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Fantômas

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MensagemAssunto: Um Presidente barricado   Dom Fev 19, 2012 11:51 pm

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Um Presidente barricado

por NUNO SARAIVA
Ontem


O Presidente da República, já o sabíamos, não gosta de povo. Tem medo do povo. Foge do povo. Apesar de, paternalista, gostar de dizer que é "o provedor do povo". Quem não se lembra, por exemplo, dos verdadeiros cordões sanitários impostos de cada vez que o então primeiro-ministro fazia incursões à praia neste país de brandos costumes?

Esta semana, mais uma vez, tal como em tantas outras ao longo da sua vida política, Cavaco Silva escondeu-se. Não o fez atrás de uma fatia de bolo-rei, como em dezembro de 1995, ou refugiando-se no Pulo do Lobo, como em maio de 1994. Agora, acantonou-se, à semelhança das últimas semanas, no Palácio de Belém. Assustado com uma micromanifestação de adolescentes à porta da António Arroio, em Lisboa, que protestavam contra os preços do passe social para estudantes ou a falta de condições de uma cantina que os obriga a comer nas escadas da escola, o Presidente decidiu, à última hora, cancelar a visita que tinha programada. O mesmo Presidente que, há um ano, incentivava os jovens a manifestarem-se em defesa da escola. O mesmo Presidente que, no seu discurso de posse para o segundo mandato, apelou, em vésperas da manifestação dos indignados, ao "sobressalto cívico" da juventude.

Era esta a primeira vez que saía à rua, em ambiente não controlado, depois da lamúria pública, há quase um mês, das suas pensões, que lhe valeu a censura do povo em Guimarães e a erosão de popularidade em todas as sondagens. Cavaco mostrou, mais uma vez, a sua verdadeira natureza. É piegas, muito piegas.

De Belém, qual estrela guia, surgiu a justificação. "Um impedimento", explicou fonte oficial. Ora, impedimento significa obstáculo, embaraço, proibição, estorvo. Mas impedimento - caso não surja qualquer explicação substancial - arrisca-se a ser também agora, no léxico cavaquista, falta de coragem, medo, fuga, incapacidade de lidar com a crítica ou o descontentamento legítimo de quem procura no Presidente da República um referencial de esperança.

No seu primeiro mandato, e quando procurava garantir a reeleição, Cavaco Silva orgulhava-se dos milhares de quilómetros percorridos em Portugal a ouvir o povo. Dos roteiros inspirados nas presidências abertas de Mário Soares. Ontem, trancado no Palácio da Cidadela, em Cascais, inaugurou um novo formato para estas intervenções. Voltam os perímetros de segurança em jeito de cordão sanitário, que impedem qualquer tipo de aproximação ao Presidente.

Assim será, aliás, daqui para a frente. Depois da vaia em Guimarães, Belém não arrisca um milímetro. Os novos roteiros presidenciais acontecerão sempre à porta fechada, com admissão por convite e sem contactos com a população ou com a imprensa.

Trata-se, pois, de uma Presidência sequestrada e refém das gafes, do medo da rua e da obsessão com a imagem deste Presidente. Ou, na formulação da jornalista São José Almeida, do "início de um novo ciclo político que poderá ficar para a história como o da Presidência fechada".

Num país que ultrapassou a barreira do milhão e meio de desempregados reais, em que o salário médio não chega a 800 euros mensais e o salário mínimo é de 485 euros, em que a austeridade é cada vez maior e os sacrifícios se tornam insuportáveis para uma fatia muito significativa dos cidadãos, um Presidente da República inacessível a todos os portugueses que jurou representar, que se esconde e vive barricado no Palácio de Belém, torna-se inútil. Nem vale sequer a pena tentar ajudá-lo a prosseguir o seu mandato com dignidade. Porque quem se esconde desta maneira não se dá ao respeito e não é digno do mandato que lhe foi conferido pelo povo.

No fundo no fundo, Cavaco é apenas e só vítima da sua própria incoerência.

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MensagemAssunto: O país das grandes incertezas    Qua Fev 22, 2012 6:01 pm

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O país das grandes incertezas

por BAPTISTA-BASTOS
oje


Ninguém esperava que o País chegasse a isto. Embora alguns, não muitos, demonstrassem um cepticismo próximo da negação absoluta. Estava no Diário Popular, quando Marcelo Caetano se rendeu. Andei pelo Carmo, a rondar e a sondar, corri para o jornal, e disse ao José de Freitas: "Zé: o fascismo caiu." José de Freitas era um notável jornalista, sonhara os sonhos impossíveis da grande geração a que pertencia, e fora marcado por toda a gama de desesperos. Respondeu-me, as lágrimas a rolarem-lhe pela face: "Vamos lá ver... Vamos lá ver..."

As frases toldadas causaram-me surpresa próxima da perplexidade. "Caiu, Zé; o fascismo caiu." E ele: "És muito novo, ainda", talvez para justificar a minha pobre ingenuidade. Ele tinha razão. Não se extirpa, de um momento para o outro, uma mentalidade timbrada pelo temor reverencial, ou as características serviçais que revelam índoles pouco corajosas. Alie-se a estas debilidades a ignorância larvar, e a tendência para deixar correr as coisas. E algumas traições, aparentemente inverosímeis.

O sonho, como se sabe, durou pouco mais de ano e meio. Normalizou-se uma democracia que nem sequer sabia que o era. Depois, fomos tropeçando, à medida das nossas resignações e incapacidades. Se calhar, não gostamos do risco de pensar, e damo-nos mal com a democracia, que nos incita a isso. Se calhar.

Vejamos: um homem como Nuno Crato, procedente da extrema-esquerda e rendido às sereias da Direita, autor de lúcidos textos de análise reflexiva, como, por exemplo, O Eduquês em Discurso Directo, livro de referência; matemático distinto, não é assaltado por nenhum sobressalto das antigas inquietações?, quando sabe que está a decrescer o número de alunos do secundário e do universitário, e o conhecimento se torna cada vez mais distante, não? Crato não ignora que o ensino se defronta com cada vez maiores dificuldades; cortes, reduções e limitações dos mais absurdos, fazendo do estudo apenas uma possibilidade para elites endinheiradas. Para se obter uma bolsa quase é necessário atestado de esmoler. Abre caminho a tese da dr.ª Ferreira Leite, segundo a qual quem não tem posses não faz hemodiálise.

Os Governos encheram a boca de orgulho, com o elevado grau de qualificações dos nossos estudantes, afirmação que me pareceu exagerada, por desassociada da verdade. As qualificações são específicas: quanto a cultura geral a soma e o resto não se alteraram, em comparação com gerações anteriores.

Nuno Crato teria uma palavra de esclarecimento a dizer-nos, ele, que sempre recusara a metáfora como esconderijo. Há algo de impudor nesta combinação que mata, de torpeza e de discurso contingente. Estamos a ser, progressivamente, desafectados dos sentimentos e das razões formativas, com a cumplicidade relevante de pessoas que havíamos estimado e admirado.

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MensagemAssunto: Brincar à criticazinha   Qua Fev 22, 2012 6:11 pm

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Brincar à criticazinha

por JOÃO CÉSAR DAS NEVES
20 Fevereiro 2012


A crise em Portugal cria graves problemas de pobreza logo na altura em que a Segurança Social, espartilhada na emergência financeira, está menos capaz de lhes acudir. Muitos dão o Estado-providência como falido. Isso não é verdade. O sector público terá sempre um lugar indispensável no apoio social. O que faliu foi o seu totalitarismo assistencial.

Há décadas que, por opções ideológicas e populismo eleitoral, os poderes públicos nacionalizam as esmolas. Metem-se entre pobres e benfeitores, tributando os segundos para ter o mérito de ajudar os primeiros. A fúria regulatória de uma burocracia crescente persegue qualquer obra de solidariedade, enquanto cria alternativas estatais para as estrangular. Foi este suposto Estado-providência que se mostrou insustentável. Agora os poderes públicos têm de encontrar o seu lugar subsidiário numa sociedade equilibrada.

A inelutável necessidade de contar com a sociedade e Igreja no apoio aos necessitados exige também que se reveja a antiga campanha cultural que preparou o assalto público à assistência social. Há décadas que várias forças se dedicam à tarefa de denegrir as multisseculares instituições de caridade cristã, atacando em nome dos pobres aqueles que mais se esforçam para os ajudar. Alguns casos ficaram famosos.

O professor José Barata Moura, reputado académico e antigo reitor da Universidade de Lisboa, é autor de algumas das melhores canções infantis e de intervenção da língua portuguesa. O seu primeiro disco, Caridadezinha (Orfeu, 1973), incluía um dos temas mais famosos e poderosos nesta questão: Vamos brincar à caridadezinha. Nele o cantor ridiculariza a "festa, canasta e boa comidinha" onde, com "os desportistas da caridade", se "rouba muito mas dá prenda, e ao peito terá uma comenda".

Há mais exemplos. O genial Quino (Joaquín Salvador Lavado), criador argentino de Mafalda, a contestatária, numa das suas hilariantes e lúcidas tiras pôs Susaninha a dizer à amiga: "Também fico com a alma ferida quando vejo os pobrezinhos, acredita! Mas quando formos senhoras faremos uma associação de caridade. E organizaremos chás e banquetes com perú, lagosta, leitão... para arranjarmos fundos para comprarmos farinha, massa, pão e essas coisas que comem os pobres" (Quino, 1973, 13 anos com a Mafalda, Publicações Dom Quixote, 1983, p.128).

A crítica social é compreensível. É sempre fácil ridicularizar os opulentos e todos ficamos chocados pelo contraste entre luxo e miséria. Mas se pensarmos um pouco vemos como esta censura é nociva e contraproducente. Afinal, se há muita coisa a reprovar nos endinheirados, uma das poucas em que os devemos louvar é precisamente quando ajudam os necessitados. Esta ferroada atinge os pomposos quando fazem o bem.

Tais repreensões não são feitas do ponto de vista dos desgraçados, os quais, independentemente da motivação da ajuda, ganham muito com ela. Se queremos ajudar os pobres, é bom não desdenhar o dinheiro de quem o tem. Eles ficariam muito prejudicados com a promessa final da canção: "não vamos brincar à caridadezinha."

Além disso, o mesmo contraste estético que motiva a crítica ressurge claramente nas alternativas. Havia "chás e banquetes" na URSS e já recebi folhetos de congressos sobre a pobreza em hotéis de luxo. Pior, o sucesso destas críticas acabou por ir para lá do pretendido. Não só "estragaram" a palavra caridade, como se costuma hoje ouvir a cada passo, preferindo-se expressões anódinas e vazias, como solidariedade ou assistência, mas tiveram efeito claramente redutor nos esforços de apoio social. É comum ainda hoje, 40 anos depois, ouvir a crítica de "caridadezinha" cada vez que alguém cria uma iniciativa de auxílio. A gargalhada destrói sempre mais do que quer.

Claro que a justificação do remoque era mais profunda. Preconizava-se uma revolução social, que garantisse a todos os cidadãos o direito a certo rendimento, seguro pelo Estado. É isso que falha sucessiva e fragorosamente desde 1973, confirmando a maior força social da humanidade, a caridade cristã.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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MensagemAssunto: Discussão num copo de água   Qua Fev 22, 2012 6:20 pm

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Discussão num copo de água

por FERREIRA FERNANDES
Hoje


PSD e PS podem radicalizar as suas posições? A questão não é líquida. Ou melhor, é: os socialistas querem que a água consumida no Parlamento seja da torneira e os do PSD são adeptos da água engarrafada. Há vários meses que se discute por uma ou outra das causas! Até agora os argumentos eram ecológicos. O plástico, a não reciclagem, etc. Mas isso era no tempo da outra senhora, quando éramos ricos. Com isto da troika e do fechar da torneira, perdão, esta imagem faz confusão nesta discussão engarrafada, perdão, outra imagem confusa, com isto da austeridade, dizia eu, os argumentos passaram a praticar o novo desporto nacional: a análise financeira. Custos da coisa, pois. Aqui chegados, parece que a torneira venceria a rolha, certo? Errado. O Conselho de Administração da Assembleia da República calculou o preço da água saída das torneiras, acrescentou-lhe o dos funcionários para o enchimento do vasilhame, a limpeza e o arrumo, e concluiu que ficava em 2730 euros mensais. Já a água engarrafada ficava a 259,20 euros, dez vezes menos... Esta guerra da garrafa e da torneira, ridícula em si, pode também ter desarrolhado outra questão. Reparem, as contas indiciam que os serviços prestados na água engarrafada (onde também há enchimento, transporte...), feitos por operários do sector privado, são bem mais baratos que o serviço dos funcionários parlamentares. Entre dois goles, o PSD levou água ao seu moinho para defender o liberalismo.

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Romy

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MensagemAssunto: Saudade e 'Schadenfreude'   Sex Fev 24, 2012 4:37 pm

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Saudade e 'Schadenfreude'

por FERREIRA FERNANDES
Hoje


Ando a ter muita Schadenfreude. Vocês sabem, aquela palavra alemã que significa ter alegria com o mal dos outros. Eu tive de explicar em frase, mas os alemães precisam de uma só palavra para definir a coisa. Muito eficientes os alemães, sobretudo em motores e estados de alma. A primeira vez que senti ter Schadenfreude foi quando soube que os alemães tinham uma palavra para aquilo. Como ando de há uns tempos para cá irritado com os alemães, fiquei contente com o mal deles, fiquei com Schadenfreude por eles terem a palavra Schadenfreude. Só mesmo eles, disse-me. Agora li que o Deutsche Bank (olha, outra coisa em que eles são bons, bancos) tem um fundo de investimento chamado Life Kompass 3. Este é tão fácil de explicar como empurrar uma velhota escada abaixo. Há um painel de 500 pessoas, verdadeiras e americanas, entre os 70 e 90 anos, a quem o banco determina uma dada esperança de vida. Se morrerem antes, os investidores ganham mais, se morrem depois, o banco paga menos aos investidores. Como se pode ver, o Deutsche Bank tem aqui o papel humanitário, tem interesse em que os velhotes vivam mais tempo. Já os investidores alemães apostam na morte da manada dos 500 o mais cedo possível. Esta aposta na morte deu-me outra vez Schadenfreude pelos alemães. Eu sei que o sentimento é de alegria, mas não gosto. Já tenho saudade de ser português, isto é, meter explicações longas numa só palavra e esta não fazer mal aos outros.

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MensagemAssunto: Amigo maior que o pensamento   Sex Fev 24, 2012 4:45 pm

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Amigo maior que o pensamento

por JOSÉ MANUEL PUREZA
Hoje


A morte adoça a agrura das tensões e das disputas. Vezes sem conta, os consensos póstumos mascaram o ostracismo a que a vida foi votada por incómoda, por dissidente, por provocadora.

Assim é com José Afonso, 25 anos depois de morto. As expressões de admiração unânime por ele e pelo seu trabalho que por estes dias se têm exibido são de uma artificialidade e de uma falsidade sem limite. Os ordeiros de hoje e os normalizadores de ontem dão as mãos e debitam, entre o alívio e a pose, frases feitas de homenagem a quem querem crer que já não os poderá inquietar mais. A sua estratégia é a da desmemória que pasteuriza o passado como se ele tivesse sido feito de tranquilidade e de cordialidade palacianas.

Pois não foi, com José Afonso não foi. Ele não foi apenas o autor de "trovas e cantigas muito belas / trovas e cantigas de embalar". José Afonso foi sempre, mais do que tudo, um cultor inquebrantável da subversão, um castigador impiedoso do conservadorismo político, moral e cultural. Numa entrevista a Viriato Teles, em 1985, estilhaçou a quietude: "O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! (...) Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de 'homenzinhos' e 'mulherzinhas'. Temos é que ser gente, pá!"

A música foi apenas a ferramenta que ele usou para trabalhar essa exigente atitude cívica marcada pelo princípio da dissidência. Por estas e por outras, a paga que teve foi a proibição de ensinar e a censura à sua escrita de palavras e de melodias. Contra a mitificação consensual de hoje, ele nunca teve a simpatia dos poderes - fossem políticos, económicos ou culturais - porque nunca quis ser outra coisa senão "a formiga no carreiro que vinha em sentido contrário" e que não abdicou de dizer ao formigueiro "mudem de rumo! mudem de rumo!"

"Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é que fica. Quando as pessoas param, há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os álibis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta", afirmou numa entrevista de 1984. Pois é. José Afonso nunca transigiu, porque ele sabia que "não há bandeira sem luta, não há luta sem batalha". Foi isso mesmo que fez ao longo da sua vida. Mostrando a denúncia como imperativo moral e político essencial ("mulher na democracia não é biombo de sala"). Apelando à vigilância ("se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada"...) contra os velhos e novos poderes que "vêm em bandos, com pés de veludo, chupar o sangue fresco da manada". E tudo sempre em vista dessa "cidade sem muros nem ameias / gente igual por dentro / gente igual por fora".

A democracia que se quer cultura e não liturgia tem uma dívida de reconhecimento para com José Afonso: a de ter mostrado a cidadania como intolerância para com a injustiça e o atavismo. Nós, que somos filhos da madrugada, sabemos que a nossa paga só pode ser a de abrirmos caminho a uma "terra da fraternidade", onde "o povo é quem mais ordena". E dessa terra lá no horizonte "ouvem-se já os rumores / ouvem-se já os clamores / ouvem-se já os tambores".

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MensagemAssunto: Colapso presidencial?   Sex Fev 24, 2012 4:56 pm

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Colapso presidencial?

por MANUEL MARIA CARRILHO
Ontem


As dificuldades de Cavaco Silva não são matéria que se deva abordar com ligeireza, dada a importância nuclear das funções do Presidente da República no funcionamento da nossa democracia.

Mas a situação é grave. E é preciso dizê-lo claramente, porque Cavaco Silva está à beira de conseguir um feito inédito: o de se tornar, como todas as últimas sondagens e estudos de opinião têm mostrado, um Presidente impopular e sem credibilidade.

Cavaco Silva não pode cometer mais erros e tem de reparar os que cometeu. Não será fácil, mas, com cerca de quatro anos de mandato ainda por cumprir, é essencial que o faça - por si e por todos nós.

Como é que se chegou aqui? Pouco talhado para a função, Cavaco Silva apresentou-se em 2006 como um candidato que, mais do que uma visão de futuro para País, exibia um currículo e uma imagem de rigor que prometiam proteger-nos das derivas que o País tinha na memória mais recente.

A estratégia falhou. As derivas (diferentes, é verdade) continuaram, ele dedicou-se a minudências, esquecendo o essencial, e acabou a fazer o impensável no momento em que a crise nacional e internacional mais se agudizava: dar posse a um Governo minoritário, que é sempre - como se sabe - um governo a prazo, sem força, que pensa mais na sua sobrevivência do que nos problemas do País.

A crise, entretanto, mudou também a forma como muitos portugueses olham para a herança do cavaquismo. A reputação de Cavaco Silva assentava, em boa parte, na "sua" obra, realizada na "sua" década. Ora, o que agora se foi tornando evidente foi que muitas decisões tomadas entre 1985 e 1995 estão na origem, remota mas real, de grande parte dos problemas que hoje o País enfrenta.

O modelo de desenvolvimento que então se estabeleceu, essencialmente assente no betão e nos seus interesses, deixou-nos com escassos argumentos para enfrentar o futuro, e com o sabor amargo de se ter perdido uma oportunidade histórica para realmente mudar o País.

Perante isto, Cavaco Silva prometeu um segundo mandato revigorado por uma magistratura de influência "mais ativa". Contudo, depois de um previsível discurso de posse, que marcou a sua rutura com o Governo minoritário de José Sócrates, a ideia que foi dando foi mais de paralisia do que propriamente de mudança...

Esta acabou por vir do Governo da coligação PSD/PP, e com ela de novo Cavaco Silva perdeu o pé, multiplicando declarações contraditórias, entre o apoio sem convicção e a crítica sem consequências, acabando por escorregar depois em afirmações desajeitadas e de uma infelicidade quase provocadora, a propósito das suas pensões.

O problema - grave problema, repito - é que em vez de procurar arrepiar caminho, o que se impõe com urgência, Cavaco Silva parece algo esquivo à realidade, procurando proteger-se ora com tiques de autoridade, ora com poses de recolhimento, havendo já quem pressinta uma presidência doravante fechada ou, no mínimo - como aqui no DN escreveu Nuno Saraiva -, uma presidência bloqueada.

O Presidente tem de dar a volta à situação, percebendo que as exigências de escrutínio e de transparência que se tornaram comuns nas democracias contemporâneas, e se têm naturalmente radicalizado com a crise, introduziram novas dimensões na vida política, levando à erosão do argumento de autoridade, seja qual for a sua forma: de função, de representação ou de estatuto.

Nos tempos que correm, exercer o poder é difícil - mas incarná-lo não o é menos. Às conhecidas características da sociedade do espetáculo, que a democracia incorporou nas últimas décadas, juntam-se agora as de uma sociedade do contacto (de proximidade e de emoção), marcada por um individualismo sobretudo expressivo, e pelo progressivo desaparecimento de quase todas as formas de distância e de quase todos os dispositivos de protocolo.

A situação não se resolve, pois, com brejeirices, como se tivéssemos entrado na época do "tiro ao Cavaco", como disse Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente deve saber que (como há muito o estabeleceu a teoria dos speech acts) em política "dizer é fazer" - até porque, sendo professor, tem a dupla experiência dessa realidade. "Dizer" um disparate ou uma asneira é, em qualquer dessas funções, "fazer" um disparate ou uma asneira.

E agora? Agora, é preciso que o Presidente da República reinvente o seu estatuto, tanto no que diz como no que faz. Ajudaria se optasse pelo salário das suas funções, em detrimento das suas legítimas pensões. E ajudaria ainda mais se encontrasse a disponibilidade e a força interior necessárias para confraternizar regularmente com a angústia e o sofrimento dos portugueses. Só um golpe de asa genuinamente solidário evitará o colapso presidencial.

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MensagemAssunto: Pontapear o analfabetismo   Sex Fev 24, 2012 5:06 pm

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Pontapear o analfabetismo

por FERREIRA FERNANDES
Ontem


Perguntaram a Joaquim Evangelista, sindicalista do futebol, sobre racismo. Erraram na pessoa, foi como pedirem para eu testemunhar sobre dores de parto. Um dia, um presidente de clube, arrogante, disse que os futebolistas hoje em dia já sabem comer de faca e garfo. Não sei como se portam à mesa mas no campo e à vista de todos, sei - e há muito. Garoto e de passagem por Matosinhos, fui ver um treino do Leixões. Entre dois guardas-fiscais, apareceu um jovem negro. Era são-tomense, apanhado clandestino num navio. Viera à Metrópole tentar a sorte de futebolista. O seu treino no pelado do velho campo de Santana foi penoso. "Estavas habituado ao relvado, oh tição?", gozavam da bancada os filhos dos pescadores. Mas, no campo, os colegas de treino olhavam-no como colega. Tinha jeito ou não?, era o que lhes interessava. Esfomeado e nervoso, o jovem disparatava com os pés mas nem uma só vez vi um sorriso trocista entre os jogadores. Por essa altura, havia no Benfica um capitão negro a quem os colegas brancos se dirigiam assim: "Posso marcar o livre, senhor Coluna?" Muito tempo de abraços depois dos golos, de respeito entre iguais, dá nisso: iguais. Os futebolistas portugueses têm essa Universidade há décadas. Mas eu gostaria de mais. Ver um futebolista, sei lá, um João Moutinho, correr para o adversário Balotelli e abraçá-lo quando as claques de analfabetos macaqueiam. Quem é culto tem obrigação de ensinar os pobres diabos.

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MensagemAssunto: O Papa e as intrigas no Vaticano   Sab Fev 25, 2012 5:51 pm

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O Papa e as intrigas no Vaticano

por ANSELMO BORGES
Hoje


Dizia-me uma vez em Bruxelas, admirado e pesaroso, um ilustre teólogo da Universidade de Lovaina (Joseph Ratzinger até o cita num dos seus livros sobre Jesus de Nazaré; não é herege): "Como é que foi possível o movimento desencadeado por Jesus, essa figura simples e amiga dos pobres, que acabou crucificado, desembocar no Vaticano, com um Papa chefe do Estado?" Entende-se, quando se estuda a História, mas é preciso reconhecer a tremenda ambiguidade da situação e o perigo constante de traição da mensagem cristã.

Hoje, concretamente, como já aqui chamei a atenção, citando o livro de Hans Küng, Ist die Kirche noch zu retten? (A Igreja ainda tem salvação?), a Igreja Católica, a maior, a mais poderosa, a mais internacional Igreja, essa grande comunidade de fé, está "realmente doente", "sofre do sistema romano de poder", que se caracteriza pelo monopólio da verdade, pelo juridicismo e clericalismo, pelo medo do sexo e da mulher, pela violência espiritual.

Ora, a Igreja não pode entender-se como um aparelho de poder ou uma empresa religiosa; só como povo de Deus e comunidade do Espírito nos diferentes lugares e no mundo. O papado não tem de desaparecer, mas o Papa não pode ser visto como "um autocrata espiritual", antes como o bispo que tem o primado pastoral, vinculado colegialmente com os outros bispos.

A Igreja tem de fortalecer as suas funções nucleares: oferecer aos homens e mulheres de hoje a mensagem cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos, sem esquecer o dever de assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando à sociedade, sem partidarismos, opções fundamentais, orientações para um futuro melhor.

Não se trata de acabar com a Cúria Romana, mas de reformá-la segundo o Evangelho. Essa reforma implica humildade evangélica (renúncia a títulos como: Monsignori, Excelências, Reverências, Eminências...), simplicidade evangélica, fraternidade evangélica, liberdade evangélica. E é necessário mais pessoal profissional, acabando com o favoritismo. De facto, esta Igreja é altamente hierarquizada e ao mesmo tempo caótica. Quem manda no Vaticano? "Conselheiros independentes haverá poucos." Precisa-se de transparência nas finanças da Igreja.

Acima de tudo e em primeiro lugar, é preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. De facto, em síntese, a Igreja é a comunidade dos que acreditam em Cristo: "A comunidade dos que se entregaram a Jesus Cristo e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível, se disser a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus. Toda a sua credibilidade depende da fidelidade a Jesus Cristo."

Problema maior é a Cúria. O cardeal Walter Kasper, referindo o actual péssimo clima no Vaticano, que causa "confusão" entre os fiéis, disse que Bento XVI anda "muito triste". E tem razões para isso. O paradoxo é este: o papado é a última monarquia absoluta do Ocidente, mas o Papa não controla a Cúria. Duas cartas do núncio apostólico nos Estados Unidos denunciam corrupção ao mais alto nível no Vaticano. Agora, em finais de pontificado, começaram já as intrigas maquiavélicas e as lutas pelo poder, no sentido de manobrar a sucessão, tendo-se chegado até a falar numa conspiração para matar o Papa.

Neste contexto, o Papa lembrou, no passado Sábado, aos novos cardeais que "domínio e serviço, egoísmo e altruísmo, posse e dádiva, interesse próprio e generosidade: estas lógicas profundamente opostas confrontam-se em todas as épocas e em todos os lugares. E não há dúvida nenhuma sobre a via escolhida por Jesus". Recomendou que "renunciem ao estilo mundano de poder e de glória". "O serviço de Deus e a doação de si é a lógica da fé, que está em contradição com o estilo mundano."

Desculpem, Reverências e Eminências, mas a Igreja não vai com púrpura, barretes cardinalícios e intrigas de poder. Só com o Evangelho.

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MensagemAssunto: Globalização desregulada   Ter Fev 28, 2012 12:50 pm

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Globalização desregulada

por MÁRIO SOARES
Hoje


1. A globalização económica desregulada não trouxe ao Mundo, como se esperava, uma nova ordem mundial, nem paz, nem qualquer progresso social. Ainda se está para ver como vão evoluir os novos Estados ditos emergentes, que se tornaram colossos económicos - ou talvez melhor, financeiros - sem que os Direitos Humanos, das respetivas populações, fossem respeitados e houvesse nos Estados qualquer aprofundamento democrático. Talvez com a única exceção do Brasil.

A corrida às armas voltou a ser uma preocupação dos Estados, tanto dos grandes, a Rússia, a China, os Estados Unidos, que as fabricam e vendem, aos países mais pequenos, incluindo as armas nucleares, que continuam a proliferar. Um perigo e uma vergonha!

O tempo corre, os progressos científicos são uma indiscutível realidade, em praticamente todos os domínios da Ciência, mas não surge uma nova ordem mundial, capaz de fortalecer a ONU, como se esperava, nos anos finais do século passado, e ponha termo aos conflitos armados que se vão manifestando, com mais ou menos força, em todos os Continentes. Os Objetivos do Milénio, assinados por quase todos os lideres políticos mundiais, do tempo, foram esquecidos e ficaram no papel, se não foram, pura e simplesmente, para o caixote do lixo da história...

Os grupos dos Estados mais poderosos - o G2, o G7, o G20, etc. - foram criados, entre os Estados mais ricos, para enfraquecerem a ONU. Mas a verdade é que deles nada resultou, para além do barulho da comunicação social que propagaram, sem objetividade, os diferentes Gs.

Qualquer estudo sobre as primeiras décadas do novo século mostrará o recuo civilizacional que tem afetado o Planeta, dadas as crises financeira e económica, mas também social, política e até moral, que nos têm vindo a envolver.

As perspetivas que nos chegam neste ano aziago de 2012, estão longe de serem boas. Pelo contrário. No entanto, os Estados Unidos parecem estar a melhorar, ligeiramente, no que se refere ao crescimento económico e à baixa do desemprego. Se em Novembro próximo, Barack Obama, ganhar as eleições, aos fanáticos republicanos, então sim, espero que se abram, ao Ocidente, novas perspetivas.

Pelo contrário, quanto à União Europeia, a impressão que nos dá é que vai de mal a pior, talvez a caminho de uma catástrofe anunciada... A última Cimeira foi tão só um novo passo dado em vão. Veremos a próxima, que se aproxima. Nunca houve tantas Cimeiras para tão poucos resultados...

É certo que temos eleições presidenciais na França, que podem vir a constituir uma viragem política importante, se François Hollande ganhar, como espero, a Nicolas Sarkozy. E em 2013 haverá eleições na Alemanha, que deverão ser fatais para a Chanceler Merkel. O SPD voltará, creio, ao poder. Nessa hipótese, bastante provável, consumar-se-ia, necessariamente, uma mudança à Esquerda que levaria a União Europeia a ser de novo uma referência política, social e económica, em termos mundiais.

2. O Ocidente conta muito menos. A Rússia e a China, conjugadas, impediram que o Conselho de Segurança da ONU, aplicasse - como devia - sanções à Síria, para terminar com a carnificina intolerável imposta pelo ditador Bashar al-Assad. Seguiu, aliás, na linha do seu falecido pai, que conheci, pessoalmente, numa missão da Internacional Socialista em que participei.

A Síria está, assim, a desintegrar-se como sucedeu ao Iraque, com a passagem para o campo insurrecto de muitas centenas de soldados, antes fiéis ao regime. A Liga Árabe que, felizmente, adotou uma linha de paz, ficou um pouco paralisada com o veto da Rússia e da China. Dadas as divergências religiosas que enfraquecem o regime baasita, não me parece fácil que o governo sírio, se possa aguentar muito mais tempo. Mas o que se segirá, não é fácil de prever, dados os exemplos da Líbia, do Egito e mesmo do Iraque...

3. A primavera islâmica. 2011, parecia indicar uma grande viragem democrática no universo islâmico. No entanto, só a Tunísia, até agora, foi um sucesso pacífico. Porque tanto a Líbia, que perdeu o seu ditador Kadafi, como o Egito, o Estado charneira da Região, que está a julgar Moubarak, apesar das mortandades a que deram lugar, não é fácil saber como vão evoluir.

De qualquer modo, a semente democrática ficou e tudo vai ser diferente daqui para o futuro. Muito do que se vai passar terá a ver com o preço do petróleo e as guerrilhas religiosas no universo islâmico. A Argélia e Marrocos, que parecem ter percebido a necessidade de se aliarem, e a Mauritânia, no Magrebe, bem como uma certa confusão que vai no Próximo Oriente, da Jordânia à Arábia Saudita, do Líbano aos Emiratos e à Palestina, têm uma evolução imprevisível.

Essa imprevisibilidade tem a ver com o Irão, República Islâmica xiita, que é hoje um Estado muito complexo e diferente dos outros, até pelo seu tamanho e riqueza, mas também por estar próximo, segundo dizem os meios americanos, de fabricar a bomba atómica, vive em conflito latente com Israel, Estado que tem há muito tempo armas atómicas, dadas pela América. É, pois, muito difícil perceber com uma situação tão difícil, vai evoluir.

Quanto a Israel, penso que está a fazer uma política agressiva, baseada nos apoios do lobby judaico americano, que pode, no futuro, vir a tornar-se menos colaborante do que tem sido. A União Europeia, embora internacionalmente paralisada, também tem dado sinais no mesmo sentido, isto é: de que Israel não pode fazer tudo quanto lhe apeteça, sem concertar antes a sua política com os seus aliados... De políticos irresponsáveis estamos todos fartos.

A verdade é que certos Estados da Região: a Síria, o Irão, a Palestina, Israel e o Egito se poderão tornar explosivos de um momento para o outro, tendo como temos uma ONU indecisa e com pouco poder de intervenção.

4. A Igreja Católica em crise. Também a Igreja, apesar das aparências, parece estar com problemas. O Papa Bento XVI, há dias, presidiu a uma cerimónia de proclamação de 22 novos Cardeais, de maioria europeia. Portugal ganhou mais um Cardeal. A Europa, aos olhos do Papa, que vai fazer 85 anos e tem problemas de saúde, no que toca à sua mobilidade, é considerada uma "terra de missão". Porque deseja cortar cerce com o que chama "o declive do catolicismo europeu".

É certo que, nos últimos tempos, nos diferentes Estados europeus, mas não só, foram descobertos vários escândalos de abusos sexuais e relativamente aos negócios da Igreja. Mas, independentemente desses casos, o Papa tem outras preocupações: as sociedades materialistas do nosso tempo, a falta de valores éticos e um sistema económico em que só conta o dinheiro (tráfico de armas e de drogas, a ignorância dos Direitos Humanos e das questões ambientais). Por isso o Papa disse que "a Europa é uma vinha devastada por javalis".

Na verdade a Igreja não pode deixar de se sentir mal com o capitalismo de casino, do tempo que vivemos. A doutrina social da Igreja, que esteve na base de uma das famílias políticas - a democracia cristã - que construíram a União Europeia (a outra, foi o socialismo democrático ou a social democracia) passou a ser completamente ignorada nos seus valores, quando os Partidos se tornaram populistas, conservadores e neoliberais (isto é, PPs), os quais, hoje, dominam a grande maioria dos Estados europeus.

L'Osservatore Romano, periódico oficial da Santa Sé, descreve, num artigo recente, o Supremo Pontifície como "um pacífico pastor, rodeado de lobos". Nesta breve frase se sente o mal-estar do Vaticano, nesta Europa materialista e insegura em que vivemos, quando há, obviamente, uma crise de fé. Por isso, talvez, Frei Bento Dominges, no seu habitual artigo de Domingo, no Público, escreveu "a hora do Concílio é hoje". E acrescenta: "Tornar a sério a interfecundidade do diálogo com ateus, agnósticos, com outras configurações religiosas do Oriente e do Ocidente, com outras Igrejas cristãs, é um imperativo para um novo Concílio". Oxalá assim seja, diz um agnóstico, como eu...

5. Crise profunda do capitalismo. Não sou eu que o diz. É Michel Rocard, socialista e ex-primeiro-ministro de França, na época de François Mitterrand. Com 82 anos, acaba de publicar um livro intitulado "Mes points sur les i". Não o li ainda, porque não chegou às livrarias portuguesas. Mas permito-me refletir sobre uma entrevista que deu a Le Monde de 27 de Fevereiro último. Diz ele: "o capitalismo entrou numa crise profunda, sem nenhum regresso à normalidade. Nada será como antes". E acrescenta "a Direita acredita que podemos trabalhar mais e voltar a ter crescimento. É falso. A sociedade de amanhã será radicalmente nova. Será menos mercantil e menos cúpida".

Não quer isto dizer que o capitalismo vai desaparecer, como tal, visto que ainda não se encontrou maneira de o substituir. Mas vai mudar radicalmente, "declarando guerra às finanças, tais como estão", como disse François Hollande, que aliás é o autor do prefácio do livro de Rocard. E cita o exemplo de Franklin Roosevelt que pôs a finança toda contra ele, por ter imposto a separação absoluta entre os bancos de depósito e os de investimento. E a verdade é que durante sessenta anos o Mundo viveu ao abrigo de crises financeiras. A própria Inglaterra, "a pérfida Albion", que é a casa-mãe do pensamento monetarista, começa a querer proteger-se dos excessos que contribuíram para criar a crise que hoje nos aflige. Cameron, o primeiro-ministro do Reino Unido, parece querer voltar à União Europeia, mas fazendo dela uma EFTA em ponto grande...

Numa palavra, não é o capitalismo, em si mesmo, que está em causa. É a sua desregulação monetarista, que tem de mudar, obedecendo a valores éticos, dominando os mercados especulativos e impondo as conquistas sociais, que trouxeram à Europa sessenta anos de bem-estar.

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Romy

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MensagemAssunto: Os salários da Alemanha, de Portugal e da China   Ter Fev 28, 2012 12:56 pm

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Os salários da Alemanha, de Portugal e da China

por PEDRO TADEU
Hoje


Um titular do por acaso não existente Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, esteve em Portugal para receber três doutoramentos honoris causa. Das várias coisas interessantes que disse geraram-se dois títulos para os jornais.

O primeiro foi este: "Portugal tem de baixar os salários para um nível 30% inferior aos da Alemanha." Foi uma carga de nervos por aí. O segundo foi "Portugal não tem que baixar os salários ao nível da China." Nos mesmos locais onde antes corações palpitavam ataques cardíacos, suspirou-se um alívio descompressor.

O que me interessa trazer aqui não é a profundidade das reflexões que sugestionaram os jornalistas a titularem desta forma os seus artigos. O que me interessa é a simplicidade desses títulos, que revelam espanto - o sentimento que está na base de todas as verdadeiras notícias - sobre este assunto. Esse espanto, apertado numa tituleira, poderia ser resumido assim: "Portugal está mesmo nas mãos da globalização." E isto, que não deveria ser notícia porque se pressupõe apreendido, afinal é ainda matéria dada como relevante.

Toda a gente já deveria ter percebido que a União Europeia se construiu numa tentativa artificial e mecanicamente mal solucionada de tornar iguais economias que são diferentes. A frase de Krugman que compara salários portugueses e alemães mostra-nos isso.

Toda gente já deveria ter percebido que neste lado do mundo, o lado europeu ocidental e norte- -americano, viveu-se até agora com uma riqueza e uma qualidade muito superiores, obscenamente superiores, às dos países do Leste, da Ásia, da América Latina, de África. A frase de Krugman que compara salários portugueses e chineses recorda-nos isso.

Toda a gente já deveria ter percebido que a crise que se vive, na sua manifestação mais profunda, mais não é do que um reacerto dessas diferenças planetárias que, se nada inverter o seu percurso, resultará numa perda de riqueza e qualidade de vida dos países que, comparado à média mundial, estavam no topo face a outros que, até agora, estavam no fundo da tabela.

Tudo isto é muito básico, mas ainda nos espanta. Porquê? Porque esse nivelamento está a ser feito "por baixo" - diminuindo conquistas que, há apenas dois ou três anos, dizíamos serem civilizacionais - em vez de ser feito "por cima" - isto é, levando essas conquistas a mais pessoas no planeta. Para já, limitamo-nos a mudar a riqueza, a empobrecer o mundo de um lado e a aboná-lo do outro, sem distribuir também, de forma mais equilibrada, os padrões que definiram a nossa antiga qualidade de vida. Isso é suicida.

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MensagemAssunto: Voltar à racionalidade   Ter Fev 28, 2012 1:05 pm

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Voltar à racionalidade

por ADRIANO MOREIRA
Hoje


Alguns comentários, logo aligeirados pelas conveniências diplomáticas, sobre o facto de a China ter sido preferida à Alemanha no caso da venda de uma parte do capital de uma empresa portuguesa de relevo, não podem ser ignorados.

Não se trata de um desabafo de circunstância, para ser esquecido, mas antes de um sinal a meditar sobre a irracionalidade sustentada da atitude de algumas potências sobre a crise mundial, no caso português reforçada por comentários, também de estranheza europeia, sobre a relação de Portugal com Angola, na área da crise financeira. O que, do ponto de vista que fica livre aos pequenos países, obriga a insistir sobre a irracionalidade em que a perceção da realidade anda embaraçada pelos impulsos diretórios, por enquanto de fraca intensidade.

Em primeiro lugar não são tais impulsos diretórios que, no supercomplexo globalismo em que nos encontramos, reforçam a resposta da União perante os movimentos sem avaliação conhecida a que tem de procurar atender para ultrapassar a fraqueza em que visivelmente se encontra. Não se trata apenas da sua própria crise financeira e económica, nem apenas da sua dependência em matérias-primas e energias renováveis, também no que se refere às dúvidas sobre o euro, por exemplo, porque é necessário somar, designadamente, os efeitos colaterais que sofre da falta de governança mundial dos mercados, da proliferação das armas nucleares, dos severos riscos derivados do terrorismo, dos cataclismos sem previsão ao alcance das instâncias responsáveis.

O que se evidencia são ambiguidades do G20, ou arreganhos que agravam as contradições internas da União, esquecendo, como lembra Montbrial na sua habitual análise anual, que é "multiplicando as passagens e não os muros que a humanidade chega a criar as condições da sua tranquilidade duradoira". É surpreendente que países europeus de economias supostas dominantes, e que procuram, a bem do seu interesse, expandir-se para além das frágeis fronteiras europeias, considerem criticáveis esforços dirigidos à viabilização da Euráfrica pelas vias pacíficas que ultrapassam as memórias da dominação colonial.

Ou que procuram contribuir para reatar laços de cooperação, e não atitudes de confronto, com os povos envolvidos no turbilhão do Mediterrâneo, ou que simplesmente consideram, com fundamento, que a partilha de soberanias europeias não afetou a cada uma todas as janelas de liberdade, não lhes tolhem os esforços no sentido de ultrapassarem ambiguidades do globalismo, mantendo vivos, como acontece com Portugal, os laços tecidos com o Oriente longínquo.

Com isso estão a aligeirar a procura, apenas no interior europeu, de recursos penosamente obtidos em negociações cujos resultados não conseguem ficar sempre nos limites do respeito pelas especificidades de cada país envolvido.

No caso português, sem poder ignorar o processo evolutivo do Brasil, que prudentemente avalia a escolha de futuros entre os compromissos com o regionalismo sul-americano e a sua própria afirmação de grande potência, a solidariedade procurada entre os países de língua portuguesa, na organização que espera mais atenção e desenvolvimento, que é a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), é uma contribuição sua. Não apenas para a racionalização do globalismo, e para o património imaterial de que se ocupa a UNESCO, mas também para o interesse desta Europa, à procura de objetivo estratégico convictamente partilhado, de governança finalmente racionalizada, com imaginação criadora e lideranças credíveis.

Tudo para que a Euráfrica não seja apenas um sonho que a realidade semeie de pontos de interrogação, a que lembranças revitalizadas do passado impeçam de encontrar respostas construtivas. Na circunstância atual, não é fazendo renascer o espírito de cidadelas na União que a fraqueza desta encontrará remédio, porque não poderá dispensar os esforços ordenados para dominar a irracionalidade do globalismo.

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MensagemAssunto: Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão   Ter Fev 28, 2012 1:13 pm

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Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão

por PEDRO MARQUES LOPES
26 Fevereiro 2012


Miguel Relvas, na TVI24, mostrou a sua revolta contra alguns municípios que devem milhões e mesmo assim tiveram o desplante de dar tolerância de ponto no Carnaval.

Pode-se acusar o ministro de muita coisa, mas não se pode dizer que estivesse a ser incoerente com o que é a linha de actuação do Governo. Vem, aliás, na sequência da decisão de acabar com feriados, com a proposta abandonada de aumentar meia hora a jornada laboral, da redução de férias e outras medidas que visam aumentar a permanência dos trabalhadores no posto de trabalho.

O pensamento político - se é que lhe podemos chamar político ou sequer pensamento - subjacente a esta estratégia é evidente: uma das principais razões para a crise que vivemos é o facto de nós, portugueses, trabalharmos pouco.

Como qualquer pessoa que utiliza a fé para tomar decisões, é perfeitamente indiferente falar de factos. Não valerá a pena informar o Governo de que os portugueses são dos povos europeus que mais horas trabalham ou, pelo menos, os que são obrigados a passar mais horas nos seus locais de trabalho. Também será inútil lembrar que os portugueses que trabalham em empresas estrangeiras, em Portugal ou no estrangeiro, são considerados excelentes trabalhadores e distinguem-se pela sua qualidade.

Não, Relvas e o Governo estão convencidos de que os trabalhadores portugueses são um bando de preguiçosos que é forçoso pôr a trabalhar. Mais, devem ser agora castigados por terem passado tantos anos de papo para o ar. Gostaria muito de saber o que pensará um qualquer operário que leva uma hora e meia para chegar à empresa onde trabalha e mais hora e meia para regressar a casa, depois de ter trabalhado nove ou dez horas, para no fim do mês receber oitocentos euros, deste tipo de pensamento. Enfim...

Pois é, foi o facilitismo e a preguiça que nos trouxeram ao actual estado de coisas. Isso e os Governos anteriores, bem entendido. Quanto aos Governos anteriores terá o ministro Relvas alguma razão. Não há dúvidas de que os últimos vinte ou trinta anos contribuíram, e de que maneira, para o péssimo estado do País. Mas ver a segunda figura do Governo ignorar olimpicamente esse pequeno detalhe da crise europeia, o ataque às dívidas soberanas, o quase colapso do sistema financeiro internacional, a cegueira criminosa dos dirigentes europeus na condução dos destinos europeus, a semelhança da nossa situação com a de quase todos os países da Europa e explicar tudo com os anteriores Governos e os facilitismos e quejandos é, pura e simplesmente, arrepiante. Bom, não seria de esperar muito mais de Miguel Relvas, cujo entendimento da política se resume na habilidade em angariar apoios de secções partidárias e em pôr notícias em jornais. Mas que diabo, pensar que é ele o coordenador da acção política do Governo é, no mínimo, assustador.

Talvez seja pedir demais, mas talvez também não fosse má ideia que Miguel Relvas esquecesse por momentos a propaganda e percebesse alguns dos problemas que as nossas empresas (é escusado pedir isso ao ministro Álvaro, pois já todos percebemos que ele sabe tanto de empresas e dos seus problemas como de lagares de azeite) enfrentam, e que estão longe, muito longe, de qualquer tipo de preguiça dos trabalhadores.

Em vez de estar a perder tempo com comissões interministeriais, que mais não são do que poeira para atirar aos olhos dos mais incautos, podia-se tentar informar dos problemas graves de formação, de capacidade de gestão e de organizar o trabalho de parte significativa dos nossos empresários. Das dificuldades que o Estado lhes impõe com as constantes mudanças de legislação, da kafkiana burocracia, da falta de crédito que lhes está a destruir as empresas, dos preços absolutamente exorbitantes que têm de pagar por electricidade, gás e petróleo que não lhes permite ser competitivos com os concorrentes estrangeiros, da carga fiscal asfixiante ou do inexistente sistema de justiça que faz que as dívidas sejam perdas.

Mas a verdade é que os sapateiros não são bons tocadores de rabecão.

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Romy

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MensagemAssunto: As ideias comandam os factos   Ter Fev 28, 2012 1:42 pm

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As ideias comandam os factos

por FERREIRA FERNANDES
Hoje


O líder da oposição portuguesa publicou ontem no New York Times um texto de opinião. E, também ontem, ele foi distinguido em Lisboa com um doutoramento honoris causa. Falo, claro, de Paul Krugman, Nobel da Economia e porta-voz contra a austeridade. Em Lisboa, ele lembrou que há curas que matam. A austeridade pode ser necessária como uma sangria, mas insistindo nela depois de o doente piorar, sangrando mais um bocadinho, o doente piora ainda mais... Nos últimos meses, há sábios que garantem que Portugal tem de sair do euro (ping) e não menos sábios que juram que não precisará de sair (pong), o que me basta para confirmar que a economia é um jogo que causa torcicolos. No artigo do New York Times, escrito para os americanos, Krugman diz que a crise europeia tem uma "narrativa Republicana" (isto é, da direita americana): a culpa é da intervenção do Estado. Nessa América, a indústria automóvel estava falida há quatro anos. O Presidente Obama enxertou dinheiro público em Detroit e a General Motors acaba de ultrapassar a Toyota como a maior produtora mundial. Porém, os candidatos republicanos, tão divididos entre si, continuam unânimes nisto: o bom é menos intervenção estatal. O que me convence é que nesta história o único errado é o velho Bill Clinton: "É a Economia, estúpido!", disse ele um dia. Errado, é a política que comanda as mezinhas, a economia é mero

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RMaria

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MensagemAssunto: Um livro para Passos Coelho ler   Qua Fev 29, 2012 2:12 pm

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Um livro para Passos Coelho ler

por BAPTISTA-BASTOS
Hoje


Estamos enfraquecidos e aterrorizados. O pior ainda não chegou, avisa-nos o Governo, que já desempregou não só milhares de portugueses, como a própria generosidade. A banalidade das advertências quase deixou de nos comover. Aceitamos as coisas com a resignação de quem entende que valores mais poderosos se levantam. Como há tempos me disse o meu amigo João Lopes, deixámos de alimentar a compaixão, sem a qual nem sequer sobrevivemos: vegetamos. Mas vale a pena insistir na notícia desta desgraça? Creio que sim; de contrário estaríamos a ressuscitar a fantasia de que, se tudo não está bem, vai melhorar. Não vai. Pedro Passos Coelho pressagiou o nosso em-pobrecimento; agora, pede-nos energia. Anda, notoriamente, desorientado. E não sabe a quem se dirige, por desconhecimento de quem somos. Mas não somos matéria vaga.

Leio em Montesquieu: "Não há desgosto que uma hora de leitura não desvaneça." Faço-o, há muitos anos. Claro que o desgosto não se desvanece. Mas a leitura reconforta-nos. E permite-nos estabelecer comparações. É o que devia fazer o Governo: ler. Há, nele, uma encantadora ausência de livros, sobretudo de História. Os discursos chãos, vazios de sentido, escassos de virtude quanto cheios de ignorância, fornecem-nos a dimensão cultural e moral destes senhores. Não se pode governar estranhando a natureza de quem é governado.

Um volume recente, o terceiro da História de Portugal, de António Borges Coelho, ergue-nos o ânimo e alivia-nos dos pesares. Recomendo a Passos, que parece tão desviado de nós, a leitura de Largada das Naus, que nos sacode a sonolência de espírito e nos convoca a inteligência e a coragem. É um texto extraordinário pela beleza da prosa, pelo rigor da pesquisa, pela grandeza da proposta. Como nos dois tomos anteriores, Donde Viemos e Portugal Medievo, o grande historiador não oculta a paixão pelo povo, a contribuição inapagável e sem preço de uma gente fervorosa, amante e entusiasta, violenta e terna, que troca "gestos, cerimónias, roupas, vocábulos" e que experimenta "as armas e os corpos". Nós.

Como poucos, António Borges Coelho fornece-nos a dimensão de um tempo e a espessura de uma população que construiu o país com a rudeza de uma vontade quase inexplicável. Como é possível desconhecer esta gente?, que criou um leito de nações, enquanto consolidava a sua própria, com o génio e o montante, a poesia e o sangue.

Não se deve falar connosco na linguagem da displicência. É imoral. Afinal pertencemos a uma estirpe que, para citar o etnólogo brasileiro Luís da Câmara Cascudo, outro maior, "levou nas naus o coração batente e a pedra de Pêro Pinheiro, mas, também, a língua e a força da aprendizagem". Essa força transformadora que, na repressão, no opróbrio e na desdita não foi nunca dominada.

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MensagemAssunto: Engolir um sapo   Seg Mar 05, 2012 5:30 pm

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Engolir um sapo

por PEDRO MARQUES LOPES
Ontem


1- Esqueçamos as mudanças de opinião do Presidente da República sobre as agências de rating. As tais que em Julho de 2010 não podiam ser recriminadas mas que nesta semana, em entrevista à TSF, foram severamente criticadas por Cavaco Silva, que até chamou cobardes aos líderes europeus que pactuam com elas.

Esqueçamos que o Presidente da República ignorou a crise do euro e o ataque às dívidas soberanas e só há poucos meses acordou para esses problemas. Esqueçamos que o termo "crise sistémica" é recente no discurso do Presidente da República e que, apesar de agora criticar os dirigentes europeus por terem percebido tardiamente as verdadeiras origem da crise, também ele chegou atrasado, muito atrasado.

Pronto: nuns casos, o Presidente mudou mesmo de opinião, noutros ou se esqueceu de nos informar dos seus pontos de vista a tempo e horas ou também a sua opinião, digamos assim, evoluiu. Todos sabemos o que esta malfadada crise fez a muitas das nossas convicções, e só os burros é que teimam em ir contra o óbvio.

Finjamos estar esquecidos do gravíssimo caso das escutas que num país civilizado abriria uma gigantesca crise institucional. Podemos da árvore da nossa memória o infelicíssimo caso das pensões e do insulto que nos foi dirigido pelo Presidente da República.

Eu e muitos, acredito, gostaríamos de ter o voto que demos a Cavaco Silva de volta, mas a coisa não funciona assim. Temos de engolir mais um sapo, pois.

Hoje por hoje temos um primeiro-ministro que quer cumprir o acordo com a troika custe o que custar e não enjeita mais medidas de austeridade, que apregoa aos sete ventos que não somos a Grécia, que se revê na sra. Merkel, que não quer mais tempo nem mais dinheiro, que acredita que o BCE deve estar como está, que não tem uma palavra para falar da necessidade dos países com excedentes terem políticas expansionistas ou de solidariedade intereuropeia ou de planos de crescimento económico, que assume o desemprego como uma inevitabilidade. Do outro lado temos um Presidente da República que fala dos novos pobres e na necessidade de coesão social, que insiste no drama do desemprego, que não aceita mais sacrifícios para os portugueses, que afirma que devemos ser solidários com a Grécia, que põe em causa o directório franco-germânico, que tem um discurso para a Europa muito próximo do de Monti (já não é mau), que desde o seu célebre discurso em Florença está mais preocupado com o emprego e o crescimento do que com a inflação, que quer o BCE como um novo desenho, que não aceita que se critique apenas Portugal, a Irlanda e a Grécia mas sim a Europa como um todo.

Obviamente que Passos Coelho e Cavaco Silva querem o melhor para o País e para os portugueses, mas isso é comum a todos os políticos dignos desse nome. O que está em causa são os métodos para atingir esse objectivo, ou seja, as escolhas políticas. E neste aspecto é evidente que Passos Coelho e Cavaco Silva têm visões muito diferentes da situação da Europa e de Portugal e de quais devem ser as políticas a seguir para sair da crise. Mais, com o tempo e o aprofundamento dos problemas cada vez isso vai ser mais notório e a separação entre os dois se vai acentuar.

Ter o Presidente da República como líder da oposição é o melhor dos cenários? Não, não é. Deve ser o Presidente o líder da oposição? Não, não deve. Mas quem não tem cão, caça com gato. E, faltando oposição, é o que nos resta. Pior do que esta situação seria chegarmos ao ponto a que vamos, infelizmente, chegar, de aprofundamento da crise económica com uma inevitável crise política, sem uma voz institucional que corporizasse o descontentamento e mostrasse um novo caminho. Pior ainda seria no momento em que a crise política se agudizar termos um Presidente da República descredibilizado na opinião pública e fragilizado na sua acção.

Bem sabemos quantas vezes na nossa vida temos de fazer um esforço para utilizarmos a memória não para lembrar mas para esquecer. Este é um desses momentos. Vamos lá a ver é se o Presidente da República não volta a mudar de opinião e se não nos obriga a desistirmos também dele.

2 - O desemprego já vai em 14,8% e vamos ter mais recessão. Segundo Vítor Gaspar e a troika está tudo a correr às mil maravilhas. Há aqui qualquer coisa que me escapa, mas a culpa deve ser minha.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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MensagemAssunto: O Álvaro é uma vítima   Seg Mar 05, 2012 5:42 pm

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O Álvaro é uma vítima

por PAULO BALDAIA
Ontem


O Álvaro é uma vítima da gula partidária, da falta de experiência na economia real, da guerra de competências e protagonismos, da demagogia com que foi dada dimensão ao seu ministério só para haver menos ministérios. É até vítima do São Pedro que lhe rouba a chuva, mas é também vítima de si próprio. A começar pela modernice com que entendeu convencer-nos a todos que lá fora toda a gente é tratada pelo nome próprio. Como isso nem sequer é verdade, no resto desta crónica vou passar a tratá-lo pela dignidade do cargo que ocupa.

O ministro da Economia e do Emprego está em maus lençóis há já muito tempo. Vivemos até com a sensação que ele está no ministério há anos, mas o Governo só tomou posse há oito meses. De lá até cá, o senhor ministro já perdeu poder nas privatizações, nas PPP e no emprego para jovens. Agora querem tirar-lhe o QREN. Não tarda nada e passa a ser o ministro das falências e aí pode entrar em poupança e diminuir o número de secretários de Estado, actualmente são seis.

Bem sei que com menos de um ano de existência mudar a orgânica do Executivo parece um disparate, mas isso já está a acontecer pela calada e, portanto, não vinha mal ao mundo se o primeiro-ministro se arrependesse da estrutura que montou e a refizesse. Não é de agora que se discute a ingovernabilidade deste ministério. Em Outubro do ano passado, o insuspeito Rui Rio considerava que "nem que se ponha lá um super-homem" este ministério podia ser governado. Rio incluía nesta ingovernabilidade o MAMAOT (Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território) de Assunção Cristas e a verdade é que a opinião publicada também já começou a perder a fé nesta ministra.

Neste esvaziamento de competências há razões de fundo para o comum dos mortais entender que não é considerado no seio da equipa e dar lugar a outro, demitindo-se. Mas temos de admitir que o jovem ministro (40 anos) ainda mantenha mais prós que contras para a decisão de continuar no Governo. O que não é possível que ele não saiba, como sabemos todos, é que o seu mandato tem tudo para acabar mal. E o que parece certo como o destino é que, não querendo sair pelo seu pé, sairá empurrado antes do fim da legislatura. No PSD há muito que decidiram que, em circunstâncias normais, ele será o primeiro a ser remodelado.

Nesta guerra pelo controle dos milhões do QREN o que se espera é que, independentemente do ministro que ficar a tutelar a futura comissão interministerial, não vença a tese de que não gastar é o melhor dos caminhos. É absolutamente possível gastar melhor os fundos comunitários, mas que o Executivo não argumente com a falta de dinheiro para políticas de crescimento da economia, se a alternativa é fechar o dinheiro num cofre.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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MensagemAssunto: Coragem em Madrid   Seg Mar 05, 2012 5:50 pm

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Coragem em Madrid

por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
Hoje


Quando se esperava do Conselho Europeu o entoar de loas ao patético Pacto de Disciplina Orçamental, que espelha as mentes alucinadas que dominam em Berlim e em Bruxelas, o foco da atenção não foi para uma Merkel triunfante, mas sim para Mariano Rajoy. O chefe do Governo espanhol, cujo currículo está longe de ser brilhante, teve, contudo, o ato mais frontal que já se escutou nestes dois anos de circo da "crise das dívidas soberanas": falou verdade. Numa altura em que toda a gente mente na Europa. Sobre a Grécia, sobre o (in) sucesso dos planos de resgate, sobre o futuro, Rajoy olhou a realidade de frente. Embora Madrid esteja comprometida com a consolidação das finanças públicas, não o pode fazer pondo em perigo a coesão social de uma nação com 23% a 24% de desempregados. Passar de um défice de 8,5% para um de 4,4% seria um salto mortal. A Espanha promete baixar para 5,8% (o que é já um esforço duríssimo). Rajoy não vai guerrear o seu povo para agradar aos seus homólogos, ou à burocracia de Bruxelas, que já entrou no infame modo de "sobreviver sob qualquer amo e a qualquer custo". Rajoy respeitou a verdade factual. O seu gesto significa que o Pacto Orçamental já nasceu morto. Madrid mostrou que se queremos salvar a União é preciso dizer a Berlim e a Bruxelas que a sua estratégia vai rebentar com a Europa, e ninguém ficará a salvo. Portugal não é a Espanha, que é a quinta economia da União. Mas para Lisboa, a Espanha é o maior credor e o maior parceiro comercial. Se nos obrigarem a mudar de rumo, a embarcar na jangada de Saramago, em direção às Américas e às Áfricas, portugueses e espanhóis estarão juntos nessa viagem. Só a via da coragem política, de que Madrid deu testemunho, evitará essa viagem de último recurso, salvando a Europa do medo que a asfixia.

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MensagemAssunto: Portugal dá a volta   Seg Mar 05, 2012 5:59 pm

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Portugal dá a volta

por JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Hoje



A falta de relatórios da Fundação Richard Zwentzerg (FRZ) tem gerado inquietação. A instituição dedicada aos estudos lusitanos continuou as suas actividades, mas desde Junho de 2010 mantém silêncio, sem publicar os textos, que só são acessíveis através do DN.

Na entrevista de apresentação do último título, o actual presidente da FRZ, o milionário guatemalteco Oskar Papadiván, parecia quase aliviado. "A falta de intervenção da fundação em momento tão difícil da vida portuguesa deveu-se a uma clivagem interna na nossa comissão científica", explicou. "Felizmente está ultrapassada."

"Quero dizer que a maioria do grupo nunca duvidou de que o ajustamento da economia e sociedade portuguesas teria sucesso", afirmou Papadiván. "Aliás, quisemos publicar este resultado há um ano, meses antes do pedido de ajuda. Mas um pequeno número dos nossos membros tinha hesitações fundamentadas que não podíamos ignorar. Hoje, o consenso regressou e apresentamos com confiança estas conclusões."

O relatório afirma que se vive o momento mais negro e incerto da crise. "Foram muitos erros durante muito tempo. São inevitáveis meses de sofrimento." Apesar disso, é já evidente que haverá uma recuperação sólida e equilibrada da conjuntura. "Não será fácil, mas Portugal voltará ao equilíbrio."

"As alternativas a considerar na situação portuguesa", diz adiante, "não estão entre seguir a miséria grega ou o sucesso irlandês, mas entre copiar os desastres de 1834 e 1910 ou os êxitos de 1978 e 1983. Em todos havia grave crise, mas as revoluções liberal e republicana mergulharam o País em dé-cadas de caos, enquanto os acordos do FMI conseguiram aprofundar a democracia e o progresso".

Hoje, o sinal mais promissor do sucesso é a calma social. "A serenidade é uma condição decisiva para a recuperação e, ao contrário da Grécia e até da Itália e da Espanha, Portugal e Irlanda têm-na. Apesar da natural indignação, dos esforços compreensíveis de forças de agitação e dos sucessivos avisos de revoltas por intelectuais, os portugueses mantêm-se estoicamente pacíficos. O sofrimento é muito, mas as pessoas e os grupos compreendem que nada têm a ganhar com protestos e distúrbios. É preciso trabalhar, poupar, encontrar novas alternativas." O texto chega mesmo a teorizar: "As pessoas não se revoltam quando perdem muito, mas quando nada têm a perder. Os lusitanos sabem que a recusa aos sacrifícios e os protestos paralisantes só aumentariam ainda mais o sofrimento."

O tom optimista do texto surpreende face ao cepticismo do capítulo relativo às políticas. A Fundação desconfia da capacidade do Governo em cumprir o prometido. "Os grupos de pressão têm as suas influências no PSD e no CDS, como tinham no PS. Conseguir eliminar o gigantismo do aparelho e a obsessão regulamentar é um mito", garante. A timidez das medidas já tomadas mostra-o à evidência: "Nas reformas estruturais vê-se pouco e intui-se desorientação, aselhice, ignorância. O Estado tem feito algum jejum, mas não muda hábitos nem leis. Pior, sem distinguir as críticas sérias e justificadas das queixas interesseiras e ciumentas, o Governo faz bandeira de tolices (redução de feriados), meias-medidas (lei das rendas) ou velhas ideias (programas escolares)."

Como pode então a FRZ assegurar o êxito? Por confiança na população. "As empresas portuguesas vivem dificuldades há dez anos e começaram a ajustar-se à nova situação logo em 2008, ao contrário do aparelho estatal e de grupos de pressão, que parecem ainda mal ter percebido a situação. Basta que as imposições do memorando consigam parar os erros e aliviar os estrangulamentos fiscal e regulamentar das empresas, o qual tem crescido sucessivamente nos últimos anos, para a recuperação ter êxito."

O texto justifica: "Este foi sempre o segredo do sucesso português ao longo dos séculos. Ao lado de uma elite pedante e parasita existe um povo espantoso que consegue dar a volta. Ao contrário das desgraças de 1834 e 1910, os programas externos de 1978 e 1983 aliviaram o povo um pouco do peso dos parasitas. Isso chegou."

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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MensagemAssunto: A União Europeia não sai da cepa torta   Ter Mar 06, 2012 12:56 pm

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A União Europeia não sai da cepa torta

por MÁRIO, SOARES
Hoje


1. O Tratado que resultou da cimeira de Bruxelas da semana passada, intitulado pomposamente Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governação da União Económica e Financeira, apesar de subscrito por 25 chefes de Governo dos Estados membros (com a exceção do Reino Unido e da República Checa) não parece ter trazido à crescente inquietação da opinião europeia e mundial nenhum benefício que possa dar à União alguma esperança quanto ao futuro próximo. Primeiro porque o Tratado só entrará em vigor - se lá chegar - depois de ratificado pelos Parlamentos nacionais, pelos Tribunais Constitucionais e pelo referendo da Irlanda.

É talvez possível que os mercados especulativos não rejubilem com o Tratado. A promessa vaga e futura de uma governação financeira e económica talvez lhes suscite alguns engulhos. Mas como o que continua a contar é a redução dos deficits - e o não crescimento das economias reais - os desempregados, cada vez mais, como as desigualdades e a pobreza crescem avassaladoramente, os mercados especulativos, que comandam os Estados, continuam satisfeitos. Têm amplas razões para isso...

A verdade é que sem os mercados - e as agências de avaliação - serem postas na ordem, a crise global que afeta a União Europeia não terá solução. Não se trata só dos Estados da Zona Euro mas também dos que não lhe pertencem, como o Reino Unido, que não estará, seguramente, numa situação melhor do que a Itália ou a Espanha.

Não se espere que os Estados vítimas das medidas de austeridade - como a Grécia, a Irlanda ou Portugal - estejam pior do que os outros Estados membros, mesmo os considerados mais ricos, como França e a Alemanha. Enquanto não for mudado o paradigma de desenvolvimento da União e os líderes europeus não quiserem perceber que com austeridade sem crescimento económico e sem um combate sério contra o desemprego a situação da Europa irá sempre de mal a pior. Não há troikas que lhes valham. Bem pelo contrário. Principalmente os governantes que consideram as troikas beneficiárias (em vez de usurárias) e não ficam chocados no seu patriotismo, quando as veem a tutelar os Estados e os Governos, democraticamente eleitos. Que aberração! Quanto às desgraças que criam as políticas de austeridade, contribuindo para aumentar a recessão, o desemprego e as desigualdades sociais, leiam-se dois artigos muito lúcidos de Pacheco Pereira e Miguel Sousa Tavares, no Público e no Expresso, do fim de semana passado.

2. A surpresa Rajoy.

Mariano Rajoy, chefe do Governo espanhol, eleito por grande maioria, tomou uma atitude que espantou a União Europeia. E que, a meu ver, foi lúcida e corajosa. Sem prevenir os lideres europeus - e após a última Cimeira, precisamente no dia seguinte - anunciou ao Banco Central Europeu, à Comissão Europeia e ao Conselho, a sua decisão de deixar subir o deficit público de 4,4% para 5,8% em 2012 ou seja, não fazer tantos cortes como a União exigia.

Note-se que quando começaram os cortes assassinos, os espanhóis desceram à rua para manifestar o seu descontentamento em Madrid, Barcelona e noutras cidades de Espanha. Quem conhece a história e a sensibilidade dos espanhóis, não se admira nada com essas manifestações hostis à política restritiva do Governo... Por outro lado as Autonomias, começaram igualmente a protestar, principalmente a Catalunha, o País Basco e a própria Andaluzia, onde o PP, aliás, acabou de conseguir uma vitória histórica.

O Presidente do Banco Central Europeu, Mário Draghi, censurou a Espanha por não ter apresentado o Orçamento para 2012. A questão, ao que parece, é que vai haver eleições na Andaluzia e nas Astúrias, salvo erro, em abril e Mariano Rajoy para não ter dissabores não quer dar conhecimento dos grandes cortes exigidos - e tão impopulares - antes delas. Depois, certamente, dará conhecimento do Orçamento. Mas daí a que cumpra os cortes exigidos, a que Bruxelas submeteu a Espanha, vai uma certa diferença.

Curiosamente, quando a Comissão Europeia criticava a posição do presidente Rajoy dizendo que "Espanha estava a perder credibilidade", o líder do PSOE, rival de Rajoy, Alfredo Pérez Rubalcava, afirmou, em sentido inverso, que Espanha "vai na direção correta" (vide El País de sábado).

Espanha não é um Estado qualquer. O descontentamento profundo da população - e das Autonomias - perante as chamadas medidas de austeridade e os cortes sociais que implicam, especialmente a contra-reforma laboral, criaram já um desgaste significativo no Governo, mas não no PP. É o que mostra o último barómetro.

Contudo, não haja dúvida de que o aumento do desemprego (um quarto da população ativa) e os cortes que tanto vão atingir a classe média tornam muito difícil a aplicação das medidas impostas por Bruxelas. O que vai ter consequências sérias, nos diferentes Estados membros da União, de Espanha à Itália e até à própria França, sem excluir os Estados mais pequenos. Como veremos...

3. Um prémio Nobel em Lisboa.

Devo ter sido dos primeiros portugueses - excetuando, obviamente, os economistas de formação - a ler os artigos e algumas das conferências de Paul Krugman, prémio Nobel da economia. Antes dele, aliás, li dois ou três livros de Joseph Stiglitz, que me ensinaram a compreender a origem da crise global que vivemos e como a podemos - se quisermos - vencer. Como a austeridade, por si só, não leva a lugar nenhum, é urgente e necessário meter os mercados especulativos na ordem, acabar com os paraísos fiscais, a economia virtual e voltar aos tempos em que a meta era o pleno emprego e uma democracia social que funcionasse, ao serviço também dos mais desfavorecidos.

Entretanto, os Estados Unidos entraram em crise - uma crise financeira e económica séria - que se tem prolongado e tornado também política, social e ética ou de respeito pelos grandes valores. Comunicou-se à União Europeia e tem vindo a aprofundar-se, pondo em causa a relação de forças em termos mundiais. É o Ocidente que está em crise no seu conjunto. Crise, alimentada pela ideologia neoliberal dos teóricos americanos e depois aplicada, em termos de governação, pelo presidente Reagan e pela primeira-ministra inglesa, Thatcher, sem esquecer a infeliz "terceira via" do Senhor Blair.

Foi depois dessas experiências, para mim desagradáveis, que comecei a ler os artigos críticos de Paul Krugman com grande aprazimento e concordância. Citei-o, aliás, em muitas das minhas crónicas.

Quando soube que o prémio Nobel vinha a Lisboa para receber um doutoramento honoris causa, fiquei satisfeito e naturalmente interessado. Foi re- cebido, aliás, com a maior cordialidade e simpatia. No entanto, embora não renegasse as suas ideias, segundo li nos jornais portugueses, foi elogioso para a troika, talvez por estar em Lisboa e para ser agradável aos nossos atuais lideres, que o homenagearam com um almoço. Reconheceu a necessidade das "medidas de austeridade" e esqueceu-se da recessão crescente e de o desemprego ter subido a 14,8%...

Espero não estar enganado. Mas, para mim, Paul Krugman foi uma deceção... Quando o oportunismo dos académicos os leva a contradições, a sua honorabilidade desce... É dos livros!

4. A tragédia da Síria.

A carnificina que tem continuado na Síria é inaceitável e impensável no século XXI. É preciso acabar com esse ditador sanguinário que nos tempos que correm só tem paralelo com Kadhafi.

O secretário-geral da ONU, o coreano Ban Ki-moon, veio às televisões mundiais condenar o ditador e os seus fiéis. Mas não basta falar. É preciso agir. E agora que a China e a Rússia parecem ter-se arrependido do veto vergonhoso com que paralisaram o Conselho de Segurança, é a boa altura para que a ONU tome rapidamente uma iniciativa condenatória do Governo sírio e obrigue todos os Estados membros a pronunciar-se contra uma situação tão injusta e trágica que nos envergonha a todos.

5. Stefan Zweig 70 anos depois.

A imprensa internacional - e a brasileira - destacaram os setenta anos que já passaram depois que o grande escritor, humanista e pacifista Stefan Zweig e a sua segunda Mulher puseram fim às suas vidas, em Petrópolis, perto do Rio de Janeiro.

Fui desde jovem um leitor apaixonado de Stefan Zweig, não do poeta ou do dramaturgo - que também foi - mas sim do novelista e, sobretudo, do biógrafo e autobiógrafo. Quase todos os livros escritos por Zweig estão traduzidos em português, por uma escritora e tradutora, excelente, que conheci pessoalmente, Alice Ogando, aparentada com um meu companheiro do MUD, no imediato pós- -guerra, o médico comunista Luciano Serrão de Moura. Entre as biografias que li, apaixonadamente, nunca esqueci a de Maria Antonieta, por onde começou o meu conhecimento, mais aprofundado, da Revolução Francesa, de Maria Stuart e de Fouché, o político que soube sobreviver na época de Bonaparte a todas as mudanças. Além de grandes génios, entre outros, que também biografou, como: Erasmo de Roterdão, Casanova, Stendhal, Tolstoi, Nietzsche, Freud, Balzac, Rilke e Dostoievski, sem esquecer o seu grande amigo e meu tão admirado, desde sempre, Romain Rolland. Cito também a biografia do corajoso navegador português Fernão de Magalhães - que devia ser lida pelos patriotas portugueses -, que encontrou a passagem gelada, no extremo sul, entre o Atlântico e o Pacífico, cujos lugares tão inóspitos tive a honra de observar e conhecer.

Zweig nasceu em Viena de Áustria em 1881 e suicidou-se (com a sua Mulher) no Brasil em janeiro de 1942. Foi, toda a vida, um humanista e um pacifista, ou não fosse grande amigo e quase discípulo de Romain Rolland. Era um homem extremamente afetivo e de grandes amizades, que conservou até à sua morte, como o descreveu a sua biógrafa Dominique Bona, no seu livro Stefan Zweig, l'ami blessé. Não suportou o peso do nazismo nem das perseguições e ameaças que lhe foram feitas. Antes de morrer, publicou uma autobiografia, que ainda não tive oportunidade de ler e que julgo ser póstuma, intitulada O Mundo de ontem, que foi o seu, inexoravelmente. E antes publicou um clássico, em forma de ensaio "Brasil, País de Futuro", que foi profético. Porque hoje o Brasil não é uma ideia de futuro: é o futuro, com um passado e um presente absolutamente excecionais.

Espero que os jovens de hoje não deixem de ler Zweig. Ficariam com uma bagagem cultural de extrema atualidade. Recomendo- -lhes, para começar a conhecer o personagem, que leiam uma biografia que sobre ele escreve o grande jornalista e escritor, brasileiro, Alberto Dines.

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MensagemAssunto: Os perigos da política do ministro Vítor Gaspar   Ter Mar 06, 2012 1:05 pm

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Os perigos da política do ministro Vítor Gaspar

por Pedro Tadeu
Hoje


Vítor Gaspar nunca disse, suponho que não dirá e aparenta um perfil democrático que me dá esperança de que nunca quererá dizê-lo... Refiro-me à frase "sei muito bem o que quero e para onde vou", ditada pelo ministro das Finanças de 1928, António de Oliveira Salazar. Arrisca-se, no entanto, a ser colocado no patamar dos homens providenciais que os pequenos poderes deste país, sempre à espera de milagreiros predestinados, acabarão por lhe destinar, caso persista este desatino governativo que o episódio da disputa da gestão dos fundos do QREN com o ministro da Economia evidencia.

A exigência de controlo de um dos poucos instrumentos de investimento público que restam tem familiaridade com a imposição, pelo então futuro líder do Estado Novo, de policiamento absoluto de todas as despesas e receitas de todos os ministérios, nos Governos ilusoriamente liderados pelos esquecidos José Vicente de Freitas, Artur Ivens Ferraz e Domingos da Costa Oliveira.

Na questão de agora, segundo a imprensa, estão em jogo cinco mil milhões de euros de investimento. Metade já terão sido destinados pelo ministro Álvaro Santos Pereira, não se sabe se bem ou mal.

Sabe-se é que a restante metade (pelo menos), se nada se intrometer, passará a ser controlada pelo ministério das Finanças. Razão? Usar esses dinheiros de forma a que contribuam como ferramentas indiretas de ajuda à política orçamental e não para o que estavam destinados - estimular o desenvolvimento.

É sempre mais fácil apresentar resultados contabilísticos (basta saber somar, diminuir e fazer cumprir, cegamente, essas contas) do que demonstrar o êxito de um qualquer investimento público, cujos efeitos muitas vezes só se fazem sentir ao fim de vários anos. Salazar, na primeira fase da sua intervenção governativa, percebeu--o e, ao fim de apenas um ano, através de cortes brutais, conseguiu que as contas do Estado tivessem saldo positivo. Esse suposto "milagre económico" deu-lhe a veneração de quem viu ali alguma coisa que, no meio de um clássico caos governativo, corrupto, tinha sentido lógico. Que o País estivesse na miséria já era coisa secundária.

Olhamos para o caos deste tempo e Gaspar aparece como aquele que não cede, que aplica as contas sem vacilar, que mantém o sentido lógico de uma política simplória, é verdade, mas que se percebe. Se lhe passar pela cabeça decidir conquistar o poder total, está a construir o caminho. Que essa política coloque, mesmo contra as suas boas intenções, o País na miséria, arrisca-se, para muitos, a ser coisa irrelevante. Isso é perigoso.

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MensagemAssunto: Um pequeno fogo   Ter Mar 06, 2012 1:12 pm

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Um pequeno fogo

por ADRIANO MOREIRA
Hoje


Em 16 de janeiro de 1969, o facto mais importante e significativo para a história da Europa não foi talvez a primeira ligação de duas naves espaciais habitadas, acompanhado do anúncio soviético do programa Vénus, antes foi um sacrifício humano que alimentou a vontade eficaz de libertar o povo checo do domínio da URSS.

Nesse dia, o estudante Jan Palach imolou-se pelo fogo, depois da liquidação do movimento que foi chamado a "Primavera de Praga", na Praça Wenzel, tudo esperando pela depois chamada Revolução de Veludo para que, em 1989, Václav Havel pudesse consagrá-lo como herói nacional, dando o seu nome a uma praça da capital da nova república.

Em dezembro de 2010, um infeliz e anónimo súbdito da Tunísia, que um dia será lembrado, igualmente se imolou pelo fogo, dando força a um movimento que colocou um ponto final no regime de Zine el-Abidine Ben Ali, seguido da queda de Moubarak e do turbilhão que logo foi chamado "Primavera Árabe", que mostra querer reformular a estrutura política da região, embora nada ainda permita concluir que a semântica usada para definir o futuro da região tenha o significado ocidental.

A aproximação de ambos os martírios, por igual lembrados por analistas como marco da queda de um regime opressor, também por igual não iluminam sobre qual será o futuro do movimento que já conta com violentas intervenções militares ocidentais, e um numeroso contributo de vítimas das populações civis.

Alguém ligou ambos os acontecimentos à imprevisibilidade dos efeitos do pequeno fósforo com que foram iniciados os sacrifícios, pensando possivelmente na imagem com que os povos foram advertidos de que o bater de asas de uma borboleta poderia desencadear um tufão.

É mais fácil tentar identificar e enumerar as causas que levaram à circunstância explosiva iluminada pelo excecional sacrifício humano de protesto contra a violência do tempo em que a esses mártires aconteceu viver, do que prognosticar sobre o futuro posto em marcha.

Não pode ser ignorado, por exemplo, que na década de oitenta do século passado se verificou a guerra do Afeganistão contra a invasão soviética, que viria a articular-se com a intervenção brutal da Al- -Qaeda e dos Talibãs, nem a invasão do Ko-weit por Sadam Hussain em 1990, que levou à primeira guerra do Golfo em 1991, e à segunda infeliz intervenção americana do republicano Bush, tudo levando ao reforço do enganado sentimento ocidental de conseguir resultados superiores aos desastres das populações civis.

Entre as ameaças mais preocupantes, tudo conduziu ao atual reforço do Irão, que já não esconde que considera próxima a posse das armas atómicas, nem dá mostras de inquietação com as ameaças latentes e as medidas efetivas tomadas contra a indiferença com que encara os alinhamentos que contrariam os seus objetivos e políticas.

A impotência da revolta da população da Síria contra o regime que vai agravando os crimes contra a humanidade parece contribuir para fortalecer o descaso para a ameaça de que os ocidentais passarão das palavras aos factos. De tudo resulta a certeza de que é uma visão distante dos factos a que leva a União Europeia a colocar antes de tudo a crise financeira, e restauração do sistema que a enquadra, sem acrescentar um olhar prevenido, e ativo, sobre a circunstância, que cresce de risco, que lhe desafia a segurança e prosperidade, sem responsabilidade de nenhuma instância particularmente autorizada e decidida a organizar a forma de enfrentar a perigosa evolução dos factos.

Aprofundar as divisões da União entre povos europeus ricos e pobres, assumir a arrogância de opinar sobre populações que evidentemente a chanceler alemã não conhece, como se passa com a Madeira, tudo podem ser apenas sinais de uma perceção mal orientada do projeto europeu. Mas nada justifica não relacionar a unidade indispensável com os riscos exteriores não avaliados.

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RMaria

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MensagemAssunto: Ao vivo e a cores   Sex Mar 09, 2012 5:16 pm

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Ao vivo e a cores

por FERNANDA CÂNCIO
Hoje


É oficial: bastaram oito meses para o Governo passos entrar na fase horribilis. À guerra aberta com o PR (e vice-versa), junta-se a guerra intestina, com relatos de conselhos de ministros nos jornais, frases cortantes de Gaspar para Álvaro, e ataques de nervos deste perante o desmantelamento da sua tutela, num expressivo desenho da descoordenação governamental e da ausência de uma autoridade central e aglutinadora por parte de quem tem de a ter - o PM.

Já devíamos, pois, estar preparados para o espetáculo servido esta semana sobre o caso Lusoponte, com Passos a evidenciar a sua falta de preparação e de pulso ao admitir nada saber do assunto no debate quinzenal para, a seguir, e face à insistência do BE, afirmar uma falsidade prontamente desmentida por um seu secretário de Estado nessa mesma tarde. Secretário de Estado que por sua vez teve de se desmultiplicar em explicações cada vez mais confusas quando colocado perante a evidência de que fora alertado, pela Estradas de Portugal, para o duplo pagamento à empresa e de que a própria Lusoponte considerava ser impossível, face ao contrato existente, o Estado fugir à entrega da indemnização correspondente à não cobrança de portagens mesmo que estas fossem cobradas (interpretação que o secretário de Estado acompanhou, ordenando à Estradas de Portugal que devolvesse o valor das portagens à Lusoponte).

Diz o secretário de Estado que o dinheiro arrecadado pela Lusoponte reverterá para o Estado no "acerto de contas" com a empresa que vai ter lugar no final deste mês. Pode ser assim, claro, e o Estado, ou seja nós todos, pode não ficar prejudicado financeiramente por esta baralhada (se, bem entendido, e para começar, os juros correspondentes ao valor que a Lusoponte meteu ao bolso todos estes meses reverterem para o erário público, facto sobre o qual até agora moita), mas a imagem do Governo ficou (ainda mais) irremediavelmente comprometida.

Temos um Governo que todos os dias fala em dar o exemplo e em "fazer em vez de anunciar" mas cujo exemplo, vertido neste caso, é o do mais óbvio intuito propagandístico aliado às mais lamentáveis incompetência, falta de rigor e de transparência; um Governo que ao constatar (isto na melhor das hipóteses) ter metido a pata na poça em relação ao caso das portagens tentou e tenta disfarçar o facto, em vez de assumir que quando tomou a decisão não acautelou a existência de um contrato que o obrigava (ainda de acordo com a sua interpretação) a pagar a indemnização e que está a tentar emendar o disparate. Um Governo que passa a vida a exigir sacrifício, responsabilidade e estoicismo e a propalar as virtudes da verdade, mas cujo primeiro-ministro, apanhado numa mentira no Parlamento, ainda não considerou necessário retirar disso as necessárias consequências.

Parafraseando um alegado dito de Gaspar a Santos Pereira num Conselho de Ministros, qual destas palavras, "que bela caricatura", não percebeu?

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MensagemAssunto: O ódio e a política   Dom Mar 11, 2012 5:52 pm

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O ódio e a política

por PEDRO MARQUES LOPES
Hoje


1. Com que objectivo o sr. Presidente da República escreve aquele prefácio nos seus "Roteiros"? Para quê abrir feridas antigas que apenas servem para dividir mais os portugueses? Que tipo de incómodo ainda lhe provoca José Sócrates? Será que não sabe que José Sócrates e o antigo Governo já foram julgados pelo eleitorado? Desconhecerá que nas suas funções não estão incluídos julgamentos morais? Lealdade institucional? Será o sr. Presidente capaz de dizer que foi sempre leal com o antigo Governo? De que tipo de lealdade ou mesmo de dignidade estamos a falar quando se ataca alguém que está afastado da vida política e que não se pode defender? Que diria se o Presidente da República na altura em que deixou de ser primeiro-ministro o viesse julgar na praça pública? A que propósito um Presidente em plenas funções faz balanços sobre as qualidades pessoais ou políticas de antigos primeiros-ministros? Terá esquecido as suas funções, a sua dignidade institucional?

Não, não pode ser. Cavaco Silva não pode estar a transformar-se numa caricatura dos colunistas que ficaram sem assunto quando Sócrates desapareceu da vida pública e que subitamente deixaram de escrever ou falar sobre política para se dedicarem a assuntos "mais elevados".

Não, o Presidente da República não pode estar a pensar em concorrer com pasquins que descobriram que a simples menção do nome Sócrates lhes faz subir as vendas, mesmo que seja preciso mandar às malvas as mais básicas regras da decência e que confundem jornalismo com insídia e desprezo pelos mais simples direitos de personalidade.

Não, Cavaco Silva não pode estar a pensar que ao pôr em causa o antigo primeiro-ministro compra alguma simpatia do actual Governo, numa altura em que as relações entre Passos Coelho e ele estão tão debilitadas, para ser austero nas palavras, e em que é notório que as soluções advogadas pelos dois não podem ser mais díspares. Passos Coelho estará até a pensar nos "Roteiros" do Presidente quando deixar de ocupar São Bento...

Não, o Presidente da República não pode imaginar que tirando o esqueleto de Sócrates do armário faz esquecer episódios como o das pensões ou o das escutas. Nós até estávamos dispostos a esquecer esses dislates, mas era por propósitos bem mais altos e bem mais importantes.

Não, Cavaco Silva não pode estar a embarcar na nau dos infelizes que é capaz de culpar Sócrates pela chuva na eira ou pelo sol no nabal.

Não, não é possível que o nosso representante desça a esse nível.

Mas, afinal, que objectivo quis o Presidente da República atingir com aquele texto ressabiado a tresandar a ajuste de contas? Não servirá, de certeza absoluta, para gerar consensos e unir os portugueses; não servirá para dignificar o papel institucional da Presidência da República, que não se coaduna com queixinhas e ataques a pessoas que lideraram, bem ou mal, o País; não dará peso político e respeitabilidade a quem vai ter de liderar o processo político quando, infelizmente, a crise económica degenerar em crise política; não ajudará o Governo que precisará do Presidente para mediar conflitos entre os partidos e parceiros sociais. Bom, conseguiu unir o PS, que pela primeira vez em muito tempo aparece a falar a uma só voz, mas a única coisa, pelos vistos, que agora agrega os socialistas é a indignação contra Cavaco Silva.

Só há uma explicação, e bem humana, para mais um infeliz momento do Presidente da República: há quem não domine os ódios e os rancores pessoais.

Pensar que há apenas uma semana pedia, neste mesmo espaço, para que o Presidente não voltasse a desiludir...

2. O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público obteve o patrocínio de várias instituições financeiras para a realização do seu Congresso.

Francisco Proença de Carvalho, na sua página do Facebook, resumiu exemplarmente a situação e a sua gravidade. Escreveu o advogado: "Se o sindicato do Ministério Público lhe pedisse um patrocínio, recusava?"

Como disse João Palma ao Expresso sobre investigações que não deram em nada: pois...

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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MensagemAssunto: Quanto vale Cavaco?   Dom Mar 11, 2012 6:08 pm

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Quanto vale Cavaco?

por PAULO BALDAIA
Hoje


Cavaco Silva leva um ano de segundo mandato na Presidência da República. Começou com um Governo minoritário de José Sócrates e passou rapidamente para uma coligação maioritária liderada por Passos Coelho. Sobre o que pensa das relações com o actual primeiro-ministro (duram há oito meses) nada sabemos, mas sobre os quatro meses com o chefe do Governo anterior ficámos a saber tudo. É um ajuste de contas político que outros presidentes também fizeram, mas que surpreendeu por ser feito no exercício das funções.

Adiante. Sou dos que acreditam que as coisas valem sempre mais pela substância do que pela forma, mas não podemos ignorar que a forma escolhida por Cavaco para arrasar Sócrates pode condicionar fortemente a actuação do actual líder do PS e, por arrasto, o espaço de manobra do próprio Presidente da República. Cavaco Silva poderá ter tentado reencontrar a sua base de apoio natural (PSD e CDS), mas a única certeza que existe é que conseguiu unir o PS de Sócrates e o PS de Seguro, e isso afasta os socialistas de alguns consensos que é importante garantir para o sucesso de algumas reformas sectoriais.

O que se vem discutindo sobre as matérias referidas não é pouco, mas está longe de ser o essencial. Não tenho dúvida alguma de que Cavaco Silva sabia que para memória futura, do recente prefácio, iria sobrar apenas o arraso ao anterior primeiro-ministro e por isso tenho mais dificuldade em entender para que serviram essas passagens de um texto que valoriza a palavra de um Presidente a quem a história acabou por dar razão.

Todos os presidentes da República eleitos democraticamente utilizaram a "bomba atómica" e convocaram eleições antecipadas, o que mostra que o maior dos poderes que tem um chefe de Estado não os distingue no exercício do cargo. Quanto vale um presidente é mais facilmente avaliado pela sua capacidade de promover consensos, de ser o provedor do povo combatendo as prepotências dos governos maioritários, de ter uma boa leitura da situação do país e alertar para o perigo eminente.

Teria sido altamente vantajoso para todos que a leitura do texto de Cavaco Silva se tivesse concentrado nestas matérias, até porque aquele prefácio tem muita matéria para a discussão sobre os poderes do Presidente da República. O pior que nos pode acontecer é que a discussão se faça agora entre os que são contra Sócrates e os que são contra Cavaco.

Eu sou dos que pensam que Cavaco Silva tem, e teve, razão em muitos dos alertas que lançou e sei que o problema principal é das elites, jornalistas incluídos, que desvalorizam o que não lhes dá jeito ver com olhos de ver. E nunca, triste País, nunca há vontade de debater em tempo útil os erros crassos das diferentes governações.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico


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