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Fantômas

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MensagemAssunto: Entrevistas   Ter Nov 25, 2008 3:46 pm

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Entrevista a Passos Coelho
Vila Real


“Não se sente uma alternativa ao Governo”

Passos Coelho diz não estar a trabalhar para o derrube antecipado da líder do PSD mas a avaliação que faz do seu desempenho é esclarecedora: “As pessoas não sentem que exista uma alternativa

As sondagens dizem que é o Governo que está a aproveitar a crise e não o PSD. Concorda?
Sim. As pessoas não sentem que exista uma alternativa ao PS.

Este PSD não é alternativa ao Governo?
Creio que Manuela Ferreira Leite já reconheceu que há um problema de comunicação e que o PSD ainda não apresentou um modelo alternativo.

Porque não o tem ou porque não é este o momento para o apresentar?
A líder do PSD explicou aos órgãos nacionais que achava que era demasiado cedo para apresentar um modelo alternativo. Não vou fazer juízos de valor, mas é grave se os portugueses interiorizarem a ideia de que o PSD não é alternativa.

Isso está a acontecer?
De acordo com as sondagens, sim. Este Governo teve condições excepcionais, mas esta legislatura foi uma desilusão completa até nas contas públicas que não estão consolidadas. No dia em que a receita baixar a despesa está lá toda.

O PSD está apenas a ter dificuldade em passar a sua mensagem?
Não quero contribuir para um clima que não seja de grande estabilização. Vou continuar a evitar fazer muitos comentários sobre Manuela Ferreira Leite. É indispensável poder ser visto como um partido estável e não tem sido. Tivemos três presidentes num ano.

Em 2009 existem três eleições (europeias, legislativas e autárquicas). O que é um bom resultado?
Ganhar as três eleições.

Qual é a sua disponibilidade para estas eleições?
Sou presidente da Assembleia Municipal de Vila Real e já demonstrei disponibilidade para ser recandidato. Também disse que estou disponível se as pessoas de Vila Real e o PSD nacional acharem que é vantajoso ser deputado.

E ser candidato a uma grande autarquia?
Isso não está no meu horizonte nem no do PSD.

E ao Parlamento Europeu?
Nem me vou pronunciar sobre isso.

Disse que se tivesse uma equipa, um programa e vontade seria candidato a primeiro-ministro. Tendo a sua equipa a trabalhar num programa para o país no seu ‘think-tank’ (Construir ideias), mantém a vontade de ser candidato?

Com certeza que sim. O facto de não querer contribuir para a instabilidade não significa que as pessoas não possam ter escolhas diferentes. As pessoas devem conhecer alternativas. O PSD fez uma escolha há muito pouco tempo. Inserir na agenda interna outra discussão que não seja ajudar a actual liderança é contribuir para o oposto.

Bruno Proença e Francisco Teixeira in Diário Economico, 2008-11-25

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MensagemAssunto: "Nunca fui levada ao colo por ninguém"   Sex Abr 24, 2009 11:38 pm

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"Nunca fui levada ao colo por ninguém"



por Nuno Azinheira

Directora adjunta de informação da RTP, é por muitos considerada a melhor entrevistadora da TV portuguesa. Numa grande entrevista à Notícias TV, comparou Sócrates e Cavaco, confessou as suas inseguranças, lamentou o fim da amizade com Moniz e Manuela Moura Guedes e assume que deu a sua opinião sobre a ida do marido, Fernando Seara, para a TVI 24

O caso Freeport ocupou grande parte do tempo da sua entrevista desta semana a José Sócrates. S. Bento não lhe colocou qualquer tipo de reserva sobre o assunto?

Não. Nesta, como noutras entrevistas a este nível, são definidos temas. Não há um acordo quanto a perguntas, como é óbvio, mas tem de haver uma definição de temas. As pessoas têm de estar preparadas.

Imagine que José Sócrates, ou alguém por ele, lhe dizia antes da entrevista desta semana que não falava do caso Freeport...

Eu não faria a entrevista. Não aceitaria essa condição.

Mesmo sabendo que não falando de Freeport a entrevista teria sobejos assuntos de interesse, como a situação económica do País, a contestação social na rua, o círculo eleitoral que aí vem, etc...

Não, na conjuntura actual, sabendo que o caso Freeport está no topo da agenda mediática, seria completamente inaceitável para mim e incompreensível que essa condição fosse colocada. E mais ainda que eu aceitasse essa condição.

É normal imporem-lhe condições?

Não, não é normal. A única pessoa que até ao momento me impôs uma condição para me dar uma entrevista foi Bill Gates. Mas foi uma condição perfeitamente aceitável, que era não falar da sua vida privada. Achei normal porque é uma condição que eu própria imponho quando dou entrevistas.

Que tipo de ponderação é que fez?

O que pensei e acho que é o que se deve pensar é: "Eu vou perder esta entrevista pelo facto de me estarem a colocar uma condição?" E tenho de encontrar a resposta. Eu não queria, por nada deste mundo, perder a entrevista com o Bill Gates

A Judite dá a cara pelo mais antigo programa de entrevistas da televisão portuguesa. A Grande Entrevista está no ar há 12 anos...

Sim. O meu primeiro entrevistado foi Sousa Franco, antigo ministro das Finanças de António Guterres. Durante muitos anos, o programa teve uma periodicidade quinzenal e só com o Luís Marinho como director de Informação da RTP, ou seja, há cinco anos, passou a ser semanal.

Tem ideia de quantas personalidades já entrevistou?

Cerca de 500. Estive a fazer as contas no outro dia e o número é aproximadamente esse. Mesmo durante o tempo em que a Grande Entrevista era quinzenal havia períodos em que eu fazia várias entrevistas durante a semana, em períodos de grande tensão política ou em ciclos eleitorais. E há pessoas que já entrevistei cerca de dez vezes: Paulo Portas e Francisco Louçã, entre outros.

Quem é que lhe falta entrevistar?

Tanta gente. Gostava muito de entrevistar o José Mourinho. Já o convidei dezenas de vezes.

E podia ser em Milão, tanto mais que já foi a Manchester entrevistar Cristiano Ronaldo...

Sim, eu vou onde for preciso. Eu sou como o slogan da TSF, vou até ao fim do mundo. Nem que depois leve muita pancada por causa disso. Levei muita pancada, se bem se lembra, por ter ido ao Rio de Janeiro entrevistar Fátima Felgueiras.

E Mourinho nunca aceitou?

Já o convidei dezenas de vezes. Há pessoas que têm um estatuto que lhes permite decidir em que momento querem dar entrevistas. Ele só dá entrevistas quando quer e a quem quer.

Que conclusão tira daí, que ele não lhe quer dar uma entrevista a si?

Não. Ele não me deu a mim como não deu a ninguém. A entrevista que há uns anos a Clara de Sousa lhe fez quando ele foi para o Chelsea foi-me inicialmente oferecida. Só que na altura, naquela semana em que ele estava disponível, eu não podia deslocar-me a Londres. Ainda não aconteceu, mas não perco a esperança.

Tal como a Cavaco Silva, desde que chegou a Belém...

Pois. Já contactei o Fernando Lima, assessor de imprensa, dezenas de vezes. Estou sempre a telefonar-lhe. "Fernando, aqui estou, mais uma vez. É só para lhe lembrar que estou interessada na entrevista, blá blá, blá..." Nós, que andamos nisto há muito tempo, sabemos que estas coisas são assim. O Presidente só dá entrevistas quando quer e a quem quer.

Mas Cavaco, desde que está em Belém, já deu entrevistas a outros jornalistas que não à Judite. Por exemplo, a Maria João Avillez na SIC...

Sim, e nas circunstâncias que se conhecem. Numa quinta-feira, em cima de mim, que tinha nesse dia como convidado Pedro Santana Lopes acabadinho de publicar o seu livro sobre aqueles sete meses como primeiro-ministro e no qual ele fazia o seu ajuste de contas com uma série de pessoas, a começar por Jorge Sampaio. E a SIC programou a entrevista com o Presidente da República para aquele dia...

Programou e bem... do ponto de vista concorrencial.


[risos]Mal. Programou mal. Porque correu mal. Porque não se pode programar uma entrevista com o Presidente da República à mesma hora que outra entrevista num outro canal, porque pode correr o risco de o Presidente da República ter menos audiência. E foi o que aconteceu. Não se pode colocar o Presidente numa situação de inferioridade em relação a quem quer que seja. Mas, enfim, são aquelas situações de excesso de convencimento. Pessoas bem avisadas e com alguma idade sabem que é arriscado fazer coisas dessas. Ainda por cima com Santana Lopes, que é um tanque do ponto de vista comunicacional, como toda a gente sabe.

Portanto, continua à espera de Cavaco...

Continuo à espera que o Presidente queira vir à televisão pública dar uma entrevista. Não tem de ser ao meu programa, pode ser uma entrevista especial. A mim, ao José Alberto Carvalho, a mim e ao José Alberto. Obviamente, não me passa pela cabeça que o Presidente da República não queira ser entrevistado também por mim, considerando que já entrevistei Cavaco Silva imensas vezes. Aliás, é notável quando me lembro que durante as duas maiorias de Cavaco, ele fartava-se de dar entrevistas à RTP. No próprio Telejornal. Eu entrevistei-o imensas vezes no Telejornal. Ele era um primeiro-ministro muito disponível.

Está a ver isso hoje em dia ser possível com José Sócrates?


[risos]Não, de todo. Nesse campo houve alguma sofisticação a nível comunicacional.

De 1987/95 [duas maiorias de Cavaco] a 2005/09 [maioria de Sócrates] há muitas diferenças na relação do poder político com a imprensa...

Sem dúvida. As condições comunicacionais de hoje são de forma a proteger o primeiro-ministro, a isolá-lo das perguntas dos jornalistas. Há uma imagem que está gravada na minha cabeça e que nunca esquecerei: a Dina Aguiar, repórter e simultaneamente pivô do Telejornal, de microfone na mão atrás de Cavaco Silva, nas escadas de Belém. Ele a descer e a Dina Aguiar atrás dele a fazer-lhe perguntas. Ora isto hoje é impensável. Mas tanto é impensável para Sócrates como para Cavaco. O registo é hoje muito diferente. São poucos os jornalistas que, hoje em dia, se conseguem aproximar do primeiro-ministro. É tudo mais apertado.

Mas até a preparação mediática de um político que chega ao poder é hoje mais elaborada...

Claro! Mas Cavaco há 20 anos, no seu tempo, foi um homem muito bem acompanhado do ponto de vista de comunicação. Sempre teve bons assessores de imprensa e soube rodear-se de grandes consultores de comunicação. É evidente que o investimento que hoje se faz na comunicação é maior. Porque os políticos julgam que a comunicação vale tudo. É preciso relativizar essa importância. A comunicação não substitui a realidade. Por vezes, os políticos exageram. Mas depois também há aqueles que pura simplesmente ignoram a importância da comunicação, como é o caso de Manuela Ferreira Leite. E, claro, vão ter de encontrar algumas razões para o insucesso por esse lado.

Sócrates exagera?


[pausa]Não, não acho que ele exagere. Mas acho que devia ser mais espontâneo, mais verdadeiro. Devia ser mais Obama. Eu gosto da atitude do Obama. Acho o Obama uma personalidade inspiradora a todos os níveis. Mas, a nível da sua relação com os media, o que mais me tem fascinado é a forma descontraída, distendida, solta e natural como ele reage às perguntas, às adversidades. Percebe-se que aquele homem está a ser verdadeiro. Não há maquilhagem ali. E Sócrates, se conseguisse aproximar-se daquele registo, teria muito a ganhar. Os nossos políticos deviam ser mais serenos com a comunicação social. Sinto o ambiente muito crispado.

Soares é capaz de ter sido o último político a ter essa relação descontraída com a imprensa...

É verdade. É muito bem observado.

Estou a falar de Soares-Presidente, não de Soares-candidato nas últimas eleições para Belém...

Sim, houve uma grande diferença. Por causa de Manuel Alegre. Mário Soares sempre teve uma relação muito franca, aberta, cordial, muito terra-a-terra com os jornalistas, mas perdeu o pé nesta última campanha.

Recordo-me da entrevista muito difícil que lhe deu nessa campanha...


[pausa]Sim, foi talvez a entrevista mais desagradável que fiz até hoje. É a entrevista de que guardo as piores recordações. [longa pausa] Quando a entrevista acabou, despedi-me dele [até hoje nunca mais o vi] e chorei baba e ranho, recebi dezenas de telefonemas de pessoas a solidarizarem-se comigo. Foi tão desagradável. Estava tão crispado, tão tenso. Eu percebo porquê. Naqueles dias toda a gente lhe perguntava por Manuel Alegre. Quando ele veio à RTP já tinha passado por tantas entrevistas. Senti-o muito desagradado.

E deve ter sido a décima entrevista que fez a Mário Soares ao longo da sua carreira...

Sim, seguramente. Aliás, tive um programa mensal com Mário Soares durante um ano. Tínhamos uma relação muito simpática. Mas aquilo correu muito mal. Senti-me muito infeliz. Não gosto de entrevistas tensas. O que não quer dizer que não tenha de fazer as perguntas que a minha consciência profissional me obriga. Nunca deixo de fazer uma pergunta importante. Só se não estiver nos meus melhores dias.

Também acontece...

Sim, claro. Às vezes, acontece e há coisas que me passam completamente ao lado.

E apercebe-se disso?

Sim. Saio daqui, meto-me no carro e vou para casa a pensar naquilo que fiz, no que perguntei, no que me responderam, no que eventualmente devia ter perguntado e não perguntei. Penso muito nisso. Porque não basta preparar bem as entrevistas. Mais de 50% das perguntas, dizem os livros, mudam consoante as respostas dos entrevistados.

Consigo também?

Claro que sim. Eu tenho procurado fazer uma grande aprendizagem a esse nível. Durante muitos anos achei que ficava demasiado presa ao questionário que eu própria, previamente, tinha elaborado.

Isso aprende-se continuamente?

Aprende-se se tivermos humildade. E se não acharmos que somos os melhores da nossa rua. Se assim for, estamos permanentemente a aprender.


(continua)

lol!

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MensagemAssunto: Re: Entrevistas   Sex Abr 24, 2009 11:42 pm

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(Conclusão)





Mas a Judite não é a melhor da sua rua?

Não.

Isso é modéstia ou é o que acha? É que, ainda por cima, não há muitos na sua rua a fazer o que a Judite faz...

[risos] Nunca alguém me ouvirá dizer que sou a melhor da minha rua. Quero que esse julgamento, a ser feito, o seja pelos críticos e sobretudo pelo público. E que seja medido pelos resultados dos meus programas. Tenho os pés bem assentes na terra. O que é verdade em televisão hoje é mentira amanhã. Quem ganha hoje, perde amanhã.

Há bocadinho dizia que chorou baba e ranho depois da última entrevista com Mário Soares. É muito emotiva? Interioriza muito depois do trabalho acabado?

Completamente.


Chora muito?
[risos] Não, chorar não. Nesse caso aconteceu porque foi muito desgastante e desagradável. Fiquei emocionalmente abalada. Até por razões que envolvem algum fundo pessoal.

É muito cerebral?

Sou aparentemente cerebral e verdadeiramente emocional. Mas também aprendi recentemente com o António Damásio que as pessoas que dizem que são cerebrais não sabem pura e simplesmente o que estão a dizer, porque não há na da na nossa vida nem nos nossos mecanismos cerebrais que não seja fortemente influenciado pelas emoções.

E tem fama de ser muito explosiva, de se irritar facilmente na redacção, de gritar, de ter os seus ódios de estimação, o seu grupo de gente protegida na RTP. Tem consciência disso?

Tenho, mas é mais fama do que proveito [gargalhada]. Tenho 30 anos de RTP em cima e isso confere-me uma grande liberdade. Conheço todas as pessoas como as palmas das minhas mãos. Além disso, sou a primeira a dar o exemplo. Muitas vezes sou a primeira a chegar e a última a sair. As pessoas que são competentes, esforçadas, humildades, que querem aprender e fazer melhor e contribuir com o seu trabalho para o valor da empresa têm em mim uma aliada, uma amiga, uma camarada. Não uma directora adjunta, mas uma amiga a cem por cento. Quem é incompetente e laxista já sabe que não vai ouvir de mim coisas muito simpáticas.

Continua a haver gente dessa na RTP?

Sim, algumas pessoas. Continua a haver, claro. Eu não tenho mentalidade de função pública. E se calhar é isso que explica o meu percurso. Nunca me deixei vencer. Antes pelo contrário. Mas ainda há gente que acha que isto é uma empresa pública e que, portanto, tudo está garantido. Quem não pensa assim tem tudo o que quiser de mim.

Portanto, não tem o seu grupo de jornalistas protegidas, como consta?

Não, não tenho. Tenho muito poucos amigos na RTP. Amigos, amigos. Amigos de casa. Mas sou uma pessoa muito disponível, até porque não utilizo o meu gabinete. Que me recorde, em 30 anos da RTP, sou a única pessoa com um lugar como o meu que não utiliza o gabinete. Acho que isto diz tudo. Quer maior desassombramento do que este? Maior despojamento? Estou sempre na redacção, sento-me ao lado da editora da Política. Escrevo, faço pivôs, faço títulos e se for preciso pego na vassoura e limpo o chão, não tenho problema algum. Agora exerço as funções que me estão incumbidas pelo conselho de administração da empresa. O meu dever de lealdade é com o director de informação que me convidou e com a administração que me nomeou.

Portanto, racionalmente emotiva, exigente, que diz as coisas na cara. E que mais? Que mais se esconde por trás da figura forte que se vê na televisão?
[risos]

É uma mulher insegura...

[pausa] Sou. Q.b. [risos] Sou um bocadinho insegura. Não posso esconder. Tenho as minhas inseguranças.

Sente-se injustiçada às vezes...

Injustiçada? Sinto. A que nível se refere?

Por exemplo, na sua relação com a imprensa...

Sim. Sinto. A minha carreira é algo que me dá muito orgulho. Sinto que tenho feito um percurso profissional sério, honesto, limpo, sem ser levada ao colo por ninguém. E disso orgulho-me. E talvez não haja assim tanta gente que possa orgulhar-se disso [pausa]. Eu tenho orgulho nisso. E acho que não estou a dizer uma coisa tonta [emociona-se].

Portanto...

Acho que a imprensa tem um problema com a RTP. Não é comigo. Eu não sou ninguém. A imprensa, ou pelo menos alguma imprensa, de um modo geral, é muito permissiva e contemporizadora com os insucessos da concorrência e não é tão tolerante relativamente ao que se passa na RTP.

Isso não será natural pelo facto de os insucessos da RTP serem pagos com o dinheiro dos contribuintes?

Não.

Não estou a afirmar, estou a perguntar...

Não, mas não posso aceitar essa possibilidade. Essa não é uma justificação profissional. Não compete aos jornalistas e à imprensa fazer esse tipo de avaliação. Quem tem de o fazer é o mercado, são os decisores políticos, são as muitas entidades que pululam à volta da RTP e que fiscalizam o nosso trabalho (o conselho de opinião, os provedores, a ERC, a Assembleia da República, o Tribunal Constitucional). Onde é que está escrito que a imprensa tem de ser mais exigente em relação à RTP do que em relação à SIC e à TVI?


Durante anos, a Grande Entrevista foi o único programa de entrevistas na televisão generalista. No ano passado, teve as Cartas na Mesa, de Constança Cunha e Sá, na TVI (agora na TVI 24) e este ano tem Mário Crespo Entrevista na SIC, à segunda-feira. Como viu a chegada da concorrência?

Na minha cabeça sempre tive concorrência. Antes de a SIC e da TVI terem colocado programas de entrevista, eu tinha concorrência na minha cabeça. Porque sou muito competitiva comigo própria. Quero sempre fazer melhor. Portanto, vi com muita naturalidade o aparecimento dos programas de que fala. Até estranhei que não tivessem surgido antes.

Um deles já desapareceu da generalista para o cabo...
Sem que a imprensa tenha escrito uma linha sobre isso.
Sem que alguma imprensa tenha escrito uma linha sobre isso...


[risos] Sim. O outro, o do Mário Crespo, não está em concorrência directa com a Grande Entrevista mas está em concorrência directa com outro programa meu, que é um programa de autor moderado por mim, As Notas Soltas de António Vitorino.

Mas porque fez questão de dizer que o Mário Crespo Entrevista não está em concorrência directa com a Grande Entrevista mas em concorrência directa com outro programa seu...

[risos] Porque é diferente. É mais fácil.

É mais fácil concorrer com António Vitorino do que consigo?

Não, concorrer com António Vitorino também é concorrer comigo, entendamo-nos. Um programa de opinião tem outra natureza. Todas as semanas é aquela pessoa, não há surpresa. É sempre a mesma dupla. Há quatro anos que às segundas-feiras na RTP1 estão o António Vitorino e a Judite de Sousa.

O que é que quer dizer com isso?

Apenas o que estou a dizer. Não acha que neste cenário é mais fácil a concorrência poder ganhar do que à quinta-feira, em que os convidados são sempre diferentes?

Não me cabe a mim responder a isso. O que sei é que a opinião de António Vitorino é sempre mais vista do que as entrevistas de Mário Crespo.

E o que quer que eu lhe diga?

Quando arrancou o programa, Mário Crespo colocou a fasquia das suas audiências em um milhão de espectadores. Está com menos de 800 mil, enquanto a Grande Entrevista tem quase um milhão.

É o resultado que o público entende atribuir aquele programa. Não me compete a mim dizer se é um mau ou bom resultado. O problema é quando à partida se fixa uma fasquia.

Nunca teve um programa de entrevistas com nome próprio. Porquê? Acha que não tem estatuto ou é um exercício de narcisismo?

[pausa] Não considero essa uma questão importante.

Qual, a minha questão ou a de ter um programa com o seu nome?

Não, não. A sua é perfeitamente oportuna e pertinente. É uma boa pergunta [risos]. Ter um programa com o meu nome é que não é uma coisa importante para mim. Eu, Judite de Sousa, nunca considerei isso importante e vou continuar a não considerar. Nunca fiz saber a alguém que queria ter um programa com o meu nome. Nunca me pus em bicos de pés na RTP junto de alguém. Mas, atenção, não faço juízos de valor. Acho normalíssimo que haja quem goste de associar o seu nome aos programas.

Seria normal, sendo a Judite de Sousa a Marília Gabriela da televisão portuguesa, querer ter um programa com nome próprio...

Bem, mas isso é o Nuno que o diz, não sou eu. Mas nunca se lembraram. Nunca ocorreu a alguém nesta empresa propor-me isso.

E se ocorrer a alguém, aceita?

Não, não.

Mário Crespo tem.

Sim e eu não tenho nada com isso. Não faço juízos de valor.

A SIC promoveu o Mário Crespo Entrevista com um spot que dizia qualquer coisa como "a entrevista inteligente tem um rosto". O que achou?

Deselegante. Triste. A TVI fez o mesmo. O José Eduardo Moniz disse o mesmo quando lançou a Constança Cunha e Sá. A RTP não faz esse tipo de coisas. Não vê a RTP a fazer esse tipo de considerações sobre a concorrência.

Já que estamos a falar de concorrência... ainda é amiga de José Eduardo Moniz e de Manuela Moura Guedes?

[pausa longa e suspiro] Sabe que as amizades são como as plantas, têm de ser regadas. Há pessoas que eu guardo no meu coração. Há pessoas que irão acompanhar-me até ao resto da vida [voz embargada] por aquilo que representaram para mim. O Zé Eduardo foi a pessoa que mais influenciou a minha carreira. Eu não seria aquilo que sou sem ele. Eu vim para Lisboa convidada por ele. Se não tivesse existido em 1990 um director-geral da RTP chamado José Eduardo Moniz a convidar uma jornalista do Monte da Virgem chamada Judite de Sousa para vir para Lisboa apresentar um jornal que ele, director, apresentava aos sábados, provavelmente a esta hora eu estaria no Porto. Isto são coisas que não se esquecem. Eu sou uma pessoa de memória.

Mas deixaram de ser amigos?

Afastámo-nos nos últimos anos. É público. O meio televisivo é muito cruel. É muito competitivo. Lamentavelmente. Tenho muita dificuldade em perceber isso. A concorrência contaminou a nossa relação. Houve um afastamento progressivo. Encontramo-nos cada vez menos.

De Manuela era mesmo muito amiga...

Sim, sim, amiga de casa. Vi nascer e crescer os filhos da Manuela. A infância e os primeiros anos de adolescência do meu filho foram vividos em casa da Manuela, com o filho mais velho dela. Mas, pronto, é a vida. Não quer dizer que não nos falemos. Ainda no outro dia nos encontrámos no XL, em Lisboa. Cumprimentámo-nos. Tudo bem. Somos pessoas civilizadas. Mas tenho imensa pena de termos perdido o resto.

Em Janeiro, Manuela Moura Guedes, em entrevista, dizia que os políticos só vão onde sabem que são tratados como "entrevistados do regime" e que nas suas entrevistas "ficam sempre imensas coisas por esclarecer"...
Não sei do que ela está a falar quando fala dos entrevistados do regime. Quem me conhece sabe que não sou de estender o tapete vermelho a ninguém. Não sei o que ela quer dizer com isso.

Que opinião tem do Jornal Nacional 6.ª que Manuela Moura Guedes apresenta?

É diferente de tudo aquilo que se faz em Portugal e de quase tudo o que se faz a nível europeu. Tem um estilo próprio que eu respeito, que vejo enquanto espectadora de televisão. É um jornal mais "editorializado" do que os outros.

Isso é um eufemismo para dizer que é um jornal opinativo?

Não sei. Aquele programa configura um determinado modelo de jornalismo.

No qual não se revê?

É um jornal que eu não faria. E que não seria capaz de fazer. O estilo dela é aquele. A Manuela Moura Guedes tem um estilo muito próprio. E tem o seu público. O Jornal Nacional à sexta--feira tem liderado as audiências. Há que assumi-lo sem qualquer tipo de problema. Mas não é o meu estilo.

José Sócrates tem colocado o Jornal Nacional 6.ª como um dos vértices do eixo do mal, como estando alegadamente na origem da campanha negra contra ele. Por aquilo que vê daquele jornal, José Sócrates tem razão?

[pausa)]Não lhe vou responder a isso. Não estou na posse de informações ou constatações que o gabinete do primeiro-ministro possa formular sobre jornais televisivos. Mas também lhe digo uma coisa. Nesse aspecto estou de acordo com Thomas Jefferson, um dos fundadores da América: se tivesse de optar entre uma imprensa e uma opinião livre e um governo, optava por uma imprensa e opinião livre.

Portanto, o Jornal Nacional 6.ª é um bom produto jornalístico...

Essa pergunta não tem resposta de sim ou não. Eu não sou jornalista da TVI, não estou na redacção da TVI, não conheço as matérias que a TVI investiga e como investiga.

O que é certo é que todas as sextas-feiras a TVI apresenta factos novos, por exemplo, sobre o caso Freeport. Porque é que a RTP não tem essa informação?

[pausa]A RTP tem noticiado tudo aquilo que tem sido público sobre o caso Freeport. Fomos acusados pelo ministro Santos Silva, de uma forma violentíssima, de termos violado o segredo de justiça. Porque nós abrimos um Telejornal com uma peça de oito minutos, o que é um caso absolutamente excepcional, constituída na íntegra com a carta rogatória dos ingleses. Fomos a primeira estação a ter um enviado em Londres, a jornalista Rita Marrafa de Carvalho, no dia da carta rogatória, que o Diário de Notícias divulgou de manhã.


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MensagemAssunto: "O grande medo era se a PIDE apanhava o Álvaro"   Dom Jan 03, 2010 6:38 pm

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"O grande medo era se a PIDE apanhava o Álvaro"

por JOÃO CÉU E SILVA
Hoje



50 anos da fuga de Peniche.

A 3 de Janeiro de 1960, dez comunistas presos no Forte conseguem uma evasão espectacular. Foi o pior momento para o sistema de repressão da polícia política, a PIDE, e fez tremer o regime de Salazar. A irmã de um dos fugitivos, Álvaro Cunhal, aceitou recordar os dias de há meio século, falar do dirigente e um pouco dela.

Há exactamente 50 anos o seu irmão fugia da prisão do Forte de Peniche. O que recorda desses dias?

Lembro-me de como soube da fuga. O meu pai chegou a casa e disse que tinha encontrado um juiz seu conhecido que lhe dissera em voz baixinha: "Parece que o Álvaro fugiu de Peniche." Entre o alegre e o receoso, contou-nos e ficámos muito contentes pela fuga do meu irmão, porque ele ficaria lá para o resto da vida com as medidas de segurança que lhe seriam sucessivamente aplicadas. Ao mesmo tempo, pensávamos no que é que lhe poderia acontecer se a PIDE o apanhasse novamente.

Nessa primeira semana após a fuga pouco sabiam do que acontecia?

Nem soubemos que eram dez ao princípio! Nesses primeiros dias não sabíamos de nada, nem que eram mais camaradas [nove], nem como é que tinha sido - apenas que tinham fugido. Só uns dias mais tarde é que começámos a ter conhecimento de mais pormenores e a ficar descansados.

Nessa altura, seria o homem mais procurado em Portugal?

Provavelmente deram mais importância ao Álvaro, mas os camaradas que estavam presos com ele também eram dirigentes destacados do partido.

Ficaram preocupados com o seu futuro após a fuga de Peniche?

Não. Eu sabia que ele iria para a clandestinidade, isso não me preocupava. O grande medo era se a PIDE apanhava o Álvaro e lhe dava um tiro. Se fosse novamente preso, o que é que lhe fariam?

Podiam tê-lo assassinado, como fizeram a outros militantes do PCP?

Podiam tê-lo feito.

O seu pai tentou saber algo mais após a fuga?

É natural que passados uns dias algum camarada fosse ter com ele e lhe tivesse contado como é que as coisas estavam. Depois, viemos a saber a história do guarda da GNR que tinha estado conivente com a fuga e outras coisas através do partido.

Como é que foram vividos em casa esses dias a seguir à fuga?

Numa grande inquietação, misturada com satisfação e um medo muito grande.

Nunca esperaram que Álvaro Cunhal vos contactasse?

Não, como é que era possível?! Isso era entregar-se nas mãos da polícia. Não, de maneira nenhuma.

Na altura, ainda vivia com os pais?

Nessa altura já estava casada, com filhos, mas vivia com os meus pais.

Sentiam que a casa era vigiada?

A nossa casa foi muitas vezes vigiada. Confirmámo-lo depois do 25 de Abril quando me entregaram algumas coisas do que havia na PIDE sobre mim, como uma série de fotografias tipo bilhete de identidade que eram distribuídas para me identificarem e localizarem.

Mas nessa altura havia vigilância?

Não demos por nada, mas muitas vezes, mesmo quando os meus filhos já eram mais crescidos, via-se que havia nitidamente.

E procuravam notícias nos jornais?

Procurávamos tudo quanto pudesse dar informações sobre o que se estava a passar, mesmo nos jornais, apesar de serem censurados, que não publicavam nada.

Só o Avante ! é que noticiou logo.

Claro, mas os jornais oficiais, não.

Mesmo sendo um facto público e a grande machadada no regime?

Realmente foi, e até o director da PIDE foi deposto pelo Salazar. Isso veio a saber-se, tal como o facto de haver muita gente a festejar e a beber um copo à saúde deles.

Nunca soube por onde é que o seu irmão andou nessas semanas?

Era impossível sabê-lo, e até seria muito mau se tivéssemos conhecimento. Soubemos mais tarde que o Álvaro estava no estrangeiro.

Ainda esteve em Portugal mais de um ano. Não souberam nada dele?

Nada, nada.

Sentia-se mais descansada quanto à sua segurança enquanto preso do que na clandestinidade, após a fuga?

Só no aspecto de não o matarem nem torturarem, porque nessa altura já não o faziam. Mas entre estar a lutar para seguir a vida que sempre quis e estar preso, não tinha dúvidas! Mesmo correndo riscos.

Não tinha dúvidas de que ele iria regressar à clandestinidade?

Não tinha dúvidas.

Esses tempos de prisão foram muito duros. Visitava-o?

Sempre, só mesmo se não pudesse ir, é que não o via, isto a partir do momento em que começou a receber visitas. No início, foi muito complicado porque esteve muitos anos em isolamento.

E nessas visitas alguma vez revelou que estava a tentar fugir?

Não, nem enquanto esteve na Penitenciária de Lisboa. O que aconteceu foi que um tempo antes - na altura nem ligámos uma coisa à outra - o Álvaro começou a entregar-nos coisas que tinha na cela quando íamos à visita: fotografias, cartas nossas ou livros.

Estava a desfazer-se dos bens...

Para não ficarem lá e perderem-se.

Os desenhos da prisão também?

Não, os desenhos ia-os entregando conforme os fazia, e nós trazíamo-los para casa.

Qual era a sensação de ir à prisão?

As visitas à prisão aconteceram de muitas maneiras. De início, quando estava na Penitenciária, era horrível, porque ficávamos de pé. Era num corredor; ele de um lado e nós do outro, separados por um vidro que tinha um buraquinho em baixo, mas quase não se ouvia aquilo que se dizia. Numa das vezes levei o meu filho mais velho - afilhado do Álvaro -, e ele quase nem o via, tais eram as condições de visita. Depois, passaram a ser no gabinete do chefe dos guardas, com ele sempre a vigiar-nos, o meu pai e eu de um lado e ele do outro. Quando o Álvaro foi para a enfermaria, foi melhor, porque acontecia num átrio, um sítio aberto, e estava ao nosso lado.

Como eram as visitas em Peniche?

Durante bastante tempo, as visitas eram juntas. Nós e as famílias dos outros presos levávamos almoço, havia uma mesa e ficávamos a comer juntos - às vezes levava os meus filhos, para ele os ver -, mas, a certa altura, o director da prisão achou que era de mais e passou para a modalidade do parlatório. Que, em Peniche, era horrível, porque não nos podíamos tocar, dar um beijo ou um abraço. Além disso, havia uma ressonância provocada por todos a falar ao mesmo tempo com as famílias que nem deixava perceber o que se dizia. Eram visitas muito tristes.

Quando o via, notava isso no olhar?

Não, nunca. Isso não! Estava sempre muito afectuoso e feliz por estar connosco, era o que transparecia. Falava muito e, como já podia ler nem escrever, comentava muito aquilo que lia e o que escrevia.

Como é que tinha acesso a livros?

Ele pedia-os e nós levávamos.

Que tipo de literatura pedia?

Levávamos livros sobre tudo, e não de um único género. Desde temas de agricultura, literatura ou estudos - podia ser sobre o Eça ou qualquer escritor nosso. Era muito heterogéneo naquilo que pedia.

Eram livros para as investigações?

Para trabalhar, por norma, mas nem sempre. Nas cartas que enviava, o Álvaro falava muito do que lia, dava as opiniões que tinha deles e estendia-se por uma ou duas pági-nas no tema que estava a ler, ou no que sentia ou pensava sobre a literatura.

Nas cartas, cifrava mensagens?

Eram cartas normais, porque eram sempre lidas antes de serem enviadas! E as folhas de papel eram numeradas, nada podia escapar.

Com que idade é que se lembra da primeira prisão do seu irmão?

Eu era muito pequenina, teria talvez oito ou nove anos. Lembro-me de nessa altura ter ido ao Aljube vê-lo, e ainda hoje recordo o cheiro daquilo. Era muito escuro, tinha uma espécie de grade - posso estar a dizer uma coisa que não era exactamente assim, mas é a minha memória de infância - num intervalo que me separava do Álvaro. Eu via--o do outro lado, muito magro, porque tinha sido brutalmente torturado, e com o cabelo cortado. Fiquei muito impressionada por o ver assim e, também, quando observei a roupa dele, que veio do Aljube e estava cheia de sangue. Olhei para aquilo e, como já tinha ouvido falar na PIDE, na polícia que batia, fiquei preocupada. E, aí, a minha mãe disse, para me sossegar: "Isto não é nada. Foram uns bichos que lhe morderam!"

Essas visitas deviam ser traumáticas para uma criança de nove anos?

Muito. Tanto que o Álvaro disse para não me levarem mais. Não queria que eu fosse lá enquanto estivesse naquela situação.

Em liberdade, Álvaro Cunhal vivia em casa dos pais?

Sim, vivia.

Receava que ele não voltasse a casa?

Era um receio que existia, mas não estava sempre vivo, ou não se conseguiria sobreviver! Lembro-me de uma vez ele me ter dito: "Olha, Geni, se um dia, quando acordares, a minha gabardina não estiver pendurada no bengaleiro, já sabes o que aconteceu: fui preso. E, nessa altura, tens de ajudar muitos os pais, dar-lhes muito carinho porque vão ficar mui-to tristes." Eu tinha 12 anos, e realmente, numa manhã, levantei-me e a gabardina do Álvaro não estava lá, e pensei "pronto, já foi preso". Então, fui ao quarto dele - não sei qual foi o meu critério, se certo ou não - e enfiei todos os papéis que me pareceram que podiam comprometê-lo ou fazer-lhe falta debaixo dos quadros pendurados nas paredes. E, de facto, a PIDE foi lá no dia seguinte passar revista e não os apanhou.

A opção de vida de Álvaro Cunhal devia ser complicada para os pais. Designadamente para a mãe?

Para o meu pai também foi muito complicado, porque o sofrimento não se acaba na compreensão. Para a minha mãe, que já tinha perdido dois filhos - a minha irmã morreu com nove anos e o meu irmão António, que podia ter sido um grande artista plástico, morreu com 22 -, ter o Álvaro na prisão era uma situação muito difícil, mas foi vê-lo durante muitos anos. A ideia que se tem da reacção da minha mãe não corresponde à verdade, tem que se ver que era uma mulher que sofrera muito. Era conservadora e católica, é verdade, mas durante muito tempo foi ver o meu irmão à prisão. Chegou uma altura em que disse: "Eu não tenho coragem de voltar a vir cá ver-te." Ainda tenho uma carta dela em que diz: "Meu filho, não te escrevo mais porque não aceito que as nossas cartas sejam lidas por elementos da PIDE." Isto mostra que não era aquela mulher dura. Já tinha sofrido muito e não concordava politicamente com o que Álvaro era. Ela dizia: "Um rapaz tão inteligente, que podia ser tudo o que quisesse na vida, ou está na clandestinidade a passar mal ou na prisão." E não aceitava isso.

Diz-se que ele também a provocava quando vestia um fato-macaco!

Nunca, isso é mentira. É uma história que foi inventada não sei porquê. Ele não provocava a minha mãe, e a esse nível muito menos. Nem havia fatos-macaco lá em casa! Isso não é verdade.

O seu pai também foi prejudicado profissionalmente por o defender?

Na vida profissional, acho que não, porque o meu pai sempre rejeitou ser advogado de bancos e de grandes companhias. Não queria defender o grande capital, era advogado de famílias, de pequenas lojas e pequeno/médio comércio. Só foi prejudicado como escritor. Ele começou a publicar textos sobre teatro na revista Vértice com o seu nome - o meu pai era muito dado ao teatro amador - e censuravam-no. Então, arranjou um pseudónimo, Pedro Serôdio, e os textos voltaram a passar, até ser descoberto. Quando entenderam que Pedro Serôdio era Avelino Cunhal, voltou tudo ao mesmo. Nesse aspecto, sim, foi prejudicado por ser pai do Álvaro.

O seu pai tem muito por publicar?

Sim, principalmente peças de teatro em um acto. Mas muito do que ficou por publicar também se deve a o meu pai não ser pessoa para andar atrás de editores durante o fascismo. Era muito difícil o nome Cunhal aparecer numa editora...

Recentemente foi publicado um livro do seu pai. Teve boa reacção?

É o Nenúfar no Charco. Sei de muitas pessoas, num círculo restrito, que compraram o livro e gostaram muito. Sei que estava à venda em grandes livrarias, mas pouco mais, até porque não houve críticas.

A vida política de Álvaro Cunhal acabou por exigir que se separasse cedo da família. Isso marcou-a?

Muitíssimo. Ele ia e vinha, e, quando não estava na clandestinidade ou preso, vivia em casa dos pais. Quando saía, ia para a clandestinidade e deixava de estar em casa.

Até à fuga de Peniche, qual foi o momento em que mais receou pela vida do seu irmão?

Foi quando o prenderam na casa do Luso, porque enquanto estava nas mãos da PIDE não vivíamos sossegados. Principalmente no período em que estava sem visitas e desconhecíamos o que acontecia com ele.

Ele lidava consigo com outra atenção devido à sua pouca idade?

Sim e tinha em conta o meu crescimento. Quando era muito pequena - no meu aniversário dos dez anos -, ele estava preso e mandou--me uma história com bonecos e com uma linguagem que eu entendesse. Dizia sempre que fosse muito carinhosa com os pais, sem ser moralista…

Com preocupação?

Sim. Escrevia: "Vê lá os pais, eles estão tristes por eu estar aqui, e tens de lhes dar beijinhos, tens de ser carinhosa com eles." Depois, à medida que fui crescendo, a correspondência era diferente, mas sempre no sentido de esperar que eu fosse uma pessoa honesta, com os valores e as qualidades que achava que um ser humano deveria ter.

As pessoas têm como referência em Álvaro Cunhal uma austeridade pouco dada a essas preocupações com uma irmã mais nova.

As pessoas não têm a obrigação de o conhecer! Por isso, fazem uma ideia do Álvaro diferente do que ele era na verdade, porque decorria da sua postura como político e nada tinha a ver com o que era em família - não nos viam juntos! Mesmo depois do 25 de Abril, a não ser no partido, na casa dele ou na minha casa, as pessoas não viam o Álvaro com a família, com os sobrinhos ou comigo, só o político que fazia um discurso ou ia à televisão para um debate.

Intimidade que protegia. Porquê?

Não estou dentro dele para saber. É uma questão de temperamento.

Qual foi a percepção dos sobrinhos quando o viram após o 25 de Abril?

Tinham muito orgulho nele.

Tinha paciência para as crianças?

Já não eram tão crianças no 25 de Abril, quando reencontraram o tio, mas foi fácil.

Sofreram alguma penalização por serem da família de Álvaro Cunhal?

Não. O mais novo ia ser julgado no dia 26 de Abril, pela sua actividade nas associações de estudantes, e não por ser sobrinho do Álvaro.

Houve outro dos seus filhos que saiu do País. Porquê?

Porque poderia ser preso por se recusar a ir para a Guerra Colonial.

Até à fuga de Peniche, Álvaro Cunhal perdeu o direito à vida pessoal. Convivia bem com a impossibilidade de ter uma família?

Quando uma pessoa faz opções de fundo e vive com elas, não se lastima. A vida do Álvaro foi como a de muitos outros camaradas que estiveram na clandestinidade, muitos até com vidas mais complicadas e com filhos.

Aprendeu muito com ele?

Muito, muito mesmo. A minha maneira de estar no mundo e com as pessoas. Fundamentalmente foi isso, a minha estrutura básica.

Mas houve algo que lhe tenha dito que serviu de orientação na vida?

Não, porque o Álvaro não dizia as coisas para me marcar. Ao longo do tempo, eu ia-me construindo, e ele não me dizia se era assim ou de outra maneira. Foi principalmente na estrutura humana que me ajudou a formar, daí começar a interessar-me pelas pessoas, reparar nas que eram exploradas e nas injustiças no mundo. Que me mostrava e contava, mas não impunha.

Quando leu Até Amanhã, Camaradas [sob o pseudónimo Manuel Tiago], sabia que o livro era dele?

Não fazia ideia nenhuma. Na altura, li-o e gostei muitíssimo. Acho que é um grande livro, porque é um pedaço da nossa história.

Vê-lo escritor surpreendeu-a?

Não foi propriamente uma surpresa, porque via nele uma pessoa com tantas facetas e capaz de muito.

Uma das particularidades dos livros é mostrar um respeito pelas mulheres, pouco habitual à época.

Nele, essa era uma situação mesmo pessoal, e não teórica. Conhecia as mulheres e respeitava-as, uma a uma, nos seus direitos.

E partilhava das tarefas da casa?

Em casa da minha mãe, claro que não, porque era uma casa burguesa que tinha a criada de fora e a cozinheira. Eu própria não partilhava, e era rapariga, só mais tarde, quando comecei a ter consciência e a não querer que me servissem.

Como era a relação dele com a filha?

Ele estava na clandestinidade nessa altura, e por isso não sei como seria, mas com certeza que com a filha fazia o mesmo que fez comigo: dava-lhe tudo o que podia e a sua vida permitia.

Foi difícil conviver com um irmão que fazia parte da história?

Nem tal coisa me passava pela cabeça, era irmão, como os outros.

Vinha aqui visitá-la a casa?...

Sim... enquanto pôde. Depois, por questões de saúde, comecei a ir visitá-lo a casa dele, quando teve a primeira casa legal - mesmo depois do 25 de Abril, durante muito tempo, a sua casa era clandestina.

Porque manteve a casa clandestina durante tanto tempo?

Não foi uma decisão dele, certamente, mas do partido. Por uma questão de resguardo, penso.

E a própria vida pessoal manteve-a também clandestina.

A família sabia mais do que isso. Não sei se as pessoas conheciam a companheira dele, a Fernanda?

A morada oficial de Cunhal era a desta casa, a sua. Porquê?

Foi sempre assim, porque era a maneira de não ter de dar outra morada. Estava o assunto arrumado! Nunca morou aqui, só vinha - muitas vezes - para estar connosco e no Natal para passar a noite cá.

Como era nesses momentos?

Como uma pessoa que conversa sobre tudo e quer saber como estão as coisas. Da saúde, das preocupações, de tudo. Normalíssimo.

Era-lhe fácil falar com os netos?

Sim e tinha uma óptima relação com eles. Tinha muita paciência e jeito para lidar com os miúdos.

Tal como tivera para com a filha?

Era muito terno e cuidadoso.

Tem em sua casa vários quadros do seu irmão. Como é que ele descobriu a pintura?

Desde miúdo que gostava de desenhar e de fazer bonecos, até fez uma exposição, em Seia, em criança. Com a sua vida na clandestinidade, não tinha tempo para pensar nisso nem para desenhar, só na prisão é que o começou a fazer, depois daqueles anos de terrível isolamento, sem um livro, um lápis ou um som durante anos. Quando começou a pedir papel para desenhar, fê-lo cada vez melhor, e a certa altura até experimentou o óleo, e pediu tábuas para pintar.

Havia pintores que apreciava?

Havia um ou outro. Lembro-me de uma vez - nós falávamos também em pintura - ter ido a Veneza e de ele me dizer: "Olha, no Palácio dos Doges, não deixes de olhar o tecto pintado por Tintoretto, porque é uma maravilha."

Durante o exílio, viu-o alguma vez?

Vi-o em França numas férias, com os meus filhos e ele. Foi a primeira e única após fugir de Peniche.

Era difícil para ele a ausência de Portugal e da família?

Sim. De Portugal, pela sua luta política, que teria de ser de uma maneira diferente, embora fosse a sua vida 24 horas por dia. Da família, era muito complicado. Quando morreu o nosso pai e o meu marido não estava cá, ele sofreu muito.

Nesse encontro em Paris, ainda acreditava no fim do regime?

Uma pessoa que luta, tem de acreditar. Nunca teve dúvidas de que um dia iria acabar, até porque estava no único partido que existia para lutar contra o fascismo.

A queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética provocaram-lhe algum desencanto na luta?

Desencanto, não, mas muita tristeza e preocupação.

Pressentiu o colapso da URSS?

Com certeza que sim, todos tivemos essa preocupação, mas mais do que isso, não. Uma pessoa, quando luta uma vida inteira, tem sempre a ideia do futuro.

Revê-se no Portugal de hoje?

Não. Com a situação política que temos, sem estarmos a produzir na agricultura ou na indústria, com o desemprego crescente, empresas a fechar, os reformados a viver miseravelmente… Há outras coisas que me afligem, a televisão que temos, cada vez se lê menos!

Revê-se a nível político?

Claro que não. O País está com um Governo que tem uma política que vai contra os interesses da grande maioria dos portugueses.

Qual a sua opinião sobre a justiça?

É a de qualquer português que tenha os olhos abertos.

Politicamente, há uma maioria de esquerda. É uma solução?

Não é suficiente para qualquer mudança a nível de parlamento.

O que pensa dos conflitos entre Cavaco e Sócrates?

Parece que o PS está a fazer tudo para que haja novas eleições.

O PCP tem papel fundamental?

Claro, é o único que o tem.

O que pensa dos sucessores de Álvaro Cunhal na direcção do PCP?

São muito diferentes. Acho que Jerónimo de Sousa é um excelente secretário-geral do partido, tem um contacto muito bom e é profundamente firme nas convicções.

Até tem seduzido muitos eleitores?

Não gosto da palavra seduzir, mas temos estado a aumentar.

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MensagemAssunto: "Portugal está a abdicar da exigência democrática"   Qua Mar 10, 2010 3:33 pm

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"Portugal está a abdicar da exigência democrática"

por JOANA EMÍDIO MARQUES
Hoje


Entrevista com José Gil, filósofo e professor universitário, que hoje dá a sua última aula na Universidade Nova de Lisboa, onde está há 29 anos.

Hoje dá a sua última aula na Universidade Nova de Lisboa, onde lecciona há 29 anos. Que impressão gostaria de deixar nos seus alunos?

Gostaria de deixar uma certa liberdade de pensar. Pensar não apenas no âmbito filosófico, mas nas diferentes disciplinas, nos diferentes campos do saber. Gostava de deixar, sobretudo nos alunos, a capacidade de construírem um pensamento profundo e rigoroso sobre a vida.

E na universidade, nos colegas, na comunidade filosófica?

Não existe comunidade filosófica em Portugal, portanto, não sei a importância que o meu trabalho tem tido. Da parte dos colegas também não tenho tido muito feedback. Excepto de alguns, poucos, amigos filósofos.

Diz isso com uma certa mágoa?

As pessoas que constituem a academia portuguesa não estão abertas ao pensamento uns dos outros. Vivem isoladas, só pensam nelas e nas suas carreiras. Tenho mágoa porque se houvesse troca de ideias entre as pessoas, se houvesse comunicação, criar- -se-ia uma energia contagiante, que ajudaria os alunos e ajudaria o País.

A reforma da vida académica tem-no induzido a fazer um balanço sobre a sua vida?

Não, porque a vida é feita de metamorfoses. Este é mais um momento de metamorfose para mim. Vou fazer outro uso do tempo. Poderei dedicar-me mais aos meus estudos filosóficos. Para já vou reunir um conjunto de textos que tenho escritos em torno da temática do corpo. E vou trabalhar em mais dois livros.

Houve um momento em que abandonou o lugar de filósofo desconhecido para se tornar uma figura mediática que pensa e escreve sobre Portugal. Considera que essa sua intervenção deu frutos?

Não, penso que não consegui induzir mudança. Não é porque as pessoas começam a usar um vocábulo do meu livro (inscrição) que isso muda alguma coisa. A influência dos livros é pouca, pois os problemas da sociedade portuguesa são muito profundos.

Vai manter a sua intervenção no espaço público português, nos livros, nos media?

Sim, porque em Portugal há muitas coisas sobre as quais me interessa pensar. Além disso, esta é a sociedade à qual pertenço e intervir também faz parte da forma como penso a própria filosofia. Neste momento, acho que Portugal está a abdicar da exigência democrática. Não há um esforço para pensar em alternativas além dos paradigmas reformistas vigentes.

Sobre o que vai falar na sua última lição?

Vou falar sobre um assunto que me estimula o pensamento, que é a linguagem na arte e na filosofia.

In DN

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MensagemAssunto: "O primeiro-ministro é um general perdido no seu labirinto"   Dom Mar 28, 2010 11:01 am

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"O primeiro-ministro é um general perdido no seu labirinto"

por JOÃO MARCELINO (DN) e PAULO BALDAIA (TSF)
Hoje


O líder do Bloco de Esquerda defende que a Comissão de Inquérito ao caso TVI não é para julgar ou fragilizar Sócrates, nem pode servir como uma "instância de recurso para decisões da própria justiça". Francisco Louçã garante que só conhece um membro do BE que já declarou apoio ao "monárquico" Fernando Nobre, candidato a Belém.

O Bloco de Esquerda (BE) é um dos partidos proponentes da Comissão de Inquérito ao frustrado negócio PT/TVI. Está convencido de que José Sócrates mentiu ao Parlamento sobre o seu conhecimento da operação?

A Comissão de Inquérito ainda não começou a funcionar. Quando a propus, os partidos todos mantiveram reserva, para rapidamente se perceber que era a única solução. O Parlamento tem uma obrigação de fiscalizar a actividade do Governo. E uma grande intervenção na comunicação social, eventualmente para a condicionar, como foi toda a operação da PT ou da Ongoing sobre a TVI, exige um esclarecimento de transparência absoluta. O primeiro-ministro apresentou esta iniciativa sob vários ângulos diferentes. A Comissão de Inquérito quer saber factos. Não tiro conclusões antes de ela fazer as suas audições. Não estamos a julgar o primeiro-ministro, estamos a apurar a verdade dos factos sobre como o Governo terá agido ou não no contexto da sua relação com a PT e com a TVI.

A questão não é saber, na sua opinião, se mentiu ou se não mentiu, se tinha conhecimento ou não, mas se interferiu no negócio.

Esse é o objectivo da Comissão de Inquérito: saber que tipo de interferência houve ou não do Governo na operação da PT para comprar a TVI e se, face a isso, o primeiro-ministro deu informações verdadeiras ou não ao Parlamento quando disse que não conhecia o negócio. Se assim se concluir, assim os factos o dirão. Por outro lado, também devo dizer-lhe que não concordo de forma nenhuma com qualquer jogo político sobre a Comissão. A Comissão foi usada por candidatos do PSD como instrumento da sua luta interna para as suas eleições - isto é indignificar o Parlamento. Isto significa reduzir a política à sua expressão mais demagógica. E já vi mesmo o PSD pedir a vinda do procurador-geral da República ou documentos judiciais. Ora, o Parlamento não é, não quer ser, não vai ser instância de recurso para decisões da própria justiça.

Mas a verdade é que o PSD e o Bloco coincidiram na proposta desta Comissão de Inquérito. Há aqui uma iniciativa comum. Depois, é óbvio que esta Comissão terá sempre um âmbito político, terá sempre conclusões que serão interpretadas politicamente.

Com certeza.

Se a "verdade dos factos" viesse a apontar no sentido de uma eventual mentira do primeiro-ministro ao Parlamento, que conclusões políticas tiraria o BE?

O BE fez esta proposta, o PSD depois apoiou-a e os outros partidos da oposição, todos, apoiaram-na, porque houve um acordo geral sobre esta obrigação do Parlamento de obter o esclarecimento completo. E este é nosso dever perante o País. A Comissão de Inquérito não é um alvo pessoal. Estamos a fazer um levantamento político de como o Governo actuou no contexto da PT. E percebemos já enormes contradições. Tudo isto é um mar de confusão. E o que o País exige, simplesmente, é o rigor dos factos e a informação concreta. Perante ela tiraremos todas as conclusões políticas. Mas se o que quer perguntar-me é se é isto que fragiliza o Governo, isto exige esclarecimento. O Governo hoje está fragilizado por razões muito mais profundas.

Pode ficar mais fragilizado?

Veremos as conclusões. São as conclusões concretas que têm de dizer como deve o Parlamento actuar.

Esta Comissão vai estar a trabalhar cerca de dois meses.

Espero até que menos.

Mas essa vai ser a janela de oportunidade para haver eleições em Portugal este ano. Isso vai condicionar ou não os trabalhos, a conclusão e o relatório?

De forma nenhuma! A Comissão tem de fazer o seu trabalho sério. Mas não há nenhuma relação entre esta Comissão e qualquer jogo político de eleições antecipadas. Sei que o primeiro-ministro é hoje um general perdido no seu labirinto e não quer outra coisa senão repetir o episódio Cavaco Silva de 1983 e provocar eleições com qualquer crise artificial. Quem quer que faça da política um jogo de poder está condenado perante a democracia. Nós agora temos de ter toda a responsabilidade - é por isso que a Comissão de Inquérito tem o seu lugar. O debate sobre o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) é o debate essencial do País.

Se diz que o Governo já está fragilizado e, portanto, não é precisa esta Comissão de Inquérito para o fragilizar…

Mas não é esse o objectivo da Comissão de Inquérito; é saber a verdade!

Mas diz que o Governo já está fragilizado. O que falta para que um partido da oposição apresente uma moção de censura a este Governo, minoritário no Parlamento?

Quem tem procurado provocar crises artificiais é o PS, por um jogo político. O PS não aceita, José Sócrates em particular não aceita, governar sem maioria absoluta. E por isso o jogo dele não é responder ao País. É, pelo contrário, usar qualquer pretexto para precipitar eleições. Foi o que fez a propósito da Lei das Finanças Regionais. Acho espantoso que, quando o Presidente da República promulgou a Lei das Finanças Regionais, que introduzia critérios mais rigorosos que os do passado - que foram laxistas, desastrosos, desorçamentais e prejudiciais ao País no facilitismo em relação à Madeira, do qual, aliás, este Governo de José Sócrates foi um dos grandes promotores -, o primeiro partido que veio registar essa decisão do Presidente foi o PS, e veio felicitar o Presidente! Ora, há três meses, esta lei provocaria eleições antecipadas.

Sendo os partidos da oposição tão críticos com este Governo - e no caso do Bloco, que diz que o futuro do País está a ser posto em causa com este tipo de políticas -, como se explica isso e ao mesmo tempo se deixa que seja o PS e José Sócrates a continuar a governar?

Mas José Sócrates tem neste momento o apoio do PSD e do CDS no Orçamento. E o Orçamento e o PEC são as discussões sobre a política do País. As moções de censura que o BE já apresentou são a rejeição do Orçamento e a resolução para rejeitar o PEC, em que tivemos o cuidado detalhado de apresentar alternativas sobre a política social e económica. O PS sabe que tem do seu lado os partidos da direita. E a discussão que importa aos portugueses é sempre sobre alternativas, e é isso que vai disputar-se. E vai disputar-se intensamente: saber se há ou não outra forma de consolidação orçamental - e eu digo que existe, acho que é possível reduzir o desperdício e cortar três mil milhões de euros no desperdício, na extravagância, nas mordomias e nas benesses já este ano. É possível fazer um ajustamento orçamental de mais de 2%, ao contrário dos objectivos medíocres do Governo. Bastava retirar mil e tal milhões de euros que se pagam no offshore da Madeira - nós pagamos todos, todos os contribuintes. Bastava reavaliar ou renegociar os contratos militares cujas contrapartidas não foram pagas a Portugal. Quem fez negócios connosco está em falta.

Podia rasgar-se esse contrato?

Não, tem de se renegociar, foi o que eu utilizei. Nós comprámos equipamento militar em três mil milhões de euros e havia contrapartidas de três mil milhões de euros. Neste momento…

O próprio ministro já disse isso.

Porque reconheceu a nossa razão a esse respeito! Agora, se os vendedores não executaram a sua parte do contrato, temos de lhes bater à porta e dizer: "Meus amigos, nós comprámos a um preço mais alto que o preço verdadeiro porque nos garantiram contrapartidas." Devem-nos 2300 milhões de euros! Mais que 1% do produto…

E, já agora, como é que chegava a essa poupança dos três mil milhões?

Mil milhões de euros nos offshores, renegociar os contratos militares, vender os submarinos - são mil milhões de euros -, renegociar as parcerias público-privadas, porque elas implicam 45 mil milhões de euros durante os próximos 30 anos. E basta dizer aos construtores das auto-estradas, que ganham por tráfego que não existe, ou a quem está a construir os hospitais para os gerir e para lucrar com eles durante 30 anos, que agora é tempo de repartir sacrifícios.

É professor de Economia. Que preço pagaria o País por essa política anticapitalista?

Isto é, em primeiro lugar, uma política decente. Isto é uma política de negociação contratual.

No caso do offshore da Madeira, só será possível quando houver um acordo, pelo menos a nível europeu, para tratar dos offshores.

Sabe que isso não é verdade...

Dizem muitos economistas.

Pois dizem!

E, digo eu, haverá menos economistas a dizer o contrário.

Mas isto não é uma questão de voto. Digo-lhe simplesmente o seguinte: em Espanha, qualquer transferência para o offshore das Canárias paga à partida 25%. Extraordinário que os espanhóis são capazes de fazer isso e em Portugal não é capaz de se fazer! Há uma lei que determina que o Banco de Portugal tem de ter o registo de todas as transferências para offshores. Sabe que essa lei não está a ser aplicada? Sabe que não há nenhum registo? E sabe quanto houve o ano passado, o recorde em Portugal? Dezoito mil milhões, ou seja, 10% do produto, dez euros em cada cem do que é produzido em Portugal foi transferido para os offshores para não pagar imposto. Se tivessem pago os 25% de IRC - que é o que paga uma mercearia ou uma tabacaria, o que pagam os donos da TSF e do DN como imposto normal -, nós tínhamos pago este ano metade do ajuste orçamental para o défice de que precisamos, 4500 milhões de euros.

O PEC também prevê novas privatizações. De que sectores acha que o Estado não deve abdicar, de onde não deveria sair?

Este PEC propõe algumas privatizações que são dramáticas, que são, aliás, as que têm provocado uma resposta directa de Manuel Alegre, ou de Mário Soares, ou de João Cravinho, e creio que têm razão. Dou-lhe três exemplos: Correios e Caminhos-de-Ferro são dois serviços públicos essenciais para o conjunto do território nacional. Poucos países europeus privatizaram os Correios. Não tem sentido entregar empresas de distribuição de serviço pelo território a empresas que possam utilizá-lo com um princípio de lucro, o que quer dizer que muitas das estações de correios no interior do País vão fechar. Em segundo lugar, este Governo, pela primeira vez, atreveu-se a privatizar uma parte da Caixa Geral de Depósitos (CGD), que é uma parte importantíssima, um terço do sector segurador do País. Lembro-me quando Durão Barroso e Paulo Portas formaram o Governo; chegou a falar-se nessa campanha de privatizar a CGD e imediatamente recuaram, e estabeleceu-se um tabu em Portugal - não se mexe na CGD.

E um bom tabu.

Correctíssimo! Provou-se, aliás, nesta crise que ter um banco público que pode ter confiança, gestão pública, que pode ter um princípio de utilização do crédito como um instrumento para a política económica num momento de crise, de seriedade, é importantíssimo. Agora, pela primeira vez, vai ser privatizado. Mas, digo--lhe também, as redes de alta tensão: não há concorrência nas redes de alta tensão! Como é possível vender as redes de alta tensão a uma empresa privada! Aliás, os privados já têm 49%, o primeiro-ministro garantiu-me num debate que nunca ia privatizar os 51% da REN - cá está, vai privatizá-los agora. O primeiro-ministro tem pouca preocupação com a palavra.

Deve o Estado manter a golden share na PT, que tantas polémicas tem criado ao longo dos tempos?

Acho que sim. Deve manter a golden share ou a capacidade de intervenção estratégica em empresas estratégicas: comunicações, energia são sectores estratégicos do ponto de vista do desenvolvimento do País e da criação da sua capacidade, da infra-estrutura tecnológica moderna.

Essa golden share, se fosse primeiro-ministro, equivaleria a dizer que teria de ser informado de um negócio de aquisição?

Absolutamente! Se é Rui Pedro Soares que vai a Madrid de jacto privado com um documento na mão, tendo ele sido nomeado pelo Estado para a PT…

O senhor primeiro-ministro teria de saber?

Com certeza que teria de saber.

Quando se define que um banco deve ser público, deve ou não clarificar-se em nome da transparência em que empresas e sectores este pode vir a estar interessado, e ter posições? Acha aceitável que um banco como a Caixa, público, tenha posições em empresas privadas?

Acho aceitável que tenha posições em empresas privadas. É evidente que tudo isso obriga à total transparência do mercado, porque se trata numa parte de empresas cotadas na bolsa. Tem de ser público qual é a componente de capital que corresponde a cada um dos accionistas. E a acção da Caixa deve ser absolutamente transparente, a Caixa não pode ser um instrumento de jogo de poder do Governo para nomear um administrador da Cimpor, por exemplo, ou para arranjar uma reforma dourada para ex-ministros. Tem de ter uma capacidade de actuação estratégica. Se os cimentos interessam do ponto de vista da actuação económica para ajudar a uma construção civil, que é uma parte importante da economia do País, deve ser em nome dessa actuação económica que a Caixa deve agir.

E acha que a Caixa esteve bem no caso da Cimpor?

Acho que fez muitíssimo mal. Contestei na altura, tive discussões acaloradas com o ministro das Finanças, porque a Caixa comprou uma parte de Manuel Fino dando--lhe opção de recompra sem risco uns anos depois por 25% acima do valor de mercado. Perdeu 62 milhões de euros - 62 milhões de euros! Não se brinca com o dinheiro dos contribuintes! A Caixa agiu mal nesse negócio, já vi até Manuel Fino vir dizer que queria agora recuperar os direitos de voto da Caixa, coisa absolutamente espantosa.

E, agora, a Caixa esteve bem na guerra entre brasileiros pelo controlo da Cimpor?

Não se deveria ter facilitado o controlo da Cimpor por um jogo de concorrência entre duas empresas brasileiras para a sua internacionalização. É evidente que naquele mercado têm de seguir-se regras e essas não têm que ver com a nacionalidade do capital, mas com um objectivo estratégico. Há um sector importante de emprego cuja capacidade de produção tem de ser garantida que exista em Portugal e que sobreviva e se desenvolva.

Como vê o corte nas despesas sociais? O ministro da Economia, Vieira da Silva, já disse aqui que, apesar de tudo, em 2013 o Estado gastará mais em despesas sociais que em 2008. Como vê a polémica à volta desta questão?

O Governo falsifica as contas com uma sem-vergonha sem limites. O produto desceu ao longo do último ano, e o que pode recuperar este ano quer dizer que o produto português é mais pequeno em 2010 do que era em 2008. Jogar com pequenas diferenças de percentagem sobre um produto que é mais pequeno é, evidentemente, tentar lançar areia para os olhos das pessoas. O que o Governo faz é simplesmente dizer: "Retirámos 130 milhões de euros do rendimento social de inserção (RSI)" sem fazer qualquer investigação sobre fraudes, sem separar quem merece e quem não merece, simplesmente porque o dr. Paulo Portas pediu que se retirassem.

Foi uma condição para a viabilização do PEC?

Obviamente! Foi uma condição no jogo político entre o PS e o CDS, porque os números são exactamente esses: 130 milhões de euros, dizia Paulo Portas na campanha eleitoral, porque acha que é aos pobres que tem de se retirar dinheiro. E 130 milhões de euros cá está José Sócrates a retirar do RSI quando sabemos que os 300 mil desempregados que ainda recebem subsídio de desemprego agora e que já não vão receber daqui a três anos, quando acabar o PEC, só vão poder bater à porta do rendimento social. Portanto, não vão ter nada, nem aqueles 80 euros por família dados pelo RSI. Mas o Governo tira 600 milhões de euros também da dotação orçamental da Segurança Social. Portanto, vai reduzir, congelar, o que quer dizer retirar a inflação no conjunto das pensões, reduzir o conjunto das despesas sociais. Como dizia o Pedro Adão e Silva, isto é dramático: os mais pobres vão pagar o ajustamento orçamental. Sempre tem sido assim e é por isso que sinto uma revolta enorme, de muita gente que sente que o PS é hoje um partido vendido às políticas liberais mais agressivas. É o que acontece com o subsídio de desemprego também: a limitação do total do subsídio de desemprego e das prestações sociais leva o Governo a propor que se possa impor a uma pessoa que tem subsídio de desemprego a obrigação de ir trabalhar por um pouco mais do que o subsídio que recebia

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MensagemAssunto: Deputada Paula Barros em «Transmontanos de gema»   Ter Mar 30, 2010 4:00 pm

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Transmontana no parlamento
Distrito de Vila Real



Deputada Paula Barros em «Transmontanos de gema»

No parlamento nunca foi preciso dizer que é transmontana, porque isso é evidente. Até pelo sotaque. Na política, entrou por influência da mãe, mas também por uma questão de feitio: sempre gostou de dizer o que pensa e de confrontar as suas ideias com as dos outros. No prato, não podia ser mais transmontana.

Propõe sempre restaurantes “onde se coma e não onde enfeitem o prato”. A flaviense Paula Barros, deputada socialista à Assembleia da República, é a convidada desta semana da rubrica “Transmontanos de gema”. E faz uma revelação: É candidata à concelhia de Chaves do PS, nas eleições do próximo dia 9 de Abril. E, se ganhar, em 2013, será candidata à Câmara.

Semanário TRANSMONTANO: No Parlamento, é preciso puxar pela sua costela transmontana?

Paula Barros: Não. Aliás, como muitas vezes me dizem, não é preciso puxar por ela, está tão patente que quase antes de eu falar já adivinham o que eu vou dizer quando me refiro à minha região, ao meu distrito e particularmente a Chaves. É inato.

Nunca foi preciso dizer: “atenção que eu sou transmontana, não se metam comigo”

Nunca me saiu essa expressão. Os debates têm fórmulas regimentais, devemos ter esse cuidado, evitar questões de espontaneidade, embora apeteça. Mas fica logo bem patente que eu sou transmontana até pelo sotaque, que nunca consegui perder.

ST: Gozam consigo nos corredores. Chama-lhe transmontana?

PB: Gozar não. Mas sim, dizem: lá vem a flaviense.

ST: Faz questão de dizer que é transmontana?

PB: Eu faço questão de dizer que sou de Chaves. Como bem sabem, ao sermos eleitos somos deputados da nação, que representam os portugueses, mas é impossível esconder e é com orgulho que digo que sou de Chaves.

ST: Como se iniciou na política?

PB: O meu percurso político é muito associado ao meu percurso pessoal e até profissional. Todos nós temos a nossa história, a minha tem muito a ver com a postura da minha mãe e com a vivência da minha mãe no antes e no pós 25 de Abril. Lembro-me de serões a falar dessa matéria e recordo com muita saudade. E isso fez-me perceber que estava na altura em que era possível intervir, fazer coisas, ser proactiva, emitir opinião e eu sempre tive um feitio interventivo, de dizer aquilo que pensava e isso foi acontecendo na escola, desde cedo, no ciclo preparatório, no liceu...

ST: Quando percebeu que queria estar na política?

PB: Percebi desde cedo, percebi que tinha vontade de intervir, de emitir a minha opinião e de a confrontar com a dos outros, porque eu acho que é extremamente importante que isto aconteça. Também sei que não somos absolutamente donos da verdade. Aliás, sou muito, não queria empregar a expressão contestatária, mas se calhar é mesmo essa que tenho de empregar em relação àquelas pessoas que acham que assumem a arrogância de se acharem donos da verdade. Eu contesto-os porque isso não é verdade. Ninguém é dono da verdade absoluta. Nem ninguém tem razão a cem por cento.

ST: Diz-se muito que os deputados não fazem nada e que quando chegam a Lisboa depressa esquecem a região. É assim?

PB: Quem sou eu para falar, exerço funções de deputada, neste momento, mas posso e quero, sem qualquer problema, dizer que os deputados levam muito a sério aquilo que fazem. E o levarem a sério aquilo que fazem exige que estejam em trabalho permanente. A informação no Parlamento corre a uma velocidade estonteante e quem se quiser envolver, estar por dentro das questões, não consegue ter grande tempo, para além do tempo que passa a ler, a estar por dentro dos assuntos. Para além das reuniões e intervenções, sejam em reuniões do grupo parlamentar, seja as institucionais, ao nível da Assembleia da República, ao nível das comissões ou do plenário.

ST: Os seus colegas professores queixaram-se muito a si das reformas levadas a cabo no campo da educação?

PB: Eu sou professora, já passei por várias situações no exercício da profissão. E converso muito como os meus colegas professores e, sendo certo que há matérias que geraram muita perturbação, muita controvérsia, também é verdade que grande parte dos professores reconhece que houve muitas medidas que foram tomadas, nomeadamente, na anterior legislativa, que eram absolutamente necessárias, a bem da escola pública. Temos que perceber que a escola pública primeiramente se massificou, não se democratizou. Houve medidas que foram tomadas plenamente justificadas pelos seus objectivos e refiro-me, por exemplo, à avaliação dos professores. Foi uma das medidas que mais contestação gerou, mas não pelo que esteve em questão. Os meus colegas reconheceram que uma avaliação séria dos professores é um passo muito importante para dignificar a classe docente.

A primeira proposta que foi colocada e que foi sendo desenvolvida era uma proposta que necessitava de muitos acertos. É aquilo que eu acho. Às vezes peço às pessoas que leiam as minha intervenções que proferi na AR em diversas ocaiões em relação a esta matéria.

ST: É difícil gerir as aspirações locais com as decisões do Governo, na saúde?

PB: A saúde foi outra área em que o Governo se emprenhou fortemente em fazer reformas. No caso da saúde, temos que distinguir três áreas: cuidados primários; cuidados diferenciados e cuidados emergentes.

No meu ponto de vista, julgo que devemos ter a capacidade de olhar para o Sistema Nacional de Saúde (SNS) como um todo e definir se queremos um SNS. Eu quero um SNS. Eu desejo um SNS. Julgo que privatizar a saúde seria deixar de ter saúde de qualidade para todos os cidadãos. E a minha defesa é sempre nesse sentido, de que todos os cidadãos tenham acesso a cuidados de saúde de qualidade e com a proximidade possível. No que diz respeito particularmente a Chaves, eu já disse que há uma situação que não está bem, uma situação que precisa de melhorar, mas esta situação também não deve abafar, por si só, os ganhos que também foram conquistados e há alguns ganhos em termos de proximidade de serviços, que anteriormente não tínhamos na região e que passamos a ter. Isso é uma mais valia. Em Chaves há uma área que tem que melhorar, e eu tenho acompanhado, tenho tido diversas reuniões, é a área da urgência, que é a porta de entrada do hospital e tudo aquilo que se passa na urgência contamina todo o resto.

ST: Falando agora um pouco em política local, do PS, nas últimas eleições autárquicas, os resultados foram desastrosos. Ficou muito triste? O que falhou?

PB: Fiquei, porque acompanhei o projecto local do PS, defendi-o e porque acredito que tinha uma visão alternativa para o concelho. No entanto, o PS perdeu de cabeça levantada, de forma digna e, neste momento, tem dois vereadores na Câmara que estarão a fazer o seu trabalho de oposição, atenta e responsável. Também na Assembleia Municipal, os 17 eleitos estamos a fazer o nosso trabalho de oposição séria e responsável. Temos bases para continuar a construir um caminho, o caminho do Partido Socialista, como formação político-partidária verdadeiramente alternativa.

ST: Após as eleições, Nuno Rodrigues anunciou que iria pôr o lugar à disposição, admite concorrer à presidência da concelhia?

PB: As eleições estão marcadas para o dia 9 de Abril e eu não admito, eu sou candidata à presidência da concelhia. Os militantes já têm esse conhecimento, através de uma carta que dirigi a todos.

ST: É o primeiro passo para uma candidatura à Câmara nas próximas eleições?

PB: A candidatura à presidência da concelhia é um passo que eu desejo no sentido da construção de um projecto forte, sério e credível para as eleições de 2013. Mas é um projecto onde devem participar todos os militantes do PS de Chaves, porque cada militante é uma pessoa com ideias, com experiências de vida que pode enriquecer muito o projecto, mas também com todas as organizações flavienses, no sentido de quando o projecto estiver finalizado todos se possam rever nele.

ST: Acha que está em condições de agregar todas as facções do PS?

PB: Os consensos são difíceis, mas o pior que se pode ter são falsos consensos e, portanto, acho que é a altura propícia para que as pessoas apresentem os seus projectos, se tiverem vontade e disponibilidade.

ST: Já há mais candidatos?

PB: Tenho conhecimento que existe outra.

ST: Liderada por?

PB: Julgo que competirá ao candidato apresentá-la, quando entender.

ST: Está a favor ou contra as barragens no rio Tâmega?

PB: O Plano Nacional de Barragens é um programa muito interessante, muito valioso para o país na sua globalidade. Agora uma das minhas preocupações tem sido sempre ver se o que é importante para o país na globalidade tem impactos negativos para a região. As questões das barragens ainda estão em debate público e eu estou a formar a minha opinião e entendo que é necessário prestar esclarecimentos às populações dos impactos positivos e dos negativos. No outro dia estive numa reunião extraordinária em Vidago. E extraordinária porque a dada altura não sabia se estava no século XXI, se estava na Idade Média. Custou-me muito o que ouvi ali. O fundamentalismo e o facto de não se ter feito o exercício do contraditório. Ninguém é dono da verdade. As boas decisões, passam por boa informação, de qualidade, pelo confronto de ideias.

ST: E no prato, é transmontana?

PB: Sou um verdadeira transmontana em termos de comida, o que às vezes me causa alguns problemas de consciência. Gosto de tudo que é típico da nossa região, nomeadamente dos produtos associados à transformação do porco. Adoro o nosso cozido à transmontana, a nossa posta...

ST: E leva para Lisboa as iguarias de cá?

PB: Pois, o pior foi levá-las a primeira vez. Em Lisboa, normalmente almoço no Parlamento. Ao jantar, costumo jantar com um grupo de deputados com quem fomos criando alguns laços e quando me perguntam: ‘Paulinha, onde vamos jantar?’Onde se coma e não onde enfeitem o prato.

ST: Definição de transmontano de gema:

PB: É uma pessoa naturalmente franca, aberta, genuína, é uma pessoa que quando lhe batem à porta diz: entre, quem é?


Margarida Luzio, Semanário Transmontano, 2010-03-30
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MensagemAssunto: "Sem 'golden share', risco de OPA sobre PT é fortíssimo"   Dom Abr 11, 2010 3:41 pm

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"Sem 'golden share', risco de OPA sobre PT é fortíssimo"

por JOÃO MARCELINO (DN) e PAULO BALDAIA (TSF)
Hoje


Regressado às mãos da família, que o detinha há longas décadas, em fins dos anos 80,o grupo BES emprega hoje cerca de 20 000 pessoas em 20 países, em mais de 400 empresas. Ricardo do Espírito Santo Salgado é o convidado da TSF e do DN.

Vítor Constâncio prevê processos de concentração na banca portuguesa. Que papel terá o BES neles?

O dr. Vítor Constâncio é uma pessoa que respeito muito. Aliás, aproveito para o felicitar publicamente pela sua nomeação para vice- -governador do Banco Central Europeu. É um grande economista, mas nesse campo tenho algumas dúvidas. Em Portugal, o sector bancário está altamente concentrado, as cinco maiores instituições bancárias representam mais de 80% dos activos bancários. É um nível de concentração que é raro ver na Europa. Se houver países com uma concentração superior, é um ou dois e não mais.

Mas há sempre tentativas de crescer: há uns anos, houve uma OPA do BCP sobre o BPI, uma tentativa do BPI de conseguir a fusão…

Gostava de desenvolver a sua pergunta mais a fundo. Esta crise foi um bom exemplo daquilo que aconteceu. Quem foi mais afectado no sector financeiro pela crise? As 25 maiores instituições bancárias internacionais que cresceram muito por aquisições. As instituições maiores são as que, no fundo, podem vir a ser até mais vulne- ráveis. E é de tal maneira assim que ho-je, em termos europeus, está a pôr-se em prática uma forma de super-visão do chamado risco sistémico das grandes organizações financeiras. Uma das razões de Portugal ter passado relativamente incólume em relação a esta crise no sector financeiro foi exactamente o facto de as instituições terem a dimensão adequada. Agora, o senhor governador tem razão porque ainda temos algumas instituições muito pequenas, que vão ter muita dificuldade em sobreviver num contexto de concorrência mais intensa no domínio europeu. A crise é forte, bateu duro, a concorrência vai aumentar porque o negócio está a diminuir. É natural que em relação a bancos de dimensão média/pequena possa haver novas concentrações...

Em relação aos grandes bancos como o BCP e o BPI, acredita que não se voltará a falar de fusões?

As concentrações sempre podem acontecer, nada as impede. O que me parece é que a lógica, quer em termos de viabilidade económica, quer em termos do risco do sector bancário, não aconselha a que haja a partir de uma certa dimensão maiores concentrações. E tem de haver alguma concorrência em Portugal, que é um país pequeno. Quem ganha com a concorrência, todos sa-bem quem é: são, naturalmente, os clientes dos bancos.

Adquirir o BCP é uma coisa que está completamente fora dos horizontes do BES?

O BCP é um banco por quem temos a maior consideração, ainda é o maior banco privado português em termos de dimensão. O BES já é maior em termos de capitalização bolsista, somos o quinto da Penín-sula Ibérica e o maior em Portugal. Mas o BCP já tem uma dimensão muito grande em Portugal. E julgo que foi a dimensão do BCP que o levou a ter de sair para fora das nossas fronteiras, para países e mercados completamente diferentes, alguns até com muito pouca afinidade com o nosso país. É o caso da Polónia, da Turquia, da Grécia. O BCP hoje tem uma dimensão tal que qualquer fusão com outro banco iria provocar um esforço colossal de racionalização.

Seria um erro a fusão de um banco com o BCP?

O BCP tem praticamente mil balcões, o Banco Espírito Santo tem 700. Nós, com os nossos 700, cobrimos 95% do poder de compra em termos das municipalidades portuguesas. O BCP cobre ainda mais. Se houvesse uma fusão destas duas instituições, teríamos necessariamente de encerrar balcões e despedir pessoas. Ora, isso é tudo o que não se deve fazer nesta altura. Não só pela crise, como também pelos encargos que iria levantar, em termos dos fundos de pensões, que hoje já representam um peso considerável para o sistema bancário.

Como são as relações do BES com a Caixa Geral de Depósitos? No caso recente da Cimpor estiveram em campos opostos: o BES assessorou a CSN e o banco do Estado fez um acordo com a Votorantim...

Não teci nenhuma consideração sobre a intervenção da Caixa. Temos relações institucionais muitíssimo boas, não só na Associação Portuguesa de Bancos, mas também relações tradicionais, e temos até alguns desenvolvimentos conjugados com a Caixa, como, por exemplo, em Espanha: colocamos produtos nossos na rede espanhola da Caixa Geral de Depósitos. E temos colaborações a diversos níveis em transacções financeiras no mercado nacional e internacional. Quando a Caixa se pronunciou por um apoio a um concorrente do nosso cliente brasileiro em relação à Cimpor, nós não podemos estabelecer nenhum juízo de valor. Acredito que a Caixa fez o seu melhor, porque julgo que procurou defender os interesses dos seus clientes brasileiros, por um lado, mas também os accionistas da Cimpor, que estavam de alguma forma acolhidos, eram clientes da Caixa. Acredito que a administração da Caixa, quando teve esses parâmetros em consideração, seguiu uma via diferente da do nosso grupo em relação ao grupo de Benjamin Steinbruch, a CSN. Infelizmente, o grupo Steinbruch CSN - julgo que quis moderar a proposta que fez - não foi tão longe quanto poderia. E foi uma pena, porque perdeu uma excelente oportunidade. A Cimpor é uma empresa extraordinária.

As participações que a Caixa tem em várias empresas são necessárias, ou há um excesso de intervenção do banco do Estado?

Os bancos portugueses, todos eles, participaram nas privatizações. Se não fossem os bancos, não teria provavelmente havido sequer privatizações. E houve a Caixa, houve o BES, houve o BCP, houve o próprio BPI, que tomaram participações em organizações. Umas ficaram, alguns bancos foram saindo, e a Caixa tem tendência para ser um banco estável em termos das parcerias que faz. Não sou conhecedor a fundo da situação das parcerias da Caixa ou das participações que detém. Sei que algumas se cruzam connosco no bom sentido, como o caso da Portugal Telecom. E ela foi tão importante que no fundo, embora não fosse necessário, contribuiu para impedir a oferta pública de aquisição sobre a Portugal Telecom. A OPA foi defendida porque a Portugal Telecom, se não tivesse sido protegida nessa altura, já tinha perdido a participação da célebre Vivo no Brasil, que é uma participação estratégica tão importante para a PT e para Portugal.

O BES é o maior accionista da PT, está satisfeito com o caminho que a PT tem seguido? No Brasil, a situação da Vivo mantém-se pouco clarificada nas relações com a Telefónica, que está a estreitar relações com a Telecom Italia. Defende uma alteração de estratégia da PT?

Em relação ao Brasil, sou totalmente intransigente. A Portugal Telecom, sem a participação na Vivo, perderá uma substância enorme, uma participação estratégica para a PT e para o País que não pode ser de forma alguma perdida, tem de ser protegida. O Brasil é a grande potência económica e financeira hoje emergente no mundo ocidental, não há outra. Os portugueses estão a envolver-se muito no Brasil, e bem. Portanto, tudo o que seja proteger a Portugal Telecom e a sua participação na Vivo deve ser feito.

E isso passa por deixar a Telefónica ir para os braços da Telecom Italia?

A Telefónica é uma empresa globalizante e tem tendência para as grandes concentrações. É um grande actor planetário em termos do seu posicionamento estratégico e tem tendência para adquirir outras empresas. A PT não tem essa vocação nem dimensão, temos de ser realistas. Agora, a Telefónica resolveu, nessa ambição de crescer, juntar-se à Telecom Italia, para, no fundo, ter um posicionamento mais importante no Brasil. A Telecom Italia também está no Brasil, e estão criadas algumas indefinições que têm de ser resolvidas, quer pela autoridade de regulação brasileira quer pelo Governo italiano, e que nos ultrapassam.

Nesse caso da Telefónica e da necessidade que tem de crescer adquirindo, teme que possa existir uma OPA sobre a PT?

No dia em que a golden share deixar de existir, o risco de uma OPA sobre a PT é fortíssimo. E aí o fundamental é que os accionistas da PT, os accionistas portugueses da PT, se mantenham unidos e sólidos na sua estratégia de defesa do interesse…

E que o Estado mantenha a golden share?

A golden share, julgo que vai acabar, indiscutivelmente, porque isso hoje é contra as regras da União Europeia. O processo está a evoluir, e acredito que isso é inexorável. Agora, o Estado tem uma participação, através da Caixa, e essa participação é que é importante que se mantenha e que possa vir a reforçar-se, eventualmente com as de outros grupos portugueses.

Como é que o presidente do BES, o maior accionista da Portugal Telecom, observou a polémica à volta do negócio PT/TVI, das audições que se seguiram na Comissão de Ética e que agora vão seguir-se na Comissão de Inquérito?

Não estou directamente no conselho da PT. Temos dois administradores em 22. Portanto, temos lá dois membros do BES não executivos, e seguimos muito de perto tudo o que acontece na PT. Também devo dizer que, desde a privatização, a PT teve como ambição um dia estar ligada a uma televisão…

Conhecia o negócio?

Deixe-me falar: o que sei é o que está nos genes da PT há muitos anos. E se perguntar ao primeiro presidente, logo após a privatização, que julgo que foi o Francisco Murteira Nabo, ele é capaz de lhe confirmar isto. A PT desde sempre esteve a olhar para a televisão.

Então, mesmo com a polémica política, o negócio devia ter sido feito?

Vocês são homens dos media, sabem o que significa o TMT [tecnologia, media e telecomunicações]. O TMT hoje é um conceito que está a ser posto em prática no mundo inteiro. Portanto, a PT tinha de estar ligada a uma televisão, por maioria de razão a partir do momento em que se separou da PTM, hoje ZON. Aliás, a PT foi imediatamente desenvolver o MEO e precisa de conteúdos! Há muitos anos que a PT olha para as televisões, e devo dizer que aqui no nosso país já falou praticamente com todas! Não posso deixar de referir que para mim não é surpresa esse interesse que apareceu de repente pela TVI, uma vez que os espanhóis quiseram pôr a posição à venda. Mas o que não gostei naturalmente foi de ver a evolução que esta situação provocou. Não acompanhei o assunto directamente, mas soube muito cedo, pelos nossos administradores presentes no conselho de administração, que na discussão em que foi posta a hipótese de somar uma participação na TVI, já no final da agenda desse dia do conselho, o presidente do conselho foi determinante ao dizer que a operação não se devia fazer. Fui informado pelos nossos administradores, porque é que, naquela altura, era uma oportunidade péssima para se poder fazer isso, e se veio a configurar depois nesta situação que todos conhecem. Não conheço mais detalhes da operação.

Um dos grandes temas do debate político são os prémios atribuídos a gestores de empresas em que o Estado tem uma participação. Acha excessivos os prémios de Zeinal Bava, da PT, ou de António Mexia, da EDP?

Esta crise bateu muito forte, criou estragos nas economias de uma maneira transversal. Não só em Portugal, na Europa toda, nos Estados Unidos. Criou um desemprego nunca visto. Poderemos hoje ter a certeza de que esta foi a crise económica mais forte dos últimos cem anos, mais do que a de 1929. Todos os mercados estão em estado de choque. Este problema das participações nos lucros e dos bónus está a ser discutido em toda a parte. O nosso país é pequeno, há muito poucas grandes empresas. As pessoas que estão à frente dessas empresas têm, de facto, de ter estratégias correctas, execução correcta dessas estratégias e, ainda por cima, de procurar levar essas empresas para o mundo exterior, em concorrência com outras empresas muito maiores que pagam muito mais em relação ao que elas ganham em Portugal. Aquilo que pode parecer escandaloso em Portugal não é escandaloso em muitos outros países europeus. Mas hoje está tudo a ser contestado. Por isso, nós temos de pensar que, como esta crise foi muito má em termos do problema que criou às famílias, às pessoas, [é natural que] este problema venha à tona e esteja a ser discutido publicamente e que crie de facto problemas complicados.

O BES, por exemplo, está a estudar a redução de 5% para 2% do prémio anual que paga aos seus administradores...

O BES nunca foi, do sistema bancário, aquele que pagou mais. Nós, aliás, éramos o terceiro em termos dos níveis de pagamentos. O que aconteceu foi que, de facto, os resultados do BES foram resistentes e continuaram a crescer. De repente somos hoje no sistema bancário aqueles que pagamos mais, só porque tivemos mais resultados. Aquilo que as empresas são capazes de criar em termos de valor para os accionistas - e, no caso que estava a referir das empresas públicas, para o Estado também - tem de ser tido em conta e é comparável com as grandes organiza-ções internacionais. Compreendo a sensibilidade do problema, que é agudo e está a ser discutido em toda a parte na Europa e nos EUA. Provavelmente, vai chegar-se a uma solução de bom senso. Agora, estas remunerações que estão a ser pagas já foram aprovadas em anos anteriores, e julgo que, no caso da EDP, houve uma concentração pelo facto de a parte diferida cair também neste exercício de 2009.

Entende, então, que esses prémios deviam adequar-se melhor aos tempos que vivemos?

Temos de ter essa consciência, sem dúvida.

A tributação sobre os bónus e os prémios da banca é a partir deste Orçamento mais gravosa para quem trabalha na banca. Devia ser aplicada às empresas em que o Estado tem participações? A banca não gostou de ser discriminada negativamente.

O que acontece é que o Estado é concorrente. Nós, quando estamos no mercado, também concorremos com instituições do Estado e, portanto, o Estado, se quiser contratar os melhores elementos para as suas empresas, vai ter de ter isso em consideração. Mas é uma decisão do accionista Estado.

Estamos numa crise profunda e é preciso corrigir rapidamente o défice. Portanto, o Estado está a diminuir a intensidade do apoio à economia. Acha que é cedo de mais para travar essas ajudas do Estado à economia real?

Vou falar da situação portuguesa: nós tivemos aqui um período, de 2005 a 2008, em que o Governo fez um esforço positivo e construtivo ao trazer novamente o défice de Portugal para baixo dos 3%. O drama foi 2009, que tem que ver com uma queda abrupta da receita fiscal. É claro que a despesa pública é importantíssima e já está a ser equacionada dentro do PEC [Programa de Estabilidade e Crescimento]. Mas a receita teve uma queda abrupta e não foi o senhor ministro das Finanças que se enganou! Ele, aliás, disse: "Posso enganar-me, mas não engano ninguém." Os nossos economistas - que não são políticos - dentro do banco mantiveram aquele objectivo do défice de 2009 em 5,9% até muito tarde, eu diria até Setembro! E depois estavam de acordo que não deveria ser superior a 8%! Surpreendeu toda a gente quando vimos o défice acima dos 9%, foi terrível.

A crise explica tudo?

Explica uma boa parte. Agora, não há dúvida de que os Estados europeus foram impulsionados no aumento da despesa pública e da intervenção na economia pela própria Comissão Europeia! Não nos podemos esquecer de que a CE, no auge da crise, afirmava sistematicamente que os Estados tinham de intervir para relançar a economia. E a intervenção acabou no agravamento brutal dos défices dos países europeus. E agora, de repente, toda a gente acorda com um nível de endividamento demasiado alto, querem trazer já esse nível de endividamento até 2013 para níveis mais compatíveis. Logo, por curiosidade, os franceses disseram que só em 2014!

Acredita que, em 2013, nós atingimos os objectivos?

Já manifestei isso publicamente várias vezes, acredito muito neste ministro das Finanças. Aliás, já deu provas, de 2005 a 2008. E se ele estabeleceu um programa para estarmos em 2013 com aquele nível de défice, é porque acredita que é possível

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MensagemAssunto: PEC: "Em 2013 vamos estar pior do que hoje"   Sex Abr 16, 2010 5:24 pm

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PEC: "Em 2013 vamos estar pior do que hoje"

por EVA CABRAL
Hoje


Diogo Leite Campos, vice-presidente de Passos Coelho, é liminar na recusa de cortes nas deduções. E diz que há alternativas, como "ir buscar aos tribunais receitas que o Estado não cobra". O fiscalista critica o PEC, "que vai ser pago pela classe média e média baixa" e denuncia a técnica do actual Governo: "Vamos pensar o hoje, o amanhã logo se verá".


O PSD tem dito que a política fiscal está a matar a classe média. Porquê?

Temos uma carga fiscal que está acima da média da UE para um país que é particularmente pobre, e que precisa de uma carga fiscal mais baixa, não só para o bem-estar das famílias como para a competitividade das empresas. E não é só a carga fiscal que é nociva: as demoras da administração a liquidar impostos e as liquidações em massa, completamente ilegais, que levam a que a Administração perca cerca de 60% dos processos em tribunal, também são negativas.

No ano passado, a arrecadação do IVA teve um mergulho de mais de 19%. Ou seja, a evasão pode ter subido muito. É o reverso da política fiscal que temos?

Nos anos oitenta, falando com o ministro das Finanças da altura, quando ele se queixava da falta de receita, dizia-lhe que aumentasse o imposto de transacções sobre o uísque, que era a medida comum. Respondia-me que não podia, pois por cada ponto de aumento a evasão fiscal aumentava dois.

O que pressiona a evasão fiscal?

A necessidade que as famílias e as empresas têm de se financiarem através do não pagamento de impostos. É reprovável, mas é uma verdade. Depois, a falta de confiança dos agentes no futuro político e económico do País. Não acreditam, não têm confiança, não consomem, e fazem evasão fiscal. Finalmente, um terceiro aspecto: nos últimos anos, o Governo financiou-se não só pela receita dos impostos como também pela cobrança da dívida executiva que estava nas repartições de finanças. Isso representou uma parcela significativa das receitas do Estado que em 2009 estava esgotada.

Acabou por ser uma receita extraordinária?

Sem dúvida. É por isso que eu digo que hoje, com um bocado de imaginação, escusávamos de estar a sobrecarregar as famílias e as empresas com os impostos e podíamos ir buscar aos tribunais receitas que lá estão paradas e que o Estado não cobra. Não tenho números e ninguém tem, mas estou convencido de que estão parados nos tribunais treze ou catorze mil milhões de euros de impostos. Se fosse possível resolver esses casos em dois ou três anos, o Estado iria cobrar em princípio cerca de seis mil milhões de euros e isto já era uma balão de oxigénio significativo. Mas tradicionalmente é mais fácil subir impostos do que ir cobrar os impostos nos tribunais ou nas repartições de finanças.

Portugal tem assimetrias de distribuição de rendimentos e sete escalões de IRS. Deve mudar?

A mim choca-me que os mais pobres, os mais desfavorecidos, sejam sobrecarregados com taxas de impostos elevadíssimos sobre rendimentos que em nenhum país europeu são tributáveis. Nas classes de mais altos rendimentos trata- -se do mesmo modo quem tem por mês ou dez mil euros ou um milhão. É perfeitamente injusto. No máximo, devíamos ter quatro taxas de IRS. A introdução de alguma justiça fiscal no IRS até pode implicar a perda de receitas. Mas tem de se fazer um esforço nesse sentido, e não confundir a classe média com a classe alta, que é tratada como se de média se tratasse.

Como vê a tributação das mais-valias das acções?

Os países estão em estreito contacto económico e financeiro e nenhum se pode dar ao luxo de tributar mais do que o vizinho. Todos tentam que a sua economia, através do factor fiscal, seja competitiva. Em matéria de tributação do capital, quer nos custe quer não, temos de ser competitivos. Diria que sou pela tributação das mais--valias da bolsa, desde que me provem que essa tributação mantém a economia portuguesa competitiva, o que não foi feito. Se não se acautelar esse factor, a tributação leva à fuga de capitais, ao desemprego e à pobreza.

É necessário realismo fiscal?

Não podemos continuar a apresentar as necessidades do Estado à vontade e depois criar e cobrar impostos. Temos primeiro de ver o imposto que podemos cobrar, atendendo à situação económica, financeira e social do País, e só depois adaptar as necessidades a esses impostos. Ou seja, continuamos a sangrar a população e as empresas em benefício de objectivos fixados muitas vezes com total indiferença pela classe política.

O PEC é uma carta de intenções. Considera-o credível?

Considero o PEC credível, por acreditar na honestidade e na competência técnica das pessoas que o fizeram. Mas se olhar só para o documento não considero muito credível, pois não pressupõe qualquer política de desenvolvimento, apesar de assentar no crescimento do PIB como que por milagre. E sobre a justiça social deixa muito a desejar, pois o PEC é para ser largamente pago pela classe média e média baixa. O PEC não vai levar o País a lado nenhum, e em 2013 vamos estar pior do que hoje.

O OE de 2010 prevê reduzir o défice em um ponto percentual. Chega?

É a técnica do actual Governo: vamos pensar o hoje, o amanhã logo se verá. Pessimistas quanto ao presente e optimistas quanto ao futuro.

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MensagemAssunto: Alberto João Jardim - «O PSD não tem juízo!»   Sab Abr 17, 2010 9:37 pm

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Alberto João Jardim - «O PSD não tem juízo!»

por JOÃO CÉU E SILVA, fotografia GUSTAVO BOM Global/Imagens


Quando se explica ao presidente do Governo Regional da Madeira os temas da entrevista, a resposta corta qualquer dúvida pela raiz: «Pergunte o que quiser.»

É o género de afirmação que o entrevistador gosta de ouvir e de, durante o diálogo, ver como é que Jardim reage às questões mais inesperadas. Umas vezes faz um breve silêncio para encaixar a pergunta, outras ajeita-se na cadeira e pesa as palavras e, quando acha que foi longe de mais e que pode haver uma suavização das suas palavras, aponta o dedo para o gravador e avisa: «Isto é para sair mesmo como eu disse.» Certo, senhor presidente, será feita a sua vontade e quem se sentir ofendido que reclame directamente para a Quinta da Vigia.

DA VARANDA DO PALÁCIO vê-se o «jardim» que Alberto João, o eterno presidente do Governo Regional, controla há mais de três décadas. Chamam-lhe Madeira e também Pérola do Atlântico, tem hotéis por todo o lado, está furada por dezenas de túneis ligados a viadutos como um queijo suíço e o povo vota sempre nele. Por isso ninguém lhe faz frente na ilha, não teme o Governo da República e aprecia brincar com os primeiros-ministros e presidentes da República que os continentais elegem. Todos sabem que o seu PSD tem o pé bem firme em cada metro quadrado da ilha e que nada se faz sem a sua aprovação, mas ninguém lhe encontra os escândalos que envolvem a classe política portuguesa nem lhe apontam um enriquecimento por favorecer interesses.

Este fim-de-semana, Jardim recebe José Sócrates, o seu mais recente amigo, que se desloca à região para participar da Festa da Flor, em solidariedade com a tragédia que se abateu em Fevereiro sobre a Madeira. Na semana passada falhou o congresso que entronizava o novo presidente social-democrata. São dois passos da última cartada que joga antes de se reformar de uma vida em grande parte dedicada à política, desde que em Maio de 1974 foi um dos fundadores do PPD.

Administra a Madeira a partir de um palácio onde os turistas entram sem pedir autorização, tiram fotografias para recordar o momento e podem abordar Alberto João Jardim ao cruzarem-se com ele. Faz questão de ter o portão sempre aberto e não esconde o que lhe vai na alma logo na sala onde se aguarda pela hora de subir ao seu gabinete. Nessa sala estão posters, cartões e fotografias espalhados pela parede que entretêm a breve espera.

O primeiro que chama a atenção é um postal de boas-festas que tem a assinatura de José Sócrates. Seguem-se outros cartões, com frases: «Tenho sempre razão»; «Vida longa aos inimigos para que assistam de pé à minha vitória»; «Porquê questionar? Deixem-me seguir o meu próprio caminho» ou «Mais tarde ou mais cedo os visionários provaram ser verdadeiros realistas».

Esta última máxima é do antigo chanceler alemão Helmut Kohl, as anteriores são ditados populares, frases que interpretam o instinto político matador e os ideários de governabilidade de João Jardim, também expostos em fotografias inesperadas como uma em que surge com a bandeira do Partido Comunista Português nas mãos. No final do encontro, enquanto se passeia pelos jardins do palácio, dirá uma frase que sustenta a sua orientação económica: «Salazar defendia o equilíbrio orçamental. Viu-se o resultado em Abril de 1974.»

Alberto João Jardim acabou de almoçar mas não lhe falta apetite para a sobremesa. Coloca na ementa a «inexistente» oposição madeirense, o velho e o novo PSD de Pedro Passos Coelho, o apoio à reeleição de Cavaco Silva e a candidatura de Manuel Alegre, entre outras questões polémicas. O presidente do Governo Regional vai provando as sugestões do cardápio mas acaba por degustar com mais prazer os pratos fortes e polémicos. De lado fica a obstinação de Sócrates em legalizar o casamento gay com o argumento de que não vai estragar a convergência que neste momento é necessária para discutir a questão mas evita considerá-la uma garotice porque, diz, «cada um tem as suas ideias e valores».

Quando se lhe faz a pergunta que está dentro da cabeça de todos os portugueses – se alguma vez alguém o vai meter na ordem? – a resposta é desabrida: «Espero que Nosso Senhor Jesus Cristo, quando eu chegar ao céu. Porque senão vai ser uma marabunta lá para cima.»

Sai da tragédia que ocorreu na Madeira em Fevereiro com um novo fôlego. Porquê?

Sim, reconheço que a adrenalina subiu porque é um desafio enorme que tenho de vencer. Primeiro pelo imprevisto, depois pela dimensão do que é preciso fazer. Não é por acaso que os médicos me dizem que a minha melhor forma física é quando faço eleições!

Naqueles dias estava mais tenso e preocupado do que o normal?

Não era para menos.

Foi um dos momentos da sua vida mais...

Mais duros de enfrentar. É uma ocasião em que perdemos o direito a chorar ou lamentar, temos de demonstrar força, autoridade, capacidade e velocidade de decisão. Nessas alturas, se queremos queixar-nos é com nós próprios e junto da almofada.

Neste novo presidente pós-temporal também se nota uma alteração em relação ao primeiro-ministro da República. É para durar?

Não há um novo presidente pós-temporal. Há uma pessoa que, conforme as responsabilidades que lhe estão atribuídas, tem obrigação de actuar em função das circunstâncias novas sem pôr de parte a ideologia e os valores em que acredito. Há, de facto, uma convergência com o primeiro-ministro nos esforços para reabilitar a Madeira e, também, em tudo aquilo em que eu possa ajudar o Estado a não ser perturbado em termos de comprometer o auxílio à Madeira.

Mas aceitou um entendimento diferente do que era habitual?

Perante a disponibilidade que o primeiro-ministro revelou seria absolutamente imoral da minha parte não saber corresponder.

Até disse: «Serei aliado do engenheiro Sócrates nem que seja contra o PSD.»

Não era a primeira vez. A minha concepção da vida política define-se do seguinte modo: a Madeira é o meu partido e Portugal a minha pátria. Repare que não digo Estado ou país, digo pátria. A Madeira é o meu partido e Portugal a minha pátria. Os partidos políticos em si são instrumentos para eu concretizar o que entendo dever ser o meu serviço à Madeira e à pátria, a partir daqui é só tirar as consequências.

Não é a primeira vez que está em desacordo com o PSD!

Estar em desacordo não significa conspirar. É a coisa mais natural no mundo democrático haver pessoas que são do topo do partido e discordam do líder ou da direcção política nacional. Isto não tem nada de dramático, só em Portugal é que se fazem dramas com estas pequenas coisas. Quando Cavaco Silva escolheu Freitas do Amaral para candidato a Presidente da República eu apoiei Mário Soares por razões que então dei; quando Cavaco apoiou Soares eu não apoiei ninguém e não votei em Soares. Tem havido comportamentos autónomos porque o partido [na Madeira] é autónomo nos estatutos do PSD e as decisões que visem a região são tomadas autonomamente. Não estou a defender partidos regionais – obviamente uma constituição democrática não proíbe partidos de qualquer tipo ou é indecorosa –, nem preciso de criar um assim ou que tenha a sede em Lisboa.

Foi pelo interesse da Madeira que o vimos fazer as pazes com José Sócrates?

Não se trata de fazer pazes, até porque isso dá uma impressão de guerras entre comadres. O que se passou foi uma convergência no interesse nacional, que era recuperar do que se tinha passado numa das parcelas do seu território.

Mas é uma convergência para continuar?

É uma convergência para continuar desde que ninguém quebre os seus compromissos.

José Sócrates terá em si um companheiro durante esta legislatura?

Sim, considero que seria altamente negativo para a Madeira haver instabilidade governativa na República.

Considera, então, que esta legislatura deve ir até ao fim?

Vamos aguardar pelas eleições presidenciais e, também, ver se a situação do país evolui no sentido positivo. Porque, se daqui a um ano estivermos ainda pior do que hoje, o pragmatismo e sobretudo o patriotismo obrigam-nos a uma nova reflexão.

Até porque o poder em Portugal costuma alternar entre o PS e o PSD.
Desculpe, a Madeira é Portugal e aqui não alterna.

É a excepção?

Essa história de se dizer que a alternância é uma regra da democracia não é bem assim, o que é regra da democracia é que se expresse a vontade do povo livremente.

Deixe-me refazer a pergunta…

Não, a pergunta é perfeita! Muitas vezes tem-se acusado a Madeira de défice democrático porque até agora não houve alternância governativa, mas essa é a prova de que a democracia não reside aí senão fazia-se isso por decreto e não era preciso gastar dinheiro em eleições! A democracia reside no povo escolher em liberdade.

Acha que este PSD teria capacidade, no continente, de substituir o actual Governo PS?

(Com esta pergunta confirma-se que a digestão do almoço não perturba Alberto João Jardim. Imediatamente contrapõe que a entrevista poderia ser publicada após o congresso que iria realizar-se no fim-de-semana passado mas que as suas declarações eram feitas por antecipação. Portanto, «se eu dissesse que tem capacidade estava a cair em demagogia». Mas, salvaguarda: «Se eu dissesse que não tinha capacidade também estava a ter má vontade com o rapaz.» Diz-se que com a sua experiência política e o conhecimento que tem de Passos Coelho já terá noção se este PSD poderá ou não ser capaz de ser alternativa no continente. Só então responde.)
Poderei ter sentimentos pessoais para avaliar uma determinada situação, mas como político direi de uma maneira já objectiva que é cedo para poder ter um juízo.

Não foi ao congresso do PSD porque não se justificava?

O anterior era mais importante porque fui um dos que o defenderam em nome da discussão sobre o partido. No entanto, eles foram para lá e nem discutiram coisa nenhuma. Andaram em campanha eleitoral e depois é maria-vai-com-as-outras e já vejo tudo no mesmo cesto. Eu não entro nisso e não quero fazer parte desse espectáculo.

Deu o seu apoio a Paulo Rangel, que foi escolhido por Passos Coelho para ser o cabeça de lista ao Conselho Nacional. Gostou?

Não tenho de gostar ou deixar de gostar! São feitios que eu não tenho.

Paulo Rangel seria o seu homem no PSD?

Desculpe, mas homens não tenho e mulheres só uma, por isso não estou ligado por qualquer vínculo a personalidades do PSD.

Não estranhou que Aguiar-Branco tivesse aceite fazer revisão do programa do PSD?

Eu não percebo o que é rever o programa do PSD. É um partido social-democrata de raiz social cristã que o distingue dos outros partidos da Internacional Socialista cuja matriz é a luta de classes do século XIX. Não estou a ver, portanto, o que é que vão mudar agora no programa do PSD. Serei um dos que não admitirão que se toque nos valores e princípios que trouxeram à fundação, à existência e à vida do PSD em Portugal. Se há intenção de transformar o PSD num partido liberal, pode contar com a minha guerra.

A sua única sugestão é «deixe-o ficar como está»?

Aceito que se veja em função da evolução tecnológica porque é cada vez mais acelerada, ou seja, uma actualização e não uma revisão do programa. As tecnologias evoluíram muito mas as ideologias não tiveram qualquer evolução, pelo contrário, o reaparecimento do neoliberalismo deu o resultado que estamos todos a pagar agora. Os orçamentistas ainda nem se penitenciaram ou perceberam o que têm de fazer para que o mundo recupere e, portanto, se não surgiu nada depois da fundação do PSD que ideologicamente permita contestar alguma coisa no plano dos valores e princípios do partido, não vejo razão para se lhes tocar porque são mais do que actuais! O que apareceu depois é uma autêntica chachada.

No seu íntimo receia que haja uma deriva de liberalismo na revisão?

No meu íntimo já assisti a tudo em Portugal. A um povo inteiro a andar nas ruas contra o primeiro-ministro e a seguir reelegê-lo e a outras coisas mais fantásticas e absurdas. Depois de Durão Barroso ir para Bruxelas assisti a uma vida kafkiana dentro do PSD, parece que só me falta ver um porco andar de bicicleta!

Quanto tempo de liderança dá a Pedro Passos Coelho?

Aquele tempo que a capacidade dele merecer.

Muito raramente tem estado a favor das lideranças do PSD. Como será desta vez?

Uma vez eleito um líder nunca vi a partir da Madeira qualquer conspiração para derrubar os dirigentes nacionais, mesmo às vezes discordando, e estive sempre ao lado deles mesmo quando foram derrotados por concorrentes ao cargo. Nunca me viram meter uma faca nas costas do partido a nível nacional! Discordar é uma coisa, trair é outra. O que se tem passado é: o partido na Madeira é autónomo e, como disse, para mim o que conta é a Madeira e a pátria, os partidos são um instrumento. E quando entendo discordar do partido discordo mesmo, mas não traio.

Manuela Ferreira Leite foi uma excepção na relação consigo?

Fiquei-lhe devedor de duas coisas. Teve a coragem de chamar mentirosas às pessoas que deturpavam a realidade madeirense por razões políticas, pessoais ou até do foro psiquiátrico. Em segundo lugar, deu o grande exemplo de ética política ao perder as eleições porque se atreveu a não dizer apenas aquilo que o povo quer ouvir.

Por que razão não conseguiu aguentar o PSD?

Porque o partido não tem juízo! Há dois anos e meio fui a Lisboa quando eram três os concorrentes: Santana, Ferreira Leite e o Passos Coelho. E disse-lhes: «Pego nisto, faço uma equipa com todas as tendências e ganho ao engenheiro Sócrates. Serão eleições duras e sem politicamente correctos.» A resposta foi se quisesse que me candidatasse e passasse a ser o quarto candidato porque andarem à pancadaria uns com os outros é que era a riqueza do partido. Como não estava para aturar esta gente, peguei na malinha e voltei à Madeira. Passou-se exactamente o mesmo agora com Marcelo Rebelo de Sousa e deram-lhe com os pés porque queriam era mais um à pancada!

Está-se longe do suicídio colectivo apregoado por Pinto Balsemão?

Não me peça para fazer futurologia.

Mesmo com a sua experiência política?

Vou ser franco: com a minha experiência, aquilo que receio, embora esteja atenuado porque também se verifica nos outros partidos, é que o efeito da mediocrização que se deu em Portugal no interior de todos os partidos, sem excepção, possa ter reflexo na estabilidade de todos esses mesmos partidos. Foi uma mediocridade que resultou do progresso do país e que fez que as pessoas se sintam mais aliciadas por outras actividades profissionais que não a política. Também o facto de as pessoas se sentirem vulneráveis na praça pública perante um certo tipo de jornalismo – não digo todo – que se fez e faz em Portugal, através do qual de um momento para o outro, estando inocentes, vêem-se acusadas das coisas mais inqualificáveis. E se há pessoas como eu que têm feitio para andar à porrada, há outras que não o têm. Se os partidos se mediocrizaram, fatalmente a democracia mediocrizou-se e o esforço de qualquer líder nacional terá de ser no sentido de ir buscar os melhores quadros para o bem do país e da qualidade da vida política.

É o chamado rejuvenescimento do PSD, uma nova geração como Passos Coelho, Sócrates ou Portas?

Que eu saiba, eles não são assim tão novos! Esta coisa de chamar renovação geracional aos cinquentões é um pedacito caricato.

(João Jardim aproveita para falar da sua renovação geracional: «Façam como eu fiz no meu segundo governo. Fui buscar gente com vinte e tal anos e todos eles estão na política activa.» Para o presidente, a reforma geracional é uma «panaceia que se arranjou agora» e que significa apenas «saneiem os velhos». É, no seu entender, mais uma forma de se desviar as atenções e dizer que o que conta é a idade e não a qualidade: «É mais um modo de enganar os portugueses» porque «há gente de qualidade muito nova como há gente tonta bastante nova». Ou seja, diz, «é mais um bluff para empurrar o país para a massificação e retirar qualidade à vida política»)

Nem o seu governo precisa de ser rejuvenescido?

Os meus governos têm durado três mandatos com a mesma equipa mas obedeço sempre à regra de um terço de juventude e caras novas. Não há reforma geracional se a par da nova geração não estiver a experiência e a qualidade.

Depois deste temporal, considera que ainda tem muito para dar à Madeira?

Costumo dizer que essas coisas pertencem a Deus – porque sou crente – e ao povo madeirense.

Antes admitira cessar funções em 2011, mas agora refere uma solução intermédia. Qual é?

Essa era a minha hipótese anterior porque antes disto ter sucedido estava tudo encaminhado para já não concorrer nem à direcção do partido nem a presidente do governo. Entretanto, deu-se o que se deu e seria vergonhoso da minha parte, com tanto drama que havia aí, aparecer a dizer «agora amanhem-se que eu daqui a um ano vou-me embora». Não, essa é a altura em que ninguém pode dizer «eu vou abandonar» mas sim de afirmar «atenção, que eu não decidi abandonar!»

Como será então?

As eleições regionais são em Outubro de 2011, temos ano e meio para eu e o partido reflectirmos. Como se diz na Madeira, nada de pôr o carro à frente dos bois. Mas, para já, a palavra sair ou abandonar…

Estão riscadas?

Estão riscadas do vocabulário, até porque há muitas maneiras de estar.

O que quer dizer com uma solução intermédia?

Já disse tudo: há muitas maneiras de estar.

Explique a quem conhece menos a política madeirense…

A Madeira é um sistema parlamentar, como no continente...

Portanto, manter-se-á como deputado?

Isso depois vê-se.

Mas é uma opção?

Há várias hipóteses. Estive a conceber várias hipóteses porque eu raciocino sempre de uma forma militar – opção A, B, C e D – e cheguei à conclusão de que o ideal seria fazer o congresso regional depois da Páscoa de 2011, a cinco meses de eleições regionais, onde será eleita a comissão política que terá pela frente escolher o governo que sairá das eleições de 2011 se o PSD ganhar na Madeira. Terá também de escolher os autarcas, porque há muitos a atingir o final de mandato permitido por lei, e candidatos a outras eleições.

(João Jardim gosta de personalizar a entrevista e ao questioná-lo se tem dúvidas sobre o PSD continuar a ganhar na Madeira faz a seguinte tirada: «Como é que pode não ter dúvidas se não é eleitor na Madeira?» Respondo que a tendência de todas as eleições é no sentido do reforço dos resultados mas a resposta é: «Se eu raciocinasse assim tornava-me um preguiçoso.» Continua o vaivém e digo-lhe que vê-se que aproveitou bem o tempo em que foi oficial de Acção Psicológica na vida militar: «Olhe, eu saí do curso de Direito sabendo pouco e mal, com as teorias todas do senhor tal e do senhor tal que na vida prática valiam zero. De facto devo à minha vida militar ter aprendido muitas coisas.»)

Quem vai ser o seu delfim?

Por definição, enquanto não houver um novo presidente da comissão política regional, Alberto João Jardim é o delfim do Alberto João Jardim. É preciso ver que não sou eu quem vai designar o sucessor, são os militantes do PSD. Foi o primeiro sítio no país onde se fez isto, o voto universal, individual e secreto de todos os militantes. Não me digam que um partido que já está no poder na Madeira desde 1976 ao fim de 34 anos não tem maturidade suficiente para fazer uma mudança de líder na maior paz do mundo.

E a sociedade madeirense vai aceitar essa mudança de líder?

Aí é que está a grande questão. Não é por acaso que me farto de dizer no partido – e era bom que o PSD a nível nacional primeiro se convencesse disto – que quem vota não são os filiados do partido, que elegem direcções partidárias, mas sim o povo soberano. Até podem pintar de ouro o líder que quiserem escolher, quem vai decidir é o povo e ainda bem que assim é.

E o povo vai pedir-lhe opinião ao confrontar-se com a sucessão?

Se o povo me pedir opinião eu terei de ser, porque se trata de umas eleições, solidário com o meu partido. Agora, o povo que me conhece muito bem – até por um simples trejeito de beiços – vai ver se estou convencido do que estou a dizer ou não. O povo vai acreditar no que eu estou dizendo ou não vai acreditar no que eu estou dizendo.

Livre da Madeira, ainda o teremos como candidato a presidente da República?

Eu conheço o princípio de Peter, o que muita gente em Portugal não sabe! Para mim isso é um assunto resolvido! O professor Cavaco deve candidatar-se e eu vou apoiá-lo. Nem sequer me preocupo a pensar nisso. Algumas vezes discordei dele enquanto primeiro-ministro, mas como Presidente só uma vez, quando promulgou a anterior Lei das Finanças Regionais, que era francamente inconstitucional. Não sei se a promulgou em nome daquilo que na altura se chamava de forma engraçadíssima a «cooperação estratégica». De resto, nunca o tive por pessoa irresponsável, pelo contrário, se há pedra que não se lhe pode atirar é a de falta de responsabilidade. E não acredito que, com o sentido de responsabilidade que tem, por vontade própria, alguma vez se recusasse à recandidatura. Não me passa sequer pela cabeça.

Já se aborreceu muito com ele, até lhe chamou senhor Silva.

Desculpe, no avião ninguém o trata por doutor nem por engenheiro. As hospedeiras dizem a toda a gente «senhor tal». Eu aprendi com as hospedeiras.

A sua forma de ser traz-lhe problemas?

Eu acarretei sobre mim ódios históricos em certos sectores da colónia britânica da Madeira. Havendo dois jornais diários na Madeira e um sendo propriedade de empresários britânicos, esse diário bate-me todos os dias desde que em Outubro de 1974 eu assumi a direcção do outro, o Jornal da Madeira, do qual só saí em 1978 para tomar posse como presidente do governo.

Não deve ter gostado da mentira do 1 de Abril que o Diário de Notícias da Madeira fez?

Gostei mais da do Jornal da Madeira, que dizia que o PS já estava a preparar as listas e que o facto de deixar de fora jornalistas e empresários que nos apoiam tinha dado resultado. Vinha lá o nome de todos os jornalistas que eram contra o PSD e que iam fazer parte das listas do PS. E acrescentava que os ingleses, os seus proprietários, só não faziam parte porque cidadãos estrangeiros não podem concorrer às eleições regionais. Penso que esta tem mais piada do que estar há vinte anos a criticar eu usar a residência oficial a que tenho direito no Porto Santo só porque eles, coitados, não têm residência no Porto Santo. A inveja…

O Diário de Notícias da Madeira acaba por ser a sua Manuela Moura Guedes?

Desculpe, mas ela tem mais qualidade. Eu diria até outra coisa, e aí é um elogio que lhes faço porque também sei ver as qualidades dos adversários: a oposição da Madeira é tão medíocre que se o Diário não a fizesse todos os dias, o povo podia dizer que não havia oposição na Madeira! Até porque é o jornal que dá o mote dos assuntos que a oposição depois levanta.

Até o seu «amigo» ministro Santos Silva reclamou sobre os apoios ao Jornal da Madeira.

Foi uma manobra do anterior governo socialista e uma tentativa de fechar toda a imprensa que não fosse da cor do PS. Um assunto, aliás, que hoje está em equação na vida pública portuguesa e não está esclarecido.

Vê-se que não esqueceu o seu tempo de jornalista!

É uma paixão. Tenho dois amores: a política e o jornalismo.

Ainda sonha voltar ao jornalismo?

Por amor de Deus!

Está vacinado contra jornalistas?

Adoro os jornalistas porque preciso de me pegar com eles.

A Festa da Flor serve para mostrar que Alberto João sabe tratar bem do seu jardim?

A floricultura não tem uma grande expressão mas é um sector de venda e de exportação em franca expansão e, como a Madeira é um destino turístico, temos de ter vários eventos programados. A Festa da Flor é um deles.

Como é que convenceu José Sócrates a vir à Festa da Flor?

Tenho muito prazer em que ele venha e compreendo o seu interesse porque vai fazer dois meses que aconteceu o temporal e o primeiro-ministro quererá ver o que é que estes tipos conseguiram fazer. Também o interpreto como um gesto de solidariedade para com o povo da Madeira e, julgo, que se o primeiro-ministro compreender como é que nós aqui trabalhamos também vai ajudar na Lei de Meios que o Governo vai apresentar à Assembleia da República para tratar especificamente da reconstrução na região autónoma.

Sentiram uma solidariedade inesperada do continente?

Não era inesperada, eu sempre disse que não havia um conflito entre a Madeira e o continente mas sim com certos sectores da comunicação social e da classe política.

Quanto mais longe estão do Funchal, mais as pessoas se queixam sobre a demora da recuperação. Porquê este atraso?

Passado o susto, há umas pessoas que se entretêm a reclamar porque antes já reclamavam por outra coisa qualquer. Compreendo que não é agradável estar na situação deles mas, em vez de me refugiar em justificações tontas, vou ser muito franco: a primeira coisa a fazer era limpar o Funchal porque é a primeira imagem da região autónoma. Logo que estava a ser concluída a limpeza do Funchal, foi desviada toda a maquinaria e pessoal para as outras zonas afectadas, e ainda não recebemos apoios do Estado nem da União Europeia.

Para além de encontrar petróleo, o que é que gostaria que acontecesse mais na Madeira?

Não encontrar petróleo! Porque iria servir para um confronto com o Governo da República quando chamasse a si os proventos. Na Madeira já há o petróleo branco porque tem muita água e dentro de cinquenta anos ela será mais cara que o petróleo.

Confissões políticas

«Não teria preconceito em ser primeiro-ministro de uma coligação com o PCP»

Quando se lembra a João Jardim que disse que os partidos comunistas deviam ser eliminados da Constituição a resposta é: «Não foi isso! O que disse foi que se a Constituição andava a proibir indecorosamente qualquer tipo de ideologia, então tinha de proibir as totalitárias. Foi a esquerda que chegou à conclusão de que o Partido Comunista Português (PCP) era totalitário e não eu, que disse exactamente o contrário. A democracia, embora sendo o regime que pelos seus valores éticos e morais tem às vezes certas fragilidades, não tem de ter medo de qualquer tipo de partidos mesmo quando eles são totalitários.»

Não será por acaso que no Palácio está uma fotografia bem à vista onde Jardim segura uma bandeira do PCP. Diz que é uma brincadeira mas que não tem preconceitos sobre o tema: «Se calhar é um pouco escandaloso o que vou dizer, mas eu não teria qualquer preconceito em ser primeiro-ministro de uma coligação que tivesse o Partido Comunista. Agora há uma coisa que garanto, não era eu a fazer a vontade ao PCP, como se via em 1974/75, era o Partido Comunista que tinha que cumprir os compromissos assumidos comigo.» Concorda-se que seria um acordo a necessitar de uma boa vigilância mas isso não preocupa o presidente pois, garante, «não sou de dar água a pintos».

Saindo de cenários hipotéticos, João Jardim recorda situações históricas que se assemelham: «Quando uma coligação de partidos que ia desde o Bloco de Esquerda, Partido Comunista, PSD e CDS – ficando apenas de fora o PS – aprovou a nova Lei das Finanças Regionais, que o Presidente da República promulgou, o que se passou foi como na história recente de Itália – um compromesso storico. Eu alertei que ao fazer-se esse compromisso histórico tinha acabado o mito de que não havia uma alternativa maioritária ao governo minoritário socialista. Claro que isto provocou escândalos e até no Conselho Nacional do PSD, a 12 de Fevereiro, vários elementos da tendência liberal Passos Coelho atacaram-me acusando de querer fazer alianças com o PCP. Estou convencido de que tendo o sistema político da III República falhado só podemos recuperar o país através de um grande compromisso que envolva as bases de todos os partidos e que leve todos a sentirem-se motivados para dar um impulso positivo ao país.» Reafirma: «Como vê, não tenho preconceitos.»

Confissões presidenciais

«Preferia Manuel Alegre a aturar uma tontaria qualquer»

A pergunta é directa: Manuel Alegre nunca será seu candidato? A resposta é mais vaga e percebe-se o porquê: «Eu gosto muito de uma coisa em Manuel Alegre, o facto de rever-me um pouco naquela rebeldia face à disciplina partidária. Identifico-me com ele na defesa sagrada do que é um regime democrático e na maneira libertária de ver a vida.» E na ideologia? «Claro que não me identifico com ele na ideologia política, mas se aparecesse outra pessoa que não o professor Cavaco, e que eu julgasse que ia aturar uma tontaria qualquer, eu era capaz também de considerar essa hipótese.»

Quando se questiona se acha que Alegre pode ser um bom presidente, Jardim é cauteloso: «Tenho muitos amigos poetas. O meu receio é que a condução do Estado não seja compatível com os mecanismos mentais de um poeta.» Mas também escreve romances, replica: «Estou a dizer isto em tom de caricatura, obviamente, porque tenho muito respeito pelos poetas e pelos grandes poetas que Portugal tem. O que quero dizer é que a política é muito “pés na terra” e às vezes um excesso de idealismo pode comprometer a eficiência da política.»

Confissões da juventude

«Ainda hoje, feito velho tonto, adoro recordar-me da vida de estudante em Lisboa e Coimbra.»

Quando se fala dos seus tempos de estudante, inicia-se a pergunta com um «sei que passou dez anos em Coimbra». Alberto João Jardim corta a palavra e repõe a verdade: «É mentira, foram oito. E não foram oito em Coimbra, calma aí. Foram três em Lisboa, onde me diverti à grande e fiz apenas quatro cadeiras do primeiro ano. Os outros cinco, fiz em Coimbra e as duas últimas cadeiras já no regime militar. Claro que a oposição diz sempre dez anos mas são oito.» Fica o acinte da oposição esclarecido apesar de não ter sido essa a intenção.

Pergunta-se onde é que se divertiu mais se em Lisboa ou em Coimbra? «Diverti-me mais em Lisboa, é que a vida boémia de Coimbra é diferente. Na capital não é restrita a qualquer grupo enquanto a boémia de Coimbra está mais fechada nas classes estudantil e da academia.» Passada esta análise, sorri e acaba por se denunciar: «Com o meu feitio, fui bem feliz tanto na boémia de Lisboa como na de Coimbra. E não me arrependo!» Ainda tem mais para dizer: «Se alguma coisa sei hoje devo-o ao tempo passado a ler e a conhecer um pouco do que era o povo e a vida cultural portuguesa. Eu saí da ilha em 1960, de onde só se podia sair de barco e aonde só se vinha duas vezes por ano em férias, e se hoje ainda tem constrangimentos em relação às regiões continentalizadas, o que não seria nessa altura... Ainda hoje, feito velho tonto com 67 anos, adoro recordar-me da vida de Lisboa e de Coimbra enquanto estudante.»

Confissões memorialistas

«Os malucos que eu conheci»

Com uma vida cheia de tantas peripécias, decerto Alberto João Jardim tem matéria para fazer um livro de memórias. Não o pensa escrever porque acha que não vai ter tempo de vida para isso. Considera que tem uma certa despreocupação com a história e a posteridade e tem razão: «Destruí toda a correspondência privada com políticos porque entendo que quando as cartas são privadas nem os meus filhos têm o direito de ver o que é que o senhor A, B ou C me disseram a certa altura.» Após a confissão fica a pensar e acaba por revelar que só o faria «se não fosse uma coisa maçuda». Acrescenta que, a fazê-lo, «seriam contadas com um certo humor». Sugere-se um registo à Eça de Queirós a Jardim, que acaba por revelar o título: «Os malucos que eu conheci.»

Enquanto não tem tempo para escrever as recordações de muitas décadas de política activa, a Fundação Social-Democrata da Madeira comprou a casa onde nasceu para fazer uma Casa-Museu onde João Jardim vai deixar todo o seu espólio. Muitos livros que tem dentro de caixotes que não abriu por falta de espaço na sua casa, comprada «ainda estudante em Coimbra com a herança do meu pai».

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MensagemAssunto: "Fazer financiamentos ilícitos a partidos é fácil"   Dom Abr 18, 2010 10:34 am

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"Fazer financiamentos ilícitos a partidos é fácil"

por CARLOS RODRIGUES LIMA e DAVID DINIS
Hoje


O estudo que fez com o DCIAP sobre a corrupção provou-lhe uma tese de há muito: que há falta de estratégia e coordenação no combate à corrupção. Mas o sociólogo Luís de Sousa, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, diz que o problema é mais profundo, sobretudo ao nível da legislação sobre financiamento partidário, que está sem fiscalização. E não vê vontade política para resolver o problema.

Freeport, submarinos, Taguspark, "Face Oculta"… o País está em fogo ou é mais fumo?

Há que distinguir dois aspectos: a intensidade do fenómeno e a sua frequência. Quando falamos de alta corrupção, são casos que escandalizam mais a opinião pública - pelo tipo de montantes, pelo tipo de actores, também pelo tipo de processos de decisão, que são extremamente mais complexos. Estes acabam por escandalizar porque há, da parte dos cidadãos, esta concepção, que é natural, idealista do funcionamento da democracia, criando uma discrepância entre os valores, as expectativas e a prática dos actores. Os casos, apenas quatro ou cinco - e digo apenas - que preenchem as manchetes dos jornais, têm um impacto muito mais estruturante na opinião pública do que cem casos, 200 casos de pequena corrupção em cartórios notariais ou o que quer que seja. Esses não fazem manchete, mas continuam a afectar diariamente a vida das pessoas.

Seguindo o estudo que realizou com o DCIAP, é muito difícil levar a julgamento os casos graves.

A repressão da corrupção em Portugal assenta muito na denúncia.

E o Ministério Público não é proactivo.

Está à espera que lhe passem a bola. Há áreas, como a do financiamento político, onde os casos se repetem sempre, assumem o mesmo formato. Aí, por exemplo, convém ser proactivo, fazer uma análise de porque é que existe este risco, porque é que existem estas estruturas de oportunidade, e intervir preventivamente. Nós não estamos aqui única e exclusivamente para reprimir e para enviar culpados para a televisão - não queremos é que existam culpados, que se antecipe a possibilidade da ocorrência deste tipo de situações. Daí que a prevenção não pode andar desassociada da repressão e, infelizmente, no caso português, anda. Aliás, até o modelo que escolheram como resposta ao compromisso que tinham assumido perante a convenção das Nações Unidas foi a opção mais económica: em vez de se optar por uma agência especializada única, com competências de prevenção e repressão, optou-se por ter entidades separadas [criando o Conselho de Prevenção da Corrupção no Tribunal de Contas, no lugar de uma entidade que já existiu com competências semelhantes].

Ou seja, o novo órgão não mudou nada?

Esta opção das entidades separadas é mais económica porque, geralmente, elas já existem. É uma questão de pequenos ajustamentos, umas afinações aqui e ali. O pouco trabalho de prevenção que estava a fazer-se em Portugal era pelo Tribunal de Contas, embora nunca tenha colocado o nome aos bois. Agora esse terreno já está queimado para qualquer outra possível solução, nomeadamente a que se vinha defendendo, que seria a criação de uma nova alta autoridade contra a corrupção.

O que foi feito nos últimos anos é, de alguma forma, inibidor de actos de corrupção? Pressente que há mais atenção?

Não há essa percepção, nem com o Conselho de Prevenção nem com algumas reformas em matéria de branqueamento de capitais. Aquilo que me parece relativamente a muitas medidas que são pensadas e implementadas é que elas não estão articuladas, não há uma estratégia que diga como é que uma funciona com a outra. Por exemplo: cria-se um Conselho e exclui-se a Entidade das Contas desse grupo, quando sabemos que a maior parte dos grandes casos (que neste momento continuam) estão ligados ao financiamento político, fazem parte desse núcleo de ocorrências ou de estruturas de oportunidade para a corrupção que são sistémicas. Não têm a ver com a cunha e com o pequeno tráfico de influências. Estamos numa corrupção que é alta em recursos e que é alta em frequência, cada vez mais alta em frequência. É claro que não vemos isso, mal feito fora se tivéssemos todos os dias nos jornais um novo caso de financiamento ilícito, mas quem está próximo dessa realidade, isto é, membros dos partidos, staffs dos partidos, Entidade das Contas, Comissão Nacional de Eleições - que tinham alguma tradição também nisto e sabem perfeitamente o que se passa -, sabem que basta fazer uma monitorização de gastos de campanha para perceber o quanto é fácil haver financiamentos ilícitos, haver pagamentos de despesas por terceiros, haver favores pagos agora para benefícios a posteriori.

E é fácil descobri-lo?

Não. Não é fácil de provar essa relação entre o donativo ou pagamento de despesas por terceiros agora e os benefícios que eu vou retirar daqui a um ano. Até porque há sempre aquele problema de "eu se calhar apostei no cavalo errado e ele não vai ganhar". Geralmente aqui não acontece, e a nível local acontece muito menos porque há uma previsão muito grande de quem vai ganhar e, portanto, muito do financiamento passa por redes clientelares que estão bastantes cristalizadas a nível local, quer dizer, são as mesmas empresas que negoceiam com a câmara e que vendem praticamente todos os contratos.

Mesmo a nível nacional, é mais fácil ser corrompido quem está no poder?

Os partidos do Governo são mais permeáveis a este tipo de corrupção, claro.

Tem estudado legislação não só portuguesa mas exterior a Portugal. Temos um problema maior do que o que se verifica lá fora?

As opiniões dividem-se tanto... é complexa a questão, não é fácil. Há o problema do número, discute-se sempre o volume da legislação existente, se é muita, se é pouca. Eu, geralmente, fujo do enfoque de volume, concentro-me mais no enfoque da qualidade dos diplomas. O que acontece é que estes processos, o processo de aprovação de uma lei anticorrupção, não é uma questão neutra. Há interesses fortes, e que não têm de ser interesses necessariamente partidários, até podem ser corporativos.

Que conseguem neutralizar as leis?

Discute-se muito a introdução de um novo mecanismo, que vai melhorar o combate à corrupção, etc. E, quando se passa à fase do seu desenho e discussão, começam a cair as peças do puzzle e começa a ficar um instrumento completamente enfraquecido, com uma norma muito forte, mas sem dentes para morder. E isso acontece com muitos diplomas, acontece com a lei do financiamento político, acontece com o controlo da riqueza dos eleitos para cargos públicos, acontece com o crime de tráfico de influências. Ainda que tenha sofrido uma alteração não mudou o estado de coisas - basta ver as estatísticas, não aparece nenhum. Não existe! E, de facto, existe e muito.

Mas também os tribunais passam anos e anos a discutir se aquilo é tráfico de influências ou se é uma cunha...

Exactamente. Há aqui um problema de formação! Enfim, não será a única questão aqui. Há sempre este desespero de trazer algo novo, de procurar olhar a modelos de sucesso. E é muito difícil de definir o que será um modelo de sucesso. Por exemplo, no caso espanhol, não o foi por terem o crime do urbanismo, mas se calhar por terem uma magistratura mais audaz. Se calhar já conseguiam fazer mais sem o crime urbanístico do que a magistratura portuguesa. Eu dou várias vezes o exemplo do caso francês, onde as investigações que estavam a decorrer eram volumes e volumes de processos de financiamento ilícito. E a classe política, perante esta ameaça da magistratura, decidiu lançar uma lei de financiamento em que criou uma cláusula de amnistia, que é uma coisa impensável. É um exemplo de como estas leis são feitas de interesses corporativos. Eu não fiquei surpreendido quando vi a lei de financiamento político, cá, ser aprovada em 2009 por todos os partidos excepto um. Duvido que tenha havido uma lei até hoje que tenha sido aprovada com um consenso tão grande no Parlamento.

O seu estudo para o DCIAP levanta esta dúvida: há um desfasamento entre a percepção e a realidade, ou o sistema de justiça só consegue chegar à pequena corrupção?

As duas coisas. O sistema consegue chegar mais facilmente à pequena corrupção do que à corrupção complexa, mas aí há problemas de formação, há problemas de coordenação, há problemas de recrutamento em determinadas matérias. Não estamos a atingir, de facto, o core do problema. Isso afecta a capacidade do aparelho repressivo de lidar com casos complexos e vai-se vendo a braços com alguns desses casos por uma série de infelizes coincidências: ou porque alguém foi lesado nesse negócio, meteu a boca no trombone e deu informação muito detalhada sobre esses crimes.

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MensagemAssunto: "Viver na cidade de Paris só a mim diz respeito"   Sex Abr 23, 2010 3:49 pm

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"Viver na cidade de Paris só a mim diz respeito"

por FRANCISCO MANGAS
Hoje


Entrevista com Inês de Medeiros, deputada e vice-presidente da bancada do PS, sobre a polémica à volta do pagamento das suas viagens entre o Parlamento e a sua residência, em Paris.

Está satisfeita com resolução do pagamento das suas viagens a Paris, onde tem residência?

Estou satisfeita por ter havido uma decisão, independentemente do resultado. Eu escrevi ao senhor presidente da Assembleia da República a pedir celeridade no caso, para acabar de uma vez por todas com esta longa campanha de enxovalhos, humilhações e informações pouco rigorosas.

Não lhe parece que demorou bastante tempo a resolver esta polémica?

Foi por isso mesmo que enviei a carta ao senhor presidente da Assembleia da República, pedindo celeridade - foi o único pedido que lhe fiz.

Desconhecia o problema?

Não sabia que havia este problema, não conhecia o regimento nem o estatuto do deputado.

Como é evidente, ficou desagradada com a campanha em redor do caso?

Não acho que tenha havido qualquer perseguição pessoal. Grave foi a forma como este episódio foi tratado. Há direitos que os deputados têm, como as ajudas de custas, para que a representação seja de todo o País - respeitando o que está estabelecido para ser garantido o pluralismo no Parlamento.

Esta polémica serviu para desprestigiar o Parlamento?

Pelo menos, este caso desprestigia a classe política, a democracia representativa em geral. Estou aterrada. Não houve pedido especial nenhum da minha parte. Tenho direito à minha vida privada: viver em Paris só a mim diz respeito. Não acho que seja esta a melhor maneira de cativar novas pessoas, independentes - a chamada sociedade civil - para a política. Quem chega aqui pode, de um momento para o outro, ver a sua vida vasculhada, ser enxovalhado, ser alvo de suspeições generalizadas. E isto põe em risco a própria democracia.

Depois deste caso, que se arrastou por longos meses, pensa repetir a experiência num próximo mandato?

Não faço projecções para um novo mandato. Apenas lhe digo que estou a cumprir e a desempenhar com muito entusiasmo o meu papel. Tenho trabalho feito. Tenho diversos projectos. Sendo assim, não me arrependo de todo de ter aceitado o convite do Partido Socialista, apesar de ter sofridos estes danos colaterais. A recepção foi boa, tenho conhecido pessoas interessantes.

Os deputados, portanto, merecem mais respeito?

Pelo menos não merecem, como tem acontecido até agora, um permanente clima de suspeição que sobre eles cai. O descrédito total é sempre muito perigoso.

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MensagemAssunto: "Pessoas não querem ligar-se a esta ditadura socialista"   Sab Abr 24, 2010 3:23 pm

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"Pessoas não querem ligar-se a esta ditadura socialista"

por AMADEU ARAÚJO
Hoje


Entrevista com João Gomes, Porta-voz do site Salazar, o Obreiro da Pátria e do movimento cívico Assembleia.

Este ano, as comemorações do nascimento de Salazar são abertas à comunicação social. Sentem a necessidade de ampliar as vossas ideias?

O ano passado quisemos fazer uma festa privada, não houve intenção nenhuma de excluir quem quer que fosse. Estas coisas começam, sem queremos, a saber-se, e as pessoas aparecem. Mas a intenção única era fazer uma festa privada.

Não temem polémicas, tendo em conta que as comemorações decorrem na véspera do 25 de Abril?

Críticas pode haver sempre, em qualquer outra data haveria sempre críticas. Ocorre na véspera do 25 de Abril mas quem queira ver por bem vai perceber. O dr. Salazar fazia anos a dia 28, este ano é uma quarta-feira e decidimos fazer no fim- -de-semana anterior. Já não fizemos no dia 25 porque, eventualmente, alguém podia pensar que queríamos criar algum confronto. Pensámos no dia 24, mas não tem nada a ver com o 25 de Abril, é tão-só uma coincidência de datas.

Aproveitam para lançar o movimento Assembleia, que no fundo relança os valores salazaristas. Com que objectivos?

Quanto às más ideias que podem criar-se acerca do movimento, só as pessoas que gostam desta balbúrdia que o País hoje vive, com fome, miséria, homossexualidade, prostituição, tudo autorizado pelo Estado, é que o fazem. Não somos todos salazaristas nem se fala disso. Fala-se numa doutrina, considerada por presidentes estrangeiros como a única doutrina que serviria qualquer país que quisesse ser evoluído economicamente, que é a doutrina corporativa e não queremos ligar ninguém ao dr. Salazar. Agora se me pergunta se isto coincide com a doutrina do dr. Salazar e do Estado Novo, obviamente que sim. Temos de recolher e implementar no nosso país aquilo que é bom e se temos oportunidade de querer para Portugal alguma coisa que já foi testada - e deu resultado - devemos ir buscá-la. Desde 1969 que o País vem em linha descendente e depois dá-se o 25 de Abril e foi o descalabro completo.

Querem ainda abrir um espaço, no Vimieiro, para expor temas e objectos ligados ao Estado Novo.

Estamos a tratar disso, já temos o espaço. A altura ainda não é propícia, não que haja medo, não é por isso, mas mais por razões económicas.

Sentem-se perseguidos por defender uma ideologia em torno de um ditador?

Tenho um site e nunca me senti tão perseguido como agora, pela positiva, de pessoas a quererem saber o que foi o Estado Novo e Salazar. As pessoas não querem ligar-se ao regime actual, a esta ditadura socialista, estão desmotivadas e fartas disto. Perseguido em termos depreciativos, isso nunca.

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MensagemAssunto: "Alterações climáticas vão originar Estados 'falhados' e autoritários"   Dom Abr 25, 2010 4:14 pm

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"Alterações climáticas vão originar Estados 'falhados' e autoritários"

por MARIA DE LURDES VALE
Hoje


Alerta: não é o fim do mundo, mas pode ser o fim de muitos Estados. Antonio Marquina, catedrático de Relações Internacionais da Universidade Complutense de Madrid e coordenador do livro 'Global Warming and Climate Change - Prospects and Policies in Asia and Europe', editado em Nova Iorque, Londres e Sydney, avisa que a segurança entre vários países está em risco devido ao aquecimento global e à desertificação

Antonio Marquina, professor catedrático de Relações Internacionais na Universidade Complutense em Madrid, acaba de editar o livro Global Warming and Climate Change - Prospects and Policies in Asia and Europe -, que perspectiva o impacto e as consequências do aquecimento global e das alterações climáticas na Ásia e na Europa. A obra, que começou a ser preparada há três anos e tem contributos de 29 especialistas asiáticos e europeus, chama a atenção para os problemas de segurança, que vão colocar-se a nível mundial, devido à proliferação de Estados "falhados", como a Somália e o Afeganistão.

A falta de água, de alimentos e de condições de vida mínimas, nomeadamente em alguns países asiáticos e no Norte de África, provocarão novas migrações e o surgimento de mais regimes autoritários. O Norte e o Sul da Europa, dentro de 30 anos, serão igualmente duas realidades bem distintas e haverá uma profunda clivagem entre os países que hoje fazem parte da União Europeia.

No livro descrevem-se situações provocadas pelas alterações climáticas que podem colocar em causa a segurança humana. Trata-se de um alerta?

Mais que isso, é uma reflexão sobre dados científicos que temos e que conhecemos e sobre aspectos que ainda hoje nos parecem pouco compreensíveis. Ainda não sabemos ao certo as interconexões de determinados fenómenos, mas, em função do que conhecemos, deduzimos uma série de consequências muito importantes e às quais há que dar a maior atenção. Gostaríamos que os governos e a opinião pública reflectissem sobre as consequências do aquecimento global nas vidas das pessoas, já que vai ter um impacto importante na vida de milhões de pessoas. Muitos países perderão força, capacidade de governo, de fornecer serviços públicos... E outros haverá que, devido a esta incapacidade, entrarão em colapso e terão graves convulsões políticas e sociais.

Aquilo a que chama "Estados falhados"...

Sem ser alarmista - a partir de 2030 até final do século - verificamos que há problemas de uma certa envergadura que, em função de uma extrapolação sobre a aplicação das políticas de mitigação ou de adaptação que existem, vão ter consequências terríveis se não se fizer algo mais. Haverá muitos países perdedores, muitos, e também ganhadores.

A que países se refere?

Estamos a falar de países da Ásia e da periferia da Europa.

Do Sul?

Sim. O Sul da Europa vai ser o grande perdedor devido às alterações climáticas. Perde no crescimento económico, nos recursos disponíveis, na disponibilidade de água. Terá de reorientar a despesa pública e não pública para os recursos básicos que vão escassear.

Vamos ter então conflitos por causa da água, dos alimentos... por causa da sobrevivência mais básica?

Primeiro vamos ter uma nova afectação de recursos, que deveriam ser destinados à melhoria da vida da população. Essa nova gestão dos recursos será essencial para que as populações possam comer e beber e também para uma distribuição de água pela agricultura, indústria, urbanização... A redistribuição vai ser complicada e há processos que já não têm solução. Por exemplo o da água dos rios em muitos países da bacia do Mediterrâneo, no Norte e no Sul, que já registam uma redução muito significativa ao longo dos últimos 40 anos. Em Marrocos, verificou-se nas ultimas quatro décadas uma diminuição de 35% no fluxo de água dos rios.

É possível que a temperatura suba 1 ou 2 graus na próxima década? Isso agravará a situação?

Depende das zonas. Para o Mediterrâneo, calcula-se - sendo optimista - que possa chegar a subir cinco ou seis graus ainda neste século. Em 2020, a subida das temperaturas, com base em medições realizadas nos anos 50 ou 60, poderá chegar a ser de um ou dois graus. Se ultrapassar este valor, imagine-se o que vai custar a adaptação a essa nova realidade.

E quais serão as consequências para a Península Ibérica?

Vão ser consequências líquidas. Boa parte das verbas que se poderiam empregar, por exemplo para o bem-estar da população, para melhores cidades, melhor meio ambiente, para o habitat, vão ter de ser para algo mais básico, que tem a ver com a água. Mas onde vamos conseguir água suficiente para tantas pessoas?

Há dados que podem demonstrar que isso vai realmente acontecer assim?

Os dados com que trabalhamos resultam de investigações feitas ao longo de anos. Na questão da água citamos estudos feitos pela União Europeia e pelo Ministério do Ambiente espanhol para o caso de Espanha. Os mapas são projecções que se fazem da actualidade até 2030 acerca de reservas e diminuições de recursos de água que são muito significativas em todo o Sul da Europa. A água para a agricultura vai reduzir-se drasticamente porque esta tem de servir também para as cidades e para a indústria. Essa vai ser a questão mais importante para que os governos tomem decisões nos próximos anos. Já é possível calcular os gastos em dessalinizadoras, em energia para tirar o sal à água, em instalações e na depuração da água para que possa ser reutilizada.

Vamos então pagar muito caro a água e a alimentação?

Sim, vai ser muito caro.

A Península Ibérica vai desertificar-se?

Sim, a desertificação é crescente. Mas, para já, é muito mais grave o que está a passar-se no Norte de África. O processo de desertificação em Marrocos, Argélia, Tunísia, até ao Egipto, é enorme. Isso vai provocar novas migrações? A Europa vai estar mais pressionada... Sem nenhuma dúvida.

Mas, se no Sul da Europa também houver escassez de água e de alimentos, para onde vão esses imigrantes que vêm do Norte de África?

O impacto vai ser muito diferente, dependendo dos casos. Por exemplo em Marrocos, em que 44% da população vivem da agricultura, mas que é uma agricultura de subsistência, que está nos limites, qualquer subida de temperatura de um grau ou de dois graus, qualquer alteração na estação das chuvas - antes era de seis em seis meses, agora é de três em três - poderá agravar a situação agrícola que, como disse, já está a atingir os limites. A Líbia e a Argélia também estão na mesma situação. O único país que se salva, para já, a nível agrícola, é o Egipto por causa do delta do Nilo. Mas isso só será assim enquanto o nível do mar não subir. Ora, os números mais conservadores falam de uma subida do nível do mar de meio metro neste século. Há outros estudos que indicam um metro, metro e meio e até dois metros...

Neste livro, há também uma importante abordagem aos problemas da segurança provocados por estas alterações do clima. Quais são as perspectivas? Terá de haver intervenções militares?

O que sabemos é que há questões muito sérias, que vão afectar a vida das pessoas, dos Estados, da segurança estatal. Se há Estados falhados ou Estados que se debilitam muito e onde a autoridade central não chega - caso da Somália e Afeganistão - que começam a dar problemas e a afectar a segurança de milhões de cidadãos, então vamos ter de acabar por intervir. Isso é uma das coisas que dizemos neste livro. Trata-se da responsabilidade de proteger que actualmente só se aplica para casos de grandes massacres. Mas, se isto continua assim, o Conselho de Segurança da ONU vai ter de reconhecer que existe a necessidade e a responsabilidade de proteger os cidadãos de Estados que são incapazes de fornecer o mínimo, porque estão enfraquecidos, porque dependem da importação para sobreviver ou porque tem imigrações internas maciças. Estes Estados vão estar sem capacidade para enfrentar seja o que for.

Significa que vai haver uma grande clivagem entre o Norte e o Sul?

O entendimento entre o Norte e o Sul será cada vez mais difícil. E note-se que a tendência é para o agravamento dos regimes autoritários. Na Ásia, estes casos já são notórios e no Norte de África, também. Os regimes só mudam em função da alternativa que as pessoas têm para viver melhor.

E a Europa?

Partindo de um estudo e projecções de alterações climáticas graduais, é claro que os países do Norte da Europa irão aumentar o seu poder em relação aos países do Sul, que estarão mais debilitados. O equilíbrio de forças vai mudar.

As alterações climáticas tornaram-se uma prioridade dos líderes europeus. A União Europeia tem feito um bom trabalho de casa?

A Europa fez o que tinha a fazer e fê-lo inclusivamente bem na Cimeira de Copenhaga. O que se passa é que ninguém segue a Europa nesta questão. A União Europeia tem de ser mais pragmática, mais negociadora. Afirmar- -se como actor normativo não a levou a sítio nenhum. Pode ser que tenha de ser necessário reduzir um pouco as suas posições para poder convencer a China, a Índia e os EUA e chegar a acordos concretos. As políticas de mitigação e de adaptação às alterações climáticas são muito diferentes na Ásia e na Europa. Com a excepção do Japão e da Coreia do Sul, ninguém na Ásia fez ainda nada.

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MensagemAssunto: "Papa tem obrigação moral de ser o primeiro a demitir-se"   Qua Abr 28, 2010 1:11 pm

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"Papa tem obrigação moral de ser o primeiro a demitir-se"

por FRANCISCO MANGAS
Hoje


Críticos do Papa.

O polémico Bento XVI divide opiniões na Igreja. Há quem o ache excepcional, há quem lhe faça duras críticas. Mário Oliveira, padre sem paróquia, que dirige o jornal 'Fraternizar', é um deles. Diz que Ratzinger é o grande desastre da Igreja dos séc. XX e XXI e que ele devia assumir responsabilidade pelos casos de pedofilia

Como define o pontificado de Bento XVI?

Depois do Concílio do Vaticano II é o grande desastre. É uma espécie de Inverno na Igreja. Enquanto o Vaticano II tinha significado a Primavera na Igreja, com Bento XVI, que leva já cinco anos de pontificado, regressamos ao Inverno, sem termos chegado ao Verão.

Joseph Ratzinger teve grande intervenção no Vaticano II...

É verdade. Só que enquanto teólogo é uma personalidade, depois que aceitou vir para a Cúria Ro-mana, como cardeal, e ficou responsável à frente da Congregação para a Doutrina da Fé durante o pontificado de João Paulo II, ele mudou por completo.

Defende posições teológicas contra a sua própria teologia?

Até há autores que se dão ao trabalho de comparar o que ele diz com o que escreveu há 30, 40 anos. E metem-no a ridículo. Para mim é o grande desastre na Igreja no século XX e já no século XXI.

É a continuação de João Paulo II?

Para pior. João Paulo II tudo o que dizia e pregava, por todo o mundo - conteúdos doutrinais, morais, moralistas - era já fornecido por Ratzinger, o seu grande conselheiro. João Paulo II não sabia nada praticamente de teologia, era como um qualquer pároco de aldeia, nunca mais estudou desde que saiu do seminário. Mas, pelo menos, tinha uma coisa que este não tem: era bom actor. Colocou isso, de certo modo, ao serviço da Cúria Romana e a agressividade que sempre teve durante o pon- tificado - foi o que mais condenou a Teologia e os teólogos da libertação, já com Ratzinger na Congregação da Fé - não ganhou visibilidade graças aos seus gestos teatrais. Sobretudo nas suas deslocações.

Agora é mais visível?

Com Bento XVI tornou-se muito visível, ele não tem nenhum jeito para actor. É o antiactor, ainda é o intelectual gabinete.

É a segundo visita de um papa ao Porto. Significa isto uma banalização destes actos?

A visita ao Porto, pela segunda vez, percebe-se porque este ano de 2010, o bispo da Diocese, D. Manuel Clemente, deliberou ser o ano da missão. Estamos a ver aqui o trabalho da pressão da diocese para que ele venha a dar cobertura à missão 2010 em curso, dar um bocadinho de projecção, como que a apropriar-se dela ao nível da Igreja universal. Isto é tudo táctica e hábil da parte do poder eclesiástico. Porque a missão 2010 é um bluff, aquilo espremido não tem nada.

E a visita a Fátima?

É pior. Enquanto teólogo ele sabe, como todo os teólogos - e nós não encontramos nenhum teólogo convicto que defenda Fátima - que do ponto de vista da teologia é absolutamente impossível haver aparições. Do ponto de vista da fé cristã é impossível poder falar-se alguma vez de aparições. Impossível. E ele como teólogo sabe isso e apesar disso vai lá. Contra a sua própria teologia, vai como que canonizar, por um véu de canonicidade, de autenticidade, sobre uma mentira que são as aparições de 1917, com uma agravante que não havia nos anos anteriores.

Que agravante é essa?

Faz a visita num contexto absolutamente novo na instituição eclesiástica católica: estamos todos a assistir à denúncia de casos de pedofilia que envolvem crianças vítimas de clérigos. Neste contexto, a visita de Bento XVI a Fátima ainda é uma agravante, que o devia levar a ter um pouco de pudor. Porque as três crianças de Fátima, em 1917, foram vítimas - não em termos de pedofilia, de sexo - também do clero de Ourém que organizadamente inventou aquela historieta toda. E a encenou e a representou, servindo-se das três crianças. Desse universo de crianças, duas acabaram por morrer e a que sobreviveu foi sempre sequestrada até à morte.

A resposta da Igreja aos casos de pedofilia tem sido satisfatória?

A resposta tem sido desastrosa. Ultimamente parece que estão a querer melhorar um pouco, com esta deslocação do Papa a Malta: ele até fez por derramar umas lágrimas de crocodilo pa-ra a comunicação social... Tem sido desastrosa a maneira como ao nível hierárquico a Igreja tem conduzido este drama. Eu eu acho que ao nível desses casos deveríamos distinguir dois tipos de vítimas.

Dois tipos de vítimas?

Sim. As crianças, objectivamente. Mas o vitimador, o clérigo que faz as vítimas, por sua vez, é ele vítima: precisávamos de denunciar isso. O que está em jogo não é o caso do clérigo A , B, ou C, que fez isto, mas o porquê, por que é que determinados homens duma formação, que a sociedade supunha humanista, foram capazes de praticar actos hediondos. E a questão mais profunda, que não tem sido abordada, vai pôr em causa este modelo de igreja.

Precisa de uma reforma?

Precisa de uma alternativa radical. Os clérigos que fazem esses actos hediondos foram vítimas de actos hediondos, se calhar mais hediondos - não no nível do sexual - mas da formação mental de consciência. Foi a formação de 12 anos num seminário tridentino. Fechados, sem hipótese de liberdade, de criatividade de consciência crítica: são homens sem afectos.

Os padres pedófilos, como alguns defendem, deveriam ser excomungados?

Isso é horrível. Mas já não é tão horrível ser demitido das suas funções e não mais estar em condições de poder exercer sem antes, por ventura, darem provas de que se tinham reabilitado. Nesse caso, vou mais além: como foi a instituição que os formou - mal - e tomou conhecimento quando eles cometeram esses actos e escondeu-os para bem do nome da Igreja, e não fez nada: em última instância quem tem de se demitir é o Papa. Tem obrigação moral de ser o primeiro a dizer: "Eu demito-me, e agora sigam o meu exemplo." Enquanto o não fizer, não tem moral para demitir ninguém.

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MensagemAssunto: "Questão de Cahora Bassa foi resolvida a nosso contento"   Dom Maio 02, 2010 1:42 pm

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"Questão de Cahora Bassa foi resolvida a nosso contento"

por JOÃO MARCELINO (DN) e PAULO BALDAIA (TSF)
Hoje


O Presidente moçambicano reconhece que, após 35 anos de independência, o principal desafio a vencer é a pobreza. Elogia as relações com Portugal e apela a maior envolvimento empresarial no seu país, onde, assegura, a democracia está consolidada

Está satisfeito com as relações económicas entre Portugal e Moçambique, ou esperava que os dois Governos e as duas comunidades empresariais tivessem feito melhor nestes 30 anos?

Estou satisfeito. Naturalmente, há espaço para se fazer mais, mas as relações, a nível político, diplomático e de cooperação, estão muito boas. Neste momento, temos entendimentos que vão elevar o nível de cooperação, para permitir que essas relações possam produzir os resultados que esperamos.

Mas ao nível económico - dir-me-á se estes números estão certos ou não - Portugal exporta um pouco mais de cem milhões de euros para Moçambique; Moçambique retribui com 50 milhões. O que pode fazer-se, na sua perspectiva, para equilibrar esta balança?

O que pode fazer-se é o que está a fazer-se agora mesmo: muitos investimentos portugueses em Moçambique, investimentos na área de infra-estruturas e na área produtiva. Isso vai permitir que possamos ter mais comércio e que possamos aumentar a capacidade produtiva do nosso país. Penso que estamos exactamente nesse caminho. Com Portugal, estamos a trabalhar na criação de infra-estruturas, na expansão de infra-estruturas e na área de investimento produtivo.

É verdade que o arrastar da solução para Cahora Bassa impediu que se dessem passos mais largos nessa cooperação? Se tivesse sido Cahora Bassa resolvida muito mais rapidamente, estaríamos hoje...

Com muitos "ses" é complicado. Não se faz história com "se". Prefiro acreditar que, a partir do momento em que resolvemos o problema de Cahora Bassa, podemos aproveitar esta ocasião para avançar.

Uma pergunta concreta, sem "ses", em relação à parte que o Governo português ainda tem em Cahora Bassa, cerca de 15%. Moçambique vai tomar essa fatia de Cahora Bassa? Preferia vê-la nas mãos de investidores portugueses? Nas mãos de investidores moçambicanos?

Temos um acordo para ficarmos com 7,5%, portanto, metade. A outra metade dependerá do Governo português. Naturalmente, depende de Portugal e nós, perante uma informação da parte portuguesa, vamos reagir positivamente. Porque queremos que haja alguma coisa, nesses 7,5%, que ajude a estimular o nosso relacionamento económico.

Está também a ser ouvido por empresários portugueses e a ser lido no DN por empresários portugueses. Em que áreas precisa Moçambique que Portugal invista?

Infra-estruturas é uma delas, mas também na agricultura, particularmente florestas. Nós temos a Portucel, que está interessada e está quase para começar um projecto lá, encorajamos para que haja mais investimentos dessa natureza e na área da agricultura em geral. Assim como no turismo, que é algo que vai fazer a diferença, na medida em que estimula a produção local e, ao mesmo tempo, permite que haja muitas divisas para o país.

Moçambique é um país particularmente interessante para um investidor estrangeiro, na medida em que o Governo concede isenção fiscal aos grandes projectos. Isso é para manter ou pretendem mudar alguma coisa no sentido de arrecadarem mais receitas?

Naturalmente, queremos aumentar as receitas. É preciso ter em conta que, quando negociamos os grandes projectos que estão agora a desenvolver-se em Moçambique, isto é, no início dos anos 1990, o que nos interessava era atrair, chamar uma atenção positiva para Moçambique. Isso foi realizado, hoje temos a Sasol… Mas não agimos da mesma maneira em relação aos novos grandes investimentos. Nestes queremos ter mais receitas.

Dos dois maiores países africanos que fizeram parte do mundo português, Angola, apesar da guerra, emergiu como uma potência regional; Moçambique, com menos recursos, ficou mais para trás. É só uma questão de recursos naturais ou há outras questões que explicam o actual estado de desenvolvimento da economia de Moçambique face a Angola? Faço essa comparação só para ser melhor compreendido em Portugal.

São situações diferentes. Angola está no Atlântico, Moçambique está no Índico. Angola tinha recursos que eram explorados já no período da guerra, o petróleo. São recursos que sabemos que dão muito em termos de retorno para as economias de um país. Moçambique não tinha, pelo menos a explorar, esse tipo de recursos. É por isso que Moçambique se virou mais para as áreas em que possa dar mais emprego: agricultura, turismo e outras, naturalmente sem deixar de procurar explorar, ou pelo menos procurar recursos que possam permitir criar uma mais-valia o mais rapidamente possível. Não temos petróleo ainda, esperemos que um dia chegue, mas temos gás. Temos carvão e temos muitos recursos que estão por explorar.

Como está o combate à pobreza em Moçambique 35 anos após a independência?

Ainda somos pobres. Esse é o nosso inimigo. Mas a estratégia que definimos, de transportar a capacidade de decisão nas questões económicas, sociais e políticas para os distritos, para o mundo rural, está a funcionar. Hoje em dia, as prioridades no distrito, numa sede distrital, num território relativamente grande, são decididas pelas pessoas que vivem nesse distrito. E isto faz com que possam participar mais na escolha dos meios que permitam acelerar o desenvolvimento no distrito. Por outro lado, sentimos que existe hoje maior participação em termos de investimento, há muitos investimentos estrangeiros que são importantes na procura de emprego. Temos de ter emprego para resolver o problema da pobreza, e hoje há mais investimento no país.

Ao dizer que Angola está no Atlântico e Moçambique no Índico, queria dizer que as relações comerciais e políticas são mais fáceis com a Índia?

Serão mais fáceis, neste caso, Angola-Portugal. Será mais fácil, é só descer. Se formos ver o mapa, é assim mesmo. Mas Moçambique está exposto a outra situação diferente. Nós estamos a meio caminho, praticamente, dos grandes mercados da América Latina e da Ásia. Mas só agora é que esta realidade está a despertar.

Está satisfeito com os portugueses que residem em Moçambique e com o trabalho que fazem?

Estou satisfeito.

Sente que a comunidade moçambicana que reside em Portugal está integrada? Quais são os principais problemas que se colocam nesse campo?

Penso que a comunidade moçambicana em Portugal sente-se bem. Os problemas que se colocam são apenas a nível dos vistos e das autorizações de residência. Temos de resolver esse problema em termos burocráticos para que os moçambicanos possam ter facilidade de estar cá.

A aproximação de Moçambique à Commonwealth, de que é membro, significa falta de confiança na CPLP?

Não. Significa que um país como Moçambique, que tem vários interesses, deve levar em conta todos os seus interesses e valorizá-los, não deve excluir. Não somos um país que anda à procura de inimigos, ou de fazer inimigos. Somos um país que procura fazer e desenvolver amizade com todos. Isto não quer dizer, obviamente, que porque estamos na Commonwealth já não queremos estar na CPLP. A história prova exactamente o contrário: que nós continuamos a desempenhar um papel importante na CPLP, como donos da CPLP, situação que partilhamos com os outros países, e nada nos afasta da CPLP.

Mas há muitas críticas à CPLP em todos os países - que é pouco operacional, pouco eficiente. É possível ultrapassar este défice?

Nós somos parte da CPLP - as críticas que se fazem nós fazemos a nós mesmos. Nós conhecemos as causas: é porque centramos muito a nossa relação no cultural, que é importante, e não estamos a dar a atenção suficiente na área económica. Pois bem, há um ou dois anos para cá sentimos que isso está a mudar. Por exemplo, quando falo das excelentes relações que existem com Portugal, os investimentos portugueses em Moçambique são enormes, os investimentos brasileiros em Moçambique são enormes, os investimentos angolanos em Moçambique estão enormes. Isto prova que a distância não impede que haja investimento económico.

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MensagemAssunto: Re: Entrevistas   Sex Maio 07, 2010 3:02 pm

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"Invasão do Iraque fez crescer os que queriam combater a América"

por JOÃO CÉU E SILVA
Hoje


Repórter na guerra Sentia-se como Stallone em Brooklyn quando fazia 'jogging' em Bagdad, exercício que não lhe retirou o perfil de agente da CIA que diz ter. Ao DN, o jornalista do 'New York Times' explica o que está por trás das guerras que cobre há uma década

'Apocalypse Now', de Coppola, parece um filme infantil quando comparado com estas guerras no Afeganistão e no Iraque!

É uma guerra diferente porque ao pensar-se no Vietname as memórias são a selva, a música e as drogas - a morte também - enquanto no Afeganistão e no Iraque é o deserto sem cores. Diria antes que agora é mais um filme de terror.

Uma guerra muito mais dura?

Agora a guerra é mais eficiente e cirúrgica, o que é melhor a nível de baixas. Se compararmos há uma diferença entre os 5 mil americanos mortos agora e os 60 mil de então tal como os 100 mil civis em vez dos dois milhões de vietnamitas. Foi uma carnificina muito maior.

O soldado dos EUA é muito jovem. É-lhe fácil lutar nestes países?

É-lhe fácil puxar o gatilho e matar mas é difícil compreender porque está ali quando têm 19 anos, nascido numa cidade do interior dos EUA, não fala a língua nem entende a cultura de uma terra a milhares de quilómetros da sua.

Mas Bush explicou estas guerras!

Quando falamos com eles ouvem-se muitas justificações mas no Iraque, nos últimos anos, a única razão é: vamos estabilizar a situação para nos pormos a andar daqui para fora. É normal que pensem assim porque a maior parte nem sabe que a guerra no Afeganistão começou após o 11 Setembro.

Acredita que as tropas americanas conseguirão pacificar o Iraque?

É muito difícil fazer uma previsão. Estive lá em 2001, numa guerra diferente com os talibãs onde estava nas nossas mãos a decisão. Agora, não sei se voltaremos a dominar.

O modo como escreve a reportagem também mudou?

Os talibãs eram gente estranha e até parecia que andávamos num cenário do Velho Testamento; no século XIV ou até que estávamos a aterrar na Lua. Agora ainda é assim em muitos lugares mas há uma diferença no Governo, é mais sofisticado mesmo que ainda se viva como no século XIV. Não esqueço que em 1998 assisti a execuções e amputações públicas no estádio de Cabul, um tempo ainda mais estranho.

Há um olhar diferente na escrita?

Somos livres de escrever o que queremos mas agora é mais difícil correr o país, tal é o perigo fora de Cabul. Tento fazer as mesmas perguntas e responder do mesmo modo mas o noticiário não mudou tanto assim.

E o olhar do New York Times e dos EUA mudou?

Eu sou livre de escrever o que quero. O editor pergunta o que se está a passar e pede o relato da situação. A única obrigação é ser justo. É claro que o tempo político está diferente nos EUA, mas isso também acontece na própria Europa.

Mesmo com Obama a governar?

Obama decidiu claramente um caminho que quase duplicou os efectivos. Pôs o jogo todo sobre a mesa.

O que pode gerar uma guerra sem um fim à vista?

Esta guerra é como um grande avião que está há anos a voar na direcção errada. O que se espera é que se consiga achar o rumo certo.

O título do seu livro - Guerra Sem Fim - podia ser bom título de ficção se não fosse tão premonitório?

Não queria fazer uma análise da guerra no livro mas sim mostrar como é estar no terreno. E lá, parece que o fim não está à vista, mesmo que não seja o fim do mundo como acontecia em 2005/6 no Iraque.

Não quer fazer análise, mas é muito real quando descreve os B52.

É mais uma questão estética porque é uma imagem impressionante, quando se está no Afeganistão, o ver chegar esses bombardeiros que voaram seis mil milhas para deixarem cair bombas com 2 mil quilos. Isto num país que tem um céu tão azul que obriga a reter a imagem para sempre. É impossível não fazer alguma análise ao que se assiste.

O que existe ainda do velho Iraque?

A sociedade colapsou em 2003 e só nos últimos anos é que recuperou de um modo que até julgava impossível. É um lugar totalmente diferente, onde a violência tem diminuído, e com uma quantidade de refugiados que é trágica.

Os EUA conseguem entender o fenómeno destas guerras religiosas?

Não sei se a guerra no Afeganistão e no Iraque tem origens religiosas. Há esses aspectos na guerra civil mas não serão os dominantes.

Será o próximo estágio da guerra?

Para os jovens a preocupação é encontrar emprego ou ir à escola. Até podem ver os EUA como o invasor mas não o vêem como os cruzados de antigamente. Se falamos da Al-Qaeda, há que ver que são apenas uma pequena parte do problema.

Esperava que as tropas dos EUA falhassem a captura de Ben Laden?

Estive em Tora Bora mal acabou a batalha para o capturar e vi as caves e túneis onde ele se escondia... Nessa fase da guerra, os EUA estavam muito relutantes em pôr tropas no terreno e entregaram certas missões aos afegãos. E, eles não cumpriram porque achavam que deveria ser os EUA a fazer o trabalho. Um dos fantasmas que há que exorcizar após o 11 de Setembro é a relutância em pôr soldados no terreno.

Justifica-se que tenham morrido mais americanos nestas guerras do que no atentado das Torres Gémeas

A guerra do Iraque foi catastrófica para americanos e iraquianos e vai demorar anos para se reparar os efeitos. As guerras, dizem, são uma série de catástrofes que acabam numa vitória. Penso que aqui ninguém a pode reclamar com tanto sangue.

Alguma vez teve medo de morrer?

Quem faz este trabalho sabe que o medo é um amigo e uma protecção. Ouvimos uma voz vinda da mente a dizer "Baixa-te ou deita-te para o chão". Isso mantém-nos vivos. Quase fui morto várias vezes.

Ser correspondente hoje é muito diferente de quando Hemingway era?

Identifico-me mais com Ryszard Kapuscinski.

Usou a burka para se disfarçar?

Basta olhar para mim para ver que não engano ninguém, mas confesso que já o tentei em 2005, numa zona controlada pela Al-Qaeda. Senti-me um idiota completo porque fisicamente pareço mais um agente da CIA e com a burka assemelho-me a um agente de burka.

Sente-se muito a presença da CIA?

Eles estão lá. Recorri uma vez à CIA porque uma jornalista foi raptada mas de resto não dou por eles.

Esta guerra dá força ao terrorismo?

A do Iraque foi um íman para os terroristas e foram para lá vindos de todas as partes do mundo para lutar contra os americanos. Acreditavam que se os combatiam ali era como se estivessem em plena Nova Iorque a lutar. A invasão do Iraque fez crescer o número dos que queriam combater a América e em gente que não tinha esse sentimento antes.

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MensagemAssunto: Escritor Alexandre Parafita respondeu ao Transmontanos de Gema   Sab Maio 08, 2010 3:57 pm

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«Deslumbrar crianças não é fácil»
Sabrosa



Escritor Alexandre Parafita respondeu ao Transmontanos de Gema

Já foi jornalista, ainda é professor, mas é na literatura infantil que se tem notabilizado. O duriense Alexandre Parafita já publicou mais de uma vintena de livros. A maioria relata lendas transmontanas. Não admira.

O autor nasceu a ouvi-las da boca dos avós, que o impediam de ir para a mina na vinha, dizendo-lhe que viviam lá mouros. Mas se na escrita é transmontano quanto baste, no prato e na pinga, só o “essencial”. E escrever para crianças é fácil? Nada disso. Porquê? Porque “a criança não lê livros para fazer favores a ninguém”.

Semanário TRANSMONTANO (ST): A primeira pergunta é da praxe, considera-se um transmontano de gema?

Alexandre Parafita (AP): Sim, e reforçadamente, na medida em que sou duriense, sou do coração do Douro, do vinho do Porto, de Sabrosa e, portanto, tenho toda a minha família aqui radicada, em Trás-os-Montes, e, portanto, sinto-me perfeitamente identificado com as minhas raízes e presumo que essas características servem para me qualificar dessa forma.

ST: Estudou no Porto, passou também por Coimbra, quando estava fora como é que fazia para matar saudades de Trás-os-Montes?

AP: Sim é um desconforto imenso, ainda hoje e quando estudava, de facto quando estou fora de Trás-os-Montes só sossego quando regresso, porque as grandes cidades incomodam-me muito, o bulício, as pessoas não se conhecerem, não se cumprimentarem com à vontade. De facto, quando eu estudei, tinha mesmo de frequentar essas instituições de ensino, para poder fazer o percurso académico que escolhi, mas só sossegava quando chegava a Trás-os-Montes.

ST: Parte da sua obra são lendas transmontanas é de alguma forma um tributo à região?

AP: De certa forma é, no entanto, esta vontade que eu tenho de trabalhar com as lendas e de tudo o que tem a ver com o património imaterial tem muito a ver com a devoção que eu desde muito novo fui sentindo em relação à região. Eu, de facto, criei-me quase que diria num conto de fadas, porque fui deixado pelos meus pais entregue aos meus avós muito novo e, portanto, recebi as influências todas daquele nicho de cultura popular, de vivência tradicional, rural e isso marcou-me muito. Senti-me quase impelido naturalmente a enveredar por este caminho, portanto, as lendas, no fundo, é um pouco do corolário de todo o percurso que eu fiz desde a minha infância.

ST: Tem memória da primeira lenda que lhe foi contada, a primeira história, tem alguma na memória, que lhe tenha ficado gravada?

AP: Sim, tenho, de facto, embora nessa altura estava muito longe de imaginar que um dia as minhas inquietações académicas e profissionais iriam recair aí. Lembro-me, perfeitamente, de o meu avô, quando eu o acompanhava nas enxertias, numas vinhas que ele tinha nos subúrbios de Sabrosa, de ele não me deixar ir para junto de uma mina - claro que a preocupação dele era que eu me metesse para dentro da mina e ficasse nalgum açude por lá e ele depois não sabia onde é que eu estava - mas ele amedrontava-me a dizer que ali estavam os Mouros.

ST: Foi jornalista durante vários anos, também nesta profissão acha que deve haver algum bairrismo, já alguma vez o praticou?

AP: Sim, julgo que sim, embora as pessoas não devam estar obce-cadas pelos sentimentos bairristas, porque um jornalista tem de se convencer que tem de ser isento, e se ele é excessivamente bairrista, não é isento. Mas enquanto jornalista eu procurei sempre não me desvincular da realidade em que estava emergido e eu trabalhei essencialmente em Trás-os-Montes e procurava não me deixar dominar pelas preocupações e inquietações do meio, mas tenho que reconhecer que em muitas circunstancias o sentimento bairrista estava presente.

ST: Acha que os transmontanos ainda são olhados com algum desdém?

AP: Presumo que actualmente está-se a esvair muito esse estigma que recaía sobre os transmontanos, hoje, um transmontano é muito reconhecido, vejo que o presidente do PSD é vila-realense, conheci-o na infância dele, convivi, inclusivamente, com ele, vi-o nascer, vi-o crescer. Hoje é normal um transmontano ser professor catedrático, ser actor, ser músico. Antigamente, isso era mais difícil, não havia acessibilidade a determinados cargos, a determinados estatutos e, quando se olhava para um transmontano, estava-se sempre à espera de ver alguém diferente, com uma grande samarra, ou com um aspecto mais campestre, serrano, hoje em dia penso que não, eu pessoalmente não tenho razão de queixa e presumo que a circunstância de ser transmontano para mim é uma mais valia.

ST: Agora passando para outra área, para o prato, come pratos transmontanos?

AP: Também aí não sou muito bairrista. Os pratos transmontanos são pratos muito fortes, muito pesados e eu não gosto de refeições pesadas, mas provo sempre. Em Sabrosa, por exemplo, fazem-se enchidos espectaculares, e eu gosto de comer, mas como sempre pouco, o mínimo possível, porque a gente sabe que se come muito, depois, a saúde também acusa....

ST: Transmontano, mas pouco, no prato....

AP: Sim, no prato, sou o essencial e também na pinga, também gosto de beber vinho, sobretudo da minha região, do Douro. Bebo, naturalmente, com moderação.

ST: Já foi jornalista, já foi professor e porque é que decidiu ser escritor?

AP: Foi acontecendo aos bocadinhos, desde muito novo tive sempre o gosto pela escrita, já no ensino primário eu gostava muito de escrever, de fazer quadras, fazer rimas, portanto, brincar com as palavras e procurar tirar efeitos estéticos do uso das palavras já me vem desde a origem. A minha avó cantava muito, cantava lengalengas e eu fixava-as, tentava reproduzi-las, às vezes, procurava reproduzi-las, acrescentando sempre alguma coisa, portanto, eu era menino para aí com 8, 9 anos e, no fundo, já estava a fazer poesia. Depois, quando fiz o curso de professor de 1º ciclo de ensino básico, lidava muito com as crianças. No mês de estágio, lembro-me que eu escrevia contos infantis para as crianças, abdicava muitas vezes dos textos dos manuais e levava-lhes sempre, às segundas feiras, as minhas histórias e eles gostavam e fui percebendo que era capaz de ter jeito para escrever literatura infantil. Mais tarde, quando senti um vazio muito grande por não desempenhar a profissão de professor primário, que foi a profissão que os meus pais me deram, senti necessidade de comunicar com as crianças através dos livros, através da literatura infantil e foi aí que eu fui descobrindo que tinha uma linguagem acessível às crianças e que conseguia deslumbrar as crianças.

ST: Acha que é reconhecido por cá? Por Trás-os-Montes?

AP: Minimamente, também não sou muito exigente. Eu sei perfeitamente que no nosso meio, os nossos companheiros normalmente não são os nossos fãs, eu não cultivo muito popularidade, deixo correr, através do que vou escrevendo e vou vendo, mas tenho de reconhecer que é fora de portas que os meus livros mais são reconhecidos, repare, eu sou transmontano e a maior parte dos meus livros faz parte do Plano Nacional de Leitura, eu nem conheço as pessoas que escolheram os meus livros, que os seleccionaram, são pessoas de Lisboa, nunca os vi, nem sei quem são e não sei se aconteceria o mesmo se as pes-soas que escolhessem os livros fossem por exemplo do meu meio.

ST: Acha que a Literatura infantil ainda é considerada um género menor ou não?

AP: Actualmente não, noutros tempos era, era porque quando se escrevia para crianças - também se escrevia pouco para crianças - mas, quando se escrevia, não se pensava muito nas crianças tal qual elas são, não se pensava muito em deslumbrar as crianças. Muitas vezes, as pessoas escreviam para se libertarem a elas próprias, para reelaborarem as suas raízes, a sua infância e faziam-no de uma forma fácil e pensavam que, fazendo de uma forma fácil, servia para as crianças. Mas hoje não, hoje tem-se a noção que escrever para as crianças não é fácil, é subir para um patamar que não está ao alcance de todos, porque comunicar com a criança é fácil, mas deslumbrar a criança não é tão fácil assim. Se o autor não a deslumbrar, ela deixa-o pelo caminho, a criança não lê livros para fazer favores a ninguém, enquanto que um adulto lê um livro porque está na moda esse autor, porque a televisão fala muito nesse autor, a criança não vai por aí, uma criança lê se o texto a deslumbra e isso não está ao alcance de qualquer autor.

ST: Para rematar gostaríamos de ouvir da sua boca uma definição de transmontanos de gema.

AP: Um transmontano de gema, presumo que seja alguém que se sente deslumbrado com as suas raízes e que procura que as suas raízes sejam a catapulta para o seu crescimento, para a sua vida social e para ajudar também os seus parceiros, os seus conterrâneos a sentirem-se felizes. Um transmontano tem que se deslumbrar com as suas raízes, mas tem também que contagiar os outros transmontanos nesse deslumbramento.

Margarida Luzio, Semanário Transmontano, 2010-05-07
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MensagemAssunto: "Em ano e meio de funções nunca falei a sós com o PM"   Dom Maio 09, 2010 3:41 pm

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"Em ano e meio de funções nunca falei a sós com o PM"

por JOÃO MARCELINO (DN) e PAULO BALDAIA (TSF)
Hoje


Um ano e meio depois de tomar posse nas polémicas funções de secretário-geral do Sistema de Segurança Interna, Mário Mendes garante que nunca foi pressionado pelo Governo. Prevê um aumento de perturbações sociais, na sequência da crise económica, mas garante que há planos de contingência a ser preparados pelas forças de segurança.

A criação do seu cargo, há cerca de ano e meio, levantou muita controvérsia por a lei o ter colocado na dependência directa do primeiro-ministro. Falou-se em governamentalização da segurança interna. Fala muito com José Sócrates?

Não. Mesmo muito pouco. Neste ano e meio de mandato que levo cumprido encontrámo-nos duas vezes em dois conselhos superiores de segurança interna e, fortuitamente, numa ou outra comemoração.

Em ano e meio, nunca falou com ele a sós?

Não. As competências de tutela do cargo foram delegadas no ministro da Administração Interna e, nessa medida, é com o ministro da Administração Interna que tenho de colocar as questões. Também não ocorreu nenhuma circunstância de tal gravidade que tivesse de colocar directamente ao primeiro-ministro.

Sentiu-se alguma vez condicionado pelo Governo nas suas decisões?

Nenhuma vez. Eu exerci funções de director da Polícia Judiciária, foi o primeiro cargo que exerci fora da magistratura, no tempo em que era primeiro-ministro o professor Cavaco Silva. E é uma coisa de que me recordo: nessa altura, enquanto director da Polícia Judiciária, nunca sofri qualquer espécie de pressão no sentido de conduzir as coisas desta ou daquela maneira.

Quais foram as maiores dificuldades que o seu cargo lhe colocou durante este ano e meio?

Fundamentalmente, foi a tentativa de mudar uma mentalidade que está instalada e que compartimenta muito a linha de actuação das diversas forças de segurança. Criar uma mentalidade de cooperação e coordenação não é fácil, é um trabalho que tem sido desenvolvido não só em termos daquela parte técnica que irá permitir a interoperabilidade dos diversos sistemas de operações mas na realidade do dia-a-dia, na cooperação que se estabelece no dia-a-dia.

Pela resistência das diversas forças de segurança a perderem o controlo sobre aquilo que consideravam serem os seus pelouros?

Nós temos um bocadinho essa ideia, dividimos muito o País em pequenos quintais. A mentalidade de minifúndio está bastante instalada neste país e é necessário que as pessoas, pelo menos quando entramos em campos da administração pública e da tutela do interesse público, potencializem ao máximo os recursos que estão disponíveis. E essa potencialização dos recursos passa pela instalação de uma mentalidade cooperante.

Ano e meio depois, pode dizer-se que os comandantes das diferentes forças aceitam melhor as ordens do juiz-conselheiro Mário Mendes?

Aceitam pelo menos as directrizes que vou estabelecendo, não
propriamente ordens, porque legalmente não as posso dar. Mas aquilo que vai sendo estabelecido, falamos frequentemente a nível do Gabinete Coordenador de Segurança, estabelecemos exactamente estratégias comuns e as posições têm sido bem aceites.

Quando assumiu este cargo, defendeu uma tutela única para as polícias. Isso é um primeiro passo para uma polícia única em Portugal?

Não. É um passo importante exactamente naquilo que estou a dizer, na administração dos meios. Até perante a actual conjuntura económica e financeira, os recursos do Estado são escassos e têm de ser geridos de uma maneira tendente a optimizá-los. E essa optimização dos recursos passa, entre outras coisas, por haver uma gestão única dos meios.

Mas uma polícia única não?

Eu sou contra uma polícia única. Sou a favor daquilo que é considerado e que historicamente está consagrado no nosso país como um sistema dual, portanto, a existência de uma polícia civil e a existência de uma forma de segurança de natureza militarizada. Esta é uma construção típica dos países do Sul da Europa, um modelo muito francês adoptado também pelos espanhóis, pelos italianos e historicamente adoptado por nós. Quando falo em polícia única, estou a falar na questão de saber se faz ou não sentido a junção na mesma força e na mesma tutela da Polícia de Segurança Pública e da Polícia Judiciária. E esse cenário não o afasto, pelo seguinte: historicamente, a Polícia Judiciária nasce no pós-guerra, nos anos 50, como uma polícia directamente ligada ao Ministério Público. O Ministério Público tinha um braço armado, que era a Polícia Judiciária, os próprios magistrados do Ministério Público tinham poderes de Polícia Judiciária. Eu lembro-me: quando entrei para a magistratura do Ministério Público, em 1973, era o representante da Polícia Judiciária na comarca onde exercia funções. Simultaneamente, as chefias da Polícia Judiciária, a nível daquilo que hoje são os coordenadores, eram magistrados do Ministério Público. Os directores ou eram juízes ou eram magistrados do Ministério Público. Chegou a haver uma altura em que uma brigada investigava, o inspector-chefe da brigada acusava e chegava-se ao ponto de o director da polícia ter poderes de instrução criminal e decidir as medidas de coacção. Era tudo dentro da casa.

Mas hoje a magistratura e a polícia estão separadas.

Não há nada mais fora do Estado de direito, julgo eu, e das garantias dos cidadãos, do que isto. Hoje está separado!

Defende uma tutela única para as três polícias ou uma tutela única e duas polícias, uma militarizada e uma civil? Ou seja, PSP e PJ juntas?

Neste momento, a solução de uma tutela única ou mesmo a solução da existência de um cargo idêntico ao meu, mas com alguns poderes de tutela efectiva, que não tem, permitiria - e eu salientei isso no meu discurso de posse - preservar a história de cada uma das instituições e manter a tradição destes três corpos de polícia, não sendo necessária a junção de duas polícias numa só. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, a preservação da situação actual é mais consentânea com uma tutela única ou com um cargo que exerça essa tutela de charneira do que um sistema igual àquele que temos hoje.

Há menos de dois meses, e a propósito da partilha de informação com os espanhóis sobre terrorismo e crime organizado, o director da Polícia Judiciária, Almeida Rodrigues, foi duro a desvalorizar a unidade de cooperação policial criada por si. Ou seja, até para saber quem leva a informação aos espanhóis há uma certa desconfiança ainda instalada. Há ainda um longo caminho a percorrer? Como é que interpreta esta atitude da Polícia Judiciária?

Eu suponho que poderá ter havido um equívoco da parte dele, essa é uma questão que está esclarecida. Esse grupo que sai do memorando de cooperação entre Portugal e Espanha não é de forma nenhuma um grupo institucionalizado. É um grupo com uma geometria variável que reunirá com os espanhóis com uma formação que será de elementos da polícia com competência para tratar das matérias que vão ser objecto de conversação com os espanhóis.

A Polícia Judiciária olhava para esta unidade como tendo acesso a informação, e o senhor juiz-conselheiro tendo acesso a informação que não poderia ter, portanto, não faria sentido existir esta unidade.

É todo um equívoco, nem sequer assisto às reuniões! Não assisto porque acho que não devo assistir, profissionais da polícia estão muito mais à vontade a falar entre si do que se estiver uma qualquer tutela, seja eu, seja outra qualquer. Normalmente, quando se passa às reuniões operativas ficam aqueles que têm de tratar dos assuntos. E se é um assunto que está na competência da Polícia Judiciária, pois irá um representante da PJ que o senhor director designará. Agora, se for uma situação que interesse a mais do que um órgão de polícia criminal, pois irão representantes desse órgão. Há aqui mais uma vez um equívoco em relação à matéria de cooperação: a matéria de cooperação, estabelecendo-se no campo da investigação, isto é, quando há um inquérito pendente em Portugal irmos falar deste inquérito com espanhóis, isto significa que terão de ir as pessoas que são competentes para tratar do nosso inquérito falar com as pessoas que são competentes para transmitir a informação que nós pretendemos. Isso é uma questão mais vasta que se coloca no campo, por exemplo, da prevenção. Se vamos falar com os espanhóis, voltando ao terrorismo, por exemplo, sobre os novos modus operandi da ETA, é uma realidade que interessa a todos.

Mudou alguma coisa na organização do nosso sistema de segurança interna desde que se confirmou a existência de operações da ETA em Portugal?

Há um reforço óbvio de atenção em relação a essa situação. Isso passa até exactamente por isto que está a acontecer, um diálogo quase permanente com os espanhóis.

O terrorismo é uma ameaça real para os portugueses?

É uma ameaça real para todo o mundo. Nós não estamos imunes a que ocorra aqui qualquer acto dessa natureza.

Que outros tipos de crime organizado o preocupam, para além do terrorismo?

Mantém-se muita preocupação relativamente ao tráfico de droga, continuamos a ter muita atenção aos movimentos de tráfico e à permanente alteração das rotas desse tráfico.

Passa muito por Portugal, a caminho da Europa?

Passa, direi que de uma forma suficientemente grave. Tanto em Portugal, como pela Espanha, pela Holanda. Passa de uma forma que eu considero que é suficientemente grave para exigir de nós uma atenção muito especial. Há um outro crime a que nós temos de estar muito atentos, que é a questão ligada à imigração ilegal e ao tráfico de pessoas. As rotas do tráfico de droga começaram com a entrada a fazer-se por Espanha, pela costa sul de Espanha, nos anos 70, 80. Com a intensificação do controlo por parte dos espanhóis, as rotas desviaram em parte para a costa portuguesa, o que está hoje a suceder em Espanha com alguns fenómenos.

Não só no Sul como no Norte, da Galiza para o Norte de Portugal.

Exacto. Mas aí não se põe tanto este problema que estou a colocar, porque é trânsito vindo do sul, que é o de tráfico de pessoas e de imigração ilegal. Temos de estar atentos, pode começar a ocorrer também em Portugal.

Há informação nesse sentido, de que as rotas de tráfico de pessoas se preparam para fazer um desvio para as nossas costas, que são mais vulneráveis?

Informação propriamente não há. Há análise e há esse cenário como um cenário possível.

No relatório de segurança interna de 2009 foi feita pela primeira vez uma referência aos chamados bairros de risco. Que prevenção é feita nesses bairros?

Em primeiro lugar, e antes de tudo, tem de haver uma prevenção de natureza social.

Tem de haver - e há?

Talvez não haja suficientemente. Há uma preocupação social, uma preocupação educacional, uma preocupação em cuidados de saúde. Há todo um conjunto de políticas públicas que têm necessariamente de estar sempre a montante da intervenção do sistema policial. O sistema policial não é solução para nada, é a última…

E, no país em que vive, teme que a necessidade de gastar menos dinheiro possa ser um handicap a essa prevenção de que fala?

Pode ser, eu reconheci-o no ano passado. Quando foi publicado o Relatório Anual de Segurança Interna relativo ao ano de 2008, em que houve aquela subida de criminalidade, muita gente falou de o ano de crise de 2009 poder vir a acentuar aquela tendência crescente. Eu aí entendi que não, porque, em primeiro lugar, não há uma relação directa entre situação económica e crime. Em segundo lugar, porque entendo que enquanto o Estado tiver capacidade para oferecer algumas medidas compensatórias a situação mantém-se mais calma. Agora, nós este ano estamos num ano difícil, toda a gente o reconhece e já nem sequer ninguém esconde, provavelmente há um conjunto de prestações sociais que vão sofrer cortes. Eu não direi que isto vá dar necessariamente um aumento de criminalidade, mas vai com certeza dar um aumento de alguma perturbação social.

E essa eventualidade está analisada? Há esquemas de segurança previstos para um eventual agravamento da tensão social no nosso país?

Estamos a trabalhar no sentido de estabelecer alguns planos de contingência para algumas situações que possam ocorrer.

Está a estudar o caso da Grécia? As perturbações sociais que lá estão a decorrer estão a ser estudadas pelo seu gabinete?

No meu gabinete não, mas neste momento há grupos de estudo que estão a analisar esse sistema e que nos estão a manter acompanhados sobre essa situação.

Já estão definidas ameaças emergentes para este ano? De que grupos é que é expectável uma maior radicalização? Fala-se já nos camionistas, porque já assistimos há uns anos a um problema de ordem pública por causa da intervenção dos camionistas. As polícias estão preparadas para enfrentar possíveis alterações de ordem pública como aquelas que já aconteceram?

Não vou referir particularmente nenhuma situação, mas é óbvio que nessa matéria de perturbação social há sempre grupos de risco: grupos de tutela de interesses profissionais que tomam atitudes mais radicais, grupos colocados em determinadas franjas ideológicas - caso dos radicais, libertários - e grupos sociais de risco. É a tal questão que me colocou, algumas pessoas que residem em bairros de risco e potencialmente constituem um risco de alguma perturbação social. Isso não é novo - o movimento dessas pessoas é permanentemente acompanhado, pelos sistemas de informações das polícias e pelas avaliações que são feitas pelos próprios serviços de informações de segurança.

O general Leonel de Carvalho, que pode ser considerado o seu antecessor no cargo, embora com competências diferentes, fez há pouco tempo críticas duras à nova Lei de Execução de Penas e afirmou que Portugal estava a tornar-se num paraíso para criminosos. Que comentário lhe merecem estas afirmações?

Não sei o que é que o senhor general emitiu, não tinha visto sequer. É uma novidade para mim essa informação.

Ele estava sobretudo a referir-se à possibilidade de um condenado poder usufruir de um regime aberto ao fim do cumprimento de um quarto da sua pena.

Sim, abstractamente pode. Mas eu não tenho uma visão tão crítica dessa nova Lei de Execução de Penas. É óbvio que isto dá alguns poderes que aparentemente podem ser excessivos à administração penitenciária. De qualquer modo, os actos da administração penitenciária estão sujeitos - a lei prevê-o - a uma tutela jurisdicional. Portanto, a administração penitenciária não pode decidir pelo seu livre arbítrio, tem um controlo judiciário. Mas caímos num erro muito grande quando relacionamos directamente a questão das penas e da administração penitenciária com situações de paraíso dos criminosos.

Acha portanto que em 2008 a entrada em vigor do Código do Processo Penal, que também libertou alguns presos preventivos, não teve nada a ver com a criminalidade que existia nessa altura?

Com certeza que teve alguma coisa a ver - agora, que não foi causa única também não foi. Mas é diferente, o sistema retributivo da pena e o sistema da pena em termos de prevenção criminal são aspectos completamente diferentes. Teremos de chegar à conclusão de que em países que têm sistemas extremamente radicais - como é o caso dos EUA: um homicida está no mínimo sujeito a uma pena de prisão perpétua, com facilidade entrará na parte da pena de morte nos Estados que ainda a mantêm - não haveria ou haveria poucos homicídios. Não é isso que está demonstrado. Essa segunda questão: é óbvio que acarretou a libertação quase ao mesmo tempo de grande número de pessoas que são potencialmente delinquentes. Eu não estabeleço uma relação absoluta de causa e efeito, mas que algum contributo deu, com certeza que sim.

Mas essa expressão, de eventual paraíso de criminosos, não compartilha essas preocupações?

Não. Acho que, apesar de tudo, nos mantemos como um país tranquilo, embora não possamos viver com esta ideia permanentemente.

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Romy

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MensagemAssunto: http://www.trasosmontes.com/forum/images/smilies/tiphat.gif   Sab Maio 15, 2010 10:22 pm

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D. DUARTE DE BRAGANÇA - «Em muitos aspectos concordo com José Sócrates»

por João Céu e Silva, fotografia Orlando Almeida/GlobalImagens


24 horas após ter dado esta entrevista, Dom Duarte foi recebido como um rei em Figueira de Castelo Rodrigo num jantar medieval.

Não é a única região portuguesa que reclama a sua presença nas suas terras e garante que a única câmara do Bloco de Esquerda e muitas autarquias comunistas o solicitam. No dia em que comemora o seu 65.° aniversário, a cinco dias de celebrar sessenta anos do fim do banimento da família real do território nacional, por decreto de Salazar, e em ano de centenário da implantação da República, o herdeiro dos reis de Portugal comenta a situação do país, aponta soluções e assume que o regresso da Monarquia já foi uma ilusão maior do que se pensa.

A bandeira da Monarquia nunca esteve tão presente em Portugal como no ano em que se comemoram os cem anos do fim daquele regime. Reconhecido em 2005 pela República como o pretendente oficial a um hipotético trono português e legitimado como o sucessor de D. Manuel II, é na fundação com o nome do monarca que não deixou sucessor que Dom Duarte Pio de Bragança recebe a NS’. Não comenta a política oficial em questões específicas mas é sem pudor que dá soluções para a crise nacional, designadamente no que respeita aos intentos do primeiro-ministro nas grandes obras públicas.

Antes de dar início à conversa, Dom Duarte faz questão de anunciar que as instalações da fundação vão ser transferidas durante algum tempo para um edifício de má memória, o da PIDE em rua próxima, de modo a poder-se recuperar o actual prédio. Explica com gestos definidos como vai ser a obra, que até possibilita a comparação entre alguma degradação que se observa no salão de entrada com a actual impossibilidade de um regime político onde seja rei e o fulgor da sede remodelada, numa altura em que crê estar tudo em aberto para num futuro próximo os portugueses aceitarem o regresso de um sistema de governação onde a sua presença não seja proibida como agora é.

Preparado para evitar as rasteiras de uma entrevista, Sua Alteza – como alguém sugere ser uma das formas de se lhe dirigir – mostra a sua educação ao vir receber a equipa à sala de entrada da fundação e, enquanto não se inicia a entrevista, oferece chá, café ou um sumo. Devido à extensão da conversa, lamenta no final não se ter pensado em encomendar um almoço. No entretanto, beberica o único chá que aprecia, chá branco, enquanto explica o modo da sua preparação e como lhe chega vindo da distante China.

A primeira preocupação que quer fazer chegar aos portugueses é sobre o TGV, uma proposta para a qual aproveitará a entrevista. Quando chega a hora de se perguntar qual seria o seu melhor marquês de Pombal, se José Sócrates ou Passos Coelho, é cauteloso. O mesmo acontece em relação aos candidatos à Presidência da República. Prefere citar casos nas monarquias dos seus primos europeus e exponenciar o caso espanhol, país onde «os socialistas aceitaram muito bem ter um rei» e de outros «socialistas europeus que não põem em causa a chefia real do Estado».

É a entrevista com um pretendente que está como o príncipe Carlos de Inglaterra impossibilitado de exercer o poder, cada um pela sua razão, mas que foi baptizado, por procuração, pelo Papa Pio XII e teve como madrinha a rainha D. Amélia.

Acha que o seu filho, o infante Afonso, poderá vir a ser rei de Portugal?

O Afonso ou eu! Observem-se as transformações e as mudanças económicas que estão a acontecer na Europa e no mundo e entende-se que poderão levar a situações sociais de grande conflitualidade e de instabilidade interna que farão que o povo português queira pensar e discutir as instituições políticas que tem hoje. Nomeadamente, se é o melhor o tipo de chefia de Estado.

Pela Constituição seria impossível.

E se houvesse uma reforma constitucional que retirasse a cláusula do artigo 288.° [que especifica um Estado republicano] e permitisse a possibilidade de um referendo sobre um regime monárquico?

Crê, então, que a actual crise dá mais força à pretensão de ser rei de Portugal?

Naturalmente. Quando as pessoas recebem os seus 13.° e 14.° meses e as reformas está tudo bem e não sentem vontade em mudar qualquer coisa. No momento em que sentem que está tudo muito mal e que toda a perspectiva para o futuro pode estar a ser alterada, creio que será altura também para pensar se não há instituições políticas mais úteis do que as que temos hoje.

Não considera, portanto, que está na mesma situação que o príncipe Carlos de Inglaterra. Lá, Isabel II não abdica, aqui, existe a República que lhe impossibilita o poder?

O príncipe Carlos, tal como eu, tem dado opiniões sobre muitos assuntos sociais e de ambiente que lhe interessam. Trabalhou como mineiro, agricultor e noutras profissões e conhece profundamente a vida de Inglaterra. É um pouco mal visto pelo meio financeiro e, em geral, os conservadores não gostam dele mas a juventude e os trabalhistas sim. Se compararmos, claro que tem um impacte muito maior do que eu naquilo que diz e faz mas as participações que tenho tomado na vida política e as opiniões que dou respondem por mim. Dando-as como cidadão interessado pelo país mas, obviamente, se estivesse num cargo de chefia de Estado ou de rei não o faria. Agiria como outros monarcas europeus que não debatem problemas concretos mas ajudam e colaboram com os governos ao dar opiniões positivas sobre os assuntos de fundo.

Tal como as que tem dado sobre as energias renováveis?

Todo o problema do modelo de desenvolvimento do país, particularmente a preservação do ambiente e da paisagem, exige um consenso nacional.

Propõe um Instituto de Paisagem e Ordenamento?

Exactamente e já o comuniquei aos membros do governo que, em princípio, pareceram-me interessados na ideia. O que hoje se defende são pormenorezinhos como a colónia de ratos, de morcegos ou de lagartixas que deve ser preservada aqui ou ali mas não é essa a abordagem correcta ao problema do ambiente.

Noto afinidade entre algumas das suas bandeiras e as do primeiro-ministro. Existe?

É verdade que em muitos aspectos concordo com José Sócrates, no entanto acho que temos de encarar a questão da viabilidade económica das energias. Parece-me que as eólicas são demasiado caras e todos pagamos pelo seu consumo. Portugal poderia ter muito mais energia com custos muito baixos se não desperdiçasse uma imensa quantidade dela, bastava a renovação de equipamentos das barragens para podermos aumentar em vinte por cento a produção hidroeléctrica. Fica muito mais barato e não tem o impacte paisagístico e ecológico das novas barragens.

Posso depreender que se a Constituição mudasse e o permitisse ser rei, José Sócrates poderia ser o seu primeiro-ministro?

O primeiro-ministro seria sempre escolhido pelo parlamento, como acontece nas monarquias actuais. Curiosamente, há muitas repúblicas que até há pouco tempo foram ditaduras, algumas ainda o são, mas no mundo ocidental todas as monarquias são democráticas.

Mas o rei tem sempre uma opinião pessoal sobre o primeiro-ministro?

Uma opinião que em nenhum país influencia a sua escolha. Agora, na Bélgica, o governo caiu mais uma vez e é o rei que conduz as negociações com os partidos para o novo executivo. Há quem diga que na Bélgica o rei é o único belga…

Também em Portugal atravessamos um momento político complexo em que o governo sente falta de maioria absoluta. Pode existir outra forma de governação em Portugal?

Sou a favor das coligações porque quando um partido está sozinho não há tanto autocontrolo nas despesas e nas iniciativas. Quando discute com outro há sempre mais controlo.

Surpreendeu-o a juventude do novo secretário-geral do PSD num partido habituado a líderes históricos?

Por um lado, é saudável e bom para o país que haja renovação. Por outro, é importante saber aproveitar a experiência, o conhecimento e a prudência das pessoas que têm mais idade. A experiência política é valiosíssima mas vejo algum distanciamento em relação a essas pessoas. Não é o caso de Mário Soares mas é o do professor Adriano Moreira, cujos conselhos são sempre úteis e oportunos, e de outras personalidades históricas pouco ouvidas. Penso que devíamos ter um Senado, equivalente à Câmara dos Lordes inglesa, em que personalidades que tiveram cargos importantes e por outras razões expressam as suas opiniões.

Qual seria o melhor primeiro-ministro para a monarquia, Sócrates ou Passos Coelho?

Isso não posso comentar porque, efectivamente, teria de tomar uma posição sobre a governação.

Mesmo afirmando que as monarquias na Europa têm enriquecido a democracia?

Estive nos 60 anos do rei da Suécia e o primeiro-ministro, que na altura era socialista, disse uma coisa curiosíssima no discurso oficial: «Sempre fomos um partido republicano mas agora chegámos à conclusão de que o rei é o melhor defensor da nossa República.» O primeiro-ministro holandês disse a mesma coisa, os ingleses dizem-no também e, hoje em dia, o socialismo europeu começa a defender os reis como protectores dos seus valores republicanos. O que mostra que o preconceito antimonárquico que ainda se vive em Portugal em certos meios políticos é do século XIX, de uma época em que os reis talvez interferissem muito na vida política nacional.

Também foi este governo socialista que fez questão de o legitimar definitivamente como o herdeiro da Casa Real.

O que prova a inteligência política e o pragmatismo porque a posição de muitos dos responsáveis socialistas é: se o chefe da Casa Real puder ser útil ao país vamos aproveitá-lo. O que é hoje em dia ser republicano ou monárquico? Querer ter o chefe de Estado eleito pelo sufrágio universal ou pelo parlamento, é isso ser republicano? Se é assim, há efectivamente um conflito de opiniões, mas também há muita gente que acha que ser republicano é defender os valores da independência dos poderes, da democracia e da liberdade e isso não é incompatível com ter um rei. Por isso é que os socialistas espanhóis aceitaram muito bem ter um rei em Espanha e todos os outros socialistas europeus não põem em causa a chefia de Estado real.

Se Salazar o tivesse designado como sucessor como fez Franco com Juan Carlos?

Em Espanha houve um referendo antes de instaurarem a monarquia.

Teria sido uma solução para Salazar?

Se o governo de Salazar tivesse preparado a situação com um referendo e um regresso à democracia com o rei, provavelmente não teríamos tido o drama da descolonização, porque o Ultramar poderia ter caminhado para uma autonomia progressiva que o levaria a uma Commonwealth como a inglesa.

É a sua opinião sobre a descolonização?

Foi a minha opinião nessa época e continua a ser. O pior que podíamos ter feito aos nossos irmãos lusófonos foi esta descolonização. Não era possível fazer pior e a prova é que lançou os países, sobretudo Angola e Moçambique, em guerras civis intermináveis; lançou a Guiné numa situação de miséria extrema e os únicos que se saíram mais ou menos bem foram S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde.

Acha que a descolonização poderia ter acontecido de outra forma após o 25 de Abril?

O 25 de Abril foi necessário após o falhanço do 5 de Outubro e da revolução militar de 1926. A I e a II República falharam e foi necessária uma terceira revolução militar. Só que como estava muito controlada pela União Soviética, esta quis rapidamente aproveitar a circunstância para entregar o poder aos movimentos políticos que lhe eram simpáticos. Que, viu-se, não foram aceites pelos povos e levaram a uma situação catastrófica.

Seria possível outra descolonização?

Sim, o general Spínola tinha proposto referendos e o Movimento das Forças Armadas prometeu uma transição democrática que levaria a referendos em Angola e Moçambique. Ou melhor ainda, a uma eleição para um parlamento nacional ou local que pudesse definir o futuro dos territórios. A entrega do poder aos movimentos guerrilheiros não podia ser pior.

Na altura apoiou o Movimento das Forças Armadas e a Junta de Salvação Nacional!

Apoiei o general Spínola, em quem tinha toda a confiança, e a Junta porque era constituída por gente de grande capacidade e calibre. Só que foram ultrapassados! Ainda estão por abrir os arquivos soviéticos da época e descobrir o que de facto aconteceu. Valia a pena ir a Moscovo aos arquivos do KGB, até porque uma parte dos arquivos da DGS [ex-PIDE] foram lá parar também.

Onde estará a sua ficha por causa de actividades «revolucionárias» em Angola?

Também lá a devo ter, exactamente.

Portanto, se Salazar o tivesse escolhido teria alterado o percurso histórico de Portugal?

Imediatamente e teria sido uma solução que evitaria todo este caos que sofremos em seguida.

Espanha fez o referendo. No actual Portugal, há quem o peça. Acha que a hora do referendo vai chegar?

Primeiro é preciso que se retire da Constituição o artigo 288.°, alínea B, que impõe como inalterável a forma republicana de governo e que os monárquicos propõem que seja substituído pela forma democrática de governo. Aliás, na última revisão constitucional, a maioria do parlamento quis aprovar essa medida mas não se chegou aos dois terços necessários.

Agora, o PSD tem Paulo Teixeira Pinto, um fervoroso monárquico, a redigir uma revisão da constituição. Abrir-se-á uma porta para o referendo?

Esse é um tema que devia interessar não só a monárquicos mas a todos os verdadeiramente democráticos. Quem é a favor da democracia não pode dizer que a capacidade de escolha do povo português tem de ser impedida pela Constituição. Além de que é um insulto aos países da União Europeia que têm reis e rainhas – como os suecos e holandeses – pois estamos a dizer que são povos atrasados porque têm um sistema de chefia de Estado inaceitável em Portugal.

Se o PSD for governo esse cenário poderá ser possível?

Se tiver o apoio de uma parte, pelo menos, do PS.

E poderá vir a acontecer?

Espero que sim e cada vez mais a nossa maturidade democrática avança nesse sentido.

Viveu toda a vida num regime republicano. Consegue vislumbrar um Portugal onde possa a existir a Monarquia?

Não vejo porque não. O problema é a maioria dos republicanos não terem argumentos mas preconceitos e é muito difícil discutir preconceitos. As pessoas dizem que não gostam da monarquia porque é um retrocesso ou um regime pouco democrático mas tais afirmações são erradas se fizermos uma análise política contemporânea. Até se compararmos o Portugal do século XIX com países da Europa vemos que éramos tão democráticos como a grande maioria deles, ao contrário de países menos democráticos do que nós e mais importantes, como o império alemão. Se actualmente as monarquias são mais avançadas do ponto de vista democrático e até económico, social e humano é devido à estabilidade que a Monarquia lhes proporcionou.

Espanta-o o hastear recente de bandeiras monárquicas em Lisboa?

Apenas mostra que há insatisfação em sectores da juventude. Nunca achei graves esses actos, até porque nunca houve falta de respeito para com a bandeira nacional actual nem uma bandeira republicana descida do seu mastro. Ou foi a da Câmara de Lisboa ou, no caso do Parque Eduardo VII, nem estava lá a bandeira. A que foi hasteada era uma bandeira nacional, a azul e branca como a de D. Afonso Henriques ou de D. João I, que merecem as mesmas honras e têm a mesma dignidade segundo a lei.

Viu as imagens da bandeira da monarquia no alto do Eduardo VII?

Sim, até fui lá ver.

Sentiu uma antevisão?

Esteticamente é lindíssima e não há dúvida de que os céus de Lisboa ficaram com uma imagem belíssima. Refira-se que a antiga comissão oficial nomeada para desenhar a nova bandeira da República propôs a azul e branca sem a coroa e com um conjunto de estrelas que representavam os territórios ultramarinos. Foi a comissão oficial! Esta bandeira foi imposta pela Carbonária, um movimento terrorista da época mas que conseguiu a revolta republicana. Para além do mais, tem um significado bastante perverso e perigoso, porque a Carbonária era a favor da federação ibérica e, de algum modo, o vermelho na nossa bandeira representa Espanha. Por isso é que o vermelho é maior que o verde [de Portugal] e não faz sentido dizer que era porque havia muito mais sangue do que esperança.

Porque é que afirmou que os manuais de História apelam ao fim da independência?

Os nossos manuais são, indirectamente, responsáveis por não glorificarem a História de Portugal. Acentuam aspectos negativos e diminuem a nossa auto-estima. Ao fazerem-no favorecem a rendição de Portugal aos interesses estrangeiros em vez de aproveitarmos a nossa história.

É mais um exemplo do falhanço da República?

É uma manifestação do falhanço do nosso regime actual.

Por isso é que no site da Casa Real se reproduz uma entrevista do historiador e «perigoso» bloquista Fernando Rosas em que diz que a República falhou?

Não concordo com a maior parte das posições do Bloco de Esquerda mas tenho no Bloco bons amigos e pessoas que admiro, tal como no Partido Comunista e em todos os sectores. Aliás, a câmara do Bloco de Esquerda [Salvaterra de Magos] e muitas câmaras comunistas convidam-me para visitas oficiais várias vezes, assim como câmaras CDS e PSD. Nos últimos anos devo ter visitado cerca de 150 municípios a convite dos seus presidentes.

O único comunista que não se dá bem consigo é José Saramago?

Não posso concordar com o que ele diz na maior parte dos livros, nem com o que afirma sobre Espanha – que é melhor sermos espanhóis. Com algumas excepções, não posso apontá-lo como um modelo da boa escrita portuguesa mas há uma coisa que admiro nele, a capacidade de promover a literatura portuguesa no mundo e a persistência e a continuidade com que defende as suas ideias, mesmo quando já estão manifestamente ultrapassadas.

Saramago diz que como não leu o Memorial do Convento não o poderia criticar.

Nós já fizemos as pazes e ficou muito satisfeito com a minha resposta simpática no Diário de Notícias.

Mas acha que o Memorial do Convento é, como disse, uma «grande merda»?

Não, o que eu verdadeiramente não gostei foi do que disse sobre a Virgem Maria. Quando diz que Cristo é um bastardo, enfim, cita aquela fábula antiga que ainda hoje é seguida por muita gente, a de que Cristo foi uma aventura da Virgem Maria. Não gostei, evidentemente, e no Memorial do Convento há umas fantasias políticas e históricas um bocado ofensivas.

Aquela caracterização um pouco violenta que lhe é atribuída foi uma resposta real?

Foi uma resposta espontânea quando um jornalista me apanhou à saída de um jantar… Mas a maior parte dos comunistas são patriotas e não é por acaso que Saramago está muito desiludido com Portugal.

Álvaro Cunhal também era patriota?

O Álvaro Cunhal era mais um internacionalista, que seguia o ideal marxista-leninista e o internacionalismo soviético. Se tivesse tomado o poder em Portugal teria sido um desastre.

Não haveria Monarquia, decerto?

Haveria fuzilamentos e perseguição política. Tem o mérito de ser um homem de ideais e de ter lutado mesmo que eu não concorde com eles. Julgo que a razão da adesão de uma grande parte do país, o Alentejo, aos ideais comunistas tem que ver com um facto muito interessante: até ao século XIX o Alentejo era governado pelos conventos e mosteiros, nos quais se vivia uma vida comunista. Com o liberalismo, as terras foram roubadas aos conventos e compradas por gente de Lisboa, que meteu lá capatazes que oprimiram e exploraram o povo alentejano. Muitos historiadores comunistas concordam comigo de que isto explica de facto a adesão do povo alentejano ao ideal comunista.

Vejo na sua reflexão uma análise marxista...

A análise marxista não está errada em todos os aspectos, a prática marxista é que tem sido sempre desastrosa porque baseia-se numa utopia que é incompatível com o comportamento humano. O regime comunista foi o maior desastre do século XX, junto ao regime nazista, só que este durou poucos anos e não teve ocasião de fazer tantos estragos como o comunista. O certo é que o idealismo dos comunistas pode ser posto ao serviço de boas causas, tal como a protecção do ambiente e a protecção dos valores locais.

Quando refere a utopia comunista não a compara à monárquica?

Não, porque vemos como funcionam bem onde existem. Utopias são regimes que funcionam mal quando estão no poder.

Foi por essa razão que Guerra Junqueiro, em 1911, disse que se se fizesse um plebiscito haveria menos republicanos que antes do 5 de Outubro?

Neste momento a maioria das pessoas não tem uma opinião fundamentada sobre esta alternativa porque não sabem quais são as diferenças e não observam o resto da Europa. Mas a quantidade de pessoas que concordam que um rei seria melhor que um presidente da República para Portugal é muito grande.

É por isso que defende que dos dez milhões gastos para fazer as comemorações do Centenário da República, um milhão deveria ser para a reposição histórica?

É preciso um debate e um estudo sérios sobre o que é que aconteceu na altura e o resto devia ser usado em homenagem aos idealismos do 5 de Outubro, porque os ideais dos revolucionários até eram muito bonitos. Pode-se fazer uma homenagem a essa gente utilizando a verba para fins úteis, concretos e importantes! Estou é preocupadíssimo com a falta de integração cultural e profissional dos filhos dos imigrantes, com o facto de termos regiões inteiras que estão marginalizadas do desenvolvimento humano e económico e com a falta de preservação da língua portuguesa na Guiné, em Moçambique e Timor. Acho que isso devia preocupar-nos bastante.

A questão da educação preocupa-o?

Preocupa-me muito e tenho aproveitado a experiência das escolas João de Deus para ir ver o trabalho que fazem nos bairros suburbanos de Lisboa. Desse modo, vejo a utopia que é o nosso sistema oficial de ensino, cheio de bons ideais mas muito desajustado das realidades que a nossa juventude necessita. Por isso é que temos os piores resultados escolares da Europa.

Acha que se devia avançar com medidas rápidas?

Sim. Primeiro, dar aos professores segurança e garantia para que o sistema escolar funcione e rever os programas que estão muito desajustados. Vejo essa situação porque todos os dias tento acompanhar os meus filhos nos estudos e fico revoltado com os programas, nomeadamente no Português e na Ciência. Quando falo com os professores do ensino público, concordam que estamos a criar uma geração de ignorantes com consequências gravíssimas para o futuro do país.

Considera que o país está mais preocupado com as causas fracturantes do que com a realidade?

Claro! Tornar obrigatório o ensino da educação sexual resume-se a dizer: forniquem à vontade, divirtam-se, façam o que quiserem mas com higiene. Praticamente é só isso, em vez de dar referências éticas e morais em relação ao desenvolvimento de uma sexualidade saudável. Ao mesmo tempo, desencorajam-se as aulas de educação moral e estamos a dizer que a moral não tem importância, que só a sexualidade livre é fundamental para a felicidade dos portugueses.

Há questões, como o divórcio, que na Monarquia seriam impossíveis!

Hoje em dia é mais fácil despedir a mulher ou o marido do que um funcionário de uma empresa. Ora, a estabilidade de um emprego não é mais importante do que a estabilidade da família.

A questão do aborto também?

A lei do aborto livre é para muitos uma lei que escraviza as mulheres porque hoje ela pode ser obrigada a abortar pelos patrões, amantes e pais. Esta é a situação de muitas mulheres, pois é raro que queiram abortar por vontade própria. Esta lei, que as escraviza, é ultraliberal e ultracapitalista e não percebo como é que a esquerda em Portugal apoia isto.

Uma esquerda que também apoia o casamento homossexual...

Esse é um problema mais complicado porque há uma confusão entre o direito a viver junto, a ter alguns benefícios fiscais, a ter certo reconhecimento legal para pessoas que querem partilhar a sua vida e que muitas vezes até podem ser duas velhas amigas, vizinhas ou irmãos. A legislação sobre o casamento tem basicamente o objectivo de proteger as crianças e creio que não se devia confundir o casamento como unidade que pode produzir uma futura geração, educá-la e ter responsabilidades nela, com as uniões de facto que podem ser aquelas que interessam aos homossexuais. Dizia alguém – a brincar claro – que hoje os padres e os homossexuais é que se querem casar, os outros preferem as uniões de facto porque dão-lhes menos responsabilidades.

A sua mulher, Isabel de Herédia, está um pouco desagradada pela religiosidade europeia. Diz que está adormecida e que as pessoas têm vergonha. Partilha dessa opinião?

Há muitos países europeus hoje onde se pode dizer que há mais muçulmanos praticantes do que cristãos. Felizmente não é o caso de Portugal, onde o cristianismo ainda é bastante praticado. Talvez a maioria dos portugueses o faça só um pouco formalmente mas ainda assim teremos uns vinte por cento de portugueses regulares na religião. No entanto, há países onde se leva mais a sério a religião enquanto em Portugal as pessoas substituíram a Igreja pelos hipermercados. Não é positivo, mesmo para quem não tenha fé.

A Senhora Dona Isabel também diz que se pode ser intelectual mas tem de se ser laico.

Existe essa mania da parte de muitos intelectuais mas o Papa tem escrito livros interessantíssimos sobre o conciliar da fé com a inteligência e a lógica. Tem tentado mostrar que a espiritualidade e a lógica convivem e diz que a Europa é o fruto do espírito lógico grego e da espiritualidade judaica. Somos filhos dessa realidade e se a recusarmos corremos o risco de ter uma Europa sem bases espirituais, podendo facilmente cair em extremismos.

O que sentiu ao acompanhar Bento XVI à Terra Santa?

Tive um privilégio que gosto muito de lembrar quando estou com os meus primos, chefes de casas reais e reis, para ser um pouco snob com eles. Um momento que nunca conseguiram ter, tal como um almoço com o Papa e meia dúzia de pessoas em Jerusalém, na residência do patriarca latino, onde o Papa fez o elogio de Nun’Álvares ao dizer que foi o santo que mais gostou de canonizar. Refira-se que hoje há muita gente, entre palestinos e israelitas, que acham que São Nuno podia ser um modelo para os palestinos porque lutou pela liberdade do seu povo.

Crê que o conflito israelo-árabe terá um fim?

É indispensável. Os israelitas vão ter de encontrar uma forma de viver pacificamente e colaborarem com os vizinhos árabes. Não é possível continuar com uma situação que põe em risco o próprio futuro do Estado de Israel e a paz de todo o Ocidente! Nós, ocidentais, sentimos uma afinidade com a emigração europeia que foi para ali – que são os israelitas hoje – e se estabeleceu na terra que era dos antepassados mas este não pode ser um motivo para haver um conflito.

A administração Obama poderá inverter essa situação?

Tem mostrado grande vontade de resolver o problema.

No entanto, mantém grandes efectivos militares no Afeganistão e no Iraque!

É uma questão de segurança regional. Só quando esses países tiverem condições de garantir a sua própria estabilidade e segurança é que se podem vir embora.

Foi uma invasão que gerou uma onda de terrorismo violentíssima.

Essa é uma situação muito perigosa porque, por exemplo, um palestino que tenha perdido tudo, que veja a sua terra, a quinta e a casa ocupada por outras pessoas, não tem mais nada a perder. Ainda por cima se lhe dizem que ao morrer pela liberdade da sua fé tem uma vantagem espiritual!

Preocupa-o o avanço do islão na Europa?

Que é deliberado, pois a política das famílias numerosas é uma tentativa de controlar a Europa do futuro. E, pelo caminho da demografia actual, vão consegui-lo porque nós matamos os nossos filhos aos milhares pelo aborto.

Em 2005 reclamava da falta de liberdade de imprensa em Portugal. Ainda a sente?

Para os jornais a liberdade é total mas há grandes sectores da população portuguesa sem acesso à informação. Pode-se dizer que boa parte dos portugueses não se sentem representados na informação que temos e acham-se marginalizados. É o que vemos nas campanhas políticas, quando há ideias muito interessantes em pequenos partidos que são abafadas.

Tal como as ideias do Partido Popular Monárquico?

Nos últimos anos, essas são bastante desastrosas e a principal campanha do PPM tem sido atacar-me! Acho que os movimentos e partidos ecologistas mereciam mais destaque porque estão empenhados num dos grandes problemas do nosso futuro. Acho que não se defendem no parlamento os pontos de vista católicos. Não vejo um deputado africano no parlamento, ou de origem cigana. A representação dos portugueses está muito desequilibrada.

Foi sensível às escutas de Belém no Verão passado. Ainda não tem problemas em falar ao telemóvel?

Não me importo que me escutem e acho que os políticos também não deviam importar-se. Há assuntos que têm de ser segredo de Estado, mas esses são poucos. Quanto às conversas particulares dos políticos, creio que não deviam ser consideradas impróprias de consumo do público.

É a favor da revelação destas escutas do caso Face Oculta?

Não sei se há segredos de Estado verdadeiramente importantes nessas escutas que não deviam ser divulgados. Segredos que ponham em causa a nossa defesa, a segurança e a economia. Se houver casos desses, aí sim.

E se não existirem?

Se não existirem não há motivo para não serem revelados.

Concorda com a destruição das escutas ao cidadão José Sócrates?

Realmente não sei o que é que lhes aconteceu mas tenho impressão de que há alguns jornais que as têm.

Deveriam ser tornadas públicas?

Há outro aspecto a considerar, o caso de expressões e frases que se dizem numa conversa particular e que não ficam bem expostas em público.

Mas sendo essas palavras menos próprias limadas, acha que os portugueses têm direito a saber?

Pelo menos as comissões parlamentares deviam porque o parlamento é o órgão que representa o país.

Considera que o papel da imprensa na revelação dos altos salários e bónus é importante?

Tem sido útil e muito bom porque se a imprensa não falasse de muitos desses aspectos o país nada saberia. E isso em democracia não pode acontecer.

Faz hoje 65 anos. Preocupa-o a idade?

Principalmente estou preocupado em conseguir manter o ritmo dos meus filhos. Não quero ser ultrapassado por eles nas provas físicas, nos passeios de bicicleta e noutras coisas. Claro que qualquer dia o vou ser, mas quanto mais tarde, melhor!

Redes sociais

«A internet provoca divórcios»

A Casa Real está muito moderna. Tem um bom site e até está no Facebook!

Essa do Facebook não é de minha iniciativa. Cria-se aí um tipo de intimidade e de relacionamento que não me parece muito normal.

Mas representa a voz da Casa Real?

Sim e encontram-se lá as minhas declarações e posições. O problema é que há pessoas que ficam verdadeiramente maníacas desses meios que viciam – designadamente os adolescentes – e até provocam divórcios.

Usa telemóvel?

Com moderação.

E envia SMS?

Sim, uso as mensagens porque é prático, tal como troco correio electrónico com muita gente porque é mais confiável que o correio de países como Timor ou de África, onde há pessoas com quem preciso de falar.

Se calhar ainda o veremos no Facebook mais activo?

Não, eu acho que os correios electrónicos normais são perfeitamente suficientes, não faz falta esse tipo de comunicação.

União Ibérica

«É um pouco estúpido querer aquilo de que tantos espanhóis estão a tentar libertar-se.»

A questão da União Ibérica tem estado em foco e 42 por cento dos portugueses mostraram-se disponíveis. Qual é a sua opinião?

Essa resposta de algumas pessoas tem que ver com a revolta contra a situação em que vivemos e é uma forma de protesto violento por causa dos seus problemas. Não acredito que seja mesmo a opinião das pessoas! A resposta que daria é: oiçam os catalães, os bascos e os galegos, que explicarão o agradável que é ser dominado pelos castelhanos. Eu sou grande admirador do espírito castelhano mas quando se põem a mandar nos outros povos, o resultado é desastroso. Aliás, o grande triunfo da monarquia em Espanha foi exactamente as autonomias que permitiram às regiões espanholas não serem, de algum modo, dominadas por Castela. É um pouco estúpido da parte de certos portugueses quererem aquilo de que tantos espanhóis estão a tentar libertar-se.

Se a Monarquia voltasse, seria intolerante numa integração ibérica?

A Bélgica, o Luxemburgo e a Holanda vivem num sistema muito integrado há muito tempo, o Benelux, e anterior à União Europeia. Só que como são três monarquias, nenhum desses povos sente que está a perder independência ou identidade porque tem o seu próprio rei. No nosso caso, uma república fraca ou instável juntar-se a uma monarquia forte seria efectivamente a perda de soberania e um caminho perigosíssimo para os interesses dos portugueses. Duas monarquias podem-se juntar e colaborarem muito bem mas uma monarquia e uma república é a história do pote de barro e do de ferro que estão na mesma carroça. Se achamos que precisamos de estrangeiros para nos ajudarem a sair da situação em que estamos, não me incomodava que o ministro das Finanças fosse um alemão e o da Tecnologia um japonês… Isto é uma caricatura, mas haver técnicos alemães ou japoneses a aconselharem a nossa administração já vejo bem.

Obras públicas

«TGV sim mas sem a terceira travessia do Tejo»

É a favor do TGV?

Sim e acho indispensável termos uma ligação ferroviária em bitola europeia com a Espanha e o resto da Europa. No entanto, penso que poderíamos economizar mais de metade dos custos de ligação com Espanha – mais de dois mil milhões de euros – se não fizéssemos a nova ponte e utilizássemos antes uma das estações da Fertagus na margem sul para efectuar a ligação das redes ferroviárias do Algarve e dos comboios que andam à volta de Lisboa. Pouparíamos mais de metade dos custos e evitaríamos um enorme atentado paisagístico em Lisboa que esta ponte irá provocar. Outro aspecto gravíssimo é o de a ponte impedir a navegação dos navios grandes para o mar da Palha e desactivar todo o enorme potencial do porto de Lisboa. Acho que há todas as vantagens em evitar esta nova ponte e seria uma maneira de o governo e a oposição chegarem a um acordo: manter-se o compromisso de fazer a linha de alta velocidade e diminuir o investimento necessário.

As obras públicas que o governo pretende e que a oposição critica são uma solução para a crise económica?

Há imensas pequenas empresas em Portugal que poderiam ser encorajadas a aumentar e substituir as importações, que é o que precisamos para poder diminuir a dívida externa. Por outro lado, se as empresas de construção civil trabalhassem no restauro das áreas degradadas das cidades dariam mais emprego e seria um investimento que ficaria em Portugal em vez de em parte ir para o estrangeiro, como acontecerá com as grandes obras.

Como é o caso do novo aeroporto?

Se me provarem que o novo aeroporto é indispensável, tenho de o aceitar. Neste momento creio que não é, nomeadamente aproveitando a área da base militar do Figo Maduro, que pode ir para Beja, e com o desvio para o Porto de parte dos voos intercontinentais para as Américas. Até se beneficiaria do mercado da Galiza! Todos os estudos feitos por quem percebe de aviação dizem que não há razão, hoje em dia, para fazer um novo aeroporto.

Eleições presidenciais

«Tenho estima pelos três candidatos»

Vai votar nas eleições para a Presidência da República?

Não voto por uma questão de princípio porque acho que o sistema republicano de chefia de Estado não é o melhor. Por outro lado, também é por uma questão de não tomar partido. Ainda por cima, neste momento é uma situação delicada porque os três candidatos são pessoas por quem tenho muita admiração e estima.

Ronald Reagan sugeriu que se deveria candidatar a presidente. Admite-o?

Disse isso num jantar que tivemos na Casa Branca: «Eu sei que o senhor pode ganhar.» Na altura achei a ideia muito interessante e quando cheguei a Portugal reuni o meu conselho privado para lhes perguntar a opinião, mas quase todos foram contra. No entanto, ainda hoje há no conselho privado uma pequena minoria de pessoas que considera que seria uma boa alternativa.

Se concorresse, qual seria o candidato que seria mais difícil de derrotar?

Se concorresse, a minha posição tinha de ser de simpatia pelos outros candidatos e, principalmente, explicar as vantagens da chefia de Estado real. Como isto não está em questão, não vale a pena falarmos do assunto.

Qual será o desfecho deste confronto eleitoral?

As pessoas deveriam ter vários motivos para escolher um presidente: os seus ideais; a capacidade de ver o Portugal do futuro; o pragmatismo; ponderar quem é que pode ser mais eficiente para colaborar com os governos e ajudá-los a governarem bem e a controlá-los. Não deveria ser a simpatia pessoal... E, depois, há uma maioria que não vota, como se tem visto pelo abstencionismo, porque acha que não é importante: nas europeias sessenta por cento não votou e nas últimas legislativas houve quarenta por cento de não-votantes. Provavelmente por não se sentirem representados pelos partidos em jogo ou porque não acreditam de todo na democracia actual da República.

Futebol

«Desagrada-me o desporto como circo»

Qual é o seu clube?

Em criança gostava muito do Benfica, porque era o clube que tinha só jogadores portugueses. Mais tarde interessei-me pela Académica porque era mais amador e estava a viver perto de Coimbra. Hoje em dia acho que os grandes clubes deviam dedicar-se mais ao desporto, serem grandes mobilizadores da prática desportiva no país e menos do espectáculo. Desagrada-me o desporto só como circo, embora tenha o seu papel social.

Acompanhou a luta entre o Benfica e o Braga?

Lembro-me de que, em novo, os jogos que mais gostei de ver foram entre o Porto e o Braga e entre o Guimarães e o Porto. Acabavam sempre em grandes cenas de pancadaria, era animadíssimo e eu adorava aquilo. Tal como me lembro daquelas touradas em que o touro saltava para a área do público e corria atrás de toda a gente. Infelizmente, hoje em dia está tudo excessivamente regulado. Mas o que mais me irrita é a corrupção e as negociatas do futebol, um pouco como a mentalidade actual de que tudo se compra e tudo se vende.

Não revelou o seu clube de futebol.

Não tenho.

Mas vibra com algum?

Quando Portugal joga com o estrangeiro fico muito entusiasmado e espero que na África do Sul possa acontecer algo bom.

AUTO-RETRATO DE DOM DUARTE

«Tenho uma certa tendência para acreditar nas pessoas e por vezes engano-me. Tenho tendência, talvez um pouco utópica, de crer que os meus ideais podem ser realizados e, por isso, trabalho por eles. Descuido um pouco de mais a minha vida económica pessoal e, agora com os filhos, sinto mais obrigação em me preocupar com esse aspecto. Tenho talvez o defeito de dizer as minhas opiniões, mesmo que não seja o momento mais oportuno. Gosto de ouvir as opiniões dos outros, que me digam o que pensam de bem e de mal de mim. Certa sinceridade deixa muita gente aborrecida e, nesse aspecto, identifico-me com os transmontanos porque são os que cultivam esse espírito de franqueza. Não é por me chamar Bragança, mas gostava de viver em Trás-os-Montes, ou nas ilhas por causa do meu espírito insular. Irrito-me por vezes e há pessoas que se podem queixar porque terei sido menos simpático em certas alturas.»


Isabel de Herédia

«Acho que é perfeita do ponto de vista do relacionamento com as outras pessoas, consegue manter sempre a calma e um grande espírito de empatia. Admiro muito a sua inteligência e a maneira como vê. As mulheres têm uma vantagem em relação aos homens do ponto de vista da inteligência porque são mais intuitivas, como bem explica o professor Damásio no seu livro. A inteligência intuitiva acaba por ser mais global e, a longo prazo, mais eficiente do que a inteligência lógica. Gosto muito de ouvir as suas opiniões, mesmo que não concorde com elas às vezes. Como teve uma vida profissional muito activa, mais do que a minha, viveu certas realidades no Brasil e em Portugal que eu não vivi. Ajuda-me muito nesse aspecto.»


Infante Afonso

«Acho que tem um grande sentido de responsabilidade em relação à sua posição na família e sempre o assumiu desde criança em relação aos irmãos, aos pais e ao país em que vive. É um rapaz alegre, bem-disposto, divertido e com as suas irreverências próprias. É um apaixonado por biologia marítima e tudo o que tenha que ver com o mar, desde a pesca até ao estudo e acabando na culinária.»


Infanta Maria Francisca

«Admiro muito o seu espírito desportivo e a capacidade de comunicação. Tem muito talento para a poesia e o teatro. Possui um espírito muito desenvolvido do ponto de vista da inteligência social e é uma boa desportista, talvez a melhor na família. Tem dito que gostaria de ser médica no futuro, mas passou por várias fases sobre aquilo que gostaria de ser.»


Infante Dinis

«É, talvez, o que tem um espírito mais combativo: gosta de râguebi, de judo e já tirou um curso de futebol. Mas é no râguebi agora, no Belenenses, que tem mais interesse. E como tem muito orgulho de ter sido filiado no Futebol Clube do Porto quando tinha três meses, por iniciativa de Pinto da Costa, faz sempre questão perante os irmãos de mostrar que é o único verdadeiramente filiado no clube."

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MensagemAssunto: "PSD está a agir de forma tacticista com o PS"   Dom Maio 23, 2010 10:27 am

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"PSD está a agir de forma tacticista com o PS"

por JOÃO MARCELINO (DN) e PAULO BALDAIA (TSF)
Hoje


O secretário-geral do PCP não se arrepende de ter apresentado uma moção de censura ao Governo, apesar do chumbo. Para Jerónimo, a iniciativa serviu também para mostrar a associação do PSD às medidas do plano de austeridade e do PEC. Sobre as presidenciais, diz que o candidato próprio poderá ser apresentado durante a Festa do 'Avante!'.

O PCP apresentou na sexta-feira uma moção de censura ao Governo, que não passou na Assembleia da República, e censurava também o PSD. O texto não criou espaço para que o PSD pudesse juntar-se à moção. Não teria feito sentido o PCP negociar um texto que potenciasse, de alguma forma, que a moção de censura passasse na Assembleia?

Isso implicaria que abdicássemos daquela que tem sido a nossa afirmação e a nossa orientação nestes últimos anos, em que para o Partido Comu-nista Português a questão central e de fundo tem que ver com a política que este ou outros governos realizam ou realizaram. Nesse sentido, porque consideramos que bem podemos derrubar governos ou substituir governos se a política se mantiver, creio que o povo português não consegue…

Mas em que é que uma moção de censura pode ajudar a mudar políticas num governo? Se não o fizer cair, obviamente.

Uma moção de censura, em primeiro lugar, comporta do nosso ponto de vista - e esta comportou - uma dimensão política de responsabilização da situação, na medida em que sistematicamente, durante muitos anos, a culpa tende a morrer solteira. PS e PSD, com ou sem a ajuda do CDS, substituem os líderes, criticam o Governo quando estão na oposição, mas simultaneamente fazem depois na prática a mesma política. Vão rodando, tem havido uma alternância e não uma alternativa em termos de política. Nesse sentido, a nossa moção tinha esta dimensão política, procurando a co-responsabilização, tendo em conta a associação que o PSD fez designadamente a estas medidas contidas no PEC e as suplementares apresentadas mais recentemente. Por outro lado, também procurando que a Assembleia da República fosse um espaço que permitisse a expressão da censura, a expressão do descontentamento, da indignação que hoje perpassa por muitos portugueses.

Ao apresentar uma moção de censura que sabe que não vai ser aprovada porque censura também o PSD, não está o PCP a admitir que ter lá este Governo de José Sócrates ou não ter é igual?

Para nós, a questão de fundo continua a ser aquela, sublinho e insisto nesta ideia: a nossa crítica a José Sócrates não é por razões de feitio ou de carácter; é fundamentalmente porque dá rosto, é o rosto principal de uma política que tem conduzido o País para uma situação que consideramos dramática, de desastre nacional. Tal como, aliás, fez Barroso quando se foi embora, como fez Santana quando foi demitido, como fez Guterres quando se foi embora. A questão de fundo continua a ser esta.

Mas para marcar essa oposição e essa diferença não precisava de uma moção de censura. Bastariam as declarações que tem feito e como tem comentado as medidas tomadas pelo Governo. Há quem diga que isto foi apenas um marcar de terreno em relação ao Bloco de Esquerda e que o que o PCP tentou fazer foi conquistar espaço político à esquerda.

Nunca pensámos no Bloco quando tomámos a iniciativa, foi uma decisão do Comité Central. A questão de fundo foi: após a aprovação do PEC, num quadro em que surgiram novas medidas, uma nova ofensiva - aquilo que consideramos uma violenta ofensiva contra os salários, contra as reformas, contra a justiça fiscal, contra a justiça social - foi o elemento novo que não se compadecia com uma simples interpelação ao Governo ou era resolúvel num debate quinzenal com o primeiro-ministro.

Então foi uma atitude quixotesca? Ficou tudo na mesma?

Não ficou, não.

O que mudou?

Em primeiro lugar, há a clarificação de cada força política em relação a esta situação que vivemos. Em segundo lugar, demos voz a essa indignação e a esse protesto. Pode dizer que é pouco, mas…

Foram acusados pelo primeiro-ministro de estar apenas a lançar politicamente uma iniciativa da CGTP, que tem uma grande manifestação marcada para Lisboa.

Porque obviamente o senhor primeiro-ministro não se conforma, não concebe nem admite que, quando as pessoas sentirem estas medidas violentas - e sentem-nas, na sua vida, no seu orçamento familiar, no seu emprego, no seu trabalho, no seu salário -, reajam, indignem-se e lutem contra este estado de coisas. Ou seja, um pouco o regresso daquela ideia "vocês levam pancada, comem e calam". O que consideramos é que também isto, alguém afirmava um dia, o próprio direito à indignação…

Foi Mário Soares, a propósito do bloqueio da ponte.

Foi o direito à indignação e o direito de os trabalhadores, o nosso povo, manifestarem também ali naquela tribuna da Assembleia da República aquilo que hoje perpassa pela sociedade portuguesa. Nesse sentido, consideramos que aquilo que vai ser determinante neste quadro tão difícil será, mais uma vez, a luta dos trabalhadores, das populações.

Há sete meses realizaram-se umas eleições. Nessa altura, estava consciente de que o País se encontrava num caminho que obrigaria a tomar estas medidas, ou também foi surpreendido por esta conjuntura, como o Governo e o primeiro-ministro dizem que foram?

Chamo a vossa atenção para, em sede de debates quinzenais, nas discussões do Orçamento do Estado, nas discussões do próprio programa do Governo, mais do que ninguém o PCP alertou para o caminho a que esta política estava a conduzir o País. Acusavam-nos de estar a ver fantasmas, de ter o discurso da chapa três, que estávamos a exagerar, que o PCP era prisioneiro de razões ideológicas e não via que o mercado livre tinha o direito livre de funcionar - estou a citar Sócrates em relação a respostas às nossas inquietações, à nossa previsão e, infelizmente, em relação à própria realidade. Nós avisámos, nós alertámos, mas éramos sempre entendidos como alguém que está a ver fantasmas, porque o que o Governo dizia na altura era "não, Portugal está no bom caminho, Portugal do oásis, o amanhã que vem e vai ser melhor", eram sempre estes argumentos! Foi o PCP que, de facto, numa previsão e numa antevisão, foi capaz de ver para onde é que conduziria esta situação. E não é por sermos mais inteligentes do que qualquer outro partido, mas fazemos uma análise objectiva.

Objectiva dos números do défice e do endividamento externo?

E particularmente um elemento fundamental: a dívida externa, tanto pública como privada, resultante da destruição do nosso aparelho produtivo, da nossa produção nacional. Estamos a falar da indústria, estamos a falar da agricultura, estamos a falar das pescas e estamos a falar, consequentemente, do emprego e do desemprego. Numa análise objectiva ao desenvolvimento e à evolução da situação em que, todos sabemos, um país solidifica as suas contas, os seus défices, através do aumento da riqueza, através do aumento da receita. E aquilo que víamos era um Portugal cada vez mais dilapidado do seu aparelho produtivo, da sua produção nacional, víamos cada vez mais o Governo abandonar o mercado interno, onde, como é sabido, residem centenas de milhares de empresas que empregam mais de 80% dos trabalhadores portugueses. Quando vemos, por exemplo, em relação às negociações da OMC, o sector têxtil e dos lanifícios não ser protegido nessas negociações, quando vemos o encerramento das Sorefames, das siderurgias, das Quimigais, quando vemos aquilo que poderia ser o factor e o instrumento de criação de riqueza, foram abatidos. E isso não foi substituído pelos fundos comunitários que tão malbaratados foram.

Esta moção de censura não passou. Acredita que esta legislatura chegará até ao fim?

Não sou capaz de ser profeta a esse nível, mas o que é que temos neste momento? Temos um Governo de minoria, que não foi capaz de aprender a lição com os resultados das eleições legislativas, em que perdeu a maioria absoluta.

É de minoria, mas tem conseguido apoios para viabilizar o Orçamento, viabilizar o PEC e ver uma moção de censura do PCP não ser aprovada.

Sim, porque à direita, e particularmente ao PSD, coloca-se uma questão central, que é de uma importância de carácter estratégico de salvar a política de direita, de manter o rumo e as opções políticas e económicas que tanto o PSD como o PS no Governo têm vindo a realizar. E, olhando até para a reacção dos grupos económicos que apontaram o caminho, olhando até para as posições do Presidente da República com a chamada concertação estratégica, o PSD foi, eu não diria obrigado porque acho que foi de livre vontade, dar aquilo que anteontem foi dito, uma mão ao Governo. Mas não foi a mão ao Governo do PS, foi a mão a essa política que persiste ao fim de décadas.

Uma orientação estratégica do PSD à espera de que, eleitoralmente, possa valer mais? Se daqui a um ano o PSD apresentar uma moção de censura, porque as sondagens mostram o PSD como um partido eventualmente vencedor, o PCP estará disponível para apoiar uma moção de censura do PSD?

Nessa perspectiva de antevisão, obviamente o conteúdo dessa moção de censura determinará a nossa posição de voto. Porque há uma censura como a que fizemos na sexta-feira, por boas razões. Por exemplo, este recente anúncio de Passos Coelho, de que, caso se confirme que o primeiro-ministro faltou à verdade no processo TVI, não teria condições para continuar, avançando com a ideia da moção de censura. Vamos lá também ser realistas, se de cada vez que Sócrates tivesse faltado à verdade ao povo português sofresse uma moção de censura, já tinham existido cinco ou seis, tendo em conta que Sócrates tem faltado sistematicamente aos compromissos, diz hoje uma coisa, daqui a dez dias diz outra. Admito que o PSD, dando a mão para salvar esta política de direita, simultaneamente e com um grande tacticismo eleitoral, queira que o Partido Socialista se vá cozendo em banho-maria, se vá desgastando, para se colocar como alternância.

Mas a pergunta objectiva é esta: o PCP, se a justificação for boa, admite um dia poder votar uma moção de censura ao lado dos partidos a que chama de direita, ao lado do PSD e do CDS? Ou isso é de todo impossível?

Uma moção que, obviamente, teria de fazer aqui - e não acredito nisso - uma autocrítica, quase uma catarse em relação às suas responsabilidades comuns.

Mas é impossível ver o PCP a votar ao lado do PSD e do CDS uma moção de censura ao Governo?

O PSD vai ter de explicar, não me cabe a mim a explicação.

Mas teoricamente é possível?

Academicamente é tudo admissível, e constitucionalmente, regimentalmente.

Voltará a ser o texto como foi desta vez para o PSD, o que o PCP apresentou?

Uma moção de censura tem de ser fundamentada nalguma coisa. E, obviamente, o PSD não contará connosco, não contará com o PCP, com a sua absolvição nas suas graves responsabilidades que levaram o País à situação em que se encontra.

Estava à espera que o Bloco de Esquerda corroborasse os argumentos do Partido Comunista?

Não fizemos nenhuma consulta prévia ao Bloco de Esquerda, nem tínhamos o direito de o fazer.

Mas estava à espera de levar o Bloco de Esquerda a reboque desta sua moção de censura ao Governo?

Nem sim, nem não, não sabia. O Bloco de Esquerda em muitas matérias tem tido uma identificação de posições com o Partido Comunista Português, particularmente na crítica social, na crítica económica. Mas não foi nem factor impeditivo nem factor de apressar qualquer posição que o Bloco pudesse tomar.

O PCP defende que a correcção do défice deve ser feita de uma forma mais faseada, mas são os países fortes do Eurogrupo que impõem a Portugal, à Espanha, à Grécia, uma travagem busca. A solução é sair do Euro?

Repare, os países mais fortes é que estão a exigir isto a Portugal. Porque é que não o fizeram em relação a economias mais fortes? Por exemplo, a Inglaterra tem um défice maior que nós. Alguma vez ouviu esta pressão?...

Não tem a desconfiança das empresas de rating. Não está no Eurogrupo e tem uma capacidade de riqueza…

Sim, mas quem são as empresas de rating? As empresas no fundo, do nosso ponto de vista, são um instrumento dos chamados mercados do capital financeiro, dos grandes bancos, que um pouco com base…

Os grandes bancos que emprestam dinheiro a quem vive acima das suas possibilidades.

Sim, mas repare: fomos envolvidos numa teia tendo em conta uma política de cedências, de abdicação da nossa soberania, tendo em conta erros que se cometeram com estes governos sucessivos. Mas a questão de fundo é que essas empresas e esse capital agem como um predador. Às vezes vemos aqueles filmes da lei da selva, em que os predadores atacam geralmente as presas mais vulneráveis…

Se estivéssemos fora do Euro estaríamos mais vulneráveis.

Chamei a atenção para um facto: em 90, o Partido Comunista Português realizou uma conferência económica em que também, com uma capacidade de previsão e de análise, o meu camarada Álvaro Cunhal fez uma intervenção de fundo nessa matéria, vale a pena reler! Porque, a estes anos de distância, demonstrou-se que uma entrada precipitada na União Económica e Monetária, na Moeda Única, levaria inevitavelmente não ao reforço da nossa economia mas sim ao estrangulamento e à submissão dos interesses dos poderosos. Era a panela de ferro contra a panela de barro.

É de admitir uma saída de países como Portugal do Euro, para voltarem a ter soberania monetária?

Esta União Económica e Monetária serve para quê? Podemos dizer, está inscrito no Tratado de Lisboa que funcionará o princípio da coesão económica e social. Grande declaração, um princípio saudável! A verdade é que nós verificámos com esta crise, cada um tratou por si - os mais fortes procuraram no essencial entalar os mais fracos.

Não está a responder-nos. Ficamos no Euro ou devemos ponderar sair do Euro?

Agora não procurem criar uma situação ainda mais dramática com uma decisão súbita em relação a essa medida. O que pensamos é que esta União Económica e Monetária e o sentido que se dá à Moeda Única são inaceitáveis para o futuro de Portugal. Não exijam que digamos "mata e morre!", não é isso. Agora, confirmam-se todas as preocupações, e este sistema é profundamente injusto porque está ao serviço dos grandes, dos poderosos, do directório das potências, e não ao serviço desse princípio tão sacralizado da coesão económica e social.

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MensagemAssunto: "Spínola foi completamente derrotado na Guiné"   Qua Maio 26, 2010 3:55 pm

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"Spínola foi completamente derrotado na Guiné"

por ABEL COELHO DE MORAIS e LEONÍDIO PAULO FERREIRA
Hoje


Combateu na Guiné pelo PAIGC de Amílcar Cabral. Foi primeiro-ministro e agora é Presidente desse Cabo Verde que merece elogios pelo seu apego à democracia. Hoje, Pedro Pires é feito doutor 'honoris causa' pela Universidade Técnica de Lisboa. Aos 74 anos, este homem exemplar fala do seu país, da ligação a Portugal, da lusofonia e até de futebol .

Enquanto combatente da luta anticolonialista e governante que balanço faz deste meio século de independências na África?

Creio que não se deve generalizar porque são realidades culturais e étnicas diferentes, são experiências históricas diferentes. É nessa base que a experiência africana dos Estados independentes deve ser vista, na sua complexidade, na sua dificuldade e também naquilo que podemos dizer ser uma falta de tradição de exercício do poder soberano. Podemos analisar o papel dos partidos que dirigiram os países ou participaram nas lutas de libertação, dos seus líderes e do contexto internacional, não só do contexto africano mas também do mundial.

Mas há casos evidentes de sucesso e casos evidentes de fracasso...

Podemos analisar os sucessos, podemos ver as rupturas, as mudanças de liderança, forçadas ou normais, durante o caminho, e a partir daí ver as diferenças. Entendo que os países que poderão ter maior sucesso, isso depende da cultura e da tradição: se durante a colonização tiveram a possibilidade de adquirir os conhecimentos e instrumentos indispensáveis para a gestão do país; se puderam exercer de alguma forma a gestão do país. Caso não tenha sido assim, é todo um caminho por descobrir. E às vezes as próprias lideranças desconhecem o seu país. Pela sua cultura, pelos locais onde adquiriram o saber, o conhecimento, este nem sempre traduz o conhecimento da própria realidade. Daí que o caminho dos países soberanos africanos tenha sido condicionado por isso. Será que as instituições estatais reflectem a realidade do próprio país ou será uma colagem? Penso que é aqui que estará a grande fraqueza.

O que leva alguém a pensar este é o momento da ruptura, de lutar por uma pátria independente?

Qualquer um está influenciado pela sua vivência, pelo seu país, por aquilo que nota nele, pelo que aí encontra de injustiça, pelo que encontra de bloqueio e nas soluções que se lhe oferecem. É preciso romper o bloqueio da discriminação.

Recorda-se do momento em que tomou essa decisão?

Não... A minha visão é a de que as pessoas crescem, vão tomando consciência da sua realidade, vão tomando consciência de si próprias, e a partir daí chega o momento de decidir. Eu, quando decidi integrar o Movimento de Libertação de Cabo Verde, estava aqui em Lisboa. Nesse momento tinha muitos amigos, pessoas com quem trocava impressões. Portanto, cresci politicamente aqui e foi aqui que tomei a decisão.

Como é que um jovem de Cabo Verde está a estudar em Portugal e, de repente, é guerrilheiro nas matas da Guiné? Nunca tinha estado na Guiné antes?

É verdade, nunca tinha estado. Mas outras pessoas com as quais eu me identificava tinham feito essa opção. E eu faço a mesma no quadro de uma luta comum, no quadro de uma nova visão para África, para o mundo, no quadro da ruptura com o colonialismo. No caso concreto, com o colonialismo português.

Diz-se que a guerra na Guiné foi diferente, que era a única ex-colónia portuguesa em que a guerrilha podia impor a independência. Sentia a vitória próxima?

Não, não tinha ideia de que estava próxima. Tinha ideia de que era possível, mas a ideia da iminência eu pessoalmente não tinha. E estou convencido de que os outros também não tinham. Mas, no momento em que houve aquilo que podemos considerar a ruptura do equilíbrio de forças a favor da guerrilha, sabia que estaria próximo. O que foi a ruptura do equilíbrio de forças? É quando o PAIGC consegue ter mísseis antiaéreos que neutralizaram a força aérea portuguesa. A partir daí reduziu-se a mobilidade das forças portuguesas. Estas, sobretudo as forças especiais, utilizavam como cobertura o avião e o helicóptero na deslocação. A partir do momento em que perdem a mobilidade fixam- -se e, claro, eram obrigados a abandonar grandes espaços. Depois do 16 de Março, nas Caldas da Rainha, creio que a partir daí estava evidente que sim, que o fim estava próximo. A data certa, jamais.

A guerra na Guiné é associada ao general Spínola. Ele era um militar temido pelo PAIGC?

Tenho dúvidas quanto a isso.

Mas era um nome importante na Guiné?

Claro que sim. Spínola construiu e trabalhou a sua imagem de grande militar. Mas, e este é um ponto de vista pessoal, Spínola foi completamente derrotado na Guiné. É desta forma que ele sai da Guiné, é desta forma que alguns dos seus colaboradores próximos também saem da Guiné. Eles foram militarmente derrotados. Se nós tínhamos respeito por ele? Claro, tem-se respeito por qualquer chefe militar, sobretudo aquele que temos à nossa frente.

Era inevitável a ruptura entre Cabo Verde e a Guiné?

Não sei. As coisas evoluem: ou vão para a convergência ou vão para a separação. Entendo que, se assim foi, é porque as coisas estavam a ir para a separação. Do nosso lado, porquê a ruptura? Entendemos que os golpes de Estado devem ser sempre evitados: quem dá o primeiro golpe de Estado justifica o segundo, e assim sucessivamente. E nós dissemos: nessa direcção não vamos.

Esse golpe em 1980 foi o prenúncio do destino trágico de Nino Vieira? Pode ser visto como o início do ciclo de golpes, contragolpes e assassínios na Guiné?

Podia não ser. É complicado...

Que memória tem de Nino?

É complicado estar a tirar esse tipo de conclusões, porque procuro ser seguro naquilo que digo, procuro compreender as razões, não tiro conclusões fáceis sobre esta ou aquela pessoa. Se se quiser, que se faça uma investigação sobre a personalidade da pessoa para chegar a uma conclusão. Agora que o golpe de Estado abre o caminho à violência é evidente. E o mal da Guiné foi o seguinte: não se soube gerir a transição de um movimento de libertação para partido político e também não se conseguiu gerir convenientemente a transformação de um movimento de libertação, de uma guerrilha, num exército regular. Até hoje, a Guiné sofre disso. Para resumir, diria que na Guiné o erro está em que não souberam civilizar o regime. Civilizar entre aspas.

Não existe o receio, atendendo à profunda crise na Guiné-Bissau, de que o problema do narcotráfico possa estender-se na região e afectar a estabilidade de Cabo Verde?

Ninguém está seguro se os seus vizinhos não estiverem seguros, a nossa segurança depende em parte da segurança da nossa região. Daí que haja necessidade de, de um lado, combater o narcotráfico no nosso país, de outro lado, combater o narcotráfico no plano regional. Mas o narcotráfico não é um fenómeno africano nem regional, é mundial. O narcotráfico põe em causa as instituições do Estado de direito e é um poder subterrâneo que quer impor as suas regras. Cabo Verde coopera com vários países e várias instituições, e colocou essa questão da segurança regional e do combate ao narcotráfico em debate. O combate ao narcotráfico tem de ser coordenado e há que ir nessa direcção.

Um elogio que se faz a Cabo Verde é a alternância democrática que conseguiu. O Presidente é disso exemplo. Como é estar no poder como primeiro-ministro, passar pela oposição e voltar a ganhar umas eleições e ser presidente?

É o combate por um sentido de vida. No seguinte sentido: lutei com sinceridade, com lealdade e com empenho para que o meu país fosse independente, trabalhei da mesma forma para que ele avançasse e se construísse o Estado soberano, para se lançarem as bases do desenvolvimento do país. Chegámos depois à conclusão de que era necessário liberalizar a economia e também politicamente o país. E assim foi.

Falou na liberalização económica e política. Pode afirmar que a democracia está estabelecida e enraizada em Cabo Verde?

Penso, pela prova que temos, que é o dia-a-dia dos cabo-verdianos. Isso já não se discute: é cultura, é o hábito. Não vejo a possibilidade de qualquer mudança ou regressão nessa questão, porque é natural.

Aí nada vai mudar?

Nada. Devemos é ter a preocupação da consolidação e aperfeiçoamento das instituições do Estado democrático. Deve haver um esforço no sentido de as tornar mais sólidas e eficientes para que sirvam o melhor possível à sociedade.

Há pouco tempo, o ex-presidente Mário Soares afirmou que talvez a independência de Cabo Verde em 1975 não devesse ter sido feita. Que comentário faz?

Acho que é a forma de o dr. Mário Soares ver as coisas. É uma opinião pessoal e talvez até seja um gesto de amizade e de valorização. Amizade e valorização de Cabo Verde e dos cabo-verdianos.

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Romy

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MensagemAssunto: "Candidatura ao Mundial 2018 não terá investimento"   Dom Maio 30, 2010 11:09 am

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"Candidatura ao Mundial 2018 não terá investimento"

por JOÃO MARCELINO (DN) e PAULO BALDAIA (TSF)
Hoje


Minhoto, de 56 anos, nascido em Fafe, Laurentino Dias formou-se em Direito em Coimbra e tornou-se militante do PS em 1985. Deputado em várias legislaturas, foi reconduzido como secretário de Estado da Juventude e do Desporto. Uma área que também domina a actualidade.

Que sentido faz, no auge desta crise económica, que passa também pelo Sul da Europa, pela Península Ibérica, Portugal e Espanha apresentar uma candidatura conjunta ao Mundial de 2018 como se nada se passasse, como se os primeiros-ministros Zapatero e Sócrates não estivessem a "castigar" as pessoas?

Faz o sentido de uma candidatura dessa natureza obrigar a uma avaliação objectiva. E a avaliação objectiva da presença de Portugal nessa candidatura só pode ser resumida em duas palavras, e eu digo-lhe qual é a minha convicção: tenho pena que não seja hoje esse Mundial em Portugal. Porquê? Porque vai a esse Mundial sem gastar um tostão…

Hoje, iria.

… em investimento público para a realização desse Mundial. Nós vamos a esse Campeonato do Mundo com 13 estádios que já estão construídos. São estádios novos, estarão em condições em 2018.

Terão de ser reformados.

Apenas numa pintura, se quiser, aqui ou ali.

A pintura vai ser bastante cara, gastará alguns milhões.

Garanto-lhe que não!

Vai haver evolução nas transmissões…

Garanto-lhe que não! A razão que transmitimos à Federação Portuguesa de Futebol quando nos contactou para saber se o Estado estava disponível para apoiar essa candidatura foi justamente essa.

E o que significa o apoio do Estado, então?

Sim, estamos disponíveis para apoiar essa candidatura se não significar nenhum investimento, nenhuma nova construção. Porque havia mais cidades candidatas a participar nessa candidatura: do Algarve; Braga… Do Algarve chegámos a receber uma proposta no sentido de requalificar o estádio para que tivesse lotação mínima para o Mundial, que é de 44 mil lugares, e dissemos rigorosamente: "Não, não fazemos nem apoiamos nenhum investimento em obra nova. Portanto, sem investir em obra nova, ter aqui - tal como está na proposta de candidatura - praticamente 20 jogos de um Campeonato do Mundo significa que só em receitas directas de organização que tem de se sediar em Portugal, dos media que vêm para Portugal, das pessoas que vêm assistir aos jogos, dos milhares de pessoas que acompanham as selecções que vêm cá jogar, e em 20 jogos serão 30 ou 40, algumas serão repetidas, só nesse resultado directo estão…

Sabe muito melhor do que eu que em 2018, obviamente, se Portugal e a Espanha viessem a ganhar essa candidatura, teriam de gastar dinheiro a reformular os estádios. E, portanto, há sempre investimento, mesmo que não seja significativo.

Meus caros, continuo convencido de que, estando nós em 2010, tendo 13 estádios que estão novos e que são novos, em 2018 não vão ter de ter nenhuma reformulação. E assim sendo, não havendo investimento directo em novas obras para esse Mundial, creio que é uma candidatura de que só retiramos benefício.

Há um valor com que o Estado se compromete junto da Federação para esta candidatura?

Dissemos à Federação - e a Federação é parte da fundação Portugal/Espanha que tem sede em Madrid, que é a responsável por todo o trabalho de promoção e de apresentação da candidatura - que estaríamos disponíveis para a apoiar em cerca de um milhão, milhão e meio de euros, que é a participação de Portugal nos custos de toda esta candidatura até ao final. Custos que podem ser eventualmente diminuídos havendo algumas receitas, como é previsível que venha a acontecer.

Há mais razões pelas quais não percebo esta candidatura. Vamos à segunda, que tem que ver com o diferendo que existe há uns meses entre o Governo e a Federação Portuguesa de Futebol no que concerne à adaptação dos estatutos da Federação. Como pode o Estado estar numa parceria com uma Federação que se recusa a cumprir a lei?

Pode, porque sabemos separar as águas e perceber, primeiro…

Mas é preciso ser muito magnânimo.

Não, é preciso ter a consciência de que uma coisa é olharmos para os interesses do País numa candidatura como a do Mundial. Outra é olhar para a relação do Estado com essa Federação no que toca ao cumprimento da lei, na adequação dos estatutos da Federação Portuguesa de Futebol àquilo que está previsto na lei. O processo dos estatutos é um processo longo, que deixámos que fosse longo porque percebemos à partida que, vivendo as federações desportivas todas - que são 62 -, e também o futebol, longos anos de um historial amarrado a um estatuto e a um modelo de funcionamento que julgamos que não é o melhor para o desenvolvimento desportivo, mas a que essas federações e os respectivos organismos internos, associações e outros, se habituaram, iria ser difícil para muitas delas perceber uma nova realidade. E qual é a nova realidade que, por via de lei, desejamos que esteja consagrada nos estatutos? Não é a modificação das percentagens internas de cada um dos organismos, não é isso, é um modelo diferente.

Já vamos ao modelo. O que pergunto é se este não é o momento para o Governo fazer sentir à Federação que se está a esgotar o tempo e que faz todo o sentido que se adaptem à lei?

A decisão de apoiar esta candidatura já tem um bom conjunto de meses. Nestes meses, a Federação tem feito inúmeras diligências, ainda recentemente uma assembleia geral, para discussão e aprovação dos novos estatutos. Ainda não o conseguiu fazer. Nós separamos essas duas questões. A Federação Portuguesa de Futebol, a sua Direcção, tem mantido connosco uma relação de trabalho francamente leal, cooperante. E nós temos percebido que da parte da Direcção da Federação…

Portanto, a resistência vem das associações?

Como sabe! O senhor sabe, eu sei, todos sabemos, porque é público, que são as associações distritais que têm resistido à modernização dos estatutos. E têm resistido, a meu ver, erradamente. Por uma razão muito simples: as associações continuam a pensar que a nova lei diz que deixam de ter 55% de presença na Assembleia Geral, ou seja, de mandar por si na Assembleia Geral, para passarem a ter 35%. Não é verdade. Não há alteração de percentagens. Há alteração de modelo.

Já terá tempo para explicar essa parte. Gostava de continuar na candidatura portuguesa ao Campeonato do Mundo de 2018 ou de 2022, para lhe perguntar o seguinte: não acha que não faz sentido esta parceria desequilibrada entre Portugal e Espanha?

Em que é que a parceria é desequilibrada?

É desequilibrada no sentido em que os parceiros não entram, como é costume nestas organizações, com 50% dos estádios, das cidades.

Na Península Ibérica, nós somos 50%? Somos dez milhões, os espanhóis são quantos? 40?

Esses dados conhecem-se. Noutros campeonatos que foram organizados em conjunto são sempre em parceria de 50/50.

E quais são os países dos outros campeonatos, podem lembrar-se? É a Suíça e a Áustria, a Holanda e a Bélgica, países muito próximos e relativamente muito iguais.

Mas não acha que quem não tem dinheiro não deve ter vícios? Se não temos escala para estar em pé de igualdade com outro país… isso não tem uma dimensão política?

Não temos escala para estar em pé de igualdade com a Espanha, 50/50. Vamos estar na razão de um terço.

Do ponto de vista económico e social, sabemos isso. Do ponto de vista político, não induz a um reconhecimento perigoso?

Do ponto de vista político, o pior que nos podia acontecer era ter a veleidade de, nesta matéria como noutras, querermos dizer que somos iguais à Espanha. Isso é que era uma perspectiva profundamente errada. Olhamos para a Espanha e sabemos qual é a diferença entre a Espanha e Portugal. Sabemos que Portugal tem dez milhões de pessoas e a Espanha 40 milhões; sabemos que o mundo do futebol em Espanha tem uma realidade - é o primeiro país europeu em matéria de futebol, a melhor liga europeia, tem o Real Madrid, o Barcelona…

Portugal já organizou um Campeonato da Europa sozinho. Não fazia sentido concentrar esforços numa organização?...

Portugal organizou o Campeonato da Europa sozinho da mesma forma que nunca poderá organizar um Campeonato do Mundo sozinho. Portanto, ou os portugueses se associam com o seu vizinho espanhol…

A 50% não seria o ideal?

… para realizar aqui um Campeonato do Mundo, ou não há nunca um Campeonato do Mundo de futebol em Portugal. E acho que é útil para todos nós - não apenas para os que gostam de futebol, mas para o País - que Portugal seja parte da organização do Campeonato do Mundo. Se fôssemos reclamar, imagine que íamos reclamar e dizer: "Nós só participamos no Campeonato do Mundo se for a 50% com a Espanha." Sabe qual era o resultado?

Quem não tem dinheiro, não tem vícios.

Não havia!

Conhece com certeza a história do presidente da Federação Inglesa. Lorde Triesman demitiu-se depois de um jornal inglês ter revelado uma conversa privada em que ele acusava a Espanha de tentar comprar árbitros para o Mundial de África do Sul.

É absolutamente lamentável.

Os russos estariam encarregados de travar as conversações e pagamentos com os árbitros para beneficiarem os espanhóis. Em troca, Espanha desistia da candidatura conjunta com Portugal.

Isso não tem nenhum comentário, é qualquer coisa de lamentável.

E lamentável a conversa dele?

É lamentável a conversa dele!

Está absolutamente crente de que esta história não tem o mínimo de fundamento?

Absolutamente, é uma história absolutamente incrível! Estou convicto, e desejo sinceramente que a FIFA, que deu conta pública de que abriu um inquérito ou uma averiguação a esse tipo de declaração, o faça de forma rápida. Antes mesmo do Mundial, era bom que isso acontecesse, a averiguação da razão desse tipo de declarações. E que faça o esclarecimento e puna, se puder - penso que pode -, o ex-presidente da Federação Inglesa de Futebol por declarações que não fazem nenhum sentido.

Não poderá ser prejudicial a Portugal, no âmbito das suas ambições na organização da Ryder Cup [golfe], estar também na corrida ao Campeonato do Mundo de futebol?

Creio que não.

Manuel Pinho, ex-ministro da Economia, acha que sim.

Foi dito que era incompatível no mesmo ano essas duas organizações. Não li nada onde isso se diga. O que haverá, naturalmente, quer da parte da FIFA quer da parte da entidade do golfe, é a consideração de que são os dois de uma enorme grandeza em termos mediáticos, e não seria razoável que coincidissem num mesmo tempo e no mesmo país. Ora, eles não são sequer no mesmo tempo, medeiam uns meses entre o Campeonato do Mundo de futebol - se ele for em 2018 - e a Ryder Cup, a que também nos candidatámos. Portanto, não creio que à partida haja alguma incompatibilidade. Será viável organizar os dois em Portugal. Aguardemos por Dezembro, para ver a decisão do Mundial, que é a primeira. No ano que vem é que será a decisão da Ryder Cup. Além do mais, creio que a não incompatibilidade desses dois eventos tem sobretudo que ver com o facto de terem públicos-alvo completamente diferentes. O que avulta muito neste tipo de eventos é a imagem de um país e a transposição para o mundo inteiro daquilo que os meios de informação, sobretudo os televisivos, transmitem do próprio país onde se organiza. Mas o público--alvo do golfe é completamente diferente do do futebol; assim creio que por aí não virão incompatibilidades. Esperemos por Dezembro para saber se a questão se coloca, mas creio que não.

E ao nível dos esforços diplomáticos que se fazem, num campo e noutro?

Não são coincidentes. A decisão do Mundial de futebol cabe ao Comité Executivo da FIFA, que são pouco mais de 20 pessoas, representantes ou presidentes de diversas federações desportivas de futebol do mundo. A Ryder Cup tem um contexto diferente em termos de decisão.

E há dinheiro para fazer tudo o que pretende fazer?

Todo o nosso orçamento são - eu há dias disse até a brincar, mas a brincar se dizem coisas sérias -... o nosso orçamento todo do desporto para Portugal, para cada ano, para 2010, é inferior em dez milhões de euros àquilo que o Real Madrid pagou pelo Ronaldo.

Noventa milhões de euros?

O nosso é de 80, para o desporto todo. O que quer dizer que, apesar de ser uma verba pequena, sem essa verba não há desporto em Portugal

Mas vai manter-se a verba, ou pode descer?

As nossas disponibilidades orçamentais já desceram. Logo no princípio do ano com cativações, e desceram agora mais 20%...

O PEC (Plano de Estabilidade e Crescimento) não vai ao desporto?

Vai, vai. Já foi! Agora, quer no desporto quer na juventude, outra área da minha tutela, temos um princípio que transmiti ao Instituto do Desporto e ao Instituto da Juventude, que é o seguinte: nós sabemos que temos um papel fundamental no apoio - falamos do desporto - às federações desportivas e às modalidades desportivas. Desde o princípio do nosso mandato que fizemos um esforço enorme para mudar a lei de apoio e financiamento que vem dos jogos sociais, passámos a ter apoio e financiamento mais forte dos jogos sociais, incluídos nos 80 milhões que acabei de dizer, que antes não tínhamos. Passámos a conceder às federações desportivas, todos os meses e sem falta, as verbas que são contratadas. Já não ouvem há muito tempo nos jornais ou nas televisões a choradeira habitual dos atletas e das federações: "O Instituto do Desporto está atrasado, o nosso subsídio não aparece, o nosso contrato não aparece."

Mas com os 20% que estão cativados…

Já são menos. Temos consciência de que sem o apoio do Estado não há desporto em Portugal - não há modalidades desportivas, federações a funcionar. A redução orçamental, temos de a dissolver em despesas que deixamos de ter, e não em cortes no apoio às federações desportivas.

Um dos problemas do futebol, que é a modalidade que atrai mais multidões, são os salários em atraso. O que pode o Governo fazer para que os clubes passem a cumprir os seus compromissos com os seus trabalhadores?

Os clubes não caem fora daquilo que são as obrigações devidas em qualquer outra entidade. Portanto, o Estado não pode fazer com os clubes ou sociedades anónimas desportivas mais do que faz com qualquer outra entidade: havendo salários em atraso, despedimentos, desemprego, conferir aquilo que o nosso Estado social permite em matéria de subsídio de desemprego e de apoio. Não pode ir mais longe. É claro que, sendo o desporto profissional, das competições profissionais, representativo também do País, faz sentido que tenhamos uma intervenção próxima da Liga profissional, dos clubes profissionais, no sentido de os instar a criar condições para que, por força de regulamentos internos, os clubes e sociedades anónimas desportivas não caiam em situações de incumprimento. Não podemos fazer mais do que isso.

Mas não se registam avanços...

O futebol europeu passa todo por problemas deste tipo. Há alguns países europeus onde as federações fazem um controlo mais apertado do que a Federação Portuguesa de Futebol ou do que a Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Fizemos, aliás, um desafio, aqui há cerca de ano e meio, dois, no sentido de ser criada em Portugal - uma chamada clearing house - uma estrutura que fizesse de plataforma por onde passassem as transacções dos jogadores, de forma a que o futebol saísse credibilizado. E isso pudesse ajudar os clubes a ter alguma contenção nos contratos que fazem, nos contratos que promovem com os jogadores. Essa contenção, quando chega à hora das contratações, quase no defeso, é tantas vezes esquecida.

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MensagemAssunto: "Terei orgulho se Mário Soares decidir apoiar-me"   Dom Jun 06, 2010 5:58 pm

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"Terei orgulho se Mário Soares decidir apoiar-me"

por JOÃO MARCELINO (DN) e PAULO BALDAIA (TSF)
Hoje


O homem que fundou a Assistência Médica Internacional avança sem pudores para a Presidência da República. Diz-se um candidato independente, mas gostava de contar com o apoio de Mário Soares. E diz que não conhece Manuel Alegre.

Como, quando e com quem é que decidiu: "Vou ser candidato a presidente da República"?

Com a minha mulher, embora ela estivesse completamente contra. Falei com imensas personalidades após ter decidido e a todas fiz uma única pergunta, tanto ao general Ramalho Eanes, como a Mário Soares, ao D. Duarte, Adriano Moreira, Miguel Portas, Henrique Granadeiro, Carvalho da Silva, a todos fiz a mesma pergunta: acha que é estapafúrdio um homem como eu, com o meu percurso de vida, ser candidato à Presidência da República? Porque era a única pergunta que me importava, se alguém achava que era completamente anómalo, que não tinha cabimento. E lembro-me sobretudo da grande conversa que tive com o general Ramalho Eanes, uma hora e meia, em que ele me disse: "Bem pelo contrário, o meu amigo tem todo o perfil que se enquadra na Constituição e na definição de um candidato à Presidência da República." Mas a decisão foi solitária, como não podia deixar de ser. Mas, afirmo desde já aqui, enfim, só agora é que a minha mulher está a adaptar-se à situação. Ela, como os meus filhos mais velhos, os meus irmãos, foram frontalmente contra porque disseram - e talvez até tivessem razão - que de um momento para o outro eu iria passar de bestial a besta. Mas eu entendi, enquanto cidadão português que sempre fui e sou, que neste momento da nossa crise nacional eu tinha deveres para com Portugal. E por isso decidi fazê-lo.

Sabe com certeza que, independentemente da resposta que deu, muitas pessoas - e isso já foi escrito - tendem a ver a sua candidatura como uma emanação da vontade do dr. Mário Soares nas divergências políticas que mantém com Manuel Alegre. Como vê essas referências?

Vejo isso como um insulto pessoal, porque quem me conhece sabe qual é o meu carácter. Eu sempre fiz tudo porque decidi fazê-lo, não é por acaso que nos meus livros digo sempre que sou a cabeça do rato e não o rabo do elefante, é um provérbio africano. Espanta-me que as pessoas não se interroguem no sentido inverso, porque, repare, o dr. João Soares e o dr. Alfredo Barroso estão com Manuel Alegre e são elementos da família Soares também, que eu saiba. Então porque me acusam de ter o apoio? E se vier a ter apoio, devo já dizê-lo aqui frontalmente, só ficarei honrado.

E está a contar ter esse apoio?

Não sei, isso ele decidirá em consciência, no momento que decidir. E para quem conhece o dr. Mário Soares, entenderá que ele decidirá solitariamente e só o dirá quando entender. Mas, devo dizê--lo, terei até orgulho se ele decidir apoiar-me. Que eu saiba, o dr. Mário Soares não é portador da peste negra e de certeza no nosso país deve haver poucos portugueses, no decurso dos 36 anos da democracia, que nunca votaram nele nem que fosse uma única vez. Por isso não sei qual é o anátema que hoje…

Quando perguntou a todas as personalidades que referiu no início desta entrevista se achavam estapafúrdia a sua candidatura, não se lembrou de lhes perguntar: "Se fosse candidato, votavam em mim?" Não o perguntou a nenhum deles?

Não. Posso dizer: o general Ramalho Eanes disse-me que nas anteriores eleições apoiou o professor Cavaco Silva e, por coerência, voltaria a apoiá-lo se ele se recandidatasse. Lembro-me de que lhe disse: "Senhor general, não venho cá pedir o seu voto, venho ouvir um ex-presidente da República, venho perguntar só se entende que um cidadão como eu não deveria candidatar-se." E falei desde então com os três ex-presidentes da República. Mário Soares disse-me muito claramente isto: "Se houver um candidato do Partido Socialista que não o Manuel Alegre, eu votarei no candidato do Partido Socialista. Se o candidato do PS for Manuel Alegre, nessa altura reservo-me a possibilidade de votar ou não, mas essa vai ser a minha decisão pessoal. Mas se tiver um outro candidato oficial do partido, eu, como fundador do partido, apoiarei o candidato do partido". Foi isso que ele me disse.

É monárquico ou republicano?

Não sou monárquico, sou republicano. É uma inverdade, acho isso espantoso. Pelo que me foi dito, ainda na última entrevista, o dr. Manuel Alegre salientou que até tinha apoios de monárquicos. Ninguém se lembra de perguntar ao dr. Manuel Alegre se ele é monárquico ou republicano. Eu sou português, sou respeitador de nove séculos, quase, da História de Portugal. Estou nesta candidatura para unir todos os portugueses, o que passa por unir os republicanos, os monárquicos, os imigrantes naturalizados, todos. Porque acredito que na fase em que o nosso país está não é o momento de ostracizar seja quem for. Nós precisamos de nos unir. Eu estou aqui enquanto candidato à chefia da Nação portuguesa. Posso dizer que não sou monárquico mas que respeito integralmente nove séculos da História de Portugal e que sou amigo do senhor D. Duarte, como sou amigo do Adriano Moreira, como sou amigo…

Foi mandatário de Mário Soares, foi também mandatário do Bloco de Esquerda nas últimas europeias, também esteve com António Capucho. Como se define ideologicamente? É um homem de esquerda, de direita?

Eu não fui mandatário do Dr. Mário Soares, fui membro da Comissão de Honra, da Comissão Política nas últimas eleições dele. Agora, fui, sim, mandatário do Bloco de Esquerda ao Parlamento Europeu porque entendi responder positivamente a um convite que o Miguel Portas me fez. E fiz parte da Comissão de Honra de António Capucho, em Cascais, no concelho onde moro.

De esquerda ou de direita?

Toda a minha vida fala por mim. Sou um médico e sempre que tive de actuar enquanto médico perante um doente, aqui ou em qualquer parte do mundo, nunca lhe perguntei se ele era de esquerda ou de direita. Toda a minha vida fala por mim, porque acho que, mais do que as palavras, são as acções. Eu levo mais do que três décadas de intervenção humanitária e social no terreno, estive sempre, mas sempre, ao lado dos excluídos, dos esquecidos, dos sem-voz…

Os portugueses sabem isso e respeitam. O que gostaríamos era de tentar perceber se, politicamente, se considera um homem de esquerda ou de direita.

Mais do que palavras - acho que as palavras estão gastas e esgotadas - são as acções. De palavreado é muito fácil dar-se um carimbo de esquerda ou de direita. Eu demonstrei na prática o que sou, e não foi em seis meses ou num ano - levo 31 anos de intervenção social.

Mas ao nível económico é um liberal, é um defensor do Estado social europeu?

Sou um defensor do Estado social europeu, sou um homem que defende a regulação do sistema financeiro, e isto está patente nos seis livros que escrevi até hoje, sou um homem que exige maior fiscalização de certas operações financeiras, que exige regulação do mercado financeiro, que diz que, se isso não se fizer, a crise financeira de 2008 vai repetir-se e será muito pior. Sou um homem que diz que o mundo da finança e do mercado tem de pautar-se por regras éticas e de cidadania, e isso está escrito.

E como é que tem votado? Nas presidenciais votou sempre à esquerda?

Nas últimas eleições, como se recordará, só pude votar numa pessoa.

Foi apoiante de Mário Soares... Presume-se que votou nele.

Se eu lhe disser que estou casado há mais de 20 anos com a mesma pessoa e que não sei em quem é que ela vota, porque o voto é secreto?...

Continua secreto o seu, excepto aquele que tornou público, obviamente.

Sim, assumi. Como nas últimas autárquicas. É evidente que é público o meu voto.

Acabou de dizer que, no domínio económico, é um homem do centro-esquerda. E no domínio dos costumes? Como é que vê as causas fracturantes que têm dividido ultimamente a sociedade portuguesa?

Para mim não são causas fracturantes - disse-o publicamente. Acho normal que se tenha publicado a lei do casamento dos homossexuais.

Chamando-lhe mesmo casamento?

Ia acrescentar isso... Acho que se podia ter encontrado uma outra terminologia, porque casal, casamento… Mas isso são detalhes, quanto a mim. O que importava é que não houvesse a discriminação negativa que havia, que as pessoas todas, e mais uma vez apelo à unidade da nossa Nação, não fossem discriminadas negativamente. Agora, se me pergunta se teria preferido outra palavra à palavra casamento... Sim, teria optado por outra palavra, se tal fosse possível. Mas não vejo isso como problema nenhum, antes pelo contrário. Acho que é uma solução que leva ao apaziguamento na sociedade portuguesa, que acaba com uma discriminação negativa para uma população já significativa.

E também diz o mesmo para o aborto, para o divórcio?

O aborto é muito simples. Disse-o porque até tenho na minha Comissão de Honra o professor Gentil Martins, um feroz antiaborto. Disse só isto e repito: não quero mais que no meu país haja bebés atirados para as fragas e para as sanitas de certos cafés esconsos. Se o nosso país tiver condições sociais e sanitárias, tal como uma Dinamarca, uma Noruega, uma Finlândia, para criarmos um sistema de suporte social e sanitário para todos, muito bem. Se é para continuarmos a assistir, como assistíamos, a bebés encontrados nas fragas, então que se restaurasse o sistema da roda, talvez fosse até mais justo para as crianças abandonadas. Enquanto o sistema social e médico do nosso país não criar as condições perfeitas para que o aborto possa ser dispensado, prefiro que as mulheres possam abortar em situação segura. Enquanto médico, tive de tratar algumas pessoas que abortaram clandestinamente, por dilatações de paus, com infecções, septicemias e hemorragias terríveis. Acho que isso é que é imoral, não é saudável. Porque depois assistimos também a uma profunda hipocrisia de certas pessoas. Frontalmente, é assim que eu sou. Muitas pessoas que até dizem que são contra o aborto, de classes abastadas, nunca se coibiram de ir abortar a Londres, por exemplo, ou a Espanha. Vamos ser sinceros: eu gostaria que isso não fosse necessário. Mas então criemos as condições para que tal não seja necessário.

Tanto no que diz respeito à economia, como no que diz respeito a estas causas ditas fracturantes, arriscaria dizer que o senhor é um homem do centro-esquerda.

Possivelmente, sim. É nessa área que eu talvez me situasse, mas com um sentido patriótico intenso. Vivi 20 anos em Bruxelas, a minha primeira mulher é belga, os meus filhos mais velhos nasceram em Bruxelas. O meu sogro era o sétimo médico de pai para filho na Bélgica e queria que eu continuasse, dos seis filhos que teve nenhum foi médico, tinha um genro, que era eu, que era médico. Eu nunca quis naturalizar-me belga. Não obstante, todos os colegas portugueses que lá chegaram depois de mim estão lá hoje como belgas, com dupla cidadania. Eu nunca me naturalizei belga porque entendia que seria talvez uma afronta à portugalidade que o meu pai representava, por isso sou um patriota. Sabe o que me custa actualmente? É sentir como se as pessoas aceitassem que há uma espécie de fatalismo lusitano, uma inevitabilidade de estarmos sempre a ser citados, quase sempre pelas piores razões. E isso custa-me, eu sou um verdadeiro patriota. E sabem porquê? Porque, ao longo das minhas múltiplas viagens pelo mundo - eu já estive em mais de 160 países -, tenho contactado com inúmeras provas que demonstram que o nosso povo, o povo português, é ímpar desde que devidamente dirigido por lideranças que dão exemplo de esforço, que tenha desígnios, estratégias. E esse povo é ímpar, é dos 12 a 14 povos que marcaram indelevelmente a história da humanidade. E por isso, sim, devo ser alguém de centro- -esquerda... Se quiserem pôr-me um carimbo, podem pôr-me esse, mas com um patriotismo muito pronunciado.

Isso quer dizer que acha que, normalmente, a esquerda não é associada ao patriotismo?

Não, acho é que, infelizmente, o nosso país, à mercê talvez de uma apropriação durante décadas da palavra Pátria, por um sistema ditatorial que tivemos, muita gente ainda tem vergonha de se assumir como patriota. Não tenho vergonha nenhuma, tenho muito orgulho em dizer que sou patriota.

Um patriota que é de centro- -esquerda disputa os votos a Manuel Alegre ou a Cavaco Silva?

Não disputo os votos nem a um nem a outro.

Quem é o seu principal adversário nas presidenciais?

O principal adversário é a situação do País. Tudo me distingue do Manuel Alegre e do Cavaco Silva - não faço parte do sistema, nunca vivi do sistema e tenho tantas culpas na situação do País como os meus caros amigos. Acho que eles têm muito mais do que eu - não faço parte do sistema. Fui um homem que, mais do que palavreado sobre questões sociais e humanísticas, actuei. Em 14 anos no País, para aqueles que dizem que não conheço nada do que se passa no País porque andei sempre lá fora, abri 14 centros sociais, de Lousada até às ilhas. Percorro todos os anos mais de 50 mil quilómetros pelo País, conheço o meu país. O meu adversário real... E é por isso que me ergui, porque entendi que nenhum dos candidatos que se perfilavam já, quanto a mim, reuniam as condições necessárias para combater hoje a desesperança que está instalada entre nós e sobretudo entre a juventude. Eu não me ergui contra A, B, C ou D, ergui-me enquanto cidadão português que, à mercê de uma trajectória de vida, dos 27 aos 58 anos, entendeu ter acumulado uma experiência de vida e uma visão do mundo, uma mundividência da lusofonia, da lusitanidade, e um conhecimento real do País que poucos talvez terão. Entendi que talvez fosse a pessoa adequada para levar à motivação, à mobilização, ao acreditar. E porque, penso, ainda tenho as forças anímicas em mim, hoje, para poder mobilizar um povo que está numa descrença total, que já não acredita, que está de novo a emigrar. Porque os números do nosso desemprego são os números oficiais... Se não estivéssemos numa onda emigratória, sobretudo de jovens, entre quem o desemprego já ronda os 25% até aos 25 anos, possivelmente o número do nosso desemprego seria muito maior do que é hoje em dia. Por isso, não me ergui contra A, B, C ou D. Ergui-me como cidadão português que sou, porque entendo que posso dar um contributo positivo pelo pilar da cidadania, que foi sempre o meu, como cidadão apartidário, sempre fui, com uma visão suprapartidária da função do Presidente da República.

E não o tem tido?

A meu ver, não. Porque é difícil alguém que tenha feito parte de um clube durante décadas ser isento. Temos assistido a alguns fenómenos no nosso país, e só falarei de um que foi a questão das escutas do Verão passado, que sinceramente não abonou em favor do regular funcionamento das instituições do nosso país. Isso é o mínimo que podemos dizer. Por outro lado, acredito que o actual Presidente da República... E não está aqui nenhum ataque ad hominem, à pessoa, estou a falar da função, no problema financeiro e económico que temos atravessado e ainda o último ataque à posição da PT na Vivo, no Brasil. Não tenho ouvido o senhor Presidente da República como teria gostado de o ouvir, porque estão em causa pilares essenciais do Estado.

Acha que a economia portuguesa, por exemplo, nesse caso que referiu, pode e deve ser proteccionista?

À semelhança do que faz a Alemanha, Itália, Espanha, Bélgica, não vejo porque é que o nosso Estado, em certos pilares da Nação (energia, água, portos, aeroportos), não tem uma participação económica muito mais forte do que tem, permitindo que essas empresas vitais para a nossa soberania também possam ser alvo de ataques como aquele que a PT agora está a ter…

É uma empresa cotada em bolsa, portanto, tem accionistas.

Sim, está bem. Mas talvez a golden share que o Estado tem não sei se vai ser suficiente para proteger esse pilar, essa maior empresa do País.

O Estado devia ter garantido participação maior de referência na PT?

A meu ver, sim.

Que relações tem com Manuel Alegre e Cavaco Silva?

Nunca falei com Manuel Alegre até hoje na minha vida, nunca me encontrei com ele. Não tenho relação nenhuma, nunca tive. Com Cavaco Silva encontrei-me algumas vezes enquanto primeiro-ministro - era e sou muito amigo do Fernando Nogueira, por isso encontrei-me algumas vezes em S. Bento com ele. Inclusive após a primeira guerra no Iraque, quando houve os reféns portugueses, eu fui lá para tentar tirar os portugueses e trazê-los e na altura, quando regressei, fui recebido pelo então senhor primeiro-ministro. O dr. António Martins da Cruz sabe perfeitamente o que é que eu fui fazer em abono dos portugueses, que estavam a ser retidos pelo Saddam Hussein como escudos humanos. Desde então, enquanto Presidente da República, estive uma vez com ele num roteiro para a inclusão no Norte, que ele fez e acabou na Porta Amiga da minha instituição no Porto. E eu disse lá, e reafirmei-o sempre, nesse discurso também o disse, que a nossa pobreza era a nossa grande vergonha colectiva. Acho que, sinceramente, também é minha, enquanto português. Por isso, com o professor Cavaco Silva foram relações episódicas, nunca tive convite pessoal nenhum. Com Manuel Alegre, nunca falei com ele.

Interessa-lhe o nome que o PCP acabará por fazer concorrer a estas presidenciais ou é irrelevante para si?

Não, acho que o PCP tem todo o direito, e fá-lo-á certamente, de propor um candidato. Isso é um assunto que cabe exclusivamente ao Partido Comunista decidir, não tenho que opinar sobre isso.

E vê espaço para um candidato à direita de Cavaco Silva?

Mais uma vez, nesse espaço ideológico eles vão ter de decidir se se justifica ou não ter um candidato. Não é o meu espaço ideológico e não me vou imiscuir.

Acha que tem possibilidades de ganhar as presidenciais?

Acho, sim, senhor, que tenho. Acho que muitos dos descrentes, dos desmotivados, dos esquecidos do sistema, possivelmente são maioritários no nosso país…

São esses que não votam.

Pois, mas acho que vão votar. Vão pelo menos ter a possibilidade de escolha. O meu discurso vai ser muito frontal: se quiserem continuar com o sistema tal qual vigorou até hoje, vão ter candidatos do sistema, votem neles. Agora que esses candidatos não venham também dizer que são suprapartidários e pela cidadania, porque então estamos aqui numa mistura e numa tal confusão de conceitos que já deixo de entender seja o que for. Eles vão ter os candidatos do sistema, que levaram o nosso país à situação em que está, e têm responsabilidades acrescidas em relação a mim. Se querem por uma vez ter a possibilidade de uma mudança radical...

In DN

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MensagemAssunto: Inocêncio Pereira quebra o silêncio    Qua Jun 23, 2010 4:12 pm

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Inocêncio Pereira quebra o silêncio
Bragança



«Deixei 500 mil euros no Mensageiro»


30 de Dezembro de 2003, Inocêncio Pereira deixa o cargo de administrador e director-adjunto do Mensageiro de Bragança, após 28 anos ao serviço do semanário diocesano.

A direcção de Calado Rodrigues toma posse em Janeiro de 2004 e percebe-se a intenção de romper com o passado no mais curto espaço de tempo.

Na altura, Inocêncio Pereira não se pronuncia, mas a
recente demissão de Calado Rodrigues levaram-no a quebrar um silêncio de 7 anos.

Nesta entrevista ao Jornal Nordeste, o ex-director adjunto do Mensageiro explica porque falhou o projecto anunciado em Janeiro de 2008 para
expandir o semanário diocesano para o distrito de Vila Real.

Jornal Nordeste (JN) – Qual era a situação financeira do Mensageiro quando cessou funções no cargo de administrador?

Inocêncio Pereira (IP) – O jornal ficou numa óptima situação, quer financeira, quer de equipamentos. Em 1996 tínhamos adquirido instalações para o jornal e, em 2003, recuperámos as antigas instalações para fixar o arquivo. Ao todo gastámos 250 mil euros, mas para gastarmos isso tínhamos que ter muito mais, até porque não fomos buscar um tostão à banca.

JN – A transição para a nova direcção de Calado Rodrigues foi pacífica?

IP – Quando foi para Roma estudar Comunicação Social, o padre Calado já foi ao serviço do Mensageiro. Pouco antes dele regressar, eu tinha tudo preparado com o senhor bispo para entregar o inventário e as contas, mas não pensava que no próprio dia da minha festa de despedida a nova direcção mudasse as fechaduras do jornal. Quando cheguei lá, na 2ª feira de manhã, não consegui entrar, mas não foi isso que nos impediu de entregar a contas em dia e com transparência ao senhor bispo.

JN – Fala-se que o Mensageiro tinha alguns milhares de contos em depósitos bancários. Confirma?

IP – Nas contas que entreguei ao senhor bispo o Mensageiro tinha muito próximo dos 500 mil euros, em depósitos à ordem e a prazo, e quase 100 mil euros em carteira de assinantes e anunciantes, que permitiam ao jornal viver desafogadamente.

JN – Era uma situação bem diferente daquela que encontrou quando entrou para o jornal, em 1976...

IP – Completamente! Quando pegámos no jornal estivemos 4 anos sem vencimento para poder levantar o título, que não tinha instalações, não tinha equipamento, não tinha dinheiro e ainda devia 150 contos à banca. Mesmo o padre Sobrinho Alves, que dirigiu o jornal de 1980 a 1984, nunca ganhou um tostão! Depois, quando a situação melhorou, todos os que lá trabalharam tiveram o vencimento possível.

JN – Mas é sabido que o senhor conseguiu transformar o jornal numa publicação rentável. Acha que a direcção de Calado Rodrigues deu seguimento ao seu trabalho?

IP – Eu ia para o terreno! A primeira coisa que fiz quando assumi o cargo de administrador, em 1979, foi reunir com todos os presidentes de Câmara, com os responsáveis de instituições públicas e com agências de publicidade, mesmo em Lisboa.
Dessas viagens resultava sempre algo de positivo, mesmo nos corredores do poder, porque sempre tive a porta aberta em alguns gabinetes, nomea­damente o do então ministro Marques Mendes.
Também apostávamos muito em cadernos e suplementos dos municípios e tudo isso era para investir na modernização no jornal. Eu entendi que como administrador e como jornalista tinha que ir para o terreno e não é à toa que muitas pessoas ainda me ligam ao jornal.
Parece-me que a direcção do padre Calado deu-se pouco a conhecer. Disse ao senhor bispo que me disponibilizava para apresentar a nova equipa directiva às entidades de todo o distrito, para os ajudar nos primeiros 6 meses, mas ele não me respondeu. Disse o mesmo ao padre Calado, mas ele respondeu-me que não precisava porque conhecia muito bem o distrito.

João Campos, Jornal Nordeste, 2010-06-23
In DTM



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