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Romy

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MensagemAssunto: Indignados ou encurralados?   Qui Set 20, 2012 10:04 am

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Indignados ou encurralados?

por MANUEL MARIA CARRILHO
Hoje


Tudo em convulsão ou já em decomposição? - eis a questão que melhor sintetiza as consequências do brutal discurso de Pedro Passos Coelho do passado dia 7, que veio alterar radicalmente, e com consequências de momento imprevisíveis, as relações entre os portugueses e o Governo.

Isto aconteceu porque esse discurso revelou um primeiro-ministro incompetente, dogmático e autista. Características que apareceram como se da queda de uma máscara se tratasse, revelando a outra face de um político que, em geral, era visto como um homem esforçado, aberto e tolerante.

Despoletou-se assim a cólera dos cidadãos, uma cólera alimentada por uma inédita sucessão de deceções e de injustiças, que a ação do Governo foi suscitando durante o seu primeiro ano de vida. E, como ensinou Aristóteles, há mesmo uma cólera "boa", que é a que é provocada pelo sentimento de injustiça e pelo desejo de justiça.

E agora? Bom, agora este governo parece ferido de morte, isto é, afetado por um generalizado descrédito, que pode não ter redenção possível. O primeiro-ministro enfrenta por isso uma verdadeira prova de vida, a que só poderá ter alguma hipótese de sobreviver se conseguir libertar-se dos seus dois números dois: Vítor Gaspar e Miguel Relvas.

Foram estes dois ministros, os dois pilares nucleares do Governo de Passos Coelho, que - por razões diferentes, é certo - mais contribuíram para carbonizar o perfil do primeiro-ministro, num caso arrastando-o para a fogueira da imoralidade, no outro fechando-o no forno da mais cega irracionalidade. A questão, a grande questão a meu ver, é a de saber se, sem eles, existe algum Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal.

Uma remodelação, para ter algum sucesso, implica um audaz golpe de asa: um governo a sério, no projeto, na orgânica, na composição, na estratégia e nos protagonistas. Difícil!... até porque a coligação entrou na fase de guerrilha, com o PP a hesitar sobre se quer continuar a ser o garante da aliança, ou o seu sniper.

Tudo isto vai propiciar momentos de grande exaltação ideológica à esquerda radical, com a escassa utilidade de que, infelizmente, tem feito prova. Os dois protagonistas que, contudo, mais pesarão na evolução da situação, são o Partido Socialista e o Presidente da República.

O Presidente perceberá hoje melhor o erro que cometeu ao ter deixado a "rapaziada" do PSD fazer o que queria, pondo entre parêntesis o exercício efetivo da sua autoproclamada autoridade, seja no plano político, seja na vertente económico-financeira - para já não falar de outos registos determinantes, como o social ou o cultural.

O verão 2011 deveria ter sido, como muitas vezes defendi, o da abertura de um ciclo patriótico, de uma legislatura patriótica de que um Presidente da República recentemente eleito por sufrágio universal podia e devia ter feito a pedagogia, abrindo a via a um novo contrato social e político, de que o País urgentemente precisa.

Cavaco Silva tinha a obrigação de ter posto um travão a esta linha de frívolo experimentalismo político, económico-financeiro, social e cultural, que é uma das características mais evidentes dos políticos que pensam poder iludir a ignorância com a imprudência.

Um memorando "milagreiro"? Um governo minimalista, com ministros-chave sem qualquer experiência política? O sonho de "ir além" da troika? A batalha europeia sem quaisquer ideias próprias, ao colo da chanceler Merkel? A concertação social feita nos écrans da televisão? Negociação política em ziguezague e aos supetões? O constante desmentido dos objetivos anunciados? Não, ninguém pode dizer que não houve sinais - nem que eles não eram de molde a fazer o Presidente agir.

Ele preferiu todavia (como muitos outros responsáveis, é bom lembrá-lo) passar o verão a descartar tranquilamente, em todas as intervenções que fez, a necessidade e a possibilidade de mais austeridade, pelo que não se vê como poderia vir agora justificar o contrário. Mas o seu silêncio não é, mais uma vez, um bom augúrio - resta esperar pelo Conselho de Estado.

Tudo isto torna, naturalmente, o papel do Partido Socialista determinante. Consciente das responsabilidades que, com a anterior liderança, o PS teve na deterioração da situação nacional que impôs o plano de resgate, o líder do PS fez até aqui o que podia e devia: mostrar que a política é uma equação que, sem esquecer o passado, implica sobretudo o futuro e se assume no presente.

Perante os fracassos do Governo e da coligação que o sustenta, ser-lhe-á pedido tudo. E tudo é precisamente o que o líder do PS não pode prometer a ninguém. O caminho só pode ser o de preparar uma efetiva alternativa ao desastre dos últimos três anos de governação em Portugal. Nada disto é instantâneo, dá mesmo muito trabalho. Mas essa é a verdadeira via para quem - como acontece com o líder do PS, espero - acredita que, com as políticas, as ideias e os protagonistas que nos trouxeram até aqui, é daqui que nunca sairemos. Só assim, para lá de indignado, o País não fica também encurralado.

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Romy

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MensagemAssunto: Considerações em torno da 'medida'   Qui Set 20, 2012 10:42 am

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Considerações em torno da 'medida'

por CELESTE CARDONA
Hoje


No meu artigo da semana passada falei da TSU e dos modelos conhecidos em alguns países. Em nenhum deles existe algo de semelhante ao que foi anunciado. Falei, por isso, da inevitável incompreensão que grassou na sequência do que nos foi dado a conhecer sobre este novo sistema de contribuições para a Segurança Social. Admiti, apenas por uma questão de lógica racional, que esta medida teria sido tomada com objectivo de permitir maiores disponibilidades de tesouraria às empresas.

Recordo que antes da crise, especificamente antes da crise de financiamento que nos assola, era usual as empresas obterem junto dos bancos financiamentos intercalares de modo a solver compromissos imediatos e que, por isso mesmo, permitiam a circulação de fundos na economia.

Não tenho a certeza de que seja esta a exclusiva finalidade desta medida, mas, pelas palavras de um governante numa conferência pública sobre o tema, esta mesma questão e finalidade foi sublinhada no contexto de formulação de críticas aos empresários que, apesar das dificuldades de tesouraria, contestam esta medida.

Pois bem, entendamo-nos! É necessário, se quisermos aumentar as nossas exportações, diminuir os custos associados à produção. O que eu não acredito é numa economia em que essa diminuição se faça através da redução dos salários. Por isso não acredito nesta política.

A competição que a nossa economia deve realizar não é pela quantidade. Aí ficaremos sempre a perder, face aos custos salariais - muito baixos - que outras economias praticam. Não vale a pena sequer exemplificar. Todos nós conhecemos os exemplos desta política que condeno.

O que devemos fazer é aumentar a nossa competitividade pela via da qualidade. Para isso, estou em crer que é justamente através das qualificações e de remunerações competitivas que seremos capazes de "inverter" o caminho do empobrecimento.

Tudo isto a propósito da TSU. Importa referir que os "males" de que padece esta medida é a forma do seu financiamento, a sua inoportunidade económica e a maneira como a mesma foi anunciada. Porquê? Porque, como dizia ontem mesmo o eng.º Ângelo Correia, a mesma foi "capturada" ainda antes de serem conhecidos os seus contornos e elementos fundamentais.

Tudo o que resta desta medida, neste momento, é que a mesma "rouba" aos pobres para "dar" aos ricos!

Dizem-nos agora que estão a ser feitas modelações, rebalanceamentos, calibragens de modo a salvaguardar o conteúdo essencial da mesma.

Vamos ter de aguardar até que sejam mais bem conhecidos os "ajustamentos" que estão a ser feitos nesta medida, anunciada, como sabemos, como um incentivo às empresas e à criação de emprego.

Foi o mal! Recordo a última frase do meu artigo da semana passada, que se traduzia por um apelo para que nos dissessem a verdade nua e crua.

Esta medida, da forma como nos foi dada a conhecer, e tendo em atenção todos os elementos quer de experiências aplicadas noutros países quer de estudos divulgados quer ainda de afirmações públicas dos seus "beneficiários", não tem peso significativo na criação de emprego.

Mais! Não tem efeitos relevantes na política de consolidação orçamental, ou seja, a arrecadação destas taxas não vai contribuir para o acerto das contas públicas que nos é imposto externamente.

Admitindo que os "retoques" que estão a ser dados à forma de financiamento da TSU melhorem a sua compreensão e sejam susceptíveis de obter o mínimo de consenso dos parceiros na concertação social, fica ainda por resolver a questão do controlo do défice, quer o de 2012 quer o de 2013.

É que, se bem percebi, não vai ser através das receitas arrecadadas pelo aumento das taxas contributivas cobradas aos trabalhadores!

Se assim não é, alguém explica a razão pela qual de um défice de 5% para um défice de 4,5% é necessária uma política de cortes nos salários, nas pensões, nas prestações sociais e outras em valores que, segundo é divulgado, atingem cerca de cinco biliões de euros?

É urgente que nos expliquem! Todos, sem excepção, afirmam a admiração pela capacidade de sacrifício, serenidade e bom senso do povo português. Mas é necessário que o compreendam e que o conheçam. Não tenho a certeza de que assim seja!

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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MensagemAssunto: E agora?   Dom Set 23, 2012 3:55 pm

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E agora?

por PAULO BALDAIA
Hoje


Sabemos hoje, sem qualquer margem para dúvidas, que o Presidente da República trabalhou exemplarmente e conseguiu rebobinar o filme até ao ponto em que ainda é possível fazer com que tenha um final feliz. O risco reside no facto de os principais actores serem os mesmos e haver partes do guião que estão ainda mal definidas.

Podemos confiar numa coligação em que os parceiros não podem confiar um no outro? O Conselho de Estado pode fazer de conta que acredita, como fazem de conta PSD e CDS, que a criação de um Conselho de Coordenação da Coligação é uma esponja que apaga a forma irresponsável como Paulo Portas quase derrubou o Governo, mas nós sabemos que há formas de cancro que nem com quimioterapia se vencem.

O poder político acreditou que a lógica de Bloco Central (ora agora ganhas tu, ora agora ganho eu) era imutável e com isso pode ter destruído um amplo consenso social que existia a favor do necessário ajustamento económico e financeiro. As coisas já não se jogam apenas na alternativa PSD ou PS. Sair à rua contra os partidos e contra os políticos pode virar moda e a rua é facilmente influenciada por populismos e interesses obscuros.

Neste momento onde reside o poder? É em Belém? Em São Bento? Na Concertação Social? Na rua? A política tem horror do vazio e a economia vive mal com a incerteza. Cavaco Silva provou que tinha o estofo necessário para ser o mais alto magistrado da Nação, mas não pode dormir descansado depois do notável trabalho que realizou. Não pode voltar a correr o risco de ter nas mãos uma bomba pronta a detonar, porque nessa altura pode ser o fim deste filme. E a crise será muito mais grave.

Caiu uma medida (TSU) que a generalidade dos actores políticos e a maioria dos portugueses consideravam altamente injusta, mas a austeridade tem de prosseguir. O Governo continua a precisar de resolver o veto do Tribunal Constitucional para arrecadar em 2013 os dois mil milhões de euros que este ano conseguiu com o confisco de dois subsídios aos funcionários públicos e pensionistas. E precisa de mais uns milhares de milhões para tapar o buraco orçamental que continua a existir. E ainda tem de encontrar dinheiro para promover o crescimento e o emprego.

E agora? Haverá tempo para o Governo preparar um novo Orçamento até 15 de Outubro? Serão os parceiros sociais verdadeiramente competentes para ajudar o Governo a encontrar alterações à TSU? O Governo vai esperar por eles ou as alternativas que Portas diz ter apresentado vão avançar? E o PS que era contra a TSU também vai recuar e regressar ao consenso político pedido pelos conselheiros de Estado?

Agora, senhor Presidente da República, não poderá ter descanso. A Democracia em Portugal vive um momento muito perigoso.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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MensagemAssunto: O estertor   Dom Set 23, 2012 4:09 pm

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O estertorpor PEDRO MARQUES LOPESHoje37 comentários


1- Quando ficou claro que o caminho escolhido era o empobrecimento generalizado, quando os portugueses perceberam que todos os sacrifícios foram em vão e que os que se agora pedem também o serão, quando resolveu pôr em causa o equilíbrio social, o Governo perdeu o respeito das pessoas e assinou a sua certidão de óbito. Era, ao menos, desejável que mantivesse a compostura. Que preservasse o mínimo de dignidade institucional. Mas, como em muitas coisas neste Governo, seria pedir demais. O Governo insiste em oferecer-nos o espectáculo do seu estertor.

Assistimos, bastante irritados, a um primeiro-ministro que pára um País para anunciar uma medida que nitidamente não estudou, nem mediu as suas consequências, para uns dias mais tarde vir dizer que afinal a vai modelar, demonstrando que não tinha percebido o que estava em causa. Depois de ver as centenas de milhares de pessoas que desfilaram, na semana passada, começou a perceber a dimensão da sua negligência e o colossal erro que tinha cometido. É bem demonstrativo da quebra de ligação entre um primeiro-ministro e o povo que governa, serem precisas manifestações daquele tamanho para que ele pensasse voltar atrás com a sua decisão - e é no mínimo curioso, para quem dizia que não governava em função de manifestações. Revela bem o seu isolamento ter ficado surpreendido com a reacção de todos os parceiros sociais.

Um homem que toma uma decisão daquela importância e depois recua por não ter estudado, reflectido e ouvido muita gente, pode não ser cego, surdo e mudo, mas falta-lhe obviamente alguma coisa para poder ser primeiro-ministro. Qual será a próxima medida estratégica não pensada a ser apresentada que passado uns dias irá parar ao lixo?

Observamos Passos Coelho a ser publicamente humilhado pelo Presidente da República quando pede a comparência de Vítor Gaspar para que explique ao Conselho de Estado as alterações à TSU. Para a humilhação ser completa, o Conselho de Estado emite um comunicado que é uma espécie de açoite ao primeiro- -ministro: congratula-se com decisões dos países da Zona Euro em relação à disponibilidade do BCE para comprar dívida no mercado secundário e em prosseguir com políticas de emprego e crescimento, ou seja, tudo ao contrário do que Passos Coelho tem defendido. E, claro está, de braço ao pescoço, o primeiro-ministro anuncia ao Conselho de Estado "o estudo de alternativas à alteração da TSU".

Ficamos boquiabertos quando vemos o ministro Portas a dar uma conferência de imprensa em que critica o Governo de que faz parte e fala de medidas que com certeza se esqueceu de sugerir no local próprio. Ou do pormenor de ter dito que foi apenas por razões de emergência nacional que aprovou as alterações à TSU, mas, claro, não quis deixar de partilhar as suas preocupações connosco, quinze dias depois... Quanto a falta de sentido de Estado estamos conversados: o ministro dos Negócios Estrangeiros está no Governo certo.

O estertor nunca é um espectáculo dignificante, mas o que estamos a assistir está para lá do suportável.

2- Surpreendentemente, há quem ache que uma remodelação poderia dar um novo fôlego ao Governo. Esqueçamos, por instantes, que os cadáveres não respiram. Só alguém completamente alheio da realidade pode acreditar que existe um profissional competente que aceite fazer parte dum Governo que tem por estratégia a implementação duma política que vai levar o País ao mais absoluto caos.

E será que alguém crê que um homem ou mulher com capacidade para exercer funções governamentais aceitaria ir para um Governo com uma orgânica que o faz completamente inoperacional? Ou pertencer a um Governo sem o mínimo de coordenação política ou núcleo político forte? Ou aceitar fazer parte dum Governo em que os ministros dos dois partidos não confiam uns nos outros, sobretudo Passos Coelho e Paulo Portas? Ou ter de alinhar com as políticas suicidas de Merkel e Cia.? Ou estar num Executivo em que Relvas e Gaspar põem e dispõem? Claro que não. Mas vamos imaginar que o primeiro-ministro prometia ao tal profissional uma mudança. Que tudo iria ser diferente: nova política, nova coordenação ministerial, boys partidários expulsos, gente competente e conhecedora do País, fim da patetice populista do Governo pequeno, fim do Governo paralelo chefiado por Borges mais comissões e grupos de trabalho. Acreditaria o tal cavalheiro que o primeiro-ministro iria de facto mudar? Obviamente que não.

O responsável por o Governo ter chegado ao estado a que chegou é o primeiro-ministro. Passos Coelho matou o Governo, não será ele a ressuscitá-lo. E nada mudará enquanto ele for o primeiro-ministro.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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MensagemAssunto: Diz lá qualquer coisa que serve   Dom Set 23, 2012 4:17 pm

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Diz lá qualquer coisa que serve

por FERREIRA FERNANDES
Hoje


Por estes dias demo-nos conta do nascimento de uma (enfim, duas) palavra oficial, rapidamente caída no goto de políticos, jornalistas e comentadores, tão nebulosa como devem ser as palavras oficiais mas, esta, com uma cândida confissão. Era tão sem nada para dizer que nem era uma, mas duas: ora modelação, ora modulação, e dizia-se uma delas ao calha. Uma ou outra foi dita por Passos Coelho quando, os acontecimentos obrigando-o a arrepiar caminho, ele afirmou que poderia mudar a sua proposta da TSU. Mas disse ele "modelação"? Isto é, tornear, ajustar... Ou ele disse "modulação"? Isto é, passar o canto ou a harmonia para um tom diferente... A primeira hipótese é verosímil, própria do jogo de cintura de qualquer político; mas a segunda também é, vinda de Passos Coelho, que não destoa ao cantar "chamava-se Nini/vestia de organdi". O uso da palavra inócua não teria interesse, não fosse sindicalistas e políticos, na esteira do primeiro-ministro, passarem a citá-la como crucial. Tão decisiva que uns diziam "modelação" e outros "modulação"... E os jornalistas faziam-lhes eco, ora modelando, ora modulando. Paulo Pinto, professor da Universidade Católica, propôs no blogue Jugular uma palavra nova: "mudlar", a síncope do "e" ou do "u" poupando-nos esta vergonha. Esta. Para as outras, nascidas do mesmo vício, fica a mezinha tradicional. De cada vez que falarmos, pôr esta dúvida: de que estamos a falar quando estamos a falar?

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MensagemAssunto: É tempo   Dom Set 30, 2012 11:35 am

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É tempo

por PEDRO MARQUES LOPES
Hoje


O tempo por estes dias corre mais depressa. A torrente de acontecimentos é tal que a palavra dita ou escrita já perdeu actualidade no segundo seguinte. Acontecimentos, estudos, notícias que seriam dissecadas e permaneceriam no espaço público muito tempo são rapidamente substituídos por outros. Não, agora não é só a voracidade dos media, a necessidade de manter o fluxo de notícias, o facto de vivermos afogados em informação e pseudoinformação. O clima está mais que propício à confusão de acontecimentos, aos mais variados conflitos, às mais estapafúrdias declarações, à confusão entre assuntos de facto relevantes e outros absurdamente irrelevantes.

Não surpreende por isso que a sondagem do DN/Universidade Católica do já muitíssimo distante dia 20 tivesse sido devorada pela enxurrada de acontecimentos: desde esse dia o mundo, segundo esta agenda de galinha bêbada, já teria mudado dez vezes. O estudo não traz grandes surpresas, vale sobretudo pela confirmação de algumas percepções. Mas, mais uma vez, a novidade está na velocidade com que alguns conceitos e situações se propagaram.

Sim, sabíamos que as pessoas não andavam contentes, mas provavelmente não imaginaríamos que 87% dos portugueses estariam desiludidos com a democracia. Este número apouca o facto de Passos Coelho ser agora mais impopular que Sócrates no fim do seu mandato, ou de o PSD ter tido uma quebra de intenções de voto que deveria levar os seus dirigentes a pensar se não estarão a perder o seu eleitorado tradicional, remetidos praticamente à irrelevância. Claro está que a conjugação da enorme quebra do PSD com a quebra, ainda que ligeira, do PS é já um sintoma terrível: os partidos do centro, os partidos da democracia (com o CDS) perdem para os que, pura e simplesmente, não acreditam na democracia liberal (veremos o que nos traz o novo BE, mas não parece que seja nada de novo). Mas, como tudo nos tempos que correm, as coisas podem ser sempre piores: o "partido" que mais cresce é o das pessoas que se recusam a utilizar o mais sagrado direito democrático, o voto.

Os tais 87% de portugueses desiludidos com a democracia são os mesmos cidadãos que se manifestam em Atenas ou Madrid. Iguais aos catalães que pensam que a sua independência (o paralelo com os anos 30 do século passado arrepia) lhe resolverá os problemas económicos (ou alguém pensa que o que se está a passar na Catalunha estaria a acontecer num período de saúde económica?). Estes portugueses são os italianos, os franceses, os holandeses e os próprios alemães daqui a uns meses. Gente que deixa de acreditar na democracia pela mais simples razão do mundo: para eles democracia significa bem-estar, direitos sociais, boas perspectivas para eles e para as suas famílias.

Nunca é demais repetir que ninguém nasce com a democracia no seu ADN. Que o Plano Marshall foi incomensuravelmente mais que um plano económico, foi sim um plano político que visava impedir os povos europeus de caminharem para soluções comunistas ou fascistas. Que as democracias do Sul da Europa se consolidaram com a integração europeia não porque tivessem sido subitamente tocadas pela varinha da fada democrática mas porque isso lhes trouxe desafogo económico.

Numa altura em que o Governo está a preparar o Orçamento Rectificativo para 2012, o tal que é uma espécie de crisma da incompetência de Vítor Gaspar, e o para 2013, em que vai insistir em opções que já provaram estar erradas, nada indica que tenha percebido com que tipo de escolhas políticas está a colaborar e que desde há muito assumiu como suas: são as que vão levar Portugal ao caos económico e social (ao político já chegámos) e em que ninguém dará um chavo pela democracia.

O que está em causa não é mais ou menos austeridade, um menor ou maior empobrecimento, mais ou menos défice, já estamos para lá disso. O que está em causa é se queremos continuar a viver em democracia ou não. As manifestações, os insultos aos políticos são só o primeiro sinal. A conjugação, mais ou menos indissociável, entre a quebra de confiança em toda a classe política e a brutal queda nas condições de vida das populações é absolutamente letal para a democracia, e, claro está, para o País.

Infelizmente, não será só em Portugal que tudo isto corre o risco muito sério de acontecer, será em toda a Europa. Convinha mesmo acordar antes que seja tarde demais.

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MensagemAssunto: A noite passada   Dom Set 30, 2012 11:41 am

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A noite passada

por PAULO BALDAIA
Hoje


A noite passada, vi-me num sonho em que estava feliz porque não havia alguns portugueses a sentirem-se mais justos que os outros. Ninguém era insultado pela "ousadia" de pensar diferente, nem ninguém era culpado do que quer que fosse pela cara que tem, pelo cargo que ocupa ou pelo partido a que pertence.

A noite passada, os que se julgam justos não faziam julgamentos sumários na praça pública, nem havia ministros a brincar com a justiça. Um político como Rui Rio era ouvido com o máximo de atenção, porque nunca teve medo de chamar os bois pelo nome. A noite passada, o chefe do Governo aparecia no meu sonho a remodelar o Executivo e a escolher Rio como ministro da Justiça.

A noite passada, não consegui ver o futuro e assustei-me por não saber que país estou a construir para as minhas filhas. Mas dormi o sono dos justos porque soube que as certezas dos outros valem tanto como as minhas certezas. A noite passada, não havia os que passam mal e os que não passam. Havia uma multidão de gente interessada em perceber como podemos, juntos, fazer com que todos passem bem. A noite passada, havia governantes que não cediam na definição do papel do Estado e que não deixavam ninguém sem rendimentos, porque numa Democracia não pode haver gente descartável. Mesmo em nome do bem-estar da maioria, não pode haver gente que é apenas estatística.

A noite passada, decidimos que íamos fazer o que tinha de ser feito. Percebemos que é preciso ter a coragem de fazer algo diferente do que fizemos até aqui. Sem tabus e com a única certeza de que temos de nos ouvir uns aos outros. Ninguém nos disse o que tínhamos de fazer e, no entanto, conseguimos convencer os mercados que somos bons pagadores.

A noite passada tínhamos levado os senhores da troika ao aeroporto porque nos tínhamos entendido sobre a necessidade de ajustar as nossas despesas. E descobrimos que tudo se fazia mais facilmente se fôssemos solidários. E percebemos que é aí que reside a verdadeira justiça.

A noite passada sonhei. E, ao acordar, continuei a sonhar.

Sonho acordado, porque é possível ter uma Justiça que funciona não distinguindo os pobres dos ricos, nem vampiriza a política sedenta do sangue dos poderosos, nem alimenta multidões famintas de uma falsa justiça para quem a verdade é um pormenor. Sim, porque é possível ter uma Justiça que condena os culpados e deixa em paz os inocentes.

Sonho acordado, porque é possível ajustar a economia e as finanças do País com equidade, o mesmo é dizer com justiça, mas para isso não chega ter bons políticos. É preciso que todos nós estejamos verdadeiramente interessados em ser solidários. Sim, porque é possível distribuir melhor a riqueza que produzimos.

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MensagemAssunto: O social é político   Dom Set 30, 2012 12:51 pm

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O social é político

por José Manuel Pureza
Hoje


São ignorantes, diz António Borges. São cigarras, acusa Miguel Macedo. São piegas, acha Passos Coelho. São dignos, afirmo eu. E são muitos, mostram-no todas as imagens tiradas ontem no Terreiro do Paço. E quem disser que eram "os do costume nas manifestações sindicais" erra: muita, muita gente de outras trajetórias, que quebrou o medo e a resignação a 15 de setembro e que responde "presente" quando a convocatória rompe com lógicas de capelinha, esteve ontem na rua. É gente, cada vez mais gente, que desafia todos os cinismos instalados e vem à rua fazer estoirar a blindagem das verdades que só servem para penalizar sempre mais as vidas de quem tem vidas castigadas.

O Governo e a troika invocaram desde o início, em favor do seu programa para o País, a base social e política alargada de que dispunham. Essa base social, se alguma vez existiu, estilhaçou-se. A mentira do discurso da regeneração pelo empobrecimento ficou escancarada: um milhão e trezentas mil pessoas que podem e querem trabalhar e não conseguem trabalho; uma dívida que não para de crescer; um défice que em vez de recuar avança (será 124% do PIB em 2013) é realidade a mais para ser disfarçada em projeções de quem não sabe nada sobre o País nem sobre a vida para além do Excel.

A base social da troika e do Governo estilhaçou-se. E isso há de ter expressão política. Tem de ter.

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MensagemAssunto: Surto de vozes excitadas   Dom Set 30, 2012 1:28 pm

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Surto de vozes excitadas

por FERREIRA FERNANDES
Hoje


Nada melhor para mostrar as nossas incertezas e fraquezas do que ouvir gente que nem disso se dá conta. De um lado, o consultor do Governo para as privatizações, António Borges, a dizer que "os empresários que se apresentaram contra a medida [mudanças na TSU] são completamente ignorantes". Do outro, o líder sindicalista Arménio Carlos a garantir que "se o Governo não ouve o povo a bem, ouve a mal". A falta de dúvidas de Borges é terrível, da função dele esperar-se-iam pontes entre o Governo e os empresários, não insultos. Ora o que ele disse tem como precedente a incapacidade de se lhes ter explicado o que de bom traria a mudança na TSU - o quase unânime repúdio dos patrões sobre o assunto mostra que algum erro deve ter havido da parte dos explicadores. Chamar burros a quem se explicou mal indicia que Borges não aprendeu com o erro (dele) e que vai continuar por aí. Impante e sem dúvidas é exatamente o tipo de responsável de que não precisamos hoje. A ameaça de Arménio Carlos também é terrível, porque acena com uma força indevida. Encher as ruas e as praças de protestos pode ser um termómetro, alerta - serve para isso, não mais. É prudente ouvir esse termómetro, mas ninguém é obrigado, nem o Governo. Obrigatório, mesmo, é outro instrumento. Chama-se eleições, e da última vez encheu as praças (neste caso, urnas) com 2.813.729 eleitores (soma PSD e CDS). Só as seguintes obrigam a ser ouvidas, "a bem ou a mal".

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MensagemAssunto: O mais paciente dos povos   Dom Out 07, 2012 2:33 pm

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O mais paciente dos povos

por PEDRO MARQUES LOPES
Hoje


1 Convenhamos, numa semana em que é anunciada a destruição da classe média, num mês em que se assistiram a enormes manifestações contra o Governo, numa altura em que os portugueses anseiam por quem os represente, por quem dê voz ao seu descontentamento, não se estava propriamente à espera que o Presidente da República nos viesse falar de educação. Digamos que quando Cavaco Silva veio lembrar que há limites para os sacrifícios a situação não era sequer parecida com a que hoje vivemos. Parece ser um bocadinho curto referir, quase a medo, que é preciso dar sentido ao esforço dos portugueses, num momento em que estes não conseguem vislumbrar uma luz ao fundo do túnel, em que o desespero está instalado, em que precisam de esperança como de pão para a boca.

De facto, o discurso do 5 de Outubro de Cavaco Silva contribuiu para o sentimento de orfandade, utilizando toda a moderação deste mundo, dos portugueses em relação aos políticos. Existe, porém, uma razão para que o Presidente da República tenha feito o discurso que fez. Como toda a gente já reparou, a coligação governamental acabou e o Governo está ligado à máquina: Cavaco vai ter de arranjar uma solução de Governo e não é o momento para criar conflitos com quem quer que seja. Portas já aguentou os enxovalhos que tinha de aguentar e o líder do CDS sabe que se pactuar com este brutal aumento de impostos perde toda a sua base de apoio e enterra definitivamente o que resta da sua credibilidade. É bem verdade que Portas perderá sempre, quer fique no Governo, quer saia. Mas também é verdade que a posição de Portas é insustentável. E não vale a pena apelar à compostura e lembrar a situação do País: a risota de Passos e Relvas quando Honório Novo mostrava a carta que Paulo Portas enviou aos militantes diz tudo sobre o sentido de Estado dos referidos senhores.

E nem vale a pena lembrar o discurso de Mota Soares, que conseguiu fazer de Ministro e de oposição ao mesmo tempo, ou ter assistido à reacção da bancada do CDS ao discurso do primeiro-ministro. Cavaco sabe que a relação entre CDS e PSD morreu. Mas o Presidente da República sabe muito mais. Sabe que não é possível governar contra tudo e contra todos e, sobretudo, contra as pessoas. Numa ditadura os mercados e os credores podem ficar à frente das pessoas, numa democracia não. No discurso do 5 de Outubro, Cavaco não falou do País nem para o País porque está demasiado ocupado a pensar que tipo de solução governativa vai arranjar para Portugal. É bom que assim seja.

2 O homem que veio apresentar o maior assalto fiscal de que há memória, substituindo o outro que nos prometeu ser sempre ele a apresentar as más notícias, por uma vez acertou. O homem que fez dos orçamentos rectificativos uma rotina, que em Maio não conseguiu, nem aproximadamente, prever o desastre na execução orçamental, que tem o descaramento de afirmar que estamos no bom caminho quando apesar de todos os sacrifícios, todas as falências, todo o desemprego, nem os objectivos do défice conseguiu assegurar, numa coisa não se enganou: a desigualdade vai diminuir. Como não se pode diminuir a desigualdade aumentando o padrão de vida dos mais pobres, acaba-se duma vez por todas com a classe média e ficamos todos pobres. A classe que só era média pela medida portuguesa desaparece. Portugal, que já constava do triste rol dos países em que um cidadão podia ser muito pobre tendo trabalho, vai ter agora um papel de destaque nessa infelicíssima lista.

Claro que a desigualdade vai diminuir, vai diminuir e muito. Ficamos todos pobres com meia dúzia de ricos que vão acabar por fugir a sete pés para paragens onde possam investir o seu dinheiro. Daqui a uns meses, muito poucos, vamos perceber que o ministro das Finanças apenas acertou na questão da desigualdade. Claro que os objectivos do défice não serão alcançados. O desemprego vai brevemente chegar aos 20% e as poucas empresas que restam falirão. Mas a Vítor Gaspar isso não perturba desde que os mercados estejam satisfeitos. Gaspar e Passos parecem desconhecer que o assalto anunciado acelerará furiosamente o processo de desagregação social e lançará o País no mais absoluto caos. A miséria, o desespero, a desobediência civil farão parte do nosso quotidiano.

Podemos não ser o melhor povo do mundo, mas somos certamente o mais paciente com a loucura e a incompetência.

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MensagemAssunto: É justo?   Dom Out 07, 2012 2:43 pm

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É justo?

por PAULO BALDAIA
Hoje


As celebrações do Dia da República ficaram marcadas por dois pequenos incidentes: a bandeira foi hasteada de pernas para o ar e uma senhora afirmou o seu desemprego e o seu desespero alto e bom som durante a cerimonia. Nos blogues, nas redes sociais e até no Congresso das Alternativas o desespero da senhora foi goleado pelos trocadilhos à volta da bandeira. A elite portuguesa adora conversas da treta.

Antes mesmo de o Governo nos ter apresentado a alternativa às alterações na TSU, já tínhamos todos andado entretidos com cigarras, formigas e ignorantes do senhor Borges. Imagino que a facilidade com que em Portugal se faz tanta conversa da treta tenha a ver com o facto de haver muitos comentadores que gostavam de ser políticos e muitos políticos que sonham ser comentadores.

Num momento em que o Governo perdeu parte significativa da sua base eleitoral, em que a coligação dá sinais de não resistir muito mais tempo, a elite portuguesa limita-se a mandar umas larachas e a ver o tempo passar. E, enquanto o tempo passa, o desespero sentido no protesto daquela senhora da República ganha forma na vida de largos milhares de portugueses.

Podemos todos argumentar sobre as responsabilidades do Governo mas não devemos assobiar para o lado, julgando que a nossa responsabilidade se esgota na crítica, mais ou menos justa, que fazemos à acção governativa. A verdade é que, para percebermos o que nos está a acontecer, não podemos fazer discussões a preto e branco. O Governo não e tão mau como diz a oposição, nem tão bom como eles próprios se julgam.

Despindo as camisolas partidárias, o nosso juízo seria mais justo se procurássemos analisar factos quando queremos avaliar o trabalho dos outros. E tudo seria ainda mais justo se a exigência que colocamos na avaliação dos outros fosse a mesma exigência com que nos avaliamos a nos próprios. De outra forma, continuaremos a dizer mal dos outros com o único objectivo de parecermos nós próprios menos maus.

Em Portugal, estamos ainda muito longe de saber para onde vamos. Não há o mínimo consenso sobre a forma de construir uma sociedade mais justa. A elite culta e endinheirada perde demasiado tempo a olhar para o umbigo. O Governo tramou-se porque mexeu no bolso dos comentadores (políticos, jornalistas e afins). Há um ano, quando um saque ainda maior foi feito aos funcionários públicos e pensionistas, não se ouviu metade da berraria.

Descontando a discussão sobre se o Governo precisa ou não dos milhares de milhões que nos vai cobrar a mais, eu, que vou ver os meus rendimentos altamente depauperados, vejo justiça na solução encontrada. Tão simples como isto: quem ganha mais, vai pagar mais.

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MensagemAssunto: A tragédia e as farsas   Dom Out 07, 2012 2:51 pm

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A tragédia e as farsas

por ALBERTO GONÇALVES
Hoje


Na passada quarta-feira, o ministro das Finanças justificou a fama de liberal à portuguesa e divulgou o conjunto mais socialista de medidas desde 1975. Em vez das mudanças na taxa social única, que favoreciam os empregadores em detrimento dos assalariados, ganhámos umas habilidades no IRS que prejudicam os assalariados a favor do Estado. Sobretudo, as medidas prejudicam os assalariados que pagam impostos, conhecidos consoante a perspectiva como a classe média ou os "ricos", doravante dobrada e redobradamente taxados no património e no que calha.

Em simultâneo, Vítor Gaspar admitiu o que já era uma evidência: o Governo não quer, não pode ou não sabe cortar na despesa, pelo que o combate ao défice continuará a travar-se quase exclusivamente através da receita. O dr. Gaspar não precisou de admitir que, face às promessas de campanha e às carências do país, o Governo é um logro. Corre-se com ele?

Sugiro calma. A menos que se seja entusiasta de golpes militares e das ditaduras subsequentes, enxotar o Governo implica colocar alguém, ou alguma coisa, no seu lugar, em princípio um partido ou uma associação de partidos designados mediante eleições. Mas quais?

Basta olhar a oposição e concluir, sem espanto: a esquerda explícita em geral consegue mostrar-se capaz de fazer bastante pior do que a esquerda implícita que hoje manda nisto. O PS, escondido atrás de um "sentido de responsabilidade" que nunca se lhe adivinhou, evita as maçadas do poder e sugere a repetição das exactas loucuras que nos arruinaram. Os partidos comunistas insurgem-se contra os impostos e o "pacto de agressão" enquanto defendem um Estado totalitário, falido e pária. Para completar o quadro, um divertido Congresso das Alternativas irrompeu a sugerir que a alternativa à penúria é o carnaval.

A verdade, escassamente lembrada, é que entre todos os críticos do Governo pouquíssimos estão preparados para assumir as críticas até às últimas consequências e lidar com um desagradável facto: ou sobem os impostos ou descem as prestações sociais e os empregos na administração pública. Dito de maneira diferente: ou há remendos ou há reformas. Ou ainda: ou há austeridade injusta ou há austeridade necessária. Mal por mal, eu preferiria a segunda hipótese. O Governo, inepto para abolir municípios, uma mera estação televisiva ou fundações e similares, prefere obviamente a primeira. E eis a escolha que temos. O resto, ou as exigências de "renegociação" (leia-se de anulação) da dívida, os gritinhos que reclamam a expulsão da troika e os palpites do dr. Soares, que anda por aí a propor a impressão de notas de banco, naturalmente não é para levar a sério.

Séria é a trapalhada a que chegamos, que uns abdicaram de resolver e os outros tentam empenhadamente agravar. Os cartazes que o PCP espalhou nas ruas pedem o fim do desastre. Supõe-se que para marcar a data do velório.

Segunda-feira, 1 de Outubro

O hino, a bandeira e o vereador

Reunidos em congresso no fim-de-semana, os autarcas queixaram-se de ser alvo de uma "campanha" que visa criar "uma imagem negativa" do poder local. A campanha existe, mas não organizada por quem os autarcas sugerem, isto é, o Governo. A imagem negativa do municipalismo é pública (nos dois sentidos) e a sua congeminação está inteirinha a cargo dos próprios autarcas.

Que se saiba, são eles que contraem dívidas extravagantes, cozinham arranjinhos, servem compinchas, iniciam obras perpétuas, patrocinam "arte" e rotundas, distribuem sacos azuis, arrasam património, dormem com os "agentes" da bola, desfeiam as cidades, negoceiam "cunhas", plantam empresas municipais, passeiam prepotência, inauguram "multiusos" sem uso nenhum, atentam contra a língua portuguesa que enchem de "paulatinamentes" e "alavancagens", prestigiam "certames" engendrados por amigos, mandam os motoristas catar a descendência à escola e, pelo menos num caso, recorrem ao mesmo motorista e ao mesmo transporte financiados por dinheiro alheio para atravessar metade do território pátrio e comparecer, todas as semanas, num debate televisivo (sobre futebol, claro).

A propósito: em funções ou fora delas, um vereador a desfilar no banco traseiro de um automóvel de alta cilindrada pago pelo contribuinte é dos mais fiéis retratos da nossa desgraça. Ali, escolhido pela casta partidária e eleito numa lista de anónimos, não vai apenas uma irrelevância convencida do contrário, nem somente um símbolo do regime, nem sequer uma metástase da triste democracia que jovialmente erguemos: ali vai o país.

Terça-feira, 2 de Outubro

Um serão da província

Prostrado devido a uma cefaleia, apanhei inadvertidamente com um programa da RTP chamado Cinco para a Meia-Noite. No referido programa, vi: uma entrevista a Vítor Espadinha, na qual o estimado cançonetista confessou ter gasto em "gajas" (sic) o dinheiro que ganhou ao longo da vida; uma entrevista a Vitorino, na qual o cançonetista falou do seu ódio à língua inglesa, à bandeira inglesa e ao mundo anglo-saxónico em geral (Cuba é que é giro, não é? E a Bolívia? Falem-lhe na Bolívia que o homem derrete-se), justificou como pôde a participação num anúncio publicitário em que aparece a cantar em inglês e explicou que só não participara num protesto dos cidadãos incapacitados junto à AR por causa daquele exacto compromisso televisivo (é assim: as obrigações da autopromoção sobrepõem-se a uns aleijadinhos); um apresentador com tanto talento para a função quanto eu para reparar motores de seis cilindros.

Principalmente vi o apresentador conduzir um inquérito de rua, talvez pensado para fins humorísticos. Filmado na Baixa lisboeta, o inquérito sondava transeuntes sobre a frase do ministro Miguel Macedo alusiva às cigarras e às formigas e terminava com um transeunte peculiar, um demente ou um bêbado que não dizia coisa com coisa mas que se afirmava orgulhosamente "do Norte". Além de troçar do infeliz, o apresentador repetiu uma data de vezes, em tom que alguns julgarão irónico: "Não se nota nada que é do Norte«."

Ora bem. Embora nado e criado no alegado "Norte", onde de resto sempre vivi, nunca empunhei a bandeira da região, nunca partilhei o paternalismo que publicita a "hospitalidade" das "gentes" e nunca percebi as generalizações que tratam o "Norte" enquanto um congresso de virtudes. Se calhar por isso, também não aprecio as generalizações de sentido contrário, as que, em tom sério ou cómico, reduzem alguns milhões de pessoas a variações do tipo rústico. Ou, pelos vistos, do bêbado. Ou do demente.

É até arrogante esclarecer que o apresentador do Cinco para a Meia-Noite possui todo o direito de insultar os judeus, os árabes, os pretos, os brancos, os finlandeses, os anões e, lá está, o que quer que sejam os "nortenhos". Todo. Só me aborrece que pratique o exercício na RTP, que os nortenhos pagam e que este particular nortenho preferia não pagar. Além da Taxa de Contribuição ("contribuição" é maneira de dizer) Audiovisual, que ronda os 150 milhões, a estação ainda recebeu em 2012 uma "indemnização compensatória" de 90 milhões. Entre avanços e recuos, o Governo não extingue esta brincadeira, o líder de um dos partidos no Governo defende a brincadeira enquanto se queixa dos impostos, a oposição toma a brincadeira a título de serviço público e, goste ou não, o público financia a brincadeira e os palermas que nela florescem.

Quinta-feira, 4 de Outubro

Olha quem fala

O New York Times considerou "pouco útil" o primeiro de três debates televisivos entre Barack Obama e Mitt Romney. De facto, o encontro não teve utilidade nenhuma para quem queria ver o Presidente em funções humilhar o candidato. Pelo menos desta vez, a coisa correu mal: a reverenciada retórica do democrata, excelente em trivialidades vagas, revelou-se quase cómica no confronto com a realidade de quatro anos tristes. E depois houve o republicano, que por ser religioso e não ser de esquerda era visto em certos meios como a personificação da idiotia. Romney, ficou provado, não é idiota. Admito que, por diversos motivos, também não é o sujeito ideal para varrer o estatismo interno e o ecumenismo externo infiltrados na Casa Branca. Ainda assim, conforme o debate mostrou, é uma modesta esperança. Em inglês, "hope", palavra ultimamente familiar e profanada.

A artimanha

Paulo Portas tem sido pouco referido nesta página. Presumo que o objectivo imediato do dr. Portas seja ser pouco referido em qualquer página. O objectivo a prazo é passar incólume sob o desgaste do Governo e, no momento oportuno, derrubá-lo. É uma finalidade respeitável. Discutível é o meio, que se esgota na adesão a cada voga "popular", incluindo o apelo a cortes na despesa semanas depois de conspirar discretamente contra a privatização da RTP. Se a artimanha resultar, fica provado que ou os cidadãos sofrem de um atraso profundo ou dedicam as respectivas existências à consumação dos sonhos íntimos do dr. Portas. Quais sonhos, já agora e se não for indiscrição?

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MensagemAssunto: D. Policarpo não está cá   Qua Out 17, 2012 11:10 am

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D. Policarpo não está cá

por BAPTISTA BASTOS
Hoje


D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, disse, em Fátima, ser contra as manifestações populares, as quais, assim como as revoluções, nada resolvem. A frase é inquietante, proferida por quem é: um homem culto, conhecedor da História e dos movimentos sociais que explicam e justificam as modificações políticas. Mais: numa altura em que o País vive uma crispação inédita, onde a fome, a miséria e a angústia estão generalizadas, as palavras de D. Policarpo não são, somente, insensatas - colocam o autor no outro lado do coração das coisas.

Diz, ainda, o solene purpurado: "Até que ponto é que nós construímos uma saúde democrática, com a rua a dizer como se deve governar?" Não contente com a afirmação adianta, sem hesitar e sem pejo: "O que está a acontecer é uma corrosão da harmonia democrática, [sic] da nossa Constituição e do nosso sistema constitucional."

D. Policarpo deve saber que a legalidade do voto não legitima acções de dissolução, como as praticadas, diariamente, por este Governo, contra as populações, contra a Constituição, contra as normas mais elementares do viver democrático. Deve também saber que a rua possui o poder de corrigir, com o protesto, a insolência de quem se julga detentor do direito absoluto. "Vamos cumprir o nosso rumo, custe o que custar", na expressiva vocação totalitária do primeiro-ministro, é, isso sim, "uma corrosão da harmonia democrática." E D. Policarpo, que parece crer em alguns absurdos, acredita, seriamente, que os portugueses vivem, mesmo, nessa benfazeja e bendita concórdia? Só assim se justificaria a enormidade das suas declarações.

O pacifismo e a magnitude das últimas manifestações podem e devem ser interpretados como uma insubmissão de dissidência, e repúdio pela maneira como somos conduzidos e governados. No fundo, a rua é o lógico prolongamento de um mal-estar que o cardeal parece dramaticamente ignorar ou omitir. Ele não gosta da rua, e está no seu direito. Mas já não é de seu direito condenar aqueles que recusam a servidão imposta por esta "harmonia democrática", quando ela é tripudiada por um Governo que exerce o poder nas raias da ilegalidade, como o asseveram o Tribunal Constitucional e muitos outros constitucionalistas.

Sabe-se que D. Policarpo sempre foi muito recatado em condenar os desmandos do poder. Ele é mais das meigas coisas celestinas do que das asperezas terrenas. Assim, serviu-se, acaso excessivamente, ao longo dos anos, de metáforas mimosas para não dizer o que dele se esperava: a clareza do verbo e a argumentação qualitativa do requisitório evangélico. Desta vez, porém, a frase foi desprovida de adornos. E, com irada exacerbação, deu amparo e continuidade às ideias e aos processos do poder, vituperando aqueles que, legitimamente, o contestam.

Valha-o Deus!

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MensagemAssunto: Obrigada, Isabel Jonet   Sab Nov 10, 2012 6:20 pm

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Obrigada, Isabel Jonet

por FERNANDA CÂNCIO
Ontem


Quem não se lembra do fim de 2010, quando a campanha presidencial de Cavaco lançou a ideia de recolher restos nos restaurantes para dar a quem "precisasse"? Nessa altura, havia, dizia-se, fome em Portugal, era preciso um sobressalto cívico e não se podiam exigir mais sacrifícios aos portugueses. Aparentemente, desde então, tudo melhorou, ao ponto não só de nunca mais termos ouvido ao Presidente uma palavra sobre tupperwares com sobras (e, a bem dizer, poucas sobre seja o que for), como de a presidente do Banco Alimentar certificar que é preciso habituarmo-nos à ideia de que não podemos comer bife todos os dias.

O que era uma desgraça no início de 2011 - o risco de pobreza - tornou-se, pois, uma virtude em 2012. E por assim ser o discurso de termos vivido "acima das nossas possibilidades" fez-se hegemónico. Pelo que pessoas como Isabel Jonet se sentem cada vez mais à vontade para nos admoestar, como a própria fez na SIC-Not esta semana, sobre as nossas prioridades trocadas: concertos rock à pinha quando depois não há dinheiro para fazer uma radiografia (sim, foi isto); lavar os dentes com água corrente em vez de com copo (também); etc - um etc que passa pelo recurso ao crédito para consumos desenfreados "de quem julgava que alguém ia pagar".

Esta catilinária infantilizadora de Jonet irrita, compreensivelmente, muita gente, havendo mesmo quem clame pela sua demissão e por boicotes ao Banco. Um exagero - afinal, ao contrário do BPI de ai-aguenta-aguenta-Ulrich, a organização a que Jonet preside faz qualquer coisa para obviar aos efeitos da austeridade. E entre tanto disparate Jonet até disse uma coisa interessante: que ainda não há miséria em Portugal, ao contrário do que constatou na Grécia. Motivo? "Temos ainda uma estrutura que o impede".

Ninguém perguntou a Jonet a que estrutura se referia, e foi pena. Porque, quiçá inconscientemente, Jonet está a reconhecer o papel das políticas sociais que lograram reduzir não só a taxa de pobreza como, até, recentemente, diminuir a desigualdade - a contra-ciclo do que se passou com a generalidade dos países europeus. O efeito combinado de uma série de medidas - do subsídio de desemprego ao RSI, passando pelo Complemento Solidário para Idosos - logrou essa proeza.

O facto de tão poucos se terem congratulado com o efeito tão palpável dessas políticas até que cortes sobre cortes e o discurso da "refundação" ameaçam destruí-las explica que seja tão fácil esquecer que são a nossa única barragem contra a miséria - a material e a outra. Explica que seja possível haver quem nos queira convencer que essa barragem está acima das nossas possibilidades; que querer erradicar a miséria, em vez de a manter com esmolas, é o novo "gastar à tripa forra". Oiçamos pois o alerta, ainda que atabalhoado, de Jonet: salvemos o que nos salva. A escolha não é entre "nós" e os pobres. É mesmo nossa.

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MensagemAssunto: Exma. Senhora Merkel   Dom Nov 11, 2012 1:41 pm

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Exma. Senhora Merkel

por PAULO BALDAIA
Hoje


Sabemos que não vem a Portugal para ouvir os portugueses, mas o nosso desporto favorito, por estes dias, é enviar-lhe mensagens. Portanto, cá segue a minha.

Nós não temos nenhum problema com os alemães. Até os temos em boa conta. São bons empresários e bons trabalhadores (e entre estes estão muitos milhares de portugueses) e temos memória de como já deram à Europa excelentes políticos. Só a título de exemplo, podemos recordar Helmut Schmidt, do SPD, e Helmut Kohl, da CDU, e, antes deles, não se pode esquecer, Willy Brandt.

Como andamos muito aborrecidos com a vida que nos calhou em sorte, podem chegar-lhe relatos de alguma animosidade dos portugueses em relação aos alemães. Mas, acredite, esses relatos não correspondem à verdade.

Também nada temos contra si pessoalmente. Cresceu numa ditadura e fez-se cientista. Envolveu-se na política democrática e venceu com muito trabalho e com muita determinação. Óptimo, por cá há muito tempo que seria detentora de uma comenda.

Na verdade, nós andamos até um pouco preocupados com o lugar que lhe vai caber na História. Não somos dos que acreditam que toda a sua teoria da austeridade tenha como único objectivo empobrecer os trabalhadores, mas vivemos angustiados com a impossibilidade que revela em compreender que essa é única meta que está a ser atingida na Grécia e em Portugal.

Por cá mantém-se um largo consenso sobre a necessidade de corrigir as nossas contas e pagar a nossa dívida, mas gostamos pouco de ser vítimas da usura e cobaias de experiências condenadas ao fracasso. A senhora talvez não saiba, mas nós já experimentámos viver meio século pobrezinhos mas honrados. Nós não gostámos e a Alemanha não ganhou nada com isso. Nem mesmo quando o vosso Führer beneficiou da neutralidade do nosso ditador, porque aí perdeu toda a Humanidade.

Acredite que a maioria dos portugueses se mantém consciente da necessidade de passar por um período de austeridade como única forma de resolver os problemas em que nos metemos. Estamos com dificuldade em perceber é a razão que leva o FMI a lançar alertas sobre os erros deste plano que acrescenta, ad eternum, austeridade à austeridade. Só nós é que os ouvimos? A senhora não os ouve? E eles não se ouvem a si próprios?

O que é verdade aqui, na Alemanha e em toda a Europa é que só juntos poderemos vencer esta crise que ameaça lançar-nos a todos para a idade média dos Direitos Humanos. Quem pode pensar que estamos no bom caminho quando na União Europeia crescem os milhões de de-sempregados. Estará a senhora a pensar que pode viver sem os consumidores do Sul da Europa? Repare que a sua Europa Central também já não cresce. A seguir virá o desemprego e, finalmente, a desumanidade que por agora, para si, é mera estatística.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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MensagemAssunto: Os cobardes da Democracia   Sab Nov 17, 2012 5:06 pm

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Os cobardes da Democracia

por NUNO SARAIVA
Hoje


Não gosto de gente que se esconde. Que não dá a cara. Que prefere o anonimato nos insultos, nas agressões e nas insinuações, seja no terreno físico das manifestações e dos protestos ou na virtual Internet, espaço livre e democrático onde todos os disparates parecem ser permitidos.

Serve esta introdução para refletir sobre o que aconteceu esta semana em frente à Assembleia da República.

Um bando de energúmenos, de cara tapada, resolveu sabotar a greve geral convocada pela CGTP. Armados de pedras de calçada portuguesa e mochilas com petardos e frascos de ácido para fabricar explosivos, decidiram aderir às manifestações de 14 de novembro, com o claro propósito de transformar as ruas de Lisboa num campo de batalha, com paralelo na pior Atenas de que temos memória.

A primeira conclusão, tão óbvia que até irrita, é que a jornada de luta sindical - uma das maiores em democracia, na contabilidade da CGTP - quase desapareceu do espaço mediático, passando este a ser ocupado pelo "gangue do calhau". A partir das cinco da tarde de quarta-feira, ainda faltavam sete horas para o fim da greve, já só se falava de tensão, pedradas, rebentamentos, cordões policiais, grades derrubadas, caixotes de lixo a arder, vidros partidos, enfim, dos marginais. E, por fim, dos confrontos, da violência e do rasto de destruição por ela deixados. A greve geral, mais do que legítima, passou quase a nota de rodapé. E uma manifestação que juntou milhares de portugueses em protesto contra a brutalidade da austeridade viu os seus efeitos junto do Governo quase anulados.

É bom que se perceba que estes agitadores, que se escondem atrás das máscaras e dos lenços importados, e que atuam sob o pretexto do direito de manifestação, não passam de arruaceiros inimigos da Democracia. As consequências para o regime podem ser devastadoras. Não faltará quem, daqui a não muito tempo, caucionado pela ação destes vândalos, comece a falar de hooliganismo nas manifestações. De proibir a presença de certos indivíduos nos protestos de rua, o que corresponderá, naturalmente, a uma limitação inaceitável dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Do caos e da anarquia nascerá o inevitável populismo e a demagogia, criando-se assim um caldo de cultura propício à emergência de todo o tipo de extremismos.

Estes sinais não podem ser ignorados por quem governa. Condenar um povo ao empobrecimento compulsivo e à fome tem, inevitavelmente, estes resultados. E a história está recheada de exemplos, a começar na própria Alemanha.

Mas voltando ao ponto, aos cobardes da Democracia que, de cara tapada e durante hora e meia, apedrejaram as forças de segurança, é bom que tenhamos todos consciência de uma coisa: cada pedra atirada às polícias é uma agressão a todos aqueles que se querem manifestar de forma legítima. Aqueles que, como a Amnistia Internacional, falam em "desproporcionalidade" da carga policial esquecem--se de que a maioria dos manifestantes já não estava em São Bento. Por lá tinham ficado os mirones - algumas centenas, é certo -, conscientes do que se estava a preparar e que, por isso mesmo, acabaram a desempenhar o papel de idiotas úteis neste filme. Mesmo descontando alguns excessos que certamente terão acontecido, o facto é que, desta vez, a polícia agiu com contenção, ao contrário do que acontecera na brutalidade gratuita dos idos de março, no Chiado.

Mas do que é que estavam à espera? Que antes de atuar os agentes policiais se comportassem como uma caricatura do Gato Fedorento e, na maior das boas edu- cações, se dirigissem individualmente à multidão indagando: "Boa noite, senhor manifestante. É dos bons ou dos maus? É que ser for dos maus, não leve a mal, tenho de lhe dar umas bastonadas." Era isto que queriam?

Há, por fim, uma outra nota a reter. A unanimidade institucional de todos os atores políticos e sindicais na condenação do que aconteceu.

Há pouco mais de um mês, certamente num momento de infelicidade e desespero, o primeiro- -ministro tinha acusado o PCP de "instigar" a violência no País. Felizmente, no meio de tanta falta de senso, parece ainda haver espaço para alguma lucidez. Miguel Macedo, por ventura um dos melhores ministros do atual Governo, apressou-se a corrigir em público o insulto de Passos Coelho a Jerónimo de Sousa, a 12 de outubro, e que foi o álibi perfeito para os arruaceiros de 14 de novembro.

Dito isto, esperemos que as forças de segurança mantenham a contenção e o bom senso que têm demonstrado nos últimos tempos e não se deixem "comprar" pelo aumento de 10,8% no Orçamento para 2013, "inocentemente" anunciado na véspera da greve geral. É que, tal como as Forças Armadas, as polícias existem para defender os cidadãos e não os governos.

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MensagemAssunto: Um problema à esquerda   Sab Nov 17, 2012 5:16 pm

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Um problema à esquerda

por JOÃO MARCELINO
Hoje


1 O compromisso assinado com os credores internacionais delimita com clareza o sentido de responsabilidade dos partidos portugueses.

De um lado - do PSD, do PP e do PS - há divergências quanto às estratégias a adotar, tanto internamente como no palco europeu, mas existe uma certeza comum quanto ao que se quer: União Europeia, moeda única, confiança dos mercados e dos seus investidores, financiamento da troika (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia) para que o País possa vencer este período que é, de facto, de recuperação de uma falência do Estado. Pode discordar-se do peso relativo da austeridade versus medidas para crescimento, mas existe um quadro de valores políticos que merece consenso.

Para lá desta linha, o recente congresso do Bloco de Esquerda mostra que não há alternativa à esquerda do PS. Bloquistas, como os comunistas, que também brevemente se reunirão em congresso, insistem em "rasgar o memorando" sem nunca conseguirem apresentar uma alternativa para o financiamento do País.

Percebe-se que a esquerda radical insista no argumento de que, nunca tendo governado, não contribuiu para a atual crise do Estado português - tudo culpa da direita, dos bancos, do patronato, enfim, do capitalismo. O problema está em que, tendo Portugal chegado a esta triste dependência de terceiros para assegurar o normal funcionamento do País, não basta dizer o que se não quer. É preciso dizer qual é a alternativa. Como é que, se se prescindisse deste documento e simultaneamente se perdesse o financiamento, o País continuaria a funcionar? Como se evitaria o colapso, se pagariam aos funcionários públicos, se manteriam os hospitais a prestar cuidados de saúde, etc., etc.?

Este é o drama da extrema-esquerda nacional. Quer sintonizar-se com a contestação, estar ao lado das pessoas necessitadas, mas não tem mais nada para oferecer do que palavras, emoções, intenções. Parece ainda estar longe o momento em que, de verdade, conseguirá ter uma estratégia alternativa para colocar à consideração dos eleitores. E, assim, aspirar ao poder.

2 Do pecado dos partidos estão os sindicatos isentos. Aí percebe-se que não seja fundamental existir uma alternativa articulada. Basta o protesto, a reivindicação - sendo que o movimento sindical português, até aos dias de hoje, sempre foi uma peça importante, e responsável, do sistema. Como se viu na última quarta-feira, frente à Assembleia da Republica, os sindicatos e os seus dirigentes sabem recusar a companhia da marginalidade e do delito comum, da desordem e da provocação.

Há muito tempo que o Portugal não aparecia unido em torno de um acontecimento, preocupado com a ordem, solidário na autoridade que os cidadãos de um Estado de direito delegam no aparelho policial.

3 Ao apuro profissional mais uma vez demonstrado pelo corpo de elite da PSP é justo associar a ação política do ministro Miguel Macedo, que desde a primeira hora no cargo deu sinais de preocupação com a imagem das forças de segurança e o seu relacionamento saudável com os cidadãos.

Miguel Macedo foi logo muito rápido a reagir aos incidentes do Chiado, há alguns meses, nos quais a polícia se excedeu na resposta às provocações de que foi alvo. Daí para cá, a polícia evoluiu no controlo das manifestações, como vem ficado provado por diversas vezes nas últimas semanas. É um caso em que o Governo personifica trabalho e tem o reconhecimento pelos resultados.

A visita de Angela Merkel a Portugal foi diplomaticamente positiva, sobretudo nas consequências para fora de Portugal. É preciso combater na Europa a ideia de que a gente do Sul quer viver à custa do trabalho e das poupanças dos povos do Norte. Sem essa perspetiva, será difícil a esta débil União conseguir combater a crise que começou aqui e terá de ser ganha aqui se se quiserem evitar males maiores.

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MensagemAssunto: Portugal já arde?   Sab Nov 17, 2012 5:30 pm

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Portugal já arde?

por FERNANDA CÂNCIO
Ontem


Foi uma semana em cheio. Aquela em que o Governo assumiu o Estado de sítio ao receber Merkel num forte e não na sede do Governo, para em sua augusta presença jurar que queremos muito fazer do trabalhador português um alemão, e que, portanto, os insultos mentirosos que a chanceler disse na terra dela sobre os povos do Sul, e que a própria imprensa alemã desmentiu, para o Executivo português são verdade e inspiração. Aquela de uma greve geral em que o PM chamou cobardes aos grevistas, ao elogiar a coragem dos que trabalham, enquanto reconhecia ter ficado surpreendido com a brutalidade dos números do desemprego para logo nos sossegar com o facto de ter "corrigido" as previsões: espera que ele suba mais, porque é algo "por que temos de passar". Aquela em que Passos, ao discursar na inauguração de uma fábrica que ardeu, a comparou ao país para nos certificar de que não estamos enganados: temos um PM que sonha com uma reconstrução radical a partir de escombros fumegantes, um glorioso amanhã que cantará depois de todo o desemprego e pobreza todos por que temos de passar até que, milagre, dos portugueses nasçam alemães - ou lá o que é.

É a mesma semana na qual se noticia um défice de 9% até setembro; em que o desemprego avança mais uma décima, para 15,8%; em que o Banco de Portugal prediz para 2013 uma recessão de 1,6% (mais 0,6% que a inscrita no OE) e juros da dívida portuguesa voltam a subir. É a semana em que Cavaco quebra o silêncio, não para se manifestar preocupado com a catástrofe social em curso, não para declamar "chegámos a uma situação insustentável" e "estamos à beira de uma situação explosiva" (como, relembra-nos, disse em janeiro de 2010), mas para se demarcar de quem protesta de forma pacífica e constitucionalmente consagrada assegurando que ele, ao contrário dos calões, quiçá sabotadores e traidores à pátria, dos grevistas trabalha no duro, recebendo um colega no seu palácio.

É, tudo isto numa semana. Faz então sentido que tenhamos também nela ficado a saber que, enquanto se corta na saúde e na educação e nos apoios sociais e se propõe cortar ainda mais, para as polícias há um incremento de 10,8 por cento em 2013. E não, não venham dizer que é para fazer face a "um previsível aumento da criminalidade"; esta tem vindo a decrescer, notavelmente, nos últimos dois anos. Nem há de ser para enfrentar "a meia dúzia de profissionais da desordem" identificados pelo ministro Macedo na "manif" de quarta (e à conta dos quais centenas de cidadãos foram perseguidos e espancados pelo crime de estarem ali). É mesmo contra nós todos, contra o País que, como a fábrica da Sicasal, deve renascer das cinzas, que o Governo se aprovisiona. Quem nos condena a "passar pelo desemprego" como quem diz "o que arde cura" e "se morreres, morreste" não arrisca passar por nós sem boa proteção.

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RMaria

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MensagemAssunto: Um Presidente que não conta   Ter Dez 25, 2012 4:42 pm

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Um Presidente que não conta

por PEDRO MARQUES LOPES
23 dezembro 20



É um tempo para pararmos um pouco, olharmos à nossa volta e reflectirmos sobre aquilo que fizemos, aquilo que deixámos de fazer, aquilo que não devíamos ter feito, aquilo que podíamos ter feito melhor", afirmou Cavaco Silva durante a sessão de apresentação de cumprimentos natalícios por parte do Governo.

Não é de crer que o homem que nunca se engana e raramente tem dúvidas tenha, por uma vez, resolvido anunciar uma introspecção. De alguém que continua a tentar fazer-nos de parvos e diz que as suas palavras sobre as suas pensões foram mal interpretadas quando todos as ouvimos claramente, não podemos esperar grandes actos de contrição.

Por estas e outras não faltou gente a interpretar aquela frase como um recado ao Governo e não como uma espécie de mea culpa. No fundo, uma troca de recados: o primeiro-ministro mandou um recado a Cavaco Silva quando falou - de forma ignorante e imprudente pondo em causa a solidariedade entre gerações, essencial ao equilíbrio da comunidade - sobre "pessoas" que não descontaram o suficiente para ter as reformas de que hoje desfrutam e o Presidente da República tratou de mandar outro recado incentivando Passos Coelho a reflectir. Digamos que estamos bem entregues quando, num momento como o que passamos, Presidente e primeiro-ministro se divertem a mandar recados um ao outro.

É provável que a santíssima trindade composta por Passos, Gaspar e Relvas, essa entidade una e indivisível, não tenha consciência do mal que está a fazer ao País e da catástrofe que está a semear. O Presidente da República também ainda não percebeu que está a ser conivente por acções ou omissões da dita trindade, e que os cidadãos entendem que ele é parte integrante da equipa que está a destruir a classe média, a condenar gente, sobretudo de meia-idade (que não mais vai conseguir arranjar emprego) à miséria e a fazer regredir social e economicamente o País muitas dezenas de anos.

Não, não foram apenas as suas infelicíssimas declarações sobre as suas pensões, não foi aquele inominável discurso em que ofendeu tudo e todos aquando da sua vitória eleitoral, não foi o episódio das escutas (que em qualquer país civilizado teria levado à demissão do Governo ou do Presidente da República) que faz com que Cavaco Silva seja o Presidente da República mais impopular da história da democracia. Não é em vão que sondagem após sondagem Cavaco Silva reúna mais opiniões desfavoráveis que Seguro, Paulo Portas ou até do duo dinâmico Martins/Semedo - só mesmo Passos Coelho é mais impopular que ele. Nada disto surpreende: além de o sentirem colaborar com o Governo, os portugueses não conseguem perceber a sua importância. Cavaco Silva conseguiu tornar o cargo de Presidente da República irrelevante.

O Presidente renunciou ao seu papel de provedor do povo quando não fala dos problemas, das angústias, dos verdadeiros dramas dos seus representados e gasta o tempo com recados que apenas servem para que mais tarde venha com o seu habitual e fútil "eu tinha avisado" que nada acrescenta e apenas lembra a sua inutilidade . Não cumpriu o seu juramento de "defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa" quando deixou que um grupo de deputados fizesse o que ele devia ter feito mandando o orçamento de 2012 para o Tribunal Constitucional. Não pediu a fiscalização preventiva do Orçamento para 2013 quando, segundo todos os constitucionalistas, todos os observadores independentes e até do próprio partido do Governo, este tem várias normas inconstitucionais e apenas 7,6% dos portugueses acham que ele o deve promulgar.

Ouviu-se, aliás, muito o argumento de que o Presidente não iria enviar a lei para o Tribunal Constitucional para fiscalização preventiva por existir o risco de não haver orçamento nas primeiras semanas de 2013. Cavaco Silva pode invocar todas as razões para não o ter feito menos essa. O Presidente não jurou cumprir e fazer cumprir um qualquer orçamento, jurou sim fazer cumprir a Constituição. Mais, se as dúvidas são muito fortes não faz sentido que não requeira a fiscalização deixando assim que muito provavelmente entrem em vigor leis inconstitucionais.

Quando, lá para Março, toda a gente perceber a catástrofe orçamental, o Governo entrar em colapso, os tribunais, departamentos do Estado e sociedade civil mergulharem numa crise sem precedentes vamos ter um Presidente descredibilizado, impopular, barricado em Belém e em que ninguém confia. Nem os partidos, nem a comunidade em geral. E logo quando mais precisávamos dum Presidente da República

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MensagemAssunto: A atração pelo abismo   Ter Dez 25, 2012 4:59 pm

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A atração pelo abismo

por FILOMENA MARTINS
22 dezembro 20


Há quem fique na história sem nunca necessitar dos dez minutos de fama a que todos têm direito, segundo Andy Wharol. E há quem passe ao lado da história porque não consegue viver sem o "barulho das luzes" e não percebe que essa atração lhe é fatal. E que todo o poder que tem, teve ou possa vir a ter fica completamente ofuscado com essa obsessão. Veja-se Álvaro Santos Pereira. Quando as gafes o obrigam a hibernar da ribalta, as suas capacidades técnicas e conhecimentos económicos (que os tem) sobressaem. O acordo de concertação e a possível redução do IRC negociado na UE são obras suas, ambas relevantes para o País, tal como o projeto de industrialização. Mas do que todos se lembram é do "tratem-me por Álvaro", da ideia de exportação de pastéis de nata ou agora do "que se lixe o ambiente". Miguel Relvas é outro caso semelhan- te, ainda que de contornos diferentes. Por mais casos polémicos em que se veja envolvido, semanas depois o ministro (cuja posição no Governo nunca foi "oficializada" por Passos Coelho, mas que todos desconfiam estar pelo menos a par da de Vítor Gaspar) recompõe-se e decide opinar sobre tudo e mais um par de botas. Ninguém lhe disse, ou diz, que o poder tem-se, não se exibe. E como não resiste à ribalta, parece um íman a atrair problemas. Até na questão do não negócio da TAP teve de se ver envolvido. Claro que é normal membros do Governo, como ele justificou (necessidade que por si própria já é má), falarem com investidores interessados em Portugal. O que já não é tão normal é ser o ministro dos Assuntos Parlamentares e não o da Economia, ou, vamos lá, o dos Negócios Estrangeiros, a fazê-lo. E, já agora, para que não se chegasse ao dia D com o candidato único com quem discutiu o negócio, podia ter falado - e convencido - muitos outros. De preferência, dos que dessem todas as garantias. Pelo menos as bancárias.

A política dos recados

Não sei se as duras palavras de Passos Coelho sobre as pensões milionárias eram para Cavaco Silva, Eduardo Catroga, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix ou qualquer outro alvo identificado pelos seus assessores. Mas sei que se dirigia a uns poucos - entre eles os citados - dos que estão entre os três a cinco mil reformados que em Portugal recebem mais de 5 mil euros por mês. Os únicos cujas reformas são a exceção no sistema progressivo da Segurança Social do País (recebe-se em função do que se descontou e do tempo em que se fez esses descontos): os políticos. O primeiro-ministro pode até ter razão em pedir mais sacrifícios aos visados. E até concedo se as palavras se basearam no populismo fácil que inundam a nossa política. O que é inadmissível a um primeiro-ministro é que tenha usados as suas palavras, sempre subjetivas, para mandar recados ou pressionar quem quer que fosse, Presidente incluído. O tema é importante e delicado. Quem recebe essas pensões ou pagou por elas ou está legitimado pela lei em vigor na altura. A um primeiro-ministro, ainda mais nos tempos em que vivemos, pede-se que seja claro e direto e não que use indiretas para atingir quem quer que seja. Muito menos que deixe o País à espera das traduções de domingo à noite na TVI, quando Marcelo Rebelo de Sousa se lança às canelas de quem mais lhe interessar. Passos Coelho parece que só sabe governar assim, partindo o país em fações. Voltou a pôr parte dos portugueses contra outra parte. Desta vez reformados (alguns deles) contra trabalhadores. Acha que se deve dividir para reinar. A história está cheia de exemplos em que tal estratégia correu muito mal.

Uma oposição bipolar

A decisão de Cavaco Silva sobre o Orçamento do Estado é politicamente inteligente. Um pedido de fiscalização preventiva deixaria o País sem o Orçamento com graves problemas internos e uma catastrófica imagem externa que lhe seriam cobrados. Promulgando e pedindo a fiscalização sucessiva, mesmo que o Tribunal Constitucional chumbe algumas das medidas, pode sempre dizer com argumentos de estadista que colocou o bem do País acima das suas dúvidas, sem, como lhe compete, ter desistido de colocar essas interrogações. As pressões de Passos Coelho, ainda que inadmissíveis - volto a sublinhar -, são politicamente compreensíveis. Um novo veto do TC a qualquer das medidas fundamentais do documento (pensões, IRS...) deixá-lo-á sem nenhuma margem de manobra: ficará socialmente desacreditado, financeiramente em desespero por ter de encontrar encaixes quando já nada há a espremer e internacionalmente perante a necessidade de pedir um segundo resgaste. A atitude bipolar de António José Seguro, essa, é politicamente assassina. O líder do PS que há semanas garantia (e bem) que não ia pressionar o Presidente sobre o Orçamento e que, coerentemente, não levou o partido a tomar a iniciativa de pedir a fiscalização sucessiva, não pode, em contraciclo, apoiar os deputados socialistas que o façam. É jogar à defesa. É não arriscar não estar do lado dos vencedores, como da última vez. É puro aproveitamento: se for dada razão ao "recurso", colherá os louros; senão, não será nada com ele. Quando a possibili- dade de eleições antecipadas é tão grande (nem vale a pena explicar porquê), o que se espera do principal líder da oposição é que apresente medidas concretas e tenha preparado um governo-sombra, pronto para assumir o comando do País a qualquer momento. E não basta dizer que está preparado, é preciso estar mesmo. De impreparação absoluta e consequente "andar às aranhas" já temos o exemplo em curso. E se até o PSD parece estar a antecipar-se ao que aí vem (vide as últimas posições apresentadas por Jorge Moreira da Silva), como é que este PS continua a não apresentar provas de que é uma real alternativa.

Notas

Passos Coelho foi à Turquia captar investimentos para Portugal. Parecia estar tão convencido do que fazia como um vendedor de pentes a carecas. Paulo Portas andou pelo Médio Oriente com o mesmo objetivo. Parecia o vendedor das feiras de que tanto gosta, entusiasmado a oferecer pechinchas. Pareciam dois polos tão opostos que era difícil vê- -los como membros do mesmo Governo.

As últimas declarações mais polémicas de Cavaco Silva e Passos Coelho foram proferidas em eventos similares: inaugurações de hotéis de luxo. Mesmo sabendo que somos um País de turismo, e que o turismo é um dos motores da nossa economia, estas opções são sempre difíceis de entender pelos portugueses que ficaram sem dinheiro para nada, muito menos para férias de quatro e cinco estrelas. Não haverá outros acontecimentos do País que PR e PM possam honrar com a sua presença?

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MensagemAssunto: No sapatinho, um conselho: cuidado   Ter Dez 25, 2012 5:36 pm

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No sapatinho, um conselho: cuidado

por FERREIRA FERNANDES
Ontem


Logo à noite, o presente mais útil seria um capacete de estaleiro. O importante é metermos na cabeça o avisado conselho: cuidado. Ontem, como Elsa Monti já nos prevenira ("o meu marido nunca foi candidato a nada, nem ao Rotary Club"), Mario Monti confirmou: não será candidato às eleições mas está disposto a dirigir a Itália.

Professor de Economia, conselheiro do banco Goldman Sachs, Mario Monti foi chamado há um ano pelo ex-comunista Giorgio Napolitano, com beneplácito europeu de Sarkozy e de Merkel, para dirigir um governo de especialistas, com apoio parlamentar da direita e esquerda. A fórmula era bizarra - o costume é eleições e governo da maioria - mas a crise europeia e os excessos de Berlusconi juntaram-se para que o entorse fosse consensual. E era para um prazo curto.

Sóbrio (isto é, raro para quem se habituara a Berlusconi), Monti encantou com medidas de fogacho (prescindiu do ordenado), cumpriu q.b. nas reformas e os resultados italianos são medíocres, isto é, razoáveis, na média europeia. Treze meses passados, demitiu-se para haver eleições em fevereiro. A dúvida era: e Monti vai? Ele ontem aclarou: não vai e vai. Ir a votos, não vai, mas tem um programa que, se tiver seguidores, ele está disposto a voltar para governar. Os líderes histriónicos estão sempre disponíveis (até para bunga-bunga); os sérios, dizendo não estar, são tentados em tornar-se providenciais. O cuidado a ter é esse.

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MensagemAssunto: Ele e mais ninguém    Sab Mar 09, 2013 5:36 pm

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Ele e mais ninguém

por FERNANDA CÂNCIO
Ontem


Presidente da República ainda se escreve com maiúsculas. Mas se o novo AO não mudou isso, o atual detentor do cargo está empenhado em reduzi-lo a paródia e opróbrio. Após meses de silêncio tão inexplicável que a piada mais frequente do Twitter era compará-lo ao moribundo Chávez, Cavaco emergiu à porta de uma fábrica de moagem para, em autêntica conferência de imprensa, moer-nos o que nos resta de paciência com os habituais e penosos autoelogios e autorreferenciações, mais as pusilanimidades e mesquinhices costumeiras.

Que já disse tudo na mensagem de Ano Novo, que trabalha dez horas por dia (vá lá, não se queixou outra vez de ganhar pouco), que "tem informação que mais ninguém tem e experiência que mais ninguém tem", que o Governo finalmente fez o que ele defende mas que não lhe dá ouvidos como devia, etc. E, finalmente, que "as pessoas que se manifestam no respeito pelas leis da República devem ser ouvidas". Cavaco, pelos vistos, não reparou que o que se ouviu mais na manifestação de 2 de março foi o silêncio. À exceção da Grândola e da enorme vaia que o teve como destinatário, um silêncio exasperado, soturno, de quem cerra dentes e punhos, de quem já não sabe o que gritar. Não reparou, ocupado que está na sua esgotante jornada de trabalho, que quem saiu à rua no dia 2 foi a maioria silenciosa, a que nunca ou raramente sai, a que nunca ou raramente se manifesta e nem sabe bem como se faz. Para dizer que está farta do processo revolucionário em curso e que exige ao garante de regular funcionamento das instituições que ponha cobro a este sequestro da vontade popular expressa no voto. A esta burla perpetrada com o alto patrocínio de um presidente que, no discurso de tomada de posse, há dois anos, exortou todos a saírem à rua contra o Governo PS por se ter "ultrapassado o limite dos sacrifícios" e hoje, perante o décuplo desses sacrifícios, alega a crise europeia (que antes ignorou) e se refugia no seu palácio cor-de-rosa, nem já no Facebook dando cavaco.

Sim, este PR sabe coisas que mais ninguém sabe, vê coisas que mais ninguém vê. Como Gaspar e Passos, não vê o que todos vemos, mas por razões diferentes - eles são fanáticos perigosos (como todos os fanáticos), ele é um desavergonhado taticista que passa as ditas dez horas e todas as outras a fazer contas de cabeça sobre como tirar o máximo de proveito de cada situação. E que, no cúmulo da sua não noção, do insulto ao País que desgraçadamente lhe confiou o último recurso, se entretém a escrever roteiros "para presidentes em tempo de crise". Que magnífica ideia, senhor professor, clamaram, em coro, os assessores, a bater palminhas: "Que lindo testemunho para a história." E é. O livrinho há de expor, malgré o autor, o roteiro que nos trouxe aqui. Arquitetado por um presidente de prefácios, que crê ter sido eleito para jogar xadrez com os portugueses, lixando-se para tudo menos ele.

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MensagemAssunto: Os limites da decência   Sab Mar 09, 2013 6:31 pm

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Os limites da decência

por FILOMENA MARTINS
Hoje


Perder, de repente, 60% a 90% dos rendimentos é uma enormidade, seja para quem for: sobre isso, que não restem dúvidas. Que estamos perante um abuso fiscal, também é inegável: e a dimensão desse abuso tem de ser vista de todas as perspetivas, sobretudo a dos abusados, e não apenas sob o chapéu populista dos "ricos que paguem a crise". Que todas as vítimas do choque de impostos deste Governo devem protestar, também é um direito mais do que legítimo. Mas tenhamos todos a noção do ridículo: colocar Filipe Pinhal, ex-administrador do BCP, envolvido em vários processos judiciais, cuja pensão mensal será de mais de 46 mil euros, a liderar um movimento de reformados indignados contra a contribuição extraordinária de solidariedade, é um absurdo. A iniciativa parecia até ter sido um golpe de génio de Vítor Gaspar: autodescredibilizou-se de imediato, tornou-se numa anedota nacional e conseguiu o objetivo contrário ao pretendido, mais do que justificando a medida governamental que se diz que o Tribunal Constitucional vetará. Por mais que Pinhal e os 70 associados do movimento argumentem que lhe estão a fazer cortes em pensões privadas, precisam descer à terra. As suas reformas, decididas num círculo de amigos restrito do qual todos saíram a ganhar, são pagas pelos bancos que o Estado está agora a financiar com o dinheiro de todos nós. E há outros milhões de reformados, que cumpriram escrupulosamente os seus descontos, o seu contrato social, a quem foram feitos cortes em pensões abaixo do limiar de sobrevivência. Os limites da decência foram ultrapassados.

Os tansos da Europa

Regatear é uma arte, faz parte da cultura dos comerciantes árabes, que a praticam como ninguém. Neste mundo global, a moda parece estar agora a ser adotada na relação de entreajudas na União Europeia, o que já de si é lamentável. Pior só mesmo existir quem nem sequer perceba as regras, que são básicas: pedir cem, oferecer um e fazer negócio mais ou menos pela metade. A Irlanda não teve dúvidas: bom negociante, perdão, bom aluno, esticou a corda e fez o pedido máximo, a extensão dos prazos dos seus empréstimos por 15 anos, visando conseguir doze ou dez. Portugal preferiu o papel do cliente sério, honesto, subjugado: não só criticou de imediato a ambiciosa margem pedida pelos irlandeses, como se ficou pela oferta mínima - e desculpando-se por a fazer -, de cinco, dez anos talvez. Não usou a legitimidade, que ganhou ao cumprir ao milímetro, e até mais além, o que lhe foi imposto. Nem sequer se aliou, como há muito deveria ter feito, com os outros países em risco, para juntos negociarem em posição de força com os credores internacionais. Isto não mostra seriedade, mostra pequenez. E sabemos como acabará: a Europa olhar-nos-á de cima e ver-nos-á, no nosso nanismo económico, como os desesperados, de mãos estendida, pela ajuda/esmola que só ela pode oferecer. E fará o que qualquer comerciante faria estando em vantagem: o melhor negócio para si. Se Vítor Gaspar não tivesse experiência nos meandros da Europa financeira e económica, ainda se dava desconto. Mas depois de errar todas as previsões para o País, ainda nos colocar como tansos começa a ser demais!

As palavras das elites

"Andamos sempre a mamar na teta do Estado"; "É assim tão complicado pôr os desempregados a tratar das matas?" Estas duas frases, indignações, podiam ter sido ouvidas em qualquer conversa de café, ditas por um velho do Restelo num jardim ou ser atribuídas a um taxista preso na hora de ponta da capital. Mas são da autoria do segundo homem mais rico do País, Alexandre Soares dos Santos, e de João Salgueiro, ex-ministro, agora membro do Conselho Económico e Social. E são apenas dois exemplos de declarações públicas polémicas, inapropriadas ao momento em que vivemos, mal pensadas - por muito que na sua essência algumas sejam verdadeiras e até defensáveis -, ditas por membros importantes da elite do País nos últimos tempos. Que começaram com o próprio Presidente da República a lamentar-se das suas reformas, continuaram com os impropérios de António Borges aos trabalhadores e aos empresários, passaram pelas inqualificáveis comparações e certezas de Fernando Ulrich e até incluíram a solidária Isabel Jonet. Ou seja, vieram de quem mais se esperava bom senso e capacidade de diálogo perante uma sociedade que sofre as mais duras medidas de austeridade da democracia. É nestas alturas que as qualidades dos líderes e das elites se devem evidenciar. Mas a reação à situação atual revelou, destapou, uma outra realidade. E isso ajuda também a compreender o estado a que Portugal chegou.

O estado do País

O último debate quinzenal foi demolidor para o Governo. Por culpa do próprio. Quando o primeiro-ministro informa a oposição e confessa ao País que como não há dinheiro, não há capacidade para influir no presente e poder estimular a economia e criar emprego. Quando deixa implícito que apenas as reformas estruturais podem trazer resultados a longo prazo e faz dessa crença a sua única fé. Quando se vangloria por estar perto de conseguir mais tempo para cumprir as metas do défice, mas não apresenta qualquer proposta para tirar partido dessa margem temporal (e financeira, supomos todos) e aplicá-la para resolver os grandes problemas nacionais. Quando tudo isto acontece, a conclusão que podemos tirar é que o Governo está a demitir-se das suas funções. E se a isto somarmos o prolongamento da presença da troika em Portugal, porque os resultados desta sétima avaliação não foram consensuais, e questionarmos se os cortes previstos no famoso bolo dos 4 mil milhões implicarão ainda mais austeridade este ano. Se lhe juntarmos a moção estratégica de António José Seguro, que o líder do PS levará um congresso que não servirá para nada, recheada apenas de declarações de intenções coligidas entre o que ele pensa e António Costa lhe impôs; ou se lermos e ouvirmos Cavaco Silva dizer que fez todos os alertas sobre os limites da capacidade de sofrimento do País ao Governo e à Europa, sabendo que esses avisos não tiveram qualquer efeito prático. O que fica é uma imensa sensação de vazio. De falta de alternativas. Assim se explica que a marca da megamanifestação do último sábado tenha sido o silêncio. E que este divórcio das pessoas para com os políticos produza Syrizas, Grillos ou José Manuel Coelhos. A perspetiva de um dia podermos ter um Marinho e Pinto como líder do País é assustadora. Mas, perante tudo o que está a acontecer, é bem real.

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MensagemAssunto: Há sempre o passado   Ter Mar 12, 2013 6:04 pm

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Há sempre o passado

por PEDRO MARQUES LOPES
10 março 2013


Passos Coelho, que no início do seu mandato jurou a pés juntos nunca ir desculpar-se com o passado, passou o debate parlamentar da última quarta-feira a fazê-lo.

Nada de muito surpreendente, não sobra mais nada que se assemelhe, sequer vagamente, a discurso político. O slogan do "vamos atingir os 4,5% de défice custe o que custar" morreu e a bravata do "nem mais tempo nem mais dinheiro" soçobrou à realidade. Já não há metas nem luzes ao fundo do túnel para apontar. Não há reforma digna desse nome, não há dado que não grite o falhanço absoluto do Governo e do plano europeu, que era, como foi repetido, o seu próprio. Nada bateu certo, tudo ficou muito pior.

Com o desaparecimento das narrativas o discurso, que já não era propriamente fluente nem bem estruturado, tornou-se errático, sem sentido. Atiram-se simplesmente uns assuntos para o ar.

Invocam-se os cortes de 4000 milhões de euros que o Estado francês vai fazer para justificar os cortes do mesmo valor que o Governo português tenciona realizar. Uma comparação destas, aliás, só pode ter sido feita por má-fé ou por pura ignorância. Só alguém muito distraído pode acreditar que cortes deste valor em França e em Portugal têm os mesmos efeitos. Alguém que ignore que cortar 4000 milhões de euros no Estado social francês e português não é a mesma coisa. Alguém que não conheça a extensão do Estado Social português e francês. Alguém que não saiba a diferença entre os salários, pensões e prestações sociais em Portugal e em França. De facto, é difícil acreditar que um primeiro-ministro desconhece estas realidades.

Faz-se um discurso sobre o valor do salário mínimo que apenas nos recorda o distanciamento do primeiro-ministro face à realidade das empresas portuguesas e o desconhecimento sobre as razões dos números do desemprego. Disse Passos Coelho que, apesar de não o tencionar baixar, acreditava que o desemprego baixaria se existisse uma redução do salário mínimo.

Não há empresário que possa dizer com verdade ao primeiro-ministro que a sua quinquagésima fonte de preocupação é o valor do salário mínimo. Falarão do custo de electricidade, água, gás; falarão da incomportável carga fiscal; falarão da burocracia, dos licenciamentos e afins; mas sobretudo falarão da impossibilidade de se financiarem e da falta de clientes. Em termos muito simples: não havendo crédito para as empresas funcionarem nem clientes para se vender os produtos não há postos de trabalho. Não existirá um único empresário digno desse nome que lhe diga que se o salário mínimo, com o actual valor, diminuir contratará mais trabalhadores. Mais, existirão seguramente muitos empresários a pedir para que se aumente o salário mínimo como forma de aumentar a procura interna, que, convém recordar, é importante tanto para as empresas que trabalham para o mercado interno como para as que exportam.

Pode haver uns senhores, que de empresários só terão o nome no cartão de visita, que digam que uma diminuição do salário mínimo lhes permitirá manter as suas empresas no mercado. É muito simples: uma empresa que baseie o seu modelo de negócio em baixos salários, no limite precise que estes sejam ainda mais baixos do que 485 euros, já está morta. Como diria o Presidente da Republica, citando talvez La Palisse, "não é com baixos salários que se garante a competitividade das empresas". Existirão sempre Chinas. Um país como Portugal se quer assinar a sua sentença de morte económica basta-lhe apostar num modelo baseado em baixos salários, em baixas qualificações, em produtos com pouco valor acrescentado. O empobrecimento é apenas um dos passos para essa morte.

Já não há discurso. Sobram estes pedaços de coisa nenhuma, desligados de qualquer estratégia ou rumo.

Resta o passado. Vamos nos próximos tempos ouvir falar muito dos erros do passado, e, como bem sabemos, é um tema sem fim. Foram muitos. No passado recente, no menos recente, no ainda menos recente, no início do processo democrático, no Estado Novo, e por aí fora.

Mas é, no fundo, a admissão da derrota. Quando se desiste de lutar, quando não se é capaz de encontrar soluções, há sempre o passado para culpar. O passado, em política, é o último refúgio do fracasso.

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MensagemAssunto: Quem semeia ventos colhe tempestades   Ter Mar 12, 2013 6:14 pm

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Quem semeia ventos colhe tempestades

por MÁRIO SOARES
Hoje


Os portugueses não vão esquecer-se, por muito tempo, da manifestação do dia 2 de março, um misto de profunda tristeza e de enorme desespero. Como se Portugal estivesse para desaparecer do mapa e a Democracia, herdada do 25 de Abril - e do 25 de Novembro - se estivesse a perder definitivamente.

Realmente, o Governo, em silêncio absoluto, escondido, protegido pelos seus seguranças protetores, cheio de medo, recusa-se a ouvir os seus compatriotas, sem dizer uma palavra. Como se nada se tivesse passado. O Povo e os milhares de desempregados empobrecidos e muitos obrigados a emigrar não contam nada para o Governo, que os ignora como se não existissem.

Ora, não há Democracia sem que o Povo se faça ouvir e o Governo - eleito pelo Povo - o respeite e oiça. O atual Governo despreza e ignora o Povo, procede sem ter em conta a sua voz - nem sequer a do Presidente da República - porque só tem obedecido aos tecnocratas da troika, aos mercados comandados por magnatas mais ou menos anónimos e - faça-se-lhes essa justiça - à senhora Merkel.

Portugal é, há muitos séculos, um país independente - dos mais velhos da Europa, com as mesmas fronteiras - e está, com o atual Governo, a perder a independência, tornando-se um protetorado dos mercados usurários e dos tecnocratas da troika. Alguém sabe donde vêm? De quem dependem? E quem são?

Poderia ser de outra maneira? É claro que podia, se o Governo não fosse um fiel da austeridade e não ignorasse a recessão e o flagelo do desemprego, ao contrário do que prometeu na campanha eleitoral.

Resultado: o Governo - sob a tutela do ministro das Finanças - falhou sempre, enganou-se em tudo e continua a falhar. E Passos Coelho - para não falar do seu grande amigo, o falso doutor Relvas - não tem qualquer estratégia e continua todos os dias a empobrecer o País e a vender a retalho - e mal - o nosso património. Sem que se saiba - diga-se - para onde vai o dinheiro. Porque o Governo cala--se e não comunica com os portugueses, mesmo os mais abastados.

Sabemos que a crise financeira, económica, ética e política é gravíssima e muitos Estados da Zona Euro têm vindo a perder o norte. Dou um exemplo: as taxas de desemprego: 26,2% em Espanha, 25,4% na Grécia e em Portugal já passámos os 17%. Mas, atenção, prevê-se que em Portugal, em fins de 2013 - se o Governo lá chegar, o que não acredito -, aumente ainda mais. A verdade é que todas as previsões do Governo não só são em absoluto contrárias às promessas eleitorais, como todas têm sempre sido revistas em baixa: PIB, desemprego, consumo, investimento e o mais que se sabe. E ainda vão continuar a falhar em 2013, se o Governo não cair antes, como espero.

Há hoje 930 mil desempregados e 200 mil chamados inativos, que nem sequer entram nas estatísticas. Mas não esqueçamos os cem mil emigrantes anuais que nos estão a abandonar. O investimento político e privado - note-se - está também a descer, signi-ficativamente, bem como as exportações. Tudo vai mal. E o mês de março não vai ser nada fácil.

Lembremo-nos que o Tribunal Constitucional ainda não se pronunciou. Tem tardado. Mas não creio que deixe passar imune o "roubo" das pensões e da sobretaxa, o que a acontecer deita abaixo, nesses pontos, o Orçamento. Ficará o Governo a gozar do silêncio, como fez em 2 de março? Não creio que a sua vergonha vá tão longe. Porque se assim for, a indignação pode tornar-se violenta. Não gostaria nada que tal acontecesse. Mas quem não ouve e não tem controlo, como o Governo, sujeita-se a tudo. Como diz o Povo, quem semeia ventos, colhe tempestades...

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