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 Quando o drama é a vida real

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MensagemAssunto: Quando o drama é a vida real    Sab Ago 21, 2010 4:54 pm

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Quando o drama é a vida real

por SOFIA FONSECA
Hoje


Na televisão vêmo-los todos os dias a dar vida a dramas comuns: falta de trabalho, condições laborais precárias, dependências, ansiedade, frustração e até como lidar com a fama. O pior é quando um destes dramas se torna a vida real de um actor, não importa a idade ou o sexo

É a última oportunidade para José Carlos Pereira. Esta semana, o actor deu um concerto de despedida no Algarve, pôs um ponto final na sua participação na novela Mar de Paixão e retirou-se para, durante três meses, tratar-se de um "problema grave", no estrangeiro. "Ele já esteve dois anos de castigo", lembra uma colega, referindo-se ao tempo em que a estrela das novelas da TVI foi afastada de Baía das Mulheres e só voltou a trabalhar em Morangos com Açúcar. Aprendeu a lição, mas teve uma recaída e vai agora submeter-se a um "tratamento rigoroso". O drama também atinge os actores na vida real.

Quem anda diariamente nos corredores da Plural, a produtora que faz as novelas da TVI, garante que droga e álcool não são compatíveis com a representação. "É um trabalho tão violento que, se alguém se mete nisso, rebenta, não aguenta", comenta Isabel Medina. A actriz salienta que não é ingénua ao ponto de achar que os actores não usem drogas numa noitada, mas garante que "não faz parte do trabalho". Se há droga, ao pé de mim não passa. Quando estão fora do plateau não sei, mas lá nunca vi ninguém alterado", concorda Manuela Couto, que dirige o departamento de elencos da Plural.

Pelo que dizem, abusos não são permitidos. "Há um actor que costuma ir para a farra e que às vezes bebe; já o ameaçaram duas ou três vezes que não fará mais novelas", diz a fonte inicial. "É-se logo chamado, porque atrasam tudo no estúdio, os outros actores ficam aborrecidos, está-se a perder dinheiro", comenta, lembrando que matar a personagem ou mandá-la fazer uma viagem sem regresso são ameaças com que os responsáveis podem acenar e acenam.

Foi isso que fizeram a Glória Férias, que, em 2006, foi afastada de Dei-te Quase Tudo, da TVI, por causa da dependência de drogas. José Carlos Pereira antecipou-se e pediu ajuda à estação que lhe dá trabalho. "O que a TVI fez foi estar do lado de alguém que precisa de nós, numa situação em que decide assumir", comentou na época o director de programas, André Cerqueira, sem querer extrapolar a questão da droga no mundo da televisão.

"Não tem a ver com mundos, tem a ver com pessoas". Virgílio Castelo, consultor da SIC para a ficção, concorda. "Há muita droga no mundo ocidental", desvia. Mas lá admite que "seria ingénuo dizer que não existe". "Todos temos conhecimento de casos de pessoas que tiveram problemas destes ou parecidos", comenta, salientando a diferença entre casos públicos e casos publicados.

Virgílio Castelo recusa-se a usar o caso de José Carlos Pereira como um exemplo ou bandeira do que quer que seja. Já para António Pedro Cerdeira, amigo do actor, o problema dele é outro. "Vejo-o com a dependência de se portar mal." E quem o faz deixa de ter trabalho. O que também pode acontecer a quem protesta de mais ou levanta muitos problemas. "Riscam-nos logo", diz a fonte anónima. Ou a quem veio da comédia. Ou a quem já ultrapassou uma certa idade.

Que o diga Natalina José, 71 anos, que está sem trabalho há algum tempo. "Há algum tempo, é favor!", dispara. Não sabe é porquê. "É uma coisa que eu gostava de saber. Nenhum de nós, os que estamos arredados há muito tempo, percebe", diz. "Já fiz de filha, mãe, avó. Também posso fazer de bisavó", sugere.

A idade é um dos maiores entraves. "As histórias que se escrevem são centradas em personagens que têm entre 30 e 40 anos. Todos os outros que ficam de fora e que até há pouco tempo tinham trabalho estão com mais dificuldades", explica Virgílio Castelo. "Só entram dois ou três por novela. Há actores que foram estrelas e que agora estão na miséria", alerta Isabel Medina. Não é ainda o caso de Natalina José. "Temos de ser como a formiga", comenta, afirmando que deita a mão ao que houver. E, ultimamente, o que tem havido é um espectáculo de revista itinerante intitulado É Só Rir, ao lado de Octávio de Matos, outro que está afastado da televisão faz tempo. "Vai tapando buracos", afirma.

Mas a actriz não sabe se um dia não precisará de recorrer à família. "É uma coisa que detesto: deixar tudo e ir viver com a minha filha, mas, se isto continua assim, mais um tempo e terá de ser", lamenta. "Faço contas ao tostão", admite. Garante, apesar disso, que nunca desanima. Mas nem todos reagem da mesma forma.

António Pedro Cerdeira ainda só tem 40 anos e, apesar de ser presença assídua nas novelas da TVI, lembra que já penou com falta de trabalho, por volta de 2006. "Comecei a entrar numa onda de depressão, já não me apetecia sair de casa, só queria era dormir. Há uma fragilidade muito grande, julga-se que não se presta", lembra acerca desses tempos.

"Acabei por ter problemas financeiros", admite, dando graças ao fundo maneio que tinha. É que até trabalhos pontuais que tentou não ajudaram. "Ou não pagam ou demoram três meses a pagar", acusa. Manuela Couto, que não decide mas que está "metida neste jogo de dar emprego às pessoas", conhece "vários casos" de colegas em dificuldades. "Telefonam, pedem e... é muito complicado", comenta.

Natalina José, que está do outro lado, diz o mesmo. Mas salienta que ninguém tem razões de queixa em relação ao seu trabalho, até porque Aqui Não há Quem Viva, um dos últimos projectos em que participou, está actualmente em reposição no horário nobre da SIC. "Repetem e nós não ganhamos um tusto", lamenta. "Bem sei que nós assinamos um contrato em que cedemos os direitos de imagem...", acrescenta.

"O mundo das novelas é o mais violento, mas é o que dá de comer aos actores", resume Isabel Medina. No entanto, sem querer falar em valores, alerta que os salários praticados actualmente são menores do que no passado. Um alerta que Carla Bolito, da Plataforma dos Intermitentes, organismo que luta pelos direitos laborais dos actores, também faz. "Os cachês baixaram na ordem dos 15 por cento", concretiza. "Tem a ver com o aumento do número de produções. O orçamento para cada novela é menor", justifica Isabel Medina. Por isso, diz, RTP e SIC, que produzem menos, pagam melhor.

Os actores com contratos de exclusividade, casos de Alexandra Lencastre ou Margarida Marinho, são os mais bem pagos. Pelo menos, cinco mil euros mensais estão garantidos quando não estão a trabalhar, valor que duplica quando estão em alguma produção, apurou o DN. "Há actores que ganham realmente bem, que vendem, e isso tem de ser pago", comenta Manuela Couto. "São marcas", acrescenta Isabel Medina.

E, como tal, podem fazer certas exigências, como ter transporte para o estúdio a partir de casa (e não dos pontos de encontro pré- -definidos) ou ter um dia de descanso semanal além do fim-de-semana, como faz Margarida Marinho. Alexandra Lencastre não lhe segue o exemplo e vai-se mais abaixo.

"Os protagonistas estão lá de manhã à noite. É uma violência muito grande", confirma Isabel Medina. "Um actor pode ter uma carga horária de 12 horas se for protagonista", explica Manuela, que acha que a representação "é um óptimo escape" para os problemas reais. "Podem chorar, rir, gritar, dar um par de estalos...", ri--se. Uma regra que se aplica a todos, sem distinção.

Nos cachês já não é assim, pelo que um actor sem contrato de exclusividade mas com um papel importante e uma carreira já com provas dadas leva para casa cerca de três mil euros. Num escalão abaixo, os actores recebem entre 2000 e 2500, e noutro ainda mais baixo auferem 1200. Na base da tabela estão os jovens que se estreiam nos Morangos com Açúcar, que recebem 750 euros. Muito menos do que nas primeiras edições da novela juvenil, em que, apurou o DN, à excepção dos protagonistas, todos ganhavam cerca de 1500 euros.

"Comparando com o que eles ganham hoje, nós não ganhávamos mal", admite Diogo Valsassina, que integrou o elenco da segunda série de Morangos com Açúcar, já lá vão sete anos. Não revela quanto, mas garante que "chegava perfeitamente" para quem vivia em casa dos pais e só precisava do dinheiro para as suas "coisinhas".

"Ninguém ganha muito mal na televisão", comenta Manuela Couto. Também não quer concretizar valores, mas adianta que quem está a começar ganha acima do ordenado mínimo, e que há actores, os que vendem, "que ganham realmente bem".

Virgílio Castelo, que já trabalhou na NBP (actual Plural) e que agora lida com a SP Televisão (que faz as novelas da SIC), chama a atenção para a diferença que existe, necessariamente, entre um protagonista e um não protagonista. "Portugal deve ser dos países em que a diferença salarial é mais pequena", repara.

Mas a maioria dos actores já se dá por muito feliz por ter um salário. Isso significa que está a trabalhar. "Os actores têm de saber viver com duas coisas: a insegurança e a rejeição", alerta Virgílio Castelo, que se recusa a usar a palavra emprego quando fala daquilo que faz. "Não é uma profissão. É uma maneira de viver. É mais um sacerdócio que outra coisa qualquer", descreve.

Um sacerdócio sem vínculos contratuais, sem direito a baixa, subsídio de desemprego ou 13.º mês. "Trabalho há 36 anos e não sei o dia de amanhã. Não há garantias de nada", constata, sem queixumes. Porque, na sua opinião, isso é inerente ao ser actor. Mas há quem tente mudar as coisas (ver texto secundário), e Virgílio Castelo é um dos que defende mudanças.

Todos sabem que ser actor é assim mesmo, mas nem todos lidam tão bem com isso. "Não sei a quem é que me hei-de dirigir", assume Carlos Areia, sem trabalho e sem salário desde Outubro do ano passado, quando deixou de fazer rábulas no programa As Tardes da Júlia, da TVI. "Já tentei saber os contactos de quem tem poder de decisão. Já pedi a amigos para interferirem de alguma forma, mas não surtiu efeito. Tenho de mandar afiar a lança, porque devo estar a acertar no alvo errado", brinca, apesar de tudo, o actor com mais de 30 anos de carreira. "Se fosse empregado de balcão, saberia onde tinha de me dirigir, mas sou actor e não faço ideia", repete.

"Nunca pensei chegar aos 66 anos e ver-me confrontado com uma situação destas", comenta, admitindo que já falou com algumas pessoas que lhe deram negas. "Dizem que os projectos que têm neste momento não são para mim."

Sem vontade de rir, montou o espectáculo E Porque Não Te Ris?, em que sobe ao palco com a filha, a actriz Cristina Areia. "Pensava que teria uma representação por mês. Mas não. Se tive cinco este ano, é muito. As câmaras municipais não têm verbas para comprar os espectáculos", lamenta.

Por isso e porque prefere estar como está do que "andar armado em lambe-botas", já teve de pedir dinheiro emprestado aos amigos. Afinal, tem renda de casa, prestação do carro e contas para pagar. "Está tudo em dia", assegura. Mas não sabe quanto tempo aguentará se continuar sem trabalho. "Até tenho medo de fazer as contas", diz. E o pior é que não sabe porque está na prateleira. Acha que não se deve à polémica de ter uma namorada menor nem à sua própria idade. "Em qualquer projecto há papéis para miúdos de 20 ou para pessoas de 60", afirma.

É verdade. Só que a falta de trabalho também atinge os mais novos. Diogo Valsassina, que curiosamente fez de filho de Carlos Areia na segunda série de Morangos com Açúcar, em 2004, esteve um ano parado. Após o sucesso na novela juvenil, a mesma que lançou Cláudia Viera e Rita Pereira, o actor ainda fez Ilha dos Amores, mas depois deixou de receber propostas. Porquê? "Não faço a menor ideia", diz o jovem, agora com 23 anos. "Nos Morangos, dei tudo o que tinha e o que não tinha para aproveitar aquela oportunidade. Na Ilha dos Amores, percebi depois, poderia ter aproveitado a oportunidade de melhor forma, poderia ter-me dedicado mais e ter feito de outra maneira", admite.

Sem trabalho, quando surgiu a hipótese de experimentar a apresentação no programa Curto Circuito, da SIC Radical, não hesitou. "Achei que seria um desafio interessante. Tenho muitas saudades da representação, sei que vou voltar, mas foi mais uma forma de aprender muitas coisas e de crescer", avalia. Passou um ano e meio. E não teve convites para voltar a trabalhar como actor. "Saí da TVI e fui para a SIC. Era difícil surgir uma proposta da TVI. Agora as pessoas da SIC já começam a perceber se valho a pena", diz, com esperança de vir a ser chamado para um projecto de ficção da estação.

Ainda nos tempos de Francisco Penim, chegou a ser sondado para Floribella e Rebelde Way. "Achei que era muito similar aos Morangos, e não aceitei. Queria dar um passo à frente", conta. Se fosse agora, a história seria outra. "Daria prioridade à representação, com todo o respeito pelo pessoal do Curto Circuito".

A avó é a culpada desta paixão de Diogo Valsassina. Habituada a vê-lo a fazer teatrinhos em casa, decidiu inscrevê-lo e levá-lo a um casting no Teatro Vasco Santana, em Lisboa. Passou e integrou o elenco da novela Jardins Proibidos, protagonizada por Vera Kolodzig, ao mesmo tempo que estudava. Nos Morangos com Açúcar já não foi assim. "Tinha acabado de fazer 17 anos e de entrar no 12.º ano. Ainda tentei conciliar, mas revelou-se impossível", afirma, lembrando que foram os próprios pais que, ao vê-lo sair de casa às 6.00 e regressar às 21.00, lhe sugeriram fazer uma pausa na escola. "Eles sabiam que era uma coisa que eu queria muito", diz.

A novela tornou-se a sua escola. E os colegas os seus amigos. E os anónimos com quem se cruzava na rua os seus fãs. "Há uma experiência que nunca vou esquecer. Uma semana antes da estreia dos Morangos, fui a uma discoteca com um grupo de amigos e foi tranquilo. Na semana a seguir, já depois da estreia dos Morangos, fui a uma discoteca com o mesmo grupo de amigos e foi muito estranho: as pessoas reconheciam-me, falavam comigo", recorda.

Não estava preparado para tanta popularidade. Nem ele, nem a produção. Psicólogo não havia. Só houve aquando da morte do actor Francisco Adam, num acidente de carro. Mas havia sempre alguém que os alertava para os perigos da televisão.

"Vejo muitos pais doidos para que eles entrem nesta vida, mas eu alerto-os imenso, mesmo a produtora, os coordenadores de projecto... para não largarem os estudos. Os Morangos podem ser uma rampa de lançamento mas também uma descida ao inferno", alerta Isabel Medina, que integrou a terceira temporada da novela juvenil, em 2005, como mãe dos protagonistas.

"Eu não podia ir ao centro comercial. Não podia ir ao cinema. Imagine isto com os miúdos! Eles adoravam isso, mas a mim assustava-me um bocadinho porque sabia que uns não iam continuar", conta. "Sei de casos que tiveram depressões terríveis, que não queriam estudar, que se meteram na droga...", enumera.

As festas a que iam por diversão ou a que marcavam presença a troco de um belo cachê também levaram alguns a enveredar por maus caminhos ou a meter-se em problemas. Tiago Felizardo, por exemplo, teve de levar dezenas de pontos na cara quando foi agredido numa discoteca. "Faziam essas presenças para ganhar dinheiro, e eram aliciados para o álcool e para a droga. Não estavam preparados. Eram muito novos", alerta a actriz, lembrando que Mariana Monteiro, então em início de carreira, lhe chegou a confidenciar, "muito aflita", que lhe haviam oferecido drogas.

A actriz esteve incontactável, mas Diogo Valsassina confirma que lhe aconteceu o mesmo. "Abriram-se muitas portas. Para coisas boas e para coisas más", constata, realçando que fez questão de não entrar na última. Lembra-se que lhe perguntaram se queria ir "fumar qualquer coisa" ou "ir lá atrás", mas não se recorda de ninguém que, graças a isso, tenha vivido situações mais complicadas.

"Posso estar com os olhos muito fechados, mas acho que nunca me deparei com isso", confessa.

In DN

Embarassed Rolling Eyes

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