estímulos - que traduzia muito bem este dilema.

É o reflexo da euforia "liberal" da economia?

É um conjunto de causas que podem ser sintetizadas na formula de "gastar mais do que se tem", situações muito complexas que até podem ser expressas sob uma forma que qualquer economia familiar compreende muito bem.

Entendo que não critica Durão Barroso pela não recuperação!

Penso que o presidente da Comis-são está a enfrentar um período de extrema dificuldade e uma nova arquitectura institucional que o colocou numa posição diferente da tradicional. Hoje, há um presidente do Conselho que se tem vindo a afirmar; uma vice-presidente com responsabilidades e competências específicas na política externa e um parlamento com mais poderes. As consequências institucionais do Tratado de Lisboa implicam que o equilíbrio de poderes esteja numa fase de ajustamento e ainda não se encontrou o novo equilíbrio que permita que Durão Barroso volte a ter o anterior protagonismo.

Acredita que o possa voltar a ter?

Penso que tem as qualidades pessoais para isso. Se haverá condicionalismo institucional para tal...

Está demasiado manietado pelo eixo franco-alemão e a Inglaterra?

Penso que o problema se pode colocar de outra maneira: faltam hoje lideranças políticas nacionais como as que permitiram criar a Jacques Delors um ambiente para ser um presidente da Comissão com um forte impulso e dinamismo. O presidente da Comissão não pode ser isolado da envolvente que é o conjunto das lideranças, sobretudo dos maiores países europeus, que neste momento passam dificuldades na ordem interna. A conjugação tradicional franco-alemã praticamente desapareceu, e o Reino Unido está muito virado para os seus problemas e com um Governo que está no começo. A situação é muito diferente da do passado.

Choca-o que em Portugal quase não se ouça falar de Durão Barroso, sendo ele um português e estando num dos cargos mais poderosos?

A pergunta devia ser a própria comunicação social a colocar mas não é caso exclusivamente português.

O que achou do discurso do estado da União de Durão Barroso?

Não escapou a ninguém as ausências do presidente Rompuy, da vice--presidente Ashton e de bastantes parlamentares. Há um problema geral na Europa de alguma anemia.

É o naufrágio do projecto europeu?

Não. Acredito que o projecto europeu é tão importante que ultrapassará esta fase, como o fez noutras alturas no passado. É preciso ter uma visão de muito curto prazo e esquecer tudo aquilo que são as enormes conquistas do projecto europeu para podermos pô-lo em cau-sa. A ambição que representou o tratado constitucional foi talvez excessiva para as condições económicas e políticas que estamos a viver e, por outro lado, há também um problema geracional. Refira-se que o impulso inicial da Europa foi feito por quem tinha a experiência e a memória da guerra, enquanto hoje vivemos numa sociedade em que o acesso às benesses sociais é dado por adquirido. Esses são ingredientes a ter em conta para esta relativa crise do projecto europeu.

Foi ministro da Economia no II e III governos provisórios, uma altura muito complexa...

Extremamente complexa!

... O que o faz a pessoa indicada para analisar a actual crise económica nacional. Portugal está a tomar as medidas suficientes para acompanhar a recuperação europeia?

O período de que tive experiência é radicalmente diferente deste.

Há três meses falava-se de intervenção do FMI e na saída do euro. Previsões tão drásticas como as que teve na altura em que foi ministro!

Hoje não há inflação e existe uma estabilidade social totalmente diferente da que se experimentou nessa altura, quando se sofria défices da balança de pagamentos. Actualmente, há a necessidade de caminharmos para o reequilíbrio das contas públicas. Se os 3% mágicos de Maastricht são um número exacto ou não - penso que é uma discussão teórica que poderemos ter -, é certo que défices de 7, 6 ou 5% nas contas públicas não são desejáveis em qualquer circunstância. Portanto, o esforço de consolidação das contas públicas tem de ser uma linha para qualquer governo. O relançar da economia portuguesa depende cada vez mais das atitudes dos empresários e dos cidadãos como aforradores e consumidores e cada vez menos dos governos.

E também dos partidos políticos?

Sim, porque numa economia assente no mercado a intervenção do Estado é muito reduzida porque não há instrumento monetário, não há instrumento cambial e não há instrumento preços, mas continua--se a olhar demasiado para os governos como regentes da economia, quando o seu principal papel é criar um ambiente favorável às decisões correctas dos empresários e dos cidadãos. O Governo, pelos instrumentos de que dispõe, tem uma pequena intervenção na economia, e o melhor contributo que pode dar para a economia portuguesa é a consolidação das contas públicas e o repor duma situação saudável em termos orçamentais.

O que se observa quando se prepara a aprovação do próximo Orçamento do Estado é uma conflitualidade entre o Governo e o PSD. É aceitável?

Isso é o jogo político.

O jogo político será ultrapassável?

O jogo político faz parte do funcionamento das democracias parlamentares, mas acredito que o bom senso e o interesse nacional irão prevalecer e que se encontrará uma solução. Nessa parte, subscrevo inteiramente o apelo do senhor Presidente da República.

Que aliás teve uma posição muito definidora. Obrigará o Governo e o PSD a firmar um pacto para aprovar o Orçamento do Estado?

Acho que a controvérsia em democracia pode ajudar a boas soluções. O que não podemos é ficar na controvérsia pela controvérsia, ela tem de conduzir a resultados porque pode ser estimulante e criadora de boas soluções. O debate é uma das virtudes da democracia, só não podemos é reduzir a vida política a um debate em que não há momentos em que se tomam decisões.

É este o caso?

Vamos a ver...

Também foi deputado num Governo de minoria. São viáveis?

São uma realidade absolutamente normal num sistema democrático pluripartidário como é o nosso. Na Bélgica, há meses que não se consegue formar um governo, e na Holanda, três meses depois de eleições, estão novamente com uma crise, e na Inglaterra, depois de muitos anos de governos monocolor, há uma coligação. Em Portugal, já experimentámos as várias fórmulas e temos de viver com elas.

Em Portugal, os partidos inibem-se no fazer de coligações. O futuro vai por aí?

Já houve coligação PS/CDS, PSD//CDS e bloco central. Já fizemos quase todas as experiências.

As posições estão mais extremadas. Será a vez do PSD e CDS, que estão mais próximos ideologicamente?

Às vezes a proximidade é mais inibidora da associação do que quando as diferenças são mais visíveis. Mas, estando afastado da vida política há muitos anos, não sou perito nessa matéria.

Deve manter-se o sistema de alternância PS/PSD, ou os governos minoritários têm de procurar alianças com outros partidos?

Respondo de uma maneira muito simples: como cidadão, tenho de respeitar as opções dos meus concidadãos expressas através do voto.

Como vê a eleição presidencial. Vai ser muito renhida?

Não me substituo às sondagens.

Considera que Cavaco Silva irá ser eleito à primeira volta?

Não faço nenhuma previsão.

Seria importante a segunda volta?

Nem considero importante nem não importante. Acredito muito no funcionamento da democracia.

Acredita na recandidatura de Cavaco Silva?

Não acredito nem desacredito. Respeitarei a decisão que ele tomar.

Não deixará de votar?

Vou votar. Sempre votei.

Deixemos a política. A Gulbenkian foi "A Fundação" durante muitos anos. Com o aparecimento de milhares de outras, este género de instituições sai descredibilizado?

Não, é até um sinal de modernização e positivo na sociedade portuguesa quando mais gente devolve à sociedade a riqueza que construiu ao longo da vida. Naturalmente que há fundações maiores e outras mais pequenas, mas, como presidente do Centro Português de Fundações, pretende-se que assumam cada vez mais os deveres de independência, de prestação de contas e de transparência de modo a prestigiar a figura fundacional.

A Gulbenkian ressente-se da rivalidade com outras fundações a nível de presença cultural?

A nossa lógica não é a da competição, mas de cooperação. Só me congratulo por haver mais fundações.

Mas não perde um pouco do brilho?

Não me preocupo com o brilho, mas com os resultados da nossa intervenção e com a sua avaliação. O nosso campeonato é o dos problemas das sociedades contemporâneas e é aí que temos de usar os recursos da melhor maneira.

Há críticas à apatia das actividades do Centro de Arte Moderna. Isso não aconteceria se não existisse Serralves, Joe Berardo em Belém...

Cada instituição faz as suas opções. Creio que o Centro de Arte Moderna tem vindo a apresentar exposições temporárias do maior interesse e continua a ser a única mostra do século XX português no nosso país. Esse é um papel insubstituível e nenhuma outra instituição o consegue realizar por nós.

A Fundação está a adaptar-se aos novos tempos da Internet na divulgação do conhecimento?

O número das visitas ao site, dos participantes no Facebook, no Twitter e os visitantes da nossa newsletter electrónica mostram que estamos a conseguir penetrar e utilizar esses instrumentos de uma maneira muito eficaz.

A Fundação tem alertado para a dificuldade do diálogo intercultural e religioso e os problemas dos imigrantes. É uma nova vocação?

Nós participamos em projectos com outras fundações europeias no que respeita à tradição de este ser um continente de liberdade e de acolhimento. Do ponto de vista do equilíbrio demográfico, a Europa terá necessidade de continuar a ter o influxo refrescador do imigrante.

Tem dito que Portugal é um país de emigrantes mas que não está preparado para receber imigrantes.

Este é um fenómeno novo, pois durante séculos fomos emigrantes e só na última década e meia é que passámos a acolher comunidades muito diferentes. A sociedade portuguesa não estava - nem podia estar - preparada para encarar esse fenómeno, mas as avaliações internacionais têm sido altamente favoráveis ao modo como a sociedade portuguesa tem sabido lidar com esse fenómeno. O último índex é altamente favorável para Portugal.

Acha que em Portugal podem acontecer situações como a dos ciganos que Sarkozy expulsou de França?

Penso que não, porque a sociedade portuguesa tem uma atitude diferente e o respeito por valores humanísticos será assegurado.

Se a Gulbenkian fosse em França, a Fundação pronunciava-se?

A Fundação normalmente não toma posições de carácter político, porque não está abrangido pelos nossos estatutos. Mas a Fundação não é neutra e rege-se por um quadro de valores em que o respeito pela dignidade da pessoa humana é um valor primordial.

A imigração traz conflitos religiosos. Como reagir à diferença?

Esse é um dos grandes contrapontos das sociedades modernas em que há um enorme influxo do racionalismo proporcionado pelo progresso científico e tecnológico e, simultaneamente, como contraponto, um reavivar da religiosidade e da prática religiosa. O conflito religioso é muitas vez o culminar de outros conflitos culturais, sociais e económicos que ganham expressão na visibilidade que a simbologia da prática religiosa implica. Por outro lado, resulta de um enorme desconhecimento do outro e da reacção em estereótipos em vez de um conhecimento fundamentado. É muito fácil reagir por caricatura, estereótipo ou por frase ou ideia feita, por isso a ideia da multiculturalidade está a ser substituída por uma abordagem operacional diferente, a interculturalidade, em que haverá cada vez maior diálogo entre as pessoas de diferentes culturas e não a mera justaposição ou o esquecer de que há diferenças.

Cumprem-se nove anos sobre o 11 de Setembro. Não é a confirmação de um diálogo impossível?

O 11 de Setembro foi a expressão de um radicalismo que não pode ser conotado com a religião, porque os que cometeram esses actos terroristas não eram, à luz dos fundamentos da religião muçulmana, bons muçulmanos. O problema de haver atentados suicidas e actos terroristas como os que assistimos no Iraque ou no Paquistão não pode imputar-se à religião porque não respeitam os próprios fundamentos da religião.

O abandono do Iraque pelas tropas dos Estados Unidos vai alterar o equilíbrio dos interesses da Fun-dação Gulbenkian na região?

Com a invasão do Iraque abriu-se uma caixa de Pandora que ainda não se fechou. Quem conhecer a história da região sabe das conflitualidades que sempre aí existiram e a que se continua a assistir. O Iraque é uma região onde o diálogo entre várias culturas muçulmanas é extremamente difícil, e os responsáveis de outros países do golfo Pérsico estão preocupados com essa instabilidade, tal como com os problemas internos do Irão e o conflito israelo-palestino. É uma zona onde há muitos focos de conflitualidade mas onde também existem muitos governos preocupados em fazer evoluir as suas sociedades para um espírito de abertura e de tolerância. É um jogo, um xadrez de muitas peças e com regras certamente mais complexas que as do xadrez, que já não é um jogo fácil.

In DN

Rolling Eyes


























































































































































































































































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O melhor contributo do Governo para a economia é consolidar as contas públicas"

por João Céu e Silva
Hoje



É o presidente da mais prestigiada fundação que tem sede em Portugal. Pouco receptivo a entrevistas, o ex-ministro não gosta de comentar o lado político da vida nacional, mas aceitou opinar sobre questões económicas. Certos de que preferia que a entrevista fosse eminentemente sobre a instituição que lidera, tentou-se contrariar o rumo para se dar a conhecê-lo


O presidente da Gulbenkian ainda sente a responsabilidade de ser o ministro-sombra da Cultura e da Educação, tal é o papel da Fundação nestes sectores?

Não, sinto-me como presidente de uma grande instituição privada, com uma grande responsabilidade na sociedade portuguesa, mas baseada nos princípios da filantropia. A associação da Fundação Gulbenkian a um "Ministério da Cultura" é uma imagem que se colou à instituição durante os primeiros anos porque representou o preenchimento de funções que normalmente caberiam ao Estado.

Até substituindo-se ao Estado?

Hoje, a situação é totalmente diferente, e a Fundação olha-se a si própria como uma instituição interveniente, mas da sociedade civil, e que alarga a intervenção muito para além da própria sociedade portuguesa, visto que cada vez mais intervimos fora de Portugal.

Portugal ainda vive hoje muito à sombra das bolsas, de financiamento e das exposições da Gulbenkian?

A Fundação tem um grande papel na área cultural, quanto mais não seja por ter dois museus que procuramos que sejam dois exemplos de excelência; por ter uma orquestra a que queremos dar standards internacionais; por possuir a melhor biblioteca de arte do País; e por ter programas de apoios a artistas.

Mas adaptou-se aos tempos actuais?

A Fundação teve de reorientar a intervenção tendo em conta as enormes mudanças que se produziram no País. Podemos marcar duas grandes etapas: a primeira, a democracia; e depois a integração europeia, em que o papel do Estado se libertou dos constrangimentos do regime autoritário e passou a ter meios financeiros que não existiam.

Sente pressão dos governos para reorientar o rumo da Gulbenkian?

Não. Nós agimos segundo uma estratégia própria e não fazemos ajustamentos segundo os ciclos políticos. Aliás, a grande vantagem das fundações como instituições independentes é estarem simultaneamente livres dos ciclos políticos e, em certa medida, dos económicos. Podemos projectar a intervenção a mais longo prazo, que não é a lógica da política, porque está submetida aos ciclos eleitorais.

A crise financeira e económica também alterou o rumo da Gulbenkian?

É evidente que não está imune ao que aconteceu, porque tem os seus investimentos no petróleo e no gás nos mercados internacionais, e, por isso, em 2008 tivemos uma redução da ordem dos 12% no valor dos activos que obrigou a medidas de contenção. Procurámos que fossem sobretudo nos custos de funcionamento e não se repercutissem em subsídios, bolsas e actividades.

Ao dar 110 milhões ao mecenato em 2009, quer dizer que está de boa saúde financeira?

Considero que sim, o que não quer dizer que não estejamos preocupados com a situação da economia mundial e, sobretudo, com o grau de baixíssima previsibilidade dos mercados.

Como presidente do Centro Europeu de Fundações, pediu criatividade. É a forma de superar esta crise?

Sugeri a criatividade para que com recursos escassos sejamos mais eficazes na acção, mas, relativamente à situação geral, penso que vivemos um momento de grande perplexidade. Se relermos o comunicado da última reunião do G20, há num parágrafo o apelo à austeridade e no seguinte um outro aos estímulos à economia. Essa perplexidade traduz-se na ambivalência de que a generalidade das políticas sofre neste momento nos planos teórico e doutrinal, porque não dispomos de ferramentas que respondam à situação que estamos a viver.

Não dispomos, quem?

O sistema económico! O Presiden-te Obama acaba de propor uma medida de carácter keynesiano - 50 biliões de dólares para investimentos em infra-estruturas - e o presidente da Comissão Europeia no discurso do estado da União propôs a emissão de obrigações europeias para financiar investimentos em infra-estruturas. Não há, diga--se, muita inovação nessas propostas no ataque à crise.

Porquê essa falta de inspiração?

Esta crise é o fim de um ciclo que se iniciou no final dos anos 70 com uma política de estabilização salarial, baixa inflação, valorização de activos bolsistas e imobiliários e, principalmente, um grande endividamento que foi propulsionado pelas políticas Reagan/Thatcher. O Verão de 2007 é a implosão de um sistema que não tinha lógica nem sustentabilidade. Qual é a resposta neste momento? Aí penso que faltam ideias, rumo e coerência.

Que é o caso da União Europeia, em que a Comissão de Durão Barroso não consegue dar resposta efectiva?

Penso que ele não é o único que sofre do que considero falta das ferramentas para enfrentar a situação. Recorde-se que o Japão viveu dez anos de deflação e talvez não tenhamos aproveitado suficientemente o facto para tirar ensinamento da situação. Hoje, temos uma dificuldade adicional porque as economias emergentes nos ultrapassam em muitos domínios com o seu dinamismo. Não tenho a veleidade de fazer propostas, mas acho necessário reflectir e, muitas vezes, parece-me que não damos tempo suficiente a uma reflexão nem a um debate sereno porque se cede à pressão, designadamente a mediática, de dar respostas sem suficiente estudo.

Basta ver o caso de Portugal, em que se estimulou o défice num ano e no outro foi penalizado...

É a tal ambivalência de austeridade e estímulo. Em Julho, o Financial Times publicou na mesma semana e página dois artigos sobre a economia - um a favor da austeridade e o outro dos estímulos - que traduzia muito bem este dilema.

É o reflexo da euforia "liberal" da economia?

É um conjunto de causas que podem ser sintetizadas na formula de "gastar mais do que se tem", situações muito complexas que até podem ser expressas sob uma forma que qualquer economia familiar compreende muito bem.

Entendo que não critica Durão Barroso pela não recuperação!

Penso que o presidente da Comis-são está a enfrentar um período de extrema dificuldade e uma nova arquitectura institucional que o colocou numa posição diferente da tradicional. Hoje, há um presidente do Conselho que se tem vindo a afirmar; uma vice-presidente com responsabilidades e competências específicas na política externa e um parlamento com mais poderes. As consequências institucionais do Tratado de Lisboa implicam que o equilíbrio de poderes esteja numa fase de ajustamento e ainda não se encontrou o novo equilíbrio que permita que Durão Barroso volte a ter o anterior protagonismo.

Acredita que o possa voltar a ter?

Penso que tem as qualidades pessoais para isso. Se haverá condicionalismo institucional para tal...

Está demasiado manietado pelo eixo franco-alemão e a Inglaterra?

Penso que o problema se pode colocar de outra maneira: faltam hoje lideranças políticas nacionais como as que permitiram criar a Jacques Delors um ambiente para ser um presidente da Comissão com um forte impulso e dinamismo. O presidente da Comissão não pode ser isolado da envolvente que é o conjunto das lideranças, sobretudo dos maiores países europeus, que neste momento passam dificuldades na ordem interna. A conjugação tradicional franco-alemã praticamente desapareceu, e o Reino Unido está muito virado para os seus problemas e com um Governo que está no começo. A situação é muito diferente da do passado.

Choca-o que em Portugal quase não se ouça falar de Durão Barroso, sendo ele um português e estando num dos cargos mais poderosos?

A pergunta devia ser a própria comunicação social a colocar mas não é caso exclusivamente português.

O que achou do discurso do estado da União de Durão Barroso?

Não escapou a ninguém as ausências do presidente Rompuy, da vice--presidente Ashton e de bastantes parlamentares. Há um problema geral na Europa de alguma anemia.

É o naufrágio do projecto europeu?

Não. Acredito que o projecto europeu é tão importante que ultrapassará esta fase, como o fez noutras alturas no passado. É preciso ter uma visão de muito curto prazo e esquecer tudo aquilo que são as enormes conquistas do projecto europeu para podermos pô-lo em cau-sa. A ambição que representou o tratado constitucional foi talvez excessiva para as condições económicas e políticas que estamos a viver e, por outro lado, há também um problema geracional. Refira-se que o impulso inicial da Europa foi feito por quem tinha a experiência e a memória da guerra, enquanto hoje vivemos numa sociedade em que o acesso às benesses sociais é dado por adquirido. Esses são ingredientes a ter em conta para esta relativa crise do projecto europeu.

Foi ministro da Economia no II e III governos provisórios, uma altura muito complexa...

Extremamente complexa!

... O que o faz a pessoa indicada para analisar a actual crise económica nacional. Portugal está a tomar as medidas suficientes para acompanhar a recuperação europeia?

O período de que tive experiência é radicalmente diferente deste.

Há três meses falava-se de intervenção do FMI e na saída do euro. Previsões tão drásticas como as que teve na altura em que foi ministro!

Hoje não há inflação e existe uma estabilidade social totalmente diferente da que se experimentou nessa altura, quando se sofria défices da balança de pagamentos. Actualmente, há a necessidade de caminharmos para o reequilíbrio das contas públicas. Se os 3% mágicos de Maastricht são um número exacto ou não - penso que é uma discussão teórica que poderemos ter -, é certo que défices de 7, 6 ou 5% nas contas públicas não são desejáveis em qualquer circunstância. Portanto, o esforço de consolidação das contas públicas tem de ser uma linha para qualquer governo. O relançar da economia portuguesa depende cada vez mais das atitudes dos empresários e dos cidadãos como aforradores e consumidores e cada vez menos dos governos.

E também dos partidos políticos?

Sim, porque numa economia assente no mercado a intervenção do Estado é muito reduzida porque não há instrumento monetário, não há instrumento cambial e não há instrumento preços, mas continua--se a olhar demasiado para os governos como regentes da economia, quando o seu principal papel é criar um ambiente favorável às decisões correctas dos empresários e dos cidadãos. O Governo, pelos instrumentos de que dispõe, tem uma pequena intervenção na economia, e o melhor contributo que pode dar para a economia portuguesa é a consolidação das contas públicas e o repor duma situação saudável em termos orçamentais.

O que se observa quando se prepara a aprovação do próximo Orçamento do Estado é uma conflitualidade entre o Governo e o PSD. É aceitável?

Isso é o jogo político.

O jogo político será ultrapassável?

O jogo político faz parte do funcionamento das democracias parlamentares, mas acredito que o bom senso e o interesse nacional irão prevalecer e que se encontrará uma solução. Nessa parte, subscrevo inteiramente o apelo do senhor Presidente da República.

Que aliás teve uma posição muito definidora. Obrigará o Governo e o PSD a firmar um pacto para aprovar o Orçamento do Estado?

Acho que a controvérsia em democracia pode ajudar a boas soluções. O que não podemos é ficar na controvérsia pela controvérsia, ela tem de conduzir a resultados porque pode ser estimulante e criadora de boas soluções. O debate é uma das virtudes da democracia, só não podemos é reduzir a vida política a um debate em que não há momentos em que se tomam decisões.

É este o caso?

Vamos a ver...

Também foi deputado num Governo de minoria. São viáveis?

São uma realidade absolutamente normal num sistema democrático pluripartidário como é o nosso. Na Bélgica, há meses que não se consegue formar um governo, e na Holanda, três meses depois de eleições, estão novamente com uma crise, e na Inglaterra, depois de muitos anos de governos monocolor, há uma coligação. Em Portugal, já experimentámos as várias fórmulas e temos de viver com elas.

Em Portugal, os partidos inibem-se no fazer de coligações. O futuro vai por aí?

Já houve coligação PS/CDS, PSD//CDS e bloco central. Já fizemos quase todas as experiências.

As posições estão mais extremadas. Será a vez do PSD e CDS, que estão mais próximos ideologicamente?

Às vezes a proximidade é mais inibidora da associação do que quando as diferenças são mais visíveis. Mas, estando afastado da vida política há muitos anos, não sou perito nessa matéria.

Deve manter-se o sistema de alternância PS/PSD, ou os governos minoritários têm de procurar alianças com outros partidos?

Respondo de uma maneira muito simples: como cidadão, tenho de respeitar as opções dos meus concidadãos expressas através do voto.

Como vê a eleição presidencial. Vai ser muito renhida?

Não me substituo às sondagens.

Considera que Cavaco Silva irá ser eleito à primeira volta?

Não faço nenhuma previsão.

Seria importante a segunda volta?

Nem considero importante nem não importante. Acredito muito no funcionamento da democracia.

Acredita na recandidatura de Cavaco Silva?

Não acredito nem desacredito. Respeitarei a decisão que ele tomar.

Não deixará de votar?

Vou votar. Sempre votei.

Deixemos a política. A Gulbenkian foi "A Fundação" durante muitos anos. Com o aparecimento de milhares de outras, este género de instituições sai descredibilizado?

Não, é até um sinal de modernização e positivo na sociedade portuguesa quando mais gente devolve à sociedade a riqueza que construiu ao longo da vida. Naturalmente que há fundações maiores e outras mais pequenas, mas, como presidente do Centro Português de Fundações, pretende-se que assumam cada vez mais os deveres de independência, de prestação de contas e de transparência de modo a prestigiar a figura fundacional.

A Gulbenkian ressente-se da rivalidade com outras fundações a nível de presença cultural?

A nossa lógica não é a da competição, mas de cooperação. Só me congratulo por haver mais fundações.

Mas não perde um pouco do brilho?

Não me preocupo com o brilho, mas com os resultados da nossa intervenção e com a sua avaliação. O nosso campeonato é o dos problemas das sociedades contemporâneas e é aí que temos de usar os recursos da melhor maneira.

Há críticas à apatia das actividades do Centro de Arte Moderna. Isso não aconteceria se não existisse Serralves, Joe Berardo em Belém...

Cada instituição faz as suas opções. Creio que o Centro de Arte Moderna tem vindo a apresentar exposições temporárias do maior interesse e continua a ser a única mostra do século XX português no nosso país. Esse é um papel insubstituível e nenhuma outra instituição o consegue realizar por nós.

A Fundação está a adaptar-se aos novos tempos da Internet na divulgação do conhecimento?

O número das visitas ao site, dos participantes no Facebook, no Twitter e os visitantes da nossa newsletter electrónica mostram que estamos a conseguir penetrar e utilizar esses instrumentos de uma maneira muito eficaz.

A Fundação tem alertado para a dificuldade do diálogo intercultural e religioso e os problemas dos imigrantes. É uma nova vocação?

Nós participamos em projectos com outras fundações europeias no que respeita à tradição de este ser um continente de liberdade e de acolhimento. Do ponto de vista do equilíbrio demográfico, a Europa terá necessidade de continuar a ter o influxo refrescador do imigrante.

Tem dito que Portugal é um país de emigrantes mas que não está preparado para receber imigrantes.

Este é um fenómeno novo, pois durante séculos fomos emigrantes e só na última década e meia é que passámos a acolher comunidades muito diferentes. A sociedade portuguesa não estava - nem podia estar - preparada para encarar esse fenómeno, mas as avaliações internacionais têm sido altamente favoráveis ao modo como a sociedade portuguesa tem sabido lidar com esse fenómeno. O último índex é altamente favorável para Portugal.

Acha que em Portugal podem acontecer situações como a dos ciganos que Sarkozy expulsou de França?

Penso que não, porque a sociedade portuguesa tem uma atitude diferente e o respeito por valores humanísticos será assegurado.

Se a Gulbenkian fosse em França, a Fundação pronunciava-se?

A Fundação normalmente não toma posições de carácter político, porque não está abrangido pelos nossos estatutos. Mas a Fundação não é neutra e rege-se por um quadro de valores em que o respeito pela dignidade da pessoa humana é um valor primordial.

A imigração traz conflitos religiosos. Como reagir à diferença?

Esse é um dos grandes contrapontos das sociedades modernas em que há um enorme influxo do racionalismo proporcionado pelo progresso científico e tecnológico e, simultaneamente, como contraponto, um reavivar da religiosidade e da prática religiosa. O conflito religioso é muitas vez o culminar de outros conflitos culturais, sociais e económicos que ganham expressão na visibilidade que a simbologia da prática religiosa implica. Por outro lado, resulta de um enorme desconhecimento do outro e da reacção em estereótipos em vez de um conhecimento fundamentado. É muito fácil reagir por caricatura, estereótipo ou por frase ou ideia feita, por isso a ideia da multiculturalidade está a ser substituída por uma abordagem operacional diferente, a interculturalidade, em que haverá cada vez maior diálogo entre as pessoas de diferentes culturas e não a mera justaposição ou o esquecer de que há diferenças.

Cumprem-se nove anos sobre o 11 de Setembro. Não é a confirmação de um diálogo impossível?

O 11 de Setembro foi a expressão de um radicalismo que não pode ser conotado com a religião, porque os que cometeram esses actos terroristas não eram, à luz dos fundamentos da religião muçulmana, bons muçulmanos. O problema de haver atentados suicidas e actos terroristas como os que assistimos no Iraque ou no Paquistão não pode imputar-se à religião porque não respeitam os próprios fundamentos da religião.

O abandono do Iraque pelas tropas dos Estados Unidos vai alterar o equilíbrio dos interesses da Fun-dação Gulbenkian na região?

Com a invasão do Iraque abriu-se uma caixa de Pandora que ainda não se fechou. Quem conhecer a história da região sabe das conflitualidades que sempre aí existiram e a que se continua a assistir. O Iraque é uma região onde o diálogo entre várias culturas muçulmanas é extremamente difícil, e os responsáveis de outros países do golfo Pérsico estão preocupados com essa instabilidade, tal como com os problemas internos do Irão e o conflito israelo-palestino. É uma zona onde há muitos focos de conflitualidade mas onde também existem muitos governos preocupados em fazer evoluir as suas sociedades para um espírito de abertura e de tolerância. É um jogo, um xadrez de muitas peças e com regras certamente mais complexas que as do xadrez, que já não é um jogo fácil.

In DN

Rolling Eyes


















































































































































































































































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Nadir Afonso em entrevista
Chaves




«Sou uma competência em arte, mas sou um analfabeto, um atrasado mental em muitas disciplinas»

Nasceu em Chaves, nunca perdeu a pronúncia, mesmo quando andou pelo mundo fora, vem sempre à terra natal…Por tudo isto é um transmontano de gema. Mas não é da sua origem que o pintor Nadir Afonso gosta de falar. Do que Nadir fala com verdadeiro entusiasmo é da origem da arte. Da essência. Da teoria. Da sua teoria da arte. “O que é que isto representa?”, perguntam-lhe quase sempre sobre os seus quadros. “São leis. Leis matemáticas”, responde. Poucos o compreendem.

Semanário TRANSMONTANO: Considera-se um transmontano de gema?

Nadir Afonso: Eu acho que sim. Nasci em Chaves. Os meus pais, um era de Montalegre , o outro de Sapelos, no concelho de Boticas.

ST: Então é barrosão?

NA: Os meus pais são, e eu tenho muita honra nisso, mas eu sou flaviense, nasci em Chaves.

ST: Já está há muitos anos em Lisboa, já se considera um alfacinha ou será sempre fla-viense?

NA: Eu sempre fui flaviense. Vivi muitos anos na França, acho que uns 30, agora já não me lembro bem. Fui para lá aos 28 até aos 50, também estive no Brasil, mas fui sempre flaviense. Sempre que podia vinha a Chaves, era aqui que via os meus amigos do Liceu. Os meus grandes amigos estão em Chaves, mas já morreram quase todos.

ST: Os transmontanos têm fama de lutadores, de ter garra, também é assim…

NA: Eu não sou muito lutador. Eu tenho é uma concepção de arte original e debruço-me muito sobre a arte. Fui um indivíduo que desde que me conheço meditei o fenómeno artístico e acho que sou uma competência. Não sei se sou imodesto, se não. Mas eu acho que posso dizer que sou uma competência em arte porque digo que sou um analfabeto, um atrasado mental em outras disciplinas. Quando se fala, por exemplo, em medicina, eu não percebo nada de medicina; fala-se em política, eu não percebo nada de política, fala-se em geografia, eu não percebo nada de geografia, não percebo nada de história, troco tudo. Sou um indivíduo que nunca me prendi muito a esses conhecimentos, mas fui um obcecado pela arte, pelas leis da arte, e toda minha vida meditei sobre elas e parece-me que consegui. Isto pode parecer imodesto, mas criei uma concepção de arte original. E isto é muito importante. E tão original que as pessoas não acreditam em mim.

ST: Não lhe dão ouvidos…

NA: Está a ver, aos estetas, aos arquitectos, nas universidades, ensinam-lhe coisas com as quais eu estou em desacordo…

ST: É controverso…

NA: Sou um indivíduo controverso porque cheguei a conclusões que eles não chegaram. Mesmo grandes filósofos, como Kant e Eagle, dizem coisas que eu acho que são grandes disparates. Eu trabalhei as formas e, ao mesmo tempo, meditei sobre aquilo que instintivamente criei. Quando fazia um traço, meditava: porque raio não fiz aqui um quadrado, não fiz um círculo? Porque meti uma linha recta e não meti uma linha curva? Fui um indivíduo que tentei compreender as motivações da minha obra, tentei elevar ao nível da consciência os impulsos intuitivos. E cheguei a conclusões. A conclusão mais importante da minha vida foi que a arte é regida por leis, coisa que os estetas não acreditam. E mais: as obras de arte são regidas por leis matemáticas. E as pessoas perguntam: mas eu não vejo lá matemática nenhuma? Está certo! Porque é uma matemática intuitiva, inconsciente, apreendida apenas por faculdades intuitivas, extremamente difíceis de perceber.

ST: Ainda tem esperança de que um dia a sua teoria venha a ser reconhecida como plausível?

NA: Há muita gente que acredita em mim, quando falo sobre arte. Realmente este macaco tem razão, este indivíduo pode ser inculto em muita coisa, mas…

ST: considera-se um homem inculto?

NA: Não me considero um homem culto. Fiz um curso de arquitectura sempre…

ST: À rasca…

NA: À rasca e sempre em contrasenso.

ST: Os seus pais preferiam que fosse arquitecto ou pintor?

NA: Os meus pais preferiam que fosse arquitecto. No meu tempo, já lá vão setenta anos, sem exagero, um pintor era considerado um analfabeto. Quando Cheguei às Belas Artes, com o requerimento para entrar em pintura, um contínuo disse-me: então você já tem um curso de liceu e vai-se inscrever em pintura? Oh homem, a pintura é uma coisa sem categoria nenhuma! Vá-se inscrever em arquitectura! E eu, covardemente, fui na conversa daquele contínuo. Covardemente, insisto nisto, rasguei o requerimento para pintura e fiz outro requerimento: Eu, respeitosamente, venho requerer a vossa excelência que se digne a aceitar-me no curso de arquitectura…

ST: ganhou mais dinheiro como arquitecto ou como pintor?

NA: Ganhei mais dinheiro como arquitecto. Só muito tarde é que comecei a vender.

ST: Quando vem para Chaves ainda pinta ou só vem para passar férias:

NA: O ideal era vir só passar férias, mas a minha vida é trabalhar, é pintar. Pinto sempre.

ST: A que horas costuma pintar?

NA: Depende. Posso estar deitado, lembrar-me que uma forma que fiz num quadro pode estar errada, porque uma pessoa revê em imagem o quadro que pinta à tarde e sou capaz de me levantar de noite…

ST: O que é que o inspira?

NA: Essa é uma pergunta muito interessante. Tenho a impressão que é tudo de uma maneira intuitiva. Eu faço um risco na tela, uma linha recta, uma linha recta é arbitrária... Eu digo vou fazer aqui o rosto de uma mulher, uma casa, uma árvore... evidentemente que é o raciocínio que intervém, mas a verdade é esta: quando meto uma forma, essa leva a outras formas. E quando a segunda intervém, essa já tem de ser proporcional à primeira, e aí já não é o raciocínio. A segunda forma é dependente da primeira através de leis matemáticas, a partir daí joga a intuição, o irracional, eu digo irracional, não digo intuitivo, porque não sei bem o que isso é. Quando começo a trabalhar a primeira forma pode ser muito racional, mas a seguir há um jogo de proporções matemáticas. As pessoas não acreditam nisto. Pensam que é tudo racionalizado. O verdadeiro artista não racionaliza, pode racionalizar momentaneamente, mas depois o mecanismo é dado por leis intuitivas.

ST: Já pintou algum quadro que não tenha gostado?

NA: Quantos quadros. Se na hora da morte tiver uma trintena de quadros que me agrade já me dou por satisfeito, e eu fiz milhares.

ST: Na rua, as pessoas reconhecem-no?

NA: Sim, sou reconhecido. Eu faço por ser um homem normal.

ST: Quando o abordam, o que é que as pessoas lhe perguntam?

NA: Como é que o senhor faz? O que é que isso representa? Ai, não representa coisa nenhuma, representa leis, são leis (coloca o dedo indicador na cabeça em sinal de que o tomam por louco). Leis de quê? Leis de matemática! (repete o gesto)

ST: A sua família compreende a sua teoria de arte?

NA: A minha mulher concorda comigo, se bem que ela me diz que tenho que ter cuidado com o que digo. Eu digo coisas sinceras e que caem mal. Uma das coisas que cai pior é quando falo na confusão que existe nas obras de arte. Há grandes artistas que são desconhecidos e artistas insignificantes que são muito conhecidos. E porquê?

Porque são políticos. A política anda no meio da arte como piolho no meio da costura. E eu digo: que sejamos políticos, que sejamos artistas, mas que não se misturem as coisas. A coisa que mais me choca na vida é ver um indivíduo que só por ser político ou politiqueiro é um artista muito conhecido; que é conhecido só porque é sustentado, é o termo, por críticos de arte que são da mesma cor. Eu acho isso revoltante!

ST: Regressemos à sua infância, estudou em Chaves…

NA: Eu era hipersensível. Qualquer coisa me chocava muito. Havia palmas. Havia uma professora... Um dia, cheguei ao meu pai e disse-lhe que não queria ir para a escola, que me batiam, e ele disse-me, então espera aí. O meu pai foi ao pé da professora e disse--lhe, ao meu filho não lhe batas. Mas assisti muito a apanharem nas mãos.

ST: Era brincalhão?

NA: Havia em mim uma sensibilidade doentia, mas, à parte disso, era uma criança normal.

ST: Os seus filhos pintam?

NA: Eu tenho a ideia de que eles podem ser pintores. Ainda não se revelaram. Eu até acho bem que não se revelem. A pintura não é uma actividade que dê satisfação. Há injustiças. A política está metida na arte.

ST: É adepto do Grupo Desportivo do Chaves?

NA: Do Chaves e depois do Porto.

ST: Por onde passa diz que é transmontano?

NA: Faço sempre questão de dizer. O senhor tem uma pronúncia que não é bem português? É que eu sou de Chaves. Nós temos uma pronúncia especial.

ST: Para terminar, uma definição de transmontano de gema...

NA: Um transmontano de gema…é uma pergunta difícil. É aquele que nunca perdeu a pronúncia transmontana por esse mundo fora, que é sempre transmontano ande por onde andar, que vem sempre à sua terra natal


Margarida Luzio, Semanário Transmontano, 2010-08-20
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MensagemAssunto: "O Brasil continua a crescer e já não volta para trás"   Sex Out 01, 2010 7:54 pm

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"O Brasil continua a crescer e já não volta para trás"

por RICARDO J. RODRIGUES
Hoje


Lula da Silva, Presidente do Brasil, explicou ao DN que jamais teria conseguido transformar o país, ao longo dos seus oito anos de mandato, se não se tivesse livrado do FMI. Só não esclareceu se em 2014 tenciona regressar ao Palácio do Planalto.

Foi um corre-corre. O Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, aterrou às dez da manhã no aeroporto de Salvador da Baía e foi logo visitar uma refinaria nos arredores da cidade. Almoçou com o governador do Estado, Jaques Wagner - seu correligionário do Partido dos Trabalhadores - e partiu ao início da tarde para a rótula do Abacaxi, a intersecção mais congestionada da cidade.

Ali, inaugurou três viadutos, prometeu túneis e melhorias de estradas e anunciou uma nova linha ferroviária que percorresse o país de norte a sul. Falou a espaços com a imprensa, sem nunca tocar no tema das eleições.

Bem vistas as coisas, esta entrevista não se fez, foi-se fazendo ao longo do dia - no meio da multidão, no meio dos jornalistas, no meio dos assessores e até no palco onde Lula discursou.

O Presidente subiu ao púlpito rindo, disse que Salvador era "uma cidade tão especial que o próprio Cabral quis achar o Brasil aqui". Despediu-se assumindo que "noutra encarnação deve ter sido baiano", tantas as vezes que já visitou o Nordeste. O povo aplaudiu. Mais do que isso: delirou.

Com uma taxa de aprovação de 85% não será injusto dizer que Lula é hoje uma figura consensual no Brasil. Qual é afinal o seu legado?

Olha, aquilo que eu sinto é que o povo começou a acreditar em si mesmo. Os brasileiros estão com auto-estima, andam de cabeça levantada. Nós mostrámos que era possível fazer as coisas. Por exemplo, nos últimos 25 anos, este país só investia mil milhões de reais por ano em obras públicas. Neste momento nós investimos 1,6 mil milhões por mês. Isso faz o povo acreditar.

E foi só nestes oito anos que o povo aprendeu a levantar a cabeça?

Há oito anos ninguém imaginava que os brasileiros tivessem a maior renda salarial de sempre, a menor taxa de desemprego de sempre, que a agricultura e a indústria batessem recordes todos o dias, que o salário mínimo aumentasse 84%. Ninguém imaginava que isso fosse possível, mas nós arrumámos o Brasil.

Os governos anteriores tiveram falta de ousadia para investir?

Não só. Quando eu cheguei ao Governo, percebi que havia uma coisa que tinha de acabar: a nossa dependência do Fundo Monetário Internacional. Aí eu reuni-me com o presidente do FMI e disse que queria pagar os 16 mil milhões que o Brasil devia. Já tinha passado tempo suficiente com gente de fora dizendo como nós devíamos investir, quem manda no nosso país somos nós. Podemos errar, bater com a cabeça na parede, mas hoje estamos seguindo o nosso rumo. E a verdade é que o Brasil continua a crescer a um ritmo que já não volta atrás.

O Brasil está a investir mais do que pode?

Sou casado há 36 anos e nunca comprei nada que não pudesse pagar a prestação. Quando eu e a minha mulher éramos jovens, morávamos num quarto e cozinha que não tinha sequer pia para lavar a roupa. O aluguer custava cem reais por mês. Lembro-me de que era uma nota meio avermelhada, que já saiu de circulação. Eu tinha um medo terrível de chegar ao fim do mês e não ter a vermelhinha no bolso. Essa experiência eu levei para o Governo. Só gastamos o que podemos.

Mas está a gastar o que pode ou está a poupar?

Nesse ano nós já guardámos 271 mil milhões de reais na reserva federal. Até ao fim do ano ficamos com 300 mil milhões de reserva.

Daqui a três meses termina o seu mandato. Quais são os seus planos?

Vou continuar a percorrer o Brasil, desde o Rio Grande do Sul até ao Pará. Só tem um jeito de fazer isso: ouvindo o povo, e nunca podemos esquecer-nos de saber ouvi-lo com o coração. Quero seguir ajudando a levar esse país para a frente.

Isso significa que vai voltar a candidatar-se à presidência daqui a quatro anos?

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MensagemAssunto: "Há um entendimento entre o PS, o PSD e o Presidente"   Dom Out 03, 2010 4:41 pm

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"Há um entendimento entre o PS, o PSD e o Presidente"

por JOÃO MARCELINO
Hoje


"O processo político em Portugal está centrado nisto: um esforço enorme do centrão político para prosseguir na sua presença no poder. E, portanto, os interesses económicos e sociais inerentes à sustentação desse centrão - com mais inclinação para o PS, com mais inclinação para o PSD - é que jogam neste processo. Estamos desafiados a encontrar alternativas. (...) A esquerda tem um grande desafio, que é o de passar de uma posição de denúncia e afrontamento pontual para uma posição de desenvolvimento de estratégias que mobilizem a sociedade portuguesa"

Na semana em que o Governo anunciou ao País o mais grave pacote de austeridade dos últimos anos e a CGTP, a comemorar o seu 40.º aniversário, reagiu marcando uma greve geral para 24 de Novembro, o secretário-geral da intersindical - cargo que ocupa desde Dezembro de 99, tendo sido seu coordenador desde Junho de 86 - analisa o momento que se vive na sociedade portuguesa e critica que as medidas agora tomadas atinjam apenas os mais pobres. À beira de completar 62 anos, o filho de agricultores cuja formação-base é o Curso Industrial de Montador Electricista, entretanto reforçado com um curso superior, que tem como referências de vida Lula da Silva, Álvaro Cunhal e Nelson Mandela, reconhece que está na altura de a Esquerda começar a envolver-se nas grandes decisões da governação.

A greve geral [marcada para 24 de Novembro] já estava decidida ou foi determinada pelas medidas que foram conhecidas esta semana e que o Governo pretende inscrever no Orçamento Geral do Estado de 2011?

Eu posso fazer uma confissão. A decisão desta greve geral é uma construção muito complicada, trabalhosa. Foi sendo feita aos bocadinhos, conforme se foi reflectindo sobre a situação em que se encontram os trabalhadores e sobre aquilo que se perspectiva para o futuro, do ponto de vista das medidas que têm incidência fortíssima nas condições de vida dos trabalhadores, dos reformados, dos desempregados.

Desde quando?

A reflexão para a possibilidade de avançarmos para uma greve geral surgiu antes das férias. Quando, em Maio/Junho, se debatia a possibilidade de uma luta conjunta a nível europeu - que se realizou agora a 29 de Setembro -, fomos dos que defenderam que se deveria mesmo equacionar declarar greve em todos os países...

Mas só agora foi conhecida essa decisão, depois de José Sócrates ter anunciado as medidas [a inscrever na proposta de Orçamento]… Foi determinante o anúncio destas medidas para a CGTP dizer "vamos fazer uma greve"?

Este foi um "clique" último que reforçou a dinâmica que vinha sendo construída.

Havia [na CGTP] divergências quanto a essa decisão?

Havia divergências quanto a tempos, quanto a formas. E múltiplas! O que levou à convergência foi um debate profundo em que este aspecto entrou, mas entraram muitos outros. Do ponto de vista nacional e do ponto de vista europeu.

O senhor e a CGTP estavam à espera de um apertar de cinto desta dimensão?

Infelizmente, nós sabemos que o País caminha no sentido de se afundar. Portanto, quando caminha num sentido destes e quando a sociedade manifesta sinais de pressão para uma harmonização no retrocesso - que é uma falsa harmonização, nunca se consegue igualdade nesse caminho -, as coisas podem ser muito duras. Agora, o que foi anunciado não é o mais grave do problema. O mais grave é que estas medidas provocam recessão, provocam directamente mais desemprego. E com recessão económica não há possibilidade de se criar emprego, diminuem as contribuições para o Estado, diminuem os impostos.

Portanto, poderá ter de haver um outro pacote adicional a este em 2011?

Tem de haver um sacudir desta [política]. O grande problema é que nós vivemos num sistema político muito concreto, e neste sistema sabemos que há coisas a que temos de responder. Estamos prisioneiros da dívida externa.

E também do défice…

E do défice! Mas também de uma falta de estratégia de desenvolvimento. Esta terceira componente de olhar o futuro, de ver como se há-de dinamizar a economia, de como se há-de melhorar a capacidade do poder de compra dos portugueses que vivem pior...

Mas a montante não tem de estar sempre o resolver destes problemas pontuais?

Não. Tem de ser resolvido em simultâneo! Essa é uma visão que nós não aceitamos.

O que falta, então, nesta visão do Governo?

Em fases de grande crise nas sociedades ou nos países, o segredo para sair dessas situações de bloqueio está sempre em dois ou três aspectos fundamentais. Um é haver uma concepção estratégica que faça convergir dimensões de reforma com dimensões de ruptura. Temos esses bloqueios da dívida, do défice, temos de responder a eles, temos de encontrar reformas. Mas temos de encontrar, também, as dimensões de ruptura. Temos de sacudir a submissão de Portugal a este processo de agiotagem que está a aprisionar a Europa, em particular os países mais débeis. O segundo aspecto é apresentar projectos que tenham credibilidade, falar a verdade. Não é possível mobilizar a sociedade dizendo que o pacote X vai resolver tudo e, passadas umas semanas, dizer que já não é esse pacote, que tem de ser outro. Tem de haver a capacidade de sensibilizar e mobilizar os portugueses, porque há uma coisa que o povo tem mais do que adquirida perante os problemas: a necessidade de fazer sacrifício.

Neste processo encontra mentiras de líderes políticos?

Mentiras claras. Quando um primeiro-ministro ou um ministro diz "com este pacote estão resolvidos todos os problemas", por exemplo, e depois chega-se a outra edição e "não, não estão. Afinal, agora tem de se ir fazer isto, porque isto era o submarino de que nos esquecemos...", isto não é verdade! Mas há aspectos piores. O ministro das Finanças tornou-se inimigo do povo e inimigo da economia. Acho que é patético um ministro das Finanças quase apelar ao sector privado para reduzir salários! Então ele não quer mais impostos?! Então ele não quer os portugueses a contribuírem para a Segurança Social? Então ele não quer mais emprego? Que concepção é esta?! Como se, alguma vez na história, os patrões tivessem cometido o erro de pagar salários acima daquilo que podem pagar. Isto é uma aberração do ponto de vista objectivo de um actor político! O ministro das Finanças - tenho todo o respeito por ele enquanto tecnocrata, enquanto académico - pode saber muito, mas não sabe interpretar esse conhecimento para o pôr ao serviço do povo.

Qual destas medidas o surpreendeu mais?

Não queria responder a isso. Há uma que é a continuação da pior surpresa: tudo o que é sacrifícios para o mundo do trabalho e para o povo é quantificado. Aquilo que diz respeito aos sacrifícios do sector financeiro é enunciado, podendo a montanha vir a parir um rato.

Mas foi anunciado um novo imposto para o sector financeiro.

Viu alguma descrição de como vai ser aplicado? Quais as amplitudes disso? Em regra, estas medidas em direcção aos poderosos… no fim são como a montanha que pare um rato.

Há especialistas que já dizem que este pacote não vai chegar e que provavelmente ainda vêm aí medidas adicionais em 2011. Também é essa a sua opinião?

Eu coloco é a outra questão. Acima de tudo, estas medidas não resolvem o fundamental, porque fundamental é arranjar caminhos para haver crescimento económico e haver criação de emprego!

O que pensa da incorporação de fundos da PT no Estado para resolver o problema do défice em 2010?

Por falta de tempo, ainda não tive oportunidade de falar com o presidente da PT. Desejo ouvir directamente dele o que diz sobre isto. Do que se vai conhecendo, esta colocação dos fundos permite uma transferência que resolve o problema do défice em relação a 2010, mas no futuro compra encargos para o Estado. E alguém vai pagar. Falta saber uma coisa: se aquilo não tem nenhum buraco. Porque há muita gente que diz que é capaz de já vir com um buraco de algumas centenas de milhares de euros.

Sim ou não? Acha que vai ser possível um entendimento entre o PS e o PSD com base nestas medidas que foram conhecidas?

Acho que desde o início há um entendimento entre o PS, o PSD e o Presidente da República. E esse é o drama, designadamente quando estamos às portas de umas eleições presidenciais, em que parece que vamos ter umas eleições que não são em democracia. É uma espécie de colocação do indivíduo que serve o entendimento e o compromisso, sendo que o entendimento e o compromisso são sobre uma actuação e sobre a execução de políticas que colocam povo a sofrer. Veja-se isto: no Brasil estamos em tempo de eleições presidenciais. O Lula não pode ser candidato, tem uma candidata que apoia, e Lula tem o apoio de cerca de 80% da população brasileira. Essa possibilidade de manipulação do poder, que é real para um indivíduo que tem 80%, não o inibiu de ir ao debate político para a sociedade. É uma coisa que vale a pena ver! Nós aqui andamos à espera de nomear um presidente em nome de um entendimento e de um compromisso. Azar dos diabos, entendimento e compromisso que estão cheios de malfeitorias para o povo.

Já percebemos em quem não vota. Em quem vai votar nas próximas eleições presidenciais?

Quando chegar ao dia, decido.

Temos visto crescer a dramatização em torno da aprovação, ou não, do Orçamento do Estado. O senhor e a CGTP consideram importante que o País tenha um Orçamento aprovado na Assembleia?

É importante e indispensável para o País ter governação, ter Orçamento do Estado e ter Orçamento do Estado apresentado com clareza, com rigor e com transparência. E que haja uma assunção muito objectiva dos conteúdos e dos compromissos inerentes a esse Orçamento do Estado.

E, segundo a sua perspectiva, isso não está no horizonte?

Temos andado numa situação em que o Governo tem grandes dificuldades em avançar com as propostas que acha que devem avançar - porque não quer assumir essa clareza e essa transparência, tem medo das implicações, dos custos que isso tem na sua credibilidade perante a sociedade e da sua projecção para o futuro. Entretanto, formou-se aqui um jogo de chutar responsabilidades de um lado para o outro. Ou seja, o Governo, que tem a convergência do PSD e o apoio do PSD em tudo que são medidas sociais de aperto do cinto ao povo, quer também que o PSD assuma alguma responsabilidade noutras matérias menos simpáticas e de mais custos para outros sectores da sociedade portuguesa. E o PSD, com a sua ambição de ser alternativa, sente que não deve fazer isto, e andam aqui a ver quem é que fica com a responsabilidade da coisa. Há uma convergência objectiva quanto à linha política que pretendem seguir - continuação e aprofundamento da matriz que vem de trás. E o Presidente da República gosta disto, é defensor do centrão e do compromisso para a continuidade. E este jogo até lhe está a dar jeito, porque vai fazendo campanha eleitoral sem estar em campanha eleitoral. Ou melhor, vai ganhando posições eleitorais sem estar formalmente em campanha eleitoral.

Na análise política que faz desta situação não se referiu aos partidos de esquerda, o Partido Comunista e o Bloco que normalmente estão à margem destas questões da governação. Não acha que isso tem de mudar para que a sociedade portuguesa não fique refém das negociações entre PS e PSD?

Acho que é útil e muito importante que mude. Mas o facto é que, neste momento, o processo político em Portugal está centrado nisto: um esforço enorme do centrão político para prosseguir na sua presença no poder. E, portanto, os interesses económicos e sociais inerentes à sustentação desse centrão - com mais inclinação para o PS, com mais inclinação para o PSD - é que jogam neste processo. Isso continua a marcar. Agora... nós estamos desafiados a encontrar alternativas. E acho que a esquerda tem um grande desafio, que é o de passar de uma posição de denúncia e afrontamento pontual para uma posição de desenvolvimento de estratégias que obriguem perante a percepção e a mobilização da sociedade portuguesa.

José Sócrates garante que vai defender o chamado Estado social e diz que prefere subir impostos a cortar na saúde e na educação. O PSD já veio dizer que não aceitará qualquer aumento da carga fiscal. Como acha que se vai resolver esse impasse e, faço já outra pergunta associada a esta, até quando estão os contribuintes portugueses dispostos a aguentar mais impostos em nome do despesismo do Estado?

Primeiro: quem são os contribuintes portugueses? É que há uma parte significativa da riqueza que não contribui para o Orçamento do Estado.

Está a falar de que sectores?

Estou a falar, por exemplo, da dimensão da economia clandestina, da economia paralela. Bem mais de 20% do volume da nossa economia. Estamos a falar de muitos milhares de milhões de euros. Depois, é necessário um efectivo combate à fraude e à evasão fiscal. Há que ir aonde a riqueza está concentrada! E em Portugal criou-se uma barreira. Quando se fala em pôr a riqueza a pagar mais, resumem isto a uma camada, às vezes média/alta, ligada ao trabalho, e não querem ver a dimensão concreta da riqueza.

Mas acha que, por outro lado, também é preciso combater o despesismo do Estado?

É indiscutível. Nós temos três grandes problemas: aumentar as receitas é indispensável, diminuir as despesas - evitar os desperdícios, os descarrilamentos -, mas, simultaneamente, tratar do desenvolvimento do País, e disto quase não se fala!

Não acha que é preciso cortar nas despesas do Estado, nos gastos das famílias...

Claro! Mas, atenção, os três grandes problemas são estes: dívida pública, que é preciso baixar senão andamos a pagar juros. Mas esta dívida resulta, em grande parte, da desvalorização do sector produtivo; uma das teses de modernização neste País é que era natural o desaparecimento do sector produtivo, e não há nenhum país que se desenvolva, veja-se aliás a estratégia dos países que estão a sair da crise...

Está a falar dos cortes que Portugal fez durante muitos anos na agricultura, nas pescas...?

Na agricultura, nas pescas, nos transportes marítimos, na indústria metalomecânica, em sectores da indústria pesada...

Vamos ter de fazer de novo o caminho inverso?

Claro que temos de fazer um caminho inverso! Pode não ser com as mesmas actividades, porque entretanto a sociedade desenvolveu-se. Outra questão é o défice. Nós temos um défice que é preciso combater. Mas o défice agravou- -se não por aumento das pensões e da melhoria do sistema de saúde mas porque se foi buscar dinheiro ao Orçamento para ir em socorro da economia privada em nome da crise! E o terceiro aspecto que é preocupante é uma acumulação de falsos sentidos de modernidade. Portugal engoliu em pleno a ideia de que o consumo a qualquer custo é sinónimo de modernidade.

Há pouco pareceu-me depreender das suas palavras que não considerou muito importante a acção do Presidente da República de chamar os partidos a Belém antes de se começar a discutir o Orçamento na Assembleia...

Ele tem de os chamar. Até já devia ter chamado [antes]! Há aqui um retardamento em função de um jogo eleitoral, também protagonizado pelo Presidente da República, que é um acrescento negativo a tudo o que lhe disse sobre esta situação que estamos a viver no plano político. Há um retardamento claro!

Para ficar muito claro, acha que o PS e o PSD vão entender-se quanto ao Orçamento?

Não há dúvida quanto a isso! Primeiro, naquilo que diz respeito ao apertar do cinto do povo entendem-se. Aliás, uma das questões que colocamos no momento presente é esta: o País está limitado por uma ignóbil campanha de pedidos de sacrifícios a uma parte da sociedade muito grande, que é cerca de metade da sociedade portuguesa, que vive em limites baixos. As pessoas têm pouco e foram convencidas de que os subsídios de desemprego, que os salários mínimos, que as pensões sociais e as prestações já são benesses e, "cuidado, porque vocês são uns malandros"! Mais de metade, talvez mais de cinco milhões de portugueses, é esta sociedade. Não têm organizações próprias muito vivas, não têm uma dinâmica social e estão debaixo desta pressão, da inevitabilidade dos sacrifícios. Isto é uma perda enorme para se encontrar saídas, e é a isto, também, que uma central sindical tem de dar resposta.

Se o Governo avançar com a penalização total ou em parte dos funcionários públicos no que respeita ao décimo terceiro mês, qual será a posição da CGTP?

Não tem sentido, não pode ser! Há muito onde cortar antes disso. Não aceitamos! Uma coisa que dizemos, e não dizemos levianamente, é que é um imperativo nacional aumentar os salários.

Isso não pode estar em causa se, por acaso, o salário mínimo ficar congelado?

Não tem sentido! Os dois factores que evitaram que a pobreza em Portugal se agravasse profundamente na última década, e que ainda criam aqui alguns tampões de segurança, são o efeito de um aumento progressivo e significativo do salário mínimo nos últimos anos, desde 2006, e duas ou três medidas significativas adoptadas: uma primeira pelo eng.º Guterres e mais uma ou duas que criaram alguns tampões e protecção a camadas da população muito desprotegidas. Se isso não acontecesse, era um desastre.

Para encerrarmos esta questão, se por acaso não houvesse entendimento e se Portugal tivesse de partir para 2011 a viver em duodécimos, isso seria mau para o País?

É mau para o País! É um prejuízo para o País não ter um Orçamento claro e com responsabilidades identificadas. Uma situação que leve a uma diluição das responsabilidades no plano político é um agravamento da situação política, que terá de imediato reflexos do ponto de vista económico e do ponto de vista social. Essa é a minha convicção, estou a dizê-lo em nome pessoal, não fizemos ainda um debate sobre essa hipótese. Agora, o que é verdade e me parece inquestionável, é isto: nós precisamos das coisas claras e da responsabilização assumida para que se possa fazer penalizações, mas também de escolhas e questionamentos sérios na sociedade.

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MensagemAssunto: Gente que conta   Dom Out 10, 2010 10:21 am

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"O Ministério das Finanças já não merece crédito"

por JOÃO MARCELINO
Hoje


(COM VÍDEO) Gente Que Conta - entrevista com Henrique Medina Carreira. Apesar de considerar que Sócrates "não tem crédito" e que "o Governo merecia uma sapatada", o ex-ministro diz que não há outro remédio senão deixar passar o OE de 2011, para acalmar os mercados. Mandatário de Cavaco nas últimas presidenciais, não apoiará agora nenhum candidato porque, diz, o Presidente "não fez o que devia".

Medina Carreira foi ministro das Finanças há mais de 30 anos, num Governo de Mário Soares, mas ganhou notoriedade pública mais recentemente, fazendo a denúncia do crescente endividamento do País. Durante muito tempo foi apontado como um "catastrofista", alguém que se esgotava em alertas sem sentido. O tempo, no entanto, deu razão a este português de 79 anos, que nesta entrevista defende - apesar das sempre contundentes críticas ao Governo de José Sócrates - a importância de o País ter um Orçamento aprovado para acalmar os mercados que nos emprestam dinheiro. Passos Coelho deve abster-se explicando as razões ao País, afirma, ao mesmo tempo que revela que desta vez não vai apoiar nenhum candidato às presidenciais. Porquê? Porque este ex-militante do PS, ex--mandatário de Cavaco Silva, acha que o Presidente podia ter feito mais pelo esclarecimento dos cidadãos. "E não fez."

Em que altura decidiu partir para esta missão de alerta à sociedade? Foi um acto pensado de cidadania, ou foi aparecendo na sequência das suas intervenções políticas?

Há 15 anos, perante a queda da economia, que vem desde os anos 60, com outros amigos, fundámos o chamado Fórum Social, exactamente para chamar a atenção da sociedade e dos governos em geral. A seguir a isso, porque dava muito trabalho, e era eu que tratava de organizar tudo, deixei de realizar sessões do Fórum Social e passei a escrever, quando tinha paciência, a chamar a atenção para uma realidade que tem surpreendido muita gente. Tínhamos uma economia em enfraquecimento progressivo e um Estado a necessitar cada vez de mais impostos. Haveria de chegar o momento em que a economia não produziria receitas para o Estado. E foi isso que aconteceu.

Aconteceu quando? É capaz de datar esse momento?

Não é fácil, porque os governos variam nas políticas, pedem mais emprestado, menos emprestado, adiam despesas... Portanto, fomos vivendo num prelúdio de tragédia que foi acelerada pela crise internacional. Isto viria a acontecer, se não houvesse a crise de 2008, num momento mais tardio. Mas iria acontecer porque, como lhe digo, a economia caía e o Estado crescia.

Foi ministro das Finanças no Executivo de Mário Soares, quando foi necessário negociar pela primeira vez com o FMI, em 1977. Encontra algum paralelo com a situação de hoje?

Não, não há paralelo, porque nem foi por necessidade extrema na primeira vinda! O que aconteceu foi que nós obtínhamos financiamentos externos através da Alemanha, das boas relações de Mário Soares e, enquanto lá esteve, de Salgado Zenha. E com esse dinheiro fomos conseguindo aguentar os excessos revolucionários anteriores. Entretanto, esse dinheiro acabou, e o Governo americano propôs o chamado "grande empréstimo". Mas para fazer esse grande empréstimo, que era de mil e quinhentos milhões de dólares, fazia uma exigência: vir cá o FMI.

Como fiador?

Sim, vale a pena dar sempre uma vista de olhos pela casa do devedor. Quando veio mais tarde, com Ernâni Lopes, já foi numa crise muito grave.

Estamos aqui numa crise gravíssima de ruptura entre a riqueza que produzimos e o dinheiro que necessitamos. O espectro de intervenção do FMI neste momento em Portugal está ultrapassado em função das medidas que o Governo anuncio que ia inscrever no OE?

Digamos que está um pouco adiado e pode eventualmente nem vir. Nós temos, no chamado Estado social, qualquer coisa como seis milhões de portugueses. Tocar em salários, pensões, subsídios de doença ou de desemprego é uma tragédia, porque são seis milhões de portugueses que se põem de pé. Portanto, não há partido nenhum que consiga fazê-lo. Não era o PS, não era o PSD. Só haveria se o Governo apanhasse os dois, se fosse um Governo de coligação, como foi com Mota Pinto e Mário Soares em 83/84. Não havia maneira nenhuma de se resolver isto sem o FMI. Este último pacote... Não sei de quem foi exigência, se da senhora Merkel ou não, mas o Governo terá agido também sob uma pressão muito forte, senão não teria ido aos salários.

Não vê que haja aqui, da parte do Governo, uma estratégia económico-financeira?

Não, não há estratégia nenhuma! O primeiro-ministro não tem estratégia nenhuma na cabeça senão andar a fazer espectáculo e ir conciliando as circunstâncias para ver se vai durando. Aliás, este primeiro-ministro foi realmente uma desgraça para o País: nem tocou nos aspectos financeiros, nem tocou nos aspectos económicos. Qualquer solução financeira estável depende da economia. Mesmo essa consolidação que se diz que foi feita é uma coisa verdadeiramente...

No primeiro Governo de José Sócrates?


Exacto, de 2005 a 2008. Para ter uma noção da magreza desta consolidação, ela foi feita da pior maneira: a despesa corrente caiu 0,7, a despesa de capitais caiu 1,7 do produto. Quer dizer, cortou-se nas despesas capitais, foi o grande corte. Fazendo o quê? Tirando os investimentos para as parcerias público-privadas, Estradas de Portugal, para não aparecer no Orçamento. E os impostos cresceram 0,8. Foi à custa de impostos e de despesas de capital. Os impostos têm um tecto, as despesas de capital não podem baixar mais que zero. Isto só serviria se se tivesse mexido na despesa corrente - pessoal, prestações sociais, subsídios -, mas aí não mexeram! Isto ficou preso pelas costuras. A chamada consolidação de que o ministro Teixeira dos Santos e o primeiro-ministro falam - "já fizemos uma, podemos fazer duas ou três" - não tem assento nenhum na realidade.

José Sócrates continua a acreditar que a economia vai resistir às medidas anunciadas, mas a Standard&Poor's, uma das agências de rating internacionais, prevê uma contracção de 1,8 no crescimento do próximo ano, e o FMI diz mesmo que o desemprego deve subir até quase aos 11%. Quem tem razão?

Aparentemente, e em princípio, é o FMI, porque estas medidas são as ditas medidas contraccionistas. Havendo menos rendimento, porque os salários baixam e os impostos aumentam, a população vai consumir menos. É a evolução natural. Só há uma alternativa, que não depende de nós: exportarmos muito mais.

As pessoas perguntam: quantos anos pode levar a crise até ser ultrapassada?

Ninguém pode imaginar... Ao nível a que chegou o nosso endividamento externo - o peso dos juros e o estado da economia... A nossa economia foi-se abrindo quando entrámos para a CEE [Comunidade Económica Europeia, agora União Europeia]. Entrámos para 12, vamos em 27; por conseguinte, um primeiro factor que tornou difícil o crescimento da nossa economia foram os 27. Há muitas deslocalizações daqui para lá, por razões salariais, por razões de organização do Estado, etc. Saímos de uma economia fechada para uma economia sujeita a todas as ventanias externas e não nos preparámos para ser competitivos. E não sendo competitivos, não podemos ter exportações suficientes.

Portugal é mesmo, como o FMI disse esta semana, num relatório, uma ameaça à manutenção da Zona Euro? Ou também é catastrofista?

Portugal só, creio que é algum exagero. Mas há aqui uma posição com que se tem de contar, que é o que os alemães pensam disto. Imagine que nós não acompanhamos esta rearrumação financeira que a Europa impõe. Se formos só nós, não me admiro que nos deixem pelo caminho. Se a Grécia se equilibrar, se a Espanha se equilibrar, e a Irlanda, se ficarmos, digamos, o tinhoso único, não me admiro que nos baldeiem.

Pelo que depreendo das suas palavras, depois deste pacote, serão necessárias medidas adicionais em 2011 para que as finanças voltem a entrar no bom caminho? Ou seja, haverá um PEC III, um PEC IV...

Ou o PEC XXV! Seria bom que fosse assim, mas o problema não é esse: é que, quando chegarmos a 2013, saem as Scut e começam a entrar as par- cerias público-privadas no Orçamento. Mil milhões, mil e seiscentos milhões, mil e quinhentos milhões todos os anos! Depois de termos isto arrumado, aparece a desarrumação. Nessa altura, é quase com certeza necessário outras medidas.

Se fosse ministro das Finanças, quais seriam os vectores principais das suas políticas? Reduzir o Estado?

A primeira coisa se quisesse começar pela financeira, que é aflitiva, mas não é o real problema. O real problema é a economia. Não temos justiça que funcione, a nossa educação é uma miséria, a burocracia é um inferno, a corrupção...

Não houve Simplex?

O Simplex foi importante, mas o meu amigo faz uma sociedade em 50 minutos e depois espera seis meses para lhe darem uma autorização para pôr um toldo ou para abrir a porta. Não há uma visão global. Este Governo é um Governo de fogachos. O Simplex é muito bom. E o resto?!

Voltando às suas medidas.

Começando pelo fundo. Começaria pela arrumação do Estado em todos estes aspectos: educação, justiça, impostos. Os impostos são um sistema legal deplorável, os tribunais não funcionam. O que melhorou nos impostos? Foi a administração fiscal com a passagem de Paulo Macedo, realmente uma lança em África o que ele fez - com excessos, deficiências, com tudo o que é humano. Isso melhorou, mas o sistema legal é de fugir e o sistema judiciário também não funciona. Temos de mexer em seis ou sete coisas essenciais que são as chamadas reformas de fundo. Tenho um método para atacá-las que tenho tentado impingir, passe a expressão, mas ninguém dá dinheiro para fazer isso. É fazer um estudo comparativo com os países da Europa do Leste sobre aquilo em que estamos desfavoráveis - leis do trabalho - e em que aspectos. Nas discussões do trabalho, como tem presenciado, nunca ninguém se entende! "Isto precisa de ser mais flexível!" Os empregados dizem: "Não, isto já é flexível de mais!" A conversa morre sempre aí. Ao passo que, se se trouxer uma descrição sobre o que é o regime laboral nos países com que temos de competir, é diferente a discussão!

Isso no âmbito da economia. E nas finanças?

Nas finanças, temos de fazer um estudo das despesas muito pormenorizado e sossegado. Não é ir aos salários, isto ou aquilo. É ver despesa a despesa. Por exemplo, o mapa autárquico de mil oitocentos e tal não presta. Temos 30% de municípios com menos de dez mil habitantes... O que pagam de impostos não dá para o presidente da câmara, o chauffeur e a secretária!

Temos de reorganizar o País?

Tem de se reorganizar o mapa autárquico. 4500 freguesias é um disparate! E, no mapa autárquico, sabe porque não se mexe? Porque há presidentes de câmara que têm de ir tratar da vida para outro sítio. Não se faz nada que mexa em interesses! Empresas municipais - suprimir aí a eito.

Empresas que não fazem falta ao País?

Essas empresas? Então a gente viveu sem elas até há cinco anos! O que houve foi um esperto que descobriu que aquilo era maneira de fugir com o dinheiro às contas. Endividam-se pelas empresas municipais, e não se endividam pelas câmaras. Se estivesse nas finanças, no dia em que aparecesse a primeira, não deixava andar nem mais uma! Acabar com piscinas, redondéis, coisas onde se gasta dinheiro. Dizem: "Mas isso fez parte do meu programa." "Ai fez? E ganhou? Vá pedir aos seus votantes que lhe dêem dinheiro para fazer isso!" Porque eles querem cumprir os programas assumindo dinheiros que não têm.

E ao nível do Estado social - saúde, ensino... como mexeria?

Também temos de fazer uma análise a ver o que dói menos e a quem dói menos. Não preconizo que se mexa no Estado Social, em pessoas com 300 euros de reforma, que já são uma desgraça. Mas é acabar com as despesas inúteis todas... Há coisas que deve ser o ministro das Finanças a autorizar. Os carros devem ser modelo médio para ministros, e têm de durar cinco ou seis anos. Quando fui ministro, tinha um carro recuperado da sucata da alfândega de Lisboa.

O Estado social, tal qual o conhecemos, vai terminar?

Não. As minhas contas valem o que valem, mas entre 2015 e 2020 vai ter de se mexer.

E com coragem política?

A coragem não é difícil. Agora, trabalhar assim de qualquer maneira... Este pacote que saiu por aí deve ter sido feito em 48 horas. Isto foi alguém que foi a Bruxelas e trouxe um envelopezinho a dizer "mudem já!" Nenhum Governo ia ao pessoal sem pressão externa.

Se fosse trabalhador da PT, estaria apreensivo com a transferência do fundo de pensões ?

Essa pergunta é embaraçosa porque creio que dentro de alguns anos também a PT não vai ser a PT. Não sei se vai valer mais do que o Estado. Se for obrigada a praticar preços por chamada que tenham em conta o nível de vida dos portugueses, a PT não vale aquilo que vale. A PT põe os preços que quer, a energia são os preços que quer, a Galp faz aquilo que quer...

A PT não é uma empresa que está só no mercado português, tem também outras fontes de financiamento.

Está bem, tem essas fontes de financiamento. Mas não é possível termos comunicações caríssimas, taxas de aeroporto caríssimas - mais caras do que em Espanha.

Mas em relação à passagem do fundo de pensões para o Estado, no sentido de amenizar o desempenho orçamental deste ano...

Deve haver outros já na calha para o ano a seguir. Manuela Ferreira Leite fez isto, com grande indignação. E agora está-se a ver que estas habilidades têm de se fazer.

Tinha a noção de que a execução orçamental estava a falhar?

Há uns dois anos que não acredito naquilo que o Ministério das Finanças diz.

Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal...

[interrompendo]... sugeriu uma agência, que eu estava para sugerir um dia destes!

Portanto, faz todo o sentido?

Para mim faz todo o sentido, o Ministério das Finanças não merece crédito! E o Ministério das Finanças era das coisas rigorosas que havia no País. Aquilo já é considerado uma barraca de farturas.

O BPN é actualmente a maior incógnita do próximo ano para as contas nacionais. Há quem diga que está em risco de acontecer o mesmo que na Irlanda, onde o défice passou de 10% para 32%...

[interrompendo] 32%, não, isso é um exagero; no [nosso caso] máximo, 4%!

... Mas no caso português... Acha que isso é uma espada que está sobre o Orçamento?

É. Pelos valores de que se fala, aquilo vai dar grande sarilho. Agora, o BPN: sejamos sérios. Estava a dar uma entrevista ao Rádio Clube quando foi nacionalizado, e concordei. Ainda concordo! Acho que foi das coisas bem feitas pelo Governo.

Mas não tinha ideia da dimensão do buraco?

Ninguém tinha! Mas há uma ideia que uma pessoa sensata tinha: é que se se deixasse haver uma corrida à caixa do BPN...

Tinha de se defender o sistema financeiro?

Exactamente! Não é [era] o BPP.

Portanto, este era um preço que...

[interrompendo] Assim, vão ser três ou quatro mil milhões. O outro preço, não sei qual seria. Um levantamento generalizado da banca era uma tragédia.

É das poucas coisas em que concorda com o Governo?

Estou, estou de acordo. E também estou noutras. A política de energias, das barragens, completamente.

Foi uma das pessoas que impulsionaram, em Maio, um encontro do Presidente da República com nove ex-ministros das Finanças.

Eram os que estavam aqui e quiseram ir. Mas não pondero repetir. Era um momento diferente. Hoje, a consciência da situação é muitíssimo mais nítida. Naquela altura, pensei: o que é que a gente pode fazer? Ir para as ruas berrar, não vale a pena. Talvez, simbolicamente, nove ex-ministros das Finanças é muita experiência acumulada em vários anos, várias situações, pessoas com propensões ideológicas diferentes, era um capital de conhecimento.

Essa reunião também visava um alerta público. Resultou?

Era um alerta público. Não faço ideia se resultou, vocês [comunicação social] é que podem ter uma ideia. Era o que podíamos fazer; enfim, sem um golpe de Estado, era isso.

http://dn.sapo.pt/galerias/videos/?content_id=1682195&seccao=Portugal

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MensagemAssunto: «Sou um transmontano nascido em Lisboa»   Sex Out 15, 2010 2:19 pm

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Entrevista a Durão Barroso
Distrito de Vila Real




«Sou um transmontano nascido em Lisboa»

Ele nasceu em Lisboa, mas os pais e os avós nasceram em Trás-os-Montes. E, por isso, é um transmontano dos quatro costados. Porque «o que conta não é onde se nasce, mas onde se tem as raízes». No prato, é transmontano, mas pouco. Azeite, vinho e castanha são «dos melhores do mundo», mas a comida…leva muita gordura. Excepção/contradição: os pastéis de Chaves. São uma «bomba em calorias», mas “muito bons”. Durão Barroso, ex-primeiro-ministro e actual presidente da Comissão Europeia falou ao Transmontanos de Gema. Da sua relação com a terra dos pais. De Portugal, não quis falar. De Trás-os-Montes, disse que o preocupa a desertificação.

Semanário TRANSMONTANO: Já foi ministro dos Negócios Estrangeiros, primeiro-ministro de Portugal, actualmente é presidente da Comissão Europeia. E transmontano de gema é, ou nem por isso?

Durão Barroso: Eu sou transmontano e alto duriense, do lado da minha mãe, do lado do meu pai, dos meus avós maternos e dos paternos. Eu nasci em Lisboa. Bem, também tenho um filho que nasceu em Geneve, na Suíça, mas é Português. O que conta não é tanto onde se nasce, mas onde estão as nossas origens e nesse sentido posso dizer que sou um transmontano, não de dois costados, nem de três, mas dos quatro costados. Do lado de pai e mãe, dos meus avós maternos e paternos. Todos eles são de Trás-os-Montes.

ST: Na era da globalização ainda faz sentido falar em bairrismos, dizer eu sou transmontano, eu sou beirão…

DB: Não é bairrismo. É amor às nossas raízes, é a nossa ligação à terra, é não perder a referência. Eu acho que é possível e desejável que a pessoa goste da sua terra, ame o seu país e, ao mesmo tempo, seja cidadão europeu e até cidadão do mundo. Olhe que há muitos transmontanos por esse mundo fora. No Brasil, os transmontanos fizeram coisas notáveis e não deixam de ser transmontanos por causa disso. Por isso, eu acho que não há contradição entre a ligação à terra, ou até o nosso patriotismo, e uma certa visão cosmopolita.

ST: Quando teve responsabilidades governativas tomou alguma medida em que tenha pesado o facto de ser transmontano?

DB: Não quero agora falar de política portuguesa, por razões óbvias. Portugal vive um momento sensível e, por isso, não vou agora entrar na análise do que fiz quando era governo. O que posso dizer é que uma coisa que eu aprendi em Trás-os-Montes, e que me parece que é óbvia, é que uma pessoa nunca deve viver acima dos meios que tem e que o valor fundamental está no trabalho. Isso é transmontano, é uma maneira de viver transmontana. Os transmontanos sabem perfeitamente que é com trabalho que se conseguem resultados e, por isso, posso dizer que essa ética do trabalho, essa ideia de que para ter alguns lucros ou vantagens se tem que trabalhar esteve sempre presente quando estive no governo de Portugal e também hoje que estou na Comissão Europeia.

ST: Voltando à sua condição de transmontano, apesar de ter nascido em Lisboa, faz questão de o frisar?

DB: Eu sou um transmontano nascido em Lisboa. Acho que é perfeitamente possível, já disse há pouco. O meu filho mais velho, o Luís, nasceu em Geneve, mas não é suíço é português. Da mesma forma, eu sou um transmontano nascido em Lisboa.

ST: Que ligação mantém aqui a Trás-os-Montes?

DB: Tenho uma ligação, se quiser uma nota mais pessoal, que este ano me levou duas vezes à minha terra [Veiga de Lila, Valpaços]. A primeira, ao enterro da minha mãe e a segunda, há duas semanas, ao enterro do meu tio e padrinho. Eu acho que estas são as ligações mais fortes, que é quando morre alguém onde é que nos vamos despedir dessas pessoas. Foi aí que reencontrei a minha família. Foi um momento penoso, mas profundo.

ST: E quando se reformar, pensa regressar?

DB: Bom espero regressar antes dessa ocasião. Agora numa nota mais feliz, eu regresso cá muitas vezes, mas venho privadamente.

ST: O que faz quando vai à aldeia?

DB: Bom, não vou agora entrar nos detalhes. Faço visitas privadas. A minha casa que herdei dos meus pais não está em condições, neste momento, de se lá viver. Quando venho cá fico em Chaves em casa de uma prima minha. Tenho primos em Chaves, em Carrazedo de Montenegro, na Régua, em Lamego. Venho cá muitas vezes.

ST: E no prato, é transmontano?

DB: Nem por isso. Gosto do vinho transmontano, mas da comida…Sabe, eu não gosto muito de excesso de gordura na comida e acho que aqui em Trás-os- Montes se faz com muita gordura.

ST: Muito azeite?

DB: Não, o azeite é do melhor do mundo. A minha família, o meu avô, tinha um lagar, diziam que foi o primeiro lagar mecânico daquela região. Eu, em miúdo brinquei, muito no largar mecânico, com os meus irmãos e os meus primos. Mas havia também uma adega de vinho. Eu pisei muitas vezes o vinho da quinta de Valpaços. Por isso, vinho e azeite são óptimos, a castanha excelente. Os produtos naturais são muito bons! Agora há coisas que devo dizer, quero ser muito sincero convosco, não vou dizer tudo bem! Eu não gosto de comida com muita gordura e, às vezes, no fumeiro e no modo de preparação, põem-se muitas gorduras. Isso, a meu ver, não é bom para a saúde. Esse é um dos pontos que me leva a comer menos.

ST: Também já disse que vem muitas vezes a Chaves?

DB: Bom, agora que fala em Chaves, há um problema. É que estava a falar contra a gordura e adoro os pastéis de Chaves. E os pastéis de Chaves são uma bomba em termos de calorias. Mas são bons, muito bons!

ST: Já perdeu o sotaque?

DB: Como lhe dizia, eu nasci em Lisboa, fiz os meus estudos em Lisboa. É verdade, não escondo. E Lisboa também é uma cidade linda, é a capital do nosso país. Eu cultivo o amor à terra, e às raízes, mas não numa base de antagonismo em relação aos outros. Acho que isso é mau, definir a nossa identidade contra a identidade dos outros. E, por isso, talvez o meu sotaque não seja transmontano. Mas sabe uma coisa engraçada? Quando eu ia a Trás-os-Montes, quando era miúdo, e estava lá três meses, nas férias grandes, e depois voltava para Lisboa, os meus colegas de escola e de Liceu gozavam comigo, porque diziam que eu estava a falar à Norte, à Trás-os-Montes. Porque mal vou a Trás-os-Montes começo a falar um bocado com aquela entoação. É mais uma questão de entoação do que de pronúncia. É a entoação, o ritmo.

ST: Como olha para o interior, gosta do que vê?

DB: Fico triste. Acho que o Interior de Portugal não está bem.

ST: O que é que faz falta?

DB: Acho que ele não está bem. Ainda agora, quando estive na aldeia, estava um dia de sol, a aldeia estava bonita, mas só vi pessoas muito velhas. A aldeia está desertificada. Isso é de facto um problema, não só de Trás-os-Montes. Houve um fenómeno de desertificação que é preocupante, mas não é só de Portugal, mas eu acho que Portugal atingiu uma dimensão mais preocupante que noutras partes da Europa.

ST: Para rematar, a pergunta da praxe, a sua definição de um transmontano de gema…

DB: Para mim, transmontano de gema é antes quebrar que torcer, passado de trabalho e espírito de sacrifício.

* A entrevista foi concedida ao Transmontanos de Gema, uma parceria do Semanário TRANSMONO e da Rádio Larouco, na Casa de Mateus, em Vila Real, onde Durão Barroso esteve na sexta-feira da semana passada, a propósito da entrega do Prémio D. Dinis. Na Rádio Larouco (93.5), a entrevista será transmitida hoje, sexta-feira, às 10h30.


Margarida Luzio, Semanário Transmontano, 2010-10-15
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MensagemAssunto: 'Passos vai ser primeiro-ministro só não sabe é quando'   Dom Out 31, 2010 12:33 pm

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'Passos vai ser primeiro-ministro só não sabe é quando'

por JOÃO MARCELINO
Hoje


A entrevista com Mota Amaral foi gravada (quinta-feira ao final do dia) ainda antes do acordo a que chegaram o PS e o PSD sobre o Orçamento do Estado, mas as respostas mantêm toda a actualidade, porque este homem, magro e austero, também despe as frases e as ideias de tudo aquilo que é acessório. Nele, a discrição, a educação e a simplicidade estão presentes em todos os movimentos, até no gesto de se despedir individualmente de todos os trabalhadores que deram corpo à entrevista

Actualmente deputado, ex-presidente do Governo Regional dos Açores durante quase 20 anos, até 1995 (e nessa data o cidadão português com o maior número de anos consecutivos no exercício de um cargo governativo previsto na Constituição), Mota Amaral, um dos fundadores do PPD, agora PSD, e ex-presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, fala de todos os assuntos sem tabus, até da sua ligação, de 50 anos, ao Opus Dei.

Qual é a sua convicção: vamos ou não ter um Orçamento do Estado viabilizado no Parlamento?

O meu desejo é que tal aconteça e que o Orçamento seja viabilizado, não com o voto favorável do PSD, que efectivamente não pode nunca rever-se nas políticas propostas pelo Governo do PS, mas através da abstenção do maior partido da oposição. Não sei é se isso vai acontecer, porque o modo como as negociações têm corrido, e sobretudo a atitude fechada da parte do Governo nesta negociação, pode colocar em perigo um objectivo estimável, desejável, de interesse nacional.

Mas acredita que neste momento o PSD ainda está a pesar a possibilidade de um voto negativo?

Julgo que sim, a deduzir das declarações feitas até agora pela sua liderança. É certo que Pedro Passos Coelho tem a possibilidade de apresentar as suas diligências com o empenho por minorar os sacrifícios exigidos aos portugueses pela proposta de Orçamento apresentada pelo Governo. E pode vir a declarar que, pondo à frente dos interesses partidários o interesse nacional, viabiliza o Orçamento através da abstenção do partido.

Essa, aliás, foi a posição que defendeu também já há uns dias. Disse publicamente que o PSD deveria abster-se na generalidade e depois discutir na especialidade, ponto por ponto. Se isso acontecer, acha que é possível o PS aceitar governar com um Orçamento definido pela oposição? Se depois na especialidade muito do clausulado do Orçamento do Estado vier a ser rectificado?

O PSD já apresentou as suas propostas e julgo que a aprovação delas, até a aceitação delas, não iria descaracterizar o Orçamento, iria, sim, repito, minorar os sacrifícios pedidos às famílias portuguesas. Agora, a atitude do PS é que tem sido uma atitude fechada. O PS prepara um cenário de ruptura relativamente ao Orçamento. Mas é preciso ver com toda a atenção o que é que dispõe a nossa Constituição nesse domínio. Se o Governo pensa que vai dizer ao País que uma vez que o Orçamento não foi viabilizado ou que eventualmente foi alterado na especialidade se demite... Ele não pode fazer isso! O Governo foi empossado legitimamente, o Governo foi viabilizado na Assembleia da República, foi investido pelo Parlamento, o primeiro-ministro não pode simplesmente sair cantando e rindo pela porta fora como se nada fosse com ele! Tem de assumir as suas responsabilidades e levá-las até ao fim.

Mas poderia apresentar ao Presidente da República a sua vontade de sair.

Sim, e o Presidente da República não devia aceitar esse pedido de demissão. Isso não é assim, não é o Governo que toma por sua iniciativa o desejo de sair e sai. Não, não! Isso tem de ser passado pelo crivo do Presidente da República e se eu fosse o Presidente da República não daria a demissão! Remeteria o Governo ao Parlamento para que apresentasse perante o Parlamento uma moção de confiança. E, adianto mesmo, numa moção de confiança o PSD deve abster-se.

Ter um cavaquista como Eduardo Catroga a negociar o Orçamento foi um sinal de que o Presidente da República esteve atento ao problema e que exerceu a sua magistratura de influência sobre este processo?

A presença do dr. Eduardo Catroga, antigo ministro das Finanças, na liderança da delegação do PSD foi lida pela opinião pública como uma atenção pela parte do PSD à influência do Presidente da República.

E por si?

Por mim também, obviamente. Não significa que o Presidente da República estivesse envolvido nessa negociação, não estaria, com certeza, nem pode estar. A responsabilidade da decisão dessa negociação cabe em exclusivo ao líder do PSD, o dr. Pedro Passos Coelho. E com ele, com certeza, o dr. Eduardo Catroga terá acertado os termos concretos em que iria apresentar as posições do PSD e as cedências possíveis para se encontrar uma plataforma de entendimento com o Governo.

É deputado do PSD, já se percebeu qual é a sua sensibilidade em relação a esta questão, mas o seu sentido de voto será aquele que vier também da orientação da direcção do partido?

Não tenho estados de alma relativamente à aprovação do Orçamento. Sei perfeitamente quais são as regras do jogo no nosso sistema político-partidário, a definição da posição cabe à comissão política nacional e conformarei o meu voto com a orientação estabelecida pela comissão política nacional. Não deixarei de formular a minha declaração de voto se porventura o voto fosse pela negativa, mas mantenho a esperança de que o voto será um voto de abstenção, porque isto poupa ao País mais tempo de incerteza e, sobretudo, amarra o Governo do primeiro-ministro, José Sócrates, às responsabilidades gravíssimas que tem pela situação calamitosa a que conduziu o País.

Para além desse voto, a acontecer nesse sentido, o PSD deve preparar-se desde já para a governação próxima?

Acho que um partido de oposição com aspiração de Governo, como é manifestamente o PSD, a nossa posição não é - no sistema político - servir de muleta ao Governo do PS, é ser a alternativa ao Governo do PS e é preciso que os portugueses vejam o PSD neste registo. Por isso, o PSD deve estar sempre preparado para apresentar as suas alternativas e eventualmente, se para isso for mandatado pelos portugueses, assumir as responsabilidades da governação.

Mas, a acreditar na fiabilidade dos últimos estudos de opinião, o PSD está muito perto disto: esta semana foram conhecidas duas sondagens, uma da Universidade Católica para o DN, JN, RTP e Antena 1, e outra da Marktest para a TSF e Diário Económico, e ambas colocam o PSD entre os 40% e os 42% e o PS entre os 25% e 26%, que, aliás, é dos mais baixos números de sempre. Esse movimento da opinião pública está a acontecer. Acha que esta legislatura pode chegar ao fim com o sentir dos portugueses a manifestar-se desta forma?

Há aqui que examinar o nosso quadro político e constitucional. Já o disse, o Governo foi investido, é um Governo legítimo. Foi investido pelo Presidente da República, foi investido pelo Parlamento, ganhou as eleições de 2009.

Mas governa de forma minoritária...

Governa mal de forma minoritária, porque um Governo que não tem maioria no Parlamento tem de se habituar a negociar no Parlamento a viabilização das suas leis mais importantes, nomeadamente a do Orçamento do Estado. E, acerca desse ponto, é preciso sempre sublinhar que a responsabilidade de que o Estado e o País tenham um Orçamento cabe ao Governo e ao partido que o apoia, antes de mais nada, e não aos partidos da oposição. Acho que tem havido aqui uma tentativa de inverter o ónus desta responsabilidade, mas é claríssimo que é o Governo e o PS que têm de diligenciar de todas as maneiras e feitios para conseguir que haja um Orçamento viabilizado no Parlamento e que esse Orçamento corresponda às necessidades do País.

Voltando à apreciação das sondagens.
Essas sondagens...


... Levam o PSD a preparar-se mais aceleradamente para a possibilidade de esta legislatura não chegar ao fim e ser chamado à governação mais cedo?

A possibilidade de esta legislatura não chegar ao fim existe. O PSD deve estar preparado para, na altura própria, haver eleições. Mas, atenção, o PSD respeita o funcionamento da nossa democracia e, portanto, não vai com certeza desestabilizar o nosso sistema político. Se, porventura, o Governo estiver a governar mal, é natural que o PSD apresente uma moção de censura, aliás, isso já foi dito por Pedro Passos Coelho. E, se assim acontecer, a responsabilidade passa para o Parlamento, de julgar se há ou não melhores oportunidades de governabilidade do País com outra fórmula de Governo. Na realidade, se porventura uma moção de censura do PSD não passar no Parlamento, eu tenho certas dúvidas de que venha a passar, a chave da continuidade desta legislatura está na mão do presidente da República que venha a ser eleito nas eleições marcadas para 23 de Janeiro. O senhor presidente da República é que pode dissolver o Parlamento. Mas se porventura Cavaco Silva vier a ser reeleito, não tenho qualquer dúvida de que só dissolverá o Parlamento quando houver sinais claros de que o povo português pretende uma solução diferente e com melhores condições de governabilidade que aquela que neste momento existe. As sondagens destes últimos dias dão um sinal que não pode de forma alguma ser desprezado por nenhuma das partes, nomeadamente deviam ser consideradas pelo Governo e pelo PS, tendo em conta a viabilização do Orçamento.

Nas últimas eleições internas do PSD apoiou José Pedro Aguiar-Branco. Como é que avalia hoje a actuação política de Pedro Passos Coelho?

Pedro Passos Coelho começou bem, criou óptimas expectativas. Teve alguns momentos, quanto a mim, menos felizes, nomeadamente o modo como foi apresentada a questão da revisão constitucional. Mas não há dúvida de que - tiro-lhe aí o chapéu à sua intuição política - o modo como conduziu o partido nestes últimos tempos relativamente à questão do Orçamento o prestigiaram perante a opinião pública e reforçaram a sua posição. Os sinais que podem retirar-se, pelo menos de estudos fiáveis da opinião pública, são-lhe favoráveis.

Vê-o como um potencial bom primeiro-ministro de Portugal?

Sobre esse ponto não tenho qualquer dúvida. E julgo que ele poderá dizer, como disse Durão Barroso, que tem a certeza de que vai ser primeiro-ministro, não sabe é quando. Mas, de repente, pode acontecer até que seja mais breve do que se julga.

Que olhar tem sobre a candidatura do actual Presidente da República, o professor Cavaco Silva?

De apoio entusiástico. Acho que Portugal precisa de Aníbal Cavaco Silva por mais cinco anos à frente da Presidência da República como referencial de estabilidade, como uma pessoa de honestidade a toda a prova cuja sabedoria é indispensável para ajudar o nosso país a ultrapassar a crise em que se encontra e arrancar pelos caminhos do futuro. Apoio Aníbal Cavaco Silva nesta campanha eleitoral, como já apoiei na anterior, e espero que ele venha a obter uma boa vitória para continuar o seu serviço a Portugal. Julgo, de resto, que um dos maiores erros do primeiro-ministro, José Sócrates, foi não ter querido aceitar a oferta generosa, patriótica, de cooperação estratégica que lhe foi feita no início do mandato pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.

Tem mantido contactos regulares com o Presidente da República ao longo destes cinco anos?

Regulares, espaçados. Até pelo exercício de funções que com muita honra para mim ele me confiou, tendo a oportunidade de conversar com ele e de apreciar, também como deputado da oposição e como cidadão, o modo como ele tem desempenhado as suas funções de Presidente da República.

Até há pouco tempo falava-se na possibilidade do aparecimento de uma candidatura à direita, que acabou por não se verificar. Acha que isso não aconteceu porque houve entendimentos de bastidores porque tal podia vir a fragilizar as possibilidades de êxito da candidatura do professor Cavaco Silva?

É óbvio que uma candidatura apresentada à direita da do professor Cavaco Silva, que não é manifestamente uma candidatura à direita, ele sempre se situou no centro - e muitas vezes foi acusado de ser defensor de posições muito ao centro-esquerda, é preciso recordar isso do historial da sua governação -, foi apenas uma fantasia que não tinha qualquer viabilidade, mas que poderia vir a prejudicar o resultado eleitoral. Em boa hora, as pessoas que se movimentaram nessa área ou que se apresentaram ou que foram indicadas como putativos candidatos desistiram de tal. E hoje as forças políticas representativas desta área de direita e centro-direita manifestaram-se claramente a favor da candidatura do professor Cavaco Silva.

Admite o cenário de o professor Cavaco Silva não ganhar à primeira volta?

Julgo que ele vai ganhar à primeira volta, as condições estão para isto. Não equaciono a necessidade de uma segunda volta, seria prolongar os factores de incerteza. E julgo que neste momento o País precisa... A confirmação do professor Cavaco Silva como Presidente da República é um elemento importante de clarificação da situação política.

Manuel Alegre não o seria?

Manuel Alegre é uma pessoa estimabilíssima, sou amigo dele, tenho uma grande admiração por ele. Mas, na fase actual, julgo que não. O sinal que representaria a eleição de Manuel Alegre seria a maioria à esquerda, é claríssimo. Ele é apoiado pelo PS e pelo BE, até pelo BE antes de ser pelo PS, e o seu percurso político é todo nesta área. Ora já se verificou que não é por aí que vêm as soluções capazes para os problemas do País no enquadramento estratégico em que nos encontramos, como país membro da União Europeia.

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MensagemAssunto: "Não é possível mobilizar o País com este primeiro-ministro"   Dom Nov 14, 2010 10:45 am

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"Não é possível mobilizar o País com este primeiro-ministro"


por JOÃO MARCELINO
Hoje

(COM VÍDEO) Gente Que Conta - Entrevista com Paulo Portas. "Em Junho deste ano, quando ainda havia período de dissolução, quando ainda era possível apresentar moções de censura, lembra-se de que eu disse ao primeiro-ministro 'saia'? E disse: em alternativa devia formar-se um governo de salvação nacional, de regeneração nacional. Um governo pequeno, com poucos ministros, mas bons, formado pelo PS, pelo PSD e pelo CDS e que aguentasse durante três anos, que fizesse aquilo que é preciso fazer para o bem financeiro e económico do País".

Paulo Portas renova a mensagem que passou na Assembleia da República em Junho: Portugal precisa de um governo que junte PS, PSD e CDS para enfrentar a crise económico-financeira e que José Sócrates não faça parte dessa "coligação de salvação nacional". As declarações de Luís Amado ao Expresso, ontem, deram mais força à tese do presidente do CDS-PP (que o PSD para já parece rejeitar). Mas Portas insiste, assinala que um eventual recurso a ajuda externa teria de ser visto como o fim da linha para o Governo e confia que um segundo mandato de Cavaco Silva na Presidência da República possa abrir um novo ciclo político no País.

Se todos os partidos da oposição tivessem votado contra o Orçamento na generalidade, como fez o Partido Popular, teríamos juntado uma crise política a uma crise que é económica e financeira. Faria algum sentido se as eleições, mesmo que aconteçam o mais rápido possível, não podem ser efectivadas antes de meados do próximo ano?

Eu vou começar por discordar do fundamento da sua pergunta. Durante semanas, os portugueses ouviram dizer que a aprovação do Orçamento era essencial para garantir a queda dos juros da dívida pública e a segurança do rating da República. Passaram várias semanas da aprovação do Orçamento e os juros da dívida pública dispararam de 6,25% para mais de 7%, infelizmente. Portanto, esse argumento ad terrorem não era verdadeiro. Aquilo que os chamados mercados, ou as agências, ou as instituições, estavam a observar não era a fotografia do dr. Teixeira dos Santos com o professor Catroga. Estavam a observar a execução orçamental, que é má, o nível da nossa dívida pública, que é muito perigoso, e a ausência de crescimento neste Orçamento.

A minha pergunta ia no sentido em que teríamos juntado a tudo isto uma crise política - essa ainda não temos...

Não. Teríamos juntado uma coisa a meu ver francamente melhor: é que o Governo teria feito, como sucede em boa parte da Europa, um segundo Orçamento melhor, que não fosse tão recessivo do ponto de vista económico.

Mas provavelmente o FMI já estava a caminho.

Não vale a pena continuarmos com o "se" condicional passado porque ninguém sabe o que é que teria acontecido. A única coisa que se sabe é que quem disse que a aprovação do Orçamento garantia o rating e garantia a queda dos juros, de repente, está desaparecido em combate. Estão num silêncio de sepulcro. E todos os dias os portugueses percebem que a questão é estrutural e é muito mais funda. Sobretudo o grau de endividamento do País e a ausência de crescimento económico tornam extremamente débil a capacidade de resposta do nosso país neste momento, em termos económicos.

E o sentido de voto do CDS-PP na discussão na generalidade ia no sentido de antecipar a crise que aí vem?

As pessoas podem concordar ou discordar, mas, muito lucidamente, em Junho deste ano, quando ainda havia período de dissolução, quando ainda era possível apresentar moções de censura, lembra-se de que eu disse ao primeiro-ministro "saia"? Não é um capricho, é que eu acho que o primeiro-ministro que nós temos é autor de uma ilusão, essa ilusão terminou e não é possível mobilizar o País nem recredibilizar o Estado português com este primeiro-ministro. E disse: em alternativa devia formar-se um governo de salvação nacional, de regeneração nacional. Um governo pequeno, com poucos ministros, mas bons, formado pelo PS, pelo PSD e pelo CDS e que aguentasse durante três anos, que fizesse aquilo que é preciso fazer para o bem financeiro e económico do País.

Essa sua proposta ainda está em cima da mesa?

Eu mantenho-a, porque desde o Verão as coisas só se agravaram, com toda a franqueza. A nossa dívida pública está a chegar a 150 mil milhões de euros, os nossos juros já passaram a fronteira infelizmente traçada pelo ministro das Finanças dos 7%.

A banca...

O rating de quatro bancos relevantes foi cortado da forma que toda a gente conhece. A execução orçamental é muito má, ou seja, no período de poucos meses ficou à vista um buraco superior a dois mil milhões de euros. O Orçamento, mesmo para os que o defendem, é reconhecidamente mau ou péssimo. E o crescimento económico é muito pequeno, nulo, ou vamos a caminho de uma recessão. Ou seja, desde o Verão, desde o momento em que eu disse o "saia, venha um governo PS-PSD-CDS de salvação nacional e estejamos todos disponíveis para fazer o que é preciso". E até disse uma coisa mais: nesse governo devem estar pessoas exclusivamente obcecadas em fazer aquilo que é o bem comum e o que o País precisa em termos financeiros e económicos. Devem ser suficientemente livres e estar disponíveis para não serem essas pessoas a ir a votos no final desse mandato. Devem passar a pasta a outros para não estarem preocupados com os votos, estarem preocupados com o País apenas. É aquilo que eu acho, no estado de emergência em que o País se encontra, que nós precisávamos. A verdade é que o Verão foi consumido em querelas completamente inúteis, gastou-se energia, tempo e vagar numa querela sobre a revisão constitucional razoavelmente inútil, porque o País precisa de uma boa revisão constitucional, ela só pode fazer-se por acordo, não vale a pena tanta gritaria.

A coligação que defende foi também ontem proposta por Luís Amado numa entrevista ao jornal Expresso. Como é que comenta essa declaração do ministro?

Acho que é uma entrevista importante e revela o pensamento próprio do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. Não é a primeira vez que sucede, recordo que já quanto à questão - provavelmente a mais séria que o País tem de enfrentar - do endividamento e da nossa dependência externa o discurso do dr. Luís Amado não coincidia com a linha geral do Governo. Devo aliás acrescentar que estes últimos dias mostraram vários sinais, vindos de ministros de Estado, de que a coordenação no Governo e a coesão no Governo já não é o que era. Lembro que o ministro das Finanças, a meu ver com imprudência, fez as afirmações que fez relativamente ao Fundo Monetário Internacional e agora o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, a meu ver com realismo, aponta para um governo de salvação nacional.

O PSD já se demarcou dessa proposta, diz que o Governo tem todas as condições para governar.

Começo por lembrar, e peço-lhe que me permita essa modéstia, que quando em Junho defendi que o primeiro-ministro devia sair, devia ter essa humildade e em alternativa - porque é preciso propor alternativas - devia haver um governo de salvação nacional, à época toda a gente chamou a isso um arranjinho. E agora há muito mais gente a observar e a ter consciência da gravidade da situação do País e da necessidade de uma resposta muito mais profunda.

Mas o PSD não quer esse "arranjinho"...

Observei as reacções à entrevista do dr. Luís Amado e vejo o seguinte: a reacção do primeiro-ministro mostra que ele está datado, porque vem dizer "eu há um ano convidei os partidos todos para irem para o Governo", como se fosse uma espécie de todos ao molho e fé em Deus, quando aquilo que aconteceu há um ano obviamente não foi uma negociação, foi muito mais uma encenação. E, por outro lado, não se dá conta de que precisamente por o País ter ganho consciência do que era a verdade em termos de endividamento, a verdade em termos orçamentais e a verdade do ponto de vista do défice nestes últimos doze meses é que a legitimidade do primeiro-ministro está seriamente em causa e o País precisa de soluções diferentes e novas. Por outro lado, a reacção do PSD também a achei um bocado defensiva. É difícil manter este discurso que o PSD parece ter. Por um lado, diz-se: o Orçamento é péssimo, mas deve ser aprovado. Agora diz-se: o Governo é mau, mas deve ser prolongado. Isto não é muito explicável, porque não é nem muito coerente nem muito consistente.

Mas quem é que podia ser o primeiro-ministro desse tal governo? Tinha de ser alguém do PS?

Mantenho-me fiel àquilo que disse em Junho. Defendi que o primeiro-ministro, José Sócrates, fazia parte do problema e não da solução, devia ter a humildade de sair e que devia ser formado um governo de salvação nacional, obviamente tendo à frente uma pessoa moderada e uma pessoa realista. Não me parece adequado estar a dizer mais do que disse nessa altura. Mantenho a mesma opinião.

O CDS, no final da discussão na especialidade do Orçamento do Estado, vai apresentar uma moção de censura?

Neste momento, está vedada a dissolução da Assembleia da República. Embora teoricamente seja possível uma moção de censura, a verdade é que o Presidente da República não pode convocar eleições e eu gosto de ser realista nas atitudes que tomo, e consequente nas decisões que tomo.

Acredita que o primeiro-ministro está a equacionar uma remodelação governamental?

E quem é que aceita entrar? Eu não sou fatalista, acho que a situação do País é muitíssimo preocupante, mas faço sempre uma distinção: Portugal é uma nação antiga, Portugal já viveu crises tremendas, já perdeu a sua independência, já foi à falência, olhe para o século XIX!

Várias vezes.

Várias vezes!

Mas o que é que quer dizer? Acredita ou não que está em curso na cabeça do primeiro-ministro a possibilidade de uma remodelação?

Espere aí, vai perceber o que eu estou a dizer-lhe: é que acho que o próprio primeiro-ministro tem de ser remodelado. Esse é que é o problema!

Acha que o Governo não chega ao fim da legislatura?

Sempre que o País viveu crises difíceis, momentos extremamente complicados, foi capaz de dar a volta. Portugal foi sempre capaz de dar a volta, com maior dificuldade, com menor dificuldade, Portugal foi sempre capaz de dar a volta. O que nunca foi é capaz de dar a volta entregando o projecto ao mesmo timoneiro, à mesma tripulação e à mesma rota de navegação que o levou ao problema! E isto é a minha convicção muito profunda!

O CDS-PP equaciona a possibilidade de votar uma moção de censura em conjunto com a esquerda para, num determinado ponto desta legislatura, acabar com o Governo de José Sócrates?

Acho que o primeiro-ministro já devia ter saído, que devia haver um governo de salvação nacional PS-PSD-CDS, para três anos. Um governo pequeno, com objectivos realistas, capaz de mobilizar pela seriedade o País.

Para o qual estaria pessoalmente disponível?

Em que o CDS faria aquilo que fosse de interesse nacional fazer. As questões pessoais são as menos importantes no estado de emergência em que o País está.

Nunca com José Sócrates?

Vamos ter a honestidade de ter alguma memória: há um ano, o País estava em eleições e este primeiro-ministro dizia que o défice era de 5,6%, dizia que o endividamento não era problema, que as contas estavam em dia!

Não acredita que esta legislatura chegue ao fim?

Não acredito!

E se Portugal vier a precisar mesmo de ajuda externa?

Se Portugal chegar ao estado de necessidade de ter de recorrer a ajuda externa - União Europeia ou FMI -, isso significaria o colapso absoluto da política de governo. A pergunta que me parece importante deixar é a seguinte: se isso acontecer, podemos ficar com o mesmo primeiro-ministro e a mesma forma de governo?

Alguma vez o CDS foi contactado pelo Governo para negociar?

Nunca. Com toda a franqueza, factualmente, a resposta é não. Aliás, não me pareceu que houvesse uma muito genuína vontade de procurar um compromisso sobre este Orçamento do Estado.

Está a dizer que o Governo gostaria de ter o Orçamento do Estado chumbado na generalidade?

Não tenho elementos para fazer uma teoria conspirativa nem gosto de teorias conspirativas. Sei é que a forma como o primeiro-ministro tratou quer o PSD quer o CDS não era de molde a procurar um espírito de compromisso. Seja como for, estando o País a caminhar para um precipício do ponto de vista do endividamento, que é a questão mais profunda, mais séria, a verdade é que o Orçamento acabou por ser negociado em cinco ou seis dias, uma negociação extremamente limitada quando durante semanas se perdeu um tempo infindo. Repare numa coisa: esta negociação entre o PS e o PSD permite aos contribuintes e aos cidadãos meditarem sobre os limites daqueles dois partidos, com todo o respeito.

O seu sentido de voto também tem essa intenção política de cavar caminho à direita do PSD?

Tem um sentido de coerência. Porque é que o PS e o PSD não conseguem tocar no sector empresarial do Estado? Ainda hoje...

Qual é a resposta?

Eu acho que o PS e o PSD não perderam um minuto a fazer negociações sobre o sector empresarial do Estado porque dependem do sector empresarial do Estado para o provimento das suas clientelas. É muito estranho que os dois partidos centrais do sistema tenham de reduzir despesa pública e negoceiem, abram uma agenda de negociações e não estejam lá as empresas públicas! Primeiro ponto. Depois, repare que os dois partidos não conseguem resolver a questão das Scut. Eu estou à vontade, nunca enganei ninguém sobre isso, disse em campanha eleitoral o mesmo que disse depois da campanha eleitoral: sou pelo princípio do utilizador/pagador. Para mim não faz sentido que quem use não pague e quem não use pague! Para mim não faz sentido continuar a penalizar o contribuinte com cerca de quinhentos milhões de euros, que é o preço da ilusão das Scut. E aqueles dois partidos não foram sequer capazes de encontrar uma solução racional própria do bem comum. Porquê? Porque é que o PS e o PSD não conseguem resolver a questão das Scut? Porque dependem muito do caciquismo local! E o caciquismo local é uma geografia eleitoral, não tem que ver com a geografia dos rendimentos nem com a geografia das necessidades sociais ou com as desigualdades territoriais.

Se não é possível ao regime regenerar-se por dentro, é inevitável a vinda do FMI?

Tem de saber regenerar-se! O terceiro ponto para que eu queria chamar a atenção, e não queria deixar de dizer isto... Aqui faz toda a diferença ser democrata-cristão ou não ser democrata-cristão: é que aqueles dois partidos sentam-se à mesa e a questão social está totalmente ausente da negociação. Aqueles dois partidos não perderam um segundo a discutir a questão da verdadeira pobreza, que está nos idosos, ou uma política familiar, caso do abono de família. Foi como se não existisse! E isso é matéria para meditação e para observação dos cidadãos.

Temos então o CDS-PP preocupado com o Estado social?

Sempre esteve! Há uma grande diferença entre um partido democrata-cristão e, se quiser, nessa matéria, um partido puramente liberal. A esquerda passou o Verão a falar no Estado social e neste Orçamento dá-lhe uma machadada que devia envergonhar o engenheiro Sócrates. Eu já o disse uma vez e repito-o: o engenheiro Sócrates prepara-se para tirar o abono de família a pessoas com 629 euros de rendimento. O abono de família foi criado em 1942 e até o dr. Salazar o pagava, veja bem onde chegámos! Há 750 mil pessoas que têm para viver todos os meses 240 euros ou menos - são os pensionistas. Foram congeladas essas pensões a eito! A única coisa inevitável é reduzir a despesa pública - como reduzir a despesa pública, aí é que há diferenças entre nós!

Vai fazer essa discussão na especialidade?

Com certeza! Uma coisa de que as pessoas podem ter a certeza absoluta: o CDS não agravará um cêntimo o défice!

E vai cortar onde? Já não pode cortar nos submarinos.

Posso cortar em inúmeros sítios, como vamos demonstrar. Vamos fazer propostas selectivas e as nossas três preocupações, por exemplo na área social, são: o IVA das instituições sociais para obras sociais, creches, lares, etc. Bom, isso vai a caminho... Apesar de tudo, o Governo começou a ceder - o CDS fez bem em levantar a questão. Permitir que as pensões mínimas, rurais e sociais, que são pensões de 246 euros, de 230 e de 189, não fiquem congeladas, tenham pelo menos uma actualização com a inflação, e a questão do abono de família pelo menos no quarto escalão, ou seja, de famílias de rendimentos baixos e modestos. O CDS identificou 14 rubricas em que, com esforço, profissionalismo e rigor, é possível reduzir a despesa. Dou-lhe um pequeno exemplo que toda a gente entende: o Estado prepara-se para gastar 47 milhões de euros em publicidade, que muitas vezes é propaganda. Prepara-se para gastar 33 milhões de euros em eventos e seminários e continua a ter uma despesa, apesar do esforço que já foi feito, consideravelmente alta em estadas e deslocações. Basta tocar nestas três rubricas e não precisa de congelar pensões mínimas, sociais ou rurais. Queria era que ficasse claro isto!


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Fantômas

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MensagemAssunto: "É preciso um governo de salvação nacional"   Dom Nov 21, 2010 5:45 pm

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"É preciso um governo de salvação nacional"

por JOÃO MARCELINO
Hoje


Os 35 anos do 25 de Novembro de 1975, que passam esta semana no dia seguinte à greve geral, são o pretexto para a conversa com Otelo Saraiva de Carvalho, que decorre na casa deste antigo capitão de Abril, hoje coronel na reserva. Apesar de já ter dobrado a casa dos 70, continua um homem enérgico. Tem um discurso em catadupa, no qual o "pá", de que o texto foi limpo, é usado com abundância. Uma entrevista que ajuda a perceber o romantismo de uma história ainda recente


Otelo, preocupado com a actual crise no País, ainda acredita na democracia directa, utopia que guarda desde Abril de 1974. Costuma abster-se nas eleições, por discordar da "democracia representativa burguesa", mas promete apoiar e pôr o seu voto em Manuel Alegre, nas próximas presidenciais. Soares convidou-o a aderir ao PS, lembra, e até o levaria a cabeça de lista nas legislativas. O militar, que diz só ter tido conhecimento do 25 de Novembro de madrugada, recusou o convite.

Alguma vez nestes anos, e face à qualidade da nossa vida colectiva actual, se arrependeu de ter ajudado Portugal a sair da ditadura provinciana de Salazar e Caetano?

Não, de forma alguma! Considero que o 25 de Abril permitiu derrubar uma ditadura, que começou militar e que o Sala-zar transformou em fascista de modelo mussoliniano. E o 25 de Abril, derrotando essa ditadura, que durou em Portugal durante 48 anos, abriu as portas para a liberdade e para a recuperação da dignidade do povo. Mais do que isso: travou a Guerra Colonial que durava em possessões portuguesas havia já 13 anos, permitindo a descolonização e, a partir daí, o desenvolvimento do País.

As dificuldades actuais do País não lhe causam nenhum problema nesse sentido? Não o desencantam?

As dificuldades do País resultam da implantação do sistema capitalista em Portugal, fazendo parte do arco ocidental das chamadas democracias parlamentaristas, ou democracias representativas. Foi exactamente por causa disso que, durante o chamado PREC [Processo Revolucionário em Curso], eu entrei em conflito de carácter ideológico, podemos dizer assim, com os meus camaradas do MFA que comigo partilhavam o Conselho da Revolução.

Portanto, o seu caminho era outro?

De início, eu, que não percebia nada de política, era um militar que perante as circunstâncias me vi compelido a fazer o que fiz, a preparar o plano de operações e a comandar o 25 de Abril, vi-me impelido a ter que também tomar parte na política. No decurso do processo, encarei outra hipótese de levar por diante a instauração de um regime político diferente.

Gostaria que Portugal tivesse seguido esse caminho?

Gostaria muito. Se bem que reconheça as tremendas dificuldades que iríamos encontrar pela frente para levar por diante esse projecto, de instauração de um regime de democracia directa. O Melo Antunes, por exemplo, que era o papa político do MFA, quando falei com ele sobre esse assunto...

Sucintamente, que regime seria este, essa democracia directa?

Não tenho isto bem escalpelizado, porque não existe esse regime em nenhum país do mundo. Encaro-o...

É por isso que eu lhe faço a pergunta.

E esse era o argumento dos meus camaradas - diziam: "Mas onde é que tu encontras em qualquer país do mundo esse regime?" Eu dizia: "Não encontro em nenhum, mas fazemos nós!"

Mas como é que explica isso?

Democracia, etimologicamente, é o poder do povo. Poder de povo que não existe numa democracia burguesa. A democracia burguesa resulta do poder da classe dominante. Desde 1789, com a Revolução Francesa, é assim.

Qual é o mais aproximado que encontra no mundo?

Não sei. Aquilo que poderia ter acontecido seria dentro de uma perspectiva luxemburguista, a criação de grandes assembleias, assembleias populares. Por exemplo, ao nível de freguesias, porque temos um país dividido administrativamente em freguesias, concelhos, etc...

Desculpe-me a crueza da pergunta, mas acredita nessa utopia ainda hoje?

Acredito profundamente. As pessoas têm tendência logo para dizer: "Então e querias o operário para ser primeiro-ministro?" Não! Podia ser o senhor doutor, professor, jubilado, um tipo óptimo que era escolhido pelo povo porque era o melhor! Os melhores de todos! Suponha uma área de freguesia com mil habitantes: desses mil habitantes, as pessoas conhecem-se, em assembleia podem reunir-se. Todas as pessoas que quiserem ir à assembleia vão à assembleia, discutem os problemas da comunidade e a certa altura começam a ser visíveis aquelas personalidades que, ou pela sua inteligência, pelo seu carácter...

E esse país teria um governo eleito de que forma?

De forma directa, a democracia directa! Temos de eleger uma assembleia de freguesia, de mil pessoas temos de reduzir a cinquenta, vamos a eleições!, e as pessoas lá punham o voto secreto e elegiam o fulano A, B ou C - não há partidos - para formarem a assembleia de freguesia, que passava a gerir os interesses dessa freguesia. Desses cinquenta escolhiam-se por eleição os dez melhores para uma assembleia municipal. E dentro da assembleia municipal escolher-se-ia para uma assembleia de distrito, ou nacional popular, da qual finalmente emergisse para um governo! Da base ao topo, era uma eleição directa.

Essa sua utopia não avançou, nunca avançou em nenhum país do mundo...

Mas podíamos ter nós implantado!

... A verdade é que 35 anos depois, organizámos agora esta reunião importante da NATO, por onde até passou o Presidente da Rússia. Va-mos assistir também esta semana a uma greve geral que protesta contra as condições de vida, temos 10,9% de desempregados, cerca de 600 mil pessoas. O País vive uma situação caótica, e eu repito a questão inicial: como é que olha esta realidade à luz dos ideais que o animaram nesses longínquos anos de 74 e 75?

De uma forma extremamente pessimista. Era aquilo que eu previa, dada a chantagem que os Estados Unidos e o arco ocidental europeu fizeram relativamente a Portugal na pessoa do Melo Antunes, enquanto ele era ministro dos Negócios Estrangeiros. Hoje há documentos desclassificados, os da CIA não estão todos, mas os do Gerald Ford estão, e podemos verificar que em Maio de 75 o Melo Antunes foi convocado para Munique, para uma conversação com o presidente dos EUA e com o Henry Kissinger, em que lhe foi imposta por chantagem condição de carácter decisivo para o futuro do País.

Essa chantagem foi exercida como?

O Gerald Ford e o Kissinger disseram ao Melo Antunes: "Se vocês continuarem em Portugal nessa perspectiva da revolução socialista, com o Partido Comunista, um partido ortodoxo ligado à União Soviética, já no poder, Portugal, na situação estratégica que tem face ao Atlântico, vai transformar-se num pólo da União Soviética. Nós não podemos permitir isso! Já conversámos com esta gente toda, desde o Reino Unido até à Espanha, passando pela Holanda, a França, Alemanha, etc. - exercemos sobre Portugal um boicote económico total. E vocês perdem as colónias..."

Isso foi-lhe dito pessoalmente por Melo Antunes?

Sim, sim! O Melo Antunes veio com esse recado! "Se vocês regressarem àquilo que foi o vosso programa político do MFA anunciado em Abril de 74 e implantarem a democracia representativa de modelo ocidental, têm todo o nosso apoio." E o Melo Antunes disse: "É uma responsabilidade tremenda."

É aí que nasce o 25 de Novembro?

Sim, está aí a origem do 25 de Novembro. Quando discuti com o Melo Antunes a questão de um poder de democracia directa ou um poder de democracia representativa burguesa, como aquela que existe hoje no País, segundo o modelo ocidental, o Melo Antunes disse-me: "Vamos lá ver. Talvez a gente consiga conciliar..."

Não encontra nenhuma virtualidade no caminho da democracia representativa que o País percorreu?

Este tipo de democracia representativa aqui em Portugal - e eu tinha essa sensibilidade -, criando partidos que não existiam, produziria o que se verifica hoje que é a partidocracia! O povo. A oposição está confortavelmente instalada - o BE e o PC, porque sabe que nunca serão poder, têm a situação cómoda de protestarem contra tudo! Os dois partidos que lutam pelo poder e que têm acesso a ele, com a achega do pequeno CDS, lutam pelo poder e, chegando a ele, tendem a distribuir as benesses.

Que saída vê para esse retrato que faz do País?

Nenhuma. A não ser por imposição de um presidente que tivesse a força, a moral e a capacidade de cortar aos partidos o poder se não é para ser exercido de forma a elevar - aquilo que era a grande perspectiva do 25 de Abril - o nível social, cultural, económico do povo.

E é isso que espera da candidatura que apoia de Manuel Alegre se fosse eleito?

Manuel Alegre vai ficar muito condicionado por uma falta de conhecimento profundo que tem da economia. Quando foi da ditadura militar após 1926, os militares que tomaram conta do poder não percebiam patavina de economia - foi por isso que tiveram a maior autoridade de então da economia e finanças em Portugal, Oliveira Salazar. E a partir daí tramaram o País. Eu julgo que Alegre não terá a bagagem de conhecimento e de capacidade de poder económico para poder gerir bem esta situação, que é dramática.

Cavaco Silva tem essa capacidade?

Cavaco é um tecnocrata, tem esse conhecimento e joga com ele. Mas falta ao Cavaco - ele está a procurar transformar-se, pelo menos aparentemente - aquilo que tem o Alegre, o humanismo!

Neste momento, precisávamos de um governo de salvação nacional?

Julgo que era fundamental. Se houvesse o milagre de os partidos, em conjunto, encontrarem um governo de salvação nacional que agarrasse o País...

Mas como é que isso é possível com o tal quadro político que tanto desvaloriza e critica?

É por isso que eu falo em milagre! Se houvesse um milagre que levasse os partidos a abdicar dos interesses partidários, e pensar na salvação do País.

Veja aqui o vídeo da entrevista a Otelo Saraiva de Carvalho:



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RMaria

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MensagemAssunto: "Programa está em construção, ainda na fase das ideias"   Seg Nov 29, 2010 3:07 pm

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"Programa está em construção, ainda na fase das ideias"

por CARLA BERNARDINO
Hoje


Regresso. "Quanto mais depressa melhor", diz Manuela Moura Guedes sobre a sua estreia no canal de Carnaxide. Admite que tem saudades da sua equipa na TVI e não teme os anticorpos que possa ter na redacção da SIC

Declarou recentemente, no Lado B, de Bruno Nogueira [RTP], que só voltaria ao ecrã se os "ventos mudassem". O que mudou para estar na SIC?

Não sei, não sou especialista em meteorologia [risos]. Mas pelos vistos eles [a SIC] têm interesse que eu vá para lá.

Em que é que consiste este programa original que vai ter?

Espero bem que seja original, mas não tenho muito para dizer. É um programa que tem de ser completo e sobre o qual eu e a SIC temos de estar de acordo e no qual eu me sinta confortável. Estamos na fase de decisão.

Regressa em Fevereiro...

Não sei, acho que quanto mais depressa melhor. Mas só começo quando as coisas estiverem totalmente definidas.

No meio televisivo, consta que o formato lembrará Raios e Coriscos [RTP, 1993] e Noite da Má- -Língua [SIC, 1994].

Não tem que ver com isso.

Mas é verdade que o projecto será de infoteinment [misto de informação e entretenimento]?

Não sei, mas digo já que embirro com essa designação, é uma estupidez porque a informação dos jornais também é entretenimento, no sentido em que as pessoas se entretêm a ler notícias. Informação pode ser feita sob a forma de entrevista, reportagem ou através da maneira como a própria pessoa a conduz. Misturar as duas coisas é impossível, são duas coisas completamente diferentes.

Então, como define o programa?

Não sei dizer, ainda é cedo para falar sobre o projecto.

Vai ter convidados?

O programa está em construção, andamos na fase das ideias.

Quais são os pressupostos para este projecto?

Há duas condições que eu preciso de ter no que faço: Tenho de me sentir bem e tenho de me divertir. Isto não quer dizer que seja um programa de humor.

Quer explicar melhor...

Sempre fiz informação com sentido crítico e humor. Ou de uma forma mais dura ou com recurso a formatos. Se não conseguir que estes dois ingredientes estejam presentes, então não consigo fazer os programas. Aliás, estão presentes no meu dia-a-dia e não consigo pensar, reflectir e tomar decisões sem eles. É isto que faz com que sinta que as coisas não são distantes, nem faz com que encolha os ombros e siga. É preciso passar a informação para o público de forma genuína, não tão pomposa e não tão cinzenta como tem sido passada. Mesmo a fazer jornais, divirto-me imenso. Vivi tempos fantásticos com a equipa do Jornal Nacional de 6ª [TVI], quase que choramos a recordar momentos altos.

Tem saudades da sua equipa?

Tenho.

Pode vir a trabalhar com eles?

Reunirmo-nos de novo? Era a coisa que mais gostava.

Vai trazê-los para o programa?

[Suspiro] Oh, eles estão todos lá, na redacção da TVI!

Este programa na SIC pressupõe posterior ida para a Informação?

Não sei. Não pergunte mais à frente do que a realidade. Aceito as coisas quando aparecem, a minha carreira tem sido feita à medida do que me tem acontecido. Não penso em mais nada para lá disso.

Receia os anticorpos que possa ter na Informação da SIC?

Não sei, não costumo tomar vacinas (risos). Já ouvi e passei por muita coisa. A minha fama precede-me, mas a minha presença é melhor do que quaisquer vacinas, é um vírus.

Como um vírus? Exemplifique.

É como a gripe A, é só um rumor e respondia a lóbis das indústrias. A minha fama? Sabe-se lá que lóbis a promovem... Não se percebe.

Há pessoas a tremer com o seu regresso à televisão?

Não sei, não acredito nisso.

Mário Crespo está contente pela sua chegada à SIC.

Fico muito satisfeita porque é um jornalista que respeito imenso, por quem tenho muita estima e é um dos grandes pivôs deste País, com uma base sólida. Trabalhei com ele no Telejornal [RTP] e, ao fim destes anos todos, fico satisfeita por ele dizer isso.

Já Miguel Sousa Tavares ressalva que não trabalha consigo.

Ai sim? Não tenho nada a dizer. Ele não me suscita qualquer tipo de comentários.

Ainda não negociou o salário?

[Risos] Vá, já falei muito...

Mas que valores estão em causa?

Não é consigo que vou falar de dinheiro.

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Romy

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MensagemAssunto: Valença Pinto quis poderes dos chefes dos ramos e do ministro   Ter Nov 30, 2010 4:57 pm

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Valença Pinto quis poderes dos chefes dos ramos e do ministro

por MANUEL CARLOS FREIRE E JOÃO CÉU E SILVA
Hoje


Cinco anos depois de assumir funções como chefe do Estado-Maior da Armada, o almirante Melo Gomes assiste hoje à posse do seu sucessor. Num balanço final, garante que a realidade acabará por se impor aos modelos de reforma aprovados em 2009 e aos quais se opôs

Cessou no domingo funções como chefe do Estado-Maior da Armada. Que balanço faz?

O balanço é de muito trabalho e, alguns dizem, com uma pitada de inspiração e da sorte que nunca me desacompanhou. Julgo que esse trabalho possibilita uma Marinha mais preparada para defrontar o futuro com confiança e coesão, que é essencial, porque somos um corpo que necessita de ser coeso nos nossos princípios e de actuação. Afinal, temos uma longa história de nove séculos e espero que, daqui a outros nove séculos, se possa comemorar de novo.

Acredita que a Marinha esteja mesmo reorganizada em 2015?

Penso que a conceptualização da Marinha é bastante conseguida e tem tido tradução prática. Os nossos paradigmas de reorganização e estrutura - com uma Marinha optimizada, operacional, poupando recursos - e o nosso paradigma genético - uma Marinha equilibrada que possa responder às diversas necessidades que a multiplicidade das suas missões lhe põem - estão conseguidos e o caminho está aberto. Só que as coisas nunca acabam, têm sempre uma continuidade.

Na questão da Marinha de duplo uso, como compatibilizam os vossos meios com a política de austeridade (por vários anos) e as obrigações, nacionais e comunitárias, da GNR na protecção da fronteira marítima?

O duplo uso é isso mesmo, significa a rentabilização dos recursos e é o caminho que a Marinha tem que seguir. Com colaborações de outros actores que têm missões no mar e que se reúnem todos no Centro Nacional Coordenador Marítimo, que, julgo, foi uma conquista importante para a racionalização do nosso modelo estratégico, do modo de pensar a actuação no mar e onde se discutem os problemas. Agora, isso só é possível quando a GNR estiver verdadeiramente interessada na cooperação, porque esse é o caminho que devemos seguir como nação marítima que somos.

Uma das marcas deste mandato foi, no último ano, a Marinha não ter participado pela primeira vez em missões internacionais. Como é que isso se explica?

Não é completamente verdade que não tenhamos participado em missões internacionais. Os navios sim, designadamente, pela primeira vez em 40 anos, na força naval permanente da NATO. É uma realidade, foi uma decisão político-militar que eu, como chefe do Estado-Maior da Armada, tive oportunidade de, no recato de gabinetes, exprimir a minha opinião. Mas, como chefe militar, também me cabia cumprir essa decisão, lamentando que não tenha tido capacidade argumentativa.

Qual o efeito dos cortes financeiros previstos no Orçamento de Estado de 2011 para as Forças Armadas?

Vão afectar certamente a Marinha, mas não nos podemos eximir a esse esforço nacional de recuperar as finanças e a credibilidade dos mercados. Também devo dizer que a especificidade da condição militar tem que ser mantida e resguardada e que há um equilíbrio que não se deve quebrar. Certamente que o investimento diminuir em 40% não é uma questão irrelevante, mas creio que o orçamento de funcionamento, que ainda está [no dia da entrevista] em discussão na Assembleia da República, deverá contar com alguma diminuição que nos afectará.

Menos 40% no investimento é demasiado?

Não é ultrapassável pela própria gestão. Vamos ter de adiar programas, afinal são 40%

Onde é que vai cortar?

Temos uma noção clara sobre isso. Basicamente, em todos os novos programas e em alguns em curso, que serão renegociados.

Tal como o navio polivalente logístico?

É uma das prioridades essenciais da Marinha, que defendo desde 1998 mas que até agora não foi possível concretizar. Creio que será possível continuar com o programa do navio polivalente porque só irá ter repercussão financeira a partir de 2013, quando este PEC já não estiver em vigor.

Não teme que qualquer um dos ramos fique abaixo da operacionalidade?

Acho que essas questões têm que se estudar com cuidado. Eu conheço as minhas limitações, os outros chefes conhecem as limitações dos seus próprios ramos e, portanto, esses assuntos têm de ser deviamente ponderados e vistos e tomadas opções. Temos que cortar aqui, o que é que não podemos fazer....

A Armada fica abaixo da operacionalidade?

A operacionalidade é uma questão complexa. Se me disser que há missões que não vão poder ser feitas se se reduzir abaixo de um determinado patamar, direi-lhe-ei que, se isso acontecer, certamente terá consequências nas missões. A operacionalidade genérica de um ramo é uma coisa muito mais vasta que determinadas missões que têm que ser desempenhadas. Por exemplo, nós, Marinha, para além da acção militar, temos a acção não militar, que está aí no dia a dia: fiscalização, exercício da autoridade do Estado no mar, poluição, salvaguarda da vida humana... todas elas são missões que o Estado tem que continuar a cumprir.

Será a parte estritamente militar que será mais penalizada?

Não sei isso e não posso dizer que seja isso, porque o nosso paradigma operacional é a Marinha de duplo uso, ou seja, os meios militares e não militares concorrem para um determinado produto operacional. Agora, abaixo de um determinado patamar, certamente há missões que não conseguiremos executar. Quando não as conseguirmos executar, teremos de as prioritizar e depois o poder político decide.

A redução de cerca de 850 militares e de 1100 civis não afecta este ramo das Forças Armadas?

Há 15 anos que iniciámos a redução de efectivos para cerca de um terço, porque racionalizámos a Marinha, retirámos as gorduras, modernizámos o nosso modelo de actuação, dotámo-la com meios modernos de gestão e conseguimos cumprir as mesmas missões com menos recursos humanos. Mas tudo isto tem um limite e julgo que a Marinha, mais ou menos ajustamento, está na dimensão certa.

Não há mais gordura para retirar?

Acho que gordura não haverá. É sempre possível melhorar as coisas e, por isso, não posso dizer que no fim do meu mandato entrego uma Marinha perfeita. Mas estamos muito perto de atingirmos o desiderato que definimos para uma Marinha optimizada e que terá muito pouca gordura para tirar.

In DN

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