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 A Igreja Católica e sua relação com o mundo

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MensagemAssunto: A Igreja Católica e sua relação com o mundo   Seg Abr 19, 2010 12:28 pm

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E eles não viveram sós para sempre

por FERNANDA CÂNCIO
Hoje


A partir de hoje, o DN publica uma série de trabalhos sobre temas que causam polémica entre os católicos e na relação da sua igreja com o mundo.

A maioria desses temas relaciona-se com a sexualidade, como é o caso do que hoje tratamos: a castidade e o celibato exigidos pelo Direito Canónico aos sacerdotes. Certificadas como garantia "de maior liberdade ao serviço de Deus e dos homens", estas normas são questionadas - e desrespeitadas - desde a sua instituição. Em Portugal, os mais de cem padres casados agrupados na associação Fraternitas contestam-nas. E dão testemunho da relação atormentada e pouco transparente do catolicismo com a sexualidade

"Quando estava em formação como padre, nunca questionei o celibato. Eu e os meus colegas assumíamo-lo como um dado adquirido e uma opção. Era o caminho que iria percorrer na vida, nunca se me colocou como problema." Ordenado padre em 1991, Manoel Pombal, 44 anos, deixou de exercer a função em 1998 por ter percebido que afinal o celibato não era o seu caminho. "Foi difícil tomar essa decisão, mas o mais dramático foi perceber que tinha de deixar de fazer aquilo que era a minha vocação."

Em termos eclesiásticos, o processo levou anos. "Tive três reuniões com o bispo e ele, claro, tentou dissuadir-me. Foi instaurado o processo e responderam-me em 2000, a dizer que como era muito novo [tinha 33 anos] só me concederiam a dispensa aos 40. Só então pude casar eclesialmente, quando já estava a baptizar a minha filha mais nova." O casamento civil deu-se mais cedo, mas, ao contrário do que era costume no passado, não foi alvo de excomunhão automática. "Isso deixou de existir. Os bispos perceberam que era um disparate fazê-lo. Mas houve uma ou duas pessoas da hierarquia que me sugeriram que, se não conseguia deixar de ter aquela relação, mantivesse tudo na mesma. Perante o que me parecia ser uma atitude de autenticidade da minha parte, isso - e as situações que conhecia de imensos padres a coabitar com mulheres ou a ter relações mais ou menos estruturadas com a hierarquia a fechar os olhos - custou-me muito."

Si non caste saltem caute: a frase latina significa "se não podes viver castamente, ao menos sê cauteloso" e é citada pelo açoriano Artur da Cunha Oliveira, 85 anos, formado em teologia e estudos bíblicos em Roma, ordenado padre em 1948 e casado desde 1983. "Foi-me dita pelo bispo de Angra de Heroísmo quando surgiu a denúncia de um padre que andaria, segundo os denunciantes, 'a meter-se com as mulheres dos outros'. O bispo já conhecia o caso e disse que já o tinha avisado." O padre Artur (ser dispensado não implica deixar de ser padre: de acordo com a doutrina o sacramento confere "carácter", é perpétuo), que afirma ter decidido abandonar o exercício por considerar que a pregação a que assistia era "vazia, sem reflexão" e não por querer casar-se, faz uma pausa para o sorriso. "É o medo do escândalo..." Formado numa época em que o diálogo era ainda menos aberto, assegura que "não se falava de sexo no seminário". "A direcção espiritual recomendava-nos a sublimação. A outra recomendação era a de aceitar a polução nocturna como a coisa mais natural do mundo e, em caso de necessidade de alívio, a masturbação/provocação. Há quem pense que a masturbação é pecado, mas às tantas achei que era uma necessidade: fazia-o não pelo prazer, embora o aceitasse, mas para ficar sereno." Quanto ao desejo que assume ter sentido "de estar com uma mulher", reprimia-o. "Tinha uma defesa psicológica. Dizia a mim mesmo: 'Não há hipótese.' E pronto."

Presidente da assembleia geral da associação Fraternitas, fundada em 2002, Artur conta-se, como Manoel, entre os 102 padres casados que se uniram no movimento reconhecido pela Conferência Episcopal. Pugnam por uma alteração da regra e começam por questionar, para além do culto da aparência que negligencia - quando não disfarça activamente - a verdade, a "absolutamente incompreensível dualidade de critérios" que permite à hierarquia católica acolher padres anglicanos casados que se convertem e a quem é permitido exercer o sacerdócio, ou que permite que os sacerdotes do rito católico oriental possam ser casados (embora lhes seja impedido fazê-lo pós-ordenação e só os que mantêm o celibato possam ser bispos).

Uma incongruência que não choca Manuel Morujão, o secretário da Conferência Episcopal: "São circunstâncias diferentes. Uma coisa é alguém que aceitou ser sacerdote celibatário e deixa de ser celibatário, portanto deixa de exercer o seu ministério; outra é alguém de um rito cristão em que se permite casar, e que se converte. A pessoa não vai deixar a mulher e os filhos, não acha?" Quanto à motivação daquilo que frisa ser "uma disciplina" e não "um dogma", e que portanto se pode "pensar e discutir", considera que tem a ver com "uma maior liberdade" (é aliás o que diz o cânone 277, que obriga ao celibato) e com "uma maior identificação com Cristo".

A possibilidade de este ter sido casado não se lhe coloca. "Se tivesse sido assim, saberíamos. É um dado tão fundamental que não poderia ter ficado de lado, uma ideia original que nunca encontrei em biblistas sérios." Manoel discorda. "Tenta-se encontrar fundamentos para uma coisa que está resolvida em vez do contrário. As vocações do celibato e do sacerdócio são diferentes e não sabemos se Jesus era ou não celibatário. Mas teria certamente a sua sexualidade resolvida. A Igreja Católica tem de aceitar a sexualidade como o bem fantástico que é em vez de a tratar como algo sujo. Resolver essa questão é muito importante para termos uma hierarquia com uma estrutura diferente. Não é, como muitos dizem, por causa do número dos padres: isso é uma falsa questão. Não é um problema de quantidade, mas de qualidade."

In DN


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